Bang Bang, parte 02

[continuação de ontem]

Parámos o carro à saída da estrada, num carreiro que levava ao alto da colina. Eu levava uma máquina fotográfica pendurada ao pescoço. Ela levava o revólver numa mochila que carregava às costas. Para todos os efeitos éramos turistas portugueses a apreciar as belas paisagens crepitantes da Andaluzia.
Vimos a casa ao longe. Caminhámos. Fotografei duas águias, que podiam ser milhafres. Fotografei umas árvores solitárias que pareciam mortas. Fotografei a casa. A casa era habitada. Parecia deserta, no momento. Mas era uma casa habitada. Não havia sinais de pessoas. Não havia sinais de cães. Aproximámo-nos da casa. Parecia não haver câmaras. Nem alarme. Mas podíamos não estar a ver bem.
Contornámos a casa e saltámos o muro do outro lado. Havia sinais de haver lá um cão, ou dois. Mas não o víamos. Havia uma piscina de plástico pequena. Daquelas mesmo para crianças. A água estava suja. Também havia um baloiço feito com um pneu de camião pendurado numa árvore.
Demos a volta à casa dentro do quintal à procura de um ponto de entrada. As janelas estavam fechadas. As portas das varandas também. Parti um pequeno vidro da porta das traseiras e abri-a. Parámos à entrada, à escuta. E não escutámos nada. Só a cantoria das cigarras na rua. Entrámos. Entrámos pela cozinha. Havia louça lavada, já seca, no escorredor do lava-louças. Olhámos em volta. Abrimos e fechámos gavetas e portas dos armários. Percorremos o corredor. Ao fundo uma sala. Televisão. Gira-discos. A capa de um álbum de Julio Iglesias sobre o gira-discos. Um recreio para bebé com alguns brinquedos em plástico. Olhámos em volta. Ela viu uma garrafa de Ballantine’s e colocou-a na mochila. Voltámos atrás, no corredor, e subimos ao primeiro andar. Entrámos no primeiro quarto. Quarto de casal. Abrimos as gavetas das mesas-de-cabeceiras, do tocador, de um pequeno móvel. Ela abriu a primeira gaveta de um pequeno móvel. A gaveta tinha roupa íntima de senhora. Cuecas de algodão. Alguma lingerie. Sutiãs. Encostado à lateral da gaveta, um envelope. Ela abriu o envelope e deu um pequeno grito. Um grito histérico. O meu coração quase que me saiu pela boca. Olhei para ela como se lhe perguntasse O que foi? e ela mostrou-me o envelope. Fui ter com ela. Agarrei no envelope. Abri-o. Estava cheio de notas. Contei-as rapidamente. Quarenta mil pesetas. Quem é que tinha quarenta mil pesetas guardadas em casa juntamente com as cuecas?
Pus o envelope no bolso das calças e disse-lhe Vamos embora.
Já nem vimos mais nada da casa.
Descemos ao rés-do-chão. Virámos para a cozinha. Ela agarrou em duas bananas e saímos para o quintal. Saltámos o muro, contornámos a casa e regressámos ao carro em passo de corrida, muito excitados com tudo aquilo, o termos entrado numa casa desconhecida e termos encontrado o envelope cheio de dinheiro.
Chegámos ao carro. Ela deu um berro de alegria e abraçou-me, enfiou a língua na minha orelha e disse Come-me agora aqui, foda-se! E eu afastei-a e disse Não! Temos de ir embora. Liguei o carro e voltámos à estrada.
Já estávamos na estrada quando ela disse Olha! e eu olhei e vi uma nuvem de pó a subir a estrada de macadame em direcção à casa. Gritei. Gritei alto. Bati com as mãos no volante de excitação. Libertei toda a adrenalina. Ela pulava no banco ao lado. Abria o envelope e dizia Estamos ricos! Estamos ricos!
Não, não estávamos ricos. Mas tínhamos algum dinheiro para os próximos tempos e podíamos pagar um quarto de hotel em Torremolinos. E sorri. Ela perguntou-me O que foi? e eu disse Vamos para Torremolinos.
Ela descascou uma banana e deu-ma a comer. Depois descascou a outra e comeu-a ela.
Fizemos o resto da estrada até Torremolinos com o rádio do carro em silêncio, só com o barulho do vento a entrar pelas janelas abertas do Peugeot. Fizemos algumas paragens em Estações de Serviço para ela mijar. Comemos uns bocadillos com lomo. Bebemos uns tintos de verano. Fumámos um maço de cigarros.
Quando chegámos a Torremolinos, ela disse Vamos dar um mergulho. E antes de ir arranjar um quarto de hotel, parámos o carro. Vestimos os fatos de banho. Ela entrou num quiosque para comprar uma cama de borracha e fomos para o mar que parecia um rio. Calmo. Suave. Simpático. E morno. Eu mergulhei. Ela deitou-se em cima da cama de borracha e deixou-se andar ao sabor das ondas. Eu mergulhava à volta dela.
Olhei para a praia e reparei nas pessoas que arrumavam as coisas para ir embora. Era fim de dia. Apontei o dedo, como uma pistola, e disparei sobre uma dessas pessoas, Bang Bang. Depois reparei na areia escura da praia e pensei Esta areia é de alfarroba?

[continua amanhã]

Melancolia

Forço-me a sair de casa.
Não posso estar sempre deitado na cama. Preciso de me mexer. Mexer o corpo. Sentir o sol sobre mim. Ver claridade. Respirar o CO2 dos automóveis em despique.
Saio de casa com as mão nos bolsos. Os ombros descaídos. Está um dia claro de sol amarelo, nem quente nem frio. Algumas nuvens. Uma ligeira aragem. Um dia sem história.
Caminho.
Caminho ao longo do passeio. Circulo perdido pela cidade. Vou onde me levam os passos. Os meus pés numas All Star rotas, todas escavacadas, sapatilhas que já calcorrearam mundo, mas confortáveis. Espero que não chova. As calças de ganga caem sobre as sapatilhas e prendem-se debaixo do rasto. Rasgam-se. Vejo um fio da ganga a bailar com os meus passos, perdido que estou pelas ruas da cidade.
Caminho.
Caminho até ao rio. Sento-me num banco de madeira a olhar o rio frio que está parado no seu leito. Uns miúdos brincam no muro mais à frente. Um deles cai. Cai ao rio. Devia ir ajudar. Talvez mergulhar no rio. Talvez telefonar à polícia. Talvez telefonar aos bombeiros. Talvez ligar ao cento e doze. Mas não o faço. Não consigo fazer. Nem coloco a mão no bolso das calças à procura do telemóvel. Nem me levanto do banco, excitado, nervoso, curioso com o sucedido. Deixo-me ficar sentado. Suspiro sem grande força. O olhar perdido na direcção dos outros miúdos que chegam com um agente da polícia. E eu olho. Limito-me a olhar. Depois deixo cair o olhar no chão. Levanto-me.
Caminho.
Caminho de novo com as mãos nos bolsos. De novo os ombros descaídos. Os pés arrastam-se pelo macadame e puxam o meu corpo quase-morto. Deixo o miúdo caído ao rio nas mãos do polícia. Dos amigos. Do socorro que o polícia há-de providenciar. Deixo tudo lá para trás. Para trás de mim. Devia ter trazido o iPod. Devia estar a ouvir música. Os ouvidos mudos à cidade. Mas não me apetece. Não me apetece ouvir música. Quero silêncio. Quero vazio. Quero nada. Não quero o iPod.
Acendo um cigarro. Os patos cruzam o macadame a caminho do rio. Um miúdo passa a correr e, rápido, apanha um dos patos e foge com ele a grasnar debaixo do braço. Eu viro-me. Vejo-o desaparecer entre as árvores que acompanham o rio. Vejo-o desaparecer e deixar de existir. Aconteceu o que eu julgo que vi? Ou não aconteceu nada? Nem eu vi nada? Passou por aqui um miúdo? Ou não? Mas continuo. Continuo em frente. Não sei para onde vou.
Caminho.
Só caminho em frente. Vejo as folhas a cair das árvores. Ouço o barulho que faço ao pisá-las. É mesmo uma manhã outonal.
O sol amarelo que clareava o dia acabou por se ir, envergonhado. O céu ficou cinzento. Levantou-se um ligeiro vento. Caiu o frio. Estou sem casaco. Mas vou continuar em frente.
Queria regressar a casa. À cama. Ao conforto da minha cama.
Ultrapasso uma velhota que treme no seu passo inseguro apoiada a uma bengala. Penso que não vai chegar ao seu destino. Afasto-me, devagar. Mas o meu devagar é muito rápido para a velhota. Ouço um barulho seco atrás de mim. Imagino que a velha caiu. Mas não me viro. Não me quero envolver.
Caminho em frente. E depois páro.
Não sei mais para onde ir. Os pés não se mexem. Posso virar à direita. Posso ir para a esquerda. Mas não tomo nenhuma decisão. Os meus pés não se mexem. O meu corpo não sugere. E então começa a chover. Primeiro uma pequena e leve borranha. Depois as gotas engrossam. E começa a chover copiosamente. Chove sobre mim. Mas eu não me mexo. Os meus pés parados. Os buracos nas All Star a deixar entrar a água fria. Sinto as meias a encharcar e os pés molhados. Suspiro de novo.
Já não caminho. Estou aqui. Não sei o que estou a fazer, mas parece-me que não estou a fazer nada. Estou só aqui porque não consigo não estar. Não me mexo. Não me apetece fazer nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/29]