Para um Diário da Quarentena (Oitavo Andamento)

Desde que começou esta crise com o coronavírus e eu me remeti a uma reclusão voluntária, que não difere em muito da minha vida habitual pré-covid-19, que decidi começar uma espécie de diário dos meus dias de clausura.
Ao fim de duas semanas, e precisei de tanto tempo para entender, percebi que os meus dias são sempre iguais, banais, de um minimalismo tão grande que parecem algumas das obras do Philip Glass, e concluí que afinal não tenho grandes coisas para contar a quem quer que seja.
Resta-lhes ficar como memórias destes dias. É claro que vou continuar a escrever sobre estes dias de confinamento. O que é que iria fazer se não estivesse aqui a escrever o que estou a escrever?
Os dias repetem-se. Ora faz sol, ora está a chover. Uns dias faz calor, outros faz frio. Por vezes levanto-me de manhã, faço café e vou bebê-lo para o alpendre enquanto olho as montanhas lá ao fundo (quando não estão cobertas pelo nevoeiro), outras vezes deixo-me ficar enfiado debaixo do edredão a cozer a depressão. Umas vezes sento-me à mesa da cozinha, frente ao computador, a trabalhar, outras vezes passeio-me pelo quintal sem conseguir fazer o que tenho de fazer. Às vezes almoço, às vezes não. Tem dias em que me sento no alpendre a ler as notícias nos jornais online, e tem dias em que me encosto à ombreira da porta e vejo a luz descer até ser noite. Às vezes apanho uma maçã da macieira, limpo-a às calças e como-a ali mesmo, outras vezes vou fumar um cigarro para a estrada na esperança vã de ver passar um carro, uma motorizada. Há dias em que dou uma volta pela aldeia e não me cruzo com ninguém, nem mesmo com o padre, e há dias em que me sento no sofá, ligo a televisão e fico a ver a CMTV até começar a enervar-me. nessa altura dou um murro na parede, faço sangue nas nozes dos dedos e tenho de tomar um Brufen para acalmar as dores. A CMTV puxa-me pela violência e por vezes, só às vezes, vejo-a para destilar um pouco da fúria que me acossa. Às vezes dá resultado. Mas só às vezes, não sempre.
Quando tenho paciência, por vezes faço um bom jantar, experimento receitas, invento misturas, quando não tenho paciência como um pão com manteiga, às vezes um pão de véspera, duro, mas só o torro quando consigo ir ao fundo de mim buscar um pouco de vontade, o que não acontece sempre e, na maior parte das vezes, acabo por comer o pão com manteiga assim, duro e seco, e fico embuchado.
Tem noites que me sento no sofá a fazer zapping até adormecer com o comando na mão, cair para o lado e acordar com um fio de baba a escorrer-me pelo canto da boca, mas tem noites em que me sento no alpendre, a ouvir os barulhos da bicharada nocturna e a fumar uma ganza. Às vezes vejo um filme, uma série. Às vezes leio um livro. Mas a cabeça foge-me e na maior parte das vezes o livro fica a meio, adormeço a meio do filme e não vejo o resto dos episódios da série.
Há dias em que o relato do número de mortos e de casos detectados me deixa triste e antecipo o apocalipse num futuro bem próximo. Outros dias o relato desses números deixa-me indiferente e então temo que me esteja a tornar num tipo insensível.
Às vezes não vejo as mensagens que recebo e não atendo as chamadas que me fazem. Deixo tocar o telemóvel até se calar e, depois, desligo-o. Outras vezes leio as mensagens e respondo-lhes, atendo o telefone e até gosto de falar com quem acabo por falar. Mas essas vezes são muito raras. Acontecem muito pouco e sem avisar.
Uma constante que acompanha todos os meus dias, os dias assim-assim e os dias assado é o copo de vinho. Ah, e também o cigarro. São duas as constantes que servem para todas as estações em todos os dias do ano. Esteja eu como estiver, ter um copo de vinho tinto numa mão e um cigarro aceso na outra faz parte de mim, tanto como respirar. E não sou esquisito, posso passar da Barca Velha à Adega Cooperativa da Batalha. Embora a minha carteira esteja bem mais para beber Adega Cooperativa da Batalha que outra coisa.
Os dias repetem-se. Iguais. Monótonos. Continuo sem álcool, sem máscaras e sem sabão azul e branco. Bebo vinho e fumo cigarros, às vezes ganzas. Se não mato o bicho de uma maneira, tento de outra. Não creio muito nas minhas hipóteses de me livrar dele com vinho tinto e cigarros mas, pelo menos, contento o espírito e dou-me alento à alma. Posso morrer mas vou satisfeito. Pelo menos um poucochinho satisfeito.

Para um Diário da Quarentena (Sétimo Andamento)

Não estava a fazer conta sair de casa. Levantei-me a meio da manhã, vesti umas calças de fato-de-treino, uma t-shirt, calcei os chinelos e fui para a cozinha espremer laranjas para um sumo. Fui para o alpendre beber o sumo e ler as notícias nos jornais online.
Nada de muito substancialmente diferente, nas notícias. As mesmas coisas mas com os números a aumentar constantemente.
Enquanto lia os números assustadores de mortos, e lia esses números com uma indiferença que já me era transmitida pelos jornais e pelos responsáveis que todos os dias actualizam os números em conferência de imprensa, carregando nos números para aliviar as pessoas, deixando que as pessoas se tornem números e, dessa forma, perderem um pouco da carga emocional que transportam, pensei que podia guisar o coelho que a vizinha, que mora duas casas mais abaixo, veio cá oferecer.
Tocou o telemóvel. Era a minha mãe. Olá, mãe!, disse. E ela começou Vens cá logo? Preciso de ovos e de sumos de manga para o pequeno-almoço. Já não tenho nenhuns. E sacos do lixo… Ah, e antes que me esqueça, preciso de álcool que já não tenho nada cá em casa. E eu respondi Oh mãe!, mas eu não posso ir ao supermercado dia sim, dia não, e senti-a em silêncio lá do outro lado. E continuei Está bem. Vou aí depois de almoço. E damos um passeio à volta do quarteirão. E alegre, ela respondeu Está bem.
E onde é que vou arranjar álcool? pensei.
Troquei os chinelos por umas sapatilhas. Vesti uma camisola. Fui a uma vizinha na aldeia e comprei uma dúzia de ovos. Passei na farmácia, mas não havia álcool. Passei na mercearia mas não havia sumos de manga. Voltei a casa para ir buscar o carro. Já não ia cozinhar o coelho. Levei-o para a minha mãe. Ela até gosta mais de coelho que eu.
Saí com o carro. Ainda tinha combustível. Passei no Pingo Doce. Estava fechado. Só abria mais tarde. Fui ao Lidl. Uma fila enorme. Mais à frente o Modelo-Continente. Aberto. Sem fila. Comprei dois packs de quatro garrafas pequenas de sumo de manga. Um rolo de sacos do lixo de trinta litros. Procurei álcool. Não havia. Lembrei-me do sabão azul e branco. Também não. Procurei luvas e máscaras. Nada.
Fui até casa da minha mãe. Antes de subir fui à pastelaria comprar-lhe pão fresco. Estava fechada. Novo horário. Este será o maior problema destes tempos. O conhecimento dos horários de funcionamento de lojas onde precisamos de ir porque cada uma funciona com o seu próprio horário.
É uma porra, é o que é!
Subi a casa dela. Estava na sala. Larguei as coisas na cozinha. Aspirei a casa. Depois passei uma esfregona molhada na cozinha e na casa-de-banho. Pedi-lhe para ir para a cozinha arrumar as coisas que já íamos sair e aspirei a sala.
Ficou muito contente com o coelho. Ficou triste pela falta de álcool.
Saímos. Descemos no mesmo elevador. Mas ela ia ao fundo. Eu mais próximo da porta. Eu é que ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto e fechado. Na rua começamos a andar ao longo do passeio. Não havia vivalma. Ela sentiu-se triste. E disse-me Eu sei que as pessoas estão em casa mas ver a cidade assim é diferente. Mesmo visto da varanda é diferente. É uma cidade muito triste.
Sim, era uma cidade muito triste. A cidade quase deserta. Quase vazia. Quase silenciosa. Irreal. Mais à frente vimos algumas pessoas. Ela conhecia algumas delas. Sorriu-lhes e cumprimentou alguns conhecidos à distância de um aceno com a mão, ou com um adeus. Andámos à velocidade dela. Distantes um do outro mas próximos o suficiente para ele conversar. Ela é que fazia a maior parte da despesa da conversa. Estava há muito tempo fechada. Precisa de ser ouvida. Ela falava. Eu ouvia. E respondia. Às vezes parava a ver uma montra. Eu dizia-lhe para ter cuidado e não se encostar. Demos a volta ao quarteirão e regressámos a casa dela. Levei-a a casa. Eu ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto ou fechado. Dissemos adeus. Pedi-lhe de novo, e a saber que não valia de nada pedir, para me ir dizendo o que precisava com antecedência para eu anotar tudo e tratar das coisas todas de uma vez. Ela disse que sim, claro. Como diz sempre. Mas acho que já nem se lembra com o que é que está a concordar. Levei o lixo dela para baixo.
Fui embora.
Ao despejar o saco de lixo no caixote, na rua, reparei que haviam luvas e máscaras espalhadas pelo chão. Perguntei-me de onde vinha aquilo. E porque raio estava espalhado pelo chão em vez de estar dentro de sacos dentro do caixote.
No carro, ainda parado, pensei que não tinha luvas, nem máscaras, muito pouco álcool e só um pequeno pedaço de sabão azul e branco. Não conseguia arranjar em lado nenhum. Também não ia de propósito à procura das coisas mas, em todo o lado que ia para comprar outras coisas, procurava e nunca havia. Via muita gente com estes produtos na rua. Se calhar açambarcaram logo no início. Se calhar têm tido sorte em apanhar as novas remessas. Eu não gosto de açambarcar coisas. Não encho jerricãs de combustível. Limitei-me a ter o depósito cheio. E só o enchi uma vez. Não comprei papel-higiénico. Não mais do que o que compro normalmente. Não comprei conservas para além das habituais. Não comprei álcool porque tinha uma garrafa em casa, e é com essa garrafa que me tenho desinfectado antes de entrar em casa da minha mãe e no regresso à minha. Quando tentei comprar máscaras e luvas, percebi que já era tarde. Não havia nem para os profissionais de saúde que estavam na linha da frente do combate e eles precisam mesmo destas protecções, haveria para mim? Mas via muitas pessoas na rua com máscaras.
Depois de chegar a casa, fui lavar as mãos. Despi-me. Tomei banho. Lavei a roupa que tinha utilizado. Depois cortei umas peças de fruta, uma laranja, uma maçã, uma pêra e um kiwi, era o que tinha em casa, despejei um iogurte numa tigela e coloquei a fruta em pedaços à volta. E fui para o alpendre comer. Hoje não via as montanhas. Não estava sol. O cão estava a dormir enrolado nele próprio e nem me ligou. Os gatos olharam-me à distância mas nenhum me veio incomodar. Comi sozinho no alpendre.
Chegaram umas mensagens ao telemóvel que não quis ler.
Deixei-me adormecer.
Acordei com frio e com um arrepio nas costas. O cão continuava no mesmo sítio. Agora também lá estavam os gatos. O telemóvel voltou a acusar a recepção de uma mensagem. Pus o telemóvel no bolso e entrei em casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/26]

A Vida Cá por Casa

Eu já não era o único a arrastar-me cá por casa. Agora era ela, também. Depois de nos levantarmos de manhã, depois de bebermos uma caneca de café de saco, eu, em fato-de-treino, sentava-me numa poltrona e ela, de roupão por cima da camisa de dormir, sentava-se na outra. Ligávamos a televisão e ouvíamos as notícias na CMTV. Estávamos em guerra. Estávamos em guerra contra um vírus e estávamos a perder essa guerra. Entrámos em angústia. A morte rondava-nos. Perto da hora do almoço eu carreguei no botão do comando e passamos para a SICN e sossegamos um pouco. A situação era má, mas não era desesperada como parecia.
Ao almoço aquecemos um resto de feijoada que ela tinha trazido de casa da mãe há umas semanas e tinha guardado no congelador. Havia um resto de arroz de cenoura da véspera e aquecemos tudo no micro-ondas. Acompanhámos com um copo de vinho de uma garrafa sem rótulo que ela também tinha trazido de casa da mãe. Era vinho do produtor. Uma zurrapa. Era boa para matar o bicho.
Eu já estava habituado àquela vida de andar por casa, a arrastar os chinelos do quarto para a sala, da sala para a casa-de-banho, da casa-de-banho para a cozinha, caneca de café na mão, um cigarro e um biscoito, uma vida de desempregado de longa-duração, já entrado numa idade em que se está morto para o mercado de trabalho que os mercados financeiros gostam é de gente novinha a quem possam chupar toda a energia. Eram as minhas manhãs. Umas a seguir à outras. Em repetição. Depois de aquecer algum resto perdido pelo frigorífico para almoçar, a tarde não fugia aos mesmos passos. Vestia umas calças e uma camisola. Ia até à rua. Bebia café. Às vezes um copo de vinho. Fumava uns cigarros. Arrancava uma maçã da árvore, limpava-a às calças e comia-a por ali mesmo, pelo quintal. Depois regressava à sala. Regressava à companhia da televisão. Via um ou outro programa da tarde, programas para donas-de-casa, mulheres da limpeza ou para velhos sedentários, e esperava que ela regressasse. E ela acabava sempre por regressar. Os meus dias eram assim e eu já estava habituado a eles.
Ela não. Ela não estava habituada a estar por casa. No início tentou copiar-me os ritmos, mas não tinha estofo para aquilo. O estar ali quieta, afundada no sofá a fumar cigarros, não era para ela. Esperava não ficar muito tempo por casa. Esperava que passasse a crise do Covid-19 e a vida retomasse o seu ritmo normal. Fosse lá o que o normal fosse. Bom, para ela, era sair de casa de manhã para ir trabalhar e só regressar ao final do dia. Olá amor, Olá, um beijo, um cigarro em conjunto e o jantar para os dois antes de ver um filme requentado no canal Hollywood.
Depois de uma manhã a arrastar-se pela sala, cozinha e casa-de-banho, depois de uma dieta de cafés e cigarros e o vinho ao almoço a acompanhar aquele resto de feijoada que tinha trazido de casa da mãe, ela precisava de agitação. Foi vestir o fato-de-treino colorido, resto dos anos noventa, e foi lavar o carro. Passou-lhe cera. Aspirou-o por dentro. Verificou o óleo. Pôs-lhe água no depósito do pára-brisas. E eu à janela, a fumar um cigarro e a pensar Era eu que devia estar a fazer aquilo, não era?, mas ela gostava. Ela gostava de fazer aquelas coisas. De estar ocupada. De não ter motivos para pegar num livro. Eu gostava de ter motivos para pegar num livro, mas a televisão punha-se sempre entre mim e o livro. E deixava-me ficar por lá, frente à televisão, a enfardar entretenimento em forma de conhecimento popular.
Depois de deixar o carro num brinco, ela entrou em casa e disse Vou dar uma volta. Vou caminhar. Queres vir?
Não me apetecia nada ir. Não percebia aquela loucura por caminhar em direcção a lado nenhum, sem outro objectivo que não o caminhar, mas sabia que, ao fazer-me a pergunta, já esperava que eu dissesse que sim, e era melhor dizer sim e evitar problemas.
E disse, Sim, vou contigo.
Ela ainda vestiu um colete amarelo-fluorescente por cima do fato-de-treino colorido. Era para se ver bem na estrada. Eu fui com o fato de treino azul escuro que já tinha vestido. Ela ia suficientemente colorida por nós os dois. Fui só calçar umas sapatilhas e partimos.
Ela caminhava depressa. Aquilo não era um passeio. Era uma prova de marcha. Em ritmo acelerado. Não sei se fazia bem a caminhada. Parece que tem de haver sempre uma planta dos pés no chão. Não sei muito bem como é que isso se processa, mas fui andando atrás dela. E ela levou-me por caminhos de terra batida que eu nem conhecia. Consegui que ela parasse um pouco ao pé do ribeiro. Ainda bebi um pouco de água. Ela avisou que a montante, havia uma cerâmica Há uma cerâmica lá mais em cima. Se calhar não é boa ideia beberes do rio. Mas já era tarde. Era melhor preparar-me para um desarranjo intestinal. E lá continuámos.
Acabámos por fazer uma volta enorme e voltar pelo outro lado da casa. Doíam-me as pernas. Eu vinha cansado. À chegada a casa, vi um dos gatos morto no meio da estrada. Atropelado. O gato tinha rebentado. Havia tripas espalhadas pelo asfalto. Encostei-me a uma árvore na berma da estrada e comecei a vomitar. Ela agarrou numa espécie de cajado e puxou os resto do gato para a berma.
Agarrou em mim e ajudou-me a ir para casa. Deixou-me na casa-de-banho e foi encher um balde para enxaguar a estrada. Tirou umas sapatilhas minhas de uma caixa e levou a caixa para colocar o resto do gato.
Quando regressou já eu tinha tomado banho e estava de fato-de-treino lavado a fumar um cigarro no alpendre à espera dela. Ela pegou-me no cigarro e deu duas passas. E disse Vou tomar um duche. Depois vou fazer uma salada para o jantar. E eu respondi Está bem.
Ela foi tomar banho e eu regressei à sala. Sentei-me no sofá e liguei a televisão. Estava a responsável da Direcção Geral de Saúde e a Ministra da Saúde a falar em directo. A fazer um ponto da situação da expansão do vírus. Comecei por ouvir. Acabei por adormecer.
Acordei quando ela me chamou e disse Anda! Anda, vá! Vamos comer uma salada.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/10]

Ordem Cósmica

Dia 02 do mês 02 do ano 2020. Não acredito muito em conjugações cósmicas nem cabalas para me dobrar o destino mas, há momentos em que parece que o mundo se une para me ser simpático e para me compensar, com alguma pequenas sortes, todos os azares com que tem pautado a minha vida aqui pela Terra. Hoje é um desses momentos.
Começou logo de manhãzinha. Acordei quando acordei e não fui despertado por nenhum despertador. Abri a janela do quarto e vi o sol em todo o seu esplendor, num belo céu azul, o que afastou para longe toda a neura que os últimos dias, cinzentos e de chuva, tem cultivado. Não queimei o café nem as torradas. O pão não caiu no chão com a manteiga para baixo. Não faltou gás durante o duche. Nem acabou o champô nem o sabonete. Já antes me tinha apercebido que não me iria faltar papel-higiénico por mais que eu o gastasse. A toalha com que me limpei, estava seca e limpa.
Tinha as cuecas lavadas. As meias agrupadas aos pares. As camisas passadas a ferro. As camisolas dobradas. As calças penduradas. Tinha toda a roupa disponível e a dificuldade foi só em escolher o que vestir para ir à rua.
Antes de sair fumei um cigarro à janela. Ainda tinha cigarros no maço e gasolina no isqueiro. Enquanto fumava o cigarro à janela pensava que o Benfica já tinha jogado há dois dias, portanto não havia a possibilidade de perder o jogo. Sorri.
Ia a sair de casa quando tocou o telemóvel que estava com a bateria carregada. Não me tinha esquecido de colocá-lo à carga na véspera. Era a minha mãe a convidar-me para almoço. Tinha feito feijoada. Aceitei logo. Não tinha nada para almoçar e há muito tempo que não comia uma feijoada à transmontana, cheia de couves, feita pela minha mãe.
Saí à rua e entrei na pastelaria do bairro. Pedi um café. Não estava queimado. Depois um favaios. Estava fresquinho. Apareceu um amigo de longa data. Alguém que já não via há anos. E pensei que, afinal, ainda tinha alguns amigos. Conhecidos, vá lá. Pedimos um Martini branco com uma pedra de gelo e um bocado de gin. Repetimos a dose. Ele pagou a despesa. A despesa toda.
Dei um passeio a pé pela cidade até casa da minha mãe. Não fui atropelado. Não tropecei nas pedras levantadas da calçada. Não caí nos buracos do asfalto.
A feijoada estava boa. Não é de admirar. A minha mãe tem boa mão para a cozinha. Repeti. Não me engasguei com nenhum osso nem a minha mãe com as couves – a minha mãe tem historial com engasgar-se com couves. Havia vinho para acompanhar a feijoada, que foi todo para mim. A minha mãe desculpou-se com o facto do corpo não lhe estar a pedir vinho e acompanhou a feijoada com um panaché que fez ao misturar uma mini com um bocado de Seven Up.
Depois do almoço a minha mãe foi fazer uma sesta. Eu também me sentia sonolento, mas não fui dormir. Levantei à mesa e lavei a louça. Não parti nenhum prato nem nenhum copo. Depois saí de casa sem fazer barulho.
Voltei a cruzar a cidade. Enquanto caminhava pensei que era Domingo. Não iria receber nenhuma carta com contas para pagar. Não iria receber nenhuma carta de nenhum advogado a reclamar a pensão de alimentos de nenhuma das minhas ex-mulheres. Não iria ouvir nenhum raspanete de nenhum chefe, director nem patrão.
Passei pelo jardim e não fui assaltado. Cruzei várias vezes a estrada e não fui abalroado por nenhuma trotineta. Encontrei uma nota de vinte euros perdida no passeio. Fui tirar tabaco a uma máquina e estava lá um maço. Precisamente a marca que eu fumo. Mas até poderia ser outra.
Passei ao lado de um estaleiro e não me caiu nenhum andaime em cima. Não me cruzei com nenhum credor nem ex-namorada zangada e maldisposta. Não levei com nenhuma cagadela dos pombos que invadiram a cidade.
Andei por ruas que não conhecia e não me perdi. Comprei castanhas na senhora das castanhas e contei três a mais que a dúzia que tinha pago.
Ao chegar a casa dei conta que tinha começado a chover na rua. Sentei-me no sofá. Liguei a televisão. Estava a dar um filme do 007. Fiquei a ver até adormecer. Quando acordei, fui comer uma maçã. Não tinha bicho. Lavei os dentes e não fiz sangue nas gengivas.
Deitei-me. E enquanto estava deitado, de barriga para cima a ver o rasgo de luz projectado do exterior pela janela mal fechada, pensei como o dia me tinha corrido bem. Não me tinha acontecido nenhuma desgraça.
Não acredito nas sorte e nos azares do destino. Mas este dia 02 do 02 de 2020 foi um dia muito simpático para comigo.
Às vezes penso que faço parte de uma certa ordem cósmica que me quer preservar para além dos problemas do dia-a-dia desta vida comezinha. Mesmo que não acredite em nada do que estou para aqui a dizer.
Amanhã já sei que vou torcer o tornozelo mal coloque o pé no chão ao sair da cama. Se calhar é melhor não me levantar.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/02]

Em Alcobaça Há Maçãs, Mercedes, Turistas e um Rei do Toys R Us

Alcobaça. Praça 25 de Abril. Frente ao Mosteiro. Estou na esplanada. Numa das esplanadas viradas para a fachada do Mosteiro. Nas escadas de acesso à entrada, Dom Pedro V, rei de coroa de plástico falsa, espada do Toys R Us e capa de cetim vermelha, estende a mão ao grupo de turistas asiáticos (devem ser de um só país, mas não sei qual) que o fotografam em inúmeras fotografias todas iguais.
É fim-de-dia. Ainda está sol. Está frio. Estou numa esplanada em frente à fachada a beber um café e quando levo a chávena aos lábios, o café está frio. Frio e queimado.
Na Praça 25 de Abril, na praça onde em certos fins-de-semana se vendem velharias como antiguidades, está uma mãe com uma criança pequena. A mãe agarra a pila da criança na mão e aponta para uma árvore. A criança mija como os cães, contra a árvore raquítica e despida como são todas, ou quase, neste Inverno onde começou realmente, agora, a fazer frio.
O sol começa a baixar rápido. As sombras começam a invadir a fachada do Mosteiro. O rei continua de mão estendida. Dois autocarro param no parque de estacionamento ao lado e os asiáticos enfiam-se, rápidos, lá dentro. Vão-se embora. O rei bate com os pés no chão de pedra das escadas. Tem frio, provavelmente. O rei não é um cão. O rei tem frio.
Um Mercedes pára na berma da estrada frente à esplanada. Estaciona onde não pode estacionar. Mas é um Mercedes. Os velhos, que perderam a vista para o Mosteiro, refilam. Mas refilam em voz baixa. Nunca se sabe quem sai de dentro de um Mercedes. E quando a porta se abre, sai lá de dentro o filho do dono do Mercedes. Os filhos são sempre mais desligados destas coisas que os pais. Os filhos já nasceram assim, donos da vida. Da vida deles e da vida dos outros. Que importa que não se possa estacionar ali onde se quer estacionar? Que importa que se tape a vista aos velhos? Não deviam estar no lar? No cemitério?
Estava no meu solilóquio quando estaciona outro Mercedes atrás do primeiro. Agora é uma carrinha. Duas senhoras. Meia-idade. Bem vestidas. Cabelo de cabeleireira. Casacos quentinhos. Carros elegantes. Há muitos Mercedes em Alcobaça.
Alcobaça também é uma zona de muita fruta. A Maçã de Alcobaça é bastante conhecida e apreciada em todo o lado. Mas é impossível de encontrar no Pingo Doce. Santos da casa não fazem milagres.
Já não há sol. O céu ainda está azul, mas já não há sol. Fecho o casaco. O frio está mais forte. O rei foi embora e nem dei por isso. Os asiáticos também. Nem vi os autocarros a partirem. A mãe e o filho que mijava nas árvores do 25 de Abril também desapareceram. Já não há ninguém na praça frente ao Mosteiro de Alcobaça. Há algumas pessoas nas esplanadas, senhoras de casacos-de-pele e homens de sobretudo. Alguns jovens de fato-de-treino e banho por tomar.
Olho à volta e espero que alguém me convide para uma Cornucópia no Alcoa. Não há ninguém. Onde estão todas as pessoas da minha vida?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/25]

Eu e Ela e a Índia

Tínhamos passado as férias de Natal daquele ano no alpendre de casa dos meus pais.
Enquanto toda a gente andava atarefada a comprar presentes e a preparar a noite de consoada e a fazer preparativos para a Passagem de Ano, eu e ela passávamos os dias inteiros no alpendre lá de casa a ler, a ouvir música e a conversar. Às vezes apareciam por lá alguns amigos e jogávamos ao Monopólio e ao King. A minha mãe fazia chá de menta que nos mantinha quentes e uns biscoitos de manteiga que nos aconchegavam o estômago. Ao mesmo tempo foram umas férias de provação. Nem eu nem ela fumávamos à frente dos meus pais e, estando toda a gente ali por casa durante aqueles dias, acabámos por estar as férias sem fumar um único cigarro, com excepção da noite de Passagem de Ano, que passámos sozinhos lá em casa, e quando fumámos um cigarro já passava da meia-noite, oficialmente já era outro ano, e foi para selar a primeira noite de sexo do novo ano.
Naquelas férias lemos bastantes livros. Eu andava obcecado com os livros do Harold Robbins e tinha convencido a minha mãe a mandar vir alguns deles através do Circulo de Leitores. Durante esses dias despachei Os Aventureiros, Uma Mulher Só e O Pregador. Ela lia outras coisas. A Campânula de Vidro da Sylvia Plath e O Fio da Navalha do Somerset Maugham. Ouvíamos muito Jam e Durutti Column. Falávamos dos livros que estávamos a ler. Falávamos mais que discutíamos porque só um de nós é que tinha lido o livro. Mas ouvíamos o outro com toda a atenção do mundo.
Às vezes eu parava de ler e olhava para ela, compenetrada na leitura, e via-lhe o cabelo longo, de um castanho escuro e brilhante, e lá no meio, quase escondidas, umas argolas enormes de prata que eu lhe tinha oferecido num aniversário e que lhe ficavam muito bem, davam-lhe um ar de cigana chique, uma espécie de Stevie Nicks, mais nova, mais bonita e muito mais lá de casa. Eu sentia-me um tipo com muita sorte.
Também conversávamos muito sobre as viagens que queríamos fazer num futuro não muito longínquo. Ainda nunca tínhamos ido a lado nenhum assim longe. Íamos muitas vezes ao Pedrogão, a São Pedro de Moel, até já tínhamos ido a Lisboa e uma vez ao Porto, mas nunca tínhamos ido assim para fora, em viagem, a conhecer o que não conhecíamos, a ver coisas novas, a aprender o que nos era novo. Mas tínhamos esse desejo. Então falávamos de quando acabássemos os cursos, quando arranjássemos bons empregos, empregos bem remunerados, e todas as viagens que iríamos fazer com o dinheiro dos nossos salários. Eu queria muito conhecer as Américas. A América do Sul e Central. Ela estava mais virada para a Índia. Queria conhecer o Rajastão. Concordámos que o melhor era irmos aos dois sítios. E era isso que pretendíamos fazer. Nesse final de ano ainda chegamos a comprar um Lonely Planet sobre a América do Sul. Folheávamos o livro à vez. Descobríamos países baratos. E cheios de história.
Depois passou o Natal, passou a Passagem de Ano, fumámos o nosso primeiro cigarro no ano novo depois de termos tido a primeira noite de amor no novo ano e as aulas estavam quase a começar.
E foi no primeiro dia de aulas que tudo aconteceu. Aliás, na manhã do primeiro dia de aulas o que levou a que não houvesse aulas nesse primeiro dia. Nem nos dias seguintes. Pelo menos para nós.
Eu tinha saído de casa a pé. Passei por casa dela. Ela não morava longe de mim, também não morava propriamente ali ao lado, mas ficava a caminho da escola.
Ela já estava à minha espera à entrada de casa. Demos um beijo. Demos as mãos. E fomos para a escola.
Estávamos já perto da escola, estávamos a chegar à passadeira onde cruzávamos a estrada para entrar na escola, ela estava já a parar ao pé da passadeira, estava a preparar-se para olhar para um lado e para o outro e ver se podíamos passar a estrada, naquela altura havia sempre muito trânsito com todos os pais que vinham trazer os filhos à escola, quando ouvimos um barulho, um barulho que se parecia com uma bomba a rebentar ali perto, e parámos, assustados, nervosos, a olhar para todos os lados para perceber o que estava a acontecer, quando surgiu um pneu, um pneu muito grande, um pneu de camião, a rolar sozinho pela estrada, galgou o passeio, voou, veio pelo ar e acabou por atingi-la em cheio na cabeça.
Ela tombou de imediato. Senti a mão dela a despegar-se da minha. Vi logo uma mancha de sangue a escorrer pelas pedras da calçada portuguesa. E o pneu continuava a sua caminhada durante mais algum tempo até acabar por se enfaixar na montra de uma livraria, um pouco mais abaixo, mas isso eu já não vi, foi-me contado depois porque, nesse momento, eu já estava debruçado sobre ela a tentar parar o sangue, a tentar acordá-la a fazê-la lembrar que tínhamos muitas viagens programadas para fazer e não podíamos fugir às nossas próprias combinações.
Acabou por chegar uma ambulância. Eu também fui. Também fui numa maca. Estava com sangue. Acharam que eu também tinha sido ferido. No hospital fui visto. Não tinha nada. Mas estava muito ansioso. Estive com uma psicóloga. Mais tarde soube que ela já tinha chegado sem vida ao hospital. Morrera durante o trajecto. Tinha levado uma grande pancada na cabeça com o pneu do camião.
Cinco anos mais tarde fiz a minha primeira viagem à Índia. Fui sozinho. Bem, sozinho, não. Fui com ela. Passeei pelo Rajastão. Passeei com ela pelo Rajastão. De cinco em cinco anos regresso à Índia. Sozinho. Sozinho com ela.
Hoje lembrei-me dela, e desta pequena história, porque se está a aproximar o dia de mais uma viagem à Índia. E eu nem era grande entusiasta da Índia. Mas passear por lá com ela, é outra história. Ela faz-me reparar em tudo o que eu não iria reparar, nas cores, nos cheiros, nas roupas das mulheres, nas caras marcadas dos homens que vou encontrando pelas ruas, na musicalidade da língua, mesmo quando falam em inglês. É ela que me tem guiado pelos caminhos de uma Índia que sempre quis conhecer. E todos os cinco anos lá vamos. Deixo tudo para trás e abalo. Eu e ela. Eu e ela na Índia.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/12]

O Móvel

Levei o móvel velho para junto dos caixotes de lixo. Esperava que os tipos da recolha o conseguissem levar. Talvez lhes desse jeito. Talvez servisse a alguém, agora que já não me serve a mim.
O móvel era dela. Ela foi embora. O móvel também.
Vejo o móvel cá de cima, da janela da sala. Gostava do móvel. Mas não o quero cá em casa.
Começou a chover. Uma chuva miudinha. O tempo escureceu de repente. Acho que a chuva virá aí com mais força. É pena o móvel estar lá em baixo, à chuva. Vai estragar-se. Mas não o vou buscar. Já o tirei de casa. Já não volta para cá.
Um homem aproxima-se do lixo. Olha para dentro dos caixotes. Tira um saco de plástico do bolso das calças e começa a enchê-lo com coisas que encontra dentro dos caixotes do lixo. Restos de comida, provavelmente.
Reparou no móvel. Abre as gavetas. Experimenta o peso. Acende um cigarro. Anda ali à volta do móvel. Está a apreciar. A avaliar. Tenta levantar o móvel. Tenta levantar o móvel com o cigarro a fumegar ao canto da boca. Não é pesado, deve ter pensado. Vai levá-lo.
Ficava contente se ele levasse o móvel. Gostava de saber que o móvel servia a alguém.
Vejo-o tirar mais sacos de plástico dos bolsos das calças. Com os sacos de plástico, prende as gavetas, umas às outras, através do puxadores. Depois dá mais umas voltas em torno do móvel.
O homem tira uma maçã do saco de plástico. Limpa-a à manga da camisa. Trinca-a. Senta-se no lancil do passeio a comer a maçã e a olhar para o móvel.
Eu acabo o cigarro. Vou à cozinha. Apago a beata na água da torneira do lava-loiças e mando-a para o lixo. Coço a cabeça. Sinto-me cansado. Começa a doer-me um dente. Apetecia-me ir ao cinema. Mas está a chover. Não vou sair de casa. Que importa o cinema? Vejo a novela na SIC. Passa-se na Nazaré. Talvez se veja o McNamara a surfar na Praia do Norte.
Tomo um Clonix. Tento parar a dor de dentes que se começa a fazer sentir demasiado.
Vou à despensa. Procuro vinho. O que há? Um Prado. O que é isto? Dão. Como é que veio aqui parar um Dão? Não gosto de me afastar do Alentejo, mas não sou esquisito. Venha o Prado.
Abro a garrafa. Sirvo um copo. Volto para a janela. O homem ainda anda lá em baixo. Está de volta das caixas de cartão. Encontra uma caixa grande. Desfaz a caixa. Abre o cartão, na sua totalidade, no chão. Puxa o móvel para cima do cartão. Faz um buraco no cartão. Enfia lá a mão e começa a puxar o cartão, com o móvel lá em cima, pela estrada fora. Vai devagar para que o móvel não saia do cartão. Sorrio.
Ainda bem que o móvel serve a alguém. Fico contente por ter contribuído.
Agora começa a chover com mais força. Coitado do homem.
Mas quando chegar a casa e mostrar o móvel à mulher, vai ter direito a festa. Sinto-me quase como uma alcoviteira.
Ainda não é noite mas o céu está bastante escuro. Acho que a chuva ainda vai piorar mais. Acho que vem aí um temporal. Espero que o homem chegue depressa e bem a casa.
Também me apetecia festa. Mas não consigo ser alcoviteira de mim mesmo. É pena. Uma festa ia bem. Ainda me dói o dente. Vou beber mais um copo de vinho Prado. Não é alentejano mas, não se pode ter tudo.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/21]

Dia de Sopa de Peixe

Hoje é dia de sopa de peixe no café da Avenida. Pensei em levantar-me. Gosto de sopa de peixe. Esta sopa tem muita farinha, cascas de camarão e delícias, e tenho de ter cuidado com as espinhas, mas gosto do sabor. Vem numa malga pequenina. Tenho de me curvar para comer a sopa. Se a sopa for muito líquida, salpico-me todo. Por isso até é bom a sopa ter farinha. Fica mais espessa. Quando me cai da colher não salpica tanto.
Depois como um rissol de peixe. Ou de camarão. Gosto dos dois. Às vezes só há de leitão. Não gosto dos rissóis de leitão. São muito fortes. Dão-me cabo do estômago.
Nos dias como os de hoje, se vou ao café da Avenida comer uma sopa de peixe, trago outra para o jantar. Eles põem a sopa numa pequena tigela de plástico. Tenho de ter cuidado quando a trago para casa. Já não é a primeira vez que perco metade da sopa. As tampas de plástico não vedam muito bem. À noite como a sopa. Depois como uma maçã ou uma fatia de melão e passo assim. Passo bem.
Mas hoje não me está a apetecer levantar. Está muito calor. Sinto-me dormente. Estou bem aqui deitado na cama. Em cima do lençol. O edredão puxado para os pés da cama. A janela aberta mas os estores meio fechados. Cortam-me a luminosidade e dão-me alguma frescura. Já bebi uma garrafa de litro e meio de água. Já a fui encher de novo na torneira.
Acho que não consigo levantar-me.
Há dias em que o corpo me puxa para a cama. Nem a sopa de peixe me consegue fazer levantar.
Tenho ainda dois pães de ontem. Uma lata de cavalas com tomate. Bem dividido dá para o almoço e jantar. E como uma fatia de melão ao almoço e uma maçã ao jantar. Pois.
Não me apetece ver televisão. Viro-me para o outro lado e vejo as sombras da rua a moverem-se ao longo da parede. Parece a televisão mas mais calma e sem gritaria. Eu também fico mais calmo.
Amanhã é dia de sopa de cozido no restaurante aqui debaixo de casa. Amanhã tenho de me levantar. A sopa de cozido é muito boa. Traz muita carne. Muitos legumes. Normalmente tiro a carne da sopa e ponho-a dentro de uma carcaça. Como a sopa e depois o pão com a carne. Gosto muito da sopa de cozido. Também gosto muito da sopa de peixe. Só é pena ter tanta farinha.
Hoje não me levanto. Mas amanhã tenho de me levantar. Preciso de fazer exercício. Preciso de me mexer. De andar. Preciso de ver pessoas. Preciso de respirar o ar da cidade. E ouvir barulho. Quero sentar-me numa mesa do café e ficar atento às conversas alheias. Ouvir as pessoas a conversar. Gosto de ouvir as pessoas a conversar. A dizer o que não se pode ouvir.
Mas hoje não. Não me apetece levantar. Nem pela sopa de peixe no café da Avenida. Como um bocado de cavala com tomate num pão. E fico bem assim. Não preciso de muito para ficar bem. Sim, fico bem.
Gosto de ver as sombras na parede. Às vezes preciso de as ouvir falar. Só para ouvir as vozes. O barulho. Mas só às vezes.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/04]

E Não Há Jantar?

Ela saiu de casa de manhã cedo para ir trabalhar. Quando ela saiu já eu estava na sala, sentado no sofá, a ver as notícias na televisão.
Quando ela regressou ao fim do dia, eu ainda estava sentado no sofá a ver um qualquer programa vespertino.
Ela levantou-se de manhã, tomou banho, vestiu-se, fez café, uma torrada, bebeu o café, comeu a torrada e ainda trincou uma maçã antes de lavar os dentes e ir embora trabalhar. Não sei se deu por eu estar na sala, sentado no sofá a ver as notícias. Saiu pela porta da cozinha. Ouvi a porta da rua a bater. Ouvi o motor do carro. E ouvi-o até deixar de o ouvir. E fui aos restos. Ainda havia um pouco de café quente. Bebi-o. Bebi-o directamente da cafeteira. Sem açúcar. Deixei cair umas gotas na t-shirt. Vi-as alastrar pelo algodão. De um pingo a uma mancha. Procurei um resto de torrada. Não havia. Não deixou restos. Só migalhas. Deixei-as onde estavam. Voltei ao sofá.
Vi televisão.
Passei pelas brasas.
Levantei-me para fumar um cigarro.
Lembrei-me que tinha alguma coisa para fazer, mas não me lembrava do quê.
Voltei a passar pelas brasas.
Quando ela regressou, ao fim da tarde, eu ainda estava sentado no sofá. Ela chegou a casa. Foi à casa-de-banho. Ouvi o mijo a pingar. O autoclismo. A torneira do lavatório. A porta da casa-de-banho a abrir. Senti-a chegar por trás de mim. Senti-a aproximar. Senti a cabeça dela a aproximar-se da minha. Senti um beijo na cabeça. E ouvi-a dizer Devias tomar banho! E lavar a cabeça! E senti-a afastar-se de novo.
E jantar? pensei, Não vais fazer o jantar?
Na televisão havia qualquer coisa sobre um sismo no Japão. E depois um tsunami. Não, afinal o tsunami podia vir mas ainda não tinha vindo. Era só um alerta. E o jantar? Não há jantar? Tenho fome.
Tentei ouvir os sons dela pela casa para ver se percebia alguma coisa do que se estava a passar.
Foi para o quarto. Tempo. Passos nus no corredor. Voltou à casa-de-banho. Porra, tanto chichi. Não! Afinal vai tomar banho. Porque raio está a tomar um banho a meio da tarde? Ainda não é de noite. Tomou um de manhã. Porque é que está a tomar banho? Vai sair?
Ouvi o duche a desligar. Senti a toalha a deslizar pelo corpo dela. A balança. O corpo dela a endireitar-se na balança. Vinha aí dizer-me que tinha de fazer dieta porque engordou uns gramas.
E ouvi a porta da casa-de-banho a abrir. Senti os passos dela na sala. Senti o cheiro do banho acabado de tomar. Senti-a baixar-se outra vez ao pé de mim. Senti o calor da sua cara. Do seu corpo. O calor do corpo limpo e doce do banho, e ouvi-a dizer-me Vou-me deitar. Estou muito cansada. Deu-me um beijo na cara e voltou a dizer Toma um banho.
E o jantar? Estou com fome. Não há jantar? pensei. Pensei com muita força para ela ouvir. Mas não ouviu. E foi deitar-se. E eu tinha de ir tomar banho. E doía-me o rabo de estar tanto tempo sentado no sofá. E fui para a janela fumar um cigarro. E ainda era de dia. Ainda se via o sol a morrer atrás dos telhados das casas. E eu não ia jantar. E estava com fome.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/18]

Ter Crédito no Telemóvel e Alguns Cigarros no Bolso

Eu vi o tipo caído no chão e não fiz nada. Passei ao lado. Desviei-me no passeio, mas não cheguei à estrada. Foi só um pequeno desvio para não o pisar. Mas também não me baixei para perguntar se era preciso alguma coisa.
Olhei para as outras pessoas que passavam por ele. Fizeram todos como eu. Passaram à volta. Não o ignoraram porque não podiam. Ele estava ali. No meio da passagem. No meio do caminho entre um sítio e outro que as pessoas têm de utilizar para cumprirem as suas obrigações, os seus rituais, as suas necessidades. Ele estava presente e não podia ser ignorado. Mas as pessoas passavam ao lado. Como eu.
Depois de tê-lo deixado lá para trás, parei. Parei e virei-me. Olhei lá para trás. Para ele. E chegou-me uma convulsão de choro. Lágrimas a caíram-me dos olhos e escorrerem céleres cara abaixo. Entraram pela boca. E estavam salgadas. Que porra!
Isto faz de mim uma pessoa má?
Eu sei que devia, que podia ter parado ao pé dele. Que podia ter-me baixado. Que podia ter-lhe perguntado se precisava de alguma coisa. Mas o que é que eu podia ter dado? O que é que eu podia dar? O que é que eu tinha que podia dar a quem quer que fosse?
Peguei no telemóvel e liguei para o cento e doze. Avisei que estava um homem caído no chão no meio da rua e desliguei.
Acendi um cigarro e fiquei ali à espera. O homem continuou caído no chão. Não sei se estava bêbado, drogado, morto ou a dormir. Mas não o vi mexer-se. Também não vi sangue. Talvez não estivesse ferido. Talvez fosse só uma queda. Talvez fosse só uma quebra de tensão. Mas também podia ser fome. Podia ser desespero.
Olhei para o meu cigarro e pensei que ainda tinha dinheiro para os cigarros. E ele?
Pensei numa coisa que ouvi um dia destes Ter algo em que acreditar! Como se pode ter algo em que acreditar quando não temos nada em que acreditar? Quando vemos que a vida nos passa ao lado? Que não percebemos como é que as pessoas agarram a vida se ela, a nós, a ele, a mim, nos escorre pelos dedos como a água do mar? Como se pode ter algo em que acreditar quando a barriga dá horas e temos de fazer ouvidos de mercador. Quando somos largados na rua porque não podemos pagar as rendas de casa feitas a pensar no turismo de airbnb. Quando nos dizem que não há dinheiro para pagar pensões, desemprego, calamidades e depois vemos… E depois vemos o que vemos à nossa volta que não em nós.
Há muito dinheiro a circular, neste mundo. Mas não é por aqui.
Porra!
Ouvi a sirene do INEM. Chegaram os paramédicos. Mexeram-lhe. Ele mexeu-se. Eles fizeram-lhe alguma coisa que não percebi o quê e meteram-no numa maca. Enfiaram a maca na carrinha. Vi a carrinha a desaparecer e o som da sirene a extinguir-se lá pelo meio da cidade agressiva e impessoal.
Virei-me para seguir o meu caminho e percebi que não tinha caminho. Eu não ia para lado nenhum. Não tinha nenhum sítio para onde ir.
Pensei que eu também não tinha nada em que acreditar porque era como aquele tipo ali caído sozinho no passeio. Só que eu ainda tinha algum crédito no telemóvel e uns cigarros no bolso. Mas é só. E até quando?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/11]