O Móvel

Levei o móvel velho para junto dos caixotes de lixo. Esperava que os tipos da recolha o conseguissem levar. Talvez lhes desse jeito. Talvez servisse a alguém, agora que já não me serve a mim.
O móvel era dela. Ela foi embora. O móvel também.
Vejo o móvel cá de cima, da janela da sala. Gostava do móvel. Mas não o quero cá em casa.
Começou a chover. Uma chuva miudinha. O tempo escureceu de repente. Acho que a chuva virá aí com mais força. É pena o móvel estar lá em baixo, à chuva. Vai estragar-se. Mas não o vou buscar. Já o tirei de casa. Já não volta para cá.
Um homem aproxima-se do lixo. Olha para dentro dos caixotes. Tira um saco de plástico do bolso das calças e começa a enchê-lo com coisas que encontra dentro dos caixotes do lixo. Restos de comida, provavelmente.
Reparou no móvel. Abre as gavetas. Experimenta o peso. Acende um cigarro. Anda ali à volta do móvel. Está a apreciar. A avaliar. Tenta levantar o móvel. Tenta levantar o móvel com o cigarro a fumegar ao canto da boca. Não é pesado, deve ter pensado. Vai levá-lo.
Ficava contente se ele levasse o móvel. Gostava de saber que o móvel servia a alguém.
Vejo-o tirar mais sacos de plástico dos bolsos das calças. Com os sacos de plástico, prende as gavetas, umas às outras, através do puxadores. Depois dá mais umas voltas em torno do móvel.
O homem tira uma maçã do saco de plástico. Limpa-a à manga da camisa. Trinca-a. Senta-se no lancil do passeio a comer a maçã e a olhar para o móvel.
Eu acabo o cigarro. Vou à cozinha. Apago a beata na água da torneira do lava-loiças e mando-a para o lixo. Coço a cabeça. Sinto-me cansado. Começa a doer-me um dente. Apetecia-me ir ao cinema. Mas está a chover. Não vou sair de casa. Que importa o cinema? Vejo a novela na SIC. Passa-se na Nazaré. Talvez se veja o McNamara a surfar na Praia do Norte.
Tomo um Clonix. Tento parar a dor de dentes que se começa a fazer sentir demasiado.
Vou à despensa. Procuro vinho. O que há? Um Prado. O que é isto? Dão. Como é que veio aqui parar um Dão? Não gosto de me afastar do Alentejo, mas não sou esquisito. Venha o Prado.
Abro a garrafa. Sirvo um copo. Volto para a janela. O homem ainda anda lá em baixo. Está de volta das caixas de cartão. Encontra uma caixa grande. Desfaz a caixa. Abre o cartão, na sua totalidade, no chão. Puxa o móvel para cima do cartão. Faz um buraco no cartão. Enfia lá a mão e começa a puxar o cartão, com o móvel lá em cima, pela estrada fora. Vai devagar para que o móvel não saia do cartão. Sorrio.
Ainda bem que o móvel serve a alguém. Fico contente por ter contribuído.
Agora começa a chover com mais força. Coitado do homem.
Mas quando chegar a casa e mostrar o móvel à mulher, vai ter direito a festa. Sinto-me quase como uma alcoviteira.
Ainda não é noite mas o céu está bastante escuro. Acho que a chuva ainda vai piorar mais. Acho que vem aí um temporal. Espero que o homem chegue depressa e bem a casa.
Também me apetecia festa. Mas não consigo ser alcoviteira de mim mesmo. É pena. Uma festa ia bem. Ainda me dói o dente. Vou beber mais um copo de vinho Prado. Não é alentejano mas, não se pode ter tudo.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/21]

Dia de Sopa de Peixe

Hoje é dia de sopa de peixe no café da Avenida. Pensei em levantar-me. Gosto de sopa de peixe. Esta sopa tem muita farinha, cascas de camarão e delícias, e tenho de ter cuidado com as espinhas, mas gosto do sabor. Vem numa malga pequenina. Tenho de me curvar para comer a sopa. Se a sopa for muito líquida, salpico-me todo. Por isso até é bom a sopa ter farinha. Fica mais espessa. Quando me cai da colher não salpica tanto.
Depois como um rissol de peixe. Ou de camarão. Gosto dos dois. Às vezes só há de leitão. Não gosto dos rissóis de leitão. São muito fortes. Dão-me cabo do estômago.
Nos dias como os de hoje, se vou ao café da Avenida comer uma sopa de peixe, trago outra para o jantar. Eles põem a sopa numa pequena tigela de plástico. Tenho de ter cuidado quando a trago para casa. Já não é a primeira vez que perco metade da sopa. As tampas de plástico não vedam muito bem. À noite como a sopa. Depois como uma maçã ou uma fatia de melão e passo assim. Passo bem.
Mas hoje não me está a apetecer levantar. Está muito calor. Sinto-me dormente. Estou bem aqui deitado na cama. Em cima do lençol. O edredão puxado para os pés da cama. A janela aberta mas os estores meio fechados. Cortam-me a luminosidade e dão-me alguma frescura. Já bebi uma garrafa de litro e meio de água. Já a fui encher de novo na torneira.
Acho que não consigo levantar-me.
Há dias em que o corpo me puxa para a cama. Nem a sopa de peixe me consegue fazer levantar.
Tenho ainda dois pães de ontem. Uma lata de cavalas com tomate. Bem dividido dá para o almoço e jantar. E como uma fatia de melão ao almoço e uma maçã ao jantar. Pois.
Não me apetece ver televisão. Viro-me para o outro lado e vejo as sombras da rua a moverem-se ao longo da parede. Parece a televisão mas mais clama e sem gritaria. Eu também fico mais calmo.
Amanhã é dia de sopa de cozido no restaurante aqui debaixo de casa. Amanhã tenho de me levantar. A sopa de cozido é muito boa. Traz muita carne. Muitos legumes. Normalmente tiro a carne da sopa e ponho-a dentro de uma carcaça. Como a sopa e depois o pão com a carne. Gosto muito da sopa de cozido. Também gosto muito da sopa de peixe. Só é pena ter tanta farinha.
Hoje não me levanto. Mas amanhã tenho de me levantar. Preciso de fazer exercício. Preciso de me mexer. De andar. Preciso de ver pessoas. Preciso de respirar o ar da cidade. E ouvir barulho. Quero sentar-me numa mesa do café e ficar atento às conversas alheias. Ouvir as pessoas a conversar. Gosto de ouvir as pessoas a conversar. A dizer o que não se pode ouvir.
Mas hoje não. Não me apetece levantar. Nem pela sopa de peixe no café da Avenida. Como um bocado de cavala com tomate num pão. E fico bem assim. Não preciso de muito para ficar bem. Sim, fico bem.
Gosto de ver as sombras na parede. Às vezes preciso de as ouvir falar. Só para ouvir as vozes. O barulho. Mas só às vezes.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/04]

E Não Há Jantar?

Ela saiu de casa de manhã cedo para ir trabalhar. Quando ela saiu já eu estava na sala, sentado no sofá, a ver as notícias na televisão.
Quando ela regressou ao fim do dia, eu ainda estava sentado no sofá a ver um qualquer programa vespertino.
Ela levantou-se de manhã, tomou banho, vestiu-se, fez café, uma torrada, bebeu o café, comeu a torrada e ainda trincou uma maçã antes de lavar os dentes e ir embora trabalhar. Não sei se deu por eu estar na sala, sentado no sofá a ver as notícias. Saiu pela porta da cozinha. Ouvi a porta da rua a bater. Ouvi o motor do carro. E ouvi-o até deixar de o ouvir. E fui aos restos. Ainda havia um pouco de café quente. Bebi-o. Bebi-o directamente da cafeteira. Sem açúcar. Deixei cair umas gotas na t-shirt. Vi-as alastrar pelo algodão. De um pingo a uma mancha. Procurei um resto de torrada. Não havia. Não deixou restos. Só migalhas. Deixei-as onde estavam. Voltei ao sofá.
Vi televisão.
Passei pelas brasas.
Levantei-me para fumar um cigarro.
Lembrei-me que tinha alguma coisa para fazer, mas não me lembrava do quê.
Voltei a passar pelas brasas.
Quando ela regressou, ao fim da tarde, eu ainda estava sentado no sofá. Ela chegou a casa. Foi à casa-de-banho. Ouvi o mijo a pingar. O autoclismo. A torneira do lavatório. A porta da casa-de-banho a abrir. Senti-a chegar por trás de mim. Senti-a aproximar. Senti a cabeça dela a aproximar-se da minha. Senti um beijo na cabeça. E ouvi-a dizer Devias tomar banho! E lavar a cabeça! E senti-a afastar-se de novo.
E jantar? pensei, Não vais fazer o jantar?
Na televisão havia qualquer coisa sobre um sismo no Japão. E depois um tsunami. Não, afinal o tsunami podia vir mas ainda não tinha vindo. Era só um alerta. E o jantar? Não há jantar? Tenho fome.
Tentei ouvir os sons dela pela casa para ver se percebia alguma coisa do que se estava a passar.
Foi para o quarto. Tempo. Passos nus no corredor. Voltou à casa-de-banho. Porra, tanto chichi. Não! Afinal vai tomar banho. Porque raio está a tomar um banho a meio da tarde? Ainda não é de noite. Tomou um de manhã. Porque é que está a tomar banho? Vai sair?
Ouvi o duche a desligar. Senti a toalha a deslizar pelo corpo dela. A balança. O corpo dela a endireitar-se na balança. Vinha aí dizer-me que tinha de fazer dieta porque engordou uns gramas.
E ouvi a porta da casa-de-banho a abrir. Senti os passos dela na sala. Senti o cheiro do banho acabado de tomar. Senti-a baixar-se outra vez ao pé de mim. Senti o calor da sua cara. Do seu corpo. O calor do corpo limpo e doce do banho, e ouvi-a dizer-me Vou-me deitar. Estou muito cansada. Deu-me um beijo na cara e voltou a dizer Toma um banho.
E o jantar? Estou com fome. Não há jantar? pensei. Pensei com muita força para ela ouvir. Mas não ouviu. E foi deitar-se. E eu tinha de ir tomar banho. E doía-me o rabo de estar tanto tempo sentado no sofá. E fui para a janela fumar um cigarro. E ainda era de dia. Ainda se via o sol a morrer atrás dos telhados das casas. E eu não ia jantar. E estava com fome.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/18]

Ter Crédito no Telemóvel e Alguns Cigarros no Bolso

Eu vi o tipo caído no chão e não fiz nada. Passei ao lado. Desviei-me no passeio, mas não cheguei à estrada. Foi só um pequeno desvio para não o pisar. Mas também não me baixei para perguntar se era preciso alguma coisa.
Olhei para as outras pessoas que passavam por ele. Fizeram todos como eu. Passaram à volta. Não o ignoraram porque não podiam. Ele estava ali. No meio da passagem. No meio do caminho entre um sítio e outro que as pessoas têm de utilizar para cumprirem as suas obrigações, os seus rituais, as suas necessidades. Ele estava presente e não podia ser ignorado. Mas as pessoas passavam ao lado. Como eu.
Depois de tê-lo deixado lá para trás, parei. Parei e virei-me. Olhei lá para trás. Para ele. E chegou-me uma convulsão de choro. Lágrimas a caíram-me dos olhos e escorrerem céleres cara abaixo. Entraram pela boca. E estavam salgadas. Que porra!
Isto faz de mim uma pessoa má?
Eu sei que devia, que podia ter parado ao pé dele. Que podia ter-me baixado. Que podia ter-lhe perguntado se precisava de alguma coisa. Mas o que é que eu podia ter dado? O que é que eu podia dar? O que é que eu tinha que podia dar a quem quer que fosse?
Peguei no telemóvel e liguei para o cento e doze. Avisei que estava um homem caído no chão no meio da rua e desliguei.
Acendi um cigarro e fiquei ali à espera. O homem continuou caído no chão. Não sei se estava bêbado, drogado, morto ou a dormir. Mas não o vi mexer-se. Também não vi sangue. Talvez não estivesse ferido. Talvez fosse só uma queda. Talvez fosse só uma quebra de tensão. Mas também podia ser fome. Podia ser desespero.
Olhei para o meu cigarro e pensei que ainda tinha dinheiro para os cigarros. E ele?
Pensei numa coisa que ouvi um dia destes Ter algo em que acreditar! Como se pode ter algo em que acreditar quando não temos nada em que acreditar? Quando vemos que a vida nos passa ao lado? Que não percebemos como é que as pessoas agarram a vida se ela, a nós, a ele, a mim, nos escorre pelos dedos como a água do mar? Como se pode ter algo em que acreditar quando a barriga dá horas e temos de fazer ouvidos de mercador. Quando somos largados na rua porque não podemos pagar as rendas de casa feitas a pensar no turismo de airbnb. Quando nos dizem que não há dinheiro para pagar pensões, desemprego, calamidades e depois vemos… E depois vemos o que vemos à nossa volta que não a nós.
Há muito dinheiro a circular, neste mundo. Mas não é por aqui.
Porra!
Ouvi a sirene do INEM. Chegaram os paramédicos. Mexeram-lhe. Ele mexeu-se. Eles fizeram-lhe alguma coisa que não percebi o quê e meteram-no numa maca. Enfiaram a maca na carrinha. Vi a carrinha a desaparecer e o som da sirene a extinguir-se lá pelo meio da cidade agressiva e impessoal.
Virei-me para seguir o meu caminho e percebi que não tinha caminho. Eu não ia para lado nenhum. Não tinha nenhum sítio para onde ir.
Pensei que eu também não tinha nada em que acreditar porque era como aquele tipo ali caído sozinho no passeio. Só que eu ainda tinha algum crédito no telemóvel e uns cigarros no bolso. Mas é só. E até quando?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/11]

A Mina

Ouvia o assobio, o Hey! soprado, alto, para o burro, e o burro a rodar à volta de uma espécie de nora a puxar, a puxar, a puxar a corda, o balde, o minério das profundezas da terra cá para cima, para a terra de Deus.
Lá em baixo, no Inferno, ouvia-se as picaretas a perfurarem as paredes do subsolo. As pás a apanharem os detritos, e tudo a tombar nos carros de metal que circulavam em linha de comboio miniatura, mas não de brincar, que levavam o minério, os detritos, tudo aquilo que tinha de ir embora do estômago da terra cá para cima, para a luz solar, fazer brilhar o seu dourado, o brilho do luxo nas costas de um burro, a toque de caixa de um chicote. Arre! Arre! Hey!
Não sei as horas. Lá em baixo é sempre noite. Não há janelas. Não vejo a luz do sol. Também não vejo a da Lua. Mas percebo-lhe o ambiente. A escuridão. A solidão. O ar é pouco. Pesado. Por vezes ganham-se vertigens. Embebedam-se com a falta de ar. Eu sinto-me levado. Para onde não estou. E esqueço que não estou lá. Sou sugestionado. Mas não estou lá. Percebo como é lá, com é estar lá, como é ser parte integrante de lá.
Vejo o balde a subir, puxado numa corda pelo burro, às voltas, à volta de uma espécie de nora, até lá acima. Os detritos. O lixo. O luxo.
Daquela vez dois acontecimentos tiveram lugar. Acontecimentos vulgares. Mas não em conjunto. Vulgares solitariamente. Daquele vez foi um a seguir ao outro. Primeiro o miúdo que tinha de apanhar o balde do poço, o balde que o burro puxava naquele seu ritmo cadente à volta de uma espécie de nora caiu dentro do poço. Desequilibrou-se e caiu ao fundo. Não conseguiu agarrar o balde. Não conseguiu agarrar-se ao balde. Não conseguiu agarrar-se à corda. Caiu. Até às profundezas do Inferno. Não sei em que parte do trajecto morreu. Nem como morreu. Nem se morreu na queda. Ou da queda. Já estava morto quando o encontraram. Pedaços dele. Do pouco que encontraram dele. Depois foi a explosão. Uma picareta perfurou uma bolsa de gás. Explodiu. A bolsa. A picareta. O homem da picareta. O túnel. O poço. A mina. Morreram vários homens. Não só o homem da picareta. Mas todos os outros que lá estavam. Morreram na explosão. Ou morreram no bloqueio provocado pela explosão. Ou morreram de fome e de sede presos dentro de túneis bloqueados pela queda das paredes que os sustentavam.
O burro continuava cá em cima. À espera das ordens. Arre! Arre! Hey! Estava parado. Depois viu o resto de uma maçã. Comeu uma maçã. Uma maçã encontrada ali pelo chão. Uma maçã tombada da lancheira de um qualquer trabalhador da mina. Talvez um dos mortos. Desmembrados. Desaparecidos.
Mais tarde vi uma ambulância parada na rua. Um homem. Duas miúdas novas. Olhavam a ambulância com nervosismo. Um paramédico saiu da ambulância e falou com o homem. As miúdas ouviram. Começaram a chorar. Uma delas caiu, sem forças, ao chão. A outra ajudou-a a levantar-se. O homem ficou petrificado. Sem reação. Alheado das miúdas a chorar.
Não é só nas minas que morre gente.
Lá em cima o burro tinha recomeçado a girar à volta do poço. A fazer girar uma espécie de nora. Um gajo dizia Arre! Arre! Hey!, enquanto assobiava ao burro.
Life goes on. E a mina não podia parar. A vida não se compadece da morte.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/06]

Companheiros de Armas

Ela andava lá por cima. Em círculos. A planar.
Eu estava cá em baixo. Estava ao fundo da ribanceira, junto à estrada, a fumar um cigarro.
O cão andava comigo. Quer dizer, andava por ali a cirandar. A levantar a perna em tudo o que era sítio e largar uns pingos de mijo. Não sei onde vai arranjar tanto mijo. É que era mesmo em todo o lado. Nas árvores. Nas pedras grandes. No muro. No poste de electricidade. Até nos pneus da motorizada que estava parada lá mais à frente e no reboque que trazia atrelado.
O gato estava em cima do muro. Fingia que não era nada com ele, mas estava atento a tudo. As orelhas estavam sempre levantadas. Olhei para ele, deitado no cimo do muro, como o Humpty-Dumpty, a apanhar aquele sol quente de um falso Inverno. Sempre me fascinou o equilíbrio felino. Conseguem dormir nos sítios mais improváveis em alturas vertiginosas sem temer cair. Melhor ainda, sem cair de facto.
A águia continuava lá em cima no céu incrivelmente azul. Nem uma nuvem. Ela bateu as asas umas duas ou três vezes, naquele fundo croma, e lá continuou. Asas estendidas. Enormes asas estendidas a planar sobre mim.
Baixei a cabeça. Dei uma última passa no cigarro e deixei-o cair no chão. Pisei-o com a ponta da bota.
Senti um ligeiro movimento pelo canto do olho. Vi um vulto a deslocar-se rápido. Levantei a caçadeira. Fechei um olho. Foquei o outro na linha com a mira da arma. Vi o coelho. Tinha parado. Estava a roer qualquer coisa. Uma maçã, talvez. Deitei fora o ar dos pulmões. Fiquei leve. Ouvia o ranger dos dentes do coelho a roer, a roer. Estava focado, pelo meu olhar, na ponta da caçadeira. Puxei o dedo. Disparei. Ouvi o Pam do tiro ecoar à minha volta. O coelho foi projectado um pouco para a frente. Não se mexia. Fui buscá-lo. Fui buscá-lo rápido, antes que aparecesse a polícia. Não era época de caça.
Apanhei-o. Agarrei-o pelas patas traseiras. A caçadeira aberta, pendurada no meu ombro. Voltei para casa. Comecei a subir a ribanceira. O gato saiu do muro e começou a acompanhar-me mas do lado de dentro do mato. À distância. A olhar para mim disfarçadamente, como se eu lhe fosse indiferente. Mas eu sabia que não era. Esbocei um sorriso. Os cabrões dos gatos, pensei.
Virei-me para procurar o cão e vi a águia a descer lá do seu alto majestoso e cair picada sobre a terra, como um foguete, em aceleração e desaparecer entre as árvores.
O cão apareceu ao fundo da ribanceira e começou a correr para me apanhar.
A águia voltou a surgir do meio das árvores. Levava qualquer coisa na boca. Provavelmente um coelho.
Voltei a olhar o gato. Também tinha qualquer coisa na boca. Devia ser um rato.
Companheiros de armas. Vamos todos ter um belo jantar.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/16]

Um Pequeno Conto de Natal

Às vezes costumo ir buscar comida atrás do cinema, ao pé do rio. Mas só muito às vezes. Há uma carrinha com voluntários que vai lá, alguns dias por semana, levar comida a quem precisa. Drogados. Sem abrigo. Sem trabalho. Sem família. Pessoas sem. Eu vou lá às vezes. Mas só às vezes. Quando tenho mesmo muita fome. Quando não tenho uma moeda para ir ao Pingo Doce. Ou ao Minipreço. Vou lá buscar um pão com manteiga. Uma maçã. Um pacote de leite. Um iogurte. Umas bolachas. Coisas com que aconchegar um estômago vazio.
Tenho vergonha em lá ir. Medo de alguém me conhecer. Medo de ser reconhecido.
Ontem fui lá. Era véspera de Natal. Costumam trazer coisas quentes. E eu estava especialmente triste. Queria ver pessoas. Queria ouvir falar. Queria que me dissessem Olá! Boa-noite! Feliz Natal! ou outra coisa qualquer que me fosse dito a olhar-me nos olhos. Mesmo que eu os baixe. Mesmo que eu os esconda. Mesmo que eu não consiga encarar os olhos dos outros.
Então fui lá. Estava muita gente. Havia coisas boas. Uma sopa quente. Um bocado de bacalhau com uma batata e um ovo cozido. Uma fatia de Bolo Rei. As pessoas estavam contentes. Contentes dentro do possível. Contentes por terem uma noite de Natal mais rica que as outras noites todas do ano.
E foi então que os vi.
Os meus filhos.
Estavam na equipa de rua. Eram umas das pessoas que tinham prescindido da sua noite de Natal, quentinha, com a família, à volta de uma mesa farta, ao calor acolhedor da lareira, para irem distribuir comida e um sorriso a quem não tinha nada.
Eles não me reconheceram.
Há muito tempo que não me vêm. Estou diferente. Menos cabelo. Mais barba. Mais velho. Mais gasto. Menos homem.
Mantive-me na fila. Fui andando. Um pé de cada vez. Estavam bonitos. Crescidos. Ele estava um homem. Ela estava uma mulher. E que sorrisos, meu Deus.
Era a minha vez. Foi ele quem me recebeu. Estendeu-me uma caixa de alumínio. Um saco de plástico com coisas. Um copo com a sopa fumegante. Fiquei todo atrapalhado com todas aquelas coisas nas mãos. Ia deixando cair a sopa. Ele olhou para mim. Não só olhou. Viu-me. Quer dizer, não me reconheceu, mas olhou para mim e viu uma pessoa. Talvez tenha pensado que me conhecia. Talvez tenha tido uma memória. Talvez fosse só a simpatia de alguém que se preocupa. Talvez tenha sido só uma fantasia minha. E finalmente disse-me Um feliz Natal! E que a vida regresse. Eu acenei. Eu agradeci acenando com a cabeça. Não consegui dizer nada. Tinha medo de começar a chorar. Tinha medo que me faltassem as forças. Tinha medo que as pernas fraquejassem. Tinha medo de cair. Tinha medo que me reconhecessem. E antes de me virar para ir embora olhei para ela, tão bonita a minha filha, e ela olhou-me e disse, mexendo os lábios num murmúrio quase imperceptível Feliz Natal. E sorriu-me. Sorriu-me. A mim. E eu fui embora. Fui embora envergonhado.
Sentei-me num banco junto ao rio, lá mais ao fundo, e fiquei ali, um bom bocado, a vê-los. Só a vê-los. Que prazer vê-los.
E foi aí que pensei Posso não ter feito nada com a minha vida, mas dei vida a duas criaturas maravilhosas. E senti um arrepio pelo corpo e os olhos embaciaram.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/18]