E Não Há Jantar?

Ela saiu de casa de manhã cedo para ir trabalhar. Quando ela saiu já eu estava na sala, sentado no sofá, a ver as notícias na televisão.
Quando ela regressou ao fim do dia, eu ainda estava sentado no sofá a ver um qualquer programa vespertino.
Ela levantou-se de manhã, tomou banho, vestiu-se, fez café, uma torrada, bebeu o café, comeu a torrada e ainda trincou uma maçã antes de lavar os dentes e ir embora trabalhar. Não sei se deu por eu estar na sala, sentado no sofá a ver as notícias. Saiu pela porta da cozinha. Ouvi a porta da rua a bater. Ouvi o motor do carro. E ouvi-o até deixar de o ouvir. E fui aos restos. Ainda havia um pouco de café quente. Bebi-o. Bebi-o directamente da cafeteira. Sem açúcar. Deixei cair umas gotas na t-shirt. Vi-as alastrar pelo algodão. De um pingo a uma mancha. Procurei um resto de torrada. Não havia. Não deixou restos. Só migalhas. Deixei-as onde estavam. Voltei ao sofá.
Vi televisão.
Passei pelas brasas.
Levantei-me para fumar um cigarro.
Lembrei-me que tinha alguma coisa para fazer, mas não me lembrava do quê.
Voltei a passar pelas brasas.
Quando ela regressou, ao fim da tarde, eu ainda estava sentado no sofá. Ela chegou a casa. Foi à casa-de-banho. Ouvi o mijo a pingar. O autoclismo. A torneira do lavatório. A porta da casa-de-banho a abrir. Senti-a chegar por trás de mim. Senti-a aproximar. Senti a cabeça dela a aproximar-se da minha. Senti um beijo na cabeça. E ouvi-a dizer Devias tomar banho! E lavar a cabeça! E senti-a afastar-se de novo.
E jantar? pensei, Não vais fazer o jantar?
Na televisão havia qualquer coisa sobre um sismo no Japão. E depois um tsunami. Não, afinal o tsunami podia vir mas ainda não tinha vindo. Era só um alerta. E o jantar? Não há jantar? Tenho fome.
Tentei ouvir os sons dela pela casa para ver se percebia alguma coisa do que se estava a passar.
Foi para o quarto. Tempo. Passos nus no corredor. Voltou à casa-de-banho. Porra, tanto chichi. Não! Afinal vai tomar banho. Porque raio está a tomar um banho a meio da tarde? Ainda não é de noite. Tomou um de manhã. Porque é que está a tomar banho? Vai sair?
Ouvi o duche a desligar. Senti a toalha a deslizar pelo corpo dela. A balança. O corpo dela a endireitar-se na balança. Vinha aí dizer-me que tinha de fazer dieta porque engordou uns gramas.
E ouvi a porta da casa-de-banho a abrir. Senti os passos dela na sala. Senti o cheiro do banho acabado de tomar. Senti-a baixar-se outra vez ao pé de mim. Senti o calor da sua cara. Do seu corpo. O calor do corpo limpo e doce do banho, e ouvi-a dizer-me Vou-me deitar. Estou muito cansada. Deu-me um beijo na cara e voltou a dizer Toma um banho.
E o jantar? Estou com fome. Não há jantar? pensei. Pensei com muita força para ela ouvir. Mas não ouviu. E foi deitar-se. E eu tinha de ir tomar banho. E doía-me o rabo de estar tanto tempo sentado no sofá. E fui para a janela fumar um cigarro. E ainda era de dia. Ainda se via o sol a morrer atrás dos telhados das casas. E eu não ia jantar. E estava com fome.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/18]

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Ter Crédito no Telemóvel e Alguns Cigarros no Bolso

Eu vi o tipo caído no chão e não fiz nada. Passei ao lado. Desviei-me no passeio, mas não cheguei à estrada. Foi só um pequeno desvio para não o pisar. Mas também não me baixei para perguntar se era preciso alguma coisa.
Olhei para as outras pessoas que passavam por ele. Fizeram todos como eu. Passaram à volta. Não o ignoraram porque não podiam. Ele estava ali. No meio da passagem. No meio do caminho entre um sítio e outro que as pessoas têm de utilizar para cumprirem as suas obrigações, os seus rituais, as suas necessidades. Ele estava presente e não podia ser ignorado. Mas as pessoas passavam ao lado. Como eu.
Depois de tê-lo deixado lá para trás, parei. Parei e virei-me. Olhei lá para trás. Para ele. E chegou-me uma convulsão de choro. Lágrimas a caíram-me dos olhos e escorrerem céleres cara abaixo. Entraram pela boca. E estavam salgadas. Que porra!
Isto faz de mim uma pessoa má?
Eu sei que devia, que podia ter parado ao pé dele. Que podia ter-me baixado. Que podia ter-lhe perguntado se precisava de alguma coisa. Mas o que é que eu podia ter dado? O que é que eu podia dar? O que é que eu tinha que podia dar a quem quer que fosse?
Peguei no telemóvel e liguei para o cento e doze. Avisei que estava um homem caído no chão no meio da rua e desliguei.
Acendi um cigarro e fiquei ali à espera. O homem continuou caído no chão. Não sei se estava bêbado, drogado, morto ou a dormir. Mas não o vi mexer-se. Também não vi sangue. Talvez não estivesse ferido. Talvez fosse só uma queda. Talvez fosse só uma quebra de tensão. Mas também podia ser fome. Podia ser desespero.
Olhei para o meu cigarro e pensei que ainda tinha dinheiro para os cigarros. E ele?
Pensei numa coisa que ouvi um dia destes Ter algo em que acreditar! Como se pode ter algo em que acreditar quando não temos nada em que acreditar? Quando vemos que a vida nos passa ao lado? Que não percebemos como é que as pessoas agarram a vida se ela, a nós, a ele, a mim, nos escorre pelos dedos como a água do mar? Como se pode ter algo em que acreditar quando a barriga dá horas e temos de fazer ouvidos de mercador. Quando somos largados na rua porque não podemos pagar as rendas de casa feitas a pensar no turismo de airbnb. Quando nos dizem que não há dinheiro para pagar pensões, desemprego, calamidades e depois vemos… E depois vemos o que vemos à nossa volta que não a nós.
Há muito dinheiro a circular, neste mundo. Mas não é por aqui.
Porra!
Ouvi a sirene do INEM. Chegaram os paramédicos. Mexeram-lhe. Ele mexeu-se. Eles fizeram-lhe alguma coisa que não percebi o quê e meteram-no numa maca. Enfiaram a maca na carrinha. Vi a carrinha a desaparecer e o som da sirene a extinguir-se lá pelo meio da cidade agressiva e impessoal.
Virei-me para seguir o meu caminho e percebi que não tinha caminho. Eu não ia para lado nenhum. Não tinha nenhum sítio para onde ir.
Pensei que eu também não tinha nada em que acreditar porque era como aquele tipo ali caído sozinho no passeio. Só que eu ainda tinha algum crédito no telemóvel e uns cigarros no bolso. Mas é só. E até quando?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/11]

A Mina

Ouvia o assobio, o Hey! soprado, alto, para o burro, e o burro a rodar à volta de uma espécie de nora a puxar, a puxar, a puxar a corda, o balde, o minério das profundezas da terra cá para cima, para a terra de Deus.
Lá em baixo, no Inferno, ouvia-se as picaretas a perfurarem as paredes do subsolo. As pás a apanharem os detritos, e tudo a tombar nos carros de metal que circulavam em linha de comboio miniatura, mas não de brincar, que levavam o minério, os detritos, tudo aquilo que tinha de ir embora do estômago da terra cá para cima, para a luz solar, fazer brilhar o seu dourado, o brilho do luxo nas costas de um burro, a toque de caixa de um chicote. Arre! Arre! Hey!
Não sei as horas. Lá em baixo é sempre noite. Não há janelas. Não vejo a luz do sol. Também não vejo a da Lua. Mas percebo-lhe o ambiente. A escuridão. A solidão. O ar é pouco. Pesado. Por vezes ganham-se vertigens. Embebedam-se com a falta de ar. Eu sinto-me levado. Para onde não estou. E esqueço que não estou lá. Sou sugestionado. Mas não estou lá. Percebo como é lá, com é estar lá, como é ser parte integrante de lá.
Vejo o balde a subir, puxado numa corda pelo burro, às voltas, à volta de uma espécie de nora, até lá acima. Os detritos. O lixo. O luxo.
Daquela vez dois acontecimentos tiveram lugar. Acontecimentos vulgares. Mas não em conjunto. Vulgares solitariamente. Daquele vez foi um a seguir ao outro. Primeiro o miúdo que tinha de apanhar o balde do poço, o balde que o burro puxava naquele seu ritmo cadente à volta de uma espécie de nora caiu dentro do poço. Desequilibrou-se e caiu ao fundo. Não conseguiu agarrar o balde. Não conseguiu agarrar-se ao balde. Não conseguiu agarrar-se à corda. Caiu. Até às profundezas do Inferno. Não sei em que parte do trajecto morreu. Nem como morreu. Nem se morreu na queda. Ou da queda. Já estava morto quando o encontraram. Pedaços dele. Do pouco que encontraram dele. Depois foi a explosão. Uma picareta perfurou uma bolsa de gás. Explodiu. A bolsa. A picareta. O homem da picareta. O túnel. O poço. A mina. Morreram vários homens. Não só o homem da picareta. Mas todos os outros que lá estavam. Morreram na explosão. Ou morreram no bloqueio provocado pela explosão. Ou morreram de fome e de sede presos dentro de túneis bloqueados pela queda das paredes que os sustentavam.
O burro continuava cá em cima. À espera das ordens. Arre! Arre! Hey! Estava parado. Depois viu o resto de uma maçã. Comeu uma maçã. Uma maçã encontrada ali pelo chão. Uma maçã tombada da lancheira de um qualquer trabalhador da mina. Talvez um dos mortos. Desmembrados. Desaparecidos.
Mais tarde vi uma ambulância parada na rua. Um homem. Duas miúdas novas. Olhavam a ambulância com nervosismo. Um paramédico saiu da ambulância e falou com o homem. As miúdas ouviram. Começaram a chorar. Uma delas caiu, sem forças, ao chão. A outra ajudou-a a levantar-se. O homem ficou petrificado. Sem reação. Alheado das miúdas a chorar.
Não é só nas minas que morre gente.
Lá em cima o burro tinha recomeçado a girar à volta do poço. A fazer girar uma espécie de nora. Um gajo dizia Arre! Arre! Hey!, enquanto assobiava ao burro.
Life goes on. E a mina não podia parar. A vida não se compadece da morte.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/06]

Companheiros de Armas

Ela andava lá por cima. Em círculos. A planar.
Eu estava cá em baixo. Estava ao fundo da ribanceira, junto à estrada, a fumar um cigarro.
O cão andava comigo. Quer dizer, andava por ali a cirandar. A levantar a perna em tudo o que era sítio e largar uns pingos de mijo. Não sei onde vai arranjar tanto mijo. É que era mesmo em todo o lado. Nas árvores. Nas pedras grandes. No muro. No poste de electricidade. Até nos pneus da motorizada que estava parada lá mais à frente e no reboque que trazia atrelado.
O gato estava em cima do muro. Fingia que não era nada com ele, mas estava atento a tudo. As orelhas estavam sempre levantadas. Olhei para ele, deitado no cimo do muro, como o Humpty-Dumpty, a apanhar aquele sol quente de um falso Inverno. Sempre me fascinou o equilíbrio felino. Conseguem dormir nos sítios mais improváveis em alturas vertiginosas sem temer cair. Melhor ainda, sem cair de facto.
A águia continuava lá em cima no céu incrivelmente azul. Nem uma nuvem. Ela bateu as asas umas duas ou três vezes, naquele fundo croma, e lá continuou. Asas estendidas. Enormes asas estendidas a planar sobre mim.
Baixei a cabeça. Dei uma última passa no cigarro e deixei-o cair no chão. Pisei-o com a ponta da bota.
Senti um ligeiro movimento pelo canto do olho. Vi um vulto a deslocar-se rápido. Levantei a caçadeira. Fechei um olho. Foquei o outro na linha com a mira da arma. Vi o coelho. Tinha parado. Estava a roer qualquer coisa. Uma maçã, talvez. Deitei fora o ar dos pulmões. Fiquei leve. Ouvia o ranger dos dentes do coelho a roer, a roer. Estava focado, pelo meu olhar, na ponta da caçadeira. Puxei o dedo. Disparei. Ouvi o Pam do tiro ecoar à minha volta. O coelho foi projectado um pouco para a frente. Não se mexia. Fui buscá-lo. Fui buscá-lo rápido, antes que aparecesse a polícia. Não era época de caça.
Apanhei-o. Agarrei-o pelas patas traseiras. A caçadeira aberta, pendurada no meu ombro. Voltei para casa. Comecei a subir a ribanceira. O gato saiu do muro e começou a acompanhar-me mas do lado de dentro do mato. À distância. A olhar para mim disfarçadamente, como se eu lhe fosse indiferente. Mas eu sabia que não era. Esbocei um sorriso. Os cabrões dos gatos, pensei.
Virei-me para procurar o cão e vi a águia a descer lá do seu alto majestoso e cair picada sobre a terra, como um foguete, em aceleração e desaparecer entre as árvores.
O cão apareceu ao fundo da ribanceira e começou a correr para me apanhar.
A águia voltou a surgir do meio das árvores. Levava qualquer coisa na boca. Provavelmente um coelho.
Voltei a olhar o gato. Também tinha qualquer coisa na boca. Devia ser um rato.
Companheiros de armas. Vamos todos ter um belo jantar.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/16]

Um Pequeno Conto de Natal

Às vezes costumo ir buscar comida atrás do cinema, ao pé do rio. Mas só muito às vezes. Há uma carrinha com voluntários que vai lá, alguns dias por semana, levar comida a quem precisa. Drogados. Sem abrigo. Sem trabalho. Sem família. Pessoas sem. Eu vou lá às vezes. Mas só às vezes. Quando tenho mesmo muita fome. Quando não tenho uma moeda para ir ao Pingo Doce. Ou ao Minipreço. Vou lá buscar um pão com manteiga. Uma maçã. Um pacote de leite. Um iogurte. Umas bolachas. Coisas com que aconchegar um estômago vazio.
Tenho vergonha em lá ir. Medo de alguém me conhecer. Medo de ser reconhecido.
Ontem fui lá. Era véspera de Natal. Costumam trazer coisas quentes. E eu estava especialmente triste. Queria ver pessoas. Queria ouvir falar. Queria que me dissessem Olá! Boa-noite! Feliz Natal! ou outra coisa qualquer que me fosse dito a olhar-me nos olhos. Mesmo que eu os baixe. Mesmo que eu os esconda. Mesmo que eu não consiga encarar os olhos dos outros.
Então fui lá. Estava muita gente. Havia coisas boas. Uma sopa quente. Um bocado de bacalhau com uma batata e um ovo cozido. Uma fatia de Bolo Rei. As pessoas estavam contentes. Contentes dentro do possível. Contentes por terem uma noite de Natal mais rica que as outras noites todas do ano.
E foi então que os vi.
Os meus filhos.
Estavam na equipa de rua. Eram umas das pessoas que tinham prescindido da sua noite de Natal, quentinha, com a família, à volta de uma mesa farta, ao calor acolhedor da lareira, para irem distribuir comida e um sorriso a quem não tinha nada.
Eles não me reconheceram.
Há muito tempo que não me vêm. Estou diferente. Menos cabelo. Mais barba. Mais velho. Mais gasto. Menos homem.
Mantive-me na fila. Fui andando. Um pé de cada vez. Estavam bonitos. Crescidos. Ele estava um homem. Ela estava uma mulher. E que sorrisos, meu Deus.
Era a minha vez. Foi ele quem me recebeu. Estendeu-me uma caixa de alumínio. Um saco de plástico com coisas. Um copo com a sopa fumegante. Fiquei todo atrapalhado com todas aquelas coisas nas mãos. Ia deixando cair a sopa. Ele olhou para mim. Não só olhou. Viu-me. Quer dizer, não me reconheceu, mas olhou para mim e viu uma pessoa. Talvez tenha pensado que me conhecia. Talvez tenha tido uma memória. Talvez fosse só a simpatia de alguém que se preocupa. Talvez tenha sido só uma fantasia minha. E finalmente disse-me Um feliz Natal! E que a vida regresse. Eu acenei. Eu agradeci acenando com a cabeça. Não consegui dizer nada. Tinha medo de começar a chorar. Tinha medo que me faltassem as forças. Tinha medo que as pernas fraquejassem. Tinha medo de cair. Tinha medo que me reconhecessem. E antes de me virar para ir embora olhei para ela, tão bonita a minha filha, e ela olhou-me e disse, mexendo os lábios num murmúrio quase imperceptível Feliz Natal. E sorriu-me. Sorriu-me. A mim. E eu fui embora. Fui embora envergonhado.
Sentei-me num banco junto ao rio, lá mais ao fundo, e fiquei ali, um bom bocado, a vê-los. Só a vê-los. Que prazer vê-los.
E foi aí que pensei Posso não ter feito nada com a minha vida, mas dei vida a duas criaturas maravilhosas. E senti um arrepio pelo corpo e os olhos embaciaram.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/18]

É Drogado, Não É? Coitadito!

Regresso ao tédio de Domingo. Nada de fugir ao que conheço bem. Acordei tarde, já o sol estava lá no alto. Levantei-me ainda mais tarde. Arrastei-me para a casa-de-banho. Foi por ela que me levantei. Se não, teria ficado deitado, debaixo do edredão, tapado até às orelhas, só com os olhos de fora a olhar um bichinho que cruzava o tecto. Não sei que bicho era. Talvez uma aranha. Uma barata. Desapareceu enquanto fui à casa-de-banho.
Passei pela cozinha. Abri o frigorífico. Um cheiro insuportável. Um pacote de leite estragado. Não sei porque insisto em comprar leite e abrir os pacotes. Não bebo leite. Não gosto de leite. Depois lembro-me. O gato. Compro leite para o gato. E penso O gato? Onde anda o gato? Chamo-o Bsch, bsch, bsch! mas não aparece.
Agarro numa maçã. Está podre. Trinco num lado bom, mas está com cheiro a bafio. Deito-a no lixo. Olho à volta. Não tenho mais nada para comer. Na fruteira há um maço de cigarros. Acendo um. Vou até à varanda fumar o cigarro. Descubro lá o gato. Está morto. Deixei-o lá fechado há vários dias. Não tenho aberto as janelas. Nem a varanda. Tenho andado como tédio domingueiro durante a semana. Devo estar com algum problema. Devia ir ao médico. Ao psiquiatra. Talvez ao psicólogo. Preciso de falar com alguém. Ser interlocutor de mim mesmo já não está a funcionar. Agarro no gato pelo rabo e pergunto O que é que faço a isto? Olho para a varanda em frente. Estão no Algarve. Lanço para lá o gato. Ainda bateu com a cabeça no varandim. Porra! Mas acabou por cair lá para dentro. De qualquer forma já estava morto.
O cigarro morreu-me na boca sem eu ter percebido que estava a fumar. Deito a beata fora. Acendo outro. A ti vou-te saborear. E debruço-me no varandim a olhar a rua lá em baixo enquanto fumo o cigarro da manhã já perto da hora do lanche. O céu está a escurecer. Não gosto de acordar a estas horas e ver o dia a morrer. Deixa-me angustiado. Deprime-me. Acho melhor voltar para a cama. Deixar-me adormecer. Acordar de noite. Quando já não houver dia nem sol nem angústia pela luz mortiça para me entristecer.
Regresso à cama. Tapo-me com o edredão. Os olhos procuram o bichinho no tecto mas já não o encontro.
Agora não páro de pensar que tenho fome. Podia mandar vir uma pizza, mas estou sem crédito no telemóvel. Tenho de ir à rua. Tenho de sair. Oh, que merda!
Afasto o edredão de cima de mim. Calço umas calças de fato-de-treino. Enfio os chinelos nos pés. Ponho uma camisola com capuz na cabeça. Saio do quarto. De casa. Do prédio. Entro na rua. No café. E peço Quatro pães da avó! No café toda a gente olha para mim. Finalmente um pouco de atenção na minha vida.
Depois percebo que não trouxe dinheiro. A rapariga fia-me. Gosta de mim. Amanhã venho cá pagar, digo. Mas não sei se amanhã não é outra vez Domingo. A minha cabeça não anda bem. Ela acha que todos os dias são Domingo. O meu corpo obedece-lhe. Eu também. É um tédio que se instala por cá e não quer sair. Eu saio do café e percebo os olhos de toda a gente nas minhas costas. É drogado, não é? ouço alguém perguntar lá dentro. Coitadito.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/16]

Esqueletos do que Tinham Sido

Os primeiros que vi foi no início dos anos ’90. É possível que já houvesse outros naquelas condições, até porque havia quem vivesse em sítios piores mas, assim, daquela forma, foi a primeira vez. Mais tarde voltei a ver outros. Ainda em pior situação. Porque esses que vi mais tarde viviam em carros que eram já só carcaça. Esqueletos do que tinham sido. Sem vidros nem pneus. Estes primeiros que vi, viviam ainda num carro inteiro, velho mas funcional porque, pelo que me foi dado perceber, ainda andava ou pelo menos, movia-se (talvez de empurrão, não sei!).
Vi-os da primeira vez em que tive um trabalho naquela zona. Era junto ao rio, num sítio relativamente sossegado, mas não escondido. Gelado durante a noite. Escaldante durante o dia. Andei lá durante duas semanas. E vi-os todos os dias durante essas duas semanas.
No início aquilo ainda me incomodava. Aliás, nos dois primeiros dias fiquei mesmo angustiado. Depois fui habituando-me à ideia orwelliana que somos todos iguais, mas há alguns mais iguais que outros.
A primeira vez que lá cheguei, ainda de noite mas já com o dia a querer romper a escuridão, vi que o carro estava lá parado e que, provavelmente, estava alguém a dormir lá dentro. O pára-brisas e o vidro traseiro estavam tapados com aquelas protecções contra o sol, com uma publicidade já não lembro a quê. Os vidros laterais tinham toalhas presas nas janelas, entaladas em cima, pelos vidros fechados.
Talvez acordados com o barulho da nossa chegada, minha e dos meus companheiros de trabalho, saíram, primeiro ele, depois ela, cada um do deu lado do carro, e foram urinar a uma esquina. À mesma esquina. Primeiro ele. Depois ela.
O que me fez mais impressão, foi que, depois de ambos voltarem a entrar para o carro, abriu-se uma das portas de trás e de lá saíram duas crianças pequenas e foram, também elas, urinar à mesma esquina.
As crianças já não voltaram a entrar no carro. Estavam todos vestidos, com a roupa suja e amarrotada, de chinelos, mas vestidos.
A mulher voltou a sair do carro e foi ao porta-bagagens. Abriu-o e apanhou duas carcaças duras que rasgou com as mãos. Depois pegou num pacote de açúcar e dividiu-o pelas duas carcaças e deu uma a cada criança.
As crianças foram andando por ali, à nossa volta, durante o resto do dia. Alguns de nós ainda lhes demos coisas para comer e beber, uns chocolates, uns pacotes de sumo, uma maçã. E as crianças iam comendo algumas daquelas coisas, outras iam entregar à mulher. Mas nunca pediram nada a ninguém. Nem nunca vimos a mulher e o homem a comer o que quer que fosse.
Durante as duas semanas que lá estivemos, vimos as crianças e a mulher por lá, diariamente. Durante aquele período, as crianças nunca foram à escola. A mulher ia tratando delas assim, como podia. Ainda a vi a dar-lhes alguns banhos com água fria de uma garrafa de plástico. O homem houve alguns dias em que não o vimos, ou vimos chegar ao fim da tarde, ou partir de manhãzinha, quase ao mesmo tempo da nossa chegada. Durante este tempo todo, o carro mudou três vezes de sítio. E porque nós pedimos. Por nossa conveniência. Pedíamos de véspera e, no dia seguinte, o carro já estava noutro lado.
Nunca mais voltei aquele sítio. Nunca mais vi aquele carro, nem aquelas pessoas.
Mais tarde voltei a ver mais gente a viver dentro dos carros. Até em carcaças de automóveis, dentro de caixotes de cartão e até debaixo do céu, fosse estrelado ou enublado.
Ainda hoje penso neles. Ainda hoje me dói. E às vezes, só às vezes, penso se não serei eu um deles.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/26]