Do que Me Lembrei Quando Soube o que Acontecera a P.

Percebi o apagador a passar perto de mim porque senti a ligeira deslocação de ar que fez ao passar junto à minha cabeça.
Mais tarde soube que o apagador não tinha sido lançado para mim. O apagador tinha sido lançado em direcção a P., como o Professor acabou por dizer, e confirmado por P. quando nos mostrou um pouco de sangue nos dedos, o sangue que tirou da orelha onde o apagador lhe bateu de raspão, mas o suficiente para lhe fazer um pequeno rasgo e deitar sangue. Ainda hoje me lembro do grito de P. e de me ter assustado com o grito, milésimos de segundos depois de sentir o apagador a passar junto à minha cabeça. O apagador tinha uma parte em madeira. Não sei que parte raspou na orelha de P. mas foi uma parte rija o suficiente para lhe rasgar a orelha e fazer sangue.
Lembro-me da cara do Professor. Era já velhote. Coxo. Um pouco cegueta. Mas um bom professor. Morreu pouco tempo depois. Naquele dia, naquele momento, percebi o quanto ficou preocupado quando viu o sangue nos dedos de P. Percebi que não queria ter feito o que fez. Mas fê-lo. E arrependeu-se logo. Provavelmente no mesmo momento em que lançou o apagador em direcção a P. O Professor estava no quadro a escrever qualquer coisa enquanto falava. Lembro-me de ouvir uma interrogação. Vi o ponto de interrogação na frase, mas não me lembro do que ele disse. Depois o silêncio. Um pequeno silêncio. Em seguida o ar a deslocar-se perto da minha cabeça. P. estava de cabeça abaixada, esticada para a frente, para perto de mim, e estava a dizer-me qualquer coisa, qualquer coisa que não me lembro o quê, a conversa de P. misturava-se com a do Professor e acabei por não ouvir nem o Professor nem P. E depois o apagador a passar por mim e a atingi-lo a ele de raspão. De raspão mas a fazer sangue.
Lembro-me do espanto que vi à minha volta.
J., que mais tarde viria a ser agente da PSP, um agente simpático que, um dia, muitos anos depois ainda mais tarde, chegou a perdoar-me uma multa de estacionamento, J., que estava à minha direita, fez uma cara de enorme espanto e vi-lhe a falta dos dentes de baixo quando me virei para trás para ver o porquê do grito de P.
À minha frente estava M. amigo de longa data, uma amizade que se manteve mesmo depois dos anos de escola, embora nestes últimos tempos, por questões de ordem política, nos tenhamos afastado, e M. tentava ver o que se tinha passado e não conseguia ver bem porque eu estava entre ele e P.
Do meu lado esquerdo, I. estava com a mão na boca e lágrimas nos olhos. Tinha visto o sangue nos dedos e na orelha de P., e não tardou muito para sair da sala de aula a chorar baba-e-ranho. Já não vejo I. há muitos anos. Chegámos a ser namorados durante alguns meses. Depois fomos separados na escola. Fomos para turmas diferentes. Eu deixei de estar com ela, embora a visse na escola. Mais tarde fomos ambos para a mesma cidade frequentar a Universidade. Faculdades diferentes. Cursos diferentes. Alguns amigos em comum. Fui sabendo dela. Vendo-a esporadicamente. Mais tarde soube que tinha casado. Tinha tido um filho. Tinha-se separado. Era professora. Voltara a encontrá-la nas redes sociais mas comunicávamos muito pouco. Partilhávamos algumas opiniões e gostos mas, acho que I. ficou sempre sentida comigo pela forma fria como deixámos de nos ver.
Hoje soube que P. morreu com a Covid-19. A primeira coisa que senti foi o apagador a passar junto à minha cabeça.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/31]

A Minha História com F.

Foi a minha primeira paixão. Mas não foi a minha primeira namorada. Nem sei se ela alguma vez soube que eu gostava dela. Nem sei mesmo se ela sabia que éramos da mesma turma. Um ano fomos vizinhos de mesa, mas não sei se ela sabia que eu estava ali, a olhar para ela sempre que podia.
Tudo começou na primeira classe. Era assim a nomenclatura. Primeira classe. E foi na primeira classe que a vi pela primeira vez. Fui atingido pela seta de Cupido. Vi-a e apaixonei-me. Desde esse primeiro momento sempre tive dificuldade em lhe dirigir a palavra. E quando ela, por um qualquer acaso do destino, metia conversa comigo, o gaguejar era a minha única resposta. Ficava vermelho, sentia a cara a ruborescer, e isso ainda ampliava a minha timidez transformada num gaguejar estúpido de onde só saíam grunhidos. Ela acabava por se ir embora, provavelmente a achar que eu era parvo. E era.
Chamava-se F., e é a única coisa que direi dela que não quero que, ao fim de tantos anos, alguém, finalmente, descubra o que eu nunca desvendei. Nem a ela.
Por uma única vez nos cruzámos numa festa. Uma festa de aniversário, claro, que, naquelas idades, não temos autorização para outras festas. E foi nessa festa que ganhei coragem para a convidar a dançar um slow. Mas ninguém dançava naquelas festas. Éramos novos demais. Os meninos andavam em grupo a fazer asneiras, as meninas andavam também em grupo mas aos risinhos. Nunca percebi o que significavam aqueles risinhos.
A certa altura, na única festa em que me cruzei com F., alguém pôs música a tocar. Uma dessas músicas era um slow, um tipo de música que veio a estar na moda na minha adolescência e que os rapazes e as raparigas aproveitavam para mostrar uns aos outros que gostavam de quem gostavam. Ainda me lembro da primeira vez que senti os dedos de uma rapariga a mexer-me nos cabelos, suavemente, como quem não quer nada, e a respiração húmida a tombar sobre o pescoço que começava a ficar rígido, fixo, para não alterar em nada o estado das coisas. E não, não foi, obviamente F. que me mexeu com os dedos no cabelo durante um slow. Até porque nem cheguei a dançar com ela. Mas também não digo quem foi porque toda a gente a conhece e eu não quero causar constrangimentos às raparigas que passaram pela minha vida.
Fui convidar F. para dançar o slow. Eu nunca tinha dançado. Não sabia dançar. Mas arranjei coragem no fundo mais profundo de mim e pensei Seja o que Deus quiser! (na altura andava num colégio de freiras). Para meu terror, ela disse que sim. Ela aceitou o meu convite. Estendeu-me a mão que eu agarrei cheio de vergonha. Lembro-me que, de repente, ficou muito calor. Senti a cara a ficar vermelha. Os meus músculos retesaram-se. Agarrei-lhe na mão e conduzi-a para o meio da sala onde ninguém mais estava a dançar. Vi toda a gente a olhar para mim. Os rapazes a rirem que nem uns perdidos. As raparigas a suspirarem e ansiosamente à espera de também elas serem convidadas. Os meus pés pesavam. As minhas pernas tinham dificuldade em mexerem-se. Sentia o corpo desconjuntado. A transpiração a acumular-se nos sovacos. Então parei. Ela em frente de mim. Estiquei os braços. Ela encaixou em mim. E ao meu primeiro passo pisei-a. Eu estava de sapatos de sola. Ela de sandálias. Magoei-a, claro. Ela deu um berro. Eu assustei-me e larguei-a. Ela saiu dali e foi procurar consolo junto das amigas. Eu fui a chacota dos rapazes.
Durante os quatro anos que durou a primária fui um apaixonado escondido. Nunca olhei para outra rapariga que não a F. e sabia que podia olhar para ela à vontade que o meu olhar nunca se cruzaria com o dela. Eu era invisível. Não existente.
Foi só quando chegámos ao quinto ano, no início do que é hoje o segundo ciclo, é que nos separámos. Fomos para turmas diferentes. Eu ainda a via nos intervalos. Ela continuava a não me ver. A não saber da minha existência. Mas foi só nessa altura que me livrei dessa paixão assolapada que não me permitia olhar para outras raparigas.
E foi então que conheci M. M. era uma colega de turma do quinto ano. M. meteu conversa comigo e, num intervalo, convidou-me para partilhar uma Bola de Berlim com ela. Mas essa é outra história. Essa é a história de M. Esta, de hoje, é a história de F. E a história de F. acaba aqui, no final da primária. Mesmo que, a tempos, me lembre dela. Como hoje. Gostava de me lembrar de um beijo trocado com ela. Mas isso nunca aconteceu.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/15]

O Controle

Hoje pensei em M.
Hoje lembrei-me do que aprendi com M. ao escutar uma conversa alheia. Viajei no tempo, regressei a uma época de juventude e à descoberta do meu eu sádico. Sexualmente falando, claro.
Descobri o meu sadismo através do masoquismo de M. Tive medo. Nunca mais lá regressei. Pelo menos àquela dimensão.
Hoje fui almoçar à cervejaria no rés-do-chão aqui do prédio. O prato do dia era Ovos Escalfados com Ervilhas. Motivo mais que suficiente para me fazer sair de casa. Desci as escadas. Não tive lugar ao balcão, o meu lugar por excelência. Estava cheio de comensais. Acabei por me sentar solitário numa mesa no meio da sala. Fui olhando a televisão lá ao fundo enquanto esperava pela minha meia-dose do prato do dia e do pequeno jarro de vinho tinto da casa (da região das Cortes, aqui nas berças da cidade).
Ouvia várias vozes. Várias conversas. Coisas soltas. Coisas sem grande interesse. Até que algo me captou a atenção. Entre um bocado de pão com manteiga e uma azeitona, algo captou-me a atenção. Um pedaço de conversa. Uma voz feminina que contava E ele só dizia para me controlar. Controla-te que controlas tudo o resto, dizia-me isto ao ouvido, e toda eu era arrepios. Estava com os braços e as pernas arrepiadas e a perder a força nos joelhos ao ouvir a voz sussurrada dele ao meu ouvido, Controla-te.
Virei a cabeça. Foquei o olhar. Tentei perceber de onde vinha aquela conversa que me chamara a atenção. Havia uma mesa próxima da minha com duas senhoras. Senhoras jovens. À volta dos seus quarenta anos. Supus que a conversa viesse de lá. Imaginei-as. Primeiro uma. Depois a outra. De encontro a uma parede. E uma voz de homem sussurrada a arrepiá-las. Mas não tive certeza de nada. Apurei os ouvidos. Não voltei a captar nada com o mesmo grau de interesse. Não que me interessasse a vida sexual da senhora, das senhoras, ali do lado. Era a curiosidade de saber para onde evoluía aquela conversa que me tinha captado o interesse. Debalde.
Chegou a minha meia-dose. O jarro de vinho. Enchi o copo. Comecei a beber. E foi aí que me lembrei de M. O controle de M. O controle para atingir um fim.
M. gostava que lhe desse umas palmadas. Com força. E dei por mim a descobrir que gostava de lhe dar umas palmadas. Gostava de ver as minhas mãos marcadas no rabo dela. Mas havia um ritmo. Uma ordem. Uma cadência. No início ela dirigia-me. Dizia-me o que fazer. E como o fazer. E dizia-me precisamente isso É tudo uma questão de controle. Fui adquirindo esse controle. E, por uns tempos, as coisas andaram equilibradas. Ela gostava que lhe batesse. Eu descobri que retirava algum prazer em fazê-la feliz daquela forma. Aprendi que gostava de lhe bater.
Um dia passou-me uma caixa para as mãos. Pediu-me que a espetasse. Eu não percebi. Abri a caixa. Tinha agulhas. Várias agulhas. Agulhas mais grossas que as de acupunctura. Fiquei sem saber o que fazer. Ao início assustei-me. Ela insistiu. Experimentei. Uma. Duas. Três. Quarto. No rabo. Depois queria nas pernas. Fui espetando.
Comecei a sentir-me excitado.
Percebi que estava a gostar de espetar as agulhas no corpo dela. Percebi, assustado, que estava a gostar. E não fui capaz de continuar. Assustei-me comigo. Retirei as agulhas. Coloquei-as na caixa. Ela virou-se para mim e perguntou Então?!
Eu abanei a cabeça.
Levantei-me da cama. Vesti-me e saí do quarto dela. De casa dela. Da vida dela. Perdi o controle.
Nunca mais a vi. Há muitos anos que não pensava nela.
Comecei a comer as ervilhas. Beberiquei o vinho. Olhei para a televisão. Via umas imagens a passar mas não percebia nada do que é que se tratava.
Olhei à volta. Muitas conversas. Muito barulho. Muita gente.
Continuei a comer as ervilhas com o ovo escalfado. Perdi o controle. Foi isso.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/13]