De Regresso

Regresso da minha ausência.
Os gatos correm para mim a refilar. Não param de miar. Parecem dizer-me Oh meu cabrão! Por onde é que andaste? Onde está o jantar?
O cão também se manifesta. Mas está contente. Abana o rabo e salta à minha volta. Lambe-me as mãos. Eu tento afastá-lo mas ele insiste. Os gatos zangam-se com ele. Os gatos zangam-se com toda a gente. Mas dura pouco. Não tarda ignoram-me. A mim e ao cão. Voltam para o alpendre e deitam-se sobre o muro a dormitar.
Ainda há um resto de luz do dia. Muitas nuvens. Nuvens coloridas. Em tons de cinza rosados. Ou tons de rosa acinzentado. Parece um céu roubado ao quadro de algum anónimo renascentista encontrado à venda nas feiras de rua.
Entro em casa. Sinto o cheiro a mofo da casa fechada. Mas gosto de sentir o cheiro da casa no meio do mofo. Gosto de regressar. Vou olhar as prateleiras onde estão os livros. Confirmo que estão cá todos. Que nenhum deles fugiu.
Abro as janelas. Não as vou ter abertas por muito tempo porque o dia está a cair. Mas vai ser o suficiente para arejar a casa e fazer desaparecer a maior parte do cheiro da humidade que paira por aqui.
Dou comida aos gatos para se entreterem e não entrarem em casa pelas janelas abertas. Tenho de fazer redes mosquiteiras para as janelas. Para mantê-las abertas e deixar os gatos, o sardão e toda aquela população alada do lado de fora. Há três anos que me prometo o mesmo. Fazer as redes mosquiteiras. Não me levo muito a sério. Mas um dia destes…
Gosto do silêncio que recupero. Por aqui não há muito barulho. Vou para ligar o leitor de cd’s e desisto. Ligo a televisão. Num canal noticioso. Quero ouvir as notícias. Anda tudo em polvorosa. Parece que se fotografou um Buraco Negro pela primeira vez na vida. Ouço dizer que esta fotografia vem comprovar a Teoria da Relatividade da Einstein. Não entendo como. Nem porquê. Quero tomar atenção ao noticiário para ver se percebo. Acabo a ouvir sobre a nova vitória eleitoral de Benjamin Netanyahu em Israel. Penso que as pessoas continuam a ser o elo mais fraco da democracia. Penso que as pessoas não pensam, são dirigidas por quem lhes diz o que acham que querem ouvir. Penso que as pessoas são um desastre à mercê delas próprias. Penso que os mesmos que conseguem fotografar um Buraco Negro à distância de milhões de anos-luz são também os mesmos que escolhem ser dirigidos por gente menor. Penso que as pessoas procuram sempre um paizinho-idiota que lhes pague as bebedeiras em Benidorm e se ocupe das questões que não querem compreender.
Ainda agora cheguei a casa e já sinto crescer uma pequena depressão.
Mas gosto de estar em casa.
Desligo a televisão. Desligo-me do noticiário.
Abro uma garrafa de vinho. Volto ao alentejano. Tinto.
Sirvo-me de um copo e vou para o alpendre. Acendo um cigarro e sento-me a olhar as montanhas lá ao fundo à espera que a noite caia.
E penso Depois deste copo tenho de ir fechar as janelas. Está a arrefecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/10]

Um Cachorro-Quente Vintage

Estava frio. E foi assim que acordei. Com frio.
Eram cinco da tarde. O dia estava a ir embora. Fiquei danado. Fico sempre danado quando perco a luz do dia. Gosto da noite, mas preciso do dia.
Acordei arrepiado de frio debaixo do edredão. Descobri que estava com um edredão de Verão. Não sabia que havia mais que um género de edredão. Ainda fui buscar uns casacos que coloquei por cima de mim, por cima do edredão, mas já estava tão frio que nada me aquecia.
Fui tomar banho. Um duche quente. E tive sorte. A botija ainda tinha gás. Mas acho que se aproxima o dia em que vou ter de tirar o champô com água gelada.
Vesti-me. Olhei pela janela. Tudo escuro, lá fora. Nem o candeeiro público estava a funcionar. Este país está como eu. Nas últimas.
Fui até à sala acender a lareira. Tentei. Tentei bastante. Gastei uma caixa de acendalhas. A porra das acendalhas ecológicas. Podem ser ecológicas, mas não acendem nada. Resolvi o assunto com um livro. Prenda de Natal. Nem sei o que era. Quinta-Feira e Outros Dias, rezava assim na capa. Muitas folhas. Óptimo para a lareira. Que se lixassem as acendalhas ecológicas. Nada como o bom do papel saído directamente do eucalipto.
Lareira acesa. O calor a começar a invadir a sala.
Fome.
Fui para a cozinha. Abri a porta da despensa. Olhei em volta. As prateleiras estavam vazias. Fui ao frigorífico. Não estava melhor. Só garrafas. Cerveja. Vinho branco. Coca-Cola. Abri o congelador. Vodka.
No fundo, admiro-me. Sei que não aguento muito a sede. Tenho de ter sempre uma bebida à mão. E tenho.
Descobri uma lata de salsichas. Um cachorro à antiga. Nada daqueles hot-dogs de salsicha grande e grossa cozida ou aquecida em vapor, deitada num pão com textura de bolo com três dias na companhia de uma horrorosa batata-palha (quem é que inventou esta merda?) e submersa pela trilogia de molhos industriais-chunga mayonese-mostarda-ketchup. Não, nada disso! Um cachorro vintage.
Cortei as salsichas ao meio. Um bocado de azeite numa frigideira. Um dente de alho, esmagado. As salsichas lá para dentro. Duas carcaças duras na torradeira. Esperar. Um bocadinho, não muito. Virar as metades das salsichas. Barrar a parte de baixo da carcaça torrada com manteiga Primor. Dispor as metades das salsichas sobre a manteiga, com a parte cortada virada para cima. Despejar um bocado de mostarda Paladin. Sem medo. Apertar bem a embalagem. E mexer a mão, em curvas, sobre as salsichas na carcaça. Colocar a outra metade da carcaça por cima. Estava feito.
Não tinha vinho tinto. Não me apetecia branco. Estava cheio de cerveja da véspera. Fui para o vodka. Há ligações improváveis que acabam em bons casamentos.
A casa já estava quente com a lareira a queimar lenha, roubada no Pinhal do Rei, na sala. Três shots de vodka aqueceram-me ainda mais.
Mas o que me soube mesmo bem, foi aquele cachorro-quente vintage vindo directamente do meu passado. Até me passou a neura pela ausência de luz do dia.
O que fazer com as horas que me restavam até voltar para a cama? Talvez tentar uns números de telefone. Talvez descobrir quem é que gostava de vodka. Ou de vinho branco. Tinha João Pires. As senhoras gostam de João Pires. É frutado. Agarrei no telemóvel. Comecei pelo A.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/30]

Avanço Nu pela Casa

Estou sentado na cama. Como ontem ou como nos outros últimos dias. Mas não bem como nesses outros últimos dias. A janela está aberta e entra luz do dia. Acordei com a luz do dia. Dormi a noite inteira.
Ainda me dói o corpo. Uma parte do corpo. Ainda vejo umas imagens difusas de uma queda, de várias quedas, do meu corpo a não se suster, a cair sobre não-sei-o-quê, de sangrar e de não me conseguir manter quieto, parado. Mas estou calmo. Tranquilo. Não transpiro. Vejo o sol lá fora na rua e imagino que vai estar um dia quente. Um dia de Verão nesta Primavera tão invernal.
Estou sentado em cima da cama. Quase como nos outros dias. Ainda me passam umas imagens pela cabeça que me deixam uma certa tristeza. Umas ausências.
Olho para o lado, na cama, e descubro uma pequena folha de papel Bom-dia! Há café feito. Fresquinho. Beijo!
A casa está em silêncio.
Saio da cama. Coloco os pés nus no chão de madeira e sinto um certo frio agradável que sobe pelo meu corpo.
Olho à volta. O quarto não me é familiar mas não me é desconhecido de todo. Já aqui estive.
Avanço nu pela casa fora. Vou à procura de qualquer coisa. Não sei bem o quê.
Alguém. Uma torrada. O cheiro do café fresco acabado de fazer como dizia o papel ao meu lado na cama.
Vou olhando para a rua através das janelas por que vou passando e vejo as pessoas nas suas vidas diárias. E penso que, a determinada altura, também eu vou ter de me vestir e sair lá para fora.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/18]