A Cidade-Subúrbio

Desço à cidade. Às vezes dá-me para isso. Desço à cidade para matar saudades. Normalmente arrependo-me. O passado não regressa e, este presente parece envenenado.
Vejo as montras das lojas da cidade transformadas em montras de lojas chinesas. Máscaras. Mentiras. Enganos. Roupagens tipo. Super-homens. Super-mulheres. Cowboys. Índios. Polícias. Bruxas. Princesas, tantas princesas. Médicos. Enfermeiras (não deixo de reparar na dimensão extremamente curta da bata das enfermeiras e do seu enorme decote) – parece a montra de uma sex-shop, mas não é, é uma montra de loja que, se não é de chineses é de alguém que lhes quer roubar o monopólio do mau-gosto da má-qualidade e baixo-custo.
Coço-me ao ver as roupas. Imagino-as sintéticas. Sinto arrepios pelas costas. Os pêlos dos braços eriçam-se. Sinto comichão. Coço-me. Coço-me até fazer sangue nos braços.
O Carnaval está abandalhado. Parece que as Matrafonas de Torres Vedras com as suas meias de vidro rotas e soutiens XXL coçados e com roupas de mulheres de outros tempos, de cores que já nem me lembro o nome, em corpos de homens musculados e peludos, sem curvas nas ancas e sem saber andar em saltos-altos, tomaram de assalto o país. Parece que somos um imenso subúrbio.
Por outro lado, está tudo asséptico. Procuro nestas montras e não vejo. Onde estão as bombinhas de Carnaval? Os estalitos que se lançavam ao chão e assustavam as moças? Os estalitos que rebentávamos nas mãos fechadas em concha como pipocas a pipocar num tacho ao lume? As bombinhas de mau-cheiro? Os fulminantes para as pistolas de cowboys? As pistolas de água, que enchíamos com água tintada e, às vezes, de outras coisas que jurámos nunca revelar?
Entro num snack-bar que não reconheço. É novo, parece. Ouvi dizer que nos últimos tempos têm aberto e fechado restaurantes e cafés e pastelarias à medida de vários por semana. Toda a gente acha que pode gerir um estabelecimento de restauração. Depois descobrem que aqueles horários e aquela vida não estão de acordo com a família. Abrem e fecham. Abrem e fecham. Abrem e fecham.
Ao balcão peço um extracto de Absinto. Não há. Uma Ponte de Amarante. Não há. Uma Macieira. Não há. Um brandy Croft. Não há. Uma 1920. Não há. Uma Aldeia Velha. Não há. Então, o que há? Há um gin muito bom, com muitas coisas a boiar, que custa oito euros. Peço uma imperial que vem morta.
Regresso à rua.
Acendo um cigarro.
Hoje não há sol. O dia está cinzento.
Pergunto-me o que é que vim aqui fazer?
Os carros caminham parados uns-atrás-dos-outros. Ninguém tem pressa. Ninguém tem para onde ir. Já foram ao Shopping. Agora estão ali. Uns-atrás-dos-outros. A encher a cidade de gases tóxicos. Quem se passeia a pé, como eu, o único a pé na cidade, é que sente o cheiro da gasolina queimada. Salva-me o cigarro. Acalma-me.
Vou embora. Regresso a casa. Regresso a casa arrependido.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/16]

Obrigado, 25 de Abril!

Avisaram-me.
Cabeça baixa. Olhos nos pés. Aproveita e vê se os sapatos estão bem engraxados. Ninguém gosta de gente desmazelada.
Não levantes a voz. Agradece. Diz Sim, senhor! Obrigado, senhor! Pois não, senhor! Tem razão, senhor!
Junta as mãos. Uma na outra. Não as deixes abandonadas. Vagabundas. Especialmente, não as deixes nos bolsos. Ninguém gosta de gente demasiado descontraída. E vê se não agarras nada que não seja teu.
Não olhes nos olhos. Ninguém gosta de gente insolente.
Não refiles. Não refutes. Não contradigas.
Quando fores ao Banco, quando fores à Caixa, quando fores à Câmara, quando fores ao Centro de Saúde, mesmo quando fores ao Hospital ou à Cadeia, leva a melhor roupa. Apresenta-te bem. Cose as meias. Cose as cuecas. Cose os fundilhos. Lava os sovacos. Lava as orelhas. Os olhos. Os dentes. Põe brilhantina no cabelo. Apresenta-te bem. Essas instituições representam o país. O teu país. Respeita-as.
Quando passares por uma imagem do chefe, curva-te. Em respeito. Quando passares por uma imagem de Deus, curva-te e benze-te. Em respeito. Quando te cruzares com alguém mais importante que tu, e há dez milhões de gente mais importante que tu neste país, dá passagem.
Quando vires a bandeira, glorifica-a. Quando ouvires o hino, emociona-te.
Sê humilde. Generoso. Poupado.
Não faças o que não deves. Não ambiciones o que não podes. Não desejes o impossível.
Não discutas.
Não peças.
Aceita.
Quarenta e cinco anos depois ainda caminho curvado sobre os meus pés enfiados numas sapatilhas rotas que arrastam o meu corpo inchado e flácido.
Quarenta e cinco anos depois recebo um salário de 600 euros. E não é o que levo para casa.
Quarenta e cinco anos depois não tenho dinheiro para pagar a prestação da casa. Do carro. Do telemóvel.
Quarenta e cinco anos depois não tenho dinheiro para pagar a conta da luz. Da água. Da televisão. Do cabo. Da Internet.
Quarenta e cinco anos depois não morro de fome porque me ajudam. Quarenta e cinco anos depois tenho o que vestir porque há lojas chinesas.
Mas quarenta e cinco anos depois trago debaixo do braço um livro, vários livros, muitos livros. E ninguém diz que não os posso ler. Ninguém me proíbe de os ler.
Quarenta e cinco anos depois posso olhar-te nos olhos e mandar-te para o caralho!
Obrigado, 25 de Abril.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/23]