Estação de Serviço

Não devia ter feito o que fiz. Mas estava ali, mesmo à minha frente. Peguei no envelope de cartão, meti-o no bolso e vim-me embora. Até me esqueci do que tinha ido lá fazer.
A freira tinha-me feito entrar na sala do padre. Ele vem já, disse-me. E eu sentei-me. E olhei à volta. Um escritório austero. Alguns livros. Poucos. Uma Bíblia em cima da mesa. Um terço em cima da Bíblia. Um quadro na parede. A única decoração. Não, a única não. Também havia um jarro com um molho de flores campestres em cima da mesa. Na mesma mesa onde estava um candeeiro, uma caneca com umas canetas, um bloco A5 e um computador portátil. Um cinzeiro. Com cinzas. O padre fuma. Será pecado, fumar?
Encostado ao computador estava um envelope de cartão. Como um maço. Cheio. Grosso. O que seria aquilo?
E a minha curiosidade.
Levantei-me e agarrei o envelope. Abri-o. Era dinheiro. Notas. Notas de cinquenta euros. Muitas. Um grosso maço de notas de cinquenta euros. Não pensei. Foi automático. Enfiei o envelope grosso no bolso do casaco. E fui-me embora. Saí da sala. Saí do edifício e evitei encontrar as freiras. Entrei no carro e vim embora.
Já nem me lembrava do que me tinha lá levado. E interessa isso, agora?
Agora preciso de gasolina. O combustível do carro está a entrar na reserva. Estou… Nem sei onde estou. Estou algures por aqui, no meio do que me parece ser um mato, uma floresta. Não vejo um carro há bastante tempo. Não vejo uma casa. Nada. Podia parar e ver quanto dinheiro está no envelope. Mas para quê? É muito. É simplesmente muito.
E ali à frente? Olha! Uma Estação de Serviço. Nem de propósito. Vem mesmo a calhar.
Paro ao lado de uma bomba. Saio do carro. Enfio a agulheta no depósito e ligo a mangueira. Encho o depósito. Olho à volta. A Estação de Serviço parece abandonada. Um pouco desleixada. Não deve cá passar muita gente. Está um pouco abandonada. Mas tem gasolina. Ouço o clique da agulheta a avisar o depósito atestado. Vou à loja pagar. Pago em dinheiro. Dinheiro do envelope.
Arranco com o carro. Vou sair da Estação de Serviço. Mas não saio. A estrada está mesmo ali, mas o ali mantém-se sempre lá. Eu conduzo em direcção à estrada mas parece que a estrada mantém sempre a mesma distância de mim, como se esse horizonte acompanhasse a minha viagem e não me deixasse aproximar. Olho para trás e vejo que continuo na Estação de Serviço. Não estou a conseguir sair. Que raio?!
Páro o caro. Saio. Caminho a pé até à estrada. E acontece o mesmo. A estrada vai-se afastando de mim. Não permite a minha aproximação. Eu começo a correr, mas tudo se mantém na mesma. A estrada afasta-se de mim. Não, não se afasta. Mantém é sempre a mesma distância. Como se eu não conseguisse aproximar-se dela.
Volto para trás. Volto a entrar dentro da loja. Não está ninguém. Dou uma volta aqui dentro. Mas não sei o que estou a fazer. Não há aqui ninguém. Volto para a rua. Volto a entrar dentro do carro. Arranco. Arranco mas não consigo sair de onde estou. Bato com a mão no volante. Desligo o carro. Acendo um cigarro. Não devia estar a fumar aqui, mas não consigo sair. Tenho de fumar.
Chega um carro. Finalmente um carro. Não via nenhum desde que entrei nesta estrada. Um casal. Ele fica a pôr gasolina no carro. Ela vai à loja. São um casalinho novo. Ainda devem estar apaixonados. Oh, que porra! O que é que isso interessa?
Olha, ela já lá vem. Traz uma garrafa de água. E o quê? Umas bolachas. Abraça-o. Dá-lhe um beijo. Entra para o carro. Ele arruma a agulheta e também entra no carro. Eu ponho o meu carro a trabalhar. Espero por eles. Ele arranca com o carro. Ela vai relaxada, com os pés no tablier. O carro chega à estrada e entra nela. Eu arranco imediatamente atrás do carro. Mas não o consigo alcançar. Eu fico para trás. Ele vai estrada fora. Desaparece de vista. E eu aqui. Na Estação de Serviço.
Volto a sair do carro.
Dou umas voltas a pé. Aqui à volta. Apago o resto do cigarro com o pé. Vou à casa-de-banho. Entro, mas não sei o que é que estou aqui a fazer. Não me apetece urinar. Abro a torneira. Molho a cara. Vejo-me ao espelho. As gotas de água escorrem pela cara abaixo. Penso no envelope de dinheiro. E penso que não devia ter feito o que fiz.
Saio da casa-de-banho.
Aproximo-me das bombas e vejo que está lá uma carrinha. A Estação de Serviço deve estar na hora de ponta. Há uma freira a encher o depósito da carrinha. Uma freira? Dentro da carrinha, várias crianças a cantar. Não sei o que estão a cantar. Mas estão a cantar. A freira que está a encher o depósito também trauteia qualquer coisa de vez em quando. Acaba de encher o depósito e vai à loja. Uma freira?
Eu olho em volta. As mãos na cintura para me ajudarem a pensar. Para me ajudarem a decidir. Vou ao carro. Agarro no envelope. Dirijo-me à carrinha da freira. Abro a porta do lado do condutor. Está outra freira sentada à frente. Canta com os miúdos. Meto a cabeça lá dentro e digo Boa-tarde, irmã!, e a freira e os miúdos param de cantar. Ela cumprimenta-me com um Boa-tarde! E eu replico Estudei num colégio de freiras em miúdo. Também cantávamos umas canções assim. Despertou-me uma nostalgia. Cantem, cantem! E a freira sorri e recomeça a cantar. Os miúdos vão atrás dela. Deixo-me estar ali um bocadinho. Deixo cair o envelope com o dinheiro no porta-luvas da carrinha. Sem ninguém dar por nada. Agradeço com a cabeça e com um enorme sorriso na cara. E faço gestos com as mãos para eles continuarem a cantar. E eles continuam. Eu fecho a porta da carrinha e vou para o meu carro. Entro. Sento-me ao volante. E espero.
A outra freira vem da loja. Entra na carrinha. A carrinha arranca e entra na estrada.
Eu estou agarrado ao volante. Respiro fundo. Dou à chave. O carro começa a trabalhar. Meto a primeira. O carro arranca. Meto a segunda quando me aproximo da estrada. Estou à espera que o horizonte acompanhe a velocidade do carro. Mas não. Entro na estrada. Acelero. Meto a terceira. A quarta. A quinta. A sexta. As árvores passam a grande velocidade por mim. Suspiro. Tenho o coração a bater muito depressa. Mas sinto-me aliviado. E vou estrada fora. Uma estrada no meio do mato. Preciso de uma cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/02]

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Uma Raspadinha para Dulce Maria Cardoso

Comprei uma raspadinha. Comprei uma raspadinha de um euro. Agarrei numa moeda de cinco cêntimos e raspei logo ali o cartão. Tinha pressa. Tinha pressa em aumentar o meu pecúlio.
Prémio. Dois euros.
Comprei duas raspadinhas. Comprei duas raspadinhas de um euro cada. Agarrei na mesma moeda de cinco cêntimos e raspei logo ali os dois cartões. Tinha pressa. Tinha pressa em ganhar mais prémios.
Nada no primeiro cartão.
Prémio no segundo. Vinte euros. O homem abriu a caixa registadora e deu-me uma nota. Uma nota azul. Agarrei-a e estalei-a entre os dedos das mãos. E disse-lhe Tens destino.
Corri à livraria da esquina. Pedi A Eliete se faz favor. Desculpe…, disse a menina ao balcão que não percebeu o que eu tinha dito. Refiz-me A Eliete da Dulce Maria Cardoso, edição Tinta da China, se faz favor. Abriu os olhos e as sobrancelhas acompanharam-nos para cima, em arco, e pediu Um momento, por favor e agarrou-se ao computador. Escreveu lá umas coisas. Clicou em teclas. Fez scroll. Andou para baixo e para cima. Com o rato, clicou em vários sítios. Depois saiu detrás do balcão e foi pôr-se a olhar para uma estante. Mirou-a por momentos. Aproximou a cara. Os olhos. O nariz. Afastou-se. Virou-se para mim e disse É só um momento, por favor, saiu da loja e entrou por uma porta que se fechou nas suas costas.
Fiquei sozinho na livraria. Olhei em volta. Tanto livro que poderia levar comigo, pensei. Roubar livros não devia ser considerado crime, continuei. Agarrei num livro à sorte. Virei-o e tentei ler o texto da contra-capa. Não era fácil. Afastei o livro para longe da vista e li. Já não recordo o que li. Já não recordo que livro era. Mas a rapariga voltou a entrar na loja. Não roubei nenhum livro.
Vi a capa laranja nas mãos da rapariga. Estendeu-me o livro e sorriu nervosa. Agarrei-o Estendi-lhe a nota de vinte euros. Deu-me algumas moedas de troco. Sentei-me no pequeno café da livraria e pedi um café. As moedas deviam chegar, pensei. Estava com urgência de começar a ler o livro.
Abri a capa. Olhei o papel de entrada, uma espécie de flores-borboleta num pé-de-feijão vermelho, com umas cristas cremes em fundo preto. Aproximei o nariz. Cheirei o livro. Gosto do cheiro dos livros novos.
Chegou o café. Esqueci-me de pôr açúcar. Bebi-o assim. Amargo e quente. De uma vez. E fiz uma carantonha. Queimei a língua. Soprei. Virei a folha e vi o logótipo da Tinta da China. Virei outra folha e li Eliete A Vida Normal. Virei de novo e li Eliete Parte I A Vida Normal Dulce Maria Cardoso Lisboa Tinta-da-China MMXVIII. Virei outra vez a folha. Li a ficha técnica. Já não me recordo. Mas sei que avisava 1ª edição: Novembro de 2018. E depois, na página ao lado, Ao Clude e à Ru. Ao Tomás e ao Vicente, recém-chegados a este desmundramento. Virei novamente a folha e li em epígrafe Y no sabe morir ni vivir: Y no sabe que el mañana es tan sólo el hoy muerto. Dulce María Loynaz.
E finalmente, no virar de página seguinte, a entrada em Eliete Eu sou eu e o Salazar que se foda. Um ditador governa Portugal quase meio século, quase outro meio passa desde a sua morte, até que aparece na minha vida. De repente, foi como se sempre aqui estivesse estado e tomasse conta de tudo. Eu não podia deixar que isso acontecesse.
Foda-se, que gosto tanto desta gaja!

[escrito directamente no facebook em 2019/06/17]