I Feel Lois

Entrei dentro da sala e ouvi Bom-dia! Balbuciei qualquer coisa que nem eu ouvi. Depois disse o meu nome. E ouvi Desculpe? e pensei Desculpar o quê? mas vi a interrogação na cara da rapariga e repeti o meu nome. Ela sorriu e disse Peço desculpa mas ainda não percebi, e eu voltei a repetir o meu nome. Mais alto. Ela voltou a sorrir-me, olhou para o ecrã, tocou numa teclas e disse Aguarde na sala, por favor, e eu acenei silencioso com a cabeça e fui sentar-me na sala.
Estava nervoso. Fico sempre nervoso.
Há muitos anos, a caminho do exame de matemática do nono ano, estava tão nervoso que a barriga refilava comigo. Sentia a barriga revolver-se. Ouvia-a resmungar. Baixava aos intestinos e tudo por ali parecia estar em revolução. Tudo dentro de mim parecia vivo e com vontade de sair. Eu ia a pé, a caminho do colégio. De vez em quando tinha de parar. Parava e ficava muito direito, quieto. Para tentar dominar a dor e o mal estar que me consumiam. A vantagem é que enquanto pensava na barriga, não pensava no exame. A desvantagem é que enquanto pensava na barriga não conseguia pensar na matemática. Já não sabia nada. Nada de nada. Estava num terrível dilema. A que é que eu devia dedicar a minha atenção? Aos nervos que me afectavam os intestinos? Ou aos nervos que me impediam de pensar na matemática?
Tudo acabou por ser resolvido. Não por mim. Mas também por minha causa. Ao chegar ao colégio para fazer o exame, fui mandado de volta a casa porque não podia entrar de calções na sala de exame. Aquele tempo não era como o tempo de hoje. Aquele tempo requeria uma certa ordem no caos civilizacional. Naquele tempo o respeito tinha normas. Uma rapariga não podia ir fazer o exame de cai-cai e, um rapaz, não podia ir fazer o exame de calções. Calções eram para crianças do ensino básico. Um rapaz já é um homem e um homem não anda de calções.
Não sei o que é que isso diz de mim mas, hoje em dia, no Verão, só uso calções. Talvez tenha regredido. Talvez esteja a regressar à infância. Talvez esteja a viver a minha versão muito pessoal de Benjamin Button.
Voltei a casa. Tirei os calções. Vesti umas calças de ganga. Umas Lois. Naquele tempo era a marca que vestia. Lois…
Ooh, I feel love, I feel love
I feel love, I feel love
I feel love
Era o que a Donna Summer cantava no anúncio das Lois e que a fonética transformava em…
Ooh, I feel lois, I feel lois
I feel lois, I feel lois
I feel lois
As Levis chegariam mais tarde.
Eu vesti as calças de ganga Lois e regressei ao colégio. Ainda cheguei a tempo. Já estava toda a gente na sala mas o exame ainda não tinha sido distribuído. E com tudo isto, esqueci-me dos nervos. Sentei-me. Fiz o exame. Respondi sem pensar muito no assunto. Fui o primeiro a acabar. Fui o primeiro a entregar a folha com as respostas. Fui o primeiro a sair da sala. Vim a ter a melhor nota do colégio nesse ano. Com direito a um postal de parabéns assinado pela freira que tinha sido minha professora de matemática e que sabia que, o que tinha acontecido, fora um milagre. Eu tinha-me esforçado. Mas devo ter tido ajuda do divino. Ainda hoje não sei realmente o que aconteceu. Talvez os nervos. Ou a sua ausência. E então, fui levantado em ombros com toda a gente a gritar o meu nome. O meu nome. O meu nome.
Afinal era só a rapariga da clínica a chamar-me. Olhei-a, interrogativo, e ela disse Já o chamaram várias vezes, e eu levantei-me e pus-me a percorrer o enorme corredor labiríntico que levava a várias salas até chegar à sala que me estava destinada.
Entrei. O médico-dentista estendeu-me a mão para me cumprimentar e eu vi-o de alicate na mão a enfiar-me o alicate na boca e a arrancar-me os dentes à força, e o sangue a jorrar da boca, e eu a chorar, cheio de dores a pensar que nunca mais iria poder pão alentejano torrado com manteiga, quando percebi que já tinha sido tratado. Afinal, tudo acontecera rapidamente e de forma indolor. A primeira fase do tratamento já tinha acontecido. O médico-dentista estava a mostrar-me um raio-X e a explicar o que me tinha feito. E eu estava orgulhoso de mim. Aguentara estoicamente a bárbara invasão da minha boca para tratar dos meus dentes, quando percebi que, afinal, ainda faltavam mais duas fases.
Voltaram as dores de barriga.
Despedi-me do médico-dentista.
Paguei na rapariga à entrada da clínica. E ela disse, Depois telefonamos a marcar a próxima fase. E foi nessa altura que decidi deixar de pagar a conta do telemóvel.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/11]

Eu Também Sou uma Vítima

Os meus anos de liceu foram complicados.
Era um miúdo enfezado. Aluno mediano. Algumas borbulhas. Vestia a roupa que a minha mãe escolhia. Tinha poucos amigos. Ou nenhum. As miúdas não me viam e era sempre dos últimos a ser escolhido para as equipas de desporto. Mesmo nos trabalhos de grupo era sempre dos últimos a ser escolhido. E até era mais ou menos aplicado. Mas os outros miúdos tinham tendência a não me ver ou a esquecer-me. Quase sempre ignorado. Era raro ser convidado para as festas de aniversário dos outros. Mesmo na rua as coisas também não eram muito melhor. Na rua tinha um grande amigo. O único. E passava os dias de férias sempre em casa dele.
Eu nasci já os meus pais eram velhotes. Pareciam meus avós. Fui uma espécie de restolho. O último de três irmãos. O mais fraquito. Problemas respiratórios. Músculos atrofiados. Pés chatos. Vista curta, o que me levou a usar óculos desde sempre. Na escola não gostava de ginástica. Mas a ginástica também não gostava de mim. E os meus colegas evitavam ter-me na equipa. Não conseguia dar um chuto na bola. Não tinha força para levantar uma bola ao cesto. Uma nulidade no vólei. E, no andebol, não conseguia agarrar a bola que me passavam sem a deixar cair. Normalmente punham-me à baliza. Pior o soneto. Eu tinha medo das bolas. Das bolas lançadas com força pelos adversários. Fosse com os pés ou com as mãos. Virava as costas aos remates e, com sorte, a bola batia-me no corpo. Nódoa negra na certa.
Não era mau aluno, mas também não era um grande aluno. Era um aluno mediano. Mas era um aluno mediano para não dar nas vistas. Às vezes dava respostas erradas, mesmo sabendo as respostas certas, para que não achassem que eu era marrão. É que não era marrão, mesmo. Sabia as coisas com uma certa naturalidade. Mas isso ia levar-me para as luzes da ribalta e eu não gostava de ser o centro das atenções. Se fosse bom aluno tinha os maus alunos a pedirem para copiar por mim, para lhes fazer os trabalhos, para lhes explicar as coisas. E eu preferia não dar nas vistas. Durante todo o liceu esforcei-me por ser um aluno mediano. Dá trabalho ter que não ser bom.
Fisicamente era muito enfezadito. Pernas magrinhas. Sem músculos. Quase só pele e osso. Sem rabo. A pilinha pequenina e, até muito tarde, sem pêlos. Como a minha mãe dizia, um pau de virar tripas. Tive sempre muitas borbulhas. Mas como a barba também apareceu muito tarde, nunca tive muitos problemas por escavacar a cara borbulhosa. Simplesmente não precisava de fazer a barba. Mas isso também não me granjeou grande sucesso com as miúdas. Não tive nenhuma namorada durante os anos de liceu. Talvez fossem as borbulhas. Talvez fosse a minha inépcia para exercícios físicos. Talvez fosse não ter lábia para nada nem ninguém. O facto de vestir a roupa que a minha mãe me escolhia também não abonava muito em meu favor. Eu era um menino. Chegava a Primavera e a minha mãe insistia nos calções, meias de renda pelos joelhos e sapatinho de verniz. Claro que isto foi em criança. Mais velho ainda lutei pelas calças de ganga. E as sapatilhas. As sapatilhas foi mais fácil. Toda a gente usava Sanjo. A minha mãe também as comprou. Eram baratas. As calças de ganga foi mais complicado. Nunca consegui explicar porque é que as Lois eram as calças mais fixes. Tinha de me contentar com sucedâneos da feira de Sábado, como as Gois, as Loise e as Louise.
Durante os anos de liceu nunca fui dormir a casa de nenhum amigo. Nenhum amigo meu, dos poucos que ainda consegui ter, veio dormir a minha casa. Nem o meu melhor amigo lá da rua. Contam-se pelos dedos de uma mão às vezes que fui a festas de aniversário sem ser às da Malta da Rua. Dançar, só dançava em casa, frente ao espelho do guarda-fatos dos meus pais, quando eles não estavam em casa.
Foi só quando fui para a universidade que tive a minha primeira namorada. Namorada?! Uma miúda com quem tive umas experiências sexuais. Que não correram lá grande merda. Foi também com ela que tive as minhas primeiras experiências com drogas.
Aliás, para mim, o sexo e a droga andam juntos, percebes? Um traz o outro. É por isso que cheirei este frasquinho. Conheces? Queres cheirar? Vá lá! Só um cheirinho. Não? Pronto, está bem. Mas ia ajudar-te, sabes? Quando eu te espetar a faca. Porque eu vou espetar-te a faca. Tenho de te espetar a faca. Preciso de espetar-te a faca.
A culpa não é minha, percebes? Eu também sou uma vítima. A culpa não é minha. Eu tenho mesmo de te fazer o que te vou fazer. Não chores, vá lá. Não adianta. Eu tenho mesmo de te espetar a faca. Sabes, a culpa é da minha mãe. Não consigo deixar de pensar naqueles sapatinhos de verniz com uma fivela prateada. Tive de os levar para a escola várias vezes. Sabes que eu sou uma vítima, também. A culpa não é minha. Mas tenho de te espetar a faca.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/20]