Dia de Limpezas

Já limpei o quarto. Virei o colchão ao contrário e mudei o edredão que esta noite tive frio. Pensei que me sabia bem ter lençóis de flanela mas pensei logo de seguida Já não tenho dez anos. Limpei o pó das mesas-de-cabeceira. Arrumei os livros. Os que já tinha lido e os que aguardavam vez. Apanhei as meias e as cuecas que jaziam perdidas atrás da poltrona e debaixo da cama. Já tinha dado por falta desta roupa. Aspirei o quarto e continuei por ali fora e já aspirei o corredor.
Apetecia-me sentar e beber um copo de vinho tinto.
Mas vou continuar nas limpezas. Agora ataco a sala. Apanho as revistas. Muitas delas vão para o lixo. Penso no papel que estou a deitar fora. Há conjuntos do Expresso que vão para o lixo sem terem sido abertos. Os folhetos do Pingo Doce, Continente, Lidl, InterMarché e DeBorla que inundam a caixa do correio, viajam até aqui, à sala, e vão como chegaram, sem nunca terem sido vistos. Tanto lixo.
Limpo o cinzeiro. Já não me lembrava que o cinzeiro tinha este desenho no fundo. Há quanto tempo não via o fundo do cinzeiro?
Apetecia-me ir até à janela e fumar um cigarro.
Mas vou continuar nas limpezas. No sofá não há nada a fazer. Estas nódoas não vão sair. Como é que elas vieram aqui parar? Fui eu? E estes buracos? É dos charros. Das catotas que caem dos charros. Algum dia vou ter de mandar estofar este sofá.
Apanho copos sujos esquecidos um pouco por todo lado. Um deles está partido. Apanho os pedaços de vidro com cuidado.
Encho vários sacos de lixo. Tenho de ir levá-los à rua. Mas ainda tenho a casa-de-banho para limpar. Não gosto de limpar a casa-de-banho. Nem a cozinha. Acho que ficam para amanhã. Talvez venha cá alguém a casa e se compadeça. Quanto custará arranjar alguém para vir cá limpar a casa-de-banho e a cozinha?
Olho para a casa-de-banho e decido que tenho de fazer um esforço. Está nojenta. Há uns anos estive numa república em Coimbra numa casa antiga e a precisar de obras. A casa-de-banho estava como esta. O tecto está negro de bolor. Há mosquitos na parede.
Vou buscar uma vassoura. Molho um pano em água com lixívia e ato o pano à vassoura. Limpo o tecto. O tecto fica branco. A casa-de-banho ganha mais luz. Apanho os tubos de cartão vazios de papel-higiénico. Deito fora todos os restos de sabonete que já não têm cheiro nem limpam. Abro dois sabonetes novos. Deixo um no lavatório e outro na banheira. Deito fora toda uma colecção de frascos de plástico que nem sei o que são. Nem de quem são.
Coloco rolos novos de papel-higiénico. Mudo as toalhas. As que vão para lavar nem se dobram, tal a sujidade.
Como é que consegui viver assim durante tanto tempo?
Estou cansado. Precisava de descansar. Mas aproveito o embalo, ganho coragem, e vou para a cozinha. Limpo o fogão. Tem muita gordura. Uso Mistolin para desengordurar. Esfrego o surro dos azulejos. Nem reconheço a minha cozinha. Não estivesse tão cansado, até me apetecia cozinhar.
Mas telefono para a Telepizza. Mando vir uma pizza. Aproveito para tomar um banho antes da pizza chegar.
Ligo o duche. Dispo-me. Entro na banheira e deixo-me ficar debaixo da água quente que cai violenta sobre o meu corpo. Sinto-me cansado. Muito cansado. Sinto-me adormecer. Mas não posso adormecer. Tenho de tomar banho. Tenho uma pizza a chegar. Estou cansado. Sinto-me desfalecer. Está-se bem debaixo desta água quente que me conforta. Apetece-me dormir. Acho que me vou deixar adormecer. Sinto-me na cama feita de lavado. Gosto do cheiro dos lençóis lavados. Frios. Sinto-me estender ao longo da cama grande. O meu corpo cresce para acompanhar a cama. O barulho do duche embala-me. Estou cansado. Tão cansado!… Acho que vou dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/25]

O Móvel

Levei o móvel velho para junto dos caixotes de lixo. Esperava que os tipos da recolha o conseguissem levar. Talvez lhes desse jeito. Talvez servisse a alguém, agora que já não me serve a mim.
O móvel era dela. Ela foi embora. O móvel também.
Vejo o móvel cá de cima, da janela da sala. Gostava do móvel. Mas não o quero cá em casa.
Começou a chover. Uma chuva miudinha. O tempo escureceu de repente. Acho que a chuva virá aí com mais força. É pena o móvel estar lá em baixo, à chuva. Vai estragar-se. Mas não o vou buscar. Já o tirei de casa. Já não volta para cá.
Um homem aproxima-se do lixo. Olha para dentro dos caixotes. Tira um saco de plástico do bolso das calças e começa a enchê-lo com coisas que encontra dentro dos caixotes do lixo. Restos de comida, provavelmente.
Reparou no móvel. Abre as gavetas. Experimenta o peso. Acende um cigarro. Anda ali à volta do móvel. Está a apreciar. A avaliar. Tenta levantar o móvel. Tenta levantar o móvel com o cigarro a fumegar ao canto da boca. Não é pesado, deve ter pensado. Vai levá-lo.
Ficava contente se ele levasse o móvel. Gostava de saber que o móvel servia a alguém.
Vejo-o tirar mais sacos de plástico dos bolsos das calças. Com os sacos de plástico, prende as gavetas, umas às outras, através do puxadores. Depois dá mais umas voltas em torno do móvel.
O homem tira uma maçã do saco de plástico. Limpa-a à manga da camisa. Trinca-a. Senta-se no lancil do passeio a comer a maçã e a olhar para o móvel.
Eu acabo o cigarro. Vou à cozinha. Apago a beata na água da torneira do lava-loiças e mando-a para o lixo. Coço a cabeça. Sinto-me cansado. Começa a doer-me um dente. Apetecia-me ir ao cinema. Mas está a chover. Não vou sair de casa. Que importa o cinema? Vejo a novela na SIC. Passa-se na Nazaré. Talvez se veja o McNamara a surfar na Praia do Norte.
Tomo um Clonix. Tento parar a dor de dentes que se começa a fazer sentir demasiado.
Vou à despensa. Procuro vinho. O que há? Um Prado. O que é isto? Dão. Como é que veio aqui parar um Dão? Não gosto de me afastar do Alentejo, mas não sou esquisito. Venha o Prado.
Abro a garrafa. Sirvo um copo. Volto para a janela. O homem ainda anda lá em baixo. Está de volta das caixas de cartão. Encontra uma caixa grande. Desfaz a caixa. Abre o cartão, na sua totalidade, no chão. Puxa o móvel para cima do cartão. Faz um buraco no cartão. Enfia lá a mão e começa a puxar o cartão, com o móvel lá em cima, pela estrada fora. Vai devagar para que o móvel não saia do cartão. Sorrio.
Ainda bem que o móvel serve a alguém. Fico contente por ter contribuído.
Agora começa a chover com mais força. Coitado do homem.
Mas quando chegar a casa e mostrar o móvel à mulher, vai ter direito a festa. Sinto-me quase como uma alcoviteira.
Ainda não é noite mas o céu está bastante escuro. Acho que a chuva ainda vai piorar mais. Acho que vem aí um temporal. Espero que o homem chegue depressa e bem a casa.
Também me apetecia festa. Mas não consigo ser alcoviteira de mim mesmo. É pena. Uma festa ia bem. Ainda me dói o dente. Vou beber mais um copo de vinho Prado. Não é alentejano mas, não se pode ter tudo.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/21]

A Cápsula do Tempo

Abri a cápsula do tempo e mergulhei lá dentro. Nunca tive um sótão em casa dos avós. Nunca tive casa dos avós. Nem me lembro de ter avós. Sim, tive avós. Toda a gente teve avós. Ninguém é de natureza espontânea. Mas nunca os conheci. Já tinham morrido quando nasci. Os meus pais quase que podiam ter sido meus avós. Eram já velhos quando nasci. Mas a casa deles, que era a minha, não era uma casa de avós. Nunca tive um sótão, uma cave, um buraco cheio de memórias físicas de vidas que não fossem minhas mas das quais me poderia apropriar. Então criei as minhas memórias. O meu sótão. A minha cave.
Fiz a minha cápsula do tempo.
Não era grande. Não guardava muita coisa. Sempre fui de deitar tudo fora. Ou quase. As irritações levavam-me à destruição. Quando acabava uma relação, destruía todas as fotografias da relação, e outras fotografias minhas que me lembrassem a relação, e deitava no lixo todas as coisas que me tivessem oferecido, e as coisas que eu próprio tivesse comprado mas que me lembrassem o contexto que queria esquecer. Nem os livros escapavam. Acabei por ter muito pouca coisa para guardar na minha cápsula do tempo quando a resolvi criar.
Ao nadar dentro da cápsula do tempo, acabei por descobrir um texto escrito há muito tempo sobre o filme Solaris do Andrei Tarkovsky. Não era bem uma crítica nem uma análise sobre o filme. Era mais um estado de espírito motivado pelo visionamento do filme, em especial, o sonho, a mentira e o desejo que a estória constrói para mim.
Começava eu, um outro eu, num outro espaço e num outro tempo do multiverso Pensava que a morte era o fim de tudo. O fim das ideias. Das emoções. Do amor. Pensava, lá no seu íntimo, que o que ficava era somente uma sensação de vazio.
E já não estou a falar da personagem. A cápsula do tempo traz-me a minha visão da personagem Kelvin confrontado com a sua própria mortalidade, e descubro, ao fim de todos estes anos que, afinal, estava no passado a falar de mim no futuro que é já hoje presente.
Pergunto-me se é a profecia da minha própria morte que encontro nos escombros da minha memória em forma de cápsula do tempo? Não serei eu que caminho ao longo do corredor quando ouço a voz dela a chamar-me? Não serei eu a estancar o passo? A voltar atrás e descobrir um passado deitado nu sobre uma cama desfeita que já não está à minha espera porque já lá estive e já lá não posso regressar?
Dou aos braços no mergulho na cápsula do tempo. Nado através das memórias. Vejo algumas com um sorriso na cara. Outras deixam-me ansioso. Descubro uma cassete. Uma mixtape de músicas de outro tempo. Relembro os meus anos ‘80. Tanta coisa que já tinha esquecido! Mas também muitas outras que me acompanharam ao longo dos anos. Envelheceram comigo. Fico irritado porque não tenho onde ouvir a cassete. Algumas músicas ecoam-me na cabeça. Outras, pura e simplesmente esqueci. Gostava de voltar a ouvi-las. Tenho de ir a uma Feira da Ladra. Encontrar um leitor de cassetes que já ninguém usa. Que poucos sabem para o que servem.
Descubro, enrolado numa prata, aquilo que deve ser uma pedra de haxixe. Porque terei guardado aqui uma pedra? Porque é que não a fumei? E depois lembrei-me que deixei de fumar porque me dava paranóia.
Olhei para a pedra. Sorri. Pus a pedra no bolso das calças. Fechei a cápsula do tempo. Saí de casa.
Ando há duas horas à procura de tabaco. Já não se vende cigarros em lado nenhum. Ninguém tem um cigarro para dar. Tenho de pensar em alternativas. Queimar a pedra directamente e aspirar o fumo. Desfazê-la para dentro de uma tosta-mista. Pedir à minha vizinha de cima para fazer uns queques com a pedra. Devia ter guardado um maço de cigarros na cápsula do tempo. Para lembrar da época em que fumava e a vida me parecia muito mais simples e sofrível.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/28]

Há Gente Brilhante a Quem a Vida Vira as Costas

Quando o pai dele morreu, ele passou a estar a maior parte do tempo aqui em casa. Até que se mudou para cá.
Já cá passava bastante tempo. Era a escapatória a que se permitia. Tinha abdicado de tudo por causa do pai. Desistira de uma carreira no cinema por causa do pai. Desistira de ter uma relação amorosa por causa do pai. No início ainda ia tendo uns casos. Nada de muito sério porque ele também não queria. Tinha o pai para cuidar. Mas depois, mais para o fim, isolou-se e deixou de se dar com outras pessoas. Família. Amigos. As namoradas que foi tendo. Desligou-se de tudo. E foi fácil desligar-se de tudo. Deixou de sair. Deixou de ter telemóvel. Desligou-se das redes sociais. Depressa também foi esquecido. Passou a viver em função do pai. Cuidava dele. Dava-lhe banho. Vestia-o. Lavava-lhe a roupa. Cortava-lhe as unhas das mãos e dos pés, o que mais lhe custava fazer, chegou a dizer-me. Cozinhava. Levava-o a passear. Todos os dias o ajudava a dar umas voltas a pé à volta do parque em frente a casa. Aos Domingos pegava no carro e levava-o mais longe. À praia. Às vezes a almoçar fora. Uma vez levou-o a ver um jogo de futebol da União de Leiria, que ele já não via há que tempos. Outra vez foi de propósito a Lisboa para o levar ao Bingo. Mas o pai não gostou. Era tudo demasiado rápido para ele. Atrasava-se a confirmar os números. Uma vez chegou a deixar passar uma linha e, depois do grito de Bingo!, já foi tarde.
Entre os cuidados com o pai, ele vinha cá a casa. Bebíamos um vinho. Fumávamos uns cigarros. Conversávamos. Conversávamos muito. Ele lia bastante e gostava de discutir os livros que lia. Às vezes eu nem sabia do que é que ele estava a falar, mas deixava-o falar. Ele era um bom orador. Um orador entusiasta. E que entusiasmava.
Viviam da pensão do pai. A casa era alugada. O carro era do pai e era a única coisa de valor que ainda tinham. Mas já era um valor residual. Os carros começam a desvalorizar mal saem do stand, não é? Aquele carro tinha sido comprado em segunda mão. O valor já não era muito. Chegaram a ter um cão mas morreu já o pai estava reformado e ele a cuidar do pai. Nunca mais quiseram ter outro cão.
Quando o pai morreu, ele não sabia muito bem o que fazer. Passou ali uns tempos um bocado complicados. Estava há muito tempo afastado do mundo para voltar a ele assim, de chofre. Começou a passar mais tempo cá em casa. Até que se mudou em definitivo para cá. Fui eu que o sugeri.
O pai morreu e acabaram-se os cheques da pensão. Ao fim de algum tempo deixou de ter dinheiro. Ainda procurou trabalho. Mas não conseguia nada. Como é que havia de conseguir? Já estava velho para o mercado de trabalho. Ainda era um tipo novo mas, para qualquer trabalho, nos dias de hoje, havia sempre meia-dúzia de miúdos esfomeados prontos a matar por uma oportunidade. Alguns sujeitavam-se até a trabalhar sem receber na esperança de fazerem bom trabalho e serem convidados a ficar. Ele não se importou muito. Custava-lhe estar com outras pessoas. Cansavam-no.
Teve de deixar a casa. Ficou sem dinheiro para a renda. Para a água, para a luz, para o gás.
Convidei-o a ficar cá em casa. De qualquer forma já cá passava tanto tempo. Foi só trazer as suas poucas coisas. Deitou quase tudo o que tinha em casa para o lixo. Trouxe a roupa. A roupa e alguns livros. E o carro. Ainda andava e já ninguém lhe dava nada por aquilo.
Aqui em casa cozinhava. Limpava. Fazia pequenos arranjos. Mesmo coisas mais complicadas, não desistia enquanto não dava conta do recado. Tratava do jardim. Nunca saía. Passava a maior parte do tempo em que não estava a fazer nada na casa ou a cozinhar, a ler. Lia muito. Leu uma grande parte dos meus livros. Livros que eu nunca li.
E então um dia, cheguei a casa e ele não estava cá. Descobri um papel na cozinha onde estava escrito Desculpa. Só isso. Desculpa.
Depois descobri-o no fundo do poço que está no jardim. Jogou-se no poço.
Acho que a vida nunca o quis. E ele cansou-se de andar para aqui assim. Numa vida sem sentido.
Desculpa, escreveu no papel que deixou na cozinha. E foi só o que deixou. Desculpa.
Gostava de conversar com ele. Era um tipo inteligente. Um tipo que merecia ter mais do que o que teve. Teve azar na vida que teve. Há gente assim. Gente brilhante a quem a vida vira as costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/24]

Dez de Junho

Sinto-me preso. É o dez de Junho, o Dia de Portugal, o Dia de Camões, o Dia das Comunidades Portuguesas pelo mundo e eu sinto-me preso.
Estou num pântano. À minha volta charcos de água choca, mal-cheirosa. Pedaços de árvores caídas, partidas. Folhas a voarem. E lixo. Sacos de plástico. Sacos de plástico com motivos de supermercados. Sacos de plástico que custam dez cêntimos a unidade a voar, entre as folhas, como as folhas, de charco para charco, à procura de pouso.
Puxo um pé enterrado no lodo. Custa puxar o pé. Tirá-lo cá para fora. Tirá-lo cá para fora com botas e meias. Mas consigo. E mal o tiro, volto a enterrá-lo todo de volta nesta lama viscosa que me tenta engolir.
Não ouço um pássaro. Não vejo um animal. Não há um peixe aos meus pés. Nem um crocodilo que me queira puxar para as profundezas do charco e deixar-me apodrecer até querer ferrar-me o dente.
Estou preso e estou sozinho.
É o dez de Junho.
É o Dia de Portugal e estou sozinho neste país. Já ouvi muita gente falar. Agora está tudo em silêncio. Não há ninguém para dizer o que quer que seja. Não há ninguém que tenha qualquer coisa para dizer. Já se disse muito. As palavras perderam sentido. Nada queria alguma coisa. E tudo desapareceu. O país desintegrou-se. Entre as elites corruptas e a população desinteressada, foram todos atrás do flautista e lançaram-se ao mar no Canhão da Nazaré. Fiquei cá eu. Sozinho. Porque estava preso na lama. Com os dois pés presos. E sempre que conseguia tirar um, voltava a enterrá-lo. O caminho foi duro e cheguei tarde ao mergulho no Atlântico. Fiquei sozinho, não porque era mais inteligente que os outros, mas porque mais lento, mais parvo, mais idiota.
É o dez de Junho.
É o Dia de Camões e só me recordo da Taprobana, das ninfas do canto nono que não quiseram que eu lesse na escola e na pála negra no olho morto que recordo do filme de Leitão de Barros. Valha-me a memória do cinema tão mal-amado para me recordar uma vida morta e esquecida em compêndios que ninguém quer ler.
Que interessa o Luís Vaz de Camões e Os Lusíadas a uma terra queimada deserta de gente, de povo, de ideias?
Onde se enfiou toda a gente?
É o dez de Junho.
É o Dia das Comunidades que estão todas por aí, espalhadas pelo mundo. São estes os que foram à procura de mundo porque não encontraram cá nada para eles. Este mundo expulsou-os lá para fora como enteados.
Este é um país que não é pai. Este é um país que já não existe.
Ou sou eu que não o compreendo?
Estou sozinho.
Estou sozinho neste dez de Junho a tentar não sucumbir ao que vejo. E o que vejo eu? Um litoral a tombar no mar. Precipícios, penhascos, florestas, apartamentos, hotéis, campos de golfe à beira-mar que se separam do continente, se desfazem e caiem à água. Provocam ondas gigantes e levam um tsunami à América de Donald Trump.
Estou sozinho neste pântano mal-cheiroso. Estou sozinho e preso. Preso na lama que resta. Preso na lama que restou deste jardim à beira-mar plantado.
E para onde foi toda a gente? Para onde foram as pessoas? Caíram realmente todas no Canhão da Nazaré?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/10]

Uma Novela Gráfica

Peguei em Sabrina e sentei-me no sofá.
Estava calor. Demasiado calor para ir para o alpendre. Demasiado calor para me passear pela estrada deserta que passa aqui em frente a casa. Demasiado calor para subir às montanhas lá ao fundo. Mesmo que ainda adivinhe neve no cume. Demasiado calor para ir até à praia. Falta-me vontade para sobreviver ao caminho. Até o cão e os gatos estão deitados ali fora, à sombra. Em cima do pequeno charco formado pela torneira mal fechada.
Eu sentei-me no sofá com Sabrina nas mãos. As janelas abertas para fazerem corrente-de-ar. Sem grande sucesso.
Abri o livro. Comecei a ler e a ver. É uma novela gráfica. Duas irmãs encontram-se em casa dos pais. Casa que já foi delas, também. Mas já não é. Estão de passagem. Uma delas, Sabrina, foi cuidar da gata dos pais e acabou a dormir lá. A irmã chega. Contam histórias dos seus passados uma à outra. Depois venho a descobrir que Sabrina desapareceu. Depois descubro que Sabrina foi raptada. Depois ainda descubro que Sabrina foi morta. E a minha transpiração cai sobre as páginas do livro. As folhas ficam enfoladas. As cores das pranchas ganham vida. Ficam mais fortes. Saturadas.
Levantei-me do sofá. Procurei um cigarro. Encontrei-o na cozinha. Acendi-o. Olhei em volta. Tentei perceber se queria beber alguma coisa. Sim, queria beber alguma coisa. Mas não conseguia decidir o quê. Não conseguia decidir o que é que me apetecia beber. Olhei em volta. Vi uma garrafa de vinho tinto. Vi uma de gin. Abri o frigorífico. Vi cerveja. Uma garrafa de vinho branco já encetada. Uma garrafa de plástico com água lisa. Abri o congelador. Vi uma garrafa de vodka. Não consegui escolher. Não sabia o que é que me apetecia. Conclui que não me apetecia nada. A cinza do cigarro caiu ao chão. Larguei um palavrão. Apaguei o cigarro na torneira do lava-louça. Deitei a beata molhada no caixote de lixo. Regressei à sala.
Regressei à sala e sentei-me no sofá com Sabrina nas mãos. Recomecei. Descubro o marido de Sabrina. Ou será melhor dizer o viúvo? Mas aqui, neste momento, eu ainda não sei que ela está morta. Só mais à frente. Aqui acompanho a chegada do corpo de um homem ausente à vida de um amigo disposto a dar-lhe tempo e disponibilidade. Uma companhia. Depois percebo quem é. Porque está assim. Acompanho as notícias. A viralização do filme da morte de Sabrina. Mas nunca vemos nada. Só sabemos porque nos contam. Eles, os que vêm. E deprimem.
Sabrina é uma deliciosa depressão.
Olhei para o ecrã escuro da televisão. Não havia corrente-de-ar. Pousei o livro ao meu lado, no sofá.
Pensei na parte gráfica da história de Nick Drnaso e achei-lhe algumas semelhanças com os desenhos de Chris Ware. Traço claro. Linhas direitas. Tudo muito enquadrado. Muito gráfico. Quadrados iguais. O desenho nunca passa para além da linhas dos quadrados. As letras pequenas. Calmas. Tranquilas. Sabrina é uma história violenta contada de uma forma suave.
Olhei para a capa do livro. Olhei para o perfil de Sabrina. Tinha os olhos cansados. A luz baixou muito. Mesmo com os óculos já tinha dificuldade em continuar a ler. Decidi deixar o resto para amanhã.
E depois? Uma conversa sobre bola na televisão? Não! Não tinha pachorra! Estava com calor. Tinha as costas coladas ao sofá. Acho que me cheirava a chulé. Seria eu?
Às vezes gostava de ser uma novela gráfica. Uma história que se repetia de todas as vezes que uma leitura lhe dava vida. Enfim. Não sei bem o que quero. Para já continuo para aqui. A ver o ecrã escuro da televisão enquanto a luz do dia baixa lá fora e aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/30]

Na Pista de Manutenção

Fui dar uma volta. Fui dar uma volta a pé. Sinto-me inchado. Talvez mesmo um pouco gordo. Não que coma muito. Mas como mal. E estou muito tempo sentado.
Não vesti nenhum equipamento especial para ir dar a volta. Fui dar uma volta como quem dá um passeio. Calças de ganga. T-shirt. Sapatilhas. Levei um chapéu por causa do sol mas, como tenho o cabelo comprido, descobri-me como o palhaço Bozo quando me olhei no espelho do café onde parei para beber uma bica.
Sim, não tinha andado cinco minutos e parei no primeiro café para beber um café. Precisava de acordar. E vi um pastel de Tentúgal a olhar para mim. E como não queria que o café ficasse sozinho, ofereci-lhe o pastel. Soube-lhe bem. Sacudi as migalhas daquela espécie de massa filo que tombou sobre mim quando a trinquei. Sacudi-as para o chão. Voltei à minha caminhada.
Segui um caminho que passa por um pequeno jardim e que acaba por entrar pelo mato adentro. É uma espécie de trilho de manutenção, para onde vai gente correr vestida de cores coloridas, mas por onde eu nunca tinha passado. E fui.
Tanto ar fresco e puro começaram a dar-me azia. Tentei respirar pelo nariz. Não era fácil. Estava um pouco entupido. Fui insistindo.
Caminhei por entre o verde dos arbustos. Caminhei por baixo das ramagens das árvores. Caminhei paralelo ao rio. Nuns sítios onde o rio fazia uma curva, acumulava-se lixo. Uma quantidade indistinta de lixo. Plásticos. Garrafas. Embalagens de gelados. Preservativos. E coisas que, à distância, não consegui identificar. Havia também muito pólen a flutuar.
A meio do trajecto descobri um pequeno bar de apoio. Com umas mesas e umas cadeiras numa pequena esplanada no meio da natureza. Cheguei-me ao balcão e olhei para o que havia no interior. Nada de convidativo. Vi uns pacotes de Capri Sun (devem ser os sucessores do Capri-Sonne). Umas garrafas de água de plástico da Makro. Uma máquina de café Nespresso. Uns pastéis de nata e uns rissóis já ressequidos. Perguntei por aguardente. Sim, havia. Caseira. Sem rótulo. Numa garrafa de cinco estrelas. Nem sabia que ainda existiam. Pedi um cálice de aguardente. Bebi de um gole. Pedi um segundo copo. Acendi um cigarro. Virei-me ao contrário e encostei-me ao balcão. Para ver quem passava por ali.
Acabei de fumar o cigarro. Acabei o segundo bagaço. Ninguém passou.
Paguei e fui embora. Regressei à minha caminhada.
Ao fim de algum tempo comecei a ficar farto de verde e de árvores. Ansiava por um pouco de cheiro a gasóleo. Barulho de motores de automóveis. Gente a discutir. Confusão.
Não, é mentira. Não ansiava nada. Mas já estava um bocado farto desta cena tão bucólica.
Acabei por sair do mato.
Regressei ao asfalto. Já tinha passado quase uma hora desde que saíra de casa. Já tinha caminhado bastante.
Merecia um prémio.
Passei por uma cervejaria. Fui para o balcão. Uma imperial. Não havia tremoços. Mas havia azeitonas. Com azeite e alho. E orégãos. Bebi duas imperiais.
Fui para casa.
Andei cerca de hora e meia a caminhar.
Ainda me sentia inchado. Com um pouco de azia.
Acho que esta coisa de caminhadas não é para mim.
Precisava de me sentar frente ao computador. Abrir uma página em branco. E ficar a olhar para ela com um cigarro a fumegar na mão.

[2019/05/16]