Naquela Altura os Dias Eram Luminosos

Já não quero mais escrever estas coisas que tenho vindo a escrever. Cada dia se torna mais difícil. Já não consigo utilizar canetas nem lápis. Não as consigo agarrar. Tenho dificuldades com as mãos. Arranjei uma máquina de escrever, daquelas antigas, daquelas da minha infância, onde uma letra na ponta de um pequeno ferro era projectada numa folha pelo martelar dos dedos num plástico quadrado com o mesmo símbolo. Já parti um dedo no martelar constante. Parti as unhas dos dedos indicador e do meio de ambas as mãos. Os quadrados de plástico estão com sangue seco. Por vezes já não se vê a letra correspondente. Mas eu sei de cor o sítio de todas as letras e continuo infatigável a escrever o que eu tenho de escrever para que fique registado no papel antes de partir. E esperar que o papel se preserve. Que não arda nem se molhe. Que resista mais que eu.
Os dias estão muito mais curtos. Já são poucas as horas em que há luz do dia. Aproveito essas poucas horas. Preciso deixar escrito que as coisas não foram sempre assim. Que já houve uma época em que o sol brilhava de manhã à noite. Em que havia um tempo em que chovia, outro em que fazia frio e outro ainda em que fazia calor. E passeávamos na praia, à beira-mar e subíamos às montanhas e escorregávamos sobre a neve.
Preciso deixar escrito que já houve uma altura em que as pessoas riam e ouviam-se gargalhadas, e havia mesmo quem achasse que era feliz. Preciso deixar escrito que o mundo não foi sempre assim. Assim como é agora. Cinzento. Triste. Húmido. Um mundo de fim do mundo.
No entanto, começo a estar fatigado. Fatigado do esforço que faço para martelar nas letras e escrever as palavras que, umas a seguir às outras, vão fazer sentido e contar histórias, histórias reais, histórias que eu vivi quando a vida ainda não era assim como é hoje. Mas também estou fatigado de reviver estas memórias e o peso que elas carregam. Farto de perceber que estragámos tudo, estraguei tudo, e agora não há nada que nos valha. Depois de mim, o quê? O que é que irá restar quando as últimas memórias se extinguirem? Quem é que ficará? O que é que ficará por cá? Que forma de vida pode sobreviver a este Inferno na Terra?
Enrolo um bocado de barba-de-milho numa folha que rasguei da Bíblia. Toco-lhe fogo. Deixo o fumo invadir-me os pulmões. Acalma-me. Aquece-me. Ajuda-me a lembrar. Fazia-me jeito um copo de vinho tinto.
Sento-me à frente da máquina onde vou martelar a história. Junto à janela. Preciso do máximo de luz para ver o que faço, o que escrevo. Antes que o dia se vá embora outra vez.
E começo:
Ela tinha nascido há pouco tempo. Ainda era quase uma boneca de trapos a que eu e a mãe tínhamos de prover tudo. E se ela ralhava se não lhe fizéssemos o que queria! Abria a boca e libertava os pulmões. Um barulho ensurdecedor entrava de rompante pelos ouvidos e, ao início, ficávamos sem saber o que fazer. Depois habituámos-nos. Havia choro para tudo. Fome. Fralda molhada. Dor de barriga. Ausência de sono. Necessidade de atenção. Calhandrice. Rabo tremido. Ah, o que ela gostava de estar aos solavancos no colo.
Ainda tinha semanas de vida e começámos a levá-la à piscina. Saíamos de casa ao fim do dia. Ainda era de dia. Naquela altura os dias, os fins de dia, eram luminosos. O sol ainda andava pendurado lá por cima. O céu era azul. Fazia calor. Eu levava-a num carrinho. Passávamos a estrada para o outro lado da rua, entrávamos pelo jardim dentro e percorríamos os caminhos até ao outro lado e, enquanto caminhávamos, ouvíamos os pássaros (sim, naquela altura ainda haviam pássaros, milhões deles), cheirávamos os odores das várias flores que se espalhavam por todo o lado, entre as árvores, à volta do coreto, a sublinhar a esplanada onde algumas pessoas liam livros, jornais, bebiam uma cerveja, fumavam um cigarro, trocavam um beijo, e desviávamos-nos das outras crianças que andavam por ali a brincar aos índios e aos cowboys, aos polícias e aos ladrões, alguns passavam de bicicleta, outros de trotineta, outros ainda de skate mas esses só nas zonas em asfalto que as rodinhas não rolavam na terra batida.
Saíamos do outro lado do jardim e entrávamos no complexo. Íamos directos às piscinas. Entrava nos balneários dos homens com ela. Despia-me, vestia os calções, despia-a a ela, vestia-lhe um fato de banho pequenino, e o colete por cima e entrávamos dentro do pavilhão da piscina aquecida. Ela começava logo aos pulos mal via os tanques cheios de água. Queria ir lá para dentro. Então eu entrava, com ela ao colo, e depois largava-a. E ela punha-se a nadar. Sozinha. E eu sempre ali à volta, atento, a ver se era preciso alguma coisa.
A maior parte das vezes a mãe também ia. Íamos os dois. Esses dias eram mais fáceis. Ora um, ora outro, conseguíamos ter tempo para mergulhar e dar umas braçadas. Fazer umas piscinas. Gastar energia. Alongar o corpo. Nadar de um lado ao outro. Às vezes mais que uma vez. Ainda tinha forças.
Quando cresceu ainda andou na natação. Ainda ganhou umas provas. Levou umas medalhas para casa. Estiveram penduradas no quarto dela. Até acontecer o que aconteceu. E o que aconteceu foi o fim de todas estas memórias.
Não sei durante quanto tempo mais vou conseguir continuar a escrever. Dói-me reviver estas lembranças. Ela foi um dos milhões de crianças que morreram naquelas primeiras horas. Aqueles dias foram muito duros.
Já há muitos meses que não vejo uma criança. E também se torna difícil cruzar-me com outras pessoas. Os tempos estão perigosos. As pessoas afastam-se. Vivem isoladas. Saem somente para procurar alguma coisa para comer, o que se torna cada vez mais difícil de encontrar. Os stocks das lojas e dos supermercados já foram quase todos pilhados há muito. Agora, resta-nos a respiga. A segunda volta aos mesmo sítios para ver se sobrou alguma coisa. Eu já pus umas sementes na banheira. Enchi a banheira de terra e enfiei lá umas sementes que encontrei. Mas ainda não nasceu nada. Não sei se ainda vai a tempo de nascer. Não sei se ainda irei ver alguma coisa a brotar da banheira.
Já não tenho mais luz para continuar. Vou ficar por aqui. Vou embrulhar-me na minha manta e tentar fechar os olhos. Estou cansado. Se amanhã ainda estiver por cá, vou tentar contar outra história. Para verem como éramos antes. Como fomos felizes. E como estragámos tudo.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/22]

Eu e Ela e a Índia

Tínhamos passado as férias de Natal daquele ano no alpendre de casa dos meus pais.
Enquanto toda a gente andava atarefada a comprar presentes e a preparar a noite de consoada e a fazer preparativos para a Passagem de Ano, eu e ela passávamos os dias inteiros no alpendre lá de casa a ler, a ouvir música e a conversar. Às vezes apareciam por lá alguns amigos e jogávamos ao Monopólio e ao King. A minha mãe fazia chá de menta que nos mantinha quentes e uns biscoitos de manteiga que nos aconchegavam o estômago. Ao mesmo tempo foram umas férias de provação. Nem eu nem ela fumávamos à frente dos meus pais e, estando toda a gente ali por casa durante aqueles dias, acabámos por estar as férias sem fumar um único cigarro, com excepção da noite de Passagem de Ano, que passámos sozinhos lá em casa, e quando fumámos um cigarro já passava da meia-noite, oficialmente já era outro ano, e foi para selar a primeira noite de sexo do novo ano.
Naquelas férias lemos bastantes livros. Eu andava obcecado com os livros do Harold Robbins e tinha convencido a minha mãe a mandar vir alguns deles através do Circulo de Leitores. Durante esses dias despachei Os Aventureiros, Uma Mulher Só e O Pregador. Ela lia outras coisas. A Campânula de Vidro da Sylvia Plath e O Fio da Navalha do Somerset Maugham. Ouvíamos muito Jam e Durutti Column. Falávamos dos livros que estávamos a ler. Falávamos mais que discutíamos porque só um de nós é que tinha lido o livro. Mas ouvíamos o outro com toda a atenção do mundo.
Às vezes eu parava de ler e olhava para ela, compenetrada na leitura, e via-lhe o cabelo longo, de um castanho escuro e brilhante, e lá no meio, quase escondidas, umas argolas enormes de prata que eu lhe tinha oferecido num aniversário e que lhe ficavam muito bem, davam-lhe um ar de cigana chique, uma espécie de Stevie Nicks, mais nova, mais bonita e muito mais lá de casa. Eu sentia-me um tipo com muita sorte.
Também conversávamos muito sobre as viagens que queríamos fazer num futuro não muito longínquo. Ainda nunca tínhamos ido a lado nenhum assim longe. Íamos muitas vezes ao Pedrogão, a São Pedro de Moel, até já tínhamos ido a Lisboa e uma vez ao Porto, mas nunca tínhamos ido assim para fora, em viagem, a conhecer o que não conhecíamos, a ver coisas novas, a aprender o que nos era novo. Mas tínhamos esse desejo. Então falávamos de quando acabássemos os cursos, quando arranjássemos bons empregos, empregos bem remunerados, e todas as viagens que iríamos fazer com o dinheiro dos nossos salários. Eu queria muito conhecer as Américas. A América do Sul e Central. Ela estava mais virada para a Índia. Queria conhecer o Rajastão. Concordámos que o melhor era irmos aos dois sítios. E era isso que pretendíamos fazer. Nesse final de ano ainda chegamos a comprar um Lonely Planet sobre a América do Sul. Folheávamos o livro à vez. Descobríamos países baratos. E cheios de história.
Depois passou o Natal, passou a Passagem de Ano, fumámos o nosso primeiro cigarro no ano novo depois de termos tido a primeira noite de amor no novo ano e as aulas estavam quase a começar.
E foi no primeiro dia de aulas que tudo aconteceu. Aliás, na manhã do primeiro dia de aulas o que levou a que não houvesse aulas nesse primeiro dia. Nem nos dias seguintes. Pelo menos para nós.
Eu tinha saído de casa a pé. Passei por casa dela. Ela não morava longe de mim, também não morava propriamente ali ao lado, mas ficava a caminho da escola.
Ela já estava à minha espera à entrada de casa. Demos um beijo. Demos as mãos. E fomos para a escola.
Estávamos já perto da escola, estávamos a chegar à passadeira onde cruzávamos a estrada para entrar na escola, ela estava já a parar ao pé da passadeira, estava a preparar-se para olhar para um lado e para o outro e ver se podíamos passar a estrada, naquela altura havia sempre muito trânsito com todos os pais que vinham trazer os filhos à escola, quando ouvimos um barulho, um barulho que se parecia com uma bomba a rebentar ali perto, e parámos, assustados, nervosos, a olhar para todos os lados para perceber o que estava a acontecer, quando surgiu um pneu, um pneu muito grande, um pneu de camião, a rolar sozinho pela estrada, galgou o passeio, voou, veio pelo ar e acabou por atingi-la em cheio na cabeça.
Ela tombou de imediato. Senti a mão dela a despegar-se da minha. Vi logo uma mancha de sangue a escorrer pelas pedras da calçada portuguesa. E o pneu continuava a sua caminhada durante mais algum tempo até acabar por se enfaixar na montra de uma livraria, um pouco mais abaixo, mas isso eu já não vi, foi-me contado depois porque, nesse momento, eu já estava debruçado sobre ela a tentar parar o sangue, a tentar acordá-la a fazê-la lembrar que tínhamos muitas viagens programadas para fazer e não podíamos fugir às nossas próprias combinações.
Acabou por chegar uma ambulância. Eu também fui. Também fui numa maca. Estava com sangue. Acharam que eu também tinha sido ferido. No hospital fui visto. Não tinha nada. Mas estava muito ansioso. Estive com uma psicóloga. Mais tarde soube que ela já tinha chegado sem vida ao hospital. Morrera durante o trajecto. Tinha levado uma grande pancada na cabeça com o pneu do camião.
Cinco anos mais tarde fiz a minha primeira viagem à Índia. Fui sozinho. Bem, sozinho, não. Fui com ela. Passeei pelo Rajastão. Passeei com ela pelo Rajastão. De cinco em cinco anos regresso à Índia. Sozinho. Sozinho com ela.
Hoje lembrei-me dela, e desta pequena história, porque se está a aproximar o dia de mais uma viagem à Índia. E eu nem era grande entusiasta da Índia. Mas passear por lá com ela, é outra história. Ela faz-me reparar em tudo o que eu não iria reparar, nas cores, nos cheiros, nas roupas das mulheres, nas caras marcadas dos homens que vou encontrando pelas ruas, na musicalidade da língua, mesmo quando falam em inglês. É ela que me tem guiado pelos caminhos de uma Índia que sempre quis conhecer. E todos os cinco anos lá vamos. Deixo tudo para trás e abalo. Eu e ela. Eu e ela na Índia.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/12]

Não Gosto

não gosto de dias frios em que não possa caminhar junto ao mar, nem de silêncios forçados e choros de tristeza, não gosto de flores mortas nem de plástico, de árvores arrancadas pelas autarquias e florestas ardidas, não gosto de ver crianças despidas, rotas e com fome, nem crianças a trabalhar quando deviam estar a brincar, não gosto da traição, da mentira e da ganância como também não gosto de quem não gosta de nada, não gosto de massada de peixe, de açorda com alho, ensopado de borrego, tofu e seitan, mas como, que remédio tenho se não comer, e também não gosto de cerveja morta nem de garrafas de vinho vazias, de água morna e café frio e muito menos queimado nem de pastéis de nata muito doces, não gosto da minha neura nem do meu tédio mas não lhes consigo fugir, especialmente ao domingo, um dia de que não gosto, dia de ir à missa, a que já não vou, mas ia em novo para estar com as miúdas giras da minha rua, e também não gosto da segunda-feira nem da terça, nem de nenhum dos outros dias da semana quando tenho de fazer tudo aquilo que não quero nem me apetece nem gosto, e também não gosto nada de fascistas nem de comunistas, não gosto de quem quer mandar em mim como se recebesse um contrato divino, e não gosto do liberalismo económico nem do desespero a que vota a maior parte dos homens, mulheres e crianças que não são empreendedores, porque nem todos podemos ser empreendedores e para uns serem outros não podem ser, e sim, também não gosto de ter de ser empreendedor, e não sou, também não gosto de ler livros com folhas dobradas, riscadas ou rasgadas, nem com areia da praia na cota, e é por isso que não levo livros para a praia, também não gosto de ouvir música em streaming, nem de ver filmes no computador, e não gosto que queiram que seja igual a toda a gente que se parece, nem gosto de ter respeitinho por quem não o merece, nem de maços de cigarro vazios e muito menos da carteira vazia, leve e vazia, não gosto de pão do pingo doce no dia seguinte nem da banana muito pisada, não gosto das manchas de bolor nos meus casacos nem nos tectos da casa-de-banho, não gosto que façam mal aos animais e muito menos às pessoas, em especial às mais frágeis, não gosto mesmo nada de déspotas nem de idiotas e por isso não gosto do trump nem do bolsonaro do maduro do putin ou do boris johnson, não gosto das chamadas insistentes das operadores de telecomunicação para me vender mais um pacote muito em conta quando se aproxima a data do fim da fidelidade, e também não gosto do bife muito bem passado, nem da pasta empapada, não gosto de ir às finanças, à segurança social ou ao banco, nem a lado nenhum cheio de burocratas acéfalos que não ouvem um pedido de ajuda, e não gosto de ter frio na cama e de dormir sozinho nessas noites, também não gosto quando ejaculo precocemente, quando vomito, embebedo e fico maldisposto, não gosto de calçar sapatos nem botas, nem de usar fato e gravata, também não gosto de um dia vir a ser careca, mas antes sê-lo, e sê-lo bem rapadinho, que atravessar a cabeça, de um lado ao outro, com meia dúzia de cabelos, não gosto de cortar as unhas nem as das mãos nem as dos pés, nem de fazer a barba nem de me pentear, não gosto dos ataques de bronquite nem os de asma, não gosto de me constipar nem de espirrar para cima das outras pessoas, muito menos gosto que me falte o colo da minha mãe quando estou doente, e não gosto que não compreendam que quando estou doente estou quase a morrer mesmo que não seja verdade, e já não gosto de acampar mas já gostei quando era mais novo e menos burguês, também não gosto de tunas académicas nem do quim barreiros, de música pimba em geral e dos modern talking em particular mesmo que sejam alemães e até se expressem muito bem em inglês, e também não gosto de ver novelas brasileiras, mas já gostei, nem das portugueses, mas já vi, nem gosto do prós e contras nem de nenhum dos programas de futebol em que só se fala e grita e injuria e afinal ninguém joga, também não gosto quando dizem mal do cinema português que até é muito bom e o que falta é criação de públicos e pessoas informadas e cultas para depois não votarem em políticos boçais e burros, não gosto que haja dinheiro para bancos e não para a cultura, não gosto no que as cidades se estão a tornar nem da visão mercantilista de quem as governa, não gosto da lama que me prende o passo nem da laje que me faz escorregar, não gosto da ignorância e não me importo que não gostem de mim

[escrito directamente no facebook em 2020/01/08]

Gosto

gosto da primavera, de namorar raparigas jovens e menos jovens, já vividas e cheias de estórias para me contarem e gosto do cheiro das flores campestres, de mergulhar no rio, no açude, no lago, nu, e de me deitar sobre as margaridas e deixar-me aquecer pelo sol do meio-dia, e de ler livros deitado na relva, no sofá, sobre a cama, gosto de ler philip roth e mário de sá-carneiro, cormac mccarthy e baudelaire, rimbaud e cocteau e não esquecer camus, borges e cortázar, gosto de sumo de laranja fresco, peixe assado nas brasas, frango de churrasco, e pão acabado de fazer em panificadoras, gosto de rosas e malmequeres, de fumar cigarros e um charro de vez em quando, gosto de ir à escola agora que já não vou, gosto de desenhar mesmo não sabendo, e de matemática, literatura e poesia, gosto da poesia do al berto, da szymborska e do joan margarit, gosto de chupar as azedas que encontro à beira da estrada, de festas de aniversário em garagens onde eu sou o dj, gosto de beber cerveja, loira, stout ou blanche, gosto de tremoços e pevides, castanhas de caju e amendoim torrado, gosto de passear de mão-na-mão, de mãos transpiradas de desejo e de antecipação, gosto de cortar o cabelo muito curto para refrescar a cabeça, usar desodorizante, calçar sapatilhas e vestir t-shirts, gosto de passear pelo país, conhecer as praças das cidades, vilas e aldeias, e gosto do verão, do calor do sol a queimar-me o corpo e a dificultar-me a respiração, gosto de vestir calções e calçar chinelos, gosto da praia e de mergulhar nas ondas do mar, de beber um gin numa esplanada à sombra de uma árvore, de um vodka antes de jantar, de uma pizza em forno a lenha, de uma salada de rúcula e tomate cherry, queijo feta e iogurtes naturais com granola caseira, gosto de ver os jogos olímpicos e o mundial de futebol, que também pode ser o europeu, gosto de banda-desenhada, do hergé e do hugo pratt, do comés e do frank miller, do lostal e do bilal, gosto de água das pedras e coca-cola e não, não pode ser pepsi, mas pode ser zero, sem cafeína ou light e com uma rodela de limão, gosto de amêijoas, berbigão, mexilhão e conquilhas, navalheiras, camarão de moçambique e da figueira da foz, gosto muito de limonadas sem açúcar, do bafo quente do interior alentejano, da costa vicentina e do sotavento algarvio, gosto das festas das aldeias perdidas no interior e das grutas de alvados, gosto das serras d’aire e dos candeeiros e de caminhar por elas, gosto das imperiais no lebrinha, de ver os girassóis a girar, de melancia, melão e meloa, de beber um tinto esporão, um verde alvarinho, gosto de adormecer na praia, ver as suecas em topless, jantar na rua, na varanda ou no quintal, olhar as estrelas, e sonhar ser o starman, também gosto do outono, do casaquinho de algodão, dos óculos escuros que uso o ano inteiro, de música, muita música, dos beatles e dos stones, dos velvet underground e do nick cave, dos joy division, dos jesus and mary chain e dos chameleons, mas também gosto do nick drake, do leonard cohen e do david bowie, dos mão morta, dos pop dell’arte e dos gnr com vítor rua e alexandre soares, de bolas de berlim com creme, da chuva que molha tolos e do cheiro da terra molhada, gosto do fim das férias, do início das aulas, dos cadernos novos, de livros novos, do regresso à vida de todos os dias, do benfica e da união de leiria, gosto de viajar para longe e saber que regresso, gosto de conhecer o que não conheço, de visitar o rainha sofia sempre que possível, de arroz de cabidela, de raparigas despenteadas pelo vento, de lábios carnudos pintados de red velvet, de peitos pequenos médios e grandes, de pernas em meias de vidro pretas, de música ao vivo em salas escuras e sombrias e em jardins luminosos, gosto de ler jornais em papel, sujar os dedos com tinta, desligar a televisão, jogar ao monopólio e ao risco, gosto dos dias a encurtar e as noites a crescer, gosto de dormir acompanhado, de fazer sexo, mas gosto mesmo é de foder, de gritar alto na rua às duas da manhã, de ouvir as persianas a serem levantadas e gente a ralhar comigo, gosto de passear à chuva à beira do rio, e também gosto muito do inverno, da lareira acesa e a lenha a crepitar, de uma morcela de arroz e um chouriço assado, de uma bifana grelhada nas rulotes ao pé do mercado da cidade, gosto de arroz doce e rabanadas, filhoses e sonhos, gosto do frio que me recorda a vida, gosto de filmes e de teatro, do wenders e do godard, da anna karina e da monica vitti, gosto de estar sentado numa sala e ver os actores ao pé de mim, gosto de tempestades, de relâmpagos e do som cavo de um trovão, gosto de tocar campainhas e de sobreviver ao natal e à passagem de ano, gosto de sentir que o mundo está a acabar para me agarrar com unhas e dentes ao tempo que me resta, gosto do meu pai e da minha mãe, dos meus filhos, mesmo os que não sei que tenho e os que não são meus, gosto de todas as mulheres que foram mulheres da minha vida, e gosto muito das saudades que tudo isto me dá, gosto de escrever, ler e aprender, gosto de cozinhar e de comer, gosto de dançar, pular e rir, gosto de estar com pessoas e brincar com os amigos, mesmo que não sejam muitos, gosto das minhas memórias, mesmo as falsas, gosto muito de viver mas, não tenho medo de morrer

[escrito directamente no facebook em 2020/01/07]

Tudo Me É, Cada Vez Mais, Impossível

Aproximo-me de mais um final de ano. Passou mais um ano. Mais um ano de merda que não deixa saudades.
Continuo a fumar um maço de cigarros por dia. Dois maços ao Sábado. Bebo uma garrafa de vinho tinto por dia. Não diminuí a quantidade mas diminuí a qualidade. Agora bebo mais barato. E não bebo antes de almoço. Como cada vez pior. Estou mais gordo. Excesso de pão. Muitos hidratos de carbono. Fritos. Cerveja. Caíram-me mais dois dentes. Andei um mês a Clonix e não resolvi nada. A minha boca é uma mina toda rebentada. Já não sei de que lado posso mastigar melhor e sem provocar dor. Estou a perder muito cabelo. Não o cortei para manter a ilusão de que continuo jovem e cabeludo. Rock’n’roll, motherfucker! Mas as entradas já são demasiado grandes para esconder, por mais que eu tente chegar-lhes cabelo para cima. Por outro lado, tenho cada vez mais pêlos a sair do nariz e das orelhas. A barba cresce de forma desordenada. Tenho algumas peladas. Os músculos dos braços estão caídos por força da gravidade. A barriga tomba por cima do cinto. O meu umbigo parece um buraco negro cada vez mais fundo e a acumular maior quantidade de cotão. A pila está cada vez mais pequena e com maior dificuldade em excitar-se. Já não a vejo cá de cima. O rabo também está com muitos pêlos e eu nem sabia que isso era possível. Tenho cada vez mais dificuldade em cortar as unhas dos pés. Maior dificuldade em me dobrar. Já não sei qual a melhor maneira para conseguir cortar as unhas. Os ataques de bronquite são cada vez mais frequentes e mais violentos. Tenho a sensação que o Ventilan já não faz efeito. Já estou à espera de ver os pulmões saltarem boca fora num ataque de tosse.
O dinheiro escorre-me pelos dedos. E só não escorre mais porque não há mais para escorrer. É só pagar. A água. A luz. O gás. O cabo. O telemóvel. A renda da casa. A prestação do carro. A prestação do computador. A prestação da máquina de lavar roupa. A prestação do frigorífico. E a sensação que quando acabar de pagar qualquer uma destas coisas estarei a precisar de as substituir. O esquentador anda a dar-me sinais. A torradeira já só funciona num dos lados. Os trabalhos que me pedem são cada vez mais espaçados. Ninguém quer pagar por coisas que não consideram. Ninguém lê. Toda a gente escreve. Ninguém quer saber de cinema. Toda a gente faz filmes. Toda a gente tira fotografias. Os grande fotógrafos já não são os que têm um olhar extraordinário, mas os melhores corpos nos sítios mais exóticos para selfies de inveja. Os fotógrafos de sucesso não estão nas revistas ou nos jornais, estão no Instagram e no Facebook.
O Continente continua a vender livros de merda. Algumas livrarias continuam a desconhecer o livro. Há quem trabalhe em livrarias como se trabalhasse num café e não precise de formação nem de conhecimento. Não sabem o que é a Douda Correria nem a Língua Morta. Desconhecem Alberto Pimenta e Vasco Gato (aqui descobrem uma edição da INCM – wow!) Mas ninguém se importa. Ninguém quer saber. A ignorância é o novo orgulho. Eu é que sou parvo. O livro é só mais uma mercadoria. E quem é que ganha?
Estou muito sedentário. Cada vez saio menos de casa. Cada vez mais a janela é o meu contacto mais directo com o mundo imediato da minha vizinhança. Mas desconheço os meus vizinhos e também não os quero conhecer.
Hoje, véspera das vésperas, dei a volta a mim próprio e saí de casa. Estou na Afficion. Estou na única esplanada do Sítio sobre a Nazaré. A melhor vista da zona. A dificuldade que é encontrar lugar numa esplanada que tem doze mesas e a melhor vista sobre a vila e o mar da Nazaré e eu estou aqui sentado. Está sol. Vejo as Berlengas lá ao fundo. Uma neblina paira sobre os Salgados. O mar, lá em baixo, está calmo. Há gente na praia mas não está ninguém a tomar banho. Não vejo o ascensor a funcionar. Já levantaram o estádio do Futebol de Praia que costuma manter-se no areal por meses a fio. Mas está montado um pequeno palco para a festa de final de ano. A Nazaré está tornada uma feira. Uma feira simpática, por enquanto. Quantas pessoas vão morrer no mar, nesta festa de final de ano?
Há muita gente a caminhar ao longo da calçada marginal. Chega-me, ao nariz, o cheiro de sardinhas assadas. Sardinhas assadas nesta altura do ano? Ontem também acordei com um manto de azedas no quintal lá de casa. Por vezes nem parece que estou em Dezembro tal a Primavera que o assaltou. Já nada me surpreende. Os meus amigos defendem Donald Trump, Jair Bolsonaro e André Ventura. Não, já nada me surpreende.
As gaivotas voam aqui à volta. Gralham muito. Não sei se ralham comigo se andam maldispostas com elas próprias. Aparece-me uma imperial aqui à frente. Bebo um gole. Dois. Sabe-se bem. Não gosto de sair de casa mas quando saio gosto de ter saído.
Vejo gente muito estranha à minha volta. Alguns até são portugueses. Ouço-as falar. Depois percebo que o estranho devo ser eu. Sou o único sozinho. O único de t-shirt. O único a fumar. Está toda a gente a comer, a petiscar, a beber vinho. Eu sou o único a beber uma imperial, a única coisa que o meu bolso consegue pagar.
Finalmente vejo os ascensores a funcionar. Vai um a descer e outro a subir. Cruzam-se a meio. Mas há também muita gente a pé. A subir a encosta pelo caminho serpenteante que vem lá de baixo até cá cima. Vejo um grupo de escuteiros a descer a encosta a pé. São um grupo grande. Com a mesma farda. Rapazes e raparigas. Vão contentes, a brincar uns com os outros. Vão a caminho de 2020. Eu também vou. Mas vou sem grande vontade.
Cai o sol. Tomba a noite. O horizonte está vermelho. Parecemos estar em Agosto. Isto anda tudo trocado. Mas que sei eu? Os inteligentes dizem que sempre foi assim e assim há-de continuar a ser. Acho que vejo as luzes de São Martinho do Porto e da Foz do Arelho. Tão longe e tão perto.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/28]

Um Murro nas Trombas

Caminho pela ecopista. Levo máquina fotográfica e tiro algumas fotografias. Não as mostro a ninguém. Nem eu jamais as vou ver. Acumulo cartões de memória cheios de fotografias e filmes que nunca mais vejo depois de os registar. Vão ficar para memória futura da minha vida nesta época. Uma memória a quem interessar.
Vejo ao fundo a vila. À volta há aldeias. Um pouco por todo o lado há casas. Pedreiras a esventrar a montanha. A zona é muito ruidosa. Não há um enquadramento vazio, selvagem, sem rasto de intervenção humana.
Passo por dentro de um túnel. Regresso ao céu aberto numa nesga e retorno a um segundo túnel. Está frio dentro dos túneis. Caem pingos de água do tecto. Um deles acerta-me na cabeça. Sinto-o contornar-me o crânio e escapar-se pescoço abaixo e enfiar-se pela costas. Dá-me um arrepio. Depois desaparece absorvido pela camisola.
Deixo o segundo túnel para trás e páro para fumar um cigarro. O trajecto está vazio de gente. As pessoas devem andar às compras no Centro Comercial. Está um bom dia para andar na rua. Não está frio. Não chove. Está…
Sinto um aperto no coração. Penso se não será do tabaco. Mas percebo logo que não.
Passo o ano a fugir. Passo o ano a pensar numas coisas para não pensar noutras. Esquecendo-as, esqueço-me da tristeza.
Levo com a época em cheio nas trombas. Sem aviso. Num sítio sem história, a fumar um cigarro e a ver como lá ao fundo, e visto aqui de cima, tudo é tão pequeno, as pessoas, a vida, os problemas.
E zás.
Materializa-se dentro do coração. Provoca-me uma lágrima que tento reprimir e ainda digo Que raio! como se não soubesse a que se deve, mas sei.
Eu bem tento não ligar à quadra, às festas, ao apelo constante do amor ao próximo, à família, ao reencontro. E, no entanto, ela chega. Forte. A ausência. A minha e a deles.
Não consigo parar a enxurrada de água que galga dos olhos para fora. Sento-me na cerca de madeira que circunda o caminho e não deixa as pessoas perderem-se ao longo da pista, sento-me com as pernas para fora, sobre o penhasco, lá em baixo a vila, o castelo, que está lá em baixo embora esteja numa colina, sento-me lá, na cerca, a fumar o cigarro e a pensar nas ausências. Digo Merda de Natal! como se o Natal tivesse culpa, alguma culpa dos nossos problemas. Dos meus problemas. Mas sei que não é o Natal que me incomoda. É esta alegria a que sou alérgico. Uma alegria obrigatória como obrigatório é comprar coisas, não importa o quê, coisas, muitas coisas, livros, discos, jogos, roupa, meias e a porra dos Ferrero-Rocher que andam de casa em casa até que finalmente alguém os come, ninguém sabe quem.
Sento-me na cerca de madeira a fumar um cigarro e pergunto-me se ainda se lembram de mim. E não sei a resposta. Ou tenho medo de saber.
Quero que passe rápido o Natal e eu possa voltar ao esquecimento. Prefiro esquecer que sentir a minha ausência na ausência deles.
Apago o cigarro contra a madeira da cerca. Levo a beata apagada na mão. Esqueci-me que tinha a máquina fotográfica nas mãos e bato-a contra a madeira da cerca. Porra! Regresso à minha vida de olhos molhados e o coração desfeito. Ainda o sinto bater, mas bate descompassado. Um coração em segunda-mão, com certeza. Um resto que ninguém quis.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/22]

Uma Vida Simples

Simplicidade. É ao que reduzi a minha vida. À simplicidade.
Mudei de casa. Aluguei um T1. Um quarto, uma sala com uma kitchenette e uma casa-de-banho com polibã. Duas janelas para a rua com vista desafogada. Vejo, ao fundo, a cidade.
Vendi todos os móveis. Os que não consegui vender, ofereci à Remar. Fiquei com o colchão da cama e um estrado com pernas. Dois conjuntos de lençóis. Um edredão e uma manta. Uma mesa e duas cadeira. Uma panela. Dois pratos. Duas tigelas para sopa. Dois conjuntos de talheres. Uma colher-de-pau. Uma faca de serrilha para cortar o pão. Uma faca de corte. Uma tábua de plástico para cortar coisas. Uma saca de pano. A kitchenette já tem um pequeno fogão de placa de indução. Um frigorífico pequeno, com uma gaveta pequena para congelar. Há também um esquentador inteligente mas que só espero usar no Inverno.
Vendi toda a minha roupa. O que não consegui vender, ofereci à Cruz Vermelha. Fiquei com dois pares de calças. Duas t-shirts. Duas sweat-shirts. Uma camisola. Quatro pares de meias. Quatro cuecas. Um casaco de meia-estação e um grande, de Inverno, quente. Fiquei com um par de sapatilhas, umas botas e uns chinelos de borracha, de enfiar entre os dedos.
Fiz um contrato com uma cabeleireira da cidade. Vendo-lhe o meu cabelo, quando o corto, uma vez por ano.
Vendi o carro. A mota. A bicicleta. O skate. A televisão. A alta-fidelidade. A máquina fotográfica. A Lomo. A câmara de filmar. Vendi os livros. Todos os livros, com excepção dos livros do Philip Roth e do Alberto Pimenta que esses vou querer reler para o resto da minha vida. Vendi os discos de vinil. Os CDs. Os DVDs. As bandas-desenhadas. Fiquei só com A Balada do Mar Salgado do Hugo Pratt. Vendi tudo o que não pudesse transportar comigo se tivesse que partir, rápido, com uma mochila às costas.
Deixei de fumar. E se me custou! Deixei de beber álcool. Qualquer tipo de álcool. Mesmo o vinho tinto. O que me custou! Deixei de comer fritos. Passei a comer sopa. Muita sopa. Um frango assado de vez em quando. Pão com manteiga é a minha dieta. E fruta. E legumes.
Fiquei com o computador e o telemóvel.
Deixei de ver futebol. Mesmo os jogos do Benfica. E foi, talvez, o mais difícil de fazer, largar assim os jogos do Benfica. Tenho medo da ressaca.
Deixei de ir ao cinema. Ao teatro. A concertos. Deixei de comprar livros. Discos. Filmes. Descarrego música e filmes ilegalmente em torrents da internet para não morrer estúpido e porque o que quero ver nunca aparece cá pela cidade. A cidade só nos dá aquilo que acha que nós queremos ver, não aquilo que nós queremos realmente ver. Muito menos se forem poucas pessoas a quererem ver. Larguei a televisão. Não vejo mais os telejornais. De nenhuma estação. Nem os comentários do Luís Marques Mendes.
Passeio a pé pela cidade. Procuro os poucos jardins ainda existentes. Tento entrar nas redes sociais mas o sinal de wi-fi da rede pública é miserável.
Deixei de frequentar os centro comerciais. Mesmo os da cidade. Não entro nas lojas dos chineses nem das de 1€. Vou às lojas de rua. Compro o que necessito nas mercearias resistentes. É chato porque é um pouco mais caro. Mas a fruta sabe-me a fruta. E as senhoras que me atendem sabem o meu nome.
Faço todos os trajectos a pé. Só quando tenho de sair da cidade é que vou de autocarro, carreira, camioneta. Tudo isto porque não há comboios na minha cidade. E quem disser o contrário, estará a mentir.
Fui entregar os gatos e os cães ao canil municipal. Não sei se fiz bem ou mal. Se calhar fiz mal. Mas não tinha outra opção.
Agora levo uma vida simples. Tão simples que já me perguntei Que raio é que faço aqui? Mas vou aguentando.
Em dias de chuva ou de sol, chego-me à janela a apreciar as mudanças na cidade visto aqui de cima. E nessa altura sinto falta do cigarro entre os dedos e um copo de vinho tinto nas mãos. Mas resisto. Vou resistindo.
Escolhi o meu caminho. A simplicidade.
Larguei a família os amigos e as amantes para me livrar dos vícios e das necessidades que o contacto com os outros obriga. Agora estou só comigo. Levo uma vida simples. Não sei para o que é que me servirá, mas deverá servir para alguma coisa.
Para já estou mais magro. Já tive de mandar fazer mais dois furos no cinto. Não sei exactamente que peso tenho porque não tenho balança em casa e, quando vou à cidade, não vou propriamente à procura de uma farmácia para me pesar. Na verdade vou à procura de uma banco à sombra de uma árvore para ler umas páginas soltas do Bestiário Lusitano do Alberto Pimenta. E aguentar a passagem do tempo. Um dia a seguir ao outro. E ainda aqui estou. Na terceira rocha a contar do sol.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/11]