Billy, o Botas

Era miúdo e lia muita banda-desenhada. No meio daquelas enormes pilhas de revistas, especialmente a preto e branco, que se amontoavam em prateleiras improvisadas à espera de um conhecimento metodológico que acabaria por vir só com a idade, ao contrário da bronquite que desapareceria com o adiantado da idade, diziam os médicos aos meus pais, e nunca desapareceu, havia umas revistas que eu lia mais que todas as outras, relia até à exaustão, sei que algumas delas se gastaram de tanto serem folheadas e as outras, as que restaram, não sei onde param, talvez nalgum caixote dos inúmeros que vou deixando plantados nas casas por onde vou passando à espera de os recuperar um dia mais tarde, mas sem já fazer grande fé no futuro que é cada vez mais negro que o passado alguma vez foi. Chamava-se Billy, o Botas, era da autoria de Fred Baker (argumento) e John Gillat (desenho), mas foi, depois, desenhado por outros ilustradores.
Billy, o Botas era Billy Dane, um pobre coitado, órfão, que viva com a avó, gente pobre, sem muitos recursos (por vezes, e agora que penso nisso, encontro alguns paralelos com a história do Homem-Aranha, e a vida de Peter Parker com a tia May e as enormes dificuldades económicas que enfrentam no dia-a-dia), para agravar as coisas, era uma nulidade no futebol, desporto que ele gostava acima de tudo. Um dia descobriu umas chuteiras velhas, que tinham pertencido a uma antiga glória do futebol inglês, Chuto Mortal, era assim a alcunha dessa antiga estrela, e ao calçar as chuteiras dessa antiga glória, Billy ganhava a capacidade de ser uma recriação do Chuto Mortal, como se as chuteiras tivessem memória e reproduzissem, nos pés de Billy, as jogadas do Chuto Mortal.
Estávamos nos anos sessenta, eu conheci Billy, o Botas nos anos setenta e, cá como lá, viviam-se tempos difíceis. As estórias eram sobre esses tempos difíceis e, os jogos que Billy jogava, e ganhava, quase sempre sozinho, por obra e graça do par de chuteiras velhas que tinha nos pés, eram um paliativo para a vida miserável que levava. Que levávamos. Todos nós.
Hoje, passados tantos anos, ao lembrar estas estórias com indisfarçada saudade, penso no cinema de Ken Loach que só vim a conhecer alguns, bastantes, anos depois, mas cujo ambiente também estava aqui. O realismo inglês. Problemas sociais. Os bairros sociais. As casas de renda barata. As famílias miseráveis. A pobreza extrema. A fome.
Lembro-me que, na mesma colecção, ou noutras colecções, a memória já não é como era (eram livros editados por Rossado Pinto, que também publicava o Jornal do Cuto, uma espécie de Revista do Tintim para pobrezinhos – o Jornal do Cuto era a preto e branco e tinha menos páginas, era um jornal e não uma revista – embora fosse, mesmo assim, uma revista, não é?), havia outras estórias com o desporto como pano de fundo, como Peter, o Gato, que era um guarda-redes, Kangaroo Kid, Os Pupilos de Carson, Scruffs! e Craig, o Bala de Canhão, que eram, também, todos eles sobre futebol, Kid Gloves, que era um boxeur e o Fishboy que era um nadador, mas todas as estórias tinham um cunho social muito forte, as personagens eram todas marginais, lumpens que através do desporto, conseguiam ascender a uma vida que lhes estaria vedada à partida.
Estas revistas que eu tinha (tenho? ainda terei?) eram a preto e branco e em papel de fraca qualidade. Mais tarde vim a perceber que, algumas destas histórias eram, originalmente, a cores mas que as edições de Rossado Pinto eram a preto e branco para serem mais baratas e mais acessíveis. A miúdos como eu.
Recordei estas estórias e lembrei-me de Billy, o Botas, ao ver os milhões que o futebol movimenta. Hoje. Em plena pandemia. Os milhões que alguns dos miúdos ganham. E o sonho que alguns deles ainda acalentam, alguns deles que não passam da enorme massa anónima que recebe mal, não tem grande futuro, mas que permite que os bons sobressaiam.
Com os algoritmos que tendem a afunilarem-nos o gosto e o novo conhecimento, sinto às vezes falta da descoberta feita nas escaparates montadas por gente que tinha gosto naquilo que vendia. E percebia o que tinha em mãos. Gostava dos produtos que vendiam.
Hoje sinto uma certa tristeza ao passar nos lineares dos hipermercados e ver as pilhas de livros indiferentes que estão por lá largados por alguém que se está nas tintas para todos eles. E quem os leva, na maior parte das vezes, fá-lo por desfastio. Levar um livro como quem leva duzentas e cinquenta gramas de fiambre da pá Nobre, ou cento e cinquenta gramas de queijo flamengo, em barra, que é para tostas, se faz favor!
Os livros, e em especial estas revistas simples e pobrezinhas, não só as de desporto, de onde fui relembrar o Billy, o Botas, mas todas as outras estórias de cowboys e de super-heróis (sim, da Marvel e da DC, também a preto e branco, em edições baratinhas), o Tarzan, o Fantasma e o Mandrake, carregavam em si uma magia que mesmo assim, com todas as suas lantejoulas e purpurinas, a internet não consegue combater. Eu também sou um utilizador das novas tecnologias. Também ando pelas redes sociais. Também me perco pelo Youtube. Mas quando quero mesmo evadir-me, é com um livro nas mãos, tenha só letras ou quadradinhos (era assim que se chamava a banda-desenhada naquele tempo), e sem estar preso à ditadura do algoritmo.
Quem não lê, não sabe o que perde.
E eu tenho saudades do Billy, o Botas. Gostava de um dia poder recuperar esse caixote. Esse, entre outros. Esse e outros. Todos.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/10]

Os Livros Pesam nas Costas

Uma das coisas mais chatas na mudança de casa são os livros. Numa época em que nos querem leves, leves e ágeis, numa época em que os empregos não são para a vida e os casamentos também não, numa época em que tudo tende a transformar-se do dia para a noite assim, num rápido estalar de dedos, passamos a vida de casa-em-casa, com várias mudanças de cidade pelo meio e, no meio de tudo isto, o que fazer à quantidade industrial de páginas impressas e encadernadas com que andamos às costas e das quais não nos queremos desfazer?
Claro que há alguém sempre pronto a falar na facilidade de transporte do e-book. Um amigo explicou-me que tinha mais livros no Kindle que eu nas prateleiras que tenho de andar sempre a mandar fazer para aguentarem todos os volumes com que me apresento na casa seguinte, pronto a recomeçar a minha vida nova, e de novo, mas com os livros de sempre. Quem me fala das vantagens do e-book não gosta de ler. Sim, sei que estou a ser parvo, que é uma coisa que sou muito e muitas vezes. Mas querem comparar? O folhear das páginas, o cheiro do papel, o poder riscar com lápis, anotar ao lado, alguns dobram o canto da folha onde pararam a leitura, eu uso marcadores, o deixar cair o livro no chão e a queda quebrar os cantos das páginas e um tipo ficar zangado e gritar umas caralhadas que libertam a alma? Não, foda-se! Sou um bota-de-elástico. Os livros, para mim, ainda são em papel, pesam como o raio e são um incómodo quando temos de mudar de casa.
Mas a alegria da descoberta de coisas que julgava perdidas, que julgava já não ter, nunca ter tido, que julgava não existirem a não ser nos meus sonhos e depois perceber que, afinal existem, estão em casa, na casa onde também estou, numa prateleira provisória e abro o livro à sorte e descubro que, depois de tudo isto, já li aquele livro. Acontece-me muito especialmente com bandas-desenhas, principalmente as novelas gráficas, a que perdi o norte. E é tão bom o reencontro. Quase tão bom como voltar a ver a antiga colega de colégio que se encontra passados trinta anos e se percebe que existe uma cápsula do tempo que protege alguns de nós, os mais afortunados.
Muitas das minhas estórias, das estórias da minha vida, da minha própria vida, estão nas páginas dos livros que li. Foram antecipações. Profecias. Alguém escreveu sobre outros o que eu próprio vivi. E é tão reconfortante descobrir que, afinal, não sou nada de extraordinário, mas um gajo simples que se revê em ideias simples e simplistas, prontas a encaixarem em mim como os horóscopos escritos pelas Mayas desta vida que não têm magia e, no entanto, conseguem enganar-nos com tão grande facilidade.
Isto tudo para dizer que hoje acrescentei mais dois livros à pilha que tenho na mesa-de-cabeceira, e que me vão ajudar a passar as insónias estivais, mesmo achando que um deles já foi lido. Contudo, tenho vontade de o ler outra vez, se for esse o caso. Há lá melhor na vida que um livro para nos tirar a acidez do dia-a-dia?

[escrito directamente no facebook em 2020/07/16]

Livros

Hoje chegaram uns caixotes cá a casa. Depois de terem andado a passear por meio mundo, os caixotes com os meus livros, ou pelo menos com uma parte deles, uma parte mais recente dos meus livros, chegou finalmente cá a casa.
Parecia Natal antecipado.
Com o canivete-suíço na mão, cortei a fita-adesiva que fechava as abas dos caixotes. Cortei as fitas dos caixotes, um a um. Fita-a-fita. Caixote-a-caixote. Depois comecei a retirar os livros. Aquela massa de livros, alguns deles que já nem sabia que os tinha – a minha memória tende a esquecer-se de algumas coisas. Não lhe descortino a lógica. E tenho horror a que esqueça as coisas boas. Os livros são parte das coisas boas. Mas também não deixou de ser um momento feliz, esse, ao descobrir que, afinal, também tinha este livro, e aquele e aqueloutro.
Comecei a fazer montinhos no chão. Montinhos com ordem alfabética. Dou prioridade ao primeiro nome. Sim, sei que não devia ser assim, mas aqui em casa é assim que sou: A – Alberto Pimenta; B – Bret Easton Ellis; C – Charles Bukowski, e por ai fora.
Foi com especial delícia que voltei a folhear os livros do Julio Cortázar, do Philip Roth, do Cormac McCarthy. Alguns, alguns muito poucos, já tinha comprado outra vez. Alguns com os quais não conseguia mesmo passar sem eles. Agora tenho-os repetidos. Alguns tenho-os repetidos várias vezes se pensar nos outros caixotes que andam por aí, perdidos de casa-em-casa, há mais de vinte anos, e ainda não encontraram o caminho certo.
Gostaria de falar no cheiro. Mas desta vez não havia cheiro. Nem bom, nem mau. Já não tinham aquele cheiro da novidade quando se adquire novo numa livraria, mas também ainda não tinham aquele cheiro a tabaco frio, às vezes ao doce enjoativo do tabaco de cachimbo, do manuseado, dos livros usados, em segunda-mão, dos alfarrabistas. Não, desta vez, e estranhamente, os livros vinham sem cheiro. Alguns caixotes traziam bichinhos da prata, aqueles bichinhos pequeninos que gostam de se alimentar do papel dos livros, esmaguei três desses bichinhos com o polegar, vi-os desfazerem-se em papa sob o meu polegar, verifiquei os livros, todos, um-a-um, e não vi nenhum trincado pelos bichos. Talvez tenham dado mordidinhas microscópicas e eu não as tenha visto.
Alguns destes livros não os tinha lido. Alguns nunca os irei ler. Mas gosto de os ter ali, à mão, ao olhar, para pegar e roubar uma frase ou outra ao acaso, em períodos de necessidade, quando o calor é demais, o frio aperta, a fome esgana ou o apocalipse se aproxima. Para petiscar quando me apetece.
Sinto-me em boa companhia na companhia dos livros. Mesmo dos maus. Também tenho livros maus. Alguns mesmo muito maus. Alguns que me ofereceram, deram, outros que fui eu que comprei. Já nem sei porquê. Talvez o meu percurso de vida os justifique. Não sei. Mas continuam a ser livros, meus livros e vão para as estantes como os outros.
Quando já tinha os livros todos empilhados por ordem alfabética, fui abrir uma garrafa de vinho. Enchi um copo. Acendi um cigarro. Sentei-me no sofá a olhar para os montinhos de livros pela ordem alfabética e disse Um dia destes vou arrumar-vos nas prateleiras que ainda hei-de arranjar. Por agora ficam por aí. A fazerem-me companhia.
Liguei a televisão e estavam, de novo, a contabilizar o número de infectados pelo novo coronavírus.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/10]

Parabéns Porquê?

Parabéns a você nesta data querida muitas felicidades muitos anos de vida hoje é dia de festa cantam as nossas almas ao menino… ao menino… uma salva de palmas.
Faço sessenta anos.
Estou sentado à mesa nesta pequena sala, que também é uma cozinha, chama-se kitchenette, não é?, e onde às vezes também me deixo adormecer no pequeno sofá de dois lugares em frente à televisão para não me sentir tão só.
Hoje é o dia do meu aniversário. Sessenta anos. Faço sessenta anos e ainda ando por cá. Não sei o que é que ando por cá a fazer. Não sei o que é que deveria andar por cá a fazer. Mas ainda ando por cá.
Desci o elevador e comprei um pastel de nata na pastelaria aqui no rés-do-chão do prédio. A vela é a mesma. A mesma dos últimos anos. Tem durado. E, se eu continuar, a vela também há-de continuar comigo.
Sopro. Sopro a vela e apago a chama.
Retiro a vela do pastel de nata. Guardo a vela na caixa de fósforos. Trinco o bolo. Penso que devia ter pedido um bocado de canela. O pastel de nata não está muito queimado. Eu gosto deles queimados. Está muito doce. Um pouco enjoativo. Dou outra trinca. Quebro a massa que se espalha pela mesa. Apanho os pedaços de massa e meto-os na boca. Desfazem-se na língua e deixo de os sentir. Meto o resto do pastel de nata na boca. Mastigo. Engulo. Sinto-me um bocado embuchado. Um aniversário demasiado seco.
Levanto-me e vou ao frigorífico. Tenho um resto de vinho branco de pacote do Continente. Despejo-o num copo de vidro. Dobro o pacote de cartão e deito-o no lixo. Sento-me de novo à mesa, em frente ao pequeno prato vazio e algumas migalhas do pastel de nata, demasiado pequenas para as apanhar e meter na boca, e bebo um gole de vinho.
Parabéns! digo-me. Mas a voz sai um pouco enrolada, como se não quisesse sair cá de dentro. Às vezes custa sermos nós. Ser eu. Às vezes é difícil sermos o que somos. É difícil olhar em volta e ver que estamos sós. Nem pais, nem filhos, nem mulheres, nem amigos, nada.
No Natal é pior. Nem sei bem porquê. Não sou religioso. Mas devem ser as memórias. As memórias de outros tempos. As mesas cheias e fartas. As estórias. Os presentes. A família.
Sim, no Natal é pior.
Vinte vinte está a ser um ano muito mau. Péssimo. Um ano de merda.
Estar sem trabalho e já não ter perspectivas de voltar a ter. Não ter rendimento nem perspectivas de voltar a ter. Estar sozinho e sem perspectivas de voltar a ter mesas cheias, cheias e fartas.
Já me restam poucas coisas para vender. A televisão. O computador. O relógio de pulso do meu pai. O telemóvel. Meia dúzia de livros. Ainda meia dúzia de livros. Os óculos. Os óculos de sol e os de ler.
Olho a rua. Olho a rua através de uma nesga aberta na cortina que me esconde dos olhares lá de fora.
Já são sete da tarde e o telefone não tocou uma única vez. Não acusou nenhuma mensagem. Ninguém bateu à porta. Ninguém tocou a campainha.
Amanhã tenho uma consulta no hospital.
Não vou.
O meu olhar desvia-se da janela, demasiado alta para ver as pessoas na rua, alta o suficiente só para ver janelas tão tapadas como a minha, janelas iguais à minha, de casas iguais à minha e vidas possivelmente muito parecidas com a minha, e o meu olhar desvia-se da janela e passa pelo lava-loiças e vejo a faca de cozinha. A melhor faca que já tive. Gosto de cortar o alho com aquela faca. Deve valer algum dinheiro. Sim. Talvez. Mas aquela faca não vai para lado nenhum. Aquela faca fica aqui, comigo.
Bebo mais um gole de vinho branco. Sinto o peito a arder. Dá-me azia, o vinho. Não tenho Kompensan. Ardo.
Vejo os dedos das mãos a tremer. A pele com manchas. As unhas com riscos brancos. Dizem que isto é fígado. Sinto um arrepio no corpo. Mas não tenho frio. É ansiedade. Também já não tenho nenhum Xanax. Nenhum Valium. Já não tenho nada. Nem tesão. Miserável. Sou um miserável. Com uma vida miserável.
Sozinho no dia dos meus sessenta anos. Sozinho, em silêncio e de pila murcha.
O meu olhar regressa à janela. Volto a olhar a rua pela nesga da cortina. Não há sol, lá fora. Está um dia triste. Está um dia triste lá fora e cá dentro.
É dia do meu aniversário. Parabéns. E parabéns porquê?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/30]

Regressar a Casa, parte 06 e Final

[continuação]

Vejo o tecto desfocado. As duas rachas transformam-se em quatro.
Sinto a aragem a passar pelo meu corpo e a provocar-lhe um pequeno arrepio. Mas não é frio. Não está frio. Talvez seja a passagem de algum fantasma. Talvez seja a passagem de alguma memória.
Levanto-me da cama e vou à estante dos livros. Procuro o Príncipe Valente. Não o encontro. Aliás, não encontro nenhuma banda-desenhada. E depois recordo-me que as levei todas comigo e acabaram por ficar lá atrás, numa das minhas casas, numa das minhas vidas. E depois percebo que gostaria de voltar a ler o Príncipe Valente, mas que já não o vou voltar a comprar. Já não vou voltar a comprar livros que já comprei. Já o fiz e não quero voltar a fazer. Há livros que já comprei duas e três vezes e continuo sem eles. Já não vale a pena. Já comprei. Já li. A maior parte deles já os li. Já desfrutei. Talvez alguém mais tenha desfrutado, talvez mesmo apreciado. E isso é o principal, não é?
Não quero mais comprar livros que vou deixar nalguma casa onde não irei voltar. Nunca regresso aos sítios de onde saí.
E o que é que faço aqui, então?
Olho em volta. A cama. A estante. A escrivaninha. O sofá. A cadeira. A máquina de escrever em cima da escrivaninha. Há quantos anos não ouço aquele matraquear? Taque-taque-taque…
Acendo um cigarro.
Ouço-me perguntar alto Ficava aqui bem um escritório, não ficava? Talvez mesmo uma pequena biblioteca?
O telemóvel toca. Agarro nele e vejo quem está do outro lado. Desligo o telemóvel. Depois viro-me no quarto, para as paredes do meu antigo quarto e digo Estantes em toda a volta. Uma secretária à janela. A escrivaninha recuperada para outro lado qualquer.
De repente sinto-me cheio de energia. Mando a beata do cigarro pela janela fora, para o quintal, e ouço-me censurar Tens de deixar de fazer isso! e sorrio.
Ouço a voz da minha mãe dizer O dia de amanhã ninguém sabe! e agradeço à minha mãe o nunca ter-se desfeito daquela casa tão cheia de memórias, recordações, fantasmas das minhas vidas passadas e que sinto que querem voltar a viver.
O telefone volta a tocar. Vejo de novo quem é e não atendo.
Puxo as persianas para baixo mas deixo os vidros abertos para a casa arejar. Se vou regressar cá para casa a casa tem de perder este cheio a humidade e mofo. Sinto-me contente com a minha decisão. Mas já decidi? Vou fechando as persianas e decido O meu quarto no quarto dos meus pais. Decido No meu quarto uma biblioteca. Decido A sala mantém-se a sala. Decido A cozinha precisa de mais espaço e uma mesa para trabalhar, que gosto de trabalhar na cozinha, e maior abertura de janela para o quintal. E decido Preciso de mandar verificar as canalizações. Decido Tenho de mandar verificar a instalação eléctrica, o quadro, as fichas, as tomadas, os interruptores, os fios, os cabos, essa coisa toda que nem sei o que é. Chego à porta da rua, viro-me para trás, para o corredor de regresso a uma certa penumbra e digo Parece que já decidi mesmo. E digo Tenho de ir buscar os livros que fui deixando por aí, e é só nesse momento que me baixa uma pequena angústia ao imaginar voltar a contactar com algumas das pessoas com que vou ter de contactar.
E pergunto-me Valerá a pena?
Que se foda! Claro que vai valer a pena. Recuperar anos e anos de livros, aqui, aqui na casa onde tudo começou. Onde eu comecei. Onde nasci e me criei. De onde nunca me fui verdadeiramente embora, afinal. Sei-o agora.
E vejo a minha mãe a cruzar o corredor da cozinha para a sala com uma panela fumegante e o meu pai logo atrás a abrir uma garrafa de vinho. Olham-me e sorriem-me.
O telefone volta a tocar. Volto a olhar para quem me chama. E agora atendo. Mas nem espero que digam nada. Digo eu Afinal a casa não está para venda. Saiu de mercado. Aliás, nem sequer lá chegou a entrar. E desligo.
Saio para rua e fecho a porta. Fecho a porta à chave. Passo devagar ao longo do quintal em direcção ao portão. Olho as árvores mal tratadas. As pequenas árvores quase mortas. Os arbustos moribundos. A erva crescida ao Deus-dará. As ervas daninhas. O canto cheio de fisális. Penso Tenho de arranjar um jardineiro. E penso que tenho amigos arquitectos. Arquitectos paisagistas. Não é para isto que servem, também?
Ao chegar ao portão viro-me para trás, para a casa, olho, olho com atenção e ainda tomo outra decisão Um alpendre. O que esta casa precisa é de um alpendre. E saio pelo portão para a rua. E sinto-me mesmo de regresso à casa-de-partida. Ao sítio onde tudo começou. Onde eu comecei.
De repente lembro-me dos primeiros dias de escola e da maravilha dos cadernos novos e dos livros por estrear e dos lápis afiados e as canetas com tinta e a borracha lisinha e a pasta sem vincos nem coçada e a caixa nova de doze canetas de feltro e a caixa nova de doze lápis-de-cor e a caixa nova de doze lápis-de-cera e a caixinha de aguarelas e os tubos de guache e os pincéis e o mata-borrão e o compasso e o transferidor e o esquadro e a régua-t e…
Calma, pá! Calma! Não estás a regressar à escola, estás somente a regressar a casa, à tua casa, e dá-te por contente se conseguires recuperar os livros que foste plantando em casas-alheias. Já será um bom regresso. Já será um bom recomeço.
E vejo-me a sorrir como um tonto, a caminhar sozinho na rua, a pensar nas voltas que a vida dá para acabarmos a regressar ao início.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/24]

Regressar a Casa

Já lá não ia desde a morte dos meus pais. Agora precisava de ir. Não precisava mesmo. Podia não pensar em tudo o que está semeado por lá, tudo o que foi semeado por lá ao longo dos anos, dos meus anos também, durante a minha infância e adolescência, todos os segredos que fui guardando em cofres impossíveis de serem encontrados, em caixas do tempo que iria abrir alguns anos depois e que esqueci, ou perdi o interesse, não sei, há alturas na vida em que somos parvos e fazemos gala dessa parvoíce, como as cidades que deitam casas antigas, casas com história, abaixo, ou as árvores, que estão sempre doentes, nunca vi árvores para adoecer como as árvores da cidade e ao longo do rio, coitadas, sempre doentes, sempre a apodrecer, sempre a fazerem tudo para serem serradas, podadas, deitadas abaixo, às vezes também é porque tiram a vista a alguém importante, ou sujam a calçada, e para que é que interessa a sombra que fazem nas pedras de basalto da cidade quando se percorre as ruas da cidade de automóvel com motorista?
Na verdade não precisava de ir lá a casa. Podia deitar fora a chave, vender a casa a quem quisesse comprar, com ou sem recheio, segredos, livros, poemas escritos aos dezasseis anos, contos que se arrastavam em folhas soltas e que um dia iriam fazer um livro, um Epitáfio à Loucura, um nome assim pomposo na arrogância da minha adolescência, e depois largados por lá, perdidos em gavetas, no meio de livros que nunca mais abri, ficaram a apanhar pó que a minha mãe nunca mexia nas minhas coisas, era eu que limpava sempre o pó aos livros, aos discos, às prateleiras que ia enfiando no quarto, era preciso acomodar sempre mais livros que apareciam assim, às carradas, nasciam do dinheiro das senhas de almoço que não comprava, dos trabalhos que prometia à vizinhança, à minha mãe, ao meu pai, para poder ler quando descobri que havia mais gente no mundo que eu e que tinham histórias fantásticas de vidas absurdas, tão longe da minha para me contarem, e são ainda alguns destes livros que ficaram por lá, Os Cinco, os Sete, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, O Colégio das Quatro Torres, a colecção Mistério, livros que guardei para os meus filhos e foram ficando por ali, eles cresceram, não ganharam hábitos de leitura, nunca lhes cheguei a dar os livros e eles agora não servirão para mais ninguém, nem para mim que não tenho vontade de regressar à infância, uma infância em que a vida ainda podia ser uma aventura nos Rochedos do Demónio, mas ainda por lá estarão outros livros, livros para alguém mais crescido, como os livros do Harold Robbins que devorei na cama noites dentro, de lanterna em punho e a porta encostada para os meus pais não verem a luz acesa tão tarde em dias de aulas, e cadernos inteiros com desenhos e riscos e palavras soltas e nomes de miúdas, miúdas de quem gostava, algumas já nem saberei quem são, quem foram, mas devem ter sido importantes que as miúdas sempre foram importantes na minha vida, mesmo as que não me ligavam nenhuma que eu sempre gostei das miúdas mesmo as que não gostavam de mim, algumas delas vieram a gostar anos depois mas já era tarde, não era?, que o comboio só passa uma vez na estação, li esta frase estúpida não sei onde e sempre pensei que a iria utilizar um dia e ainda estou à espera desse dia.
Quantos anos passaram desde que aqui entrei pela última vez?
Lembro-me de ver a minha mãe ali à janela, naquela janela ali, a janela da cozinha, onde ela ia chamar-me, chamar-me pelo meu nome em diminutivo, em altos berros para toda a rua e todo o bairro saberem que ela andava à minha procura, malandro, e onde é que eu andaria? Por aí, mãe, por aí.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/19]

O Meu Primeiro Dia de Liberdade

Preciso de beber. Preciso de me embebedar. Preciso de me embebedar ao balcão de um bar.
Estou farto de livros de filmes de séries, estou farto de notícias e das frases bonitas com que os jornalistas da SIC se despendem todas as noites, estou farto que utilizem o Mário Viegas como se fosse o Cristiano Ronaldo (vão buscar o Cristiano Ronaldo, caralho!), estou farto das estatísticas e dos gráficos e dos números da DGS que esqueço assim que os ouço, estou farto de me aturar, de me ouvir cuspir palavras amargas todos os dias, farto de me ver engordar dia após dia no espelho da casa-de-banho, já não vejo a pila, as calças de ganga não me servem, tenho os cabelos compridos como um headbanger num concerto dos Judas Priest e a barba mal cortada e cheia de peladas, e os pêlos do nariz e das orelhas parecem bigodes, e estou farto desta solidão triste e melancólica que me arrasta através dos chinelos rotos que não tiro dos pés vai para mais de um mês.
No dia primeiro da minha liberdade vou sair de casa. Abrir a porta da rua e dar um passo, pousar o pé do lado de fora da porta. Depois de tomar um banho quente e lavar o cabelo com champô anti-caspa, vestir uma roupa casual e uns ténis porque os meus pés não aguentarão mais que isso, irei sair de casa e caminhar os mil novecentos e sessenta e seis passos que me separam deste meu quarto andar em prédio citadino ao snack-bar que fica um pouco mais acima na mesma rua e que eu frequentava diariamente antes de me fechar em casa para sobreviver à peste e que irei voltar a frequentar porque sou um gajo de rotinas. Irei caminhar todos esses passos durante os quais irei fumar um cigarro ao longo da rua, enquanto relembro o cheiro a monóxido de carbono das viaturas que irão recuperar as artérias da cidade e irei entrar no snack-bar onde já me conhecem de anos e irei sentar-me ao balcão sujo onde irei colocar um cotovelo enquanto pedirei ao empregado um copo de bagaço que irei despejar de um gole, assim como o segundo e o terceiro, e irei pedir um quarto que irei beber devagar para não vomitar logo tudo, e irei pedir um pires de tremoços e ele irá dizer que é só para acompanhar as imperiais e eu irei então pedir uma imperial para poder trincar os tremoços, e trincarei os tremoços e beberei a imperial no intervalo dos bagaços e irei lamentar-me que não hajam pevides, e ao meu lado irá lá estar a mesma puta de todos os dias, a mesma puta que está sempre sentada no mesmo banco ao balcão desde o princípio dos tempos do snack-bar e ela irá cravar-me um cigarro e eu irei dizer que lhe darei um cigarro se foder comigo na casa-de-banho, dir-lhe-ei que estou necessitado sem um pingo de carinho há muitas semanas, e ela irá anuir sem falar e iremos para a casa-de-banho foder sem preservativo, quem é que irá pensar em preservativos nessa altura?, e será uma coisa assim tão rápida e desenxabida que nem vou perceber que acabei de dar a primeira foda depois da quarentena, e irei regressar ao balcão, beber um quinto bagaço, pagar outro à mulher que está sempre no mesmo banco ao balcão e que me acompanhou à casa-de-banho, e oferecer-lhe-ei um cigarro, irei fumar um com ela e o empregado do snack-bar irá refilar connosco como refila sempre, mas eu irei cagar para o que o empregado irá dizer e depois do sétimo bagaço, irei virar-me para a mulher que está lá sentada desde sempre no mesmo banco e irei vomitar-lhe no colo, irei vomitar tudo o que tenho acumulado dentro de mim até sair a bílis verde quando já não houver mais nada para sair e o empregado irá agarrar em mim e levar-me-á de rojo pelo snack-bar fora até me lançar para a rua, e irei cair no passeio de calçada portuguesa e irei bater com o queixo no chão, abrir um lenho e partir dois dentes e deixar-me lá estar caído até que a mulher vomitada irá lá ter comigo e ajudar-me-á a levantar e será o meu apoio para fazer os mil novecentos e sessenta e seis passos de regresso a casa, durante os quais voltarei a cair e numa dessas quedas quebrar a cabeça, e o sangue irá escorrer-me pela face e a mulher irá dizer que será melhor ir ao hospital e eu dir-lhe-ei, com um sorriso na cara, Estamos livres, mulher! Foda-se!

[escrito directamente no facebook em 2020/04/09]

Para um Diário da Quarentena (Oitavo Andamento)

Desde que começou esta crise com o coronavírus e eu me remeti a uma reclusão voluntária, que não difere em muito da minha vida habitual pré-covid-19, que decidi começar uma espécie de diário dos meus dias de clausura.
Ao fim de duas semanas, e precisei de tanto tempo para entender, percebi que os meus dias são sempre iguais, banais, de um minimalismo tão grande que parecem algumas das obras do Philip Glass, e concluí que afinal não tenho grandes coisas para contar a quem quer que seja.
Resta-lhes ficar como memórias destes dias. É claro que vou continuar a escrever sobre estes dias de confinamento. O que é que iria fazer se não estivesse aqui a escrever o que estou a escrever?
Os dias repetem-se. Ora faz sol, ora está a chover. Uns dias faz calor, outros faz frio. Por vezes levanto-me de manhã, faço café e vou bebê-lo para o alpendre enquanto olho as montanhas lá ao fundo (quando não estão cobertas pelo nevoeiro), outras vezes deixo-me ficar enfiado debaixo do edredão a cozer a depressão. Umas vezes sento-me à mesa da cozinha, frente ao computador, a trabalhar, outras vezes passeio-me pelo quintal sem conseguir fazer o que tenho de fazer. Às vezes almoço, às vezes não. Tem dias em que me sento no alpendre a ler as notícias nos jornais online, e tem dias em que me encosto à ombreira da porta e vejo a luz descer até ser noite. Às vezes apanho uma maçã da macieira, limpo-a às calças e como-a ali mesmo, outras vezes vou fumar um cigarro para a estrada na esperança vã de ver passar um carro, uma motorizada. Há dias em que dou uma volta pela aldeia e não me cruzo com ninguém, nem mesmo com o padre, e há dias em que me sento no sofá, ligo a televisão e fico a ver a CMTV até começar a enervar-me. nessa altura dou um murro na parede, faço sangue nas nozes dos dedos e tenho de tomar um Brufen para acalmar as dores. A CMTV puxa-me pela violência e por vezes, só às vezes, vejo-a para destilar um pouco da fúria que me acossa. Às vezes dá resultado. Mas só às vezes, não sempre.
Quando tenho paciência, por vezes faço um bom jantar, experimento receitas, invento misturas, quando não tenho paciência como um pão com manteiga, às vezes um pão de véspera, duro, mas só o torro quando consigo ir ao fundo de mim buscar um pouco de vontade, o que não acontece sempre e, na maior parte das vezes, acabo por comer o pão com manteiga assim, duro e seco, e fico embuchado.
Tem noites que me sento no sofá a fazer zapping até adormecer com o comando na mão, cair para o lado e acordar com um fio de baba a escorrer-me pelo canto da boca, mas tem noites em que me sento no alpendre, a ouvir os barulhos da bicharada nocturna e a fumar uma ganza. Às vezes vejo um filme, uma série. Às vezes leio um livro. Mas a cabeça foge-me e na maior parte das vezes o livro fica a meio, adormeço a meio do filme e não vejo o resto dos episódios da série.
Há dias em que o relato do número de mortos e de casos detectados me deixa triste e antecipo o apocalipse num futuro bem próximo. Outros dias o relato desses números deixa-me indiferente e então temo que me esteja a tornar num tipo insensível.
Às vezes não vejo as mensagens que recebo e não atendo as chamadas que me fazem. Deixo tocar o telemóvel até se calar e, depois, desligo-o. Outras vezes leio as mensagens e respondo-lhes, atendo o telefone e até gosto de falar com quem acabo por falar. Mas essas vezes são muito raras. Acontecem muito pouco e sem avisar.
Uma constante que acompanha todos os meus dias, os dias assim-assim e os dias assado é o copo de vinho. Ah, e também o cigarro. São duas as constantes que servem para todas as estações em todos os dias do ano. Esteja eu como estiver, ter um copo de vinho tinto numa mão e um cigarro aceso na outra faz parte de mim, tanto como respirar. E não sou esquisito, posso passar da Barca Velha à Adega Cooperativa da Batalha. Embora a minha carteira esteja bem mais para beber Adega Cooperativa da Batalha que outra coisa.
Os dias repetem-se. Iguais. Monótonos. Continuo sem álcool, sem máscaras e sem sabão azul e branco. Bebo vinho e fumo cigarros, às vezes ganzas. Se não mato o bicho de uma maneira, tento de outra. Não creio muito nas minhas hipóteses de me livrar dele com vinho tinto e cigarros mas, pelo menos, contento o espírito e dou-me alento à alma. Posso morrer mas vou satisfeito. Pelo menos um poucochinho satisfeito.

Quanto Tempo?…

Quanto tempo vou conseguir aguentar o tempo?

Quanto tempo para deixar de querer ficar em casa? de me contentar com a janela e a distância?
Quanto tempo para me fartar de tomar banho e vestir como se fosse sair? como se todos os dias fossem Sábado à noite?
Quanto tempo para perder a vontade de ver filmes e séries?
Quanto tempo para já não conseguir ouvir mais música deitado no chão da sala e não ter mais vontade de ler aqueles livros que estão há anos à espera deste dia, deste preciso dia, para serem lidos?
Quanto tempo para me fartar desta cozinha inventada como se fosse gourmet que vou desfiando dia-após-dia?
Quanto tempo irei suportar vestir o fato-de-treino?
Quanto tempo irei conseguir viver sem tomar banho? sem fazer a barba? sem cortar as unhas dos pés? e das mãos?
Quanto tempo até não suportar mais a presença dos filhos?
A tua presença?
Quanto tempo até começar a odiar-te?
A ti e a tudo o que disseres?
E o que hei-de fazer a todo este papel-higiénico?…
Quanto tempo para ir para a rua aos saltos e aos pinotes?
Quanto tempo para correr nu pelas ruas da cidade?
Quanto tempo até começar a ficar sem dinheiro?
Quanto tempo até não conseguir pagar a conta da luz? do gás? da água? do cabo? da internet?…
Quanto tempo para deixar de pagar a renda da casa?
Quanto tempo até já não ter o que comer? Nem uma mera conserva de sardinhas em molho de tomate?
Quanto tempo até começar a fome?
A fome a sério?
Quanto tempo até perder o desejo?
O desejo por ti…
O desejo pelos outros…
O auto-consolo…
Quanto tempo para começar a falar sozinho?
Quanto tempo para agarrar no revólver?
Quanto tempo para disparar um tiro nos cornos?
Quanto tempo para deixar de ter tempo?
Quanto tempo?…

[escrito directamente no facebook em 2020/03/24]

Moro num T1+1

Moro num rés-do-chão baixo, ao nível da rua. É um T1+1, o que quer dizer que tem um quarto, uma sala e um pequeno buraco que fazia parte da sala mas que foi separado por um tabique para quarto de empregada, ou de arrumação e fazer o apartamento subir um nível no valor do arrendamento. Fiz desse buraco uma espécie de escritório com uma mesa mais pequena que fui comprar ao Vassoureiro e os livros aguentam-se empilhados uns nos outros à espera de melhores condições de vida (minha) que lhes garantam outra dignidade (uma estantes seguras) num apartamento de divisões um pouco maiores e com vista para qualquer lado que não os ouvidos putrefactos da vizinhança.
A minha casa é pequena, mas é suficiente para mim. Tenho um quarto, uma sala, uma cozinha, uma casa-de-banho com uma pequena janela de vidro que abre e deixa entrar ar fresco e o buraco que me serve de escritório. Um pequeno corredor vai da sala à cozinha fazendo a distribuição das outras divisões.
A sala fica paredes meias com a rua. Quando vou à janela fumar um cigarro, fico à altura das pessoas que passam por lá. O pequeno buraco que me serve de escritório também. Também fica paredes meias com a rua. E também tem uma janela. Às vezes deito-me no chão do escritório, arredo a cadeira e deito-me no chão do escritório, entre as pilhas de livros, para endireitar as costas, e sinto as pessoas a passarem por mim, quase como se me tocassem na cabeça. Às vezes alguns miúdos da rua encostam-se à minha parede a fumar uma ganza e ouço-lhes as conversas. Conversas de merda, na maior parte das vezes. Mas já me ri desgraçadamente.
O quarto e a cozinha têm uma janela para um pátio nas traseiras dos prédios. Quando vim para esta casa, às vezes ia até lá, fumava um cigarro a passear entre as couves e as batatas que os porteiros dos prédios que formam aquele pátio interior lá iam plantando. Saltava a janela da cozinha e passeava por lá. Mais tarde cimentaram todo o pátio e os porteiros deixaram de ter sítio onde plantar hortaliças. Depois começaram a descer os vizinhos dos vários andares, desciam pelas escadas de incêndio e juntavam-se no cimento a jogar o Monopólio, à bola, a beber cerveja e a fumar umas ganzas. Eu deixei de frequentar o pátio. E é raro fumar à janela da cozinha para não dar com os vizinhos a fazer o mesmo que eu e a dar fé das vidas dos outros. Fumo no interior da cozinha com a janela aberta. Ou fumo no escritório também com a janela aberta. Mas é raro fumar no escritório porque é raro abrir a janela. O barulho é quase sempre ensurdecedor. O passeio tem dois metros de largura e depois há uma estrada de duas faixas em sentido único e os carros aceleram por ali. Às vezes há vizinhos que param os carros em segunda fila, com os quatro piscas ligados, às vezes nem isso, e provocam engarrafamentos e buzinadelas. O som é insuportável.
Era. Já não é. Era.
O meu T1+1 que me servia na perfeição, tornou-se, de repente, enorme e minúsculo. Os dois contrários ao mesmo tempo. Mesmo tempo, mesmo tempo, não. Em tempos diferentes.
Quando me deito no chão do escritório, que agora faço com muito mais assiduidade, já não escuto as conversas dos miúdos na rua, nem os carros a galgar asfalto, nem há carros a buzinar a outros carros parados em segunda fila. Agora já não há pessoas, nem carros, nem barulho. Agora só há silêncio. Por vezes estou na sala a ler um livro e fico admirado por o barulho da história ser maior que o barulho da minha vida.
Mas quando estou há mais de duas semanas em casa, fechado como agora, e só saio para ir ao pão ou para comprar alguns mantimentos à mercearia que fica cinquenta metros acima na rua, a casa parece minúscula, demasiado acanhada para a enormidade da minha neura, uma neura criada na obrigatoriedade de ficar em casa, coisa que eu até gosto de fazer. Mas não obrigado. Não por decreto. Não porque me mandam. Agora até a rua me parece pequena. As duas pastelarias fechadas. A oficina a trabalhar a meio-gás (estão de porta fechada mas ouço o barulho no interior). As escadas que levam à C+S lá mais acima, desertas. A casa dos tecidos encerrada. O restaurante onde ia por vezes comer uma alheira de caça, encerrada. Tudo fechado. Ou quase tudo. Tudo em silêncio. E eu. Eu aqui, fechado em casa. Não estou de quarentena. Estou só em isolamento. Estou recluso. Em fuga ao vírus.
Agora trocava o meu T1+1 por uma casa velha com um quintal mal amanhado e uma casota para um cão e um galinheiro para umas galinhas e uma vista sobre árvores e montanhas e um riacho e o barulho das cigarras e dos grilos e dos pássaros e até do raio das corujas que não se calam durante a noite inteira mas que me adormeceriam e me fariam ser mais bem-disposto. E há quanto tempo não chove?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/23]