À Procura de um Sentido

Não preguei olho toda a noite. Vi as horas passarem por mim e eu acordado. Não costumo ter insónias. No geral durmo bem. Durmo profundamente. Nem sonho. Não perco tempo a sonhar. Durmo um sono descansado nos tempos que tenho marcados para dormir. Não esta noite. Não sei o que aconteceu. Talvez a caneca de café da avó que bebi às dez da noite. Talvez o papo-seco com uma fatia de queijo flamengo que comi a acompanhar o café. Talvez os cinco cigarros que fumei depois do café.
Talvez seja uma coisa da idade.
Deitei-me era meia-noite. À uma voltei a acender a luz da mesa-de-cabeceira. Sentei-me na cama. Fiquei ali sentado a olhar para a parede em frente. Uma parece vazia. Pintada de branco-ovo. Sem quadro. Sem móvel. Sem janela. Um pedaço vazio de parede. Estava completamente desperto. Com a sensação de ter os olhos muito abertos. Esbugalhados. Estava assim desde que me tinha deitado. Fiquei assim a tentar que a escuridão da noite, do quarto, da cama, os fizesse fechar.
Levantei-me à uma da manhã e fiquei ali sentado na cama a pensar o que fazer para me entreter, fazer passar o tempo e chamar o sono.
Enquanto pensava, as horas passavam. Uma. Duas. Três. E eu continuava ali sentado na cama, muito direito sentado na cama, sem me decidir em agarrar o iPad, ligar a rádio, a televisão ou pegar num livro da pilha que todos os dias aumenta na mesa-de-cabeceira sem que eu lhe dê andamento. Quatro. Cinco. Seis. E começou a doer-me as costas. O rabo. A cabeça. Tomei um Ben-U-Ron. Levantei-me e fui à casa-de-banho. Sentia-me cambalear. Estava cansado. Precisava de dormir. Sentei-me na sanita e esqueci-me do que tinha lá ido fazer. Lavei os dentes, mas perguntei-me se não os tinha lavado antes de me deitar.
Dei duas voltas à casa a confirmar que tinha as janelas todas fechadas.
Sentei-me na cozinha a fumar um cigarro. Soube-me mal e acabei por só dar duas passas. Pensei em lavar os dentes outra vez. Não o fiz. Voltei para a cama. Eram sete da manhã. Apaguei a luz e deitei-me no escuro possível com a luz do dia a tentar furar por todo o lado.
Eram oito da manhã e acordei com o telemóvel a tocar. Era a minha mãe. Atendi. Estás bem? perguntou-me ela. Estás bem? Estava melhor quando estava a dormir, respondi.
E ela disse Estavas aqui comigo mas não falavas. Tinhas uma coisa nas mãos que não percebi o que era. Tinhas um olhar triste. Eu falava para ti e não me respondias. Estás bem? Sim, mãe, estou bem! Eu falava para ti e tu nem olhavas para mim e depois viraste costas e foste-te embora. Eu ainda corri atrás de ti mas deixei de te ver.
Eu tive uma visão da minha mãe a correr e sorri. E garanti-lhe Estou bem, mãe. Estou mesmo bem. Deve ter sido um sonho. Não, não era. Eu vi-te. E falei contigo. Estás mesmo bem? Sim, mãe. Fica descansada.
Ela desligou o telemóvel. Mas não estava completamente convencida. Eu disse-lhe para passaria em casa dela mais tarde. Eram oito e dez e eu tinha de me levantar.
Sentia-me cansado.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/03]

Eu Sou uma Obra de Arte

Eu sou uma obra de arte. A verdadeira. Não uma simples representação. Não uma mera reprodução. Não o resultado de trabalho à volta da estética, de escolas, de discussões, de fórmulas políticas ou representativas.
Eu sou o produto real. Verdadeiro. Não reproduzível. Único.
Eu e a minha vida. Com os meus erros. As minhas mentiras. Os meus problemas. Com tudo o que eu construo e crio e transporto comigo, sou uma obra de arte total, conceptual e complexa. Não sou a falsidade de uma representação ou de um olhar ou de um desejo ou de um estudo académico ou um fruto momentâneo filho da época.
Eu não sou o retrato, eu sou a coisa. A obra. Eu e os anos que transporto em cima de mim. E os vindouros. Eu e os meus caracóis, com nuances grisalhas. As minhas rugas. As minhas olheiras. O papo no meu pescoço. A minha corcunda. A barriga que se diz de cerveja mas que já é da cortisona e do excesso de pão, a comida do pobre. Os meus pulmões que chiam a cada cigarro fumado. O rabo que tende a desaparecer à medida que a barriga aumenta. A pila que já nem consigo ver cá de cima, com olhos a necessitar de óculos. Eu. Este sou eu. Gordo. Feio. Marreco. A ficar careca. Desdentado. A cheirar mal da boca quando não lavo os dentes com Colgate Total. Eu sou a obra. A obra ricamente defeituosa, como convém à obra de arte. A arte não se quer perfeita. É feita de barro. Pincelada. Cinzelada. Martelada. Não é ciência (embora possa ser) nem uma equação matemática (embora o possa também ser). A obra, e esta obra, tem enganos, erros, asneiras. A verdade é feita de esquecimentos. De quedas. Eu sou uma mentira verdadeira. Uma verdadeira mentira. Um conjunto de perguntas e respostas, de estímulos e estimulados. Sou o que vêm e o que não vêm. Mas podem percepcionar. Calcular. Imaginar. Podem ser levados ao engano. Ao erro, estão a ver? Mas sou real, verdadeiro. Toquem-me. Sintam-me. Façam-me mal. Façam-me chorar. Magoem-me. Percebam quem sou e o que sou. Olhem para mim. Vejam-me. Olhem-me. Percebam-me. Abram-se a mim, à minha experiência. Ao meu sabor. Ao meu cheiro. Às minhas acções. Às minhas escolhas. Sou uma obra de arte e sou igual ao resto dos resto de gente que se parecem comigo, mas não são eu. São outros.
Eu sou uma obra de arte. A sala de exposição onde estou é o mundo, as cidades por onde passeio, as casas onde vivo. Dou-me gratuitamente para vosso regalo. Sou a obra que ninguém paga para ver e apreciar.
Por vezes sou esquecido. Por vezes sou ignorado. Por vezes tendem a não ver-me, a esquecer a obra de arte, por troca de nada. O vazio é, por vezes, apelativo. Trocam-me por um frio ecrã de computador, tablet, telemóvel. Mas eu estou aqui. E aí. Também posso estar no ecrã. Em qualquer ecrã. A fazer o que faço. A comer. A beber. A trabalhar. A descansar. A ler. A conversar. A dormir. A defecar. A foder. A beijar. A matar. A ser morto. A falar. O que eu posso falar! Querem escutar?
É possível eu ser morto? Não. De todo. Posso ser destruído. Dizimado. Desfeito. Mas morto, morto não. Já sou uma obra de arte. Estou no mundo. Entrei na cabeça de algumas pessoas. No olhar de outras. Já fui visto e falado, comentado. Já faço parte da história do mundo. Posso desaparecer. Mas não morro.
Sou uma obra de arte e estou com um livro na mão. A obra de arte é sedenta de conhecimento. Enquanto se deleitam comigo, eu deleito-me com outras pequenas obras de arte. Pequenas obras que fazem de mim grande.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/01]

A Minha Casa Tem um Buraco por Onde Me Foge Tudo

Às vezes penso que há um buraco temporal em minha casa.
Há coisas a desaparecerem.
Por vezes vou à procura de um livro que sei que tenho e dou com o sítio mas não com o livro. Percorro todas as prateleiras à procura dele, como se fosse possível eu colocá-lo fora de ordem. Procuro nas pilhas de livros a aguardarem vez de leitura ou vez para serem armazenados por ordem alfabética nas prateleiras. Procuro onde não devem estar. Mesmo na casa-de-banho. Mesmo no frigorífico. Já procurei no congelador. Em vão.
Não vem ninguém a minha casa. Há muitos anos que ninguém franqueia as portas de entrada. Agora nem mesmo a senhora que me vinha fazer a limpeza da casa. Mandei-a não vir mais que não tinha dinheiro para lhe pagar. Passei eu a aspirar a casa uma vez por semana. Uma vez por semana mudo os lençóis da cama e as toalhas da casa-de-banho e faço duas máquinas de roupa. De mês a mês sacudo os tapetes. No início da Primavera, lavo os tapetes no quintal, mando-lhes com uma mangueirada para cima, despejo-lhes um bocado de detergente e esfrego-os com uma escova. Todos os dias arejo a casa. Abro as janelas. Pus mosquiteiros para evitar a entrada de moscas e outras bichezas. Mas não impede a entrada do pó. Às vezes quando caminho descalço por casa, vejo o pó que se me agarra à planta dos pés. Fico com os pés pretos. É então que dou uso ao bidé. Cá em casa serve para lavar os pés.
A casa não é rota.
Por onde fogem os livros?
No outro dia andei à procura de uma tostadeira. Queria fazer uma tosta. Uma tosta-mista. Não encontrei a tostadeira em lado nenhum. Só a torradeira que está em cima da bancada da cozinha e ligada com o cabo de alimentação à ficha de electricidade. Mas eu juro que tenho uma tostadeira. Ou tinha. Pelo menos, acho que tinha. Já começo a pôr tudo em dúvida. Vejo-me a fazer uma tosta-mista, com aquela tostadeira, aqui, na cozinha cá de casa. E se é tudo mentira? Uma efabulação? E se fui eu que criei essa memória para justificar ter uma tostadeira que, afinal, nunca tive?
E os livros? Poderá ser o mesmo princípio? Será que nunca tive os livros que penso ter? Que tinha? Que até os via ali, arrumados nas prateleiras das estantes, uns ao lado dos outros?
Tive uma namorada. Acho que aqui já nesta casa. Ela também desapareceu.
Posso estar enganado e afinal a namorada não ser minha e estar a confundir tudo com algum filme francês visto nas noites da RTP2, mas acho que não. Acho que era mesmo minha namorada. Tenho uma vaga ideia de a ver caminhar descalça aqui pela cozinha, abrir a porta do alpendre e ir fumar um cigarro lá para fora. E eu estar aqui na cozinha, sentado nesta mesa, nesta mesma mesa onde estou agora, frente ao computador, e olhá-la em contraluz, no alpendre, com as montanhas lá ao fundo, a fumar um cigarro. Mas também posso estar enganado.
É provável que exista um buraco do tempo aqui em casa. Um buraco que me rouba livros, dinheiro e, pelo menos, uma namorada. E posso estar a esquecer-me de outras coisas, que já me baralho muito.
Por vezes ouço a voz de uma rapariga, vou corredor fora à procura dela e não a encontro. Talvez haja no meu corredor um portal para outras dimensões. A minha casa pode estar num meio de coordenadas cabalísticas. Ou o que o valha.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/24]

Avalanche

A vida é feita de avalanches. Umas seguem-se às outras. E nós, as nossas vidas, seguem enrodilhadas nessas avalanches que nos levam pelo tempo. Quando estamos bafejados pela sorte, as coisas boas sucedem-se umas às outras e, por vezes, é comum ouvir-se falar em maré de sorte. Quando estamos amaldiçoados pelo azar, não há nada que possamos fazer que altere o nosso estado de alma: a única coisa que conseguimos atrair é o azar. Raios nos partam, dizemos.
Chego ao fim-de-semana. É Sábado mas podia ser qualquer outro dia. Mesmo dia da semana. Sei que é fim-de-semana porque o telemóvel informa-me. Mas tudo na minha vida se mantém igual desde há cerca de três meses.
Comecei por ficar em casa porque me aconselharam a tal. Um conselho prudente. E fui ficando. Fui percebendo que, se por um lado a vida não pode parar, porque se não morremos da doença morremos da fome, por outro lado, não precisamos de saltar da frigideira para o lume. Acelerar as coisas? Talvez seja mesmo isso que algumas pessoas andam a fazer.
Tenho ficado por casa. O meu azar é também a minha sorte, pelo menos aqui, nesta falta de necessidade de ter de sair de casa para trabalhar. Saio quando tenho de sair. Quando sou obrigado a sair. Com responsabilidade. Com cuidado. Em segurança. Levo luvas. Máscara. Uma garrafinha de álcool. Mantenho distâncias. E não me deixo influenciar pela ocorrência. Deixei de ouvir as pessoas. As pessoas normais, pelo menos. As pessoas como eu. Pessoas que não sabendo nada julgam que sabem tudo. Já ouvi todo o tipo de teorias. Já ouvi pessoas aconselharem uma coisa e o seu contrário. Chega. Não serve para nada usar álcool nas mãos? Também não fará muito mal. O álcool provoca problemas dermatológicos? Quando tiver um problema de pele, vou tentar resolvê-lo. Para já, uso. Chega de teorias e ultimatos de sabedoria.
Há três meses que deixei de frequentar o café. Gostava de me sentar numa esplanada a beber uma bica, uma água tónica, uma cerveja, um gin, a ler um livro, uma revista, o jornal do dia. Conversar com este e com aquele. Petiscar um rissol de camarão. Um pastel de nata queimado. Ver quem passava. Imaginar estórias. Há três meses que deixei de frequentar o café. Agora entro, bebo uma bica ao balcão e vou embora.
Ao princípio pensei sentir falta disto. Falta de pessoas. Falta de conversa. De discussões. Falta da amizade. Falta de jantares com companhia. Falta de toque. De beijos. De sussurros no ouvido.
Afinal, três meses passados e sim, sinto falta de estar sentado numa esplanada a ler um livro e sentir a aragem fresca do fim-de-tarde, mas não sinto falta das pessoas. Talvez a deficiência seja minha. Talvez seja um erro de programação. Talvez esteja somente numa maré de azar com as pessoas. Talvez eu me seja suficiente. Talvez a distância das redes sociais seja o meu conforto que impede de me magoar.
A vida é feita de avalanches. Umas a seguir às outras. Nada é definitivo. No final de uma, começa sempre outra. Depois do azar, a sorte. Agora estou numa avalanche solitária. Solitária mas responsável. Talvez amanhã regresse aos meus dezasseis anos e arranque eu mesmo com a minha própria avalanche sem me preocupar com as consequências. Afinal, amanhã é sempre outro dia.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/04]

A Precisar de Desanuviar

Estou a precisar de desanuviar. Adeus.
Foi assim que ela se foi embora, de boleia com o fim do confinamento.
Estava à porta da rua, de mala na mão, casaco vestido, quando eu ia a sair da sala com um livro do Harari na mão. Parei a olhar para ela e perguntei Onde é que vais? e ela colocou a mão na maçaneta da porta da rua, virou-se para mim como se eu fosse um estranho de passagem e disse Estou a precisar de desanuviar. Adeus.
Tínhamos vivido juntos os últimos seis meses. Mais intensamente neste último mês e meio de confinamento. Passámos a maior parte desse tempo na cama. Nus. Transpirados. A foder. Deixei acumular o tele-trabalho. Cozinhei para ela. Até me tornei um semi-vegetariano por causa dela. Deixei que me espremesse pontos negros nas costas. Deixei que me cortasse o cabelo. E depois, Estou a precisar de desanuviar. Adeus.
No início nem percebi muito bem. Pensei que ia dar uma volta pela cidade. Para desanuviar. Claro que achei estranho a mala na mão. Mas nem pensei muito nisso. Pensei que ia só dar uma volta à beira do rio, coisa que eu faço com regularidade. Ou que ia beber um café expresso a sério e não aquela miséria do Nespresso que sempre me pareceu a chicória que a minha mãe fazia aos Domingos, em Dezembro, para acompanhar as filhoses.
Olhei para o livro que trazia na mão e não sabia muito bem o que é que estava ali a fazer, no corredor, à saída da sala, com o livro na mão, e ela ao fundo do corredor, a porta da rua aberta e o Adeus a ecoar. Vi-a afastar-se de mim. O olhar dela largar o meu, virar-se de costas, puxar a porta da rua e ela bater com violência e eu despertei de uma pequena letargia momentânea e percebi que ia a caminho da casa-de-banho quando fui interrompido pela saída furtiva dela.
Fui para a casa-de-banho. Não consegui ler nada. Não consegui estar calmo. Voltei ao corredor. Abri a porta da rua. Espreitei o patamar. Fui à janela da sala. Pus a cabeça de fora e olhei a rua, de um lado, de outro. Pouca gente. E ela não era nenhuma delas. Depois deixei-me cair sobre o sofá.
O livro?
Deixei-o na casa-de-banho. Devia tentar ler. Ler para esquecer. Passar à frente. Tinha de me levantar. Mas não conseguia levantar-me. Não conseguia ler o livro. Não queria ler o livro. Só me revia na cama. Na cama com ela. O meu corpo tombado sobre a cama. Os lençóis encharcados. Ela sobre mim. A mão dela na minha garganta. A mão a apertar a minha garganta. E a dizer Tosse! Tosse! E eu a tossir. A tossir. Depois ela tombava sobre mim. Ficava morta, sobre mim. E eu ficava quieto debaixo dela para não a incomodar. Sentia-lhe o coração a bater muito rápido contra o meu. Depois a respiração a acalmar. E por fim levantava-se e ia buscar um cigarro. Acendia-o e passava-mo. Eu esticava a cabeça para fora da cama, procurava a janela do quarto, sentia a cabeça cair fora da cama, ficar pendurada, mas procurava a varanda do prédio em frente e o tipo estava lá. A olhar para mim. Para o meu quarto. Para a minha cama. Puxava uma passa do cigarro e devolvia-o a ela que ia fumar, nua, para a janela.
Levantei-me do sofá e fui a correr até ao quarto, abri a janela e olhei para a varanda do prédio em frente. Não estava lá ninguém. A varanda estava deserta.
Eu acendi um cigarro e fiquei lá, à janela do quarto, a fumar o cigarro e a olhar para uma varanda vazia à espera que aparecesse alguém.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/04]

O Futuro É um Nada

Um de Maio. Podia ser o início de uma história de amor. Mas era somente um relato de ausência. Era o Dia dos Trabalhadores. Mas já não havia trabalhadores. Estavam desempregados. Estavam doentes. Tinham falecido. Restavam os colaboradores. E esses já não eram trabalhadores. Já não eram operários. Esses eram colaboradores. Chefes de si próprios. Igual-igual. Donos de pequenas empresas com um só cliente. O antigo patrão tornado cliente. Igual-igual. O antigo operário era agora burguês. Gel no cabelo e havaianas ao fim-de-semana a passear no areal da Costa da Caparica. Antes isso que ler um livro, gritam-me.
Ainda ouvi alguns relatos, ao longo do dia, de gente em manifestação na Alameda, em Lisboa. A Alameda onde se festejava o Dia do Trabalhador quando o Dia do Trabalhador era festejado. Agora já não havia ninguém para festejar nada. Ou quase ninguém. Ainda houve alguns que foram à Alameda participar numa coreografia norte-coreana. Os poucos trabalhadores que existiam foram contaminar-se uns aos outros. Haveriam de morrer infectados nas semanas seguintes.
O bizarro de tudo isto viria ainda mais tarde, quando os patrões começaram, eles próprios, a perceber o erro que tinham cometido e a começarem a festejar, eles próprios, sim, o Dia do Trabalhador. Para lembrarem. Para se lembrarem quando começaram a perder os seus consumidores. A razão da sua existência. Sim, porque a razão da sua existência não era a produção. Era a venda. Sem consumidores, não havia vendas. Sem trabalhadores, sem gente com trabalho e salário, sem gente com um Rendimento Básico Incondicional, sem gente, afinal, com capital para consumir, sem dinheiro a circular entre a base da pirâmide e o seu topo, com tudo estagnado, não havia capitalismo. Sem base para suportar o topo, o topo iria começar a descair. No fim, iria tudo terminar como terminam todas as coisas: em nada.
Claro que ninguém iria sobreviver à história para a poder contar, nem haveria ninguém a quem contar, nem haveria alguém a quem pudesse interessar a história e muito menos poderia haver alguém que pudesse dizer Eu bem avisei!
Mas eu sei. Eu daqui já espreitei o futuro e vi como era. E era um vazio. Um nada. Caminhamos para o nada. Estamos tornados irrelevantes.
Sentado no meu alpendre, a beber um copo de Herdade dos Grous tinto e a fumar um cigarro, assisto ao caminhar imparável da irrelevância. E já não faço nada para parar a sua caminhada porque já não vale a pena. O futuro é o que fizemos dele.
A vossa única esperança é que nos ofereçam uma segunda oportunidade num outro mundo semelhante a este e rezar para que não o fodamos como fodemos este.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/01]

O que É que Terá Acontecido?

Vinha a atravessar os Pirinéus. Estava ainda nos Pirinéus franceses. Vinha cansado. Era fim-de-dia e estava uma luz bonita, tinha estado sol, mas não estava de óculos escuros porque havia muita densidade negra nas sombras da floresta e já via mal nalgumas zonas mais fechadas, onde as árvores quase que formavam um túnel à volta da estrada, e o carro acendia automaticamente os faróis para eu ver melhor o que estava à minha frente. O sol adormecia para além do horizonte, depois das montanhas. Eu vinha a conduzir há muitas horas. Só com paragens para fazer xixi, beber Red Bull e café. De vez em quando passava a mão pela cara. Para acordar. E sentia a barba a cortar-me as mãos.
Tinha ido até Budapeste, na Hungria. Alguém tinha-me pedido para ir lá entregar um pacote. Em mãos. Achei estranho. Ainda perguntei pelos CTT e a DHL, mas frisaram Em mãos! O dinheiro era bom. Precisava de dinheiro, na altura. Ainda pensei que me estava a meter numa merda de onde não sairia vivo, mas o dinheiro que me ofereciam era o suficiente para me aguentar uns meses.
Aceitei. Passaram-me um Hyundai Santa Fe para as mãos. Fui a casa buscar o iPod e um cabo. Uma mochila com umas cuecas e umas meias. Um livro. Não sei bem porque levei um livro, mas ando sempre com um livro atrás, mesmo que não leia nada. Acho que é um apoio psicológico. Com um livro nunca me sinto só. Deve ser esse o princípio, não sei.
Mais de três mil quilómetros para lá chegar. E depois o regresso. Fui sempre a andar. Demorei três dias. Três dias sem ir à cama. Algumas pausas para passar pelas brasas. Mas nunca dormi mesmo. Dormitei no carro. Com o volante à minha frente e as colunas a passarem a selecção musical do iPod. Acordava. Dava uma volta pelo parque de estacionamento da Estação de Serviço, fumava um cigarro, bebia um café e levava um Red Bull para a viagem. Fui alimentando-me a sandes, hambúrgueres e pizzas.
Sempre estrada fora. Sempre a cumprir as regras de trânsito. Sempre dentro da velocidade permitida. A pagar as auto-estradas com dinheiro. Durante este tempo ninguém me telefonou. Não postei nada no Facebook nem no Instagram. Não vi nenhum filme. Ouvi música. Alguns noticiários. Comecei a ler o livro que tinha levado três ou quatro vezes. Nunca passei da primeira página.
Em Budapeste fiz um telefonema de uma cabina telefónica pública. Deram-me uma morada de um sítio público. Nas margens do Danúbio. Não foi difícil dar com o local. Parecia uma cena de um filme de espionagem. Sentei-me num banco de jardim a olhar o rio. Alguém chegou de bicicleta. Parou à minha frente. Disse qualquer coisa que não percebi. Mas percebi o meu nome. Acenei coma cabeça. Estendeu-me um envelope. Eu agarrei no envelope. Ele continuou com o braço estendido e estalou os dedos. Estendi-lhe o pacote. Ele voltou a dizer qualquer coisa que não percebi e arrancou na bicicleta.
Percebi que a minha viagem tinha terminado. Simples. Olhei dentro do envelope. Várias notas de cinquenta euros. O combinado. Dei uma volta ao longo do Danúbio. Estiquei as costas. Estavam doridas. Estalavam quando eu me endireitava. Percebi que tinha fome.
Entrei num restaurante e fui comer um goulash. Comi tudo o que me puseram à frente. Acompanhei com um copo de vinho tinto. Bebi dois cafés. E arranquei de regresso.
Eram duas viagens sem história. Para lá e para cá. Duas viagens solitárias. À velocidade legal. A música como companhia. Mas no regresso cheguei a vir algum tempo em silêncio, só a ouvir o motor do carro a galgar asfalto, um cigarro aceso entre os dedos da mão direita e o olhar à espera de ver Portugal. Mas ainda faltavam muitos quilómetros.
Cheguei aos Pirinéus franceses.
Estava cansado. O dia estava a chegar ao fim. Tinha estado um belo dia de sol mas, agora, estava a entrar no lusco-fusco. Tinha pensado parar numa Estação de Serviço e descansar um pouco antes de entrar em Espanha, quando aconteceu.
Estava numa recta em planalto, rodeado de árvores frondosas de um lado e de outro da estrada. À frente, pareceu-me ver alguém na berma da estrada. Mantive a velocidade e foquei-me no que estava a ver. Era uma criança. Uma menina, mais concretamente. De vestido rodado. Cabelo loiro. Apanhado em tranças. Tinha qualquer coisa ao colo. Talvez uma boneca. Talvez um gato. E achei a situação bastante peculiar. E pensei O que é que faz uma criança aqui à beira da estrada? E quando me estava a aproximar da criança, ela virou a cara para mim. Eu vi-a a olhar-me directamente nos olhos. Uns olhos sem expressão. Olhos frios. Mortos. E precisamente quando estou quase a passar à frente da criança, ela dá dois passos para dentro da estrada e eu bato-lhe com o carro, ouço o impacto, um Pam terrível e doloroso, ainda travei a fundo, espetei os pés no travão, levei a mão direita ao travão-de-mão e puxei-o, senti o carro a deslizar, pareceu-me perder o controle do carro, mas acabei por conseguir imobilizá-lo e pará-lo um pouco mais à frente do sítio do impacto.
O carro estava parado junto à berma, mas ainda na estrada. Eu estava com as duas mãos agarradas ao volante, como duas garras. Paralisado. Estava a transpirar. Estava muito nervoso. Olhei pelo espelho retrovisor e tentei ver para trás de mim. Mas não conseguia ver nada. Estava tudo desfocado. Tirei o cinto de segurança, abri a porta do carro e deixei-me tombar para o lado e vomitei no chão. Limpei a boca às mangas da camisola. Levantei-me a custo e voltei atrás. Vi as marcas dos pneus no asfalto. As marcas da travagem. Fiz o trajecto a pé, a olhar à volta. À procura da criança. E continuei um bom bocado. Entrei pela floresta. Chamei por alguém em francês. Em inglês. Em português. Não havia ninguém. Eu não via ninguém.
Voltei ao carro. Passei pelo vomitado e fui até à frente. Não havia nada amolgado nem partido. Não parecia que tivesse batido em nada nem em ninguém. Encostei-me ao carro e deixei-me descair para o chão. Acendi um cigarro. Fumei-o. E neste tempo todo não passou nenhum outro carro.
Depois de ter fumado o cigarro voltei a levantar-me e dei outra volta à volta do carro. Entrei. Liguei-o. Arranquei.
Durante o resto da viagem até Lisboa não voltei a pôr música. Fui fumando uns cigarros atrás dos outros. E só pensava O que é que teria acontecido?
Ainda hoje pergunto O que é que terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/29]

Os Dias do Segundo Turno na Fábrica

Eu chegava a casa, depois de oito horas seguidas do segundo turno na fábrica, colocava o Harvest do Neil Young na aparelhagem. Começava por uma primeira audição do Heart of Gold enquanto me despia. Depois colocava no início do Lado A e ia tomar um duche. Despir-me do cheiro da fábrica. Das horas da fábrica. Tirar a fábrica de cima de mim, de dentro de mim. Depois do duche, e como acabava por não ouvir quase nada do disco, voltava a colocar a agulha no início do Lado A. Vestia-me. Vestia-me de lavado. Sentava-me na mesa da cozinha, comia uns pedaços de queijo seco com azeite e uma fatia de pão alentejano e bebia um copo de vinho tinto. Às vezes ainda não tinha acabado de comer e beber e ia virar o disco. Ouvia o Lado B. Depois saía.
De banho tomado, roupa lavada e o Harvest a ressoar-me na cabeça, saía de casa. Descia as escadas. Mesmo se o elevador estivesse no meu andar, eu descia as escadas. Chegava à rua e acendia um cigarro. Deixava o fumo penetrar-me cá dentro. E começava a andar pela cidade. Umas voltas tontas. Sem destino. Misturava-me com as outras pessoas. Sentia-lhes a transpiração quando passavam por mim. Ou aquele cheiro acre de quem não tomou banho. Ou o excesso de perfume a queimar etapas. Algumas das pessoas cheiravam demasiado a tabaco frio. E eu pensava sempre Acho que nunca cheirei assim. E não, nunca cheirei assim. Os carros passavam ao meu lado, na estrada. Eu seguia pelo passeio de calçada portuguesa. Às vezes com pedras levantadas da calçada. As mãos nos bolsos. O cigarro na boca. Desviava-me das outras pessoas. Acusava o barulho dos motores, das buzinas, dos gritos das pessoas zangadas. Havia sempre muita gente zangada.
Às vezes contava as moedas e comprava um jornal. Ia até ao jardim e sentava-me num banco a ler o jornal. Às vezes as notícias já eram velhas. O jornal era da manhã. Entretanto o mundo já dera várias voltas ao mundo. As notícias frescas já tinham morrido e nascido outras. Algumas ressuscitavam, mas diferentes. O que importava ali era estar sentado no banco de jardim, a ver quem passava mas ocupado a ler um jornal, como quem não dava demasiada importância aos outros. Depois fumava mais um cigarro. Largava o jornal num caixote do lixo. Dava mais uma volta pela cidade. Às vezes bebia um café numa pastelaria. Comia um pastel de nata. Nos dias de maior calor sentava-me numa esplanada e bebia uma cerveja. Olhava os miúdos e as miúdas cheios de vida a circularem por ali, nas mesas em volta. Nunca estavam parados. Pareciam beija-flores entre uma mesa e outra, sempre aos saltinhos, sempre em movimento, sempre prontos para irem até outro lado, havia sempre outro lado, outra pessoa, outro beija-flor. Eu ficava sentado à minha mesa a beber a imperial a apreciar as voltas que a juventude dava. Pelo menos aquela ali, aquela que se sentava nas mesmas mesas que eu, nas mesmas mesas na mesma esplanada, onde entre vários rituais que executavam nunca se via um livro a ser lido que fosse. E depois? Eram felizes assim, não eram?
Com a luz a baixar depressa, acabava por me ir embora. Às vezes passava pelo Rei dos Frangos e levava meio-frango assado para comer em casa. Às vezes comprava umas latas de conserva num pequeno supermercado lá perto de casa. Houve uma altura em que comia umas latas de atum que já vinham com feijão frade misturado. E umas latas de bacalhau com grão também misturado. Depois passou-me esta vontade. Regressava a casa, voltava a ligar a aparelhagem com o Harvest e deixava-me adormecer no sofá, frente à televisão desligada e ao som do Neil Young a vaguear pela casa. Andei meses a ouvir o Harvest. Chegava da fábrica e punha o disco a tocar. Havia discos assim, que consumia até ao osso, antes de passar ao próximo.
Agora já não chego a casa. Agora já estou em casa. Já não dou voltas pela cidade. Saio para ir comprar alguma coisa que precise e regresso logo. Agora já só me restam as memórias desses dias, desses dias antes de ser despedido. Agora já nem me apetece ouvir música. Quando um dia quiser lembrar estes dias de confinamento, o que é que terei para recordar?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/20]

Para um Diário da Quarentena (Décimo Andamento)

Hoje acordei cedo. Eram oito da manhã quando me levantei. Na rua, nem chuva nem sol. Um dia assim-assim. Olhei-me ao espelho. Cabelo muito grande. Olheiras. Cara macilenta. Barba mal aparada. Vesti um fato-de-treino, calcei as sapatilhas e saí de casa. Fui dar uma corrida ali à volta. De início, e por falta de hábito, respirei pela boca. Dez minutos depois estava cheio de azia. Fechei a boca e comecei a respirar pelo nariz. Um quarto de hora mais tarde parei para dar uma bombada de Ventilan e fui a passo no quarto de hora seguinte. Recomecei a correr no regresso a casa. Transpirei. Cansei-me.
Na casa-de-banho peguei numa tesoura e, olhando-me ao espelho, dei uns cortes no cabelo. Não importava ficar bem cortado. Tinha de desbastar. E foi o que fiz. Desbastei. Não ficou assim muito mal. Acho que fiquei mais novo. Também aparei a barba
Tomei banho.
Vesti-me.
Bebi café. Não comi nada.
Eram dez da manhã. Peguei no carro e fui ao supermercado. Uma luva numa mão. um pequeno frasco com álcool. Levei saco de casa. Peixe. Pedi para amanhar e cortar em pedaços pequenos. Algum frango. Umas iscas de vaca. Algumas conservas. Vinho. Sumos. Legumes. Fruta. Duas broas. Pão. Paguei com multibanco. Marquei as teclas com a borracha de um lápis.
No carro separei as compras por dois sacos. Tirei a luva e coloquei-a no lixo. Passei álcool nas mãos, no cartão multibanco e na borracha do lápis. Passei em casa da minha mãe. Um dos sacos era para ela. Não almoças?, perguntou-me. Pode ser, disse. Comemos uma sopa de feijão que ela tinha feito. Depois partilhámos um resto de massada de peixe da véspera. Eu não gosto de massada de peixe, mas comi e não disse nada. Já não se lembra que nunca gostei de massada de peixe. Acompanhámos com um copo de vinho tinto. Eu descasquei uma maçã e foi metade para cada um. Polvilhei com um pouco de canela e ela gostou. No fim de almoço ela tomou os comprimidos e eu lavei a louça. Reabasteci-lhe a caixinha dos comprimidos. Disse-lhe que o Xanax estava esgotado. Ela disse que ainda tinha uma caixa. Menos mal. Ela foi até à sala ver as notícias. Eu aspirei-lhe a casa num instante. Depois perguntei-lhe se queria ir dar uma volta à rua. Ela começou a rir e disse Está a chover! Pois está! pensei eu. Não tinha reparado. Fica para a próxima! disse-me com um sorriso. Ela foi deitar-se um pouco. Eu vi-me embora.
Eram duas da tarde. Regressei a casa. Despi a roupa e pu-la a lavar. Tomei banho. Voltei a vestir um fato-de-treino.
Fiz um chá verde. Sentei-me à mesa da cozinha a fumar um cigarro, a beber o chá e a ler as notícias online. No Facebook descobri mais gente que me dá nervos. Havia uma petição contra a Organização Mundial de Saúde por erros grosseiros e defesa da China. E perguntei-me o que é que aquela gente sabia? E se aquela seria a melhor altura para fazer o que se propunham fazer?
Quatro da tarde. Abri uma página do Word. Escrevo. Escrevo durante muito tempo. Escrevo tanto que esqueci as horas e a passagem do tempo.
Quando dou por mim, são oito da noite. Já é quase noite lá fora. Páro de escrever. Abro uma garrafa de vinho. Olho para o fogão mas não me apetece cozinhar. Rasgo um pedaço de pão para ensopar o vinho. Vou até à janela. Acendo um cigarro. Não há ninguém na rua.
Logo mais à noite irei ver um filme. Não sei ainda o que é que me apetece ver. Há-de ser qualquer coisa. Qualquer coisa há-de servir. Qualquer coisa de ficção há-de ser melhor que esta realidade. Depois do filme irei para a cama. Irei ler um livro como leio todas as noite. Talvez uma novela gráfica. Reler uma das novelas gráficas. Tenho poucos livros aqui comigo, mas não consigo dormir sem ler. Releio.
Quando estiver para me deitar hei-de lembrar-me do dente que se quebrou ontem e do qual estive esquecido durante todo o dia. Na altura de apagar a luz e deitar a cabeça na almofada, a língua há-de passar pelo dente quebrado e eu hei-de lembrar-me que está quebrado, embora não me doa, e que nos próximos tempos não vou poder ir ao dentista e então irei pensar se os meus outros dentes irão resistir a estes dias ou quebrar-se como este se quebrou e irei deprimir um bocado até adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/16]

E Vou para Onde?

Eu estava sentado na cama, as costas apoiadas na parede de cabeceira, com um livro de fotografias de Wolfgang Tillmans em cima das pernas (naquela época andava muito interessado nas composições do Tillmans, especialmente na criação de texturas e nas naturezas mortas) e ela estava sentada ao fundo da cama de costas para mim.
Tinha pousado o livro nas pernas quando ela entrou no quarto e se sentou de costas para mim ao fundo da cama. Sentou-se muito direita. O cabelo escorria liso sobre as costas. Nada nela se movia. Sentou-se ao fundo da cama, as mãos pousadas sobre as pernas e o olhar provavelmente fixado no exterior que se via para além da janela que ficava à frente dela. E de mim.
Olhei lá para fora seguindo o que imaginei que fosse o olhar dela. Estava a chover. Estava sempre a chover naqueles dias. Dias cinzentos e frios. Dias chuvosos. Dias tristes. De onde estava não conseguia ver a rua, afinal, aquilo era um terceiro andar, não era muito alto, mas o suficiente para me manter acima do limite da rua. Imaginava a rua vazia. Vazia de pessoas e de carros. Estava tudo em casa. Como eu. Como nós. Já lá iam, quanto? três meses, mais ou menos, de confinamento. Como é que as pessoas se estavam a aguentar? Se fosse como nós, eu e ela, mal, muito mal. Quase já não nos falávamos. Dormíamos na mesma cama mas de costas voltadas um para o outro. Ela ganhara o hábito de se despir e vestir na casa-de-banho para não o fazer à minha frente. Passámos a comer quando tínhamos fome, mas sozinhos. Tínhamos sempre fome em alturas diferentes. Se calhar era propositado. Se calhar a culpa era minha. Talvez fosse dela. Ou da situação. Nunca tínhamos estado tanto tempo sozinhos. Ao fim de quinze dias já não tínhamos nada para contar um ao outro. No final do primeiro mês, já não nos tocávamos. Quinze dias mais tarde já mal nos ouvíamos falar. Grunhidos era o que saía das nossas bocas. Ela continuava nas suas leituras. Aqueles poetas checos e polacos que ela desencantava não sei onde. Eu fazia pesquisa para os meus projectos. Projectos que talvez viesse a realizar um dia mais tarde, quando a vida pudesse retomar uma espécie de normalidade e pudéssemos sair à rua e estarmos uns com os outros.
Lá fora, na rua, continuava a chover.
Foi nessa altura que percebi que ela estava a chorar.
E então disse Quero que te vás embora!, assim, sem se virar para mim. Se calhar não queria que a visse chorar. Se calhar precisava de não olhar para mim para ter forças de me pedir o que estava a pedir.
Eu perguntei Agora?
A pergunta ficou um pouco no ar, a ecoar. Pareceu-me sentir uma fungadela. E depois respondeu Sim, o mais rápido possível.
Fiquei ali a olhar para a nuca dela que continuava de costas para mim, provavelmente a olhar a chuva que caía lá fora. Eu ainda tinha o livro do Tillmans aberto sobre as pernas. Via uma fotografia muito bonita com o que podia ter sido o meu pequeno-almoço, umas laranjas num pequeno prato, um filtro de café sobre uma caneca e uma embalagem que talvez fosse de manteiga, ou de queijo-creme, uma garrafa de vidro de leite vazia e uma colher caída junto a uma janela com um relvado verde e o tronco de uma árvore. Era uma fotografia muito bonita mas muito triste também.
Perguntei E vou para onde?
Vi-lhe o braço a subir e a levar a mão até à cara enquanto rebentava num choro sonoro. Levantou-se e saiu do quarto a correr.
Eu fechei o livro do Wolfgang Tillmans e larguei-o na mesa-de-cabeceira. Lá fora na rua continuava a chover. Pensei que mesmo que houvesse alguém na rua a furar o confinamento, agora estaria mesmo vazia. As pessoas não gostam de andar à chuva.
E voltei a perguntar E vou para onde?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/14]