O Poder do Erro

Ao caminhar pela rua, via no que nos tínhamos tornado.
O sol, envergonhado, já não conseguia furar as nuvens cinzentas permanentes sobre as nossas vidas. A chuva miudinha, era persistente. As caras fechadas das pessoas, as caras marcadas pela desgraça constante não permitiam perceber o que se passava. Quer dizer, não permitiam perceber o que se passava pessoalmente com cada um de nós mas, todas aquelas caras revelavam o mesmo.
Do ódio passou-se ao medo. Das ameaças passou-se ao medo. Dos gritos furibundos contra a corrupção, passou-se ao medo. Do apelo ao radicalismo, passou-se ao medo. Tudo passou ao medo. Medo que o dedo nos apontasse a nós.
Ele. É ele. Foi ele.
Ele é sempre o outro. Outro que se escolhe antes que nos escolham a nós. É uma maneira de manter o medo. Há que escolher um alvo antes que o alvo sejamos nós.
Era o medo o que eu via na rua. O medo tinha tomado conta de nós. Nós éramos o medo.
Os outros já não eram os negros, os muçulmanos, os ciganos, os homossexuais. Os outros éramos nós. Nós todos. Qualquer um de nós. Qualquer um de nós dominado pelo medo de estar na ponta de um dedo. A acusação não precisava de ser bem fundamentada. Bastava a suspeita. Bastava a inveja. Bastava a vingança. Bastava dizer. Bastava apontar o dedo. Ele. É ele. Foi ele.
As estradas estavam vazias de carros. Repletas de buracos. Já não havia asfalto. Não para todas as ruas. Não para estas ruas. As bicicletas ganharam novo alento. Não precisavam de combustível. Numa cidade como esta era complicado. Era fácil circular na cidade, uma cidade plana, mas sair da cidade implicava subir. A cidade fica num vale. As pessoas acartavam as bicicletas à mão no seu regresso às casas na periferia da cidade, nos arrabaldes. Era aí que cultivavam as verduras e criavam as galinhas e os coelhos que vinham vender à cidade. Mas cada vez havia menos para vender. Cada vez havia menos para comprar. Pouco dinheiro para aquisição. Poucos produtos para troca. Já assistira alguém morrer por um bocado de pão duro. Os assaltos, agora, faziam-se para lá do limite urbano. As hortas tinham de ser protegidas ou eram roubadas. A polícia não ia para além dos limites da cidade.
Os combustíveis racionados.
A internet controlada.
A televisão só a estatal.
Os jornais só os permitidos.
O SNS destruído.
A Escola Pública extinguida.
A polícia como defensora do estado.
A guarda como defensora dos poucos privilegiados.
Os militares para aguentarem tudo como tudo estava.
Ao caminhar pela rua, via no que nos tínhamos tornado.
Gente só, pobre e triste. Gente com medo. Medo de tudo menos da morte.
Já não havia livrarias. Casas de brinquedos e de jogos. Já não havia cor. Nem quadros. Os filmes eram uma reposição das matinées de Domingo. A música só para bailar. E bailar sim, poderia bailar-se aos dias indicados para bailar. Mas já ninguém bailava. Já ninguém tinha vontade de bailar. Ouvia falar que havia gente a trocar livros, mas nunca vi nenhum para além dos que consegui esconder e guardar antes da grande purga após as eleições que garantiram o poder à não-democracia.
A chuva miudinha continuava a cair. Eu continuava a caminhar ao longo da rua. Ia sem destino, mas a fingir que o tinha. Para não ser parado e inquirido. Ia pelas ruas fora a auscultar as dores da rua. Para perceber se estávamos mortos ou não. Se ainda valia a pena acreditar ou não.
Mas ao caminhar por aquelas ruas, via no que nos tínhamos tornado. E não tinha muitas esperanças no futuro. Podíamos não estar mortos, mas estávamos moribundos.

[escrito directamente do facebook em 2020/08/09]

O Monstro do Outro Lado da Janela

O dia acordou enublado. Eu acordei com o despertador, que a luz no quarto, muito difusa, não era suficiente para me fazer abrir os olhos e despertar para a vida.
Olhei para o tecto. Estava lá. Inteiro. Tentei ver rachas, pontos negros. Moscas. Mosquitos. Aranhas. Não havia por lá nada a pontilhar o branco do tecto. Mas podia haver. E eu não ver. A luz não era muita. Eu estava a acordar. Os óculos que usava era só para ler. Mas não sei se não devia começar a usar óculos para ver mais que as letras que fugiam das páginas dos livros que continuava a roubar nas mesmas livrarias de sempre. Coloquei os óculos. Olhei para o tecto. Um borrão. Era só o que via. Um borrão sem forma. Tirei os óculos e larguei-os na mesa-de-cabeceira.
Empurrei o edredão para trás. Senti o frio da manhã pelo corpo. Estremeci. Levantei-me. Agarrei nas calças de fato-de-treino e vesti-as. Enfiei uma t-shirt. Saí do quarto. Entrei na cozinha. Liguei a máquina do café. Fui à casa-de-banho. Regressei à cozinha. Enchi uma caneca de café. Fui beber para a janela. Mas não via nada das árvores. Não via os pinheiros. Não via as laranjeiras cheias de laranjas. Não via o muro do quintal nem a estrada lá ao fundo. Não via as montanhas naquele que era o meu horizonte habitual. Não via nada. Só um borrão difuso. Um nevoeiro tão cerrado e próximo que não via nada.
E, de repente, um monstro. Um monstro saltou à minha frente. Um monstro saído do nevoeiro saltou à minha frente. Dei um salto para trás. Assustei-me. Dei um salto para trás. A caneca de café na mão. A caneca de café saltou comigo. O café também saltou, por sua vez. E tombou sobre mim. Foda-se! disse alto. Foda-se! repeti. O café caiu-me em cima. Em cima de mim. Pela t-shirt. Pelas calças de fato-de-treino. Pelos pés descalços. Pelo chão limpo. Foda-se! disse outra vez ao sentir-me queimado pelo café. O monstro continuava aos saltos frente à janela. O monstro era o cão. O cão veio do nevoeiro. Escondido pelo nevoeiro. E saltou à minha frente. Do outro lado do vidro. Apanhou-me desprevenido. Assustei-me. Cabrão! disse, a pensar no cão. E via-o lá do outro lado do vidro aos saltos.
Larguei a caneca no lava-louça. Fui à despensa buscar um balde e a esfregona. Despejei lá dentro uma medida de tampa de Sonasol Verde. Abri a torneira de água quente no lava-louça e enchi o balde. Depois fui lavar o chão da cozinha. Lavei o chão todo. Não ia deixar manchas. Não ia só lavar aquele pedaço sujo de café. Foi tudo. A cozinha toda. Lá fora o cão continuava a ladrar e a saltar em frente à janela. Queria comer, claro. O cabrão queria comer. Agora esperas!, disse-lhe através da janela fechada à espera que ele ouvisse e compreendesse.
Depois fui tomar banho.
Um duche quente.
Vesti-me. Quando regressei à cozinha, já não havia nevoeiro na rua. O cão já não estava a ladrar lá fora.
Saí à rua. Acendi um cigarro. Já via os pinheiros. Já via as laranjeiras cheias de laranjas. Pensei que mais tarde iria fazer um sumo de laranja. Gosto de sumos de laranja. De laranjas a sério. Olhei mais lá para o fundo e já tinha de regresso o meu horizonte habitual. As montanhas. As montanhas verdes.
Ouvi vozes. Olhei a estrada, ao fundo do quintal. Ao portão. Duas mulheres. Duas mulheres com livros nas mãos. Duas mulheres, de calça e casaco. Mala a tira-colo e uns livros, ou revistas, presos pelos braços junto ao peito.
Testemunhas de Jeová, pensei.
Fiquei em silêncio. Deitei o cigarro fora. Voltei para casa. Ouvi a campainha a tocar. Mas não havia ninguém em casa. Só o cão. O cão que foi ladrar para o portão. Foi ladrar às Testemunhas de Jeová.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/15]

Não Havia Dinheiro

Não havia dinheiro. Era o que se dizia Não há dinheiro.
Qual é a parte da frase ‘Não há dinheiro’ que não entendem? começaram por dizer. E depois foi sempre a eito. Não havia dinheiro. Não havia dinheiro para nada. Quer dizer, haver devia haver, nós não sabíamos era onde. Onde é que havia. Onde é que ele estava. Quem é que o tinha. Porque nos diziam que não havia dinheiro, mas depois ele aparecia para as coisas muito muito importantes.
Salvaram-se Bancos. Instituições Financeiras. As rendas nas grandes empresas de energia nunca pararam. As Parcerias Público-Privadas também não. Nem as Subvenções Vitalícias dos Deputados que legislaram em causa própria.
Não havia dinheiro, mas havia.
Havia dinheiro para coisas muito muito importantes.
Em casa deixou de haver luz eléctrica. Já não havia dinheiro para a pagar. Mas a companhia continuava a receber as rendas.
Em casa deixou de haver água. Já não havia dinheiro para a pagar. Mas as empresas de águas e saneamento, municipais, continuaram de vento-em-popa.
Em casa deixou de haver carne de vaca. E peixe.
O pão circulava entre amigos. Quem ainda tinha gás fazia pão no forno. As banheiras foram invadidas pelas hortas. Os quintais passaram a ter árvores de fruto e guardadas com um homem armado. Os livros eram lidos e relidos e passados de mão-e-mão. As livrarias morreram e os poucos livros que existiam, eróticos e de auto-ajuda, eram vendidos nos supermercados onde ainda ia quem podia ir.
Mas tudo ia bem.
Às Sextas, Sábados, Domingos e Segundas havia sempre futebol da Liga. Ou da Taça. Da Taça da Liga. Ou da Taça de Portugal. Às Terças e Quartas havia Liga dos Campeões. Às Quintas a Liga Europa. De vez em quando o Fernando Pimenta e o Nelson Évora. E o Salvador Sobral. As mamas da Rita Pereira e os bíceps do Diogo Morgado. Os gritos da Cristina Ferreira e da Júlia Pinheiro. Os fatos do Manuel Luís Goucha. A simpatia da Fátima Lopes. As acusações do Hernâni Carvalho. Havia também qualquer coisa da Rita Ferro Rodrigues mas já não me lembro o que era.
Ainda tinha uma televisão a pilhas. Pequenina. Para poder ver alguma coisa do que se passava para lá das minhas limitações. Para entreter o tempo. A fome. E a miséria em que a vida se tornou.
O tempo descontrolou-se. Chovia e fazia muito calor ao mesmo tempo. Chovia muito e muito depressa. As barragens e os rios inundavam os terrenos. As cidades. As aldeias. Mas depois havia seca. Os produtos morriam antes de chegar a crescer.
Sempre que arranjava um cigarro, era uma festa. Fumava-o aos poucos. Duas ou três baforadas por dia.
Deixei de cheirar café. Deixei de beber cerveja. Nunca mais vi vinho tinto.
Chegámos a um ponto em que a vida perdeu sabor. Já não sabemos o que andamos aqui a fazer. Mas também não nos sentimos com vontade de saber.
Eu pelo menos não me sinto. Não me sinto com vontade de saber nem de fazer o que quer que seja. Nem forças tenho para cortar as veias. Olho a faca e nem a consigo agarrar. Está ferrugenta.
Vou andando. Vou andando até parar de andar.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/03]