Egoísta

Quando trabalhei numa livraria, tinha quase todos os livros do mundo à minha disposição para ler. E lia.
Só me irritava com os clientes, esses chatos, quando entravam porta dentro à procura de um livro assim ou assado. Um livro para rir. Outro para decorar a estante. Outro ainda para equilibrar o pé da mesa da cozinha e ainda outro que ficasse bem junto à lareira, em cima de uma mantinha de lã e uma chávena de chá quente. Mas nada me irritava mais que interromperem-me por causa de material de papelaria. Livraria, dizia eu. Isto é uma livraria. Vendemos poemas. Quer um? Primeiro olhavam-me admirados com o desplante do empregadeco, depois cresciam e faziam ouvir a sua voz irritante de cliente. Eu dizia A livraria é para ler livros, não para aturar clientes a precisar de desabafar. Para desabafar é favor entrar no bar da porta ao lado. Têm cerveja e whiskey e um empregado que não lê livros mas sabe tudo sobre futebol e sites porno.
E eu revirava os olhos para o livro e esquecia o cliente.
Quando trabalhei numa livraria, tinha quase todos os livros do mundo à minha disposição para ler. Uma boa colecção de fundo de catálogo e uma boa selecção de novidades. E eu lia ambos. Ao mesmo tempo.
Só me irritava com os clientes que entravam porta dentro para me chatearem. Se eu pudesse, fechava a porta da livraria a sete-chaves e ficava com ela só para mim. Só vendia os livros repetidos e por marcação, para alturas em que eu não estivesse a ler. Podia ser quando eu estivesse a dormir, por exemplo. Eu deixava o livro numa caixinha do lado de fora da livraria e o cliente só tinha de lá deixar o dinheiro trocado. Ah, não há trocos, claro, nem multibanco nem cartão de crédito. Mas acredito na confiança. Eu deixava o livro e o cliente deixava o dinheiro. Podíamos ser felizes, assim.
De manhã eu acordava e quando chegasse à livraria levava a caixa com o dinheiro para o interior e largava-a sobre o balcão, pegava num livro novo e enquanto lia a badana, tirava um café que bebia enquanto devorava o prefácio e depois, depois do prefácio e do café, entrava dentro do livro e só saía de lá depois de tê-lo lido todo. Esse seria um bom dia.
E nesse tempo todo não havia um cliente. Um só cliente.
Ah, como eu seria feliz!
Às vezes apetece-me ser egoísta. Às vezes apetece-me só pensar em mim. Às vezes os outros só me irritam.

[escrito directamente no facebook em 2021/04/20]

Viajar sem Sair do Mesmo Sítio

E o que é que vamos fazer?, perguntavam os olhos dela que não precisavam da boca para comunicar comigo. Já tínhamos almoçado, lavado a louça do almoço à mão porque a máquina está avariada e hoje em dia as máquinas avariadas vão para o lixo e compram-se outras novas, mas nós não queríamos mandar a máquina para o lixo, ainda não era muito velha, nem tínhamos dinheiro para uma nova, e não podíamos ir beber café à rua porque não havia rua para ir. Devíamos confinar, que era ficarmos por casa a fazer coisas de casa, coisas que gostamos de fazer normalmente mas só depois de irmos à rua beber um café expresso porque o Nespresso é interessante mas nem parece um café a sério, tão só uma fancaria engraçada, cara e muito, demasiado, século XXI, quando ainda corríamos as livrarias resistentes à procura de livros do século passado que eram os únicos que nos alimentava a esperança de futuro na humanidade, mesmo que um futuro coxo e cheio de bichezas (ainda ontem encontrei dois bichinhos de prata no meio dos meus livros e esmaguei-os com o polegar).
Ficamos a ler!, foi o que me saiu da boca, mas era o que me apetecia mesmo, ler um livro qualquer, de preferência um policial ou de espionagem, estava a apetecer-me algo assim, mas antes fui colocar o Evol dos Sonic Youth na aparelhagem e fui até à janela fumar um cigarro. Ela juntou-se a mim. Não fumava cigarros, mas pôs-se a fazer um charro que eu depois ajudei a matar. Eu não posso fumar muito dos charros que ela faz que fico muito maluco e este tempo não está para maluquices. Ajudei-a a matar o charro e bastou para ficar com os olhos vermelhos, percebi logo quando ela riu para mim.
Percorri as estantes à procura da salvação e encontrei-a na forma de um John Le Carré. Há quantos anos não lia o Espião que Saiu do Frio? Tirei-o e pensei que as grandes escolhas acontecem assim, por acaso, numa busca à sorte, sem necessidade de procurar a totalidade dos livros na totalidade das prateleiras na totalidade das estantes que ainda se prolongavam pelo corredor e pela pequena divisão que servia de escritório mas onde nunca nenhum de nós se sentava a trabalhar, preferindo sempre a cozinha acanhada ou a sala, com a televisão ligada como som de fundo e companhia que nunca desprezávamos, principalmente para ir ouvindo as notícias, mesmo que elas fossem repetidamente as mesmas ao longo de todo o dia.
Sentei-me na poltrona junto à janela com o Le Carré nas mãos quando a vi chegar com uma banda desenhada. Era algo que ela não apreciava mas que, aos poucos tem vindo a criar um gosto tão ou maior que o meu que a levou até a dedicar algum do seu tempo a aprender mais sobre a história da banda desenhada, as diferenças entre os comics americanos, a banda-desenhada franco-belga e os autores underground que lhe agradam ainda mais do que a mim.
Ela chegou com uma colectânea de histórias do Robert Crumb, deu-me um beijo leve nos lábios e sentou-se na outra poltrona, do outro lado da janela.
Começámos a ler e só regressámos à vida para acender as luzes dos candeeiros, depois da luz lá de fora começar a tombar. Depois, eu regressei ao Espião que Saiu do Frio. Ela, que já tinha acabado o Crumb, foi buscar um Tintim, No País do Ouro Negro, e disse Apetece-me viajar. Sim, ela gostava muito de viajar mas, nos últimos tempos, só o podemos fazer aqui em casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/12/08]

Livros

Hoje chegaram uns caixotes cá a casa. Depois de terem andado a passear por meio mundo, os caixotes com os meus livros, ou pelo menos com uma parte deles, uma parte mais recente dos meus livros, chegou finalmente cá a casa.
Parecia Natal antecipado.
Com o canivete-suíço na mão, cortei a fita-adesiva que fechava as abas dos caixotes. Cortei as fitas dos caixotes, um a um. Fita-a-fita. Caixote-a-caixote. Depois comecei a retirar os livros. Aquela massa de livros, alguns deles que já nem sabia que os tinha – a minha memória tende a esquecer-se de algumas coisas. Não lhe descortino a lógica. E tenho horror a que esqueça as coisas boas. Os livros são parte das coisas boas. Mas também não deixou de ser um momento feliz, esse, ao descobrir que, afinal, também tinha este livro, e aquele e aqueloutro.
Comecei a fazer montinhos no chão. Montinhos com ordem alfabética. Dou prioridade ao primeiro nome. Sim, sei que não devia ser assim, mas aqui em casa é assim que sou: A – Alberto Pimenta; B – Bret Easton Ellis; C – Charles Bukowski, e por ai fora.
Foi com especial delícia que voltei a folhear os livros do Julio Cortázar, do Philip Roth, do Cormac McCarthy. Alguns, alguns muito poucos, já tinha comprado outra vez. Alguns com os quais não conseguia mesmo passar sem eles. Agora tenho-os repetidos. Alguns tenho-os repetidos várias vezes se pensar nos outros caixotes que andam por aí, perdidos de casa-em-casa, há mais de vinte anos, e ainda não encontraram o caminho certo.
Gostaria de falar no cheiro. Mas desta vez não havia cheiro. Nem bom, nem mau. Já não tinham aquele cheiro da novidade quando se adquire novo numa livraria, mas também ainda não tinham aquele cheiro a tabaco frio, às vezes ao doce enjoativo do tabaco de cachimbo, do manuseado, dos livros usados, em segunda-mão, dos alfarrabistas. Não, desta vez, e estranhamente, os livros vinham sem cheiro. Alguns caixotes traziam bichinhos da prata, aqueles bichinhos pequeninos que gostam de se alimentar do papel dos livros, esmaguei três desses bichinhos com o polegar, vi-os desfazerem-se em papa sob o meu polegar, verifiquei os livros, todos, um-a-um, e não vi nenhum trincado pelos bichos. Talvez tenham dado mordidinhas microscópicas e eu não as tenha visto.
Alguns destes livros não os tinha lido. Alguns nunca os irei ler. Mas gosto de os ter ali, à mão, ao olhar, para pegar e roubar uma frase ou outra ao acaso, em períodos de necessidade, quando o calor é demais, o frio aperta, a fome esgana ou o apocalipse se aproxima. Para petiscar quando me apetece.
Sinto-me em boa companhia na companhia dos livros. Mesmo dos maus. Também tenho livros maus. Alguns mesmo muito maus. Alguns que me ofereceram, deram, outros que fui eu que comprei. Já nem sei porquê. Talvez o meu percurso de vida os justifique. Não sei. Mas continuam a ser livros, meus livros e vão para as estantes como os outros.
Quando já tinha os livros todos empilhados por ordem alfabética, fui abrir uma garrafa de vinho. Enchi um copo. Acendi um cigarro. Sentei-me no sofá a olhar para os montinhos de livros pela ordem alfabética e disse Um dia destes vou arrumar-vos nas prateleiras que ainda hei-de arranjar. Por agora ficam por aí. A fazerem-me companhia.
Liguei a televisão e estavam, de novo, a contabilizar o número de infectados pelo novo coronavírus.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/10]

Eu e Ela e a Índia

Tínhamos passado as férias de Natal daquele ano no alpendre de casa dos meus pais.
Enquanto toda a gente andava atarefada a comprar presentes e a preparar a noite de consoada e a fazer preparativos para a Passagem de Ano, eu e ela passávamos os dias inteiros no alpendre lá de casa a ler, a ouvir música e a conversar. Às vezes apareciam por lá alguns amigos e jogávamos ao Monopólio e ao King. A minha mãe fazia chá de menta que nos mantinha quentes e uns biscoitos de manteiga que nos aconchegavam o estômago. Ao mesmo tempo foram umas férias de provação. Nem eu nem ela fumávamos à frente dos meus pais e, estando toda a gente ali por casa durante aqueles dias, acabámos por estar as férias sem fumar um único cigarro, com excepção da noite de Passagem de Ano, que passámos sozinhos lá em casa, e quando fumámos um cigarro já passava da meia-noite, oficialmente já era outro ano, e foi para selar a primeira noite de sexo do novo ano.
Naquelas férias lemos bastantes livros. Eu andava obcecado com os livros do Harold Robbins e tinha convencido a minha mãe a mandar vir alguns deles através do Circulo de Leitores. Durante esses dias despachei Os Aventureiros, Uma Mulher Só e O Pregador. Ela lia outras coisas. A Campânula de Vidro da Sylvia Plath e O Fio da Navalha do Somerset Maugham. Ouvíamos muito Jam e Durutti Column. Falávamos dos livros que estávamos a ler. Falávamos mais que discutíamos porque só um de nós é que tinha lido o livro. Mas ouvíamos o outro com toda a atenção do mundo.
Às vezes eu parava de ler e olhava para ela, compenetrada na leitura, e via-lhe o cabelo longo, de um castanho escuro e brilhante, e lá no meio, quase escondidas, umas argolas enormes de prata que eu lhe tinha oferecido num aniversário e que lhe ficavam muito bem, davam-lhe um ar de cigana chique, uma espécie de Stevie Nicks, mais nova, mais bonita e muito mais lá de casa. Eu sentia-me um tipo com muita sorte.
Também conversávamos muito sobre as viagens que queríamos fazer num futuro não muito longínquo. Ainda nunca tínhamos ido a lado nenhum assim longe. Íamos muitas vezes ao Pedrogão, a São Pedro de Moel, até já tínhamos ido a Lisboa e uma vez ao Porto, mas nunca tínhamos ido assim para fora, em viagem, a conhecer o que não conhecíamos, a ver coisas novas, a aprender o que nos era novo. Mas tínhamos esse desejo. Então falávamos de quando acabássemos os cursos, quando arranjássemos bons empregos, empregos bem remunerados, e todas as viagens que iríamos fazer com o dinheiro dos nossos salários. Eu queria muito conhecer as Américas. A América do Sul e Central. Ela estava mais virada para a Índia. Queria conhecer o Rajastão. Concordámos que o melhor era irmos aos dois sítios. E era isso que pretendíamos fazer. Nesse final de ano ainda chegamos a comprar um Lonely Planet sobre a América do Sul. Folheávamos o livro à vez. Descobríamos países baratos. E cheios de história.
Depois passou o Natal, passou a Passagem de Ano, fumámos o nosso primeiro cigarro no ano novo depois de termos tido a primeira noite de amor no novo ano e as aulas estavam quase a começar.
E foi no primeiro dia de aulas que tudo aconteceu. Aliás, na manhã do primeiro dia de aulas o que levou a que não houvesse aulas nesse primeiro dia. Nem nos dias seguintes. Pelo menos para nós.
Eu tinha saído de casa a pé. Passei por casa dela. Ela não morava longe de mim, também não morava propriamente ali ao lado, mas ficava a caminho da escola.
Ela já estava à minha espera à entrada de casa. Demos um beijo. Demos as mãos. E fomos para a escola.
Estávamos já perto da escola, estávamos a chegar à passadeira onde cruzávamos a estrada para entrar na escola, ela estava já a parar ao pé da passadeira, estava a preparar-se para olhar para um lado e para o outro e ver se podíamos passar a estrada, naquela altura havia sempre muito trânsito com todos os pais que vinham trazer os filhos à escola, quando ouvimos um barulho, um barulho que se parecia com uma bomba a rebentar ali perto, e parámos, assustados, nervosos, a olhar para todos os lados para perceber o que estava a acontecer, quando surgiu um pneu, um pneu muito grande, um pneu de camião, a rolar sozinho pela estrada, galgou o passeio, voou, veio pelo ar e acabou por atingi-la em cheio na cabeça.
Ela tombou de imediato. Senti a mão dela a despegar-se da minha. Vi logo uma mancha de sangue a escorrer pelas pedras da calçada portuguesa. E o pneu continuava a sua caminhada durante mais algum tempo até acabar por se enfaixar na montra de uma livraria, um pouco mais abaixo, mas isso eu já não vi, foi-me contado depois porque, nesse momento, eu já estava debruçado sobre ela a tentar parar o sangue, a tentar acordá-la a fazê-la lembrar que tínhamos muitas viagens programadas para fazer e não podíamos fugir às nossas próprias combinações.
Acabou por chegar uma ambulância. Eu também fui. Também fui numa maca. Estava com sangue. Acharam que eu também tinha sido ferido. No hospital fui visto. Não tinha nada. Mas estava muito ansioso. Estive com uma psicóloga. Mais tarde soube que ela já tinha chegado sem vida ao hospital. Morrera durante o trajecto. Tinha levado uma grande pancada na cabeça com o pneu do camião.
Cinco anos mais tarde fiz a minha primeira viagem à Índia. Fui sozinho. Bem, sozinho, não. Fui com ela. Passeei pelo Rajastão. Passeei com ela pelo Rajastão. De cinco em cinco anos regresso à Índia. Sozinho. Sozinho com ela.
Hoje lembrei-me dela, e desta pequena história, porque se está a aproximar o dia de mais uma viagem à Índia. E eu nem era grande entusiasta da Índia. Mas passear por lá com ela, é outra história. Ela faz-me reparar em tudo o que eu não iria reparar, nas cores, nos cheiros, nas roupas das mulheres, nas caras marcadas dos homens que vou encontrando pelas ruas, na musicalidade da língua, mesmo quando falam em inglês. É ela que me tem guiado pelos caminhos de uma Índia que sempre quis conhecer. E todos os cinco anos lá vamos. Deixo tudo para trás e abalo. Eu e ela. Eu e ela na Índia.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/12]

Tudo Me É, Cada Vez Mais, Impossível

Aproximo-me de mais um final de ano. Passou mais um ano. Mais um ano de merda que não deixa saudades.
Continuo a fumar um maço de cigarros por dia. Dois maços ao Sábado. Bebo uma garrafa de vinho tinto por dia. Não diminuí a quantidade mas diminuí a qualidade. Agora bebo mais barato. E não bebo antes de almoço. Como cada vez pior. Estou mais gordo. Excesso de pão. Muitos hidratos de carbono. Fritos. Cerveja. Caíram-me mais dois dentes. Andei um mês a Clonix e não resolvi nada. A minha boca é uma mina toda rebentada. Já não sei de que lado posso mastigar melhor e sem provocar dor. Estou a perder muito cabelo. Não o cortei para manter a ilusão de que continuo jovem e cabeludo. Rock’n’roll, motherfucker! Mas as entradas já são demasiado grandes para esconder, por mais que eu tente chegar-lhes cabelo para cima. Por outro lado, tenho cada vez mais pêlos a sair do nariz e das orelhas. A barba cresce de forma desordenada. Tenho algumas peladas. Os músculos dos braços estão caídos por força da gravidade. A barriga tomba por cima do cinto. O meu umbigo parece um buraco negro cada vez mais fundo e a acumular maior quantidade de cotão. A pila está cada vez mais pequena e com maior dificuldade em excitar-se. Já não a vejo cá de cima. O rabo também está com muitos pêlos e eu nem sabia que isso era possível. Tenho cada vez mais dificuldade em cortar as unhas dos pés. Maior dificuldade em me dobrar. Já não sei qual a melhor maneira para conseguir cortar as unhas. Os ataques de bronquite são cada vez mais frequentes e mais violentos. Tenho a sensação que o Ventilan já não faz efeito. Já estou à espera de ver os pulmões saltarem boca fora num ataque de tosse.
O dinheiro escorre-me pelos dedos. E só não escorre mais porque não há mais para escorrer. É só pagar. A água. A luz. O gás. O cabo. O telemóvel. A renda da casa. A prestação do carro. A prestação do computador. A prestação da máquina de lavar roupa. A prestação do frigorífico. E a sensação que quando acabar de pagar qualquer uma destas coisas estarei a precisar de as substituir. O esquentador anda a dar-me sinais. A torradeira já só funciona num dos lados. Os trabalhos que me pedem são cada vez mais espaçados. Ninguém quer pagar por coisas que não consideram. Ninguém lê. Toda a gente escreve. Ninguém quer saber de cinema. Toda a gente faz filmes. Toda a gente tira fotografias. Os grande fotógrafos já não são os que têm um olhar extraordinário, mas os melhores corpos nos sítios mais exóticos para selfies de inveja. Os fotógrafos de sucesso não estão nas revistas ou nos jornais, estão no Instagram e no Facebook.
O Continente continua a vender livros de merda. Algumas livrarias continuam a desconhecer o livro. Há quem trabalhe em livrarias como se trabalhasse num café e não precise de formação nem de conhecimento. Não sabem o que é a Douda Correria nem a Língua Morta. Desconhecem Alberto Pimenta e Vasco Gato (aqui descobrem uma edição da INCM – wow!) Mas ninguém se importa. Ninguém quer saber. A ignorância é o novo orgulho. Eu é que sou parvo. O livro é só mais uma mercadoria. E quem é que ganha?
Estou muito sedentário. Cada vez saio menos de casa. Cada vez mais a janela é o meu contacto mais directo com o mundo imediato da minha vizinhança. Mas desconheço os meus vizinhos e também não os quero conhecer.
Hoje, véspera das vésperas, dei a volta a mim próprio e saí de casa. Estou na Afficion. Estou na única esplanada do Sítio sobre a Nazaré. A melhor vista da zona. A dificuldade que é encontrar lugar numa esplanada que tem doze mesas e a melhor vista sobre a vila e o mar da Nazaré e eu estou aqui sentado. Está sol. Vejo as Berlengas lá ao fundo. Uma neblina paira sobre os Salgados. O mar, lá em baixo, está calmo. Há gente na praia mas não está ninguém a tomar banho. Não vejo o ascensor a funcionar. Já levantaram o estádio do Futebol de Praia que costuma manter-se no areal por meses a fio. Mas está montado um pequeno palco para a festa de final de ano. A Nazaré está tornada uma feira. Uma feira simpática, por enquanto. Quantas pessoas vão morrer no mar, nesta festa de final de ano?
Há muita gente a caminhar ao longo da calçada marginal. Chega-me, ao nariz, o cheiro de sardinhas assadas. Sardinhas assadas nesta altura do ano? Ontem também acordei com um manto de azedas no quintal lá de casa. Por vezes nem parece que estou em Dezembro tal a Primavera que o assaltou. Já nada me surpreende. Os meus amigos defendem Donald Trump, Jair Bolsonaro e André Ventura. Não, já nada me surpreende.
As gaivotas voam aqui à volta. Gralham muito. Não sei se ralham comigo se andam maldispostas com elas próprias. Aparece-me uma imperial aqui à frente. Bebo um gole. Dois. Sabe-se bem. Não gosto de sair de casa mas quando saio gosto de ter saído.
Vejo gente muito estranha à minha volta. Alguns até são portugueses. Ouço-as falar. Depois percebo que o estranho devo ser eu. Sou o único sozinho. O único de t-shirt. O único a fumar. Está toda a gente a comer, a petiscar, a beber vinho. Eu sou o único a beber uma imperial, a única coisa que o meu bolso consegue pagar.
Finalmente vejo os ascensores a funcionar. Vai um a descer e outro a subir. Cruzam-se a meio. Mas há também muita gente a pé. A subir a encosta pelo caminho serpenteante que vem lá de baixo até cá cima. Vejo um grupo de escuteiros a descer a encosta a pé. São um grupo grande. Com a mesma farda. Rapazes e raparigas. Vão contentes, a brincar uns com os outros. Vão a caminho de 2020. Eu também vou. Mas vou sem grande vontade.
Cai o sol. Tomba a noite. O horizonte está vermelho. Parecemos estar em Agosto. Isto anda tudo trocado. Mas que sei eu? Os inteligentes dizem que sempre foi assim e assim há-de continuar a ser. Acho que vejo as luzes de São Martinho do Porto e da Foz do Arelho. Tão longe e tão perto.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/28]

Cristina Ferreira

Hoje acordei e era a Cristina Ferreira.
Não me assustei.
A primeira coisa que fiz foi olhar dentro dos lençóis. Costumo dormir nu. Ela também. Toquei-me. Nas mamas. Nas ancas. Nas coxas. Foda-se! Sou mesmo boa.
Senti-me feliz. Pela primeira vez desde há muito tempo, sentia-me feliz. Empurrei os lençóis para os pés da cama. Levantei-me nua da cama. Olhei para o espelho grande. Gostei de me ver. É estranho ver-me no feminino. Mas ao mesmo tempo, não desgostei. É o que eu sou agora. Uma mulher. Uma mulher gira. Boa. Sexy. E cheia de sucesso.
Primeira preocupação. O que fazer? Telefonei para a SIC. Avisei que estava derreada dos Globos de Ouro, afinal a gala tinha sido eu, e que chamassem o Cláudio Ramos para fazer o Programa da Cristina.
Eu tinha um dia para viver.
Tomei um duche morno e gostei de passar gel pelo corpo. Vesti uma roupa simples. Um vestido leve e esvoaçante que uma antiga namorada por cá tinha deixado. Gostei de me sentir dentro do vestido e do fresco que me subia pela pernas acima. Calcei uns chinelos de salto alto. Eu não me saberia equilibrar naquilo. Já ela!… Observei as pernas. As pernas em cima dos saltos. Sou muito bem desenhada.
Saí de casa e fui ao café aqui da rua. Senti em mim o olhar dos homens. E das mulheres. Pela primeira vez na vida não era uma pessoa ignorada. Agora olhavam cada pedaço do meu corpo. Os passos que dava. O esvoaçar do cabelo solto e caído sobre os ombros. Os meus olhos brilhantes. O gloss nos lábios. O sorriso maroto.
Pedi um croissant folhado e uma bica. Pensei se um croissant faria bem a este corpo, mas depois pensei que, na realidade, não era meu. Comi o croissant folhado. Bebi a bica. A rapariga do café não quis receber. Disse que era por conta da casa e sorriu-me muito. Acho que me piscou o olho, mas pode ter sido só um tique.
Passeei-me pela cidade. As buzinas andavam activas. Ouvi algumas travagens bruscas. Chapa a bater em chapa. Oh, boa!, ouvi eu gritar lá do fundo e aposto que era para mim.
Entrei no quiosque onde nunca entro e comprei todas as revistas sociais que encontrei. Não paguei nenhuma. O rapaz pediu-me para referir o quiosque lá no programa. E eu disse Está bem!
Cruzei-me na rua com o presidente da câmara. Há muito tempo que não o via a pé pela cidade. Mirou-me de alto a baixo. Malandro! Parei numa montra e vi toda a gente do outro lado da rua a olhar para mim.
Entrei numa livraria e comprei uma edição de Os Maias. Ofereceram-ma em troca de uma fotografia com as meninas da loja. Mais tarde vi a fotografia na montra. Devia ter trazido mais livros.
Sentei-me numa esplanada da Praça e dei uma vista de olhos pelas revistas. Nada de especial. Mexericos. Deixei-as em cima da mesa.
Apanhei um táxi e fui até São Pedro de Moel. O taxista não quis receber. E esperou que eu quisesse regressar. Estava nevoeiro. Não fui ao mar. Mas tive pena. Gostava de ter mergulhado em São Pedro de Moel só de fio dental. Contentei-me em molhar os pés. Reparei nas unhas pintadas de vermelho-sangue. Gostei de ver os meus pés a enterrarem-se na areia molhada.
Não comprei pevides nem tremoços que a senhora não estava lá. Regressei. Dei mais uma volta a pé pela cidade. Entrei em boutiques mas não comprei nada. Quiseram oferecer-me coisas. Alguns homens vieram ter comigo. Prometeram-me a Lua. Eu ri-me. Conhecia alguns deles. Homens de família. Com filhos. Com responsabilidades na cidade. Com a língua de fora a salivar. Como cães. Cães com cio. Fartei-me de rir. Parvalhões.
No final do dia fui jantar ao Salvador. Chamaram-me Catarina e trataram-me muito bem. Também quiseram uma fotografia. Acedi. Depois voltei para casa. Sentia-me cansada. Não era fácil ser a Cristina Ferreira.
Quando entrei em casa fiquei apreensiva. Depois de dormir como acordaria? Seria eu? Ou seria ela?
Fui para a cama. Por via das dúvidas, despedi-me da Cristina. Masturbei-me, em jeito de adeus. Gozei a pensar em mim, a pensar nela, a pensar em tudo aquilo que me tinha acontecido.
Agora estou à espera que o sono me leve. Amanhã, logo se vê.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/30]

Uma Raspadinha para Dulce Maria Cardoso

Comprei uma raspadinha. Comprei uma raspadinha de um euro. Agarrei numa moeda de cinco cêntimos e raspei logo ali o cartão. Tinha pressa. Tinha pressa em aumentar o meu pecúlio.
Prémio. Dois euros.
Comprei duas raspadinhas. Comprei duas raspadinhas de um euro cada. Agarrei na mesma moeda de cinco cêntimos e raspei logo ali os dois cartões. Tinha pressa. Tinha pressa em ganhar mais prémios.
Nada no primeiro cartão.
Prémio no segundo. Vinte euros. O homem abriu a caixa registadora e deu-me uma nota. Uma nota azul. Agarrei-a e estalei-a entre os dedos das mãos. E disse-lhe Tens destino.
Corri à livraria da esquina. Pedi A Eliete se faz favor. Desculpe…, disse a menina ao balcão que não percebeu o que eu tinha dito. Refiz-me A Eliete da Dulce Maria Cardoso, edição Tinta da China, se faz favor. Abriu os olhos e as sobrancelhas acompanharam-nos para cima, em arco, e pediu Um momento, por favor e agarrou-se ao computador. Escreveu lá umas coisas. Clicou em teclas. Fez scroll. Andou para baixo e para cima. Com o rato, clicou em vários sítios. Depois saiu detrás do balcão e foi pôr-se a olhar para uma estante. Mirou-a por momentos. Aproximou a cara. Os olhos. O nariz. Afastou-se. Virou-se para mim e disse É só um momento, por favor, saiu da loja e entrou por uma porta que se fechou nas suas costas.
Fiquei sozinho na livraria. Olhei em volta. Tanto livro que poderia levar comigo, pensei. Roubar livros não devia ser considerado crime, continuei. Agarrei num livro à sorte. Virei-o e tentei ler o texto da contra-capa. Não era fácil. Afastei o livro para longe da vista e li. Já não recordo o que li. Já não recordo que livro era. Mas a rapariga voltou a entrar na loja. Não roubei nenhum livro.
Vi a capa laranja nas mãos da rapariga. Estendeu-me o livro e sorriu nervosa. Agarrei-o Estendi-lhe a nota de vinte euros. Deu-me algumas moedas de troco. Sentei-me no pequeno café da livraria e pedi um café. As moedas deviam chegar, pensei. Estava com urgência de começar a ler o livro.
Abri a capa. Olhei o papel de entrada, uma espécie de flores-borboleta num pé-de-feijão vermelho, com umas cristas cremes em fundo preto. Aproximei o nariz. Cheirei o livro. Gosto do cheiro dos livros novos.
Chegou o café. Esqueci-me de pôr açúcar. Bebi-o assim. Amargo e quente. De uma vez. E fiz uma carantonha. Queimei a língua. Soprei. Virei a folha e vi o logótipo da Tinta da China. Virei outra folha e li Eliete A Vida Normal. Virei de novo e li Eliete Parte I A Vida Normal Dulce Maria Cardoso Lisboa Tinta-da-China MMXVIII. Virei outra vez a folha. Li a ficha técnica. Já não me recordo. Mas sei que avisava 1ª edição: Novembro de 2018. E depois, na página ao lado, Ao Clude e à Ru. Ao Tomás e ao Vicente, recém-chegados a este desmundramento. Virei novamente a folha e li em epígrafe Y no sabe morir ni vivir: Y no sabe que el mañana es tan sólo el hoy muerto. Dulce María Loynaz.
E finalmente, no virar de página seguinte, a entrada em Eliete Eu sou eu e o Salazar que se foda. Um ditador governa Portugal quase meio século, quase outro meio passa desde a sua morte, até que aparece na minha vida. De repente, foi como se sempre aqui estivesse estado e tomasse conta de tudo. Eu não podia deixar que isso acontecesse.
Foda-se, que gosto tanto desta gaja!

[escrito directamente no facebook em 2019/06/17]

Cabra-Cega

Desço as escadas. Desço as escadas às escuras. Arrisco partir a cana do nariz. A cabeça. Uma perna. Mas continuo.
Desço as escadas às escuras. Confio que conheço as escadas do prédio onde vivo. Mas espero, secretamente, cair.
Desço as escadas às escuras e desejo cair. Mas não o faço. Conheço demasiado bem estas escadas. Podia descer de olhos tapados. É mais ou menos como vou a descer agora. São escadas interiores. Não há sensores de movimento para as luzes. É preciso tocar em botões que não estão iluminados. É preciso adivinhar onde é que eles estão. Eu sei onde é que estão. Mas não lhes toco. Não acendo a luz. Vou às escuras.
Desço as escadas desde lá de cima onde vivo. Já nem sei em que andar é. Sei que é perto das estrelas porque há dias em que quase as toco. Fica lá em cima. Fica muito lá em cima. Quando olho as pessoas da minha janela, parecem formigas, não pessoas. As pessoas não são pessoas. São formigas. Umas-atrás-das-outras. Encarreiradas. Encarreiradas na vida. Nos amores. Na carreira profissional. O que é que fazes? Em que é que trabalhas? Como é que ganhas dinheiro? Não me queres escrever uma história? Não me queres fazer um filme? Não me queres fazer uma música? Não tenho é dinheiro para te pagar! Só há dinheiro para mim! Para te perguntar! Não! Mas isso nem é trabalho! Estás a fazer o que gostas!
Desequilibro-me. Mas não caio. Tropeço nas minhas pequenas loucuras existenciais. Mas não caio. Aguento-me. Digo não. Apoio-me à parede e continuo para baixo. Desço as escadas. Às escuras. A provocar-me. A mim e a Deus. Queres que eu caia? Passa-me uma rasteira! Mais uma! Só mais uma! Queres ver?
Nada acontece. Vejo os primeiros clarões da luz da rua a subir as escadas ao meu encontro. Já vejo onde coloco os pés. Já vejo os degraus. Era mau cair agora. Irónico, talvez.
Rés-do-chão. Aproximo-me da porta da rua. Agarro no manipulo. Respiro fundo. Uma vez. Duas vezes. E abro a porta. Saio.
Está a chover. A chover aquela chuva dos tolos. Pingos demasiado leves e pequenos para caírem a direito. Vêm a voar. São borrifos. Olho para cima. Para o céu. Sinto-os tombar sobre a minha cara. Não me molham. Refrescam-me.
Acendo um cigarro. Inspiro fundo uma baforada. Inspiro fundo duas baforadas. Coloco as mãos nos bolsos das calças. O cigarro no canto da boca. Fecho os olhos. Caminho ao longo da passeio. Ouço os carros a correrem ao meu lado. Vão com pressa. Vão sempre com muita pressa. Eu conheço o caminho até à livraria. Vou lá todos os dias comprar um livro de poemas. Um livro de poemas de algum poeta desconhecido que escreve como vive. Que escarra frases. Que cospe vida. Com a fralda na mão. Que corta, à faca, os laços da paixão. E sigo pela calçada fora. De olhos fechados. À espera de não tropeçar. De não cair. De não ir para a estrada. De não ser atropelado. E, ao mesmo tempo, com essa secreta esperança.
Mas hoje não quero poetas. Hoje não quero poemas. Hoje quero uma mulher. E sinto o pé direito sair do passeio para a estrada. Ouço o som do carro. Um chiar. Uma buzina. Um orgasmo. Já é vinte e cinco de Abril?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/04]

Ler… Devagar…

Regresso a uma livraria. Regresso ao cheiro dos livros. Ao pó dos livros. Sentia-lhes a falta.
Como consegui estar tanto tempo sem manusear um livro novo? Um livro que não fosse um daqueles poucos que tenho em casa, em cima da mesa-de-cabeceira, à espera de serem lidos pela… Enésima vez?
Sentei-me numa mesa. Fechei os olhos. Aspirei longamente. Gosto deste cheiro. Sinto as estórias entrarem-me pelas narinas e invadirem-me os pulmões. Crimes. Espionagem. Romance. Sexo. Porra! tanto sexo. História. Ensaios políticos. Filosofia. Tanta coisa sobre tudo.
Vou ao bar. Peço um café. Duplo. Não que precise de acordar. Não que o café seja a minha energia. O café é o ambiente que preciso para pegar num livro. Trago o café para a mesa. O café duplo. Pego num livro qualquer das estantes. Sento-me com o livro na mão. Aproximo-o do nariz. Aspiro-o longamente. Reconheço-lhe o cheiro. Percorro as arestas com o dedo. Contorno-o. Um livro pequeno. Encosto-o ao ouvido. E ele sussurra-me: Portugal, Povo de Suicidas. Ah, porra! Miguel Unamuno. Já tive este livro. Numa edição da &etc. Ficou num dos caixotes estantes garagens prateleiras armários arrecadações de uma das casas por onde passei. Já nem o recordo. Esta edição é outra. Mas também já não é nova.
Pouso o livro. Ponho açúcar no café. Duplo. Mexo com uma colher de plástico. Há que mudar isto. Gosto de colheres de metal. Acendo um cigarro. Aspiro longamente. Deixo sair o fumo numa nuvem enorme e espessa. Olho à minha volta e penso Quem me dera ter uma livraria. E depois digo alto Não! E corrijo Quem me dera ter estes livros todos. E sorrio. Sorrio e volto a falar alto Sim! Queria ter estes livros todos. Alguns para ler. Outros só para olhar as capas. Ler os títulos. Imaginar o que vai lá por dentro. E outros para me forrarem a vida. Livros à minha volta. Janelas da alma. De aventuras. De bem-aventurança. De paixão.
Bebo o último gole de café. Dou a última passa no cigarro. Esmago-o no cinzeiro. Abro o livro que tenho na mão e leio “É claro, eu sou português e portanto filho de um povo que atravessa uma hora indecisa, crepuscular do seu destino.” e volto a folhear o pequeno livro e procuro à sorte as minhas sortes e leio “Dentro de dias, a 1 de Dezembro, vão celebrar-se as festas da restauração da nacionalidade, da libertação da soberania dos Filipes de Espanha. No dia seguinte voltarão a falar da bancarrota e da intervenção estrangeira. Pobre Portugal!” e em baixo leio a data em que Miguel Unamuno escreveu isto Lisboa, Novembro de 1908, e penso na tristeza de gente que somos enquanto povo. Sempre na mesma roda-viva de miséria. Quando é que podemos ir a um restaurante sem ter de contar os tostões para ver se podemos comer um bife ou ter de nos contentar com um prato de sopa?
Levanto-me e decido Vou levar esta nata de prosa. Já tenho jantar. Que se lixe o bife.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/07]

Universo Paralelo

Às vezes há sítios que conheço e que desaparecem do mapa. Entram num universo paralelo. Nunca mais os vejo. Deixam de existir. E quando menos espero, caem do céu à minha frente. E eu penso Que porra é esta? Como é que nunca mais cá vim? Houve muitas praias alentejanas a que aconteceu isso. Desapareceram. Nunca mais as encontrei.
O mesmo de passa com algumas pessoas. Pessoas de quem era muito amigo e, de um momento para o outro, desaparecem. Deixam de ser. Provavelmente nunca foram. Começo a pensar que eram um sonho meu. Que na verdade nunca tinham existido. Que eram amigos imaginários. Até que um dia me volto a cruzar com eles. E penso Onde caralho andaste, pá?
Foi o que me aconteceu ontem.
Fui muito amigo do F. Durante muitos anos fomos mesmo muito próximos. Fazíamos tudo, ou quase tudo, juntos. Gostávamos das mesmas coisas. Queríamos fazer as mesmas coisas. Gostávamos dos mesmos discos, quando os discos ainda eram de vinil, saíam bem poucos, duravam bem mais, eram mais devorados e decorávamos as letras e conseguíamos trautear as músicas – nunca aprendi música, e é o meu grande drama, que eu sempre acreditei ter perfil de estrela rock.
Gostávamos dos mesmos filmes, quando os filmes ainda eram projectados em película em écrans de salas escuras, e tínhamos de fugir de casa dos pais para ir às sessões da meia-noite.
Gostávamos dos mesmos livros, quando ainda os roubávamos nas livrarias da cidade, e os líamos à vez, primeiro eu, depois ele.
Gostávamos das mesmas comidas, um bitoque com ovo a cavalo, nem muito nem pouco frito, para podermos molhar o pão na gema amarelinha.
Gostávamos das mesmas raparigas. Aconteceu namorarmos à vez com as mesmas raparigas. Primeiro ele. Depois eu. E vice-versa. Mas um dia as coisas acabaram ao soco debaixo de uma nespereira à borda da estrada ao pé de minha casa. Por causa de uma rapariga. Há sempre uma rapariga. Há sempre uma rapariga para dar cabo de tudo.
E, então, um dia o F. desapareceu. Deixei de o ver. Passei a ouvir os discos sozinho. E comecei a escrever o que achava deles, já que não os podia discutir com F., e acabei a publicar crítica de música no Sete. Passei a ir ao cinema sozinho e comecei a gostar do cinema francês. Passei a comprar os livros. E apaixonei-me pela poesia. Deixei de comer bitoques e optei pela feijoada. Engordei. Nunca mais tive uma namorada. A vida perdeu algum sal. Mas consegui amealhar algum dinheiro. Não se pode ter tudo, não é?
Até ontem.
Ontem cruzei-me com F. nas rulotes.
Era meia-noite. Estava com fome. Não tinha nada em casa. Saí e fui às rulotes. Estava a dar a primeira dentada numa bifana com tiras de bacon frito, queijo, alface, tomate, cogumelos e cebola caramelizada daquela dos pacotes industriais, bem regada de ketchup, maionese com alho e mostarda, com os molhos a escorrerem-me pelos cantos da boca e pelos dedos, quando olhei para um tipo e reconheci: F.!
Ele também me reconheceu, estando eu bem disfarçado de gordo e quase careca – nisso, saí mesmo ao meu pai.
Então, F.?, perguntei-lhe. Ao que me respondeu com outra pergunta, Então?
Deu-me uma palmada amistosa no braço. Pediu um hambúrguer vegan, que levou para casa, e disse Ciao.
Eu não disse nada que tinha a boca cheia. Mas fiquei a vê-lo ir-se embora. A pensar que era um Cometa. Ou uma Supernova. E que iria desaparecer outra vez. Entrar num universo paralelo. E viver outra vida. Uma vida sem mim.
Dei o resto da bifana ao cão que andava por ali a cirandar.
Agora era eu que iria desaparecer deste universo. Iria embora da cidade. Iria emagrecer. Iria ser outra pessoa. Iria viver num universo paralelo.
Não sabia era se tinha força de vontade.
Ainda estou à procura dela.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/26]