A Estrela Pop

O tipo estava na televisão. Sorridente. Uma chuva de flashes abatia-se sobre ele. Uma verdadeira estrela pop. Não sei se canta. Se alguma vez cantou. Ou se sabe de música. Talvez tenha pertencido à tuna académica nos anos do Técnico. Desculpem, do ISEG. É que é diferente. Bem diferente.
Ele estava sorridente, mas não era o sorriso idiota de quem está deslumbrado pelo reconhecimento popular. Não. Era o sorriso de quem já sabia que era a estrela. A estrela da companhia.
Eu estava ali de pé, em frente à televisão, na sala, de passagem depois de ter ido buscar um disco externo, quando fui sugado por aquela imagem. Parei. Fiquei parado a olhar para a televisão. O tipo no meio de um pequeno grupo, a sorrir, debaixo do flashes que não paravam de o iluminar, ele que colocava na sombra os outros que o acompanhavam naquele pequeno grupo, e que o ladeavam, e quase que se podia adivinhar que era um grupo pop. Uma espécie de boys & girl band.
Sentei-me no sofá. Larguei o disco externo em cima da mesa de apoio e recostei-me no sofá a apreciar.
Ainda me lembrava da primeira vez que tinha apresentado um Orçamento de Estado. Também estava a sorrir. Mas naquela altura era o sorriso idiota de quem nunca tinha imaginado chegar às luzes da ribalta, pelo menos daquela maneira, e de repente, Voilá!, aqui estou eu, brilhante! Não sei o que fazer. Não sei o que dizer. Sorrio. Não sei se o tipo tinha o sonho de ser uma estrela, mas ali estava ele. E assumia esse estrelato. E mostrava-nos que estava a brilhar. O sorriso. Aquele sorriso parvo de quem nunca se tinha imaginado ali. Aquele era o novo ministro das finanças português que, no início, se deslumbrava com a solicitação, as luzes e o reconhecimento.
Agora já não era assim. Agora já não era um ingénuo deslumbrado. Agora já era um político de nome próprio. Aquele sorriso que eu via agora, já não era o sorriso parvo do idiota, mas o sorriso convencido de quem sabe que sabe e que decide e manda. Influente. Mais que influente, decisor. Afinal, aquele era o tipo que tinha a faca e o queijo na mão. Era quem mandava. Era, realmente, quem mandava. O homem das cativações.
E ele começou a falar. Estava a apresentar o Orçamento de Estado para 2020. Foi aí que desliguei. Sofro de iliteracia económica e financeira. Para mim, o dinheiro serve para ser gasto e gasto com proveito. Tudo o resto era água do mar a escapar-se-me por entre os dedos da mão fechada. Não conseguia perceber o que era dito. Mais que isso. Não conseguia concentrar-me em nada do que ele dizia. Nunca conseguia concentrar-me em nada relativamente a contas, finanças e economia. Principalmente quando as equações tendiam a deixar de fora uma das parcelas mais importantes: o Homem. O valor do Homem. O valor da força de trabalho do Homem. O valor do homem não é displicente. Mas ninguém o chegava à equação. Então fechava-me. Desconcentrava-me. E, na maior parte das vezes, começava a pensar noutras coisas.
E foi o que aconteceu.
Logo mais à tarde o Flamengo, de Jorge Jesus, que tem um adjunto chamado João de Deus, irá jogar com o Al-Hilal, do qual o mesmo Jorge Jesus foi treinador ainda este mesmo ano. E o Flamengo irá ganhar o jogo por três a um, depois de ter estado a perder por um a zero. E depois irá defrontar o Liverpool na final. Provavelmente.
Lembrei-me do tipo que estava na televisão a falar. Já não sorria. Já estava sozinho num palanque. Havia qualquer coisa de arrogante na forma como falava de coisas que eu não entendia. Acendi um cigarro. Deixei o disco externo em cima da mesa de apoio, deixei a televisão ligada com a estrela pop a falar para o boneco e fui até à janela fumar o cigarro. E pensei Eu devia ter sido uma estrela pop. Estiquei o corpo para ficar grande. Grande e elegante. Estrelado. Mas não aguentei a postura por muito tempo. Não. Não tinha estofo para estrela pop. Não tinha o estofo de Mário Centeno.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/17]

Tenho a Pistola na Mão

Estou a olhar para a pistola. A pistola que tenho na mão. Uma herança do meu pai. A herança do meu pai. A única coisa que me deixou, coitado. A vida não foi muito simpática com ele. Comeu-o até ao osso e depois, no fim, cuspiu-o fora.
A pistola é pesada. Bonita. Não muito grande. Cabe na palma da minha mão. O cano é que sai um pouco para fora. As minhas mãos não são muito grandes.
Acabei de ver a final da Liga dos Campeões. Vi o Liverpool regressar ao convívio dos grandes. Acho que assisti ao mudar de uma época. Acho que acabou, por uns anos, a época de glória do Real Madrid.
Vi gente a gritar de alegria. Vi gente a chorar de tristeza.
A vida é assim. Boa para uns. Má para outros.
Acendi um cigarro. Fui à janela. Abri-a. Fiquei lá debruçado a fumar e a olhar as gentes que chegavam para a noite na cidade.
Não me sentia bem.
Não tinha nada a ver com o jogo. Com a Liga dos Campeões. Com o Liverpool. Nem sequer com a cidade. Acho que tinha a ver comigo. Mas nem sei bem o quê.
Sentia a cabeça pesada. O corpo agitado. Uma certa angústia. A vida também não tem sido muito simpática comigo. Lembrei-me do meu pai. E foi por isso que fui buscar a pistola. Revi-me na vida do meu pai. Prendi um soluço na garganta. Não o deixei ir adiante. E fui buscar a pistola.
A pistola estava num cofre pequenino que tenho no fundo do guarda-fatos. Abri-o. Peguei na pistola. E fui sentar-me no sofá. Com a pistola na mão.
E aqui estou. Sentado no sofá. O jogo já terminou. Gostei que o Liverpool tivesse ganho. A pistola está carregada. A pistola está sempre carregada. Cada vez que a limpo, deixo-a carregada.
A minha mãe não sabe que eu tenho a pistola. Ela tinha-a escondido. E depois, perdeu-se. Foi assim o fim oficial da pistola do meu pai. A minha mãe escondeu-a. Escondeu-a de mim. E depois perdeu-a. Esqueceu-se onde a tinha escondido. Mas eu encontrei-a. E fui eu que a escondi. Fui eu que a encontrei e escondi. Fui eu que acabei por ficar com a pistola que era do meu pai. Foi a minha herança.
Estou com a pistola na mão. Estou sentado no sofá com a pistola na mão. O Liverpool ganhou a Liga dos Campeões. A minha mãe não sabe que eu tenho a pistola que era do meu pai.
Eu tenho a pistola na mão e não sei o que é que hei-de fazer.
Tenho o corpo a tremer. Sinto uma certa ansiedade. A boca seca. A perna a abanar. O pé a bater no chão. Tenho uma vontade enorme de chorar. Tenho a pistola na mão. A pistola que era do meu pai. E que a minha mãe queria esconder de mim.
Tenho a pistola na mão e medo do que possa fazer.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/01]