É isto o Novo Normal?

Será isto então o novo normal? Ou será o mesmo normal de sempre?
Entro dentro do autocarro expresso. Meia-dúzia de gatos-pingados. Todos distantes uns dos outros. Todos de máscara na cara. Todos entretidos com os seus telemóveis a aproveitar a rede digital da rede de expressos.
Procuro a minha cochia.
Sento-me e sinto-me um gigante entre cadeiras montadas para a média do português que viveu nos anos cinquenta. Estamos na segunda década do século XXI e querem-nos com o mesmo tamanho, a mesma medida e, provavelmente, a mesma aceitação e respeitinho. O respeitinho é muito bonito.
O autocarro arranca. Há uns ecrãs de televisão a debitarem anúncios de filmes. Não passa nenhum filme. Só trailers. Penso no Herman José. Sorrio e penso como sou previsível.
Tiro, da mochila, uma banda desenhada para ler, mas não consigo. O autocarro faz estradas municipais. Expresso mas nem tanto. O normal é o mesmo de sempre.
Quando finalmente entro na auto-estrada, estou sonolento e não consigo ler. Deixo-me ir no embalo.
Talvez tenha adormecido. Sou acordado com alguém a falar ao telemóvel. Fala alto para o ouvirem bem lá do outro lado. Não entendo o que diz. Não fala português. Talvez seja árabe. Talvez seja outra coisa qualquer que me soe a árabe. Não sei árabe nem a que soa o árabe. É uma força de expressão. Acho que procuro o meu normal.
Trago sempre um carregamento de livros para as viagens de expresso e acabo sempre por não ler nenhum. Não me consigo concentrar. Não consigo focar as letras. Enjoo. Sinto vontade de vomitar. Ando há dois meses com um livro do Chomsky na mochila. Ainda não o abri. Ainda nem li a introdução. Mas queria. Ainda não houve oportunidade. Começo a não gostar do meu novo normal. Não é normal.
Começo a descer. Percebo que o expresso começa a descer por uma inclinação acentuada. Aproximo-me de Lisboa.
Tento despertar. Não é difícil. O pára-arranca não me deixa voltar a adormecer. Lisboa voltou ao que era antes da pandemia. Uma cidade cheia. Atarefada. Rápida. Barulhenta.
O autocarro chega à estação. Saio. Saio do autocarro. Saio da estação. Saio para a rua e sou abalroado por buzinas, sirenes, motores a cuspir fúria, rodas a patinar no asfalto, borracha a queimar e a entrar-me pelas narinas e gente a gritar.
Lisboa é uma cidade agressiva. Lisboa é uma cidade de psicopatas.
Tenho vontade de apanhar o expresso de regresso à monotonia da minha cidadezinha. Sei que não é possível. Acendo um cigarro. Vejo grupo de miúdos em alegres brincadeiras. Ninguém usa máscara. Já não há pandemia em Lisboa? Será isto o novo normal?

[escrito directamente no facebook em 2020/09/22]

Para Sul

Saí cedo de casa. Saí de carro e apanhei a EN1. Fui pela EN1 até Aveiras.
Passei a noite em claro. Estava ansioso. Estou ansioso. Ainda estou ansioso. Não consegui pregar olho a noite inteira. Mas nem sei porquê. Levantei-me várias vezes para beber água. Fumei vários cigarros. Cheguei a beber um copo de vinho. Nada funcionou. Devia ter tomado um Zolpidem, mas já não tinha nenhum.
Sou como as crianças. Mal despertaram os primeiros raios de luz, levantei-me, tomei banho, vesti-me, entrei dentro do carro e saí sem destino. Fui andar de carro. Até sentir-me cansado. Até ter vontade de dormir.
Cheguei a Aveiras e perguntei-me como como é que consegui chegar até ali. Os responsáveis pelas estradas de Portugal (deve haver responsáveis, não?), não devem sair dos corredores acondicionados do poder. Esta EN1 está abandonada. Sem manutenção. Enormes quantidades de buracos. Autênticas crateras. Ausência de asfalto. Bermas sujas. Bermas cheias de mato. Restos de pneus de camião ao longo da estrada. As mesmas placas brancas por onde passava, nos anos 80, quando ia estudar para Lisboa e a auto-estrada começava precisamente ali, em Aveiras, depois de uma sandes de panado e uma média Sagres no Pôr do Sol 2. Se calhar é para obrigar os viajantes a utilizarem as auto-estradas exploradas por entidades privadas. Mas haviam de ver a quantidade de gente que se movimenta pela Nacional. Não há dinheiro para pagar todas aquelas portagens. Não com os salários que se praticam. E os cafés de merda, a preço gourmet, nas estações de serviço?
Entrei na auto-estrada e segui até Lisboa. Apanhei o eixo Norte-Sul e decidi continuar em frente. Para baixo. Para baixo todos os Santos ajudam, costumava dizer a minha mãe. E foi para baixo que decidi ir. Fiz o o eixo Norte-Sul, meti-me pela ponte 25 de Abril, cruzei o Tejo, não havia muito trânsito e continuei. Pensei Vou até ao Algarve.
Tinha acabado de passar a saída para Sesimbra e mudei de ideias. Vou até Setúbal. Comer choco frito.
Cheguei a Setúbal e estacionei na Luísa Todi. Havia bastantes lugares. O parquímetro só recebia até às treze. Depois era gratuito. Andei às voltas a fazer horas e depois fui até ao porto. Não reconhecia nada daquilo. Não reconhecia nenhum daqueles restaurantes. Era meio-dia e, um deles, estava já cheio de gente. Decidi que era ali, precisamente ali, que ia almoçar. E almocei. Choco frito. Duas imperiais. Paguei. Fumei um cigarro a olhar as traineiras. Mandei a beata ao mar, e voltei a arrancar de carro. Para sul. Sempre para sul. Ainda não tinha sono.
Fui dar a volta ao estuário do Sado. Depois voltei para trás, quase até à Comporta. Fui ultrapassado por inúmeros Mercedes, BMWs, dois Maseratis e dois Tesla. Antes de chegar à Comporta, virei para Melides. A Comporta não é para mim. Tem muitos mosquitos.
Passei por Melides, fiz Sines, ainda espreitei para São Torpes (à pinha) e continuei para Porto Covo. Nunca gostei de Rui Veloso nem nunca quis ir à ilha do Pessegueiro. Mas estava cheio de gente. Muita gente na praia (imagino), muita gente nas ruas. Assusto-me com muita gente. Continuei.
Em Vila Nova de Milfontes, uma praia da minha juventude, onde enterrei muitas lágrimas e amores na areia, estava igual. Muita gente. Assustador. E eu sem sono. Continuei.
Cheguei à Zambujeira do Mar. Estava nos antípodas. As ruas desertas. Com um ar triste e desolado. Quase ao abandono. O facto de não haver quase ninguém, era uma benção, um convite a sentar-me por ali e beber uma cerveja e fumar um cigarro. Esperar o sono. Mas não consegui. Tinha histórias bonitas vividas ali. Não conseguia estragar tudo com aquela desolação. Continuei.
Enquanto ia andando para sul, pus-me a pensar na últimas notícias. Toda a gente se queixava da falta de clientes, de turistas, de gente que pusesse a vida económica a funcionar depois destes meses de confinamento. Mas o que eu via ali, o que eu via ali com excepção da Zambujeira do Mar, era Portugal a fazer a economia mexer. Havia muita gente. Muita gente a consumir. Muita gente de férias. Muita gente a utilizar o trabalho dos outros, a pagar o trabalho dos outros. Alguns de máscara. Mas nem parecia estarmos a meio de uma pandemia sem vacina. Portugal parece ter saído todo para férias em Agosto.
Do que se queixa esta gente? Esta especificamente. Porque há gente, realmente a passar mal. Há gente que não tem mesmo dinheiro para comer. Mas esses não são estes. Esses já estão habituados à míngua e a nunca serem ouvidos.
Quando dei por mim, fui andando tanto para sul que descobri-me na ponta de Sagres.
Ainda não tinha sono nem estava cansado. Talvez com um pouco de sede. E uma vontade de fumar um cigarro.
E agora? pensei
Pus o pé no acelerador e acelerei.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/08]

Dias de Alma Vaga

Estou sentado à mesa da cozinha como se fosse o balcão do bar onde já não vou há quatro meses. Deixei de lado a torneira de cerveja e troquei a imperial pela garrafa média da Sagres. Por vezes vou ao pacote de cartão buscar vinho tinto e faço um Tinto de Verão. À espanhola. Encho o copo com gelo. Espremo meio limão. Dois terços de vinho. Um terço de Seven Up. Uma gasosa também serve. Mas isto é no início. Quando ainda estou em condições de fazer alguma coisa. E ainda tenho vontade. Rapidamente chego ao momento em que só de abrir a garrafa, tirar a carica fora sem deixar cair cerveja no chão, é uma aventura.
À minha frente o televisor a preto e branco que o meu pai comprou há muitos anos para levar para o campismo. Passou de televisão do campismo para a televisão da cozinha e, desde então, tem sido a televisão da cozinha. Primeiro em casa dos meus pais. Depois quando fui estudar para Lisboa. Era a televisão da cozinha porque a cozinha também era a sala. Não havia sala naquela casa. Todas as divisões eram quartos. A cozinha era cozinha e sala. A televisão estava lá e cumpria as suas duas funções, era a televisão da cozinha e também era a televisão da sala.
Quando tive a minha primeira casa e comprei a minha primeira televisão, ainda com cinescópio mas já em 16-9, a pequenina televisão a preto e branco, de caixa de baquelite branca, voltou para casa dos meus pais e à cozinha deles. Mais tarde consegui recuperar a televisão que já ninguém queria. Era pequena. Quadrada. Branca, que horror. De baquelite. E não tinha comando. Era preciso levantar o rabo de onde estava sentado para mudar os canais. E, às vezes, era preciso andar com a antena, uma antena que era parte da televisão e que fazia lembrar as antigas antenas dos carros com rádio OM, ou os walkie-talkies que alguém trouxe uma vez de Andorra, para apanhar a emissão mais-ou-menos em condições de visibilidade e que não nos fizesse dar um pontapé numa cadeira e mandá-la contra a porta do frigorífico.
Estou sentado à mesa da cozinha e já estou na cerveja há muito tempo. Já não consigo fazer um Tinto de Verão. O máximo a que me aventuro, para além de retirar a carica da garrafa, é ir bebendo, de vez em quando, um copo de bagaço que um amigo me ofereceu. Bagaço caseiro. Daquele que cega. Bebo-o como se fosse um submarino. Imagino que largo o pequeno copo de vidro com o bagaço dentro do copo de cerveja e bebo tudo junto, mas na verdade, bebo um golaço de bagaço pelo gargalo da garrafa incolor que o meu amigo me ofereceu e depois despejo-lhe logo como cerveja em cima.
À minha frente, pousada na bancada à minha frente, a televisão pequena a preto e branco, de baquelite branco, passa uma emissão qualquer que não percebo porque não está bem sintonizada, mas não consigo levantar-me para procurar melhor sintonia.
Nesta altura sinto que já estou bêbado. Já não consigo fazer melhor que esticar o braço, abrir a porta do frigorífico e agarrar uma garrafa média de Sagres. Enquanto houver.
Descubro que tenho um cigarro entre os dedos mas não me lembro de estar a fumar. Não me lembro se ainda fumo ou não. Mas tenho um cigarro aceso preso entre os dedos da mão, a mesma mão que levanta o copo com cerveja. E percebo que, afinal, ainda não estou muito bêbado. Ainda bebo a cerveja pelo copo. Ainda não a bebo directamente da garrafa. Ainda tenho mais algumas pela frente, antes que fique realmente muito bêbado, enjoado, com vontade de vomitar e vomitar. Depois é arrastar-me até à cama, que fica ali ao fundo do corredor que sai da porta da cozinha até à última porta, onde fica o meu quarto e a cama onde me irei deitar se me conseguir arrastar até lá. Há noites em que não chego lá. Há noites em que me fico pelo corredor. Há noites em que consigo chegar até às bordas da cama, mas erro a queda.
Penso sempre, como estou agora a pensar, aliás, que amanhã é outro dia e posso sempre repetir tudo outra vez e de novo. E tentar acertar na cama.
Que mais há para um tipo fazer em dias assim? ou como diziam os Rádio Macau, dias d’alma vaga / tão perto de Deus / tão longe de mim / sem horas boas nem más / sem horas sequer / apenas vazio na alma / apenas dias assim // há dias assim / feitos de silêncio / com a voz de Deus / a soar em mim / dias sem riso nem choro / sem horas sequer / apenas silêncio d’ouro / apenas dias assim…
Afinal nem devo estar assim tão bêbado. Ainda me lembro da letra de uma música dos Rádio Macau. Deixa cá ver mais outra Sagres.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/07]

Às Voltas com o Universo

E todas as vezes que eu tomo uma decisão, não há um outro eu a criar uma nova realidade seguindo a outra hipótese, a hipótese preterida?
E de cada vez que há um sim ou um não, não nasce um outro universo que comporte o não ou o sim que ficam das opções tomadas?
E as pessoas com quem estou? que conheço? Se voltar a encontrá-las mais tarde, ainda que no mesmo sítio, serão as mesmas? Ou já serão versões alternativas de si próprias?
E não será isto tudo uma possibilidade para o mundo se recriar infinitamente?
Ando a ver a série alemã Dark, uma série sobre viagens no tempo, universos alternativos e paradoxos temporais. Nada do que tenho visto na série, que é muito boa, muito bem imaginada, escrita, realizada e interpretada é, na realidade, novo para mim. Não me é novidade a possibilidade de nos movimentarmos no tempo, no espaço e em mundos alternativos nem sequer a hipótese, não levantada na série mas muito utilizada nos universos ficcionais da Marvel e da DC, e que eu tenho vindo a alimentar desde há muitos anos na criação da ideia da perna de fiambre cortada muito fininha, sendo cada fatia, um universo com uma realidade e, todas as outras fatias que se lhe sucedem, realidades alternativas que se vão construindo à medida que vão aparecendo hipóteses diferentes para cada uma das personagens que habita esse mesmo universo primeiro, ou seja, o multiverso.
Imaginemos portanto. Eu dou um beijo numa rapariga e, com esse beijo, inicio uma relação de namoro. Mas posso não dar-lhe o beijo e cada um segue a sua vida. Ou posso dar-lhe um beijo e levar um estalo e, em consequência do estalo, posso tornar-me um psicopata. Ela, em consequência do beijo que não queria e de me ter dado um estalo, entra em depressão. Cada uma destas variações constroem um novo universo, cada universo no mesmo espaço, no mesmo tempo, mas em dimensão diferente. É aqui que nasce o multiverso. Nas camadas alternativas que cada linha da vida tem à sua espera.
Viajar no tempo, ou entre mundos, ou entre dimensões, há-de ser possível um dia, quando se criarem as condições para existirem expressos que nos levem lá, tal como há expressos que nos levam a Lisboa ou a Paris. Claro que primeiro terá de se resolver alguns problemas. Por exemplo, o fluxo de tráfego. Que quantidade de viagens por hora, por minuto, por segundo, são possíveis de fazer sem romper com a estabilidade do espaço-tempo? E como transpor portais dimensionais sem romper com as leis do universo que conhecemos e, mais difícil ainda de resolver, as leis dos universos que não conhecemos? Como serão as outras dimensões para onde vão todas as outras nossas realidades alternativas? Serão uma espécie de compilação de lados b e raridades? Ou serão mais como os bootlegs? Vidas reais mas não oficiais? Sei lá, uma dimensão em que eu sou um travesti por acção de histórias alternativas de outras personagens e não de mim próprio?
Há na série Dark um elemento que me chamou a atenção: Jonas aparece com um casaco impermeável amarelo. Na terceira temporada, é Martha que usa esse casaco. Onde é que houve a troca? É por a Martha ser de outro universo ou fui eu que perdi alguma informação? O multiverso pode destruir o pensamento linear, tal como o Final Cut e o Avid destruíram a montagem linear?
Eu já tive um casaco assim, amarelo, na minha adolescência. Aliás, quase todos os adolescentes de Leiria tiveram. Foi uma moda. Mas não era casaco de moda como o da série. Não era um impermeável com pinta. Era um casaco de plástico que os homens das obras usavam, que não deixava o corpo respirar porque era plástico e, quando chovia, a água escorria toda para as pernas e deixava-nos com as calças encharcadas. Mas em Leiria, adolescente que não o tivesse era um pária.
O casaco fez-me pensar na possibilidade de, ao voltar no tempo, no espaço, noutra dimensão, cruzar-me comigo próprio. Um paradoxo, portanto. Qual deles serei eu? Serei todos eles? Todos eles ao mesmo tempo? E como é que pensarei? Será por camadas? Ou tudo junto? E como é que verei a acção? Através de que olhos? De quais olhos? Através de que cérebro? Haverá um eu principal? Ou será tudo o mesmo? E poder-me-ei tocar? Tocar o outro eu como se fosse outro? Que consequências terá isso para o universo? Posso, através do meu paradoxo, mexer com a vida de toda a gente? ou só a minha? E se o universo explodir (ou implodir) por acções minhas, será todo o universo ou só o meu? E experimentarei sensações com as minhas outras versões temporais como os gémeos? ou como se fosse mesmo eu? e quantos eus poderei ser? e sentir?
Como é que se sai disto?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/01]

O Mundo É do Tamanho de um Penico

O meu mundo já não é a minha rua. O meu mundo agora é mesmo o mundo. E não se limita à Terra e às coisas visíveis sobre ela.
Estou sentado no alpendre com as montanhas lá à frente. Hoje estão visíveis. Gosto de ver as montanhas. O céu está azul e não há uma única nuvem branca a pontuá-lo. Estou sentado no alpendre e tenho o computador à minha frente, sobre as minhas pernas, e dou a volta ao mundo e navego pelo cosmos. O meu mundo agora é mesmo o mundo.
Chegam-me as notícias que fazem o dia. A extrema-direita diminuiu nas eleições municipais em França. A direita-musculada polaca não ganhou à primeira volta e é possível que seja derrotada na segunda. A Nova-Zelândia parece que não é deste mundo. É uma outra espécie de Noruega mas mais humana. Também apareceram umas notícias sobre a Zelândia, um mítico continente que terá existido há muitos milhares de anos onde é hoje a Nova-Zelândia. Uma espécie de Atlântida do hemisfério sul.
Aqui neste país onde estou, e onde é a minha casa, vive-se um ataque de esquizofrenia. Depois de sermos os melhores do mundo passámos a ser os piores e já ninguém gosta de nós e está toda a gente a ver se nos lixa a vida e nos rouba a clientela turística. Nem quero saber o que é que isto quer dizer, mas deve ter algo a ver com os pastéis de bacalhau com queijo da serra.
Uns polícias de serviço em Lisboa foram apanhados a beber cerveja numa esplanada. Desconfio que a minha internet esteja ligada umbilicalmente ao Correio da Manhã.
Passo pela live stream do Benfica e vejo que continua tudo a zeros. Está na segunda parte. O que é que se passa com o meu Benfica?
Acendo um cigarro. Levanto o olhar e vejo cão a cagar no meio do quintal. Cabrão! penso. Agarro no maço de cigarros e mando-o ao cão. Acerto-lhe na cabeça mas o cão não parece ter notado. Nem se virou para ver o que era. Espero que não me cague no maço de cigarros que não tenho mais nenhum. Percebo que estou a ficar mal-disposto por causa do Benfica. O futebol faz-me mal.
Reparo que as bancadas estão vazias. As bancadas do estádio. Claro. Claro que estão vazias. Já sabia. Mas não deixa de ser estranho ver as bancadas vazias com faixas alusivas ao clube da casa e aos seus patrocinadores. O futebol é isto agora. Patrocinadores. Ainda é o meu Benfica, este?
O Marítimo marca golo. Fico estupefacto. Largo um sorriso que é um esgar. Se a minha avó, a mãe da minha mãe, fosse viva, teria dito Têm de ir à bruxa! Mas não me parece que seja coisa de bruxas. As bruxas preferem dançar que meterem-se com as coisas da bola.
O mundo é o meu mundo, mas o meu mundo ainda é um caixote. Dou várias voltas ao globo num abrir e fechar de olhos e acabo por prender o meu coração aqui ao pé de casa.
O Marítimo volta a marcar outro golo. E só me apetece dizer Oh Benfica, vai para o caralho!
Desligo o live stream. Não quero ver mais desgraças da bola. Volto às desgraças da vida. O aumento de infectados pelo Coronavírus na área metropolitana de Lisboa e, segundo parece, alguém diz que este vírus se combate com antibióticos, as mentiras de Donald Trump, a fuga para frente de Jair Bolsonaro. Acho que este vai ser o primeiro a pagar caro a sua arrogância intolerante e bruta.
Apago o cigarro no cinzeiro e olho para as montanhas lá em frente. Por cima das montanhas, a Lua, meia-Lua, pendurada no céu azul, e penso, em voz alta Oh, Elon Musk, leva-me contigo para Marte!

[escrito directamente no facebook em 2020/06/29]

Relevo

Está um belo luar. Não que esteja a apreciá-lo, mas porque me permite ver à minha volta. Quase parece dia mesmo sendo noite. À minha frente vejo as ondas a bater na areia. E ouço-as. Ouço-as como o ribombar do trovão. Às vezes é ensurdecedor, faz-me medo e diz-me quão pequeno sou. Outras vezes faz-me só chorar. Nem sei porquê.
Esta semana voltei a ouvir as pessoas, as pessoas no seu geral, nenhuma delas em particular, que isto é uma ideia generalizada, que a depressão é incógnita e ninguém dá por nada, nunca ninguém dá por nada como se houvesse uma culpa, e ninguém pede ajuda a ninguém, e ninguém diz nada a ninguém, até se é uma pessoa sorridente e feliz, aparentemente feliz, com uma família feliz e feliz no trabalho de todos os dias. E o que é que querem? Que as pessoas andem com os pergaminhos da sua condição pendurados ao pescoço como os diplomas e certificados profissionais pendurados em paredes imaculadamente da cor da casca de ovo?
Há muitos motivos para a depressão e não sou eu que irei falar deles, que não sei nada disso. Não sou médico, nem psiquiatra nem psicólogo. Sou só um tipo como os outros que tem os seus altos e baixos motivados pela vida, pela vida de todos os dias, pelo trabalho ou pela sua ausência, pelo salário baixo ou inexistente, pela indiferença de quem depois vem sempre reclamar não saber, não desconfiar, não perceber, como se quisessem lavar as mãos de um problema que desconhecem. Ninguém é culpado de nada. As coisas são assim. Nós somos assim. A vida, esta vida que vamos levando, ela sim, ela pode ser culpada de algumas coisas.
Acendo um cigarro. É difícil com esta maresia quem vem para cima de mim e molha o cigarro. Mas consigo. Limpo as lágrimas com as costas das mãos.
Estou eu também deprimido? É possível, sei lá. Porque é que me isolei? Porque é que fugi das aglomerações? Porque é que já quase só vivo, feliz, nas redes sociais? Porque é que estou aqui, aqui onde estou, agora?
O mar não está bravo, parece mas não está. Também não está tranquilo. Não é o Mediterrâneo. É o Atlântico e o Atlântico, mesmo quando está tranquilo parece que está a ter uma pequena fúria. Se eu viesse, como ele vem, lá do outro lado, depois de ter visto o que ele viu, depois de ter vivo o que ele viveu, se calhar também estava zangado. Zangado, mas não furioso. A zanga não me dá fúria, pois não? Desmotiva-me. Sim, a zanga, a mim, desmotiva-me. Mas não ando sempre zangado. Só às vezes. Só às vezes é que me zango. E depois desmotivo. E fico assim. Assim como estou hoje, não é? Assim sem vontade. Ansioso. Um bocado perdido. Triste, mas sem saber bem porque estou assim triste.
Levanto-me e caminho ao longo da beira do mar. Vejo o mar a bater na areia. Ouço as ondas rebentarem. Sinto o fumo do cigarro a entrar nos pulmões. Percebo a maresia a misturar-se com as lágrimas. Não sou capaz de parar um pequeno sorriso. E porque deveria pará-lo? Acho piada, apesar de tudo.
Sinto saudades de uma bela sardinhada numa mesa grande e cheia de gente à conversa. Lembro com saudades os espectáculos com os La Fura dels Baus (e porquê os La Fura dels Baus?); o Benfica na Europa e eu no terceiro anel; o ano em que andei a conhecer todas as salas de cinema de Lisboa; quando andei a experimentar as tascas do Bairro Alto e do Cais do Sodré quando o Bairro Alto e o Cais do Sodré ainda tinham tascas; quando ia comprar peixe ao mercado de Campo de Ourique; quando passava, vezes sem conta, de carro, ali à volta do Técnico, em noites solitárias; das férias no Pedrogão com os meus pais; do litoral alentejano com as namoradas que já esqueci – e porque é que já esqueci?; do jornal de parede no liceu; das tardes de fórmula um e de rugby na televisão; das cassetes áudio onde gravava o Som da Frente; a primeira vez que ouvi os Durutti Column; os jogos de futebol na rua, com os amigos; o meu primeiro beijo, sim, ainda me lembro do meu primeiro beijo. A única vez em que fui assaltado, assaltado na rua, em confronto, com uma navalha a picar-me a barriga. Até do assalto tenho saudades.
Páro de andar. Olho o mar. Mando o resto do cigarro fora.
Está um belo luar. Consigo apreciar o luar?
Suspiro.
E luto comigo.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/24]

O Futuro É um Nada

Um de Maio. Podia ser o início de uma história de amor. Mas era somente um relato de ausência. Era o Dia dos Trabalhadores. Mas já não havia trabalhadores. Estavam desempregados. Estavam doentes. Tinham falecido. Restavam os colaboradores. E esses já não eram trabalhadores. Já não eram operários. Esses eram colaboradores. Chefes de si próprios. Igual-igual. Donos de pequenas empresas com um só cliente. O antigo patrão tornado cliente. Igual-igual. O antigo operário era agora burguês. Gel no cabelo e havaianas ao fim-de-semana a passear no areal da Costa da Caparica. Antes isso que ler um livro, gritam-me.
Ainda ouvi alguns relatos, ao longo do dia, de gente em manifestação na Alameda, em Lisboa. A Alameda onde se festejava o Dia do Trabalhador quando o Dia do Trabalhador era festejado. Agora já não havia ninguém para festejar nada. Ou quase ninguém. Ainda houve alguns que foram à Alameda participar numa coreografia norte-coreana. Os poucos trabalhadores que existiam foram contaminar-se uns aos outros. Haveriam de morrer infectados nas semanas seguintes.
O bizarro de tudo isto viria ainda mais tarde, quando os patrões começaram, eles próprios, a perceber o erro que tinham cometido e a começarem a festejar, eles próprios, sim, o Dia do Trabalhador. Para lembrarem. Para se lembrarem quando começaram a perder os seus consumidores. A razão da sua existência. Sim, porque a razão da sua existência não era a produção. Era a venda. Sem consumidores, não havia vendas. Sem trabalhadores, sem gente com trabalho e salário, sem gente com um Rendimento Básico Incondicional, sem gente, afinal, com capital para consumir, sem dinheiro a circular entre a base da pirâmide e o seu topo, com tudo estagnado, não havia capitalismo. Sem base para suportar o topo, o topo iria começar a descair. No fim, iria tudo terminar como terminam todas as coisas: em nada.
Claro que ninguém iria sobreviver à história para a poder contar, nem haveria ninguém a quem contar, nem haveria alguém a quem pudesse interessar a história e muito menos poderia haver alguém que pudesse dizer Eu bem avisei!
Mas eu sei. Eu daqui já espreitei o futuro e vi como era. E era um vazio. Um nada. Caminhamos para o nada. Estamos tornados irrelevantes.
Sentado no meu alpendre, a beber um copo de Herdade dos Grous tinto e a fumar um cigarro, assisto ao caminhar imparável da irrelevância. E já não faço nada para parar a sua caminhada porque já não vale a pena. O futuro é o que fizemos dele.
A vossa única esperança é que nos ofereçam uma segunda oportunidade num outro mundo semelhante a este e rezar para que não o fodamos como fodemos este.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/01]

O que É que Terá Acontecido?

Vinha a atravessar os Pirinéus. Estava ainda nos Pirinéus franceses. Vinha cansado. Era fim-de-dia e estava uma luz bonita, tinha estado sol, mas não estava de óculos escuros porque havia muita densidade negra nas sombras da floresta e já via mal nalgumas zonas mais fechadas, onde as árvores quase que formavam um túnel à volta da estrada, e o carro acendia automaticamente os faróis para eu ver melhor o que estava à minha frente. O sol adormecia para além do horizonte, depois das montanhas. Eu vinha a conduzir há muitas horas. Só com paragens para fazer xixi, beber Red Bull e café. De vez em quando passava a mão pela cara. Para acordar. E sentia a barba a cortar-me as mãos.
Tinha ido até Budapeste, na Hungria. Alguém tinha-me pedido para ir lá entregar um pacote. Em mãos. Achei estranho. Ainda perguntei pelos CTT e a DHL, mas frisaram Em mãos! O dinheiro era bom. Precisava de dinheiro, na altura. Ainda pensei que me estava a meter numa merda de onde não sairia vivo, mas o dinheiro que me ofereciam era o suficiente para me aguentar uns meses.
Aceitei. Passaram-me um Hyundai Santa Fe para as mãos. Fui a casa buscar o iPod e um cabo. Uma mochila com umas cuecas e umas meias. Um livro. Não sei bem porque levei um livro, mas ando sempre com um livro atrás, mesmo que não leia nada. Acho que é um apoio psicológico. Com um livro nunca me sinto só. Deve ser esse o princípio, não sei.
Mais de três mil quilómetros para lá chegar. E depois o regresso. Fui sempre a andar. Demorei três dias. Três dias sem ir à cama. Algumas pausas para passar pelas brasas. Mas nunca dormi mesmo. Dormitei no carro. Com o volante à minha frente e as colunas a passarem a selecção musical do iPod. Acordava. Dava uma volta pelo parque de estacionamento da Estação de Serviço, fumava um cigarro, bebia um café e levava um Red Bull para a viagem. Fui alimentando-me a sandes, hambúrgueres e pizzas.
Sempre estrada fora. Sempre a cumprir as regras de trânsito. Sempre dentro da velocidade permitida. A pagar as auto-estradas com dinheiro. Durante este tempo ninguém me telefonou. Não postei nada no Facebook nem no Instagram. Não vi nenhum filme. Ouvi música. Alguns noticiários. Comecei a ler o livro que tinha levado três ou quatro vezes. Nunca passei da primeira página.
Em Budapeste fiz um telefonema de uma cabina telefónica pública. Deram-me uma morada de um sítio público. Nas margens do Danúbio. Não foi difícil dar com o local. Parecia uma cena de um filme de espionagem. Sentei-me num banco de jardim a olhar o rio. Alguém chegou de bicicleta. Parou à minha frente. Disse qualquer coisa que não percebi. Mas percebi o meu nome. Acenei coma cabeça. Estendeu-me um envelope. Eu agarrei no envelope. Ele continuou com o braço estendido e estalou os dedos. Estendi-lhe o pacote. Ele voltou a dizer qualquer coisa que não percebi e arrancou na bicicleta.
Percebi que a minha viagem tinha terminado. Simples. Olhei dentro do envelope. Várias notas de cinquenta euros. O combinado. Dei uma volta ao longo do Danúbio. Estiquei as costas. Estavam doridas. Estalavam quando eu me endireitava. Percebi que tinha fome.
Entrei num restaurante e fui comer um goulash. Comi tudo o que me puseram à frente. Acompanhei com um copo de vinho tinto. Bebi dois cafés. E arranquei de regresso.
Eram duas viagens sem história. Para lá e para cá. Duas viagens solitárias. À velocidade legal. A música como companhia. Mas no regresso cheguei a vir algum tempo em silêncio, só a ouvir o motor do carro a galgar asfalto, um cigarro aceso entre os dedos da mão direita e o olhar à espera de ver Portugal. Mas ainda faltavam muitos quilómetros.
Cheguei aos Pirinéus franceses.
Estava cansado. O dia estava a chegar ao fim. Tinha estado um belo dia de sol mas, agora, estava a entrar no lusco-fusco. Tinha pensado parar numa Estação de Serviço e descansar um pouco antes de entrar em Espanha, quando aconteceu.
Estava numa recta em planalto, rodeado de árvores frondosas de um lado e de outro da estrada. À frente, pareceu-me ver alguém na berma da estrada. Mantive a velocidade e foquei-me no que estava a ver. Era uma criança. Uma menina, mais concretamente. De vestido rodado. Cabelo loiro. Apanhado em tranças. Tinha qualquer coisa ao colo. Talvez uma boneca. Talvez um gato. E achei a situação bastante peculiar. E pensei O que é que faz uma criança aqui à beira da estrada? E quando me estava a aproximar da criança, ela virou a cara para mim. Eu vi-a a olhar-me directamente nos olhos. Uns olhos sem expressão. Olhos frios. Mortos. E precisamente quando estou quase a passar à frente da criança, ela dá dois passos para dentro da estrada e eu bato-lhe com o carro, ouço o impacto, um Pam terrível e doloroso, ainda travei a fundo, espetei os pés no travão, levei a mão direita ao travão-de-mão e puxei-o, senti o carro a deslizar, pareceu-me perder o controle do carro, mas acabei por conseguir imobilizá-lo e pará-lo um pouco mais à frente do sítio do impacto.
O carro estava parado junto à berma, mas ainda na estrada. Eu estava com as duas mãos agarradas ao volante, como duas garras. Paralisado. Estava a transpirar. Estava muito nervoso. Olhei pelo espelho retrovisor e tentei ver para trás de mim. Mas não conseguia ver nada. Estava tudo desfocado. Tirei o cinto de segurança, abri a porta do carro e deixei-me tombar para o lado e vomitei no chão. Limpei a boca às mangas da camisola. Levantei-me a custo e voltei atrás. Vi as marcas dos pneus no asfalto. As marcas da travagem. Fiz o trajecto a pé, a olhar à volta. À procura da criança. E continuei um bom bocado. Entrei pela floresta. Chamei por alguém em francês. Em inglês. Em português. Não havia ninguém. Eu não via ninguém.
Voltei ao carro. Passei pelo vomitado e fui até à frente. Não havia nada amolgado nem partido. Não parecia que tivesse batido em nada nem em ninguém. Encostei-me ao carro e deixei-me descair para o chão. Acendi um cigarro. Fumei-o. E neste tempo todo não passou nenhum outro carro.
Depois de ter fumado o cigarro voltei a levantar-me e dei outra volta à volta do carro. Entrei. Liguei-o. Arranquei.
Durante o resto da viagem até Lisboa não voltei a pôr música. Fui fumando uns cigarros atrás dos outros. E só pensava O que é que teria acontecido?
Ainda hoje pergunto O que é que terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/29]

Boca Doce

Aproximava-se o aniversário da minha filha e eu tinha de fazer alguma coisa. Alguma coisa que compensasse estes dias de chumbo que temos vivido. Procurava uma pequena alegria. Procurava colocar-lhe um pequeno sorriso nos lábios e que esse sorriso a fizesse esquecer estes últimos meses.
Levantei-me de manhã cedo. Não a acordei. Deixei-a dormir. Não havia tele-escola e podia dormir um pouco mais. Lavei as mãos. Lavei a cara. Lavei os dentes. Os boxers estavam já demasiado rotos. Nem dava mais para remendar. Tomei nota mental para tentar arranjar mais um ou dois boxers. Vesti umas calças. Calcei as botas com biqueira de aço. Uma camisola. Uma casaco com bolsos. Uma mochila às costas. O cartão multibanco, um lápis com borracha na ponta, algumas moedas e umas notas. Depois calcei umas luvas. Coloquei uma máscara cirúrgica na cara, sobre a boca e o nariz. Apertei a mola sobre a cana do nariz. Agarrei no revólver e coloquei-o preso no cós das calças, nas minhas costas, e uma faca de mato, afiada, dentro das botas. Antes de sair de casa pus os óculos escuros. Não me benzi porque não sou religioso mas, no momento mesmo antes de sair de casa virei-me para trás e olhei para a casa silenciosa e quase na penumbra, os estores estavam corridos até baixo, deixando somente os buracos abertos para passar alguma luz mas não deixar entrar mais nada, para deixar a casa em segurança, e esse momento foi como se me tivesse benzido e rezado uma Avé Maria e um Padre Nosso. Depois saí e fechei a porta à chave nas minhas costas.
Nunca gostei de usar as máscaras. Dificultam-me a respiração, fazem-me comichão e muito calor. Mas sei que tenho de as usar. Se quero sair à rua, tenho de ir protegido. Protegido de todas as formas.
Tinha o carro na garagem. O carro atestado. Mas achei melhor ir a pé. Nem sequer levar bicicleta. Provavelmente teria de ir a vários sítios. O melhor era não estar preocupado que me roubassem o carro, a gasolina, a bicicleta. Ir a pé era a melhor escolha. Mesmo que uma escolha perigosa. E assim fiz.
Cheguei à rua e olhei para um lado e para outro. A rua estava vazia. Aquele era um bairro essencialmente residencial. Era muito raro encontrar alguém na rua. Mesmo nos quintais, quem os tinha, já era difícil encontrar alguém. As pessoas barricavam-se em casa. As que podiam trabalhar em casa trabalhavam. As outras tentavam sobreviver. Ficavam fechadas em casa o dia inteiro. A noite inteira. A semana quase toda. Mas às vezes, às vezes faziam pequenas saídas para procurar alimentos e remédios. Vasculhar os caixotes do lixo. Tentar algum assalto e evitar ser assaltado.
Ainda havia algum comércio durante o dia. A maior parte das lojas já só funcionava no mercado-negro. Eram protegidas por milícias. E continuavam a ser os sítios onde ainda se podia encontrar algumas coisas. Ainda se aceitava cartões multibanco e MBWay. Já ninguém aceitava cartões de crédito. O dinheiro em género era a forma mais imediata de se fazer compras mas, a troca de uns produtos por outros, estava a ganhar o seu espaço. Principalmente porque a maior parte das pessoas já não trabalhava e já não tinha dinheiro.
Eu ainda era um dos poucos sortudos com algum trabalho e algum dinheiro. Mas até para pessoas como eu as coisas estavam a ficar complicadas porque os próprios governos estavam a desintegrar-se. A perder as ruas. O Estado ainda tinha os militares e alguma polícia. Mas as milícias, os grupos armados, os grupos de piratas começavam a estender as suas malhas por todo o lado. Os Mercados já não existiam. Pelo menos, não como eram entendidos antes de tudo isto começar. Agora tudo se comprava e vendia directamente. Troca por troca. Mão havia mercados futuros. Fundos de investimento. Compra e venda de acções. Nada dessas coisas. Agora o que tinha valor era o real. Uma alface. Uma vaca. Um par de sapatilhas Adidas. Uma Glock.
Havia ainda produção no campo. E gente a garantir essa produção. A maior parte eram já protegidos por estes mesmos grupos de piratas. Quem tinha as armas é que mandava. Quem tinha as armas e os homens e a coragem. Os outros todos, obedeciam.
Eu ainda trabalhava para o Estado. Todos os meses ainda recebia o meu dinheiro através do banco. Os bancos ainda funcionavam. Afinal, era lá que os grupos de piratas guardavam o dinheiro. Na verdade, os piratas já tomavam conta dos bancos. Mas eles ainda funcionavam. Funcionavam era já de uma maneira diferente. Com outros objectivos. Agora eram essencialmente cofres-fortes. Guardavam ouro e outros metais preciosos. Pagavam-se entre eles para trocas entre clientes. Era assim que se fazia chegar um carregamento de uvas da Beira-Alta até Lisboa, por exemplo.
Mas enfim, saí de casa, cheguei à rua e virei à esquerda e fiz a rua toda até ao fim, até ao fim do bairro e depois continuei por ali fora, quase uma hora a caminhar pela estrada até chegar ao baldio, um antigo e enorme parque de estacionamento do estádio de futebol abandonado, terreno perigoso quando é noite, mas que se faz relativamente bem durante o dia. Depois faria mais cinco ou seis quilómetros em frente e estaria na periferia da cidade mas numa zona comercial onde, eventualmente, poderia encontrar alguma coisa do que procurava.
Fazer a rua do bairro foi muito penoso. A rua estava deserta. Alguns carros parados nas bermas junto aos passeios, mas já só umas carcaças metálicas. Esqueletos de antigos carros, despojados dos seus acessórios, desmontados e vendidos individualmente para renderem mais no mercado negro.
Havia gente dentro das casas. Via algumas caras à janela. Um homem saiu e disse Vais à cidade? Espera por mim que vou contigo! e voltou a entrar dentro de casa. Eu não esperei. Prefiro ir sozinho. Não levantar ondas. Passar despercebido. Manter-me invisível como sempre tinha sido toda a minha vida. Alguns quintais estavam abandonados. As casas ainda tinham gente mas as pessoas já não vinham à rua. Por medo do vírus. Por medo dos grupos armados. Por medo dos piratas. Por medo de tudo. Até da própria sombra. A vida, por estes dias, não vale um chavo.
Cheguei ao fim do bairro e fiz a estrada. Cerca de dez quilómetros até ao baldio do parque de estacionamento. Estrada deserta. Não passou um carro. Uma antiga estação de serviço abandonada e destruída. Cheguei ao antigo parque de estacionamento. Ao longe já se avistavam outras pessoas como eu, a ir para a cidade, a vir da cidade, atentos. Olhávamos uns para os outros a tentar perceber se éramos um perigo ou não. Agora ninguém sabe com quem se cruza. Há histórias de gente morta por amigos por causa de uma lamela de paracetamol. A vida tinha desvalorizado bastante na bolsa de valores. E a amizade mais ainda. Já não havia amigos. Era difícil encontrar gente em quem confiar. É por isso que precisava de encontrar qualquer coisa de especial. Para um dia especial de uma miúda especial.
Passei ao lado do antigo Estádio. Conta-se que lá dentro é o quartel-general de um dos grupos de piratas mais terríveis da zona. Mas pode ser só um mito urbano. As portas estão fechadas. Não se vê ninguém a entrar nem a sair do Estádio. Mas também se fala que existem túneis secretos. Na verdade não sabemos muito bem o que pensar de tudo isto.
Ao passar ao pé de uma das portas, levei a mão ao bolso onde tinha o revólver. Agarrei-o. Agarrei-o para o sentir. Vi qualquer coisa caída no chão por entre as ervas que cresciam no meio do asfalto rachado do antigo parque de estacionamento. Continuei a andar mas foquei melhor o olhar. Era um corpo. Um corpo de homem. Um cadáver ainda recente, provavelmente. Cuspi para o chão. Continuei em frente. Cruzei a estrada que vinha do norte e continuei até ao limite da cidade. Um quilómetro mais à frente começavam as primeiras lojas. Uns antigos supermercados adaptados aos novos tempos. Agora vendia-se de tudo, de tudo o que houvesse.
Lembro-me há muitos anos, em Luanda, ter ido ao Roque Santeiro, o maior mercado a céu aberto de África. Lá encontrava-se de tudo. Desde uma agulha para coser os meus boxers, quando eles ainda tinham salvação, até um míssil para disparar sobre a cidade vizinha. Agora, por aqui, era mais ou menos assim. Mas havia especializações nas lojas.
Cheguei ao primeiro supermercado logo à entrada da cidade. Era um antigo Minipreço. Mostrei o cartão multibanco ao segurança armado à entrada e entrei dentro do Minipreço. Dei uma volta pelo interior mas não havia nada que me interessasse. O antigo Minipreço era pequeno e não tinha muita variedade de coisas. Era essencialmente um entreposto de lacticínios e enchidos, tudo vindo directamente do produtor, algumas embalagens antigas, já tudo fora de prazo, mas muita coisa a granel. Só se leva o que se pode pagar. E não se pode levar tudo que as coisas são geridas de maneira a haver sempre quase tudo quase sempre.
Saí e entrei num antigo Pingo Doce. Fiz o mesmo ritual. Mostrei o cartão multibanco ao segurança e entrei. O Pingo Doce tinha muitas conservas. Era, essencialmente, um entreposto de latas de comida e bebida. Dei uma volta. Era bom se encontrasse uns pacotes de gelatina. Ela gostava de gelatina quando era miúda. Há quantos anos não comia gelatina? Mas não conseguia dar com nenhuma embalagem de gelatina. Até que, de repente, vejo-a a olhar para mim. Perdida numa prateleira. Fora de sítio, provavelmente, porque não havia ali mais nada daquilo. Uma embalagem de Boca Doce. Boca Doce! Uma embalagem de Boca Doce de Morango. O Boca Doce era uma espécie de pudim gelatinoso instantâneo. Agarrei logo na embalagem. Não precisava de procurar mais. Tinha encontrado o que procurava.
Paguei. Era caro. Paguei com o multibanco. Marquei o código com a parte de borracha do lápis. Depois desinfectei-a com um pouco de álcool e guardei o lápis no bolso do casaco. Pus a embalagem de Boca Doce na mochila. Podia voltar para casa. Não precisava de mais nada.
Saí.
Não tinha andado quinhentos metros, ainda estava dentro dos limites da cidade, quando fui abordado por um homem. Sem máscara. Afasta-te!, pedi. O tipo continuou a avançar para mim, mostrou-me uma faca na mão, uma faca grande, e disse O cartão! e tentou agarrar-me o braço. Eu levei a mão ao bolso do casaco e agarrei no revólver. Disse ao tipo Afasta-te, se fazes favor! Ele voltou a tentar agarrar-me. Deitou-me a mão ao braço e agarrou-me o braço e puxou-me para ele. Eu dei-lhe um pontapé com a biqueira de aço numa canela que o fez tropeçar. Enquanto ele se baixava cambaleante, eu tirei a mão do bolso com o revólver e disparei à queima-roupa. Disparei sobre o tipo. O tiro acertou-lhe em cheio na cara. Senti alguns salpicos a caírem sobre mim. Foda-se! disse. A mão do tipo largou-me o braço e ele caiu no chão. Dei-lhe um pontapé na mão e vi-a voar e cair quieta ao lado do corpo. Eu pequei no frasquinho de álcool e aspergi um pouco sobre mim.
Fui-me embora e deixei o corpo lá caído.
Enquanto passava ao lado do Estádio, enquanto caminhava pelo antigo parque de estacionamento, pensava que tinha de tomar um banho quando chegasse a casa e tinha de pôr a roupa para lavar e tudo isso antes da miúda acordar. E mais ainda pensava que à noite iria fazer o pudim-gelatinoso de Morango para o aniversário dela no dia seguinte. Achava que ela iria gostar de um Boca Doce. E sorri. Depois ainda pensei Não procurei os boxers para mim. E não pensei mais no tipo a quem tinha acabado de matar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/06]

O Advogado

Ainda o autocarro não tinha saído de Sete Rios, já o tipo se anunciava ao mundo. Sim, era advogado, mas estava sem farda. Já era entradote e não estava de fato, o que complicou um pouco o imaginário. O meu imaginário. Sim, eu sei, as coisas já não são como eram. O mundo é outro. As pessoas evoluíram e os estereótipos são redutores, além de serem estúpidos e preconceituosos. Pronto, mas eu sou um tipo um bocado estúpido e cheio de estereótipos que me ajudam a balizar o mundo. Preciso de me manter em equilíbrio. O homem usava umas calças de sarja, salmão (quem é que usa umas calças salmão?). Calçava umas botas de pele, de meio-cano, com atacadores e fecho atrás, no calcanhar, umas botas daquelas com furinhos em forma de cornucópias na biqueira e de um castanho-amarelado quase-Camel. Na parte de cima, e por baixo de um anoraque cinzento, daqueles muito barulhentos que orquestram o ar a cada movimento, vestia um pulôver vermelho. Talvez tivesse uma camisa, não sei, mas não consegui ver por baixo do cachecol às riscas, em vários tons cinza, que tinha enrolado à volta do pescoço. Aquelas cores, muito próximas e, no entanto, tão diferentes, criavam assim uma espécie de ton-sur-ton bizarro e louco, demasiado colorido para alguém que se queria advogado, isto segundo as minhas leis pré-estabelecidas sobre a ordem do mundo, e antes de ser jogado para outra dimensão.
Então, ainda o autocarro estava em Sete Rios, o advogado dizia, num tom de voz jorrado do palco sobre a plateia, que estava a conduzir, tinha parado para uma mijinha (palavra dele), estava a ver o processo pelo WhatsApp enquanto bebia um cafezinho, mas que aquele tipo de assunto merecia ser visto num computador, com ecrã grande, que o deixasse pensar, o que iria fazer assim que chegasse ao escritório.
Eu estava zangado com a algazarra ao telemóvel, mas não deixei de sorrir à mentira gritada frente a tantas testemunhas. E pensei, É mesmo advogado?
O tipo estava sentado ao meu lado, no outro lado da coxia central. Cofiava a barba de três-dias, grisalha. Acenava com a cabeça como se o interlocutor o estivesse a ver. Mas aquela não era uma vídeo-chamada. Despediu-se com um Com certeza! e desligou a chamada.
À nossa volta, minha e dele, uma série de passageiros, quase todos com ar de estudantes universitários, todos agarrados a computadores e tablets e umas meninas, bastante coloridas nas roupas e na decoração, que falavam baixinho entre si e passaram o tempo todo a escrever nos telemóveis com dedos encimados com unhas-de-gel que faziam tec-tec-tec no ecrã, estavam em trânsito de uma cidade para outra.
Pensei no que esta gente fazia com os computadores e com os tablets porque não havia internet no autocarro. O wireless é uma miragem mais prometida que oferecida. Estava tudo morto. Só o telemóvel do advogado continuava a apitar.
Gritava para se fazer ouvir do outro lado. Está?, perguntava. Não era nenhum constituinte. Era a mulher. Sim, claro que a mulher sabia que ele ia de autocarro. E sim, sabia que tinha de o ir buscar. E sim, ainda tinha tempo para fazer o que precisava de fazer. Ele ainda estava em Lisboa, dizia quando se aproximava já de Loures, mas ainda não tinha passado a portagem. Eu não ouvia a mulher. Mas ouvia-o a ele e percebia-a a ela.
O autocarro não ia cheio. Qualquer coisa para cima de meio. Mas quem ouvisse o homem, julgaria que o autocarro estava vazio e que se tinha transformado em escritório de advogado que trabalhava por WhatsApp, embora o computador fosse melhor para analisar alguns casos.
E à mulher ainda disse Sim, querida, vamos jantar… O que tu quiseres… Pode ser uma sopinha. Ainda estou cheio do almoço, vê lá tu.
Depois uns beijinhos enviados em rapidez e, finalmente, desligou.
Fez-se um silêncio que me pareceu estranho. Já me tinha habituado.
Mas logo ouvi Oh, foda-se! quando o advogado percebeu que o wireless do autocarro não estava a funcionar. Olhou em volta para ver se alguém tinha internet, mas tal como eu não deve ter percebido nada. Toda a gente que se avistava estava a fazer coisas nos computadores, nos tablets ou nos telemóveis. Eu vi isto pelo canto do olho.
O silêncio não durou muito tempo. O telemóvel começou a tocar uma música clássica muito alto. O homem foi apanhado de surpresa. Vejo-lhe os dedos a tocarem no ecrã. Está aflito. Devia estar a fazer alguma coisa no WhatsApp, fora surpreendido com a música de chamada e não estava a conseguir responder à situação.
Finalmente consegue atender o telefone. Troca o barulho da música por um português que balança o samba. Percebo que fala com alguém brasileiro. O seu português ganha as curvas musicais adocicadas do hemisfério sul. E diz Não pude fazer a transferência porque o seu IBAN só tem 20 números e o nossos tem 21. O ATM não aceitou a transferência. Veja lá isso.
Sim, pensei eu, veja lá isso e dê-me tempo.
Depois desculpa-se e diz que tem outra chamada. Atende a outra chamada. Fica mais alegre. Ouço-o dizer O bom que há aqui é que não há ninguém no meio. Estou directamente com a empresa. Isto é cinquenta por cento para cada lado. Exactamente. Ok? Um abraço.
Quando era mais novo, não novo de adolescente, mas ainda jovem, conseguia dormir em qualquer lado e em quaisquer condições. Sentava-me sobre o cóccix, os joelhos presos nas costas do banco da frente, deixava-me embalar pelos solavancos do autocarro e passava pelas brasas. Recuperava forças. Dormitava um pouco e, quando chegava ao destino, estava pronto para o que o destino me quisesse aprontar. Agora era mais difícil. Estou maior. Mais gordo. O espaço entre os bancos encolheu, não encontro conforto e já não consigo dormir em andamento. Mesmo ler qualquer coisa provoca-me vómitos. Mas gosto de ir sossegado. A pensar com os meus botões sobre as vicissitudes da minha vida.
Mas aquele advogado ali ao lado, aquele advogado-actor que parecia estar em cima de um palco a falar para a última fila da plateia, estava a dar comigo em doido. E foi assim até ao destino.
Ao chegar ao destino, o advogado ansioso já em pé durante as manobras de estacionamento do autocarro, voltou a receber uma chamada telefónica do brasileiro do IBAN. Dizia que estava no ónibus e não podia tratar de nada. Agora não posso tratar de nada, dizia. Estou no ónibus. Amanhã, dizia. Mas tem de arranjar alguém com uma conta portuguesa com um IBAN de 21 espaços para 21 números. Veja lá. Amanhã… Amanhã…
E enquanto descia as escadas da porta traseira do autocarro, e eu atrás dele, o advogado continuava a dizer Amanhã… Amanhã… Cada vez mais baixo, como um final de peça, Amanhã… Amanhã… Cada vez mais baixo, quase até ao limite da audição. Amanhã… Amanhã…

[escrito directamente no facebook em 2020/01/28]