Uma Toupeira Morta

Calcei os chinelos nos pés, enfiei uma t-shirt e saí de casa. Deixei a porta no trinco. Aqui não se passa nada. Ia ao Intermarché comprar vinho. Estava calor. Tinha gasosa e limões em casa. Faltava-me vinho para um Tinto de Verano.
Fui a pé estrada fora. A bater os chinelos no asfalto quente. Cruzei a aldeia. As pessoas olhavam para mim. Estava calor.
No Intermarché olhei a prateleira dos vinhos. Não precisava de um vinho muito bom. Era para misturar. Podia ser uma zurrapa. Comprei uma caixa de Parente. Cinco litros.
Ainda não tinha saído do supermercado já estava a provar o vinho.
Saí. Comecei a bater o chinelo no caminho de regresso. Com a caixa na mão. Não cheguei a cruzar a aldeia.
Encostei-me a uma árvore. À sombra. A fugir do calor. E tentei matar a sede. Bebi. Bebi o Parente. Levantei a caixa e abri a pequena torneira sobre a boca. Bebi. Mais tarde já não conseguia levantar a caixa, embora estivesse mais leve. Mais tarde era a minha cabeça que se colocava por baixo da caixa. E tentava rapar o fundo.
Depois… Depois devo ter adormecido. O calor. O vinho. A dormência. O sono.
Senti-me ir.
Ouvi vozes. Parecia-me ao longe. Mas não percebia o que diziam. Eram vozes, somente. Não sabia se estava acordado. Não sabia se estava a dormir. Não sabia se sabia alguma coisa. Senti frio. Senti uma dor no estômago. Como algo que se movesse em mim. Se calhar algo que comi. Se calhar algo que bebi. O vinho?
Pareceu-me sentir dor. Um mal-estar. Mas não via nada. Não sabia nada. Não sabia se estava acordado ou a dormir. Podia ser um sonho. Um pesadelo. Uma loucura momentânea.
E depois… E depois nada.
Acordei.
Acordei caído no meio de uma estrada de terra batida. Abri os olhos devagar. Muita claridade. Não percebi onde estava. Não reconhecia nada à minha volta. Doía-me a cabeça. A barriga. Os braços. Tinha os pés descalços. Vi um chinelo ao longe. Caído no chão. Levei a mão à cabeça e vi que tinha sangue. Devo ter caído, pensei. Depois vi os braços. Tinha pequenas picadelas com sangue. Também vi sangue na camisola. Uma mancha. Uma mancha grande. Levantei-a e vi. Uma costura na barriga. Uma costura grande e mal feita. Ainda havia sangue. Comecei a tremer. De frio. De medo.
Pensei que nesse dia de manhã o gato tinha largado uma pequena toupeira à entrada de casa. Uma toupeira morta. Era para mim. Pensei na toupeira. Pequena. Pequenina. Parecida com um rato mas com o focinho em bico. Para furar.
Pus a mão sobre a costura na barriga. A mão ficou com sangue. Senti vertigens. Má-disposição. Vontade de vomitar.
A cabeça começou a andar à roda.
Senti-me ir.
Não sei o que aconteceu depois.
Agora acho que estou num hospital. Mas não tenho a certeza. Há umas máquinas. Mas também há uma certa sujidade.
Não sei onde estou. Mas estou com medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/31]

A Vida Continua mas Já Não É a Mesma

Vesti um sobretudo. Está frio. O céu, cinzento. As montanhas ali à frente têm os cumes brancos. Neve. Não me lembro da última vez que lá nevou.
Estamos no Verão. Mas já nada é o que era.
Estou à janela da cozinha e sinto o chão a tremer. Ouço a marcha da milícia. Vieram da cidade e assentaram arraiais por aqui. Andam a doutrinar as pessoas. Às vezes, à força.
Ocuparam a escola primária. Fizeram lá o seu quartel. Algumas pessoas foram levadas para lá e nunca mais saíram. As aulas estão a começar. Para onde é que irão as crianças?
Vejo-os passar lá à frente, na estrada. Ao passar olham cá para cima, para eu saber que eles sabem que estou aqui. Até agora não fui um problema. Mas também não fui uma solução. Estão à espera para ver o que vou fazer. E eu não sei o que é que hei-de fazer.
Saio de casa, com frio, e vou apanhar uns limões ali ao limoeiro. Ainda estão verdes mas, se eu não os apanhar, apanham-nos eles. E não vão esperar que estejam maduros. Amarelinhos. Assim, mesmo verdes, sempre poderei beber um chá. Enquanto espero. Enquanto espero pelo que me irá acontecer. Enquanto tento pensar no que é que hei-de fazer.
Eles passam e a estrada volta ao silêncio. Toda a aldeia vive em silêncio. O barulho, quando há, é feito por eles. Eles mandam. O resto obedece.
Até o cão deixou de ladrar. Tem sempre o rabo entre as pernas. E quando quer a minha atenção, põe-se a ganir baixinho.
Apanhei três limões. Trago-os para casa. Ligo a chaleira. E espero.
Ligo a televisão. Parece que não se passa nada. Continua a feira popular. Os prémios em dinheiro. As chamadas de valor acrescentado. A indignação com os factos da vida de todos os dias, com aquilo que é normal. O mundo cor-de-rosa. As festas. Parece que nada está errado nesta terra. Parece que a vida continua como até aqui. Ninguém fala nada. Ninguém diz nada. Parece que a solução encontrada por toda a gente é ignorar o que está errado. A vida continua. Na mesma. Só que já não é a mesma. Esta vida é outra. Já não é vida.
A chaleira apita.
Lá fora começou a chover. Uma pequena chuvinha molha-tolos.
Corto uns bocados de casca do limão para dentro de uma caneca. Despejo-lhe água quente. Agarro na caneca e aqueço as mãos. Parece que estou no Inverno e, no entanto, ainda é Verão e não há muitos anos estaria a mergulhar nas águas violentas de São Pedro de Moel. Agora chove, neva e faz frio.
A chuva está um bocado mais forte. Deixei de ver as montanhas.
Batem à porta.
Quem será?
Não estou à espera de ninguém.
Não quero abrir a porta. Continuam a bater.
Tenho medo.
Batem com mais força.
Estou com frio.
É melhor acabar de beber o chá de limão.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/29]