A Precisar de Desanuviar

Estou a precisar de desanuviar. Adeus.
Foi assim que ela se foi embora, de boleia com o fim do confinamento.
Estava à porta da rua, de mala na mão, casaco vestido, quando eu ia a sair da sala com um livro do Harari na mão. Parei a olhar para ela e perguntei Onde é que vais? e ela colocou a mão na maçaneta da porta da rua, virou-se para mim como se eu fosse um estranho de passagem e disse Estou a precisar de desanuviar. Adeus.
Tínhamos vivido juntos os últimos seis meses. Mais intensamente neste último mês e meio de confinamento. Passámos a maior parte desse tempo na cama. Nus. Transpirados. A foder. Deixei acumular o tele-trabalho. Cozinhei para ela. Até me tornei um semi-vegetariano por causa dela. Deixei que me espremesse pontos negros nas costas. Deixei que me cortasse o cabelo. E depois, Estou a precisar de desanuviar. Adeus.
No início nem percebi muito bem. Pensei que ia dar uma volta pela cidade. Para desanuviar. Claro que achei estranho a mala na mão. Mas nem pensei muito nisso. Pensei que ia só dar uma volta à beira do rio, coisa que eu faço com regularidade. Ou que ia beber um café expresso a sério e não aquela miséria do Nespresso que sempre me pareceu a chicória que a minha mãe fazia aos Domingos, em Dezembro, para acompanhar as filhoses.
Olhei para o livro que trazia na mão e não sabia muito bem o que é que estava ali a fazer, no corredor, à saída da sala, com o livro na mão, e ela ao fundo do corredor, a porta da rua aberta e o Adeus a ecoar. Vi-a afastar-se de mim. O olhar dela largar o meu, virar-se de costas, puxar a porta da rua e ela bater com violência e eu despertei de uma pequena letargia momentânea e percebi que ia a caminho da casa-de-banho quando fui interrompido pela saída furtiva dela.
Fui para a casa-de-banho. Não consegui ler nada. Não consegui estar calmo. Voltei ao corredor. Abri a porta da rua. Espreitei o patamar. Fui à janela da sala. Pus a cabeça de fora e olhei a rua, de um lado, de outro. Pouca gente. E ela não era nenhuma delas. Depois deixei-me cair sobre o sofá.
O livro?
Deixei-o na casa-de-banho. Devia tentar ler. Ler para esquecer. Passar à frente. Tinha de me levantar. Mas não conseguia levantar-me. Não conseguia ler o livro. Não queria ler o livro. Só me revia na cama. Na cama com ela. O meu corpo tombado sobre a cama. Os lençóis encharcados. Ela sobre mim. A mão dela na minha garganta. A mão a apertar a minha garganta. E a dizer Tosse! Tosse! E eu a tossir. A tossir. Depois ela tombava sobre mim. Ficava morta, sobre mim. E eu ficava quieto debaixo dela para não a incomodar. Sentia-lhe o coração a bater muito rápido contra o meu. Depois a respiração a acalmar. E por fim levantava-se e ia buscar um cigarro. Acendia-o e passava-mo. Eu esticava a cabeça para fora da cama, procurava a janela do quarto, sentia a cabeça cair fora da cama, ficar pendurada, mas procurava a varanda do prédio em frente e o tipo estava lá. A olhar para mim. Para o meu quarto. Para a minha cama. Puxava uma passa do cigarro e devolvia-o a ela que ia fumar, nua, para a janela.
Levantei-me do sofá e fui a correr até ao quarto, abri a janela e olhei para a varanda do prédio em frente. Não estava lá ninguém. A varanda estava deserta.
Eu acendi um cigarro e fiquei lá, à janela do quarto, a fumar o cigarro e a olhar para uma varanda vazia à espera que aparecesse alguém.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/04]

Eu e Ela e a Índia

Tínhamos passado as férias de Natal daquele ano no alpendre de casa dos meus pais.
Enquanto toda a gente andava atarefada a comprar presentes e a preparar a noite de consoada e a fazer preparativos para a Passagem de Ano, eu e ela passávamos os dias inteiros no alpendre lá de casa a ler, a ouvir música e a conversar. Às vezes apareciam por lá alguns amigos e jogávamos ao Monopólio e ao King. A minha mãe fazia chá de menta que nos mantinha quentes e uns biscoitos de manteiga que nos aconchegavam o estômago. Ao mesmo tempo foram umas férias de provação. Nem eu nem ela fumávamos à frente dos meus pais e, estando toda a gente ali por casa durante aqueles dias, acabámos por estar as férias sem fumar um único cigarro, com excepção da noite de Passagem de Ano, que passámos sozinhos lá em casa, e quando fumámos um cigarro já passava da meia-noite, oficialmente já era outro ano, e foi para selar a primeira noite de sexo do novo ano.
Naquelas férias lemos bastantes livros. Eu andava obcecado com os livros do Harold Robbins e tinha convencido a minha mãe a mandar vir alguns deles através do Circulo de Leitores. Durante esses dias despachei Os Aventureiros, Uma Mulher Só e O Pregador. Ela lia outras coisas. A Campânula de Vidro da Sylvia Plath e O Fio da Navalha do Somerset Maugham. Ouvíamos muito Jam e Durutti Column. Falávamos dos livros que estávamos a ler. Falávamos mais que discutíamos porque só um de nós é que tinha lido o livro. Mas ouvíamos o outro com toda a atenção do mundo.
Às vezes eu parava de ler e olhava para ela, compenetrada na leitura, e via-lhe o cabelo longo, de um castanho escuro e brilhante, e lá no meio, quase escondidas, umas argolas enormes de prata que eu lhe tinha oferecido num aniversário e que lhe ficavam muito bem, davam-lhe um ar de cigana chique, uma espécie de Stevie Nicks, mais nova, mais bonita e muito mais lá de casa. Eu sentia-me um tipo com muita sorte.
Também conversávamos muito sobre as viagens que queríamos fazer num futuro não muito longínquo. Ainda nunca tínhamos ido a lado nenhum assim longe. Íamos muitas vezes ao Pedrogão, a São Pedro de Moel, até já tínhamos ido a Lisboa e uma vez ao Porto, mas nunca tínhamos ido assim para fora, em viagem, a conhecer o que não conhecíamos, a ver coisas novas, a aprender o que nos era novo. Mas tínhamos esse desejo. Então falávamos de quando acabássemos os cursos, quando arranjássemos bons empregos, empregos bem remunerados, e todas as viagens que iríamos fazer com o dinheiro dos nossos salários. Eu queria muito conhecer as Américas. A América do Sul e Central. Ela estava mais virada para a Índia. Queria conhecer o Rajastão. Concordámos que o melhor era irmos aos dois sítios. E era isso que pretendíamos fazer. Nesse final de ano ainda chegamos a comprar um Lonely Planet sobre a América do Sul. Folheávamos o livro à vez. Descobríamos países baratos. E cheios de história.
Depois passou o Natal, passou a Passagem de Ano, fumámos o nosso primeiro cigarro no ano novo depois de termos tido a primeira noite de amor no novo ano e as aulas estavam quase a começar.
E foi no primeiro dia de aulas que tudo aconteceu. Aliás, na manhã do primeiro dia de aulas o que levou a que não houvesse aulas nesse primeiro dia. Nem nos dias seguintes. Pelo menos para nós.
Eu tinha saído de casa a pé. Passei por casa dela. Ela não morava longe de mim, também não morava propriamente ali ao lado, mas ficava a caminho da escola.
Ela já estava à minha espera à entrada de casa. Demos um beijo. Demos as mãos. E fomos para a escola.
Estávamos já perto da escola, estávamos a chegar à passadeira onde cruzávamos a estrada para entrar na escola, ela estava já a parar ao pé da passadeira, estava a preparar-se para olhar para um lado e para o outro e ver se podíamos passar a estrada, naquela altura havia sempre muito trânsito com todos os pais que vinham trazer os filhos à escola, quando ouvimos um barulho, um barulho que se parecia com uma bomba a rebentar ali perto, e parámos, assustados, nervosos, a olhar para todos os lados para perceber o que estava a acontecer, quando surgiu um pneu, um pneu muito grande, um pneu de camião, a rolar sozinho pela estrada, galgou o passeio, voou, veio pelo ar e acabou por atingi-la em cheio na cabeça.
Ela tombou de imediato. Senti a mão dela a despegar-se da minha. Vi logo uma mancha de sangue a escorrer pelas pedras da calçada portuguesa. E o pneu continuava a sua caminhada durante mais algum tempo até acabar por se enfaixar na montra de uma livraria, um pouco mais abaixo, mas isso eu já não vi, foi-me contado depois porque, nesse momento, eu já estava debruçado sobre ela a tentar parar o sangue, a tentar acordá-la a fazê-la lembrar que tínhamos muitas viagens programadas para fazer e não podíamos fugir às nossas próprias combinações.
Acabou por chegar uma ambulância. Eu também fui. Também fui numa maca. Estava com sangue. Acharam que eu também tinha sido ferido. No hospital fui visto. Não tinha nada. Mas estava muito ansioso. Estive com uma psicóloga. Mais tarde soube que ela já tinha chegado sem vida ao hospital. Morrera durante o trajecto. Tinha levado uma grande pancada na cabeça com o pneu do camião.
Cinco anos mais tarde fiz a minha primeira viagem à Índia. Fui sozinho. Bem, sozinho, não. Fui com ela. Passeei pelo Rajastão. Passeei com ela pelo Rajastão. De cinco em cinco anos regresso à Índia. Sozinho. Sozinho com ela.
Hoje lembrei-me dela, e desta pequena história, porque se está a aproximar o dia de mais uma viagem à Índia. E eu nem era grande entusiasta da Índia. Mas passear por lá com ela, é outra história. Ela faz-me reparar em tudo o que eu não iria reparar, nas cores, nos cheiros, nas roupas das mulheres, nas caras marcadas dos homens que vou encontrando pelas ruas, na musicalidade da língua, mesmo quando falam em inglês. É ela que me tem guiado pelos caminhos de uma Índia que sempre quis conhecer. E todos os cinco anos lá vamos. Deixo tudo para trás e abalo. Eu e ela. Eu e ela na Índia.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/12]

Preciso de Ir mas Ainda Não Fui

As grossas gotas de água caíam-me em cima. A água estava fria. O meu corpo estava quente. A ferver. As gotas de água caíam como punhais cravando o meu corpo.
Estava deitado, nu, sobre a relva do quintal. O sol torrava-me. A mangueira, agarrada pela mão direita, apontada ao céu, mandava para lá a água que vinha das montanhas e saía pela agulheta. Depois caía em cima de mim, como uma chuva de Verão refrescante.
Apetecia-me fumar um cigarro, mas não havia como. À minha volta era já um charco. Não devia tardar o coaxar das rãs.
Perscrutava com toda a atenção, todo e qualquer bocadinho de céu à procura de uma nuvem, por pequena que fosse, que me agilizasse o pensamento e me fizesse imaginar alguma coisa.
Tinha a cabeça a ferver. Não conseguia pensar em nada. Um blur cinzento num mundo colorido. O verde na terra. O azul no céu. Mas a cabeça cinzenta. Preciso pensar, dizia num mantra. Preciso pensar. Mas não conseguia.
O céu estava azul. Nem uma nuvem. Nem uma amostra de nuvem.
A água continuava a cair em chuveiro sobre mim. Sobre a minha cabeça e o meu corpo. Comecei a ficar com os dedos engelhados. O corpo envelheceu. Fiquei com frio. Fiquei frio. Larguei a mangueira e ela ficou ali a engrossar mais o charco onde eu estava deitado.
Levantei-me. Tentei levantar-me. Uma cãibra. Uma cãibra na perna. Uma dor diabólica. Voltei a cair no charco. Agarrei o pé com as duas mãos e fiz força. Tentei impedir o músculo de se fechar sobre si próprio. As dores eram horríveis. Fiz força. Depois massajei o músculo. Massajei a perna. Tentei levantar-me. Estava farto daquele charco. Fiquei furioso. Estas merdas são só para me chatear. Acabei por me pôr em pé. Fui a coxear desligar a mangueira. Voltei a olhar o céu. Azul.
Eu estava molhado. A coxear. E foi a coxear que entrei em casa. Entrei na cozinha a molhar as lajes do chão. Abri o frigorífico. Uma cerveja. Fui para o alpendre. Sentei-me nu e molhado a beber a cerveja. Acendi um cigarro. E disse Está um calor do caralho. E dói-me a perna. Tudo só para me chatear.
E foi então que sorri. Já conseguia pensar. A dor no músculo libertara-me daquela dormência. Já conseguia pensar. Primeiro pensei na dor que ainda sentia no músculo onde tivera a cãibra. Depois no dia de calor extremo que estava. E finalmente decidi que era hora de ler um bocado. Precisava de ler. Andava há uns tempos para acabar de ler o Homo Deus de Yuval Noah Harari. Era isso. Mas tinha de me levantar para o ir buscar. Lá dentro. A casa. À sala. À mesa da sala. E decidi que já ia. Mais tarde. Depois de descansar um pouco.
Ainda não fui.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/22]

Alguém Tem de Fazer Alguma Coisa

Eu vi-as chegar. Chegaram devagar. Foram chegando devagar mas, mal chegaram, instalaram-se e não foram mais embora. Cobriram tudo e trouxeram o medo.
Estava no alpendre a ler, pela enésima vez, O Segredo do Espadão, das Aventuras de Blake e Mortimer, a fabulosa série de banda-desenhada de Edgar P. Jacobs. Bebia um gin. Fumava um cigarro. E, de repente, comecei a perder leitura. A luz a ir embora. Eram três da tarde. Olhei para o céu e, ao fundo, umas nuvens escuras a cobrirem o céu e a taparem o caminho à luz do sol.
Pensei Vem aí temporal.
Pousei o livro. Levantei-me e cheguei-me à frente no alpendre. Olhei com mais atenção. Não pareciam nuvens de tempestade. O ar estava abafado. Sentia-se cheiro a queimado. Como porco no espeto.
Pensei São os chineses. Vêm aí os chineses.
Entrei dentro de casa. Voltei a sair. Agarrei n’ O Segredo do Espadão e levei-o para dentro de casa. Arrumei-o. Fui ao fundo do armário do meu quarto buscar a caçadeira. Agarrei nuns cartuchos e voltei ao alpendre. Liguei o iPad à procura de notícias. Liguei a TSF. Nada. Facebook. Fiz scroll. Comecei a encontrar umas notícias partilhadas de um enorme incêndio a lavrar na Amazónia.
Pensei O que é que isto tem a ver com aquilo?
As nuvens já estavam quase por cima de mim. A cobrir o céu. A cobrir-me a cabeça. Eu estava ali, no alpendre, com a caçadeira nas mãos, à espera dos chineses quando percebi que não eram os chineses.
Pensei São os brasileiros, porra! Como raio é que estas nuvens chegaram aqui?
A luz do dia desaparecera por completo. O dia fez-se noite. O céu coberto por nuvens de fumo pretas. Um cheiro incrível a queimado.
Entrei para dentro de casa. Fechei tudo. Portas e janelas. Liguei a televisão. Nada. A greve às horas-extra. Pedro Pardal no PDR por Lisboa, nas legislativas. Bas Dost e o Sporting. O clássico Benfica – Porto no Sábado. Mais nada. Nada sobre a noite comer o dia. O mundo ter enegrecido. E o Brasil ter ensandecido.
Peguei no iPad. Voltei às redes sociais. Ali, toda a gente comentava. E finalmente percebi. A Amazónia estava toda a arder. Atearam fogo à Amazónia para vender a madeira e aumentar o pasto para o gado. É a economia, estúpido.
Enquanto o mundo corria para o seu apocalipse na mão de idiotas demasiado estúpidos para perceber os erros que estavam a cometer, a outra mão, supostamente mais ponderada e inteligente, não estava a fazer nada. Estava perdida na sua própria inércia, motivada pela ideologia, economia, medo, diplomacia e, acima de tudo, não ingerência num país estrangeiro. Sem perceberem que éramos nós. A Amazónia éramos nós.
Ao fim de três dias de noite escura e cerrada, ninguém parecia ainda ter tomado alguma decisão que fosse para pôr termo ao que parecia a morte da floresta amazónica.
Então, eu peguei na caçadeira. Em várias caixas com cartuchos. Arranjei um farnel. Um naco de pão do Soutocico, Um bocado de queijo da ilha. Um chourição. Três maçãs e quatro laranjas. E uma garrafa da Cooperativa de Reguengos. Enfiei tudo numa mochila. A caçadeira na mão. Peguei no carro e fui até à Nazaré.
Entrei pelo porto dentro. Ninguém me impediu. Encontrei uma traineira. Subi à cabina. Liguei o motor. Saí do porto.
Pensei Em frente é para a América. Para sul, chego ao Brasil. Alguém tem de fazer alguma coisa.
Ando há umas horas no mar. Não vejo grande coisa mas, se continuar a direito, vou lá dar. Alguém tem de fazer alguma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/21]

O Monstro do Outro Lado da Janela

O dia acordou enublado. Eu acordei com o despertador, que a luz no quarto, muito difusa, não era suficiente para me fazer abrir os olhos e despertar para a vida.
Olhei para o tecto. Estava lá. Inteiro. Tentei ver rachas, pontos negros. Moscas. Mosquitos. Aranhas. Não havia por lá nada a pontilhar o branco do tecto. Mas podia haver. E eu não ver. A luz não era muita. Eu estava a acordar. Os óculos que usava era só para ler. Mas não sei se não devia começar a usar óculos para ver mais que as letras que fugiam das páginas dos livros que continuava a roubar nas mesmas livrarias de sempre. Coloquei os óculos. Olhei para o tecto. Um borrão. Era só o que via. Um borrão sem forma. Tirei os óculos e larguei-os na mesa-de-cabeceira.
Empurrei o edredão para trás. Senti o frio da manhã pelo corpo. Estremeci. Levantei-me. Agarrei nas calças de fato-de-treino e vesti-as. Enfiei uma t-shirt. Saí do quarto. Entrei na cozinha. Liguei a máquina do café. Fui à casa-de-banho. Regressei à cozinha. Enchi uma caneca de café. Fui beber para a janela. Mas não via nada das árvores. Não via os pinheiros. Não via as laranjeiras cheias de laranjas. Não via o muro do quintal nem a estrada lá ao fundo. Não via as montanhas naquele que era o meu horizonte habitual. Não via nada. Só um borrão difuso. Um nevoeiro tão cerrado e próximo que não via nada.
E, de repente, um monstro. Um monstro saltou à minha frente. Um monstro saído do nevoeiro saltou à minha frente. Dei um salto para trás. Assustei-me. Dei um salto para trás. A caneca de café na mão. A caneca de café saltou comigo. O café também saltou, por sua vez. E tombou sobre mim. Foda-se! disse alto. Foda-se! repeti. O café caiu-me em cima. Em cima de mim. Pela t-shirt. Pelas calças de fato-de-treino. Pelos pés descalços. Pelo chão limpo. Foda-se! disse outra vez ao sentir-me queimado pelo café. O monstro continuava aos saltos frente à janela. O monstro era o cão. O cão veio do nevoeiro. Escondido pelo nevoeiro. E saltou à minha frente. Do outro lado do vidro. Apanhou-me desprevenido. Assustei-me. Cabrão! disse, a pensar no cão. E via-o lá do outro lado do vidro aos saltos.
Larguei a caneca no lava-louça. Fui à despensa buscar um balde e a esfregona. Despejei lá dentro uma medida de tampa de Sonasol Verde. Abri a torneira de água quente no lava-louça e enchi o balde. Depois fui lavar o chão da cozinha. Lavei o chão todo. Não ia deixar manchas. Não ia só lavar aquele pedaço sujo de café. Foi tudo. A cozinha toda. Lá fora o cão continuava a ladrar e a saltar em frente à janela. Queria comer, claro. O cabrão queria comer. Agora esperas!, disse-lhe através da janela fechada à espera que ele ouvisse e compreendesse.
Depois fui tomar banho.
Um duche quente.
Vesti-me. Quando regressei à cozinha, já não havia nevoeiro na rua. O cão já não estava a ladrar lá fora.
Saí à rua. Acendi um cigarro. Já via os pinheiros. Já via as laranjeiras cheias de laranjas. Pensei que mais tarde iria fazer um sumo de laranja. Gosto de sumos de laranja. De laranjas a sério. Olhei mais lá para o fundo e já tinha de regresso o meu horizonte habitual. As montanhas. As montanhas verdes.
Ouvi vozes. Olhei a estrada, ao fundo do quintal. Ao portão. Duas mulheres. Duas mulheres com livros nas mãos. Duas mulheres, de calça e casaco. Mala a tira-colo e uns livros, ou revistas, presos pelos braços junto ao peito.
Testemunhas de Jeová, pensei.
Fiquei em silêncio. Deitei o cigarro fora. Voltei para casa. Ouvi a campainha a tocar. Mas não havia ninguém em casa. Só o cão. O cão que foi ladrar para o portão. Foi ladrar às Testemunhas de Jeová.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/15]

A Ansiedade Ataca-me Quando Tenho de Sair de Casa

Fico ansioso cada vez que tenho de alterar as minhas rotinas. Preciso de equilíbrio. Preciso do equilíbrio de uma vida previsível para poder estar bem.
Levanto-me sempre à mesma hora. Às vezes tenho de antecipar. Raramente fico na cama para além do que é normal. Mesmo em dias de noites mal dormidas. Levanto-me. Faço café. Torradas. Sento-me na mesa da cozinha e como. E bebo. Às vezes vou beber o café para a janela e olhar a rua. As pessoas na rua. O tempo que está. A chuva. O sol. Os vizinhos no prédio em frente. A rapariga em camisa de dormir. A senhora que todos os dias estende roupa no estendal. A senhora que todos os dias põe o edredão a arejar. O rapaz que todos os dias vai fumar um cigarro à varanda. É nesta altura que me lembro que também fumo. E que gosto de fumar. Pego num cigarro e vou para a varanda. Quando está de chuva ou muito frio, abro a janela da cozinha e fumo ali mesmo. Já aconteceu ir nu para a varanda. Esqueço-me que é assim que durmo. Levantar e vir para a cozinha fazer café é automático. Esqueço-me de vestir uns boxers. Não tenho cá ninguém em casa para olhar para as minhas vergonhas. Esqueço-me da rua. E vou nu para a varanda. Muitas vezes.
O dia decorre sem sobressaltos. Faço o que tenho de fazer. Vou onde tenho de ir. Escrevo. Leio. Como e bebo. Vejo as notícias na televisão. Leio os jornais online. Às vezes compro um jornal ou outro em papel. Gosto de sujar os dedos com tinta da impressão. Gosto do cheiro. Do cheiro da tinta e do papel. Normalmente compro A Bola. Às vezes o Público. O Expresso já só muito raramente. As revistas nacionais não me chamam a atenção. As estrangeiras de que gosto, tenho de mandar vir. É difícil de encontrar por cá. Já os livros, não me queixo. Há de tudo. É uma questão de procurar e não me deixar vencer pelos lineares dos hipermercados.
Esteja onde estiver, quando tenho de sair de casa, sei que mais hora menos hora regresso. Aos meus cheiros. Ao meu canto. À minha paz, por vezes até, bastante barulhenta.
Hoje vou ter de sair de casa. Da cidade. Uma viagem. Tenho de ir uns dias para outro lado. Outra cidade. Outra casa. Outra cama. Outros cheiros. Conhecer pessoas que não conheço. Ter de falar com elas. Ver-lhes os dentes sujos. A caspa sobre os ombros. O cheiro a transpiração. Os lábios rugosos pintados com bâton, as senhoras. Os pêlos da barba mal cortada, os homens.
Levantei-me mal disposto. Passei uma hora na casa-de-banho. Acordei com o estômago às voltas. São os nervos. A ansiedade desta quebra de rotina. Já vomitei. Não consegui comer nada. Não bebi café para não agravar a tempestade que sinto nas entranhas. Transpirei muito. Fui à rua comprar desodorizante que já não tinha. Tive de ir a três farmácias. Não gosto de desodorizantes de álcool. Nem de spray. Nem com cheiro. Tive de ir a três farmácias. Só encontrei o que queria na última. Isto fez-me atrasar um pouco. Tive de correr para apanhar o expresso para o qual já tinha comprado o bilhete com antecedência.
Já estou dentro do expresso.
Vou aqui encafuado num espaço para anões. Não posso estender as pernas porque levo companhia na cadeira do lado. Já tentei ligar o iPad mas o wireless é intermitente. Vai e vem. E quando vem aguenta pouco. Tentei ler mas comecei a ficar enjoado. Parei antes de ter de vomitar novamente. Fumava um cigarro mas não se pode fumar nos autocarros. Tenho o estômago às voltas mas acho que o autocarro não tem casa-de-banho. E mesmo se tivesse. Não sei se conseguia lá ir. Aqui, à frente de toda a gente. E se fosse pedir ao motorista para parar numa Estação de Serviço? Toda a gente ia perceber que tinha sido eu a pedir. Não quero isso. Não quero que ninguém saiba. Não quero que ninguém olhe para mim. Tenho de aguentar.
Tenho de aguentar estes dias longe da minha casa. Do meu sofá. Da minha cama. Da varanda da minha cozinha onde gosto de fumar os meus cigarros a olhar as rotinas dos meus vizinhos do prédio em frente.
Estou nervoso. Trinco as peles nos cantos dos dedos. Não gosto de expressos. Não gosto de conhecer pessoas que não conheça. Não gosto de sair de casa. Não gosto de sair da minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/01]

O Sem-Abrigo

Está frio. Está mesmo muito frio. É, talvez, o dia mais frio deste Inverno.
De manhã quando abri os estores, vi o manto branco que cobria os canteiros ajardinados da cidade. Os carros estavam cobertos por uma película de geada. Mas contrariando tudo isto, o sol despontava lá no cimo, num céu azulinho onde não se via uma nuvem.
Não saí de casa o dia todo. Limitei-me a ir à varanda, embrulhado numa manta, para fumar cigarros.
E foi numa dessas idas à varanda que o vi. A estender um cartão encostado ao prédio em frente e a sentar-se. Abriu um saco de plástico de onde retirou outros sacos de plástico, vários, de onde acabou por retirar uma maçã. Puxou um canivete pequenino e descascou a maçã de um só corte e guardou a casca, inteira, num dos sacos de plástico. Depois foi cortando pequenas rodelas que ia colocando na boca. Mastigava e engolia. No fim encostou-se à parede do prédio e deixou-se estar por lá, braços cruzados por cima do peito, a olhar quem passava, mas sem olhar as pessoas de frente, nos olhos.
O dia passou.
O frio continuou. Ao fim do dia, ficou ainda mais frio. Não liguei os aquecedores que a conta da electricidade está enorme. Mas fui-me aguentando.
Era já de noite quando voltei à varanda para fumar outro cigarro. O homem ainda lá estava. Mas agora estava encostado a um canto, para se proteger o mais possível do vento frio.
Chegaram uns rapazes novos, de coletes reflectores e umas caixas, e pararam ao pé dele. Deram-lhe um saco de plástico, que o homem guardou dentro de outro saco de plástico. E uma manta, que abriu e colocou logo sobre as costas e apertou à frente. Por último, estenderam-lhe um copo de plástico maior, abriram uma marmita grande e colocaram sopa fumegante no copo de plástico. O homem agradeceu. Agarrou o copo com as duas mãos, para as aquecer, e ficou a soprar lá para dentro, e o fumo a fugir e a dissipar-se no ar. Os rapazes novos perguntaram-lhe qualquer coisa e o homem abanou a cabeça. Despediram-se e foram-se embora.
Eu continuava cá em cima a olhar para ele.
Entrei em casa e senti-me desgastado. Sentei-me no sofá. Mas não me apetecia ver televisão, ler, ouvir música. Nada.
Não me conseguia concentrar. Levantei-me e fui até à janela. E olhei, através do vidro, de novo para o homem, que estava a sorver a sopa. Fui buscar uma cadeira e sentei-me ali, ao pé da janela a olhar para ele.
Depois de comer a sopa, o homem guardou o copo noutro saco de plástico e enfiou-se debaixo de umas mantas, sem nunca largar a manta que tinha sobre as costas, e virou-se para a parede.
Eu estava dentro de casa, também com uma manta sobre as costas, com frio, e não deixei de olhar para o homem que estava deitado lá em baixo, na rua. Queria fazer qualquer coisa, mas não consegui sair dali.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/06]