Ler… Devagar…

Regresso a uma livraria. Regresso ao cheiro dos livros. Ao pó dos livros. Sentia-lhes a falta.
Como consegui estar tanto tempo sem manusear um livro novo? Um livro que não fosse um daqueles poucos que tenho em casa, em cima da mesa-de-cabeceiro, à espera de serem lidos pela… Enésima vez?
Sentei-me numa mesa. Fechei os olhos. Aspirei longamente. Gosto deste cheiro. Sinto as estórias entrarem-me pelas narinas e invadirem-me os pulmões. Crimes. Espionagem. Romance. Sexo. Porra! tanto sexo. História. Ensaios políticos. Filosofia. Tanta coisa sobre tudo.
Vou ao bar. Peço um café. Duplo. Não que precise de acordar. Não que o café seja a minha energia. O café é o ambiente que preciso para pegar num livro. Trago o café para a mesa. O café duplo. Pego num livro qualquer das estantes. Sento-me com o livro na mão. Aproximo-o do nariz. Aspiro-o longamente. Reconheço-lhe o cheiro. Percorro as arestas com o dedo. Contorno-o. Um livro pequeno. Encosto-o ao ouvido. E ele sussurra-me: Portugal, Povo de Suicidas. Ah, porra! Miguel Unamuno. Já tive este livro. Numa edição da &etc. Ficou num dos caixotes estantes garagens prateleiras armários arrecadações de uma das casas por onde passei. Já nem o recordo. Esta edição é outra. Mas também já não é nova.
Pouso o livro. Ponho açúcar no café. Duplo. Mexo com uma colher de plástico. Há que mudar isto. Gosto de colheres de metal. Acendo um cigarro. Aspiro longamente. Deixo sair o fumo numa nuvem enorme e espessa. Olho à minha volta e penso Quem me dera ter uma livraria. E depois digo alto Não! E corrijo Quem me dera ter estes livros todos. E sorrio. Sorrio e volto a falar alto Sim! Queria ter estes livros todos. Alguns para ler. Outros só para olhar as capas. Ler os títulos. Imaginar o que vai lá por dentro. E outros para me forrarem a vida. Livros à minha volta. Janelas da alma. De aventuras. De bem-aventurança. De paixão.
Bebo o último gole de café. Dou a última passa no cigarro. Esmago-o no cinzeiro. Abro o livro que tenho na mão e leio “É claro, eu sou português e portanto filho de um povo que atravessa uma hora indecisa, crepuscular do seu destino.” e volto a folhear o pequeno livro e procuro à sorte as minhas sortes e leio “Dentro de dias, a 1 de Dezembro, vão celebrar-se as festas da restauração da nacionalidade, da libertação da soberania dos Filipes de Espanha. No dia seguinte voltarão a falar da bancarrota e da intervenção estrangeira. Pobre Portugal!” e em baixo leio a data em que Miguel Unamuno escreveu isto Lisboa, Novembro de 1908, e penso na tristeza de gente que somos enquanto povo. Sempre na mesma roda-viva de miséria. Quando é que podemos ir a um restaurante sem ter de contar os tostões para ver se podemos comer um bife ou ter de nos contentar com um prato de sopa?
Levanto-me e decido Vou levar esta nata de prosa. Já tenho jantar. Que se lixe o bife.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/07]

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