Invasão no Campo da Bola

Estava sentado numa almofada, em cima de uma bancada corrida de cimento no Estádio Magalhães Pessoa, em Leiria, versão pré-obras, quando a bancada era só uma e no lado oposto e nos topos era tudo peão.
Estava sentado na bancada e lá em cima, em frente e ao fundo, o imponente Castelo de Leiria olhava para mim.
Entre umas pevides e uns tremoços, um olho no jogo e outro no castelo, dividia as minhas atenções que não conseguiam fixar-se só num acontecimento. Havia bruxas no castelo?
Por vezes saía do meu lugar, entre o meu pai e a minha mãe, largava a bandeira da União de Leiria no chão, e descia as escadas da bancada até à caixa de areia dos saltos em comprimento e ia jogar à bola com outros miúdos como eu que tinham dificuldade em dar atenção à mesma coisa por muito tempo.
Naquele dia estava sentado na almofada, em cima da bancada de cimento, entre o meu pai e a minha mãe, os tremoços e pevides já comidos, bandeira levantada na mão e o vizinho de trás a queixar-se que não via nada Oh miúdo! Baixa a bandeira! quando a União de Leiria marca golo, os jogadores festejam e, do outro lado, frente a mim, do lado do peão, saltam umas pessoas para o meio do campo e começam a correr atrás não-sei-de-quem porque não percebi bem, mas parecia que toda a gente corria atrás de toda a gente, espectadores, jogadores, treinadores, apanha-bolas, dirigentes, polícias, todos a correrem campo relvado fora, alguém apanha a bola e foge com ela enfiada debaixo da camisola, dois homens enfrentam-se ao murro, um polícia levanta o cacetete mas não vejo onde cai e puxo o casaco do meu pai e pergunto Como é que sabemos que são nossos ou dos outros, quando não têm bandeiras? e o meu pai olhou para mim e não soube responder, agarrou-me e encostou-me a ele.
Espreitei por entre o braço do meu pai e ainda vi o árbitro a apitar e jogadores de equipamentos diferentes a parar pessoas e mandá-las para fora do campo e a polícia levar uns rapazes agarrados pelos braços, e acho que vi alguém com a cabeça partida e sangue a escorrer e depois toda a gente se foi embora e o campo ficou vazio, veio o silêncio e o meu pai sentou-se. Eu sentei-me.
Havia gente à volta do campo. Polícias. Também militares. O campo estava vazio. Esperámos.
Virei-me para o meu pai e perguntei O que é que estamos à espera? e o meu pai respondeu Espera!
Olhei em frente, para o campo vazio, para o burburinho que havia ali na bancada e no peão do outro lado de campo, com a polícia e os militares à volta do relvado, na pista de tartan, a olhar para os espectadores e não percebi nada do que estava a acontecer.
Virei-me para a minha mãe e perguntei O que é que estamos à espera? e a minha mãe disse Que o jogo recomece!
E cinco minutos depois, as equipas e os árbitro voltaram ao campo e o jogo recomeçou. O castelo continuava lá em cima a olhar cá para baixo. Estaria a ver uma bruxa? Numa das janelas escuras?
A União ganhou o jogo. As pessoas de Leiria, que estavam na bancada, ficaram contentes e festejaram. O meu pai também e então disse, para mim e para a minha mãe Vamos lanchar ao Jota!

[escrito directamente no facebook em 2019/09/02]

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Uma Desgraça Nunca Vem Só

Naquela época, a civilização começava em Aveiras. As despedidas da província eram feitas no Pôr-do-Sol 2, encostados ao balcão, agarrados a um pão com panado e uma Coca-Cola, ou uma mini para os mais afoitos que naquela altura a polícia não andava a perseguir os alcoolizados ao volante, e depois de uma bica de café queimado, o ingresso na estrada do futuro em direcção à capital.
A primeira vez que entrei na estrada da civilização ao volante de um carro, foi com um Fiat 127 branco nas mãos. O meu segundo carro. O primeiro tinha sido um Simca, também branco, com motor atrás e um saco com cinquenta quilos de areia à frente para o carro não levantar cavalinho, mas com ele não me arriscava a tão longa viagem. A minha experiência mais louca com o Simca tinha sido de Leiria a São Pedro de Moel, à noite, depois de jantar, depois da noite de Leiria fechar, e estar meia-hora parado nos semáforos na Marinha Grande à espera que o carro arrefecesse. Depois de parar (e geralmente ia abaixo quando estava parado num semáforo, ou à entrada de uma rotunda se não pudesse entrar logo) tinha de esperar que o humor arrefecesse. Então, o Simca nunca saiu das berças da cidade provinciana.
Já o Fiat, carro italiano, nervoso, pequeno mas irreverente que até permitia algumas ultrapassagens em plena N1, era carro para chegar à capital.
Foi derrubado em Vila Franca de Xira, com a ponte Marechal Carmona à vista. Começou por tossicar, solavancou, desligou-se do peso do meu pé no acelerador, abrandou e disse-me Daqui não saio. Encostei-o à curta berma da estrada. Saí do carro. Acendi um cigarro e perguntei-me E agora? O que faço agora? E não sabia.
Fumei o cigarro.
Um carro abrandou. Abrandou até quase parar ao pé de mim. Mas não chegou a parar. Um carro desprevenido bateu-lhe por trás e o carro foi projectado para a frente. Como um carrinho-de-choques na Feira de Maio. Mas o carro não saiu da estrada, aproveitou o empurrão e continuou o caminho. O que lhe bateu, também. Nenhum deles se preocupou com as chapas amolgadas. Toda a gente tinha pressa de chegar à capital. Eu também. E resto era paisagem.
Acendi outro cigarro. Pensei Se houvesse telemóveis, GPS, computadores, mas não! Que merda de época! E era. Era uma merda de época. Os carros não tinham fecho centralizado de portas. As janelas precisavam de força braçal para serem abertas. Não havia ar-condicionado. Só chauffage. Os bancos não eram climatizados. Os encostos de cabeça não traziam DVD. Os isqueiros funcionavam. Os cinzeiros andavam sempre cheios de cinza e beatas velhas. Os porta-luvas carregavam velhos maços de cigarros vazios e amarrotados, caroços de maçãs meio roídos e preservativos usados. Uma desgraça.
E como uma desgraça nunca vem só, e precisa de companhia para um bom happening, lá apareceu um reboque. O homem-reboque tentou ligar o carro. Nada. Abriu o capot. Olhou lá para dentro. Colocou o dedo do pirete numa peça. Noutra. Bateu. Ninguém respondeu. Abriu o depósito de água. Viu a vareta do óleo. Depois virou-se para mim e disse-me, com ar professoral e entendido, O motor gripou.
Mas quem se gripou fui eu.
Puxou-me o carro para cima do reboque. Deu-me boleia ao lado dele. Fumámos cigarros. Eu por nervosismo. Ele por tradição. E levou-me o carro para uma oficina não muito longe de minha casa. Tive de esperar pelo dia seguinte para a oficina abrir que era Domingo. Passei um cheque ao homem-reboque (ainda se utilizavam cheques, alguns só visados). O carro ficou meio em cima de um canteiro de flores mal tratadas pela autarquia. Fui a pé para casa. Nessa noite não jantei. Só bebi vinho e fumei cigarros. Estava nervoso. Nervoso e zangado.
Fui deitar-me quando se acabou o vinho e os cigarros. E não dormi a pensar no cheque passado ao homem-reboque. Nem sabia se tinha dinheiro suficiente na conta. E não dormi a pensar no motor gripado. E não dormi a pensar em quanto é que o motor gripado iria custar. E não dormi a pensar no que fazer ao carro se não conseguisse fazer nada.
E foi então que acordei com o despertador a tocar e a angustia a chegar. Agora tinha de ir tratar do carro.
E uma desgraça nunca vem só. A minha sorte é que estava no coração da civilização.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/24]

O Candidato

Teimam em fechar as esplanadas da cidade. A cidade deixa então de ter esplanadas para ter marquises. Estou em Leiria, no século XXI, e sinto-me no Cacém nos anos ‘80 do século passado.
Está um tempo muito citadino. Não tão bom que canalize gente para as praias, nem tão mau que as faça ficar em casa. Mas antes fosse. Ainda aprendiam alguma coisa a apreciar a celulite uns-dos-outros ou aprendiam a confeccionar bolos com o Marco do Big Brother num qualquer programa vespertino de televisão que eu descobri no outro dia. Assim, as pessoas aglutinam-se em esplanadas fechadas, a transpirar que nem uns porcos da Boavista em transporte suíno para o matadouro, a cheirar as transpirações uns-dos-outros, porque desconhecem os desodorizantes, enquanto ouço, na mesa do lado, que o presidente da Câmara da cidade vai candidatar-se à Assembleia da República. Claro que cada um faz o que pode pela vida. Eu também tentei assaltar o Banco Santander, ali no início da Avenida Heróis de Angola, ex-ex-libris da cidade, tornada moribunda à espera de uma reanimação boca-a-boca mas já não há quem lhe chegue que o mau aspecto já se instalou e parece mais morta que viva, sem que lhe dêem a extrema-unção ou um choque de adrenalina, quando descobri que afinal já não havia outra vez mais nenhum banco ali, na principal artéria da cidade, e o único multibanco de rua está nos CTT que já não o são e são outra coisa qualquer que ainda está por se descobrir. Sim, eu sei, eu não tenho engenho.
Levantei-me da mesa onde estava. Deixei a bica queimada a arrefecer na chávena e fui à rua fumar um cigarro. Não sei o que seria da minha vida sem um cigarro fumegante, preso nos dedos amarelos das mãos trémulas, enquanto tento pensar no próximo passo.
Aproxima-se o fim-de-semana. O fim-de-semana de Feira Medieval. Aquela febre que ataca todos os municípios de norte a sul do país e todos os munícipes ficam assim com o pito aos saltos a pensar que é tão bom poder brincar de facínora sem ser repreendido pela comunidade nem julgado pela lei.
Isto é só uma brincadeira, dizem-me enquanto passam por mim na rua da rua, ou seja, fora da esplanada tapada para poder fumar um cigarro e não intoxicar estes servos da gleba que não se importam de serem escravos porque é tudo a brincar.
Decido sair da cidade. Decido deixar o café queimado por beber e por pagar na esplanada coberta, que a cidade é polar, e fugir para uma qualquer terriola dos arredores por que é preferível voltar a ouvir o Zé Café & Guida, todos os fins-de-semana seguidos até ao início do Inverno, que ser cúmplice de uma leitura enviesada da história que me é enfiada pela goela abaixo sem uso de anestesia nem vaselina.
Arranco de carro para fora da cidade e volto a descobrir um cartaz do CDS junto ao Mosteiro da Batalha. Sinto um déjà vu. Agora já não tem a efígie da Assunção e do Nuno. Agora só transmite uma frase A Preparar o Futuro, e então percebo a ausência, nos últimos tempos, da sempre-presente-e-nunca-calada Assunção. Está a preparar o futuro. O seu futuro. E sei que nada é por acaso. O presidente da Câmara também começou ali, na Batalha, a preparar o seu futuro. E enquanto vejo o cartaz a ficar lá para trás, esqueço o futuro da Assunção, penso que devia estar contente por um candidato à Assembleia da República pela minha cidade ser de facto de cá. Quer dizer, não é bem de cá, ele nasceu em Abrantes mas, pronto, foi presidente da Câmara durante três mandatos, é quase como se fosse de cá. Mas já vi este filme. E não terminou bem.
Acendo outro cigarro enquanto abro o vidro do carro e coloco o braço de fora, à malandro, e penso Gostava de conseguir ser um malandro. Mas um malandro dos bons.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/17]

Ericeira

A última vez que fui à Ericeira, a vila ainda existia. Estávamos em dois mil e dezanove. Fui de passagem. Ia de Lisboa até à Figueira da Foz, em trabalho, e resolvi subir o país pelo Litoral Oeste de carro. Primeiro pensei em ir de comboio, mas depressa percebi que a Linha do Oeste não existia. Era uma linha-de-comboio fantasma. A linha estava lá, passavam por lá comboios, mas não serviam a ninguém. Nem às populações nem à própria CP. A quem serviria aquele montículo ferroviário de estações abandonadas, horários perdidos e viagens eternas? Ainda me lembrava de uma viagem de Lisboa a Leiria que me tinha levado cinco horas. Mas naquela altura andava apaixonado e a viagem serviu para o namoro. Entretanto acabou-se a paixão e cinco horas de comboio por cento e vinte quilómetros é demasiado.
Adiante.
Cheguei cedo. Fui à Praia do Sul. Estive deitado ao sol. Mergulhei nas águas calmas e frias da praia. Bebi uma cerveja no Quiosque da Praia do Sul. Passeei pelos Foles. Ouvi o mar a gritar. Senti aquele cheiro a iodo, a maresia. Almocei na Marisqueira das Furnas. A entidade patronal patrocinou o almoço e soube-me bem.
Depois de almoço dei uma volta higiénica e subi até à Praça da República para beber um café e comer um Ouriço no Pão da Vila. Escolhi precisamente o único café que não tinha o doce típico da terra. Acabei por não comer doces. Fumei um cigarro. Acabei por fumar outro cigarro enquanto bebia um segundo café e reparava nas moças de prancha de surf debaixo do braço com o buço aloirado, penugem mal aparada nas pernas e rastas no cabelo. Eram giras as miúdas, estavam queimadas do sol e do sal, mas um pouco peludas demais para os meus gostos.
Retomei viagem. Antes ainda comprei uma lata com Ouriços e outra com Areias. Para oferecer. Pequenas lembranças de um país cheio de pequenas particularidades.
Nunca mais lá voltei.
Entretanto, aconteceu o tsunami.
A Ericeira foi varrida do mapa.
Lembro-me das notícias. Lembro-me de ver algumas imagens do tsunami a atingir a Ericeira. Não houve uma destruição imediata. A enorme onda que atingiu a vila destruiu algumas casas, mas o facto de uma grande parte estar muito acima do nível do mar, só sofreu com a queda de água da explosão da onda contra as arribas. Uma espécie de chuva que, não vinda do céu, vinha do mar. De baixo para cima. E depois, em furiosa queda. O problema foram mesmo as arribas. O mar entrou pelos foles. Forçou o interior das rochas. Bateu nas arribas e provocou ondas de choque que fizeram tremer a terra e provocou sismos superficiais que levaram ao deslizamento das arribas e ao arrastamento da vila da Ericeira e das outras terras que já lhes viviam coladas como se fosse já só uma.
A Ericeira desapareceu do mapa. Ficaram uma dúzia de casas para contar a história. Com os anos essas mesmas casas foram preservadas e tornadas uma espécie de museus da memória do que tinha existido ali, desde o tempo dos fenícios, e deixado de existir devido à acção terrorista da natureza.
É a primeira vez que aqui regresso depois da minha viagem em dois mil e dezanove. Como isto era e como isto é. Agora, o que era a Ericeira é um penhasco vazio e deserto sobre o mar agitado do Atlântico. O que era a Reserva Mundial de Surf é hoje só uma placa numa das novas arribas onde grassam placas alusivas à história da vila, ao lado de outras que avisam para a possível queda dessas mesmas arribas.
Ainda me lembro das imagens que vi na televisão. Uma onda gigantesca que se deslocava em câmara lenta no mar e se aproximava ameaçadora de terra. O confronto da onda com as arribas. O choque. A explosão de água como uma nuvem cheia de água que termina em chuveiro sobre o alto das arribas. O silêncio. A calma. As pessoas surpresas a saírem das suas casas. E depois o barulho ensurdecedor, vindo das tripas da terra. E as arribas a deslizarem para o mar, como um pequeno monte de areia no estaleiro de uma casa em obras, e a vila inteira a ser arrastada pelas arribas abaixo. E as pessoas. As pessoas que se viam no meio da enxurrada. O pó que se levantou. E depois, o nada. As águas acalmaram e a terra tinha recuado. A Ericeira já não existia. E tudo tinha sido gravado. E eu tinha visto. E nunca mais cá tinha voltado.
Até hoje.
E depois de tantos anos, ainda parece que ouço os gritos das pessoas que foram arrastadas pelo deslizamento das arribas para dentro dos foles. E ainda as imagino vivas, a viverem em bolhas de ar, a comerem os moluscos agarrados às rochas, à espera de um outro tsunami que os traga de volta à terra e reerga a antiga vila da Ericeira. Mas isto é só um sonho desesperado. Na verdade, a Ericeira foi-se e nunca mais irá voltar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/15]

Três Cartazes à Beira da Estrada

Vinha a descer a estrada de S. Jorge para a Batalha, ali na antiga EN1, estrada que prometia ser protegida para proteger o Mosteiro, estrada que seria protegida desviando o grosso do trânsito, em especial os camiões que vêm de Pataias, Chão Pardo, Cruz da Légua, Cumeira e Albergaria, para a A19, quando decidiram que a A19 era a pagar e, afinal, o trânsito que era para ser desviado continuou a fluir pelas mesmas vias de comunicação de sempre, passando por ali, junto ao Mosteiro, quando vi a cabeça do Nuno Melo, sim, esse que estão a pensar, a cabeça dele a berrar-me à vista Portugal. A Europa é aqui., e assustei-me com o berro visual, a cabeça do Nuno Melo e com o que ele queria dizer com aquilo, que me ia enfaixando no próprio cartaz, ali plantado à entrada da Batalha, na curva que a EN1 faz à esquerda para continuar para Leiria e em frente vai-se para a terra onde D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável, tem estátua equestre em clara afronta aos espanhóis. Que Europa?
Evitei, in extremis, o choque com o rapaz do CDS e segui em frente, para Leiria, a pensar se a Europa era ali a Batalha (porquê a Batalha?) ou o rapaz Nuno Melo, o da melena capilar (porquê o Nuno Melo?), quando pensei que, afinal, podia ser um cartaz para as eleições europeias mas a mensagem era errada ou então eu já não percebia nada disto: não foi a Batalha, como S. Jorge e Aljubarrota, símbolos da portugalidade contra Castela? Espanha? Europa?
Na verdade não queria muito saber disso. Só me irritei por o ver aos berros para mim que vinha descansado, a pensar, junto com os meus botões, na morte da bezerra, a descer a estrada para ir à minha vida.
Mais à frente, em Santo Antão (há muitos santos nesta zona, mas poucos milagres!), reparei que a Aldeia, um famoso restaurante onde antigamente os Leões de Alvalade faziam a sua festa já não era a Aldeia, mas um restaurante chinês do qual não decorei o nome mas reparei que era Buffet com grande variedade de Sushi e fui levado a concordar com as pessoas que clamam que Leiria é a capital mundial do Sushi, que basta chutar uma pedra do calçada e lá está uma peça de peixe cru, porque na verdade é mais fácil encontrar Sushi que Morcela de Arroz em Leiria. De qualquer forma admirei-me porque o novo restaurante chinês de Buffet com grande variedade de Sushi está já para trespasse, assim dizia o enorme cartaz colocado no parque à frente do restaurante para bem se ver da estrada de velocidade controlada porque dantes havia por lá muito acidente.
Fiquei a pensar que a culpa disto tudo era do Nuno Melo que anda lá fora a ganhar a vida e, de repente, apeteceu-me uma Aldeia Velha e pensei que a televisão cria vícios.
Parei o carro. Já não sabia para onde é que ia. Nem sabia de onde é que vinha. E que raio estava eu ali a fazer? Em Santo Antão? Quem é que vai a Santo Antão? O que é que se pode fazer em Santo Antão? E então, vi. Vi o enorme cartaz (outro) com seta a indicar-me a porta para que não passasse despercebida: Baila Comigo “como se baila na tribo”. Danceteria. E um parque repleto de camiões. Há lá melhor que uma discoteca vespertina para gente com idade avançada? Lembrei-me ao que ia. Tentar dançar com uma velhota que ainda tivesse dentes e a anca inteira.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/02]

Verde na Triagem de Manchester

É Sábado à noite. Já é tarde. Tão tarde que o Sábado está quase a ir embora. Tão tarde que o Domingo está quase a chegar.
É a noite do meio do fim-de-semana. Aquela altura em que as pessoas tendem a ficar cheias de vontade de engolir o mundo em copos de gin, em garrafas mini de cerveja. É aquela altura em que as pessoas precisam de dançar em pistas de dança acanhadas. Em pistas de dança mais populares. Em pistas de dança mais alternativas. Em pistas de dança que não são pistas de dança mas uns espaços vazios onde se pode esbracejar como se estivéssemos a ter um ataque epiléptico. Desconjuntados. Bêbados. Cheios de tesão por qualquer coisa transpirada que se abra à nossa frente como uma flor necessitada de um regador repleto de água com vitaminas.
Nossa frente não, que eu não estou aí.
O meu Sábado, que é quase Domingo, é outro.
Estou no hospital. No Hospital de Santo André. No Centro Hospitalar de Leiria.
Não interessa o que vim cá fazer. É pessoal. Mas vim cá. Enquanto uns bebem, outros comem e outros dançam, eu vim ao hospital. Passei por um restaurante japonês, aqui mesmo ao lado do hospital, e estava cheio. Come-se muito sushi em Leiria. Come-se muito sushi e até tarde, em Leiria. Imaginei o restaurante cheio de enfermeiros em greve cirúrgica.
Eu cheguei ao hospital. Estacionei o carro no primeiro parque à direita. Havia lugares. Muitos lugares.
Entrei nas urgências. Fui ao balcão. Disse ao que ia. Mostrei o Cartão de Cidadão. Paguei a taxa moderadora. Fui mandado para a sala do lado. Para a triagem. Triagem de Manchester, chama-se.
Ouvi o meu nome numas colunas fanhosas. Tive dificuldade em perceber que era eu. Aquela voz electrónica fez-me lembrar o franchising espanhol 100 Montaditos. Devia ter dito que me chamava Batman. Ou Spider-man. Não o percebia na mesma. Mas tinha tido muito mais impacto.
Entrei na triagem de Manchester. Gabinete um. Duas enfermeiras conversavam. Conversavam sobre alterações na ordem de trabalho. Alterações nas fichas dos pacientes. Como preenchiam e como têm de preencher. Eu sentei-me numa cadeira. Esperei. Uma das enfermeiras olhou para mim. Expliquei. Escreveu. Continuava a falar com a colega. Escreveu. Olhou para mim. Disse qualquer coisa que não percebi. Não percebi o que disse nem se o disse para mim.
Estendeu-me uma pulseira verde. Porra! posso ter de esperar até duas horas para ser atendido. Estiquei o braço. A enfermeira agarrou-me na mão e puxou-a para si. Senti o fresco da sua mão acabada de ser lavada por um desinfectante. Enrolou-me a pulseira verde no pulso. Mandou-me seguir a linha verde até umas cadeiras e esperar que me chamassem. Tudo demasiado verde para o meu gosto.
Segui a linha verde. Encontrei as cadeiras. Sentei-me. Ouvi-as ranger. Cada vez que mudava de pé de apoio, a cadeira rangia.
Ainda range.
Estou aqui já não sei há quanto tempo. Estou entretido a ver os bichinhos que entram por baixo da porta. Penso cá para mim O hospital devia ser um local muito limpo!, mas a verdade é que, pelo menos aqui, está cheio de bichos. Bichinhos. Parecem da família dos escaravelhos. Mas também podem não ser. Podem ser besouros. Mas não sei se besouros e escaravelhos não são a mesma coisa. Se calhar são bichos-de-conta. Eles enrolam-se. Toquei nuns com os pés. Esmaguei outros. Agora está ali a passar uma aranha. A aranha não mato. Dizem que significa dinheiro. Bem que me dava jeito. Vá, vai lá à tua vida, digo-lhe baixinho para não julgarem que estou maluco.
Estou aqui há não sei quanto tempo. Estou a entreter-me a esmagar estes bichinhos que vêm da rua por baixo da porta. Já é Domingo. Bebia um vodka. Um gin. Bebia uma coisa qualquer com álcool. Ou sem álcool. Tudo o que fosse para que não estivesse aqui. Mas estou. A ver bichinhos a invadirem o Hospital de Leiria. À espera que me chamem. A mim, pulseira verde na triagem de Manchester.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/17]

A A8 Transforma-se em A17 e Eu Não Sei Porquê

Vou pela A8 que depois se transforma em A17. Não sei porque muda de nome. Talvez tenha a ver com concessões. Mas não sei. Nem vou à procura da razão. Na verdade nem me interessa.
Vou pela A8 que depois se transforma em A17 e vou sozinho. Vou sozinho no carro, para norte, mas vou também sozinho na estrada. Três faixas de rodagem à minha disposição. Penso que os anos ’80 foram bons para as obras públicas, para os empreiteiros e para o modelo 200 da Mercedes-Benz.
Vou pela A8 que depois se transforma em A17, mas preferia ir de comboio. Preferia fazer o trajecto que tenho de fazer numa Linha do Oeste funcional numa CP que não estivesse a soldo de interesses que não conheço, mas que me mataram os comboios.
A última vez que andei de comboio, demorei cinco horas para fazer cento e vinte quilómetros. Nessa altura já a Rodoviária Nacional demorava pouco mais de duas horas a fazer o mesmo trajecto. Hoje, a Rodoviária demora as mesmas duas horas. Às vezes um pouquinho mais. Às vezes um pouco menos. O comboio não sei. Mas acho que continuou lá parado no tempo. Parece que há uns Intercidades todos chiques. Mas acho que é só para a gente elegante de Lisboa e Porto. O resto do país, pelo menos aqui, em Leiria, terra onde habito, desconheço tal iguaria.
Vou portanto pela A8 que depois se transforma na A17 e não vejo vivalma. Estamos perto do meio-dia quando sou ultrapassado por uma viatura. A primeira com que me cruzo. Um pouco mais à frente vejo um carro, dois carros que vêm em sentido contrário.
É quando já estou a aproximar-me de Aveiro que começo a ver mais carros. Aparecem do nada. É nessa altura que percebo que não sei quanto é que estou a pagar pela estrada que usei. Entrei em portagem com portageiro, mas com Via Verde, e acabo por passar por uma portagem aérea que me contabiliza mas não me informa. No resto do trajecto que tenho de fazer apanho com mais duas portagens aéreas, mas desta vez tenho lá, fixo, o valor do meu trajecto.
No regresso, três horas mais tarde, reparo que há agora alguns carros na auto-estrada. Não sei se é o suficiente para pagar a concessão, o investimento, ou se também o estamos a pagar através do Orçamento Geral de Estado. Mas alguém tem de pagar aquele elefante branco. Parece que não há almoços grátis. Pelo menos para alguns. Para outros, nunca na vida hão-de ter de pagar qualquer almoço.
Regresso pela A17 que depois se transforma em A8. À medida que me aproximo mais de Leiria, há menos carros na estrada, embora mais que de manhã. Toda aquela estrada me soa fantasma. Se calhar não existe. Se calhar estou a sonhar. Se calhar ainda estou nos anos ’80. Comi um cogumelo. O Primeiro-Ministro ainda é o Aníbal e vou ter de passar outra vez por aqueles anos de chumbo que só vamos saber que o foram mais tarde. Na ressaca do desenvolvimento tolhido. Quando pudermos virar a cabeça para trás e pudermos olhar com atenção o passado engalanado nos dinheiros da Europa que alimentaram muitas carteiras e cursos e empresas e Ferraris.
Regresso pela A17 que depois se transforma em A8. Faço a auto-estrada até à saída para a Nazaré. Depois deste dia, desta viagem, desta estrada fantasma que teve a vantagem de me esconder das pessoas, preciso de ver o mar.
Chego à Nazaré, mas viro para o Sítio. Gosto cá de cima. Gosto de vir cá para cima. Arranjo lugar com facilidade. Compro uns tremoços. Vou até a uma das arribas e deixo-me ali estar a absorver o belo sol vespertino. Acendo um cigarro. Vejo as ondas lá em baixo a baterem na areia. Há gente na praia. Há gente no mar. Fumo o cigarro. Como uns tremoços. Lanço as cascas cá de cima sobre a cabeça das pessoas que se passeiam debaixo da arribas. Mas ninguém vai saber que sou eu. Um dia destes levo cotonetes e também os lanço daqui. Com um pouco de sorte vão parar ao mar. Às vezes também me apetece fazer asneiras. Às vezes também quero ser mau. Às vezes quero ser como a Nova Leiria. A que já nasceu velha. Feia. E má.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/10]