O Último Suspiro

E naquela tarde desejei que a vida fosse um dia de sol brilhante, quente e confortável, um mar ondulante e dócil de águas mornas onde poderia nadar crawl e que nadaria como ninguém, boiaria num colchão de ar e seria levado ao longo da costa até uma praia deserta e secreta onde encontraria uma sereia verdadeira com rabo de peixe, almoçaria um bife do lombo com batatas fritas e um ovo a cavalo, molharia um bocado de miolo de um papo-seco na gema amarelinha do ovo, beberia um pirolito e guardaria o berlinde de porcelana colorido que iria juntar ao atabafador, ao contra-mundo e ao olho-de-boi na caixinha das preciosidades onde também estaria o pin do Benfica, o cartão de sócio da União de Leiria, os cromos de futebol das pastilhas May e a fotografia da Cindy, uma inglesa de Bristol que conheci na Praia da Oura e com quem andei de gaivota, comi gelados de laranja da Olá e chorei baba e ranho quando me vim embora para Leiria e ela ficou mais uma semana, jurámos trocar cartas e só foi a primeira e só chegaram duas, e que depressa troquei pela Rita que conheci no colégio, mas a fotografia ficou para me lembrar as pequenas histórias que fazem toda a minha vida, e depois iria a uma matinée de cinema ver o Grease, a Guerra das Estrelas ou uma reposição da Fantasia que o meu gosto é eclético, passearia de bicicleta tipo chopper ao longo do rio e subiria a estrada até à nascente do Liz, às Fontes, logo ali acima das Cortes, e regressaria mais tarde até à descida do Seminário onde iria fazer a descida em carrinho-de-rolamentos e passaria pela caixa de água pública onde o Jorge um dia rebentou umas bombas de Carnaval que lhe iam arrancando os dedos da mão, mas não arrancaram e nós fartámos-nos de rir à conta dele que nunca mais pegou em bombas de Carnaval, só em bombinhas de mau-cheiro que partia nas aulas de matemática e a freira era obrigada a dar a aula por terminada porque o cheiro se tornava impossível e ninguém mais tomava atenção à matéria, e saíamos da sala e íamos jogar à bola para o campo pelado onde esfolei e esfolaria ainda mais vezes os joelhos e todos os finais de tarde seriam passados na Feira de Maio, na pista dos carrinhos-de-choque da feira, aos empurrões aos outros carros para impressionar as meninas que olhariam para mim e suspirariam, e eu veria os seus pequenos corações a baterem forte dentro dos seus frágeis corpos de adolescentes à minha passagem e iria passear à volta do mundo com uma dessas meninas e conheceria todos os países e todos os povos da Antártida ao Ártico, passando pela Austrália, a Ásia, a América do Norte, Central e do Sul, e toda a África, e teria todo o tempo do mundo para usufruir da vida de todos estes continentes e povos, e comeria das gastronomias locais e nunca ficaria maldisposto com nenhuma das iguarias que o mundo está cheio de maravilhas para comer e beber e ver e ouvir e tocar e sentir e apreender, e cada vez que regressaria iria rever os meus amigos que ainda seriam sempre os meus amigos porque os amigos seriam sempre para a vida, ao contrário dos amores que se enterram na areia da praia em cada fim de Verão, e mataria saudades dos meus pais e da escola onde andava mas já não andaria porque iria aprender pelo mundo fora a fazer surf no Hawai, mas poderia ser também na Nazaré ou em Peniche, a jogar futebol de praia em Copacabana, judo no Japão, a tocar didgeridoo na Austrália, percussão em África e kazoo… onde é que poderia aprender a tocar kazoo?… talvez em África também e ocarina com os descendentes dos maias e…
…e depois descobria, naquela tarde, que a vida afinal nunca seria assim tão boa enquanto assistia ao último suspiro do meu pai deitado na cama onde estava já há uns meses à espera de ser levado lá para onde vão as pessoas que respiram pela última vez e eu chorava como choravam todos os abandonados cá deste lado ao sentirem-se sozinhos e perdidos, à espera que a vida, mesmo assim, não me abandonasse como parecia ter abandonado naquele momento.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/15]

Tinder

Abri uma conta no Tinder. Motivado pela Mónica, aliás Eliete, moça de vida normal, fui levado a abrir conta no segmento da foda barata. Isto se não se tiver em conta o preço dos motéis. Ao contrário da Mónica, aliás Eliete, eu não frequento a IC19 e muito menos os seus motéis. Mas tenho o Motel Caribe, que fica aqui a caminho a Nazaré, e um quarto custa a partir de 39€ segundo anuncia o cartaz publicitário à saída de Leiria, não especificando se é por hora, partes de hora ou noite inteira com direito, ou não, a pequeno-almoço. Suponho que não haja pequenos-almoços neste motéis. Talvez uma garrafa de espumante da Bairrada ou garrafinhas de Magos como também havia, faz tempo, no Calhegas. E há sempre a hipótese do Ibis que, sendo um pouco mais caro, permite a noite toda garantidamente que já lá fiquei. O pequeno-almoço é à parte.
Tirei umas fotografias em contraluz para não me reconhecerem. Ainda ponderei procurar alguém pelo Facebook, alguém longe daqui e de mim a quem pudesse roubar umas fotografias, fazê-las minhas e deixar as mulheres a suspirarem por um eu escolhido a dedo a pensar nelas. Mas não. Já que ia mentir no nome, e menti, chamei-me um nome que não é o meu, mas escolhi um nome real, plausível, nada de nickname estúpido como os que se encontram na net. Não. Era um nome verdadeiro, só que não era o meu. A silhueta em contraluz nas fotografia, sim, essa era eu. Tirei as fotografias na casa-de-banho, contra a janela da rua. Nem eu percebia que era eu. Tirei umas a mais, de partes do corpo, de partes íntimas do meu corpo, com pouca luz, claro, a precaver o futuro próximo e as demandas das parceiras a quererem saber e ver mais de mim.
E foi então que comecei a pensar se, em vez de mulheres de meia-idade, como eu, fartas do mesmo parceiro, dos filhos, do trabalho e da lida da casa, mulheres à procura de um escape como dantes eram a Crónica Feminina, o Simplesmente Maria, a Burda ou a Casa Cláudia, mulheres que imaginavam um mundo de vivenda rés-do-chão/primeiro andar, labrador preto, um casalinho e a cerca pintada de verde, repintada todos os anos por altura da Primavera para compensar os rigores do Inverno, e que deixaram de imaginar quando descobriram que a realidade nunca é igual ao sonho, e que afinal eram só mulheres a tentar sentirem-se vivas para além das paredes fechadas de um casamento em velocidade-cruzeiro com as suas rotinas chatas de foda ao Sábado de manhã, à pressa, porque é dia de ir ao mercado comprar peixe fresco, lavar o carro à mão para não estragar a pintura e levar uma das crias ao futebol e a outra ao cinema com as amigas e rezar para que quando fosse para ir à discoteca houvesse outros pais com capacidade para estarem acordados às cinco da manhã para as ir buscar e fazer a entrega ao domicílio, e conseguir um orgasmo de vez em quando, mesmo que por procuração, fosse, afinal, um esquema manhoso para apanhar tipos estúpidos como eu que são apanhados em quartos anónimos de hotéis e são deixados desmaiados nos polibãs com um saco de gelo sobre a costura de um rim que se ia vender como ouro na Dark Web.
Foda-se!
Foda-se!
Acabei por desactivar a conta do Tinder. Liguei-me ao PornHub.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/13]

A Boneca Insuflável

Comprei uma boneca insuflável. Não era para ter sexo. Era só mesmo pela companhia.
Tento não ligar muito ao que vejo nas redes sociais e nos programas vespertinos de televisão onde ancoro tantas vezes depois de almoço entre o café expresso que deixo arrefecer por esquecimento e um trabalho de merda que não consigo desengatar. Sentado no sofá, às vezes sentado à mesa frente ao computador ligado e uma folha do Word em branco à espera que os dedos descortinem letras que, em conjunto e sequencialmente me resolvam o problema de coisas para dizer que não saem nem à lei da bala, olho para os programas feitos a pensar em donas-de-casa e velhos sem amigos com quem jogar à sueca, sinto que estou nos dois grupos, e tento inspirar-me sabendo, desde logo, que nunca há ali realmente nada para mim.
Mas insisto.
Neste últimos dias tenho levado com uma massiva campanha comercial do Dia dos Namorados. Quem não tem namorado namorada mulher esposo consorte amante amigo-colorido é um pária que não merece viver debaixo do mesmo céu azul-brilhante que todas aquelas pessoas belas e bonitas inteligentes e bem-parecidas, frequentadoras de ginásios e atletas de jogging diário, de manhã preferencialmente, antes de ir trabalhar para aparecerem no estúdio bem tonificadas, e sexualmente bem resolvidas na vida, que me querem enfiar opiniões pela goela abaixo. Eu tenho trocado todas essas escolhas atléticas por garrafas de vinho tinto e cigarros sem filtro que me fazem a voz sexy mas sem companhia matinal para a apreciar. Mas tanto os ouvi falar que deixei que me enfiassem o enorme prazer da companhia que quer um só dia no ano para se fazer existir que, derrotado, acabei por me deixar entrar na onda, dei por mim ansioso por não ter namorada, cocei os braços como um caruncho à espera da próxima dose e a tentar descobrir onde ir buscar o papel para o cavalo, que peguei no carro, desci à cidade, a cidade de Leiria, ali mesmo em baixo, entrei numa sex-shop e comprei uma boneca insuflável. Ufa! Ao pagar percebi que convidar uma mulher de carne-e-osso, talvez mesmo daquelas que percorrem o Marachão, nas margens do Liz, para-trás-e-para-a-frente a olharem-me nos olhos, me teria saído mais em conta mas, ao mesmo tempo, pensei que, assim, não tinha de manter conversa e podia ser que esta relação durasse para além do dia 15 de Fevereiro ou, pelo menos, até se romper que, cá por casa, quando era mais novo, as bóias não duravam mais que a primeira semana de férias, e isto em anos bons.
Foi durante a noite que as coisas começaram a ficar mais esquisitas.
Para me habituar à companhia, e como ainda faltavam dois dias para o Dia dos Namorados, convidei-a a dormir comigo.
Na penumbra do quarto, iluminado por vezes pelos faróis dos carros que passavam no exterior e invadiam a minha privacidade, olhava para o lado esquerdo da cama e via uma boca aberta, parecia estar mesmo à minha espera.
O desejo é uma coisa muito esquisita. Esquisita e estranha. E mais estranha fica, à medida que lhe vamos dando lastro.
Malditos programas vespertinos de televisão. Maldito Dia dos Namorados.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/12]

A Queda, parte 03 e final

Acabou-se-me o cigarro. Morreu entre os meus dedos. A incandescência queimou-me as peles soltas nos cantos, junto às unhas, onde a pele está amarelada, um amarelo-hepatite que é, afinal, dos cigarros.
Estou sentado no chão da varanda, encostado à parede. Preso na minha incapacidade de reacção.
Reajo. Tento reagir. Mas não me mexo. Sinto um fio de baba a cair-me do canto da boca e levanto, a custo, a manga da camisola. E limpo-me.
Cruzo as pernas nelas próprias. Endireito as costas. Ergo os braços como numa prece. Junto polegar e dedo do meio. Fecho os olhos. Expiro todo o ar que tenho nos pulmões. Esvazio-me.
Sinto-me desacelerar. Sinto as batidas do coração espaçarem-se. Espaçarem-se cada vez mais. Cada vez um bater mais distante. Cada vez um bater mais silencioso. Até deixar de bater. Até deixar de o ouvir bater. Até parar.
Tudo pára.
Rebobino o filme.
Faço a estória regressar atrás. Não ao início, ao princípio de tudo onde tudo era o verbo e o início do livro. Mas ao início do último capítulo. Este capítulo onde ainda estou. Regresso.
Refaço.
Recomeço.
Chego ao Vale Furado, paro o carro na arriba e deixo-me ficar sentado no interior. Bebo uns goles de vodka. Fumo um cigarro. Sinto o calor do sol passar através das janelas abertas do carro e a sonolência a tomar conta de mim. O barulho da rádio embala-me. Penso no trabalho que acabara de mandar à merda, como já tinha mandado a minha mulher, os meus filhos, o meu pai, a minha mãe, a maior parte dos meus amigos… Suspiro. Sinto-me adormecer a pensar que o dia de amanhã nunca será a véspera de hoje.
E então, vejo-a. Desperto.
Os raios de sol brilhantes a baterem-lhe no cabelo. O fumo que se desprende do cigarro que, imagino, está a fumar, corre em espiral para o céu e desfaz-se antes de lá chegar. Ela está sentada na cerca que protege as pessoas da queda abrupta sobre o mar. As pessoas chegam-se ali, encostam-se à cerca de madeira e olham as ondas a baterem nas rochas. Olham o mar a forçar a entrada pela areia acima. Um pouco mais longe é possível ver a Praia do Norte. Em dias claros conseguem-se ver as Berlengas, os Farilhões e as Desertas.
Ela está sentada na cerca, virada para o mar. Coisa mais natural. Fuma um cigarro. Adivinho-lhe o cigarro entre os dedos da mão que leva à boca. O fumo dissipa-se logo acima do cabelo dela brilhante pelo sol. E penso A miúda é gira. E é. É bem gira. E ainda penso O que faz uma miúda gira como ela sozinha aqui, num sítio como este? Depois sorrio e penso O mesmo que eu. E dou uma gargalhada. Uma gargalhada tonta.
E, de repente, sinto uma vontade louca de sair do carro, dirigir-me a ela e convidá-la para beber uma cerveja na esplanada do Mad. E é o que faço. Saio do carro. E nesse mesmo momento, ela levanta-se da cerca. Eu chamo-a. Ela vira-se para mim. Eu aproximo-me. Encosto-me à cerca. Peço-lhe lume. Ela diz que tenho o cigarro acesso. E tenho. Tenho o cigarro a fumegar entre os dedos da mão. Sinto-me corar de vergonha. Ela sorri. Eu também. Encho o peito de ar. A alma de coragem. Convido-a para beber uma cerveja na esplanada do Mad. Ela pára de sorrir. Hesita. Olha para o penhasco. Olha para o mar ao fundo do penhasco. Olha para longe, para longe no mar, talvez para as Berlengas. Olha de novo para mim. Volta a sorrir. Aceita.
Eu estendo-lhe a mão para a ajudar a passar a cerca para o lado da cá onde eu estou. Ela agarra-me na mão. Sinto-lhe a palma da mão transpirada. Sinto-a nervosa. Ajudo-a a passar a cerca. Quando passa próximo de mim vejo umas gotas de suor a escorrerem pelas frontes. Cheiro-a. Cheiro-lhe o medo. Não de mim. Mas medo. Sinto-a com medo. Aperto-lhe a mão com segurança. Ela quase tomba ao passar uma das pernas por cima da cerca mas eu agarro-a. Estou aqui, afirmo sem falar.
Caminhamos em silêncio até à esplanada do Mad. Bebemos umas cervejas. Depois, e com ajuda do álcool, começamos a falar. A conversar. Na verdade ela fala. Eu ouço. E que prazer é ouvi-la. As conversas dela são música. E o tempo passa. E chega a noite. A esplanada fecha. Passamos para o interior. E o interior fecha. E saímos para a rua. O céu está estrelado. Não está frio. Apetece-me ir ao banho. Apetece-me ir nu a um banho nocturno no Vale Furado. Mas não digo nada. Não lhe revelo as minhas vontades. Ofereço-lhe boleia para Leiria. E ela aceita.
E depois… E depois é uma outra estória que não cabe aqui.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/06]

O Multiverso

Na verdade, a vida é como um naco de fiambre da perna, cortado em fatias muito fininhas. Cada escolha, cada acontecimento, leva a uma nova fatia. A vida não é uma vida, são várias mesmas vidas, mas outras. O universo não é um universo, mas vários universos. Tudo ao mesmo tempo, num mesmo plano de existência, como numa orgia, mas noutro espaço, noutro tempo, noutra dimensão. Numa outra qualquer coisa para a qual ainda não foi encontrada definição. Por isso não importa o que é que acontece aqui porque lá vai acontecer a alternativa. E nós somos sempre nós. Mas nós-outros com outras escolhas.
O que se passa é o seguinte: houve uma época em que queríamos duzentas gramas de fiambre em fatias fininhas e o supermercado colocava à nossa disposição embalagens de esferovite, envolvidas em plástico, com duzentas gramas de fiambre da pá previamente cortadas, mas cortadas em fatias muito grossas, tão grossas que nem pareciam fatias de fiambre mas bifes do cachaço. Então, íamos à senhoras da secção de charcutaria do supermercado para cortar duzentas gramas de fiambre da pá fininhas, daquelas que quase se desfazem mas que, para quem gosta de fiambre, consegue perceber que três ou quatro fatias muito fininhas num papo-seco, é muito diferente de ter uma só fatia muito grossa, e as senhoras diziam que não podia ser. Que tinham ordens. Que não se podia cortar como queríamos porque o fiambre esfarelava-se todo e estragava-se. E as ordens era para não fazerem as vontades às pessoas. Que tinham de se habituar a que quem mandava na tenda era o tendeiro, ou seja, eles, aqueles que nunca estão presentes atrás de um balcão nem do outro lado de uma linha de telefone para fazermos uma reclamação. Merdas do capitalismo. As caras estão sempre escondidas atrás de números. Mas as pessoas tanto refilaram, tanto contestaram, que os supermercados voltaram a permitir que as pessoas dissessem como queriam ver cortadas as fatias do fiambre da pá, mesmo se na vitrina do frio houvesse pilhas várias de vários tipos de fiambre, da perna, da pá, de peru, tipo York, em vários tamanhos, mas todos os tamanhos em grosso.
Ora, para que se perceba a questão da realidade multiplicada infinitamente no mesmo plano de existência, as fatias têm de ser finíssimas, e não grossas, para que percebamos o funcionamento deste conjunto de vários universos. O capitalismo queria, assim, esconder da população geral o facto de vivermos num multi-universo que se multiplica constante e infinitamente.
Vejamos, um papo-seco fresco, comprado na padaria com fabrico próprio de forno a lenha (esta padaria também faz pizzas no forno a lenha e são muito boas, posso passar o número de telefone). Com uma faca de serrilha abrimos o pão ao meio e colocamo-lo em cima de uma tábua para não deixarmos cair migalhas para o chão. Agora vamos fazer um sandes de fiambre. E para simplificar, não vamos barrar manteiga na metade de baixo do papo-seco. Cada vez que fazemos uma escolha, cortamos uma fatia de fiambre. Por exemplo, uma mulher bonita, sensual, pergunta-me se eu quero ir para a cama com ela. A minha resposta imediata é sim. Mas a hipótese negativa não é descartada. O que é que acontece? Corto uma fatia de fiambre e cria-se um novo universo onde eu escolhi não ir para a cama com essa mulher (como se tal fosse possível, mas é, é sempre possível porque todas as escolhas que fazemos abrem caminho às outras opções descartadas por nós aqui, mas aceites por nós mesmos, mas outros, nos outros universos alternativos.
Outro exemplo, preciso de ir de Leiria a Lisboa para tratar de assuntos. Não importa que assuntos. É só a abertura de uma hipótese para explicar a acção. Escolho ir de carro. Mas corto uma fatia de fiambre com a possibilidade de ir de camioneta. Corto outra fatia com a possibilidade de ir de comboio. Mais outra fatia pela possibilidade de ir de motorizada. Ou de bicicleta. Ou até de skate. Ou ainda a pé. Bom, mas aqui também estava dependente do tempo que tinha disponível para chegar a Lisboa. Se tivesse que chegar em poucas horas, teria de deixar de lado as hipóteses de ir a pé, de skate, de bicicleta e até de comboio porque a Linha do Oeste demora cinco horas a ir de Leiria a Lisboa. Ao mesmo tempo, ao optar por ir de carro, escolhia ir pela A1. Mas abria outro universo para ir pela A8 e ainda outro para ir pela EN1. Só aqui, nesta escolha para ir de Leiria a Lisboa, tinha cortado oito fatias de fiambre. Oito novos universos onde as minhas escolhas iriam influenciar o caminho desses mesmos universos. Agora, comer um papo-seco de fiambre com oito fatias fininhas é muito melhor que comer um papo-seco com oito fatias grossas.
E estas são só as minhas escolhas num acontecimento único. Quantos universos alternativos existirão com todas as minhas escolhas e as escolhas dos biliões de pessoas que existem neste universo? Quantos papo-secos de fiambre é que dará? Quantos universos é que, afinal, existirão no multiverso? É um número infinito. E o infinito não é contabilizado porque não existe. E, no entanto, existe. Existe para além da nossa imaginação.
É por isso que não importa as escolhas que fazemos aqui, aqui neste universo. Estamos sempre a viver outras escolhas noutros universos iguais a este, mas diferentes. E nós somos nós, mas outros. Por isso, escolher uma coisa ou outra, todas elas acabam por ter existência.
E foi aqui que ela se levantou e foi embora.
Mais uma vez acabei a noite sozinho. Acabei com o copo de vinho que tinha na mão e saí do bar. Na rua acendi um cigarro. Olhei para a lua que estava pendurada lá em cima no firmamento e perguntei E eu? Qual dos eus é que eu sou? Eu sou o mais parvo, não é? e começou a chover. A chuva acabou-me com o cigarro. Encharcou-me. Cheguei a casa, despi-me, sequei-me com o secador e a toalha de banho e fui deitar-me. Sozinho. Mas ainda tive tempo para pensar que, algures, num outro universo deste enorme multiverso, eu estava a dormir com uma mulher lindíssima que me amava. E adormeci com um sorriso nos lábios. Pelo menos foi assim que imaginei enquanto comia, ao pequeno-almoço, um papo-seco com fiambre em fatias cortadas muito fininhas.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/19]

Uma Vez à Varanda da Sede da União Desportiva de Leiria

Era miúdo. Andava a brincar nas salas escuras e cheias de tralha, a subir e a descer as escadas de madeira entre os diferentes andares daquele antigo palacete que servia de Sede à União Desportiva de Leiria. Andava a brincar com outros miúdos, pequenos como eu. Os meus pais estavam na Sede. Numa daquelas inúmeras salas. Jogavam Bingo. Ou cartas. Bebiam café no bar. Uma cerveja. Liam as páginas enormes do jornal A Bola, que naquela altura saía três vezes por semana. Ou discutiam a semana desportiva da equipa de Leiria que militava na Segunda Divisão, anos antes de sonharem em subir à Primeira e poderem jogar contra o Benfica e o Sporting.
Era miúdo e andava a cirandar por entre as salas escuras, fechadas, que nós abríamos, e revirávamos tudo, fascinados com as tralhas que se acumulavam naqueles cantos, como um enorme sótão em casa dos avós que não tínhamos. Nem eu nem os outros. Naquela altura os velhos morriam antes de serem velhos e só raramente se conheciam os avós. Eu só conheci uma avó e ela morava em nossa casa e não tinha sótão para me deixar perder.
Mas ali estava eu. Perdido numa sala na semi-obscuridade, uma luz suave passava entre as portadas de madeira mal fechadas. Estava sozinho. Os outros andavam por lá, noutras salas. Ali havia vários caixotes abertos. Bandeiras. Várias bolas de cautchú muito velhas, já sem cor e vazias. Taças. Todo o tipo de taças. Copos de vidro. Pequenos. Grandes. Um vaso com flores de plástico. Pilhas de jornais A Bola velhos, com as páginas amareladas. Muito pó em todo o lado. Muito pó a voar nos raios de sol que entravam pela janela. Circulava por entre os caixotes cheios de pó. Punha um dedo e fazia um risco. Espirrei. Ouvi vozes. Parei e pus-me à escuta. Alguém falava muito alto. Mais que uma voz. Vinha da rua. Vozes zangadas.
Abri a porta da varanda. Saí. Senti o calor da rua a bater-me na cara quando o sol me atingiu em cheio. A claridade obrigou-me a fechar os olhos. Fui abrindo-os aos poucos. Devagarinho. As vozes mantinham-se lá. Eram vozes alteradas. Vozes de gente alterada. Vozes muito irritadas. Abri os olhos. Cheguei-me às grades da varanda. Agarrei-me às grades e olhei lá para baixo. Olhei para a rua.
Um homem, velho, com uma bengala na mão, ameaçava um outro homem, mais novo, brandindo a bengala no ar enquanto o outro gritava que o ia matar. A ele e à cadela da filha dele. Dou cabo de ti, cadela. De ti e desse velho. Eu mato-te, velho. E uma mulher, nova como o outro homem, tentava agarrar o velho. Impedi-lo de bater com a bengala no outro homem. Acho que a mulher estava a chorar. O homem novo tinha a camisa rasgada. A mulher estava com o cabelo desgrenhado e as meias de vidro rasgadas. O velho continuava de braço em riste a agitar a bengala. Eu agarrei-me com mais força às grades da varanda. E continuei a olhar. O homem mais novo abriu a camisa de rompante. Atirou com os botões fora. Esticou o peito para a frente. Começou a bater no peito enquanto crescia para o velho. Parecia o Tarzan. O cabelo comprido a cair-lhe pescoço atrás, até aos ombros. A mulher chegou-se à frente, colocou-se entre os dois e o homem novo bateu-lhe. Bateu-lhe com força. Deu-lhe um estalo com tanta força que a mulher cambaleou e caiu no chão. O velho carregou com a bengala sobre o homem novo que tropeçou e caiu. O velho, então, bateu com a bengala no homem novo caído até partir a bengala.
Eu estava assustado. Via-se algum sangue no chão da rua. Na estrada. Não passava nenhum carro. O velho, com um bocado da bengala na mão, baixou-se perto da mulher e gritou Filha! Filha! O homem novo conseguiu rastejar dali para fora, até ao passeio, e levantou-se. Olhou para o velho. Olhou para a mulher. Olhou em volta. Olhou em volta até o olhar parar em algo que lhe chamou a atenção. Era uma panela de escape de automóvel que estava abandonada junto ao muro que fazia o passeio até ao cruzamento lá mais à frente. Estava ali caída. O homem agarrou na panela, aproximou-se do velho, levantou a panela de escape acima da cabeça como se procurasse uma força divina e descarregou-a sobre a cabeça do velho debruçado sobre a mulher.
Ouvi um barulho seco. Pof. Acho que vi sangue a ser projectado em frente. O velho caiu sobre a mulher. Ouvi os gritos da mulher. Os gritos assustados da mulher. Vi o homem novo parado sobre o velho, com a panela de escape nas mãos sem saber o que fazer. Olhou de novo em volta. O olhar dele cruzou-se com o meu. Não sei se ele me viu, mas os nossos olhares cruzaram-se. O homem novo largou a panela de escape no chão, ao lado do velho caído sobre a mulher que não parava de gritar, histérica, passou a mão pelos cabelos, limpou as mãos com sangue ao que restava da camisa e foi-se embora. Foi-se embora a correr. Desapareceu.
Quando as primeiras pessoas apareceram na rua, o homem novo já não estava lá. O velho estava tombado sobre a rapariga que continuava a gritar. Vi os meus pais lá em baixo na rua. A minha mãe levou a mão à cara e vi-a vomitar. O meu pai amparou-a e voltaram a entrar na Sede da União Desportiva de Leiria.
Eu resolvi também entrar dentro da casa. E foi então que vi que tinha os dedos das mãos a fazer tanta força nas grades da varanda que tinha feito sangue nos dedos. Não me doía. Mas foi difícil abrir os dedos fechados sobre as grades. Quando finalmente consegui, entrei na sala, fechei a janela e desci as escadas à procura dos meus pais.
Uns anos mais tarde a União de Leiria subia, finalmente, à Primeira Divisão e eu pude ver os jogos com o Benfica e o Sporting ao vivo. A Sede do clube mudou para outro lado e eu, e os outros miúdos, deixámos de ter salas para andar a brincar.
Não sei o que aconteceu ao homem novo e à mulher. O velho, acho que morreu. Pelo menos foi o que percebi numa conversa que ouvi entre os meus pais. Depois, muitos anos ainda mais tarde, a União de Leiria também quase que desapareceu. Como o homem novo que agora já deve ser bem velho. Mais velho que o outro, quando ele o matou.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/18]

Duas Histórias numa História

I
Saio de casa sem grande convicção. Preciso de comprar o livro, mas o ter de ir ao centro comercial destrói-me a vontade. Ainda para mais agora. Nesta altura. Nesta altura do ano. Nesta altura do ano onde anda toda a gente histérica a comprar. A comprar coisas. Não importa o quê. Coisas. Ontem ouvi alguém falar que ia a uma loja de chineses com vinte euros e comprava vinte prendas e tinha o Natal resolvido. E eu perguntei-me Porquê? Porque raio há-de gastar-se dinheiro em lixo? Em porcarias de plástico de baixo valor que acabam por ser estupidamente caras porque não servem para nada, ninguém quer saber delas, são lixo e vão directamente para o canto da tralha a que não se liga mais?
Chego ao centro comercial. Quer dizer, ainda não cheguei lá, mas já o avisto. Está lá em cima, ao fundo. No fim desta enorme fila onde estou preso. Pára-arranca. O motor a trabalhar e o carro parado. Ando um metro de cada vez e queimo não-sei-quantas octanas. Leiria está toda a caminho do centro comercial. A cidade às moscas.
Finalmente entro no parque de estacionamento exterior. Eu e todos os outros que vão comigo, à minha frente e atrás de mim. Estamos à procura de milagre? Se esta gente toda aí à frente não encontra um lugar, pequenino, insignificante, esquecido por aí, como é que o vou encontrar eu?
Guino, rápido, sem pensar, para a esquerda. Entro num caminho secundário. Para tentar algo de diferente. Nada. Nada de nada. Não há nada de diferente nos trajectos diferentes. Vou tentar dar uma volta. Vou andar à sorte. Pode ser que me caia em cima. Como um Toto-Loto.
Nada.
Ao fim de duas voltas ao parque de estacionamento, atrás de outras pessoas como eu, à procura de um lugar salvífico para parar, sem o conseguir, que raio faço aqui?
Desisto.
O Natal não é para mim. Que se lixe o centro comercial, o livro e o Natal.
Sigo em frente para contornar o centro comercial por trás e por fora. Quero sair daqui. Quero sair daqui já. Estou cansado.
E então vejo-o. Parado à minha frente. A olhar para mim. Auscultadores nos ouvidos. Cigarro na boca. Óculos à frente dos olhos, mas sei que está a olhar para mim. Aparece-me do nada. Ele está na passadeira para os peões. Na passadeira e no meio da estrada. Da minha estrada. Na mesma passadeira que eu estou a cruzar. Não o vi chegar. Vejo-o agora. Vejo-o ali. À minha frente. E sei que lhe vou bater. Merda! Vou-lhe bater porque isto está a acontecer muito depressa e eu é que o estou a atrasar na minha cabeça para o poder compreender e processar. E o que compreendo é que ele estava a atravessar a passadeira e eu não o vi a chegar, deve ter passado pelo ângulo morto do carro, não o vi, vejo-o agora e sei que vou bater-lhe em cheio, não vou muito depressa mas o suficiente para o partir ao meio se lhe acertar no sítio certo. Ou no sítio errado. Que merda! Que merda, pá!…

II
É melhor que nada, estas horas. Melhor que estar em casa sem fazer nada à espera de fazer alguma coisa que nunca faço. Mas são muitas horas seguidas. Para receber o que recebo. Estou cansado.
Mas gosto desta hora de pausa quando não chove. Saio do centro comercial. Venho à rua. Como qualquer coisa que trago de casa. Tenho de poupar. Não posso estar a gastar o que estou a ganhar.
Tiro a t-shirt da loja. Visto a minha camisola. Um casaco, que lá fora na rua está frio. Ponho os auscultadores e dou uma volta aqui ao pé, pelo parque de estacionamento, e fumo um cigarro. Ou dois. E ouço música que não aquelas porras dos Wham! e da Mariah Carey que já não suporto.
Hoje trouxe um pão com mortadela. O pão é de ontem porque não consigo comprar pão fresco antes de entrar ao serviço. Mas sou burro, não sou? Posso ir, num instante, ao supermercado comprar um pão. Trazia a mortadela de casa e fazia a sandes com pão fresco. Mas deve estar muita gente para pagar nas caixas do supermercado. Pois, é possível que esteja. Afinal é Natal. Anda tudo doido por aí a comprar coisas, coisas e mais coisas.
Como o pão aqui à saída. Não está mau. Nem muito duro, afinal. E estava a precisar de mastigar qualquer coisa.
Tanto carro aí fora! Porra! A cidade veio toda ao centro comercial. Como dizia a minha mãe Pariu a galega!
Já acabei o pão. Bebia um café. Bebo depois quando voltar para dentro. É melhor pôr os óculos. Vou fumar um cigarro. Vou dar uma volta pelo parque de estacionamento e fumar um cigarro. E pode ser que encontre uma nota de vinte caída aí entre dois carros. Querias! Pois queria! Que estupidez de conversa. Acendo o cigarro. Dou umas fortes passas e sinto a cabeça um pouco tonta da nicotina. Sabe bem.
Olha aquele carro! Aquele carro que vem aí! Não pára? Estou na passadeira, pá! Não está a ver-me. Que raio, pá. O carro vai bater-me, já percebi. O carro vai bater-me. Merda! Vou partir as pernas. A cabeça. Vou estragar o casaco. Vou perder os auscultadores e o iPod. E o cigarro está na boca. Espero não engoli-lo. E como é que consigo pensar nestas merdas todas enquanto vejo o carro a vir para cima de mim sem conseguir fugir?
Aí está ele. Foda-se! E a minha mãe? Onde está a minha mãe? Mãe, ajuda-me! por favor, se fazes favor, tenho medo, mãe, mãe, mãe!…

[escrito directamente no facebook em 2019/12/09]