O Homem nas Escadas

São oito da manhã. Estou à janela da cozinha. Bebo o café acabado de fazer. Lá dentro, no quarto, ela continua deitada. Não está grande coisa. Sem vontade de se levantar da cama. Sem vontade de sair de casa. Sem vontade de nada. Eu deixo-a estar. Deixo-a descansar. Mais tarde ligarei para o escritório a dar conta da sua ausência. À noite trago um risotto de cogumelos. Talvez a anime.
O carro da polícia passa devagar lá em baixo, no largo. Ontem à noite não apareceram. Os miúdos andaram a fazer barulho até às tantas. Se calhar também foi isso que a deixou assim. Não descansou. Ficou nervosa.
Deito o resto do café no lava-louça.
Passo na casa-de-banho e lavo os dentes. Olho-me ao espelho. Estou a ficar velho. Estes últimos meses foram terríveis. Envelheci rapidamente. Foi de um momento para o outro. Tenho muito pêlos brancos na barba. Umas grandes olheiras que fazem a cara tombar e ficar macilenta. Umas peles descaídas no pescoço. E uma grande dificuldade em focar a minha imagem no espelho. Preciso de novos óculos.
Agarro do casaco e na mochila e saio de casa. Chamo o elevador. A luz de chamada começa a piscar. Está avariado. Gaita! Os dois.
Percorro o corredor até à porta das escadas. Entro naquele buraco onde raramente entrei. Está frio. Visto o casaco. Começo a descer. Os meus passos ecoam pelas escadas. Acho que até os meus pensamentos fazem ricochete nestas paredes frias. Olá! Olá! OLÁ!
Não. O eco dos meus pensamentos afinal é só na minha cabeça.
Vou a meio das escadas e vejo uma garrafa de água de Luso. Litro e meio. Já encetada. Uma caixa de pizza. Abro-a. Tem duas fatias. Frias. Ao canto, um saco-cama enrolado. Que é isto? Alguém anda a dormir aqui nas escadas.
Deixo tudo como estava. Desço o resto das escadas. Vou trabalhar.
Trabalho.
Almoço.
Trabalho.
Tenho uma discussão com um colega de trabalho. Eu tenho razão na discussão. O que eu defendo prevalece. O meu colega fica chateado. Ele que se foda!
Trabalho.
Restaurante take-away. Compro um risotto de cogumelos. Para duas pessoas.
Casa.
Eu janto.
Ela continua na cama. Agora não fala comigo. Acho que não fiz qualquer coisa que devia ter feito. Ou era ter dito? Já não sei.
Continuo a beber o vinho que comecei a beber no meu jantar solitário.
Sento-me frente à televisão. Faço horas. Faço horas para ir as escadas ver quem é que está lá a dormir.
Uma da manhã. Começa o noticiário da hora certa na SIC Notícias.
Levanto-me do sofá. Calço umas sapatilhas. Visto uma camisola. Saio de casa. Percorro o corredor até à porta das escadas. Abro sem fazer barulho. Desço as escadas em silêncio. Nem eu me ouço. Está tudo às escuras. Sigo agarrado ao corrimão. Cheira-me a frango assado. Ao chegar a meio das escadas noto uma luz muito ténue. Alguém está nas escadas. Alguém está nas escadas a comer frango assado. Ouço o mastigar. Aproximo-me. Devagar. A luz ténue agora é um bocadinho mais presente. E vejo que está alguém sentado num degrau das escadas. Sentado em cima do saco-cama. É um homem. É o meu vizinho de baixo. Que raio está aqui a fazer?
Chamo-o. Chamo por ele. Chamo pelo nome dele. Não muito alto para não o assustar. Mas não o impede de dar um salto. Assustei-o na mesma. Ele aponta a luz ténue de uma lanterna pequena de dínamo para mim. Reconhece-me. Diz o meu nome. Diz o meu nome com um ponto de exclamação no final. Pensa O que é que estás aqui a fazer? Penso O que é que estás aqui a fazer? Ambos pensamos o mesmo. Mas eu é que preciso de uma resposta. Agora pergunto sonoramente O que é que estás aqui a fazer?
Ele olha para mim. Se fosse mais novo, uma criança, mesmo um adolescente, diria que estava a fazer beicinho. Mas ele não. Ele não estaria a fazer beicinho. Ele está prestes a chorar. Ele sente-se apanhado no seu segredo. Mas faz um esforço para segurar as lágrimas. E diz Olá! Estás bom? Como se nos tivéssemos encontrado no elevador a caminho de uma festa.
O que é que se passa? pergunto.
Ele fica a olhar para mim em silêncio. À procura de um começo. Tipo Era uma vez… Mas aquela não era uma história dessas. Ele suspira. Tem uma garrafa de vinho tinto ao lado. Agarra nela e passa-ma para as mãos. Eu sento-me num degrau acima dele e bebo um gole de vinho.
E ele começa A minha mulher chateou-se comigo. Perdi o emprego. Perdi o emprego e ela chateou-se comigo. Saí de casa. Ela pôs-me fora de casa. Não sei para onde ir. Não tenho dinheiro para um hotel. Pedir aos amigos… nem falar! Não quero ter de dar explicações a ninguém. Estas que te estou a dar a ti. Não quero falar disto a ninguém. Tenho evitado toda a gente. Durmo aqui. Como aqui. Durante o dia vou para a rua. Vou para zonas da cidade onde não espero encontrar gente conhecida. Passeio pelas ruas. Sento-me nos bancos de jardim. Espero que o tempo passe. Espero que o tempo passe e tudo regresse. Espero que ela me chame de volta para casa. Espero que me telefonem para um trabalho. Espero que volte a ter um salário. Espero que possa voltar a tomar um duche de água quente. Espero voltar a dormir numa cama com colchão e um tecto por cima da cabeça…
Eu ouço. Não sei o que lhe dizer. Não posso levá-lo para casa. Não com ela assim. Não no estado em que ela está.
Agarro na garrafa de vinho e bebo mais um gole. Um gole bastante grande. Quero ficar entorpecido.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/15]

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