Ao Sábado Chegava o Citroën 2CV com Peixe Fresco

Sempre que ouvia a buzina da carrinha, sabia que era Sábado e que ia almoçar peixe.
Naquele tempo ainda não havia frigoríficos. Quer dizer, haver havia, lá é que ainda não. As pessoas preservavam algumas coisas no gelo ou no fundo dos poços, em cestos pendurados por cordas que puxavam quando queriam alguma coisa do cesto. Mas nem toda a gente tinha poços. E pouca gente podia pagar o gelo.
Lá em casa a carne era salgada e colocada nas salgadeiras. O fumeiro ficava pendurado por cima da lareira. O peixe, com excepção de algum carapau seco que durava algumas semanas lá por casa, tinha dia fixo e era ao Sábado, dia em que a carrinha Citroën 2CV dava a volta pela zona e chegava à praça onde aguardava as mulheres que vinham comprar o que houvesse. E o que havia nunca era muito variado. Mas essa talvez fosse a percepção de um miúdo que até não gostava muito de peixe mas tinha de o comer porque a mãe o obrigava. Me obrigava. Eu era o miúdo.
Eu estava por casa. Aos pontapés na bola. Ou a brincar com o Tejo, o pequeno rafeiro que tomava conta do quintal e comia os restos que ninguém queria. Ouvia a buzina a anunciar a chegada da carrinha. Às vezes ficava mal humorado ao pensar que teria de almoçar peixe. Às vezes ficava contente porque a minha mãe levava-me com ela e a senhora da carrinha era simpática comigo e, juntamente com os carapaus que vendia à minha mãe, dava-me sempre um rebuçado. Às vezes uma pastilha. Foi numa dessas pastilhas que ganhei o meu primeiro cromo de futebol. Um jogador do Benfica, claro. Acho que o Vitor Baptista. Esse cromo acompanhou-me a vida toda. Depois perdi-o numa das minhas inúmeras mudanças de casa.
Com o peixe numa cesta, regressávamos a casa. Eu acabava quase sempre por regressar sozinho porque a minha mãe estava sempre a parar para falar com as amigas dela. Porta sim, porta não. Conversas à janela. Nas esquinas das ruas. No adro da igreja. À porta do café.
Eu regressava a casa e sentava-me na mesa da cozinha a ler uma banda-desenhada da biblioteca móvel. Às vezes lia esses livros duas, três, quatro, cinco vezes, ou até mais, dependia do tempo que a carrinha-biblioteca demorava a passar.
A minha mãe finalmente chegava. Amanhava o peixe. Fazia as brasas. E assava-o. O meu pai chegava sempre a tempo de abrir uma garrafa de vinho, servir dois copos, sentar-se à mesa e começar a comer.
O meu pai passava a semana fora. A viajar pelo país fora. Vendia coisas. Às vezes também trazia coisas. Coisas que eu nunca tinha visto. Uma vez apareceu lá em casa com uma caixa de aguarelas. Dei cabo delas rapidamente. E toda a gente percebeu que não tinha jeito para pintar. E não tenho. Ao fim-de-semana o meu pai aproveitava para tratar de uma pequena horta no quintal lá de casa. Era a sua horta. Fazia tudo sozinho. Não era muito grande, a horta. Mas, na altura, aquilo parecia-me uma selva. Brinquei lá muito ao Jim das Selvas. A minha mãe ia lá buscar as verduras que me obrigava a comer.
Sentados à mesa, o meu pai e a minha mãe comiam o peixe assado com umas batatas e umas couves cozidas. Eu comia as batatas temperadas com azeite. O peixe, andava lá com o garfo a remexer, a fingir que comia sem o levar à boca, a dizer que já estava cheio, não conseguia comer mais, e o meu pai, invariavelmente, a dizer-me que não saía da mesa sem comer o peixe todo. E tinha de comer. Mas às vezes demorava muito tempo.
Quando o meu pai apareceu lá em casa com uma televisão, foi muito mais fácil mandar-me comer o peixe ao Sábado. Sem o peixe comido não havia televisão nem desenhos-animados. E, nesta altura, já estava agarrado aos desenhos-animados.
Ainda hoje, quando ouço um buzina assim mais aguda, penso na carrinha Citroën 2CV e no peixe que a minha mãe assava. Mas agora gosto bastante de peixe.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/17]

Fumar um Charro Enquanto Tomo Banho

Cheguei tarde a casa. Cheguei cansado. As palestras exigem muito de mim. Desgastam-me. Quando chego ao fim de uma apresentação sinto-me vazio.
Entrei em casa. Ela estava sentada no sofá. A televisão estava desligada. O que raio é que fazia sentada no sofá com a televisão desligada? Nem um livro aberto sobre os joelhos. A lareira estava acesa. À frente, na mesa de apoio, um copo com qualquer coisa. Talvez whiskey.
Passei por trás dela. Baixei-me e beijei-a na cabeça. Fiz-lhe uma festa nos cabelos. Uma festa suave com a mão que fui deixando para trás enquanto me afastava. Vou tomar banho, disse-lhe. Ela acenou com a cabeça.
Entrei na casa-de-banho. Abri a janela. Senti o ar gelado da cidade entrar e agarrar-se ao meu corpo. Despertou-me um pouco. Gosto de sentir frio quando vou entrar no duche quente. Despi-me. Entrei na banheira e liguei o chuveiro. Deixei-me estar ali por momentos, sem me lavar, só a sentir-me fustigado pelos jactos de água quente que saíam disparados pelos buracos do chuveiro.
Ela entrou na casa-de-banho. Estranhei. Ela nunca entrava na casa-de-banho quando eu lá estava. Ela não gostava que eu entrasse na casa-de-banho quando ela lá estava. Muito menos se estava no duche. E nunca se virava de costas. Dizia que não queria que eu lhe olhasse para o rabo. E tapava-se com as mãos. Tapava tudo aquilo de que sentia vergonha. Eu ria-me e dizia-lhe que gostava dela, do corpo dela e que gostava de a olhar, mas ela gritava, gritava comigo, gritava-me e mandava-me sair. No início chegou à histeria. Berrava-me. Estava algum tempo zangada comigo e não me falava durante alguns dias. Depois, com o passar do tempo, lá passou a acalmar. Mas nunca gostou que eu a visitasse na casa-de-banho. Coisa que eu gostava de fazer. E nunca deixei de o fazer.
Estranhei vê-la entrar pela casa-de-banho.
Eu estava debaixo do chuveiro a absorver o calor da água quente. Ela baixou a tampa da sanita e sentou-se lá em cima. Cruzou as pernas. Eu pus champô no cabelo. Esfreguei. Ela começou a fazer um charro. Outra novidade. Normalmente era eu que os fazia. Ela só fumava. Mas ali estava ela, na casa-de-banho, sentada na tampa da sanita, a fazer um charro. Eu ensaboei o corpo. Tinha um sabonete Patti. Gosto do cheiro deste sabonete. Ela acendeu o charro. Eu comecei a tirar o champô do cabelo e, de seguida, também o sabonete do corpo. Ela estava a fumar o charro. Levantou-se e chegou o charro à minha boca. Eu dei uma passa. Ela voltou a sentar-se no tampo da sanita com o charro nos dedos. Eu desliguei o chuveiro. Peguei na toalha e comecei a limpar-me.
E, então, ela disse Vou-me embora. E eu pensei que estava cansado mas estava disposto a ir com ela e disse-lhe Espera um pouco que vou contigo, fosse lá para onde é que ela ia. E ela insistiu Vou-me embora. Eu já estava seco, larguei a toalha sobre o lavatório e voltei a dizer-lhe Também vou. São cinco minutos. Mas ela levantou-se, deu uma passa no charro e depois colocou-o na minha boca. Eu puxei uma passa. Ela saiu da casa-de-banho e deixou a porta aberta. Estava a puxar uma segunda passa no charro quando ouvi a porta da rua a abrir e a voltar a fechar-se.
Olhei para o espelho mas estava embaciado e não me vi lá reflectido. Puxei mais uma passa. E reparei que a escova dos dentes dela não estava no copo das escovas de dentes.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/07]

O que o Gato Pensa de Mim

Hoje já acendi a lareira. Está frio. Já sinto frio.
Estou à janela de casaco de malha vestido. Fumo um cigarro e olho lá para fora. Vejo as chaminés da fábrica lá ao fundo. As chaminés deitam um fumo branco. Não sei o que é que aquela fábrica produz. Já lá passei tantas vezes e nunca lá vi muito movimento. Mas a fábrica está quase sempre a laborar. Deve ser automatizada. Não sei o que produz.
Está a chover, lá fora.
Há alguma neblina. Não consigo ver os cumes das montanhas lá à frente, depois da fábrica.
Um dos gatos vem para junto de mim. Roça-se nas pernas num movimento infinito a fazer oitos entre uma perna e outra. Depois dá um pulo e vem para o parapeito da janela. Fica ali a olhar para mim. Como se estivesse à espera que eu lhe dissesse alguma coisa. O que é que queres, gato? Mas o gato não quer nada. Vira-se para a rua e fica ali, como eu, a olhar a chuva a cair e à procura das montanhas escondidas entre a neblina que se instalou lá ao fundo.
Ouço o barulho da lenha a crepitar na lareira. Viro-me para trás. Gosto de ver as chamas a queimar.
Penso na semana que passou. O mundo todo condensado em meia-dúzia de linhas. Trump a caminho da destituição. A criança encontrada no caixote do lixo. A casa oferecida ao sem-tecto que encontrou a criança. A condenação generalizada da jovem mãe que deixou a criança no caixote do lixo. A derrota, mais uma, do Benfica na Liga dos Campeões. A libertação de Lula no Brasil. O silêncio ensurdecedor de Bolsonaro. A troca de palavras azedas entre Joacine e Daniel Oliveira. O Sérgio Conceição que se está a cagar. Assim, com estas letras todas Estou-me a cagar! Diz ele em directo e em conferência de imprensa. O mundo está doente. Eu também estou a cagar para muitas destas coisas. Mas eu estou aqui em casa e ninguém me paga para fazer outras coisas que não seja dizer que se está a cagar.
Viro-me de novo para a rua. O gato continua sentado no mesmo sítio a olhar a chuva lá fora. Agora chove mais. E com mais força. Agora não vejo as chaminés da fábrica. A chuva é muita. Mas vejo uma luz vermelha a piscar. A avisar que existe altura. Que as chaminés estão lá. Mesmo que eu não as veja.
Penso que vivemos tempos muito peculiares. Mas penso logo de seguida que sempre foi assim. Os tempos são sempre muito peculiares. Difíceis. Complicados. Mas é sempre assim. Todo o tempo. Nós é que tendemos a achar que é no agora que as coisas se complicam. Às vezes é.
O cão está lá fora à chuva a olhar para mim. Para mim e para o gato. Deve querer entrar. Mas agora está molhado. Chamei-o antes da chuva começar a cair. Para vir para dentro de casa. Os gatos vieram. Ele preferiu andar a laurear-a-pevide. Se calhar com alguma cadela da vizinhança distante. É um cabrão, este cão. Agora não te abro a porta, digo-lhe através do vidro duplo da janela. Ele não ouve o que digo. Mas percebe. Ele percebe que está molhado e não o vou deixar entrar. Não tarda vai deitar-se no chão, à chuva, a rebolar, de olhos tristes, para me fazer condoer. Mas eu não vou cair nessas brincadeiras emotivas, estás a ouvir, cão?
Viro-lhe as costas. Volto a olhar a lareira. Lanço para lá o resto do cigarro. E digo para mim, Vou abrir-lhe a porta. Ele vai querer vir deitar-se junto à lareira. E olho de relance o gato e percebo que me está a chamar Conas! Sim, eu sei o que é que o gato pensa de mim. Aquele gato em especial.
Continua a chover.
E já faz frio.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/09]

Lavar a Louça É Terapêutico

E o tipo, com um olhar muito sério, disse-me Só é grave quando começas a ver aranhas. Aranhas a sair dos buracos inexistentes da parede. Andas a ver aranhas? perguntou-me, e eu abanei a cabeça. Então caga nisso, disse Anda daí.
Estávamos na véspera da véspera do ano novo. Eu e um grupo de amigos tínhamos alugado uma casa em Vila Nova de Milfontes. Fomos uns dias antes. Para ir fazendo a despedida do ano. E eu já estava zangado com toda a gente, com o ano velho e com aquele que ainda não tinha chegado.
Naquela época eu zangava-me com muita facilidade. Era um rapaz muito sensível. Qualquer coisa, por mínima que fosse, mexia-me com os nervos.
Talvez por não fazer sexo. Naquela época não conseguia arranjar namoradas com facilidade. Eu era um tipo complicado. Muito chato. Picuinhas. Às vezes, até, um pouco arrogante. As namoradas não passavam dos primeiros dois ou três dias, de umas mãos dadas transpiradas e uns beijos sôfregos sem consequências. Talvez por não saber o que fazer da minha vida. Estava tentado a desistir do curso superior que frequentava mas também não sabia muito bem para onde ir. Muitos problemas. Muitas dúvidas. Muito vinho. Muita droga. Porra! que a vida juntou-se toda só para me chatear. Basicamente era assim, a minha vida. De problema em problema. E depois de explodir, depois de mandar toda a gente à merda, ficava sozinho. Curtia a minha depressão. A minha ressaca da zanga. Normalmente dava-me para lavar a loiça. E foi o que fiz depois da terrível discussão em Vila Nova de Milfontes sobre qualquer coisa de muito importante mas que já não me recordo hoje, passados todos estes anos.
Então, era véspera da véspera. Tínhamos acabado de almoçar. Saíram todos de casa, em grupo, e eu odeio grupos!, para irem beber café à rua. Eu fiquei em casa. Eu e a minha neura. Pus-me a lavar a loiça. A loiça de almoço de, quê? cerca de vinte pessoas? Talvez isso. Mais uma, menos uma. Durou uma hora. Ali, em pé, curvado sobre o lavatório da cozinha, de esponja na mão, embalagem de detergente a esguichar em abundância. Fazia muita espuma. Queria sentir a gordura a desaparecer dos pratos, das minhas mãos. Queria ver os copos brilhantes, sem dedadas nem lábios de batom ou de comida.
Quando acabei, doíam-me as costas e tinha os dedos enrugados.
Sentei-me no sofá a olhar para a televisão. Um programa de merda qualquer daqueles para matar horas e entreter os velhos. Um copo de vinho nas mãos. Um cigarro aceso. A neura estava a ir embora. Estar ali a esfregar pratos e talheres e copos e despejar os restos no caixote do lixo e apanhar todas as garrafas vazias de vidro de cerveja e de vinho espalhadas pela casa, tinha-me acalmado.
Depois de fumar o cigarro e beber o copo de vinho, fui à rua levar o lixo. Os caixotes já estavam cheios. Mandei tudo para cima do monte que já se erguia acima da boca do caixote. Pensei quando é que o lixo ia começar a cair para o chão. Vi que já havia muita gente da cidade em Milfontes. Os cabrões! E regressei a casa. Curtir a casa silenciosa e calma antes do regresso dos outros todos, a pensar que Vila Nova de Milfontes já estava a ser inundada de gentinha chata vinda da capital. Gente assim como eu, não é?
Acendi a lareira. Continuei a beber a garrafa de vinho tinto. Entre o calor da lareira e o embalo do vinho, deixei-me adormecer.
Fui acordado com a chegada dos outros. Disseram-me, aos gritos, que íamos fazer uma prova de vinhos cega, com os rótulos tapados. E eu, acordado assim de chofre, aos berros, por gente muito feliz e histérica, a correr de um lado para o outro para preparar a mesa disse Vão para o caralho! Eu não jogo!
Um deles sentou-se ao meu lado, no sofá, e perguntou-me Porquê, pá? e eu respondi Já bebi uma garrafa inteira, sozinho, porque estava sozinho, não estava aqui ninguém, foi-se tudo embora e eu bebi a garrafa sozinho e estou bêbado.
Ele riu-se, o filho-da-puta, e disse Estás bêbado, mas ainda não estás muito bêbado. Por isso não é grave. Só é grave quando começas a ver aranhas. Aranhas a sair dos buracos inexistentes da parede. Andas a ver aranhas? perguntou-me, e eu abanei a cabeça. Então caga nisso, disse Anda daí.
Eu levantei-me do sofá. Acendi um cigarro e fui sentar-me à mesa, à frente de um copo de vidro ainda vazio e várias garrafas de vinho tinto com os rótulos tapados. À vez iam chegando queijinhos e patés e tostazinhas integrais à mesa. Eu agarrei num bloco, numa caneta, e esperei que me servissem o vinho para começar a prova. Ainda não via aranhas.
Nessa passagem de ano continuei sem ter sexo. Lavei a louça todos os dias. Sozinho.
Nesse ano desisti do curso e fui trabalhar enquanto pensava no que fazer à minha vida.
Já passaram, o quê?, mais de trinta anos desde essa época, e eu continuo sem saber o que fazer à minha vida. Mas tenho fé que um dia descubro. Ainda gosto de lavar a louça.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/23]

A Casa Está Fria

Acabou-se a lenha. Fiz mal as contas. Comecei a acender a lareira antes de tempo. E agora já é tarde. Já não tenho dinheiro para mais. E está mais cara. Já não tenho força para ir cortar mais árvores, ali ao pinhal, às escondidas da GNR. Nem coragem tenho para ir à respiga, ao que resta do Pinhal do Rei, buscar aquela madeira queimada que ainda paira por lá.
A casa está fria.
Durante o dia ainda se aguenta com a sol a bater nas portas de alumínio e nos vidros duplos das janelas. Mas à noite, à noite é o diabo, com a queda da geada, o nevoeiro e o ribeiro a correr gelado lá em baixo.
Estive a dobrar roupa na mesa da cozinha. Algumas camisolas estão tortas, as costuras já estão enviesadas pelo tempo e pelo uso, o que dificulta a dobragem, e isso complica-me os nervos.
À tarde, e para desanuviar, fui dar uma volta. Acalmar os nervos e aquecer um pouco o corpo. Passei pela mercearia. Consegui roubar um pacote de vinho e meia broa. Partilhei o vinho com o gato. O cabrão do gato gosta de vinho. Acho que ficou um pouco grogue. A meia broa, comi-a com um bocado de chouriço. Pena que não pude assar o chouriço.
Agora já é de noite. Estou sentado no sofá, embrulhado no edredão da cama, a olhar para a televisão. Sinto frio. Respiro para dentro do edredão para me aquecer.
Vejo, debaixo da mesa da sala, bocados de cotão. Tomo nota, mentalmente, para aspirar a casa amanhã. Acho que o aspirador já está a funcionar. Senão, vai à vassourada.
O telemóvel morreu. Devia ir buscar o carregador. Mas não me apetece. Não consigo levantar-me.
A casa está silenciosa. Quero dizer, ouço o barulho da televisão. Não está muito alto. O suficiente para eu ouvir como um zumbido de fundo. Não estou a ligar ao que está a dar. É só pela companhia.
Rio.
A minha companhia, agora, é a televisão? Como é que cheguei aqui?
Sinto a porta da rua a abanar. Um arranhar. Alguém a querer entrar? Não. Deve ser só o vento. O que é que alguém iria querer daqui?
Estou com frio.
A casa está fria.
Acho que vou dormir aqui. Não consigo arrastar-me para a cama. Fico aqui. No sofá. Na companhia da televisão. Enrolado em mim próprio e no edredão da cama.
Adormeço. Adormeço dias fora e só volto a acordar na Primavera já entrada. Quando os dias estão maiores. E já há tomates nos campos para eu roubar. Para roubar e matar a fome.
Adormeço.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/17]

Chateei-me com a Cidade

Chateei-me com a cidade. Com as gentes da cidade. Com as manias da cidade. Com a arrogância da cidade.
Peguei numa mochila e saí. Fui passar uns dias ao campo. Fui para passar uns dias e ainda estou por cá. Respiro calma. Tenho tempo. Larguei os comprimidos. Bebo mais vinho. Garrafas sem rótulo. Directo do produtor para o meu prazer. Às vezes é muito agressivo. Às vezes arranha. Às vezes preciso de um Kompensan para matar a acidez que me inflama a garganta.
Tenho por companhia uns gatos sem nome. A gata-mãe. Os gatos filhos da gata-mãe. Um é preto. Outro amarelo. O outro é malhado. Se calhar são gatas, não sei. Chamo-lhes gatos, genericamente. Também tenho a companhia do piruças. O piruças é um cão e está preso a uma casota. A casa não tem muro e ele não pode andar por aí à solta. Os gatos andam soltos e não saem daqui. O cão, liberto-o de vez em quando. Ele sai disparado, está ausente por um bocado, visita os amigos da vizinhança, e depois regressa. Há por aqui, também, o Óscar. Mas não sei por onde anda. Deve estar hibernado. Já não o vejo desde o fim do Verão. O Óscar é um sardão, verde, bonito, arisco. Mas não liga nada a ninguém. É um solitário.
Quando vim da cidade trouxe poucos livros. Não esperava ficar cá muito tempo. Mas fiquei. Já li tudo o que trouxe. Mais que uma vez. Pus-me a vasculhar as gavetas aqui de casa. Encontrei umas edições das Selecções do Reader’s Digest. Umas revistas de banda-desenhada de cowboys, antigas, a preto e branco. E um livro do Raymond Carver. Catedral. Numa tradução do João Tordo. Uma edição relativamente recente, portanto. Fiquei admirado, mas foi assim como um raio de luz a entrar cá dentro. Cá dentro da alma. Iria ser um prazer relê-lo.
É Domingo.
Levantei-me cedo. Fui à missa. Aqui, às vezes vou à missa. É uma das minhas acções sociais. Depois passei pelo café da aldeia e bebi um Martini branco, com gelo e um bocado de gin. O gin era Bosford, o que não me trazia boas recordações. O fígado retraiu-se. Mas não havia outro. Não podia ser mariquinhas! Bebi aquele Martini e pedi outro. O fígado há-de habituar-se.
Regressei a casa e almocei galinha guisada. Com grelos. A vizinha que mora no início da rua, ao saber que um homem morava sozinho nesta casa, vem cá de vez em quando saber se preciso de alguma coisa. Traz-me sopa. Guisados. Fruta. Legumes. Uma ou outra garrafa de vinho do marido. São produtores para consumo próprio. Têm uma pequena vinha. O vinho é mau. Mas mata a bicharada que tenho dentro de mim. Às vezes também me lava a roupa. Mas tenho sempre pouca para lavar. Mudo menos de roupa, por aqui. Às vezes nem tomo banho. Ajuda com o frio. Ando dias inteiros sem me aproximar da banheira. Os dentes sim. Lavo-os três vezes por dia. Às vezes quatro.
Hoje dava o Benfica. Ia ver o jogo ao café. Mas era só ao final da tarde.
Aproveitei este tempo, entre o almoço e o jogo, para começar a ler a Catedral. E comecei:
“O marido de Sandy tinha estado sentado no sofá desde que fora despedido, três meses antes. Naquele dia, há três meses, chegou a casa pálido e assustado e com as suas coisas do trabalho dentro de uma caixa.”
Este cabrão do Carver! Tenho sempre a sensação que está a falar de mim. A expor a minha vida. A tecer considerações sobre as minhas opções. Sobre os vazios da minha vida. Sobre os meus erros. Que porra!
Ou então sou eu que ando a transformar-me numa personagem do Raymond Carver.
Fui buscar uma garrafa de vinho daquele meu vizinho que produz para consumo próprio. Um maço de cigarros. Sentei-me à lareira. Continuei a ler. A beber. A fumar. E esqueci o mundo.
Era já noite quando parei de ler. Tinha esquecido o jogo do Benfica. Os gatos miavam aqui à porta. O cão ladrava na casota. Queriam comer. Fui levar-lhes ração, que era o que tinha. Havia uns restos de ossos da galinha, mas ia dá-los ao cão só amanhã.
Gosto de estar por aqui. Ainda não fiz as pazes com a cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/06]

Um Cachorro-Quente Vintage

Estava frio. E foi assim que acordei. Com frio.
Eram cinco da tarde. O dia estava a ir embora. Fiquei danado. Fico sempre danado quando perco a luz do dia. Gosto da noite, mas preciso do dia.
Acordei arrepiado de frio debaixo do edredão. Descobri que estava com um edredão de Verão. Não sabia que havia mais que um género de edredão. Ainda fui buscar uns casacos que coloquei por cima de mim, por cima do edredão, mas já estava tão frio que nada me aquecia.
Fui tomar banho. Um duche quente. E tive sorte. A botija ainda tinha gás. Mas acho que se aproxima o dia em que vou ter de tirar o champô com água gelada.
Vesti-me. Olhei pela janela. Tudo escuro, lá fora. Nem o candeeiro público estava a funcionar. Este país está como eu. Nas últimas.
Fui até à sala acender a lareira. Tentei. Tentei bastante. Gastei uma caixa de acendalhas. A porra das acendalhas ecológicas. Podem ser ecológicas, mas não acendem nada. Resolvi o assunto com um livro. Prenda de Natal. Nem sei o que era. Quinta-Feira e Outros Dias, rezava assim na capa. Muitas folhas. Óptimo para a lareira. Que se lixassem as acendalhas ecológicas. Nada como o bom do papel saído directamente do eucalipto.
Lareira acesa. O calor a começar a invadir a sala.
Fome.
Fui para a cozinha. Abri a porta da despensa. Olhei em volta. As prateleiras estavam vazias. Fui ao frigorífico. Não estava melhor. Só garrafas. Cerveja. Vinho branco. Coca-Cola. Abri o congelador. Vodka.
No fundo, admiro-me. Sei que não aguento muito a sede. Tenho de ter sempre uma bebida à mão. E tenho.
Descobri uma lata de salsichas. Um cachorro à antiga. Nada daqueles hot-dogs de salsicha grande e grossa cozida ou aquecida em vapor, deitada num pão com textura de bolo com três dias na companhia de uma horrorosa batata-palha (quem é que inventou esta merda?) e submersa pela trilogia de molhos industriais-chunga maionese-mostarda-ketchup. Não, nada disso! Um cachorro vintage.
Cortei as salsichas ao meio. Um bocado de azeite numa frigideira. Um dente de alho, esmagado. As salsichas lá para dentro. Duas carcaças duras na torradeira. Esperar. Um bocadinho, não muito. Virar as metades das salsichas. Barrar a parte de baixo da carcaça torrada com manteiga Primor. Dispor as metades das salsichas sobre a manteiga, com a parte cortada virada para cima. Despejar um bocado de mostarda Paladin. Sem medo. Apertar bem a embalagem. E mexer a mão, em curvas, sobre as salsichas na carcaça. Colocar a outra metade da carcaça por cima. Estava feito.
Não tinha vinho tinto. Não me apetecia branco. Estava cheio de cerveja da véspera. Fui para o vodka. Há ligações improváveis que acabam em bons casamentos.
A casa já estava quente com a lareira a queimar lenha, roubada no Pinhal do Rei, na sala. Três shots de vodka aqueceram-me ainda mais.
Mas o que me soube mesmo bem, foi aquele cachorro-quente vintage vindo directamente do meu passado. Até me passou a neura pela ausência de luz do dia.
O que fazer com as horas que me restavam até voltar para a cama? Talvez tentar uns números de telefone. Talvez descobrir quem é que gostava de vodka. Ou de vinho branco. Tinha João Pires. As senhoras gostam de João Pires. É frutado. Agarrei no telemóvel. Comecei pelo A.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/30]