Para um Diário da Quarentena (Sétimo Andamento)

Não estava a fazer conta sair de casa. Levantei-me a meio da manhã, vesti umas calças de fato-de-treino, uma t-shirt, calcei os chinelos e fui para a cozinha espremer laranjas para um sumo. Fui para o alpendre beber o sumo e ler as notícias nos jornais online.
Nada de muito substancialmente diferente, nas notícias. As mesmas coisas mas com os números a aumentar constantemente.
Enquanto lia os números assustadores de mortos, e lia esses números com uma indiferença que já me era transmitida pelos jornais e pelos responsáveis que todos os dias actualizam os números em conferência de imprensa, carregando nos números para aliviar as pessoas, deixando que as pessoas se tornem números e, dessa forma, perderem um pouco da carga emocional que transportam, pensei que podia guisar o coelho que a vizinha, que mora duas casas mais abaixo, veio cá oferecer.
Tocou o telemóvel. Era a minha mãe. Olá, mãe!, disse. E ela começou Vens cá logo? Preciso de ovos e de sumos de manga para o pequeno-almoço. Já não tenho nenhuns. E sacos do lixo… Ah, e antes que me esqueça, preciso de álcool que já não tenho nada cá em casa. E eu respondi Oh mãe!, mas eu não posso ir ao supermercado dia sim, dia não, e senti-a em silêncio lá do outro lado. E continuei Está bem. Vou aí depois de almoço. E damos um passeio à volta do quarteirão. E alegre, ela respondeu Está bem.
E onde é que vou arranjar álcool? pensei.
Troquei os chinelos por umas sapatilhas. Vesti uma camisola. Fui a uma vizinha na aldeia e comprei uma dúzia de ovos. Passei na farmácia, mas não havia álcool. Passei na mercearia mas não havia sumos de manga. Voltei a casa para ir buscar o carro. Já não ia cozinhar o coelho. Levei-o para a minha mãe. Ela até gosta mais de coelho que eu.
Saí com o carro. Ainda tinha combustível. Passei no Pingo Doce. Estava fechado. Só abria mais tarde. Fui ao Lidl. Uma fila enorme. Mais à frente o Modelo-Continente. Aberto. Sem fila. Comprei dois packs de quatro garrafas pequenas de sumo de manga. Um rolo de sacos do lixo de trinta litros. Procurei álcool. Não havia. Lembrei-me do sabão azul e branco. Também não. Procurei luvas e máscaras. Nada.
Fui até casa da minha mãe. Antes de subir fui à pastelaria comprar-lhe pão fresco. Estava fechada. Novo horário. Este será o maior problema destes tempos. O conhecimento dos horários de funcionamento de lojas onde precisamos de ir porque cada uma funciona com o seu próprio horário.
É uma porra, é o que é!
Subi a casa dela. Estava na sala. Larguei as coisas na cozinha. Aspirei a casa. Depois passei uma esfregona molhada na cozinha e na casa-de-banho. Pedi-lhe para ir para a cozinha arrumar as coisas que já íamos sair e aspirei a sala.
Ficou muito contente com o coelho. Ficou triste pela falta de álcool.
Saímos. Descemos no mesmo elevador. Mas ela ia ao fundo. Eu mais próximo da porta. Eu é que ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto e fechado. Na rua começamos a andar ao longo do passeio. Não havia vivalma. Ela sentiu-se triste. E disse-me Eu sei que as pessoas estão em casa mas ver a cidade assim é diferente. Mesmo visto da varanda é diferente. É uma cidade muito triste.
Sim, era uma cidade muito triste. A cidade quase deserta. Quase vazia. Quase silenciosa. Irreal. Mais à frente vimos algumas pessoas. Ela conhecia algumas delas. Sorriu-lhes e cumprimentou alguns conhecidos à distância de um aceno com a mão, ou com um adeus. Andámos à velocidade dela. Distantes um do outro mas próximos o suficiente para ele conversar. Ela é que fazia a maior parte da despesa da conversa. Estava há muito tempo fechada. Precisa de ser ouvida. Ela falava. Eu ouvia. E respondia. Às vezes parava a ver uma montra. Eu dizia-lhe para ter cuidado e não se encostar. Demos a volta ao quarteirão e regressámos a casa dela. Levei-a a casa. Eu ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto ou fechado. Dissemos adeus. Pedi-lhe de novo, e a saber que não valia de nada pedir, para me ir dizendo o que precisava com antecedência para eu anotar tudo e tratar das coisas todas de uma vez. Ela disse que sim, claro. Como diz sempre. Mas acho que já nem se lembra com o que é que está a concordar. Levei o lixo dela para baixo.
Fui embora.
Ao despejar o saco de lixo no caixote, na rua, reparei que haviam luvas e máscaras espalhadas pelo chão. Perguntei-me de onde vinha aquilo. E porque raio estava espalhado pelo chão em vez de estar dentro de sacos dentro do caixote.
No carro, ainda parado, pensei que não tinha luvas, nem máscaras, muito pouco álcool e só um pequeno pedaço de sabão azul e branco. Não conseguia arranjar em lado nenhum. Também não ia de propósito à procura das coisas mas, em todo o lado que ia para comprar outras coisas, procurava e nunca havia. Via muita gente com estes produtos na rua. Se calhar açambarcaram logo no início. Se calhar têm tido sorte em apanhar as novas remessas. Eu não gosto de açambarcar coisas. Não encho jerricãs de combustível. Limitei-me a ter o depósito cheio. E só o enchi uma vez. Não comprei papel-higiénico. Não mais do que o que compro normalmente. Não comprei conservas para além das habituais. Não comprei álcool porque tinha uma garrafa em casa, e é com essa garrafa que me tenho desinfectado antes de entrar em casa da minha mãe e no regresso à minha. Quando tentei comprar máscaras e luvas, percebi que já era tarde. Não havia nem para os profissionais de saúde que estavam na linha da frente do combate e eles precisam mesmo destas protecções, haveria para mim? Mas via muitas pessoas na rua com máscaras.
Depois de chegar a casa, fui lavar as mãos. Despi-me. Tomei banho. Lavei a roupa que tinha utilizado. Depois cortei umas peças de fruta, uma laranja, uma maçã, uma pêra e um kiwi, era o que tinha em casa, despejei um iogurte numa tigela e coloquei a fruta em pedaços à volta. E fui para o alpendre comer. Hoje não via as montanhas. Não estava sol. O cão estava a dormir enrolado nele próprio e nem me ligou. Os gatos olharam-me à distância mas nenhum me veio incomodar. Comi sozinho no alpendre.
Chegaram umas mensagens ao telemóvel que não quis ler.
Deixei-me adormecer.
Acordei com frio e com um arrepio nas costas. O cão continuava no mesmo sítio. Agora também lá estavam os gatos. O telemóvel voltou a acusar a recepção de uma mensagem. Pus o telemóvel no bolso e entrei em casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/26]

Estou à Espera da Minha Saída

A velha alisa o cobertor e puxa a dobra do lençol. Estou todo tapado até ao pescoço. A velha tapa-me todo e mantém-me as mãos debaixo da roupa da cama para eu não lhe apalpar o cu. Velha!… Velho sou eu. Ela terá, quanto muito cinquenta anos. Velho sou eu que já passei dos oitenta. Estou velho mas ainda lhe passava a mão pelo pêlo se ela não me tivesse preso os braços debaixo do cobertor.
Tenho à minha frente o televisor ligado. Está aos pés da cama. Está a dar um qualquer programa da manhã. Se calhar com a Cristina Ferreira, acho que é ela, não é? Daqui parece-me. Não tenho a certeza. Mas deve ser. Deve estar com o som baixo, ou desligado, o que a mim vem a dar no mesmo. Para eu ouvir alguma coisa o vizinho de baixo também teria de ouvir. Então, a televisão faz-me companhia, mas sem som. Só as imagens a galopar no ecrã. Às vezes uso o aparelho, principalmente para ouvir algum disco daqueles que gostava muito de ouvir quando era mais novo. Os noticiários, não. Já não me interessa o que se passa no mundo. Este mundo já não é meu. Nem é para mim. Estou à espera da minha saída. Deve estar a chegar.
Não gosto que a velha trate de mim. Mas não tenho outro remédio, não é? No início fazia-me muita confusão. Ela ir comigo à casa-de-banho. Ela lavar-me. Ela ver o meu corpo nu. O meu corpo flácido. Cheio de manchas. Áspero. Agora já não ligo. Mas agora já não ligo a nada. Não gosto de não ligar a nada. Gostava de ainda ligar a tudo. Era por isso que, no início, lhe apalpava o cu. Ela não gostava nada que eu o fizesse. Se eu fosse mais novo… Mas a verdade é que nem a mim o tocar-lhe me despertava o que quer que fosse. Era só uma brincadeira estúpida a fingir que ainda estava vivo e com desejo. Mas não. Não estava vivo. Nem com desejo. Ainda ando por aqui, é verdade. Os meus olhos ainda piscam. Os meus pulmões ainda inspiram e expiram ar, cada vez menos, e o coração ainda bate. Mas eu já não estou aqui. Eu já morri há muito tempo. Morri no dia em que fiquei confinado a esta cama. Mesmo para ir à janela olhar a rua, tenho de ser ajudado. Ajudado por ela. Pela velha. Para ir à janela onde fumava os meus cigarros. Que saudades tenho de fumar um cigarro.
Passo os dias aqui deitado. E as noites. Durmo quando calha. Não ligo às horas. De resto, é a velha que manda em mim. Como quando ela me dá a comida à boca. Lavo-me quando ela me lava. Vou à janela quando ela me ampara. Às vezes também me leva à rua. Normalmente vou de cadeira-de-rodas, porque vou mais rápido para onde tenho de ir mas, às vezes, levo só uma bengala e ela vai ali ao meu lado, a controlar-me os passos, a ver se não me meto com as miúdas giras com quem me cruzo. Tenho saudades das miúdas giras da minha vida. Dos beijos. Da pele macia e convidativa. Foda-se para a velhice!
Agora que estou para aqui armazenado, à espera da minha vez de partir, penso muito na vida. No que vivi. No que não vivi. No que deixei por viver. Em todas as merdas que fiz às pessoas que se cruzaram comigo ao longo dos anos.
Estava à espera, no entanto, de ir vendo a minha vida a passar-me pela cabeça como uma série de Sábado à noite, episódio atrás de episódio, a recordar os momentos mais importantes da minha vida: o primeiro dia de escola; o dia em que entrei para a faculdade; o dia em que me licenciei; o dia em que me casei, pela primeira vez, depois foi mais do mesmo, uma remake em pior do que já não tinha sido grande coisa; o nascimento do primeiro filho; o nascimento do segundo; o meu primeiro filme; o meu primeiro prémio; a minha primeira viagem ao outro lado do mundo; a morte do meu pai; a morte da minha mãe; o meu primeiro neto; o segundo; o terceiro; acho que já vem aí um quarto, mas não sei se já o posso contabilizar. De qualquer forma, não é nada disso que eu recordo, quase em loop, todas estas horas que passo aqui acordado, na cama, a olhar para o tecto, para a televisão ou para a rua, através da janela, e do qual só vejo o céu azul, cinzento, branco ou preto, com e sem luzinhas de Natal, não! o que eu mais recordo é um almoço que tive com o meu pai, só os dois, sozinhos, eu e ele, em Castanheira de Pêra, e foi a única vez que almocei sozinho com o meu pai, só os dois, e ele conversou comigo como se eu fosse um adulto e não a criança que ainda era. Falámos sobre o Benfica. Sobre a União de Leiria. Eu falei sobre os Sete. Ainda não tinha chegado aos Cinco. Lembro-me de lhe ter falado de cada um dos elementos do grupo e de ele ter escutado. Ele falou-me da escola. E da importância para o meu futuro. E que devia pensar em ser médico, advogado, engenheiro, alguma coisa que me garantisse o futuro. Mas acabou por ficar contente quando viu o meu primeiro filme. E ajudou-me bastante.
Eu devia ter sete, oito anos. Era ainda uma criança. Era Verão. A minha irmã ainda não tinha nascido. A minha mãe estava internada no hospital e o meu pai tinha uma reunião de negócios em Castanheira de Pêra. Não tinha onde me deixar e levou-me com ele. Viajámos os dois pelo interior. Já não me lembro bem do trajecto, mas recordo algumas curvas, talvez. Subidas. Muito campo. Casas espalhadas pelo campo. Aldeias pequenas. Couves. Umas árvores. Muitas árvores. Muito verde.
Lembro-me de achar Castanheira de Pêra uma terra muito mais pequena que Leiria. O que é óbvio. Mas não o era para uma criança de oito anos. Fui com o meu pai a uma empresa. Esperei numa sala com uma senhora muito bonita que me ofereceu rebuçados. E depois fui almoçar com o meu pai. Ele de um lado da mesa. Eu do outro. Estávamos frente-a-frente. Só os dois. Eu pedi um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. Se fosse hoje, era um bitoque. Naquela altura era só um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. O meu pai comeu o mesmo que eu. Eu bebi um refrigerante de laranja. O meu pai bebeu um copo de vinho tinto. Conversámos muito. Mas o que gostei mesmo mais, o que revejo tantas vezes na minha cabeça, sou eu a almoçar sentado a uma mesa em frente do meu pai. Estou eu aqui e ele ali, ali mesmo, à minha frente. E estamos os dois sozinhos. Estamos tranquilos. E conversamos.
Nunca mais voltei a comer sozinho com o meu pai. Entretanto a minha irmã nasceu. A minha mãe nunca mais voltou ao hospital e, alguns anos mais tarde, ainda eu não tinha saído de casa, o meu pai morreu.
É nisso que penso muito agora. Agora que estou aqui deitado na cama, à espera de ir ter com ele, penso no dia em que almoçámos os dois sozinhos. Um com o outro.
Talvez um dia os meus filhos também possam ter uma lembrança assim. Ou não. Cada um tem de ter as lembranças que tiver de ter.
E a velha? Onde anda o raio da velha? Quando me vier dar a sopa vou tentar apalpar-lhe o cu. Tenho tantas saudades…

[escrito directamente no facebook em 2019/11/28]

Há Muitos Anos que Não Vinha Aqui

Fui buscá-la a casa. Ia levá-la a comer umas sardinhas assadas longe da cidade, longe do rebuliço e do calor terrível da cidade.
Estava na esplanada, não em casa. Despachou-se mais cedo e foi descendo. Foi até à esplanada. Sentou-se à sombra. Pediu um Compal de laranja fresco e deixou-se lá ficar à minha espera.
Quando cheguei, espreitei a esplanada antes de subir a casa. E vi-a. Sentada a uma mesa. Um copo com metade de sumo. Os olhos fechados. Os braços tombados ao lado do corpo. Ela muito direita, na cadeira. A bengala no chão, caída. Senti uma angústia. Um arrepio na espinha. Dirigi-me a ela. Coloquei-lhe a mão no braço e disse Mãe! e ela não reagiu e eu abanei-lhe um pouco o braço e chamei um pouco mais alto Mãe! e ela abriu os olhos muito devagar, como se estivesse feito uma paragem e retomasse a vida de seguida e disse Sim!
Eu suspirei aliviado. Sentei-me ao lado dela. Perguntei-lhe se queria alguma coisa e pedi um café para mim. Acendi um cigarro. E ela disse-me Quando é que deixas de fumar? e eu não respondi porque aquilo já não era uma pergunta, era uma censura, e nunca se responde às censuras, mesmo que venham da mãe e sejam bem-intencionadas. Depois disse-me que tinha vindo para a esplanada apanhar a aragem fresquinha enquanto me esperava e que afinal estava calor e tinha acabado por se deixar adormecer. Sorri. Bebi o café. Ela acabou por beber o resto do sumo.
Depois fomos embora. Ajudei-a a entrar no carro. Ainda não tínhamos saído da cidade já ela estava de olhos fechados. E eu disse, mais para mim que para ela Já estás a dormir outra vez? ao que ela respondeu Não estou a dormir, estou só a descansar.
A viagem ainda foi longa. Até à costa. Quando chegamos senti-a abrir os olhos. Olhou para o mar. Disse Já chegámos?, mas não era uma pergunta. E acrescentou Há tantos anos que não vinha aqui. E era verdade. Há muitos anos que não saía da cidade. Há muitos anos que tinha medo de andar de carro. Mas agora, agora que estava velha, já não tinha medo de nada. No outro dia disse-me Lembras-te quando íamos a qualquer lado, com o teu pai, e havia um elevador, ou umas escadas-rolantes, e vocês iam de elevador e eu tinha de subir as escadas a pé? Era uma saloia, não era? Agora subo e desço todos os dias, às vezes mais que uma vez por dia, o elevador de casa. Sozinha. Sem medo! Sim, mãe. Sem medo.
Fez a viagem de carro sem medo. Adormeceu na viagem. Sentia-se descansada ao meu lado. E relaxou. Adormeceu. Depois abriu os olhos quando sentiu o carro parar. Quando sentiu a maresia. Quando ouviu as ondas a rebentar na areia. E disse Há tanto tempo que não vinha aqui!
Saí do carro e fui ajudá-la a sair. Dei-lhe a mão para a mão. Suportei-lhe o esforço. E enquanto saía do carro disse-me Vamos lá dar cabo dessas sardinhas. E parou, à saída do carro, a olhar para o mar. E voltou a dizer Há tanto tempo que não vinha aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/08]

As Esplanadas da Minha Cidade São Fechadas com Acrílico

A Bola de Berlim e o Compal laranja à minha frente. Largados assim, na mesa à minha frente. O papelinho com a conta deixado em cima da mesa para me avisar que tenho de pagar. A caixa com os guardanapos, cortesia da Compal, colocada em cima do papel da conta para ele não voar. E fica ali assim, a olhar para mim. A dizer-me Tens de pagar!
Peço à rapariga que limpe a mesa. Afinal, está aqui um cinzeiro cheio e alguma da cinza voou para cima da mesa. A rapariga bufa, mas pega num pano seco e estende o braço, cansado, sobre a mesa. Eu levanto o prato com a Bola, o copo e o Compal para libertar espaço e não serem abalroados com a cinza que, antecipo, irá voar.
E voou.
As pessoas não vêm o que está mesmo à frente dos olhos. Estão sempre noutro lado. Na cama com o amante de ocasião. Com o ouvido no telemóvel. Com a cabeça no ar. E aprender Uma mesa com cinza limpa-se com um pano húmido. Repetir Uma mesa com cinza limpa-se com um pano húmido.
Esta é uma esplanada típica da cidade. Fechada. Fechada com acrílico. Nesta esplanada fuma-se. Quando está calor, abrem-se umas janelas. Quando está frio, fecham-se. Toda agente que está na esplanada, fuma. Queira ou não. Como é fechada, não tem chapéus de sol. Quando o sol está baixo, é impossível estar nesta esplanada porque está em chamas. O calor e a luminosidade do sol ocupam tudo e expulsam os clientes. É uma sauna onde não se consegue abrir os olhos.
Despejo o Compal no copo. Agarro num guardanapo de papel e pego na Bola de Berlim. Dou uma trinca e sinto o açúcar a cair para dentro da barba. Detesto quando isto acontece. Com a língua dou uma lambidela ao creme que ameaça cair. Não cais que eu não deixo.
Dois miúdos fazem desta esplanada um parque infantil. Olho pela janela e a vinte metros daqui há um verdadeiro parque infantil. Mas estas criancinhas não têm autorização para ir para o parque. As mães estão ocupadas a conversar e não podem olhar pelos miúdos. E os tempos são perigosos. Estas foram mães criadas na rua. Largadas na rua. Brincaram na rua. Os filhos brincam na esplanada. Na esplanada fechada. São aviões de braços abertos a gritar os motores numa esplanada fechada que amplia os sons que me entram cabeça dentro e estão a tornar-me um possível homicida. As mães não dizem nada. Afinal, as crianças têm direito a tudo. Até a infernizar a vida dos outros.
Desperto para uma voz atrás de mim. Estou! Estou! Estou, porra! Viro-me e vejo um velhote a tentar falar com um telemóvel que não lhe traz resposta. As crianças-avião voam em círculo à volta do velho. Ele ri para os miúdos. Talvez lhe lembrem os netos. Talvez lhe lembrem a ele próprio. Talvez só precise de companhia.
Continuo a comer o resto da Bola de Berlim. Chego a boca para a frente para o açúcar cair no prato e não na barba. Lambo os dedos. Às vezes gosto de ser guloso.
Ao fundo, a televisão de dimensões generosas está num qualquer canal de música. Mas está em silêncio. A esplanada é fechada, há fumo de cigarros e uma televisão debita música em silêncio.
Como amar esta cidade? Como não amar?
Uma das crianças vai em voo rasante, e a rapariga tem de parar de repente com a bandeja cheia de copos de vidro sujos para não ser acidentada, avisar a mãe que quer fazer chichi. A mãe pergunta se o miúdo aguenta. Ele abana a cabeça. A mãe levanta-se e vai com o miúdo ao jardim no exterior do exterior. Saem da esplanada fechada e vão ao jardim ao lado. A mãe põe o miúdo a mijar para uns arbustos. O mijo é orgânico. Mas o café tem casa-de-banho. É do outro lado. Longe da vista.
Acabo de beber o sumo de laranja. Procuro a rapariga. Não a vejo em lado nenhum. Há duas raparigas a escrever em computadores. Um homem folheia o Correio da Manhã. Uma senhora de idade come uma torrada e bebe uma meia-de-leite. Olha para as imagens que passam na televisão de dimensões generosas. Esta esplanada é um microcosmos. Não falta sequer o mendigo que vem deixar um isqueiro e um papel com uma história de vida capaz de fazer chorar as pedras da calçada.
A rapariga aparece à porta da esplanada a ver se é preciso alguma coisa. Faço sinal com as mãos a pedir um café. Espero que perceba.
Acendo um cigarro. Digo ao mendigo que não quero o isqueiro e não tenho moedas. E é verdade que não tenho moedas.
A rapariga aparece com o café. Afinal percebeu.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/29]

Águas-Furtadas

Estou a meio das escadinhas. Dobro o corpo sobre mim. Tento recuperar a respiração. É cansativo subir estas escadas da cidade. Olho para cima e não lhes vejo o fim. Imagino os velhos que foram envelhecendo a subir e a descer estas escadas. Imagino os velhos mortos antes de tempo. Mortos aqui nestes degraus. A transpirar nos dias de calor. A escorregar nos dias de chuva. A mão agarrado ao peito. Aqui, assim, onde está o coração. Porra!, que canseira subir estas escadas.
Agarro-me ao corrimão central. Recupero o fôlego. Ergo o corpo. Viro-me para trás para contemplar a minha conquista e vejo um mar de telhados que se prolonga pela cidade fora até ao rio.
Esta é outra cidade. Uma cidade feita de telhas, telhados, varandas, quintais com pequenos jardins aéreos, piscinas e agora, os famosos roof tops, bares com vista sobre a careca do povo que não ousa ascender.
Vejo muitas janelas. Janelas que se erguem dos telhados. Como furúnculos. Claraboias. Telhas de vidro. De acrílico. A cidade a pôr-se na ponta dos pés. Aproveitar a casa até ao limite. Como um osso.
Gosto muito de águas-furtadas. Já vivi em águas-furtadas. Por duas ou três vezes vivi em águas-furtadas. Guardo boas memórias dessas casas. Dos locais onde estavam erguidas. Dos bairros castiços. Da arquitectura dos seus espaços. A volumetria. Os desenhos interiores. Até das paredes tortas. E as telhas quebradas.
Uma dessas casas tinha um pé-direito de várias alturas. Algumas delas obrigavam-me a dobrar as costas. Mas tinha uma vista fabulosa sobre a ponte. Sobre o Tejo. Sobre o Cristo-Rei. Era uma casa de legos. As divisões sucediam-se umas às outras, ordenadas. Casa-de-banho. Cozinha. Sala. Quarto. Escritório que também era biblioteca, arrumação, quarto-de-vestir, de visitas e de tudo o mais que se pudesse imaginar. Era quase metade da casa. Um corredor comprido cozia todas as divisões. Mas era muito fria no Inverno. Era muito quente no Verão. E foi este o motivo de a deixar. Custou-me bastante deixar a casa.
Há poucos anos passei por lá. Ergui a cabeça até lá cima. Ao último andar do prédio. A janela do antigo escritório estava aberta. E saíram inúmeras memórias do tempo em que lá vivi. As memórias boas, claro. Das más não me reza a história. Acabei a ler a placa que me informa que ali viveu o Alfredo Marceneiro, e sinto uma pontinha de saudade. Podia informar que eu também lá vivi.
A outra casa era uma espécie de refúgio de um homem casado. A casa para onde levava as amantes. Mas o tipo envelheceu. A pila deixou de lhe dar ordens. Deixou de se agitar com as jovens beldades que lhe passavam à frente. Entretanto, cansada, a mulher ameaçou-o com o divórcio e em ficar-lhe com tudo o que tão avaramente amealhou ao longo da vida. Arrendou-me a casa. Também lá levei mulheres. Mas as minhas eram namoradas. Também eram amantes. Mas não era proibido. Não estava a cometer nenhuma infidelidade. Só a dar azo a todo o amor que tinha para dar na minha furiosa juventude, oh! raio onde é que ela já vai!
Esta casa tinha a particularidade de ter uma pequena janelinha, no cubículo do duche, aberta sobre a baixa da cidade. E que bonita era a cidade vista dali e o que me deliciava quando eram duas caras, coladas lado a lado, em êxtase, a apreciar a beleza do nascer do dia depois de uma noite sem pregar olho.
Sorrio enquanto recordo esta última casa e algumas das mulheres que por lá passaram. Lembro-me perfeitamente de algumas delas. Outras, já nem sei quem foram. Já foram perdidas. Mas as que me lembro, as que teimam em regressar, de tempos-em-tempos em forma de memória, essas deixam-me satisfeito e em paz com a vida que vivi.
Já tenho a respiração normalizada. Dou uma última olhadela ao mar de telhados laranja da cidade. E viro costas. Preparo-me para atacar o resto das escadinhas. E maldizer a cidade pelas suas sete colinas.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/29]

Sozinho a Subir o Alentejo

Estou parado à beira da estrada. Estou dentro do carro mas vou ter de sair. O calor aqui dentro é insuportável. Uma estufa.
Já olhei à volta e não vejo uma árvore, uma sombra. Estou aqui há uma hora e ainda não passou nenhum carro.
Esta paisagem é aterradora. Extraterrestre. Extraterrestre aqui, na Terra.
O horizonte morre já ali, na pequena encosta de um monte. Isto é feito de pequenos montes que se seguem uns aos outros, num sobe-e-desce que nunca mais acaba. Montes carecas. Cinzentos. Cheios de árvores mortas. Carbonizadas.
Passei pelo leito de um ribeiro, lá atrás. Seco.
Não posso ficar aqui muito mais tempo. Não passa carro nenhum e, não tarda, começa a escurecer.
Mesmo com o calor que me assola, com os pingos que escorrem pela cara abaixo, pelas costas, pelas virilhas, acendo um cigarro. Saio do carro. Olho em volta. Silêncio. Solidão. Parece que estou sozinho no mundo.
Olho de novo para trás. Nada. Olho para a frente. A estrada parece flutuar lá mais à frente, debaixo deste calor. Olho para o carro. Morto.
Não sei o que é que lhe aconteceu. Ia bem e, de repente, nesta subida, começou a sufocar, deu uns safanões, uns arrotos e parou. Não deu mais nenhum sinal. A chave da ignição não liga nada. Pode ser um problema eléctrico. Ainda tinha gasolina. Acho. Morreu, pronto.
Peguei no telemóvel, mas não há rede.
Precisava de uma boleia. De um mecânico. De um telefone. De um carro. De alguém…
Precisava de uma garrafa de água geladinha. Uma imperial. Um copo de vinho branco. Até um rosé. De um gelado. Um gelado de gelo. Daqueles de laranja. Ou limão. Ainda haverá? Aqueles da Olá.
É melhor começar a andar. Andar em frente. Hei-de ir dar a algum lado. Algum lado onde haja gelados.
O cigarro? Caiu? Deitei-o fora? Não recordo. O que é que lhe fiz? Olha, que se foda!
Tenho de ir devagar. Não sei onde estou. Se estou longe. Se tenho muito caminho para fazer a pé.
Que barulho é este?
Não… Não vejo nenhum carro. Não, não é nada.
Porra, ainda vejo o meu carro. Não andei quase nada. E já estou cansado. Cheio de sede. E continua tudo deserto. Deserto e vazio.
Vou sentar-me nesta pedra e fumar um cigarro. No final do cigarro vai aparecer um carro. E vai levar-me para Beja. E vou jantar aos Infantes. Enfrascar-me. Beber cerveja até morrer afogado.
Já está a cair a noite. Porra.
Não posso continuar por aí de noite. Às escuras. Sem saber onde estou.
Não posso ficar aqui nesta pedra.
Merda.
Vou voltar para o carro. E rezar.
Ainda o sei fazer? É como andar de bicicleta. Nunca se esquece. A sério? Se não for, aprendo.
Amanhã tudo vai ser diferente. Amanhã tudo vai correr bem. Amanhã…

[escrito directamente no facebook em 2018/08/22]

Ir à Bola com o Meu Pai

Era miúdo e ia ao futebol com o meu pai.
Pegava na bandeira, com ripa de madeira que ninguém proibia de entrar no Estádio que ainda era Campo da Bola, numa almofada para sentar o rabo suavemente nas bancadas de cimento, passávamos na senhora dos tremoços e comprávamos um saquinho de tremoços e outro de pevides e, em dias de festa, uma fiada de pinhões que eram caras como o raio.
Antes de entrar no Estádio passávamos no Lagoa. O meu pai bebia um copo de três ou uma mini e eu bebia uma Superfresco de laranja ou um Canada Dry. Isto foi antes das imperiais e do bagaço. Agora já ninguém me deixa ir com o bagaço para a bola.
Lembro-me de uma época no Estádio da Luz, em jogos da UEFA, jogos que eram à noite mas em que entrávamos no Estádio a meio da tarde, armados de Tupperwares com rissóis e croquetes e pastéis de bacalhau e torresmos que depois embebíamos em cerveja adquirida nas bancadas que havia sempre gente a vender as coisas necessárias à nossa satisfação.
Nessa altura não havia claques de futebol. Os adeptos eram toda uma claque que incentivava os jogadores, chamava ladrão ao árbitro e cabrão ao jogador adversário.
Havia sítios onde as coisas eram mais perigosas. Acompanhar a União de Leiria aos Marrazes, à Marinha Grande, à Nazaré ou à Vieira de Leiria poderia ser perigoso. Especialmente se fôssemos uns adeptos daqueles que nunca se calam. E éramos. As Caldas também era grande rival mas nunca rivalizou grande coisa.
Nessa altura A Bola saía três vezes por semana, havia dois canais de televisão e só um tinha um programa sobre bola e o indicativo do Domingo Desportivo era o Blue Monday dos New Order.
Era normal encontrar nas imediações dos Estádios vários carros onde as senhoras esperavam os seus maridos fazendo renda ou tricot.
Tudo mudou com a chegada da morte.
Com a chegada da morte do meu pai, deixei de ter companhia para os jogos e deixei de ir com tanta frequência. Com a morte de um adepto no Estádio e depois a ascensão das claques de futebol, deixei mesmo de ir.
O futebol é somente a porra de um jogo. Gosto de me empolgar, mas é só um jogo. Não quero que a minha vida seja posta em causa por causa de um jogo. Gosto de me sentir livre.
Continuo a gostar de futebol, mas o futebol para mim é já um jogo de televisão. Um jogo de televisão e em casa. Em casa posso comer e beber o que quiser. Em casa posso ter bandeiras com paus, ripas ou o que for. Em casa posso ver o jogo nu. Em casa posso desligar a televisão quando as coisas não correm de feição. Em casa posso mandar toda a gente para o caralho que ninguém se sente ofendido. Em casa mando eu. Em casa mando eu quando a minha mulher me deixa mandar.
Mas tenho saudades. Saudades de ir livre a um Estádio ver um jogo de futebol.
Acho que é isto a velhice. A saudade de um tempo que já não é.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/11]