Soubesse Eu Tocar Guitarra

Soubesse eu tocar guitarra, saía de casa, ia até à cidade deserta, sentava-me num banco de jardim, à sombra de uma árvore frondosa e punha-me a tocar o Stairway to Heaven para as miúdas descerem as escadas dos prédios confinados, fugirem aos gritos desesperados dos pais, dos namorados, dos maridos e correrem descalças até mim, sentarem-se na relva, a meus pés, uma flor no cabelo, um sorriso nos lábios, as sardas a pularem de cara em cara, uma azeda ao canto da boca a sonharem com as histórias da carochinha enquanto se deitavam languidamente umas sobre as outras, como pequenas ninfetas do artista, a saborearem o pecado.
Depois vinham os pais, irmãos, maridos e namorados buscá-las por uma orelha, pelo braço, puxá-las pelos cabelos, arrastá-las pelas pernas, as cabeças a baterem, pesadas, na calçada portuguesa a deixarem rastos de sangue, para as protegerem no recato do lar da terrível infecção promíscua que circula no ar e nas guitarras dos artistas.
E eu então pousava a guitarra, pegava na AK-47 e disparava a eito sobre todos eles e via-lhes os corpos explodirem em mil pedaços e tombarem inertes sobre a calçada portuguesa que já não era a preto e branco mas de vermelho vivo, um vivo-morto, e quando acabassem as munições voltaria a pegar na guitarra e tocaria uma versão acústica e muito lamechas do Straight to Hell dos Clash, limparia as mãos com álcool-gel, fumaria um cigarro e depois regressaria ao silêncio solitário de casa onde beberia um copo de vinho tinto alentejano para matar a sede.
Mas não sei tocar guitarra.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/23]

Depois de Daniel Blake

Tínhamos acabado de ver Eu, Daniel Blake de Ken Loach na televisão. Ela estava a chorar baba-e-ranho. Eu estava furioso e com vontade de bater em alguém. Ainda olhei para ela, porque estava ali à mão-de-semear, mas Não! pensei. Ela estava em sofrimento.
Não dissemos nada.
Eu levantei-me e fui até à janela. Acendi um cigarro e olhei lá para fora. Vi o cão a andar de um lado para o outro à luz da Lua. Olhou para mim quando ouviu o som do isqueiro, e viu a luz da chama, mas continuou o seu caminho. Perdi-o de vista.
As pessoas são mesmo o pior da humanidade. As pessoas. O que conseguem fazer umas ás outras. A frieza com que tratam os mais indefesos. À tarde tinha visto um vídeo real de dois seguranças de um supermercado brasileiro a chicotear um miúdo de dezassete anos por ter roubado a merda de um chocolate. A merda de um chocolate! Sentem-se imunes. Os filhos-da-puta da roda dentada sentem-se imunes. São sempre mais papistas que o Papa. Para se sentirem superiores. Para sentirem que têm um grãozinho de poder debaixo do braço. Por vezes penso que as pessoas parecem cães a defender o seu pequeno território, o linear, o gabinete, a mesa de trabalho numa ilha espiado pelos colegas que se controlam uns-aos-outros. Mas depois percebo que não são cães, que os cães até são uns animais de respeito, são mais hienas à espera dos restos que os leões lhes deixam. Vejo que tenho a mão fechada para um murro quando tento tirar o cigarro da boca. Desfaço o punho. Agarro no cigarro com dois dedos, puxo-o e arranco um pedaço de pele dos lábios. Foda-se! digo. Magoei-me!
Ela continuava a chorar.
Gosto das redes mosquiteiras. Não posso pôr a cabeça fora da janela, mas livrei-me de moscas, melgas e mosquitos. Em noites de calor posso ter as janelas abertas para deixar correr o ar.
Ela levantou-se. Saiu da sala. Ouvi-a na casa-de-banho. Saiu, passou pela sala e disse-me Vou-me deitar, e tinha os olhos vermelhos. Há pessoas que são mais sensíveis que outras. Mas há filmes que nos viram do avesso.
A verdade é que há muito da nossa vida naquele filme. Há muita coisa em Eu, Daniel Blake pelo qual eu passei. Pelo qual ela passou. Pelo qual muita gente passou. E o filme não é lamechas. Tão só absurdamente real e triste. Humanamente triste. Triste como nós.
O problemas das redes mosquiteiras nas janelas é que não posso lançar as beatas para a rua. Acabei de fumar o cigarro. Fui à cozinha. Molhei-o na torneira do lava-louça e deitei-o no caixote do lixo.
Pensei na cena do Banco Alimentar. Revi Katie a abrir a lata de feijão e a comer os feijões crus, directamente da lata, à mão, enfiando-os pela boca, esganada. A fome é uma merda! É como um punho fechado que nos entra pelo cu e nos puxa as entranhas até não restar mais de nós que um desejo puro de rasgar algo com os dentes e saciar o estômago. Animalesco.
Acabei por ir atrás dela para a cama. E ali estávamos nós os dois, virados para o tecto, de olhos abertos, quietos e sem conseguirmos dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/03]