O Acampamento

Os primeiros apareceram por aí está agora a fazer um ano. Vieram para o terreno aqui em frente. Um terreno abandonado. Acho que tem dono, mas nunca o vi por aqui. Cresce o mato. No Verão é um ninho de cobras. No Inverno impera a lama. De vez em quando vinha aqui um tractor cortar o mato. Mas ultimamente não tem vindo.
Os primeiros a chegarem foram as caravanas. Ao início pensava que eram caravanas a caminho das praias. Da Nazaré. Da Vieira. De Paredes de Vitória. Mas o tempo foi passando e elas não arredavam roda. Cada dia iam chegando mais. Depois começaram a aparecer as tendas. Primeiro as grandes, familiares. Mas depois também canadianas.
O baldio aqui em frente parecia ter-se transformado num parque de campismo selvagem. A GNR ainda aqui veio algumas vezes. Chegaram até a conseguir pôr toda a gente fora. No dia seguinte estava cá tudo outra vez. Isto aconteceu umas duas ou três vezes. Depois a guarda deixou de os incomodar. Passam por aí, entram lá dentro, dão uma olhada, e vão embora. Às vezes param o jipe. Saem. Dão uma volta a pé. Mão na coronha da arma. Ou no cassetete. Falam com um ou outro. E vão embora.
Foi quando começaram a chegar os que não tinham nada que percebemos o que é que estava a acontecer.
Começaram a surgir umas casas em cartão. Casas feitas com caixas de cartão, das grandes. Depois apareceram placas de esferovite. De contraplacado. Umas placas de zinco. Fizeram um poço. Colocaram uma torneira.
Nasceu um bairro. Nasceu um bairro aqui mesmo em frente. Um bairro espontâneo. Um bairro de deserdados. Gente escorraçada. Gente sem casa. Sem trabalho. Gente sem eira nem beira. Gente que não tinha mais para onde ir. Foram-se encostando uns aos outros, por aí.
No início tentaram saltar o muro aqui de casa para virem às maçãs e às laranjas. Mas o cão assustou-os. Deixaram de saltar o muro. Até porque há algumas árvores espalhadas por aí, pelos terrenos. Há muita árvore de fruta por aí. Fruta que se perdia pelo chão. Apodrecia. Agora não. Agora eles não lhes dão tempo para apodrecer. Eu quando tenho fruta penduro uns sacos no muro para eles levarem. E eles levam.
Alguns deles trabalham nas fábricas aqui à volta. Trabalham ao dia. À jorna, não é? Mas a maior parte passa os dias por aí, às voltas. Não há muito trabalho. Vão à taberna. Bebem um bagaço. Um café. Já houve alguma tensão. Umas conversas mais azedas. Mas nunca houve desacatos.
Às vezes vejo aí chegar uns carros. Estão lá parados, motor a trabalhar, e depois arrancam. Também já vi algumas pessoas da aldeia a ir dentro do acampamento. Não é muito difícil adivinhar o que é que lá vão fazer. Mas esta gente tem de viver de alguma coisa, não é?
A Junta de Freguesia já colocou lá umas casas-de-banho portáteis. É preciso é que lhes faça a manutenção.
Mas o terreno começa a rebentar pelas costuras. Cada vez chega mais gente. E a gente que chega está em piores condições que os que já lá estão. Há demasiada gente a viver mal num terreno cada vez mais pequeno. Um dia destes vão haver problemas. Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
Há dois meses comprei uma caçadeira.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/11]

A Rapariga no Cemitério

Conheci-a no funeral do pai. Na verdade, depois do funeral. Também não a conheci de verdade. Mas estive com ela.
Eu estava no cemitério a limpar a campa da minha mãe. Assisti àquele gigantesco evento ali mesmo ao lado. Um sai-e-entra de gente vestida de preto. Bons cortes. De fatos e cabelo. Óculos escuros. Muito choro. Alguns cigarros acesos. Senhoras de idade, com véus pretos sobre a cara, amparadas por rapazes e raparigas novos, talvez netos, mas vestidos como gente grande. Gente com dinheiro. Devia ser alguém importante. O morto. Alguém querido de muita gente.
Sentei-me na campa da minha mãe e fiquei por ali um bocado. À espera que se fossem embora. À espera de um pouco de calma. Gostava de conversar com a minha mãe. Cada um de nós no seu lado do mundo. Ela tinha paciência para me ouvir. E eu contava-lhe, a ela, o que não contava a mais ninguém. Confiava que a conversa não sairia dali. Também estava à espera de poder mudar as flores e garantir que elas ficavam por lá. Pelo menos naquele dia. E não eram espezinhadas pela multidão. Por aquela enorme multidão. Sentei-me. Acendi um cigarro.
Acendi outro.
Deu-me a moleza.
Fechei os olhos.
Devo ter adormecido. Adormecido sentado na campa da minha mãe. A multidão do lado já se tinha ido embora. Ficaram as inúmeras coroas de flores e o seus cartões sociais. E estava lá uma rapariga. Só. Ela. De preto. Vestido preto. Casaco preto. Sapatos pretos de meio salto. Bem escovados mas com lama a sair debaixo da sola. A lama do cemitério agarrada aos pés.
Ela caiu.
Eu levantei-me e corri. Corri para ela. Saltei entre as coroas de flores. Baixei-me. Pus os meus dedos no pescoço dela. Tinha pulsação. Olhei em volta. Ninguém. Agarrei no telefone e liguei para o Cento e Doze.
Atenderam. Expliquei. Desliguei.
Acendi um cigarro. Olhei para ela ali caída aos meus pés. Pensei Devia pô-la confortável. Pensei É melhor não lhe mexer. Pensei É gira a miúda. Pensei Já não é bem miúda. Já é uma mulher, talvez já mesmo uma senhora. Pensei Que porra de pensamentos.
Ela abriu os olhos. Olhou para mim. Mas não se mexeu.
Eu mandei o cigarro fora. Baixei-me. Disse Desmaiou. Ela não disse nada. Eu tirei a camisola, dobrei-a, fiz uma almofada e coloquei-lhe por baixo da cabeça. Disse Chamei o Cento e Doze. Ela não disse nada. Cheirava bem. Um cheiro de banho tomado. E um perfume suave. Não muito doce.
Levantei-me. Olhei para a porta de entrada. Ninguém. Voltei a baixar-me. Perguntei Quer avisar alguém? Ela não disse nada. Senti um toque. A mão dela agarrou-me no pulso. Mexeu os lábios. Não ouvi. Baixei-me. Encostei o meu ouvido aos seus lábios. Senti um ligeiro sopro. E uma voz muito sumida, vinda lá do fundo e sem sair de lá, disse Obrigada. Afastei-me e vi os lábios dela forçarem um suave e breve sorriso.
Ouvi a sirene dos bombeiros. Chegaram dois paramédicos. Afastei-me. Um deles perguntou-me Como se chama? Eu?, perguntei. Ela!, respondeu. E eu disse Não sei. O outro baixou-se. Auscultou-a. Mediu-lhe a tensão. Olhou-a no olhos. Bem dentro dos olhos. Fundo nos olhos. Acho que lhe procurava a alma.
Colocaram-na numa maca. Prenderam uns cintos à volta dela. Levaram-na para a ambulância. O paramédico perguntou-me Vem? Eu abanei a cabeça.
E a ambulância foi. Fiquei a ouvir a sirene a tocar durante algum tempo. Até se extinguir por completo.
Agarrei na minha camisola e voltei a vesti-la. Fui limpar a campa da minha mãe. Conversar com ela. Contei-lhe o que tinha acontecido.
O tempo passou.
Fumei um cigarro.
Fui embora.
Na estrada cruzei-me com um acidente. A ambulância que tinha ido buscar a rapariga estava, feita acordeão, espetada de frente num camião TIR que transportava Porsches. Alguns dos Porsches tinham caído do camião abaixo. Estavam semi-destruídos no meio da estrada.
No dia seguinte li, no Correio da Manhã, sobre um acidente onde tinha falecido a filha do homem que tinha sido enterrado na véspera. Ela era a filha! Morreu no mesmo dia em que o pai fora a enterrar. Há gente que não tem muita sorte com a vida. Há coincidências que se tornam diabólicas. Há coisas que nos passam pelas mãos e escorrem entre os dedos.
Ainda me lembro do cheiro dela. Cheiro de banho tomado. Um perfume suave e não muito doce. E era gira, a miúda. Miúda não, já era uma mulher.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/18]