Atingido pela Fúria que a Consumia

Ela saltou para cima de mim e começou a bater-me. A bater-me com as mãos fechadas na cara, na cabeça, no peito, onde me conseguisse acertar. Não eram bem murros, que ela não saberia dar murros, coitada, mas eram uma espécie de socos mal paridos dados com as mãos fechadas e mandadas à sorte para cima de mim. Com toda a força que tinha que, não sendo muita, era potenciada pela fúria com que estava. O que é certo é que acabou por me magoar bastante enquanto me atingia o nariz, os lábios, os olhos, quando uma das suas unhas, que nem eram muito grandes por sinal, embora maiores que as minhas, mas eram verdadeiras, não eram brincadeiras parolas de gel, eram as unhas verdadeiras dela, tratadas, limadas e pintadas de vermelho-velvet, que me rasgaram a pele no pescoço e arrancaram dois sinais salientes que eu tinha e que a médica me tinha avisado para eu os vigiar (não sei muito bem o que é que a médica quis dizer com isso) e num olho, que não mo vazou por mero acaso, mas deu um rasgão e ainda tive direito a algumas veias oculares a romperem e a lançarem pequenos esguichos de sangue pelo branco dos olhos.
Eu só me limitava a encolher para me defender dos ataques dela. Encolhia-me para desaparecer e não ser atingido pela fúria que a consumia.
Depois parou de me bater, ficou assim sentada em cima de mim, eu estava sentado no sofá e ela sentada em cima de mim, virada para mim, e começou a chorar, desesperada, e eu vi as lágrimas que rebentaram dos olhos dela e largaram em debandada pelas faces abaixo enquanto gritava Foda-se! Foda-se! Fodassefodassefodassefodassefodassefodassefodasse… até a voz se extinguir e a cara dela se transformar numa massa disforme, com baba e ranho a escorrer dos cantos da boca e do nariz e os olhos raiados de sangue e molhados de tanto chorar, e ela colocar a mão na testa como se tentasse organizar as ideias, suspirar duas ou três vezes, sair de cima de mim a correr para o quarto e fechar a porta com estrondo nas suas costas, talvez mais pela corrente-de-ar que se fazia sentir que pela fúria que, naquele momento, acredito que já estivesse noutro nível, mais de saturação e cansaço que propriamente de zanga.
Ainda perguntei O que é que eu fiz?, mas perguntei em silêncio, só na minha cabeça, só para mim, para evitar mais problemas com ela, principalmente enquanto não soubesse o que é que se tinha realmente passado.
Suspirei. Acendi um cigarro. Pensei na derrota do Benfica anteontem na Grécia, frente ao PAOK, o que lhe tinha vedado a entrada para a Liga dos Campeões e, para agravar a história, o jogo difícil já agendado para amanhã à noite, em Famalicão, contra uma das grandes surpresas da época passada, para a jornada inaugural da Primeira Liga. Está tudo complicado para o Benfica! pensei.
Levantei-me do sofá, apalpei os bolsos das calças. Estavam vazios. Fui à carteira dela. Só tinha uma nota de cinquenta euros. Tirei-os, apanhei o casaco, vesti-o e saí de casa. No elevador vi a minha cara no espelho. Uma cara toda arranhada, com sangue num olho, um lábio rebentado, também a sangrar, e uns pingos já tombados sobre a t-shirt branca e que estavam a alastrar e já não eram umas pequenas manchas mas um desenho sinistro do resultado de um ataque terrorista.
Os meus anos de chumbo! pensei. Às vezes dá-me para o dramatismo. São muitos romances de Harold Robbins em cima.
Saí do prédio. Não sabia o que tinha acontecido ao cigarro que estava a fumar. Acendi outro. Era o último do maço. Fui a fumar até ao quiosque ao fundo da rua. Fiquei cá fora, encostado à montra, com a perna direita flectida e o pé no vidro, a acabar do fumar. Depois entrei. Cheirava a chouriço lá dentro. O dono do quiosque estava à entrada de uma pequena arrecadação a comer uma sandes. Presumi que fosse uma sandes de chouriço, tal o cheiro. Ele parou de comer, largou a sandes em cima de um jornal e colocou a máscara na cara. Lembrei-me que precisava da máscara. Não a tinha comigo. Pedi-lhe um maço de cigarros dali mesmo da porta.
Bati o maço. Tirei outro cigarro. Acendi-o e fui andando ao longo do passeio. E pensei que andava a fumar demasiado. Pensei que tudo na minha vida estava a ficar um bocado descontrolado. Tudo demasiado. Pensei que o normal, fosse lá o que fosse, nunca tinha sido o meu normal. A minha vida era uma sucessão de pequenos e grandes problemas com menores ou maiores repercussões. Nunca tinha conseguido ser dono da minha vida. Estava sempre a ser jogado pelos outros. Fossem os meus pais, a minha irmã, os meus amigos, os meus patrões ou as minhas namoradas. Toda a gente mandava em mim e na minha vida. Toda a gente menos eu. E toda a gente acabava, mais tarde ou mais cedo, por se incompatibilizar comigo. Eu era assim tão mau? Eu era um problema assim tão grande? Ou era só um motivo para os outros libertarem a sua acidez?
Entrei no snack-bar e sentei-me ao balcão. O empregado disse que eu precisava de máscara. E eu perguntei como é que iria beber a imperial com a máscara na cara? Ele suspirou e serviu-me uma imperial.
Ao canto do balcão reparei na televisão desligada. Já não havia Sport TV. E pensei Onde é que poderei ir ver o jogo do Benfica, amanhã?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/17]

Foda-se! Caralho!

E de repente fez-se silêncio. Meu e do outro lado do telefone. Percebi que disse qualquer coisa que não devia ter dito. Busquei, na minha memória imediata, o que tinha acabado de dizer. E entendi.
Do outro lado do telefone o breve silêncio. Depois o suspiro de enfado. O nojo da conversa. E a voz da mulher, a voz fria da mulher sem paciência do outro lado do espectro telefónico diz que vai desligar. E eu fico assustado. Não quero que ela desligue. Não quero que ela se vá embora. Ela diz que aquela linguagem não é linguagem apropriada. Eu disse Foda-se!, mas não a mandei foder. Disse só Foda-se! Uma interjeição. Um grito. Uma forma de sublinhar o meu desespero. O desespero que lhe tinha afirmado mas que percebi que tinha caído em saco roto. Ninguém quer saber dos dramas alheios.
Aquela gente não é gente. Aquela gente tem bits e bytes no lugar do coração. Aquela gente não sente. Não se sente. A lei é regra, mesmo quando injusta. Não há atenuantes. Não interessa a história. Nem o enquadramento. É assim, é assim ponto final, parágrafo.
Porque é que não lidamos directamente com máquinas? Poupávamos nos salários desta gente que não é gente.
Peço desculpa pela minha linguagem, disse. Não queria dizer o que disse, voltei a dizer. Estava, estou, desesperado. Triste. Zangado. Não vislumbro saída. Sinto-me acossado e então, saiu-me Foda-se! Tive sorte não me ter saído um Foda-se! Caralho! que era o mais apropriado quando me sinto encurralado, sem saída e sem fazer puto de ideia de como resolver o problema quando, do outro lado, a voz, aquela voz, monocórdica, gelada, imperturbável, se rege rigidamente pelos mandamentos das regras, da lei, da filha-da-puta da lei que é entendida à letra e feita cumprir à letra a não ser que se possa pagar um advogado, um bom advogado, daqueles que interpreta a lei que, afinal, só é à letra para quem não pode pagar o advogado com dotes interpretativos.
Senti umas lágrimas assomarem aos olhos. A voz a embargar, a ficar retida na garganta. Desculpa! Peço desculpa. Uma e outra vez enquanto ela, a voz, me avisa que vai desligar, que assim não se pode falar e eu vergo tanto as costas a pedir desculpa pela minha linguagem, português, foi português que eu usei! que a voz lá acede a dispensar-me mais uns segundos de caridade à minha pedinchice que eu já sabia que não iria dar em nada. Como não deu.
Depois de desligar o telefone e estar quase na mesma como estava antes do telefonema pensei Estou mesmo fodido! E estou! Estou fodido e não sei como arrepiar caminho.
Há dias em que não me apetece levantar a cabeça da almofada. Há dias em que me apetece ficar na cama, debaixo do edredão, a imaginar mundos de sonho que não são os meus. Há dias em que só um Foda-se! Caralho! me dá alento para continuar vivo, nem sei bem porquê. Nem para quê.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/14]

Os Comprimidos Cor-de-Rosa Já Não Fazem Efeito

Já tomei dois comprimidos rosa, mas não ajudou muito. Agarrei numa garrafa de Vidigueira tinto e fi-la marchar à velocidade da luz.
Sinto-me entorpecido.
Caminho entre o quarto e a cozinha. Faço o corredor. Faço o corredor entre os pontos mais longínquos da casa, o meu quarto e a cozinha. Cada vez me parece mais comprido. Cada vez pareço demorar mais tempo. Cada vez me sinto mais enjoado.
A meio de uma das viagens, faço um desvio à casa-de-banho e acabo a vomitar o syrah, os comprimidos cor-de-rosa e as iscas de cebolada que comi ao almoço. Não devia ter comido as iscas de cebolada.
Quem é que trouxe as iscas de cebolada cá para casa?
Vomito tudo o que tenho dentro de mim. E cuspo. Cuspo na retrete. Cuspo até não ter mais saliva. Lavo os dentes. Bochecho.
Sinto-me tonto. Tenho a cabeça um pouco à roda. Já não tenho nada para deitar fora mas ainda se sinto tonto.
Olho-me ao espelho da casa-de-banho. Vejo as olheiras. Dois papos negros, enormes, tombados sob os olhos. A barba com manchas de pêlos brancos. Algumas peladas. Vejo o cabelo a rarear. Tenho umas entradas grandes. A testa também parece ter crescido. Saem pêlos das orelhas. Tenho os lábios cada vez mais finos. Vejo os dentes amarelados do tabaco. E a espuma da pasta dos dentes nos cantos da boca. Baixo a cabeça e lavo a boca. Bochecho. Lavo a cara. Molho o cabelo. Respiro fundo. Levanto a cabeça.
Vejo uma lágrima a cair pela cara abaixo. Pode ser uma gota de água. Sinto um arrepio no corpo e não é um arrepio de frio. Sinto a angústia chegar. Começo a chorar. Faço uma cara feia ao chorar. Os olhos fecham-se e ficam pequeninos. A boca descai. As maçãs do rosto ficam encarnadas. A cara está luzidia. As lágrimas entram-me na boca e da boca sai uma baba que escorre pelo queixo. O pescoço parece enterrado no meu corpo.
Viro-me de costas para o espelho. Deixo-me escorregar para o chão, encostado ao lavatório.
Encolho-me. As pernas dobradas encostam-se ao peito. Enfio a cara entre as pernas. Dou um berro.
Sinto-me a aliviar. Deito o ar fora, sonoramente, em golfadas. Acalma-me.
Levanto-me. Evito olhar para o espelho da casa-de-banho. Lavo a cara outra vez. Lavo a boca. Bochecho. Esfrego os olhos. Assoo-me e faço barulho ao espremer o nariz para fazer sair a merda que lá está estacionada. Limpo a cara.
Vou até à cozinha. Acendo um cigarro. Olho para a rua. Não consigo ver como é que está o dia. Se é dia ou noite. Se está de chuva ou de sol. Não consigo ver lá para fora. As portadas da cozinha estão fechadas. Olho para a garrafa de vinho vazia. Não tenho mais nenhuma! penso.
Deixo cair o cigarro no chão da cozinha. Esmago-o com o pé descalço. Regresso ao quarto. Volto a fazer o corredor. Agarro em mais dois comprimidos rosa. Não tenho água. Não volto à cozinha. Não vou à casa-de-banho. Engulo-os assim, a seco. Sinto-os arranharem-me a garganta, mas descem por mim abaixo.
Entro na cama. Tapo-me com o edredão.
Espero que passe. Espero que tudo passe.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/29]

Quase o Fim do Mundo

Parece o fim do mundo.
Não se ouve barulho. Pelo menos, barulho humano. Ouço umas cigarras. Os pinheiros parecem estalar sob esta brasa de calor que me consome. Escorro água de todo o lado. Estou deitado nu no chão da cozinha. Nas lajes frescas do chão da cozinha. As janelas todas abertas. Os mosquiteiros proíbem a entrada à bicharada. Estico o pescoço para uma das janelas e vejo, lá fora, naquele céu azul e limpo, uma águia a planar. Não bate as asas. Plana.
Hoje saí de casa para fazer uma análise ao Covid-19.
Vesti calções e uma t-shirt. Ia a sair de casa com uns chinelos nos pés e depois pensei que ia à cidade e que era melhor não ir de chinelos. Calcei umas sapatilhas. Custou vestir-me. Custou calçar-me. Estou habituado a andar nu e descalço por casa com este calor.
Cruzei a cidade de carro. Estacionei. Fiz umas ruas a pé. Pouca gente na rua. Ninguém conhecido. Vou a entrar no laboratório para a análise e dizem-me para esperar lá fora. Ao sol. Ao calor. Já o lá vão chamar, disseram. Esperei. Mas nem esperei muito. Fizeram-me entrar. Um pequeno interrogatório confirmou as informações já fornecidas anteriormente na inscrição para a análise ao Covid-19. Levam-me para uma sala. Pediram-me para me sentar numa cadeira. Todos os funcionários parecem estar num filme sobre o Ébola. Todos cheios de máscaras e luvas e fardas e barretes. Álcool-gel por todo o lado. Tudo muito asséptico. Muito protegido. Eu estou de máscara social e quando me vou sentar na cadeira que a enfermeira me indica, pergunto-me se devo. Mas sento-me. Ela pede-me para puxar a máscara para baixo e libertar o nariz. Enfia-me um cotonete que fura as minhas fossas nasais e vai até onde eu não sabia que podia ir. Fez-me impressão. Vieram-me as lágrimas aos olhos. Não me doeu. Foi só uma impressão. Depois, repete a acção na narina vizinha. A mesma sensação. A enfermeira pede para baixar mais a máscara e enfia-me outro cotonete até ao fundo da boca, ou à garganta, já nem sei, mas fez-me ter uma convulsão. Por momentos pensei que ia vomitar. Vieram-me mais lágrimas aos olhos. Sou um coninhas!, pensei.
A enfermeira disse que estava despachado e que me podia ir embora. O resultado seria enviado para o mail.
E se eu estiver infectado?
A águia desapareceu do meu campo de visão. Tento esticar o pescoço mas não consigo. Não sou elástico. Tenho os meus limites. E eles agora fizeram-me deitar aqui no chão da cozinha e não me deixam levantar. Não para ir fazer um gin tónico. Nem fumar um cigarro. Muito menos para ir procurar uma águia que quero, à força, que seja um sinal, um bom agoiro.
Rebolo sobre mim e fico de peito no chão. Vejo a parte de baixo do frigorífico. Há lá coisas a mexerem-se. Foda-se. Há vida debaixo do frigorífico e eu não consigo levantar-me para lá ir ver o que é e matar a bicheza.
Estou a olhar para debaixo do frigorífico e sinto o chão a mexer-se. Depois tenho a sensação que há um bicho que pára e fica a olhar para mim. Tento vê-lo melhor. Perceber que raio de bicho será aquele.
O bicho começou a mover-se. Parece que vem na minha direcção. Tenho de me levantar. Tenho de me levantar. Vem lá o bicho. Não consigo levantar-me. E grito, Socorro!, mas sei que ninguém me ouve.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/17]

Relevo

Está um belo luar. Não que esteja a apreciá-lo, mas porque me permite ver à minha volta. Quase parece dia mesmo sendo noite. À minha frente vejo as ondas a bater na areia. E ouço-as. Ouço-as como o ribombar do trovão. Às vezes é ensurdecedor, faz-me medo e diz-me quão pequeno sou. Outras vezes faz-me só chorar. Nem sei porquê.
Esta semana voltei a ouvir as pessoas, as pessoas no seu geral, nenhuma delas em particular, que isto é uma ideia generalizada, que a depressão é incógnita e ninguém dá por nada, nunca ninguém dá por nada como se houvesse uma culpa, e ninguém pede ajuda a ninguém, e ninguém diz nada a ninguém, até se é uma pessoa sorridente e feliz, aparentemente feliz, com uma família feliz e feliz no trabalho de todos os dias. E o que é que querem? Que as pessoas andem com os pergaminhos da sua condição pendurados ao pescoço como os diplomas e certificados profissionais pendurados em paredes imaculadamente da cor da casca de ovo?
Há muitos motivos para a depressão e não sou eu que irei falar deles, que não sei nada disso. Não sou médico, nem psiquiatra nem psicólogo. Sou só um tipo como os outros que tem os seus altos e baixos motivados pela vida, pela vida de todos os dias, pelo trabalho ou pela sua ausência, pelo salário baixo ou inexistente, pela indiferença de quem depois vem sempre reclamar não saber, não desconfiar, não perceber, como se quisessem lavar as mãos de um problema que desconhecem. Ninguém é culpado de nada. As coisas são assim. Nós somos assim. A vida, esta vida que vamos levando, ela sim, ela pode ser culpada de algumas coisas.
Acendo um cigarro. É difícil com esta maresia quem vem para cima de mim e molha o cigarro. Mas consigo. Limpo as lágrimas com as costas das mãos.
Estou eu também deprimido? É possível, sei lá. Porque é que me isolei? Porque é que fugi das aglomerações? Porque é que já quase só vivo, feliz, nas redes sociais? Porque é que estou aqui, aqui onde estou, agora?
O mar não está bravo, parece mas não está. Também não está tranquilo. Não é o Mediterrâneo. É o Atlântico e o Atlântico, mesmo quando está tranquilo parece que está a ter uma pequena fúria. Se eu viesse, como ele vem, lá do outro lado, depois de ter visto o que ele viu, depois de ter vivo o que ele viveu, se calhar também estava zangado. Zangado, mas não furioso. A zanga não me dá fúria, pois não? Desmotiva-me. Sim, a zanga, a mim, desmotiva-me. Mas não ando sempre zangado. Só às vezes. Só às vezes é que me zango. E depois desmotivo. E fico assim. Assim como estou hoje, não é? Assim sem vontade. Ansioso. Um bocado perdido. Triste, mas sem saber bem porque estou assim triste.
Levanto-me e caminho ao longo da beira do mar. Vejo o mar a bater na areia. Ouço as ondas rebentarem. Sinto o fumo do cigarro a entrar nos pulmões. Percebo a maresia a misturar-se com as lágrimas. Não sou capaz de parar um pequeno sorriso. E porque deveria pará-lo? Acho piada, apesar de tudo.
Sinto saudades de uma bela sardinhada numa mesa grande e cheia de gente à conversa. Lembro com saudades os espectáculos com os La Fura dels Baus (e porquê os La Fura dels Baus?); o Benfica na Europa e eu no terceiro anel; o ano em que andei a conhecer todas as salas de cinema de Lisboa; quando andei a experimentar as tascas do Bairro Alto e do Cais do Sodré quando o Bairro Alto e o Cais do Sodré ainda tinham tascas; quando ia comprar peixe ao mercado de Campo de Ourique; quando passava, vezes sem conta, de carro, ali à volta do Técnico, em noites solitárias; das férias no Pedrogão com os meus pais; do litoral alentejano com as namoradas que já esqueci – e porque é que já esqueci?; do jornal de parede no liceu; das tardes de fórmula um e de rugby na televisão; das cassetes áudio onde gravava o Som da Frente; a primeira vez que ouvi os Durutti Column; os jogos de futebol na rua, com os amigos; o meu primeiro beijo, sim, ainda me lembro do meu primeiro beijo. A única vez em que fui assaltado, assaltado na rua, em confronto, com uma navalha a picar-me a barriga. Até do assalto tenho saudades.
Páro de andar. Olho o mar. Mando o resto do cigarro fora.
Está um belo luar. Consigo apreciar o luar?
Suspiro.
E luto comigo.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/24]

De um Lado para o Outro

Eu passei aqueles últimos dias caído sobre a mesa da taberna.
Ao fim da noite, o dono pegava em mim e despejava-me na rua, à frente da porta. Largava-me no passeio onde, não poucas vezes, acabava a vomitar e a desejar um dia sufocar no meu próprio vómito e deixar de passar por toda aquela tristeza a que não conseguia fugir.
Entrava lá me manhã para beber um café. Depois era um bagaço. E acabava por ficar por lá. Naquela altura já nem bebia tanto assim. Já não tinha corpo para isso. Bastava-me o primeiro, ou os dois primeiros bagaços do dia, logo depois do café, para já não ter forças para me levantar da mesa. E ficava por lá o resto do dia. A cabeça tombada sobre a mesa, em cima dos braços que a amparavam, que me amparavam. A meio da tarde levantava os olhos e bebia outro que alguém me oferecia. Mas desaparecia logo outro vez, na voragem do tempo e da minha lassidão.
Ao fim da noite, despejado na rua, arrastava-me até casa. Às vezes não conseguia abrir a porta e ficava ali mesmo, à entrada, a dormir em cima do tapete onde, antigamente, tinha força para limpar a sola dos sapatos. Às vezes passava por lá alguém que me abria a porta e puxava-me lá para dentro. A maior parte das vezes ficava ali mesmo, caído, à entrada de casa. Depois, de manhã, voltava a levantar-me e arrastava-me de volta até à taberna onde bebia um café. Depois um bagaço. Depois haveria alguém que dizia que eu cheirava mal. Que estava todo mijado. Que viam os piolhos a saltar na minha cabeça. Mas que queriam? Aquele era o ambiente da taberna. No fundo, eu era a cor local. Haveria de haver quem lá fosse só para me ver a dormir em cima da mesa, rir da minha vida e rezar para que nunca se tornassem nisto, e ouvir o White Traffic dos Go Graal Blues Band, um blues rock dos anos oitenta de companhia ao cavalo. Era assim, eu, aquele sítio, aquela época e o blues do Paulo Gonzo. Mas não se deixem enganar. Eu não andava no cavalo. Muitos outros andavam por lá, até o dono da taberna. Apanhei-o algumas vezes na casa-de-banho a fazer a sopa. Eu não. Eu só bebia. Bebia para esquecer, até que esqueci porque é que bebia e então só bebia porque era o que fazia. Não havia mais vida na minha vida para além daquele espaço, do café de manhã e dos bagaços que me entorpeciam ao longo do dia.
Quando conseguia entrar em casa, corria para a cama e deixava-me cair lá em cima. Evitava tudo o resto. Tudo o resto que já não existia lá em casa. A televisão, a alta-fidelidade, o leitor de dvds, o computador, os livros, os cds, a maior parte dos móveis, as roupas compradas em boa altura da qual restavam meia dúzia de camisolas e dois pares de calças, mas nunca mudava de roupa. Para quê? Por quê? O que é que me esperava para além da mesa da taberna onde repousava a cabeça e onde tentava não pensar mais no vazio em que tudo se tinha tornado?
Naquela última noite, quando o dono da taberna pegou em mim para me levar para a rua, parou mal me tocou. Colocou a mão no meu pulso. Colocou a mão no meu pescoço. Largou-me. Largou-me a mão e o braço caiu pesado sobre a mesa.
Eu estava a ver cá de cima e senti o braço bater com força na mesa. Vi que não me mexia. Ouvi o dono a telefonar para o INEM e dizer Acho que está morto. E lembro-me de sentir uma grande angústia, a garganta fechar-se e não conseguir respirar. Senti as lágrimas abeirarem-se dos olhos. Vi chegarem os paramédicos. Vi-os auscultarem-me. Vi-os darem-me descargas com o desfibrilador. Vi-os abanar a cabeça para o dono da taberna. Vi-os levarem-me. Vi-me na ambulância. Na morgue. No cemitério, num enterro simples e deserto no cemitério. Ninguém, nem mulheres ou ex-mulheres, nem filhos, nem mesmo o dono da taberna, para me dizer adeus, o último adeus na minha última viagem.
Agora ando por aqui a tentar perceber o que é que posso fazer, mas não posso fazer grande coisa. Nem beber. Ando de um lado para outro. Como se estivesse à espera de qualquer coisa. Não sei de quê. Nem sei se estou realmente à espera de alguma coisa. É só uma sensação. Uma sensação para que não regresse de novo ao vazio. Mas tudo parece ainda pior do que estava.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/16]

Do que Me Lembrei Quando Soube o que Acontecera a P.

Percebi o apagador a passar perto de mim porque senti a ligeira deslocação de ar que fez ao passar junto à minha cabeça.
Mais tarde soube que o apagador não tinha sido lançado para mim. O apagador tinha sido lançado em direcção a P., como o Professor acabou por dizer, e confirmado por P. quando nos mostrou um pouco de sangue nos dedos, o sangue que tirou da orelha onde o apagador lhe bateu de raspão, mas o suficiente para lhe fazer um pequeno rasgo e deitar sangue. Ainda hoje me lembro do grito de P. e de me ter assustado com o grito, milésimos de segundos depois de sentir o apagador a passar junto à minha cabeça. O apagador tinha uma parte em madeira. Não sei que parte raspou na orelha de P. mas foi uma parte rija o suficiente para lhe rasgar a orelha e fazer sangue.
Lembro-me da cara do Professor. Era já velhote. Coxo. Um pouco cegueta. Mas um bom professor. Morreu pouco tempo depois. Naquele dia, naquele momento, percebi o quanto ficou preocupado quando viu o sangue nos dedos de P. Percebi que não queria ter feito o que fez. Mas fê-lo. E arrependeu-se logo. Provavelmente no mesmo momento em que lançou o apagador em direcção a P. O Professor estava no quadro a escrever qualquer coisa enquanto falava. Lembro-me de ouvir uma interrogação. Vi o ponto de interrogação na frase, mas não me lembro do que ele disse. Depois o silêncio. Um pequeno silêncio. Em seguida o ar a deslocar-se perto da minha cabeça. P. estava de cabeça abaixada, esticada para a frente, para perto de mim, e estava a dizer-me qualquer coisa, qualquer coisa que não me lembro o quê, a conversa de P. misturava-se com a do Professor e acabei por não ouvir nem o Professor nem P. E depois o apagador a passar por mim e a atingi-lo a ele de raspão. De raspão mas a fazer sangue.
Lembro-me do espanto que vi à minha volta.
J., que mais tarde viria a ser agente da PSP, um agente simpático que, um dia, muitos anos depois ainda mais tarde, chegou a perdoar-me uma multa de estacionamento, J., que estava à minha direita, fez uma cara de enorme espanto e vi-lhe a falta dos dentes de baixo quando me virei para trás para ver o porquê do grito de P.
À minha frente estava M. amigo de longa data, uma amizade que se manteve mesmo depois dos anos de escola, embora nestes últimos tempos, por questões de ordem política, nos tenhamos afastado, e M. tentava ver o que se tinha passado e não conseguia ver bem porque eu estava entre ele e P.
Do meu lado esquerdo, I. estava com a mão na boca e lágrimas nos olhos. Tinha visto o sangue nos dedos e na orelha de P., e não tardou muito para sair da sala de aula a chorar baba-e-ranho. Já não vejo I. há muitos anos. Chegámos a ser namorados durante alguns meses. Depois fomos separados na escola. Fomos para turmas diferentes. Eu deixei de estar com ela, embora a visse na escola. Mais tarde fomos ambos para a mesma cidade frequentar a Universidade. Faculdades diferentes. Cursos diferentes. Alguns amigos em comum. Fui sabendo dela. Vendo-a esporadicamente. Mais tarde soube que tinha casado. Tinha tido um filho. Tinha-se separado. Era professora. Voltara a encontrá-la nas redes sociais mas comunicávamos muito pouco. Partilhávamos algumas opiniões e gostos mas, acho que I. ficou sempre sentida comigo pela forma fria como deixámos de nos ver.
Hoje soube que P. morreu com a Covid-19. A primeira coisa que senti foi o apagador a passar junto à minha cabeça.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/31]

Sem Conseguir Falar

Tudo começou quando ela deu entrada no hospital.
Eu já não sabia dela há vários anos. Embora vivêssemos ambos na mesma cidade, nunca mais nos vimos depois de eu ter saído de casa dela e batido com a porta. Ela ainda escreveu uma enorme mensagem no Messenger. À qual eu respondi. Depois disso fui bloqueado no Facebook. E nunca mais falámos. Nunca mais no cruzámos nas ruas da cidade, mesmo tendo amigos em comum. O destino trabalhou por nós. Separou-nos. E acho que respirámos melhor.
Entretanto ela deu entrada no hospital. Ela deu entrada no hospital e eu fui avisado.
Eu?
Aparentemente eu fui o contacto que ela deu quando deu entrada no hospital.
Eu? Perguntei várias vezes a quem me telefonou a avisar do internamento no serviço de oncologia. Oncologia? Também o perguntei várias vezes. E sim. Não havia erro. Ela dera entrada no serviço de Oncologia do hospital.
Soube depois que ela andou vários dias, talvez semanas, a vomitar toda a comida e bebida que tentava ingerir. Vários dias, talvez semanas, sem se conseguir alimentar. A perder forças. A definhar.
Foi encontrada desmaiada no meio da rua. Estava em cima de um monte de vómito. Não muito. Não muito que ela não tinha nada no estômago. E foi a sorte dela. Ou o azar. Não morreu sufocada no seu próprio vómito. Foi encontrada por um arrumador de carros que telefonou para o cento e doze.
O INEM levou-a para o hospital. Fizeram umas análises. Fizeram uns testes. Fizeram o diagnóstico. Nada que ela já não soubesse. Nada que ela já não adivinhasse. Tentou ignorar. Tentou ignorar o estado em que estava como fazia com tudo o que a incomodava na vida. Ignorava. Ignorava e esperava que desaparecesse. Foi o que vez comigo, também. Ignorou-me. Bloqueou-me no Facebook.
Telefonaram do hospital a dizer que ela estava lá. E então? E então eu era o contacto. Era a mim que ela queria ver no hospital.
E fui lá.
O que levar? O que se leva a quem está no hospital no serviço de Oncologia e sem saber exactamente como é que está quem vamos ver?
Aparentemente, nada. Nada é o melhor que se pode levar.
Quando entrei no quarto ela estava a dormir. Tinha uns tubos a entrar dentro dela. Devia ser soro. Talvez. Ela estava a dormir. Sentei-me ao lado da cama e esperei. Olhei para ela. Não a reconheci. Estava magra. A cara muito seca. Notavam-se os ossos. Mas ainda se percebia que era bonita. Ou que seria bonita noutras condições.
Agarrei no telemóvel e passei pelo Facebook. Passei pelo Instagram. Agarrei-me ao 1010!, e fiquei ali, ao lado da cama dela, a jogar.
E já muito tempo tinha passado, e eu já tinha perdido vários jogos e recomeçado outros tantos, quando ouvi, saída do fundo de um poço, uma vozinha muito frágil e fininha, muito sumida, Olá! e levantei os olhos e cruzei-me com os olhos encovados dela.
Não soube o que dizer.
Fiquei ali, feito parvo, a olhar para ela a olhar para mim, e mesmo depois de ela perguntar Como é que estás? eu não soube o que responder, não consegui responder.
Senti umas lágrimas a caírem-me pelas faces abaixo. Não queria chorar mas não estava a conseguir bloquear-me. Chorei. Agarrei-lhe nas mãos. Agarrei-lhe nas mãos magras e ásperas com força, massajei-as com os meus dedos e continuei em silêncio. Não conseguia falar. E depois tive uma convulsão de choro e chorei em jorro e convulsivamente durante algum tempo. E depois acalmei. Limpei as lágrimas e o ranho com as costas das mãos e respirei fundo, a recuperar a calma. Mas continuei sem falar.
Passaram horas. Depois passaram dias e semanas. Ela começou a fazer quimioterapia e foi enviada para casa.
Eu acompanhei-a a casa. Ajudei-a a instalar-se. Preparei as coisas para os dias mais próximos. E, de repente, parei. Olhei para a rua através da janela da cozinha. Olhei em volta. Reconheci alguns daqueles espaços. Já tinham sido meus, também. Já não eram. Mas eram dela. Eram dela e eu decidi. Decidi que ia ficar ali com ela. Decidi que ia passar por tudo aquilo com ela.
E fiquei.
Até hoje ainda não consegui falar com ela. Ainda não consegui dizer-lhe palavra. Vamos vivendo como conseguimos. Um dia a seguir ao outro.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/18]

Repito-me

Repito-me.
Não sei se é da velhice ou da senilidade. Eu sou já os dois. Velho e senil. Esqueço-me do que digo e volto a dizê-lo. Esqueço-me do que gosto e deixo de gostar.
Volto a falar do tempo. Que está quente. E frio. E chove. E faz sol. E conto as mesmas histórias. As mesmas histórias de sempre. Contos as mesmas histórias que tenho na cabeça. São as únicas que conheço. São histórias que inventei? ou são histórias que vivi? Perco-me na minha própria existência. Já não sei o que vivi ou inventei. Tento regressar, mas regresso demasiado lá para trás e não consigo perceber o que queria perceber.
Repito-me.
Mostro outra vez The Windmills of Your Mind em versão de Dusty Springfield à rapariga que tenho ao meu lado. Depois percebo que é a minha mulher e que foi assim que meti conversa com ela há… Não sei, mas muitos anos.
E ela abana a cabeça e diz Não era eu! e sorri, um sorriso complacente, um sorriso de quem percebe a minha confusão.
Se não eras tu, quem era? pergunto-me.
Mas não sei que resposta dar-me. Eu tento. Tento buscar lá no fundo de mim os pedaços da minha vida. Eu tento mas não consigo. Talvez amanhã quando não estiver a pensar em nada disto. Talvez quando já não precisar ou não me fizer sentido nenhum.
Repito-me.
Já tive esta conversa, não já?
Acendo um cigarro. Ela diz Já não fumas! e eu tusso e percebo que ela tem razão. Sinto um ataque de asma. Tusso outra vez. Tento puxar ar para os pulmões que parecem fechar-se aos meus desejos.
Olho para ela inquisidor e ouço São do teu filho.
Eu tenho um filho?
Eu sou pai?
Não sou eu o filho?
Olho em volta. Vejo a janela. Quero ir à janela. Levanto-me. Não. Tento levantar-me. Empurro o meu corpo para cima. Com os braços a impelirem-me da cadeira. Tento empurrar o meu corpo. Não consigo levantar-me. Estou preso. Estou preso numa cadeira-de-rodas. Na minha cadeira-de-rodas.
Ela levanta-se agarra na cadeira e empurra-me até à varanda. Leva-me lá para fora.
E eu vejo a rua. As pessoas a caminharem ao longo da rua. As pessoas a conversar enquanto caminham. Uns correm. Jovens. Jovens de manga curta. E eu sinto um arrepio de frio nas costas. E sinto as lágrimas que escorrem pela cara. Mas nem chorar consigo. O melhor que faço é deixar cair as lágrimas.
Sinto a mão dela no meu ombro.
Repito-me, não é?
Queria repetir o primeiro beijo. A primeira mão transpirada na mão. A primeira noite. Mas isso não repito.
Já chorei antes, não já?
Sou um esquecimento.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/02]

Como É que se Destrói o que Já Está Destruído?

Como é que se destrói o que já está destruído?
Tinha passado o dia inteiro a pensar nisso: como é que se destrói o que já está destruído?
Fiz o meu trabalho, que não tem nada que saber, não é nenhuma ciência, nem requer grandes conhecimentos, mas que exige bastante atenção, pois estou sujeito a ficar sem os dedos das mãos, há vários colegas meus assim, lá na fábrica, sem alguns dedos das mãos, dedos deixados dentro das máquinas com que temos de conviver, e mesmo assim não consegui deixar de pensar no filme que tinha visto na véspera, à noite, sobre a guerra na Síria. A guerra na Síria e os seus incontáveis mortos. Uma guerra de que ninguém quer saber. Uns mortos que ninguém quer ver. Vi o filme e passei a noite em claro, desperto, de candeeiro aceso na mesa-de-cabeceira porque não conseguia enfrentar a escuridão da noite e o que ela traz. E depois, de manhã, depois de ter bebido uma caneca de café para me manter acordado no trabalho e ter fumado um cigarro, o filme veio comigo para o trabalho. E não deixei de pensar nele. O dia inteiro a pensar nele. Não cortei nenhum dedo, mas também não resolvi a equação: como é que se destrói o que já está destruído?
Às quinze horas, quando acabou o meu turno, pensei em ir dar uma volta pela cidade. Beber uma imperial. Libertar a cabeça dos seus dramas e descontrair. Ir a uma esplanada, talvez. Se não chovesse. Se não fizesse frio. Se não me desse a neura a meio do caminho e mudasse de vontade.
Mas nem cheguei aí, a meio do caminho.
Ao aproximar-me do carro, vi que tinha um furo.
Merda.
Depois de um dia de merda a fazer um trabalho de merda por um salário de merda a pensar que há gente que tem uma vida muito mais merdosa que a minha e, mesmo assim, debaixo de bombardeamentos constantes em cidades sitiadas por anos, têm filhos, têm inúmeros filhos, casam, fazem festas de casamento e de aniversário e buscam, mesmo assim, a felicidade, pensei que, ao ver o pneu do carro em baixo, que merecia um pouco mais de sorte da roda do destino. Até parecia que o mundo me queria atazanar o juízo.
Tirei o pneu de reserva, e vi que, ainda por cima, era de diâmetro mais pequeno, só para desenrascar, e que teria de ir à recauchutagem o mais rápido possível para recauchutar o pneu furado, tirei o macaco e a chave de porcas em cruz e o triângulo. Depois pensei para que raio me serviria o triângulo se o carro estava com o furo no parque de estacionamento da fábrica. Mandei o triângulo para dentro do porta-bagagens e percebi que tinha acabado de fazer merda. Eu a pensar nisso e o triângulo a bater no canto de uma caixa-de-ferramentas (quem é que anda com uma caixa-de-ferramentas no porta-bagagens do carro?) e lascou um bocado do vidro reflector que o vi saltar no ar e projectar alguns reflexos de sol pelo interior do carro como se fosse uma bola de espelhos numa festa de garagem nos anos ’80. E aí bateu uma saudade.
Merda.
Acendi um cigarro. Encostei-me ao carro a fumar o cigarro e pensei para comigo Se estivesse em Aleppo, seria pior! E seria, com certeza. Pois como é que se destrói o que já está destruído? E, estranhamente, acalmei. Deixei o fumo do cigarro entrar pelos pulmões e pensei que, de qualquer maneira, ainda poderia ir beber uma cerveja depois de mudar o pneu. Ora pois.
Deitei o cigarro fora. Arregacei as mangas. Agarrei na chave de porcas e comecei a desaparafusar as porcas que prendiam o pneu ao carro. Depois, antes de tirar as porcas por completo, peguei no macaco e comecei a elevar o carro. É difícil manusear estes macacos modernos.
Uma colega de trabalho, uma colega engraçada do trabalho, uma colega que costuma rir-se constantemente para mim, uma colega que é divorciada e sem filhos, bem-disposta e que faz piadas por tudo e por nada, passou por mim quando eu estava a elevar o carro com o macaco de difícil manuseamento e perguntou-me a rir (lá está!) Precisas de ajuda? E eu sorri, um sorriso amarelo e parvo e limitei-me a abanar a cabeça. Ainda pensei em convidá-la para ir beber uma cerveja comigo depois de ter mudado o pneu, mas olhei para as minhas mãos, todas sujas da borracha do pneu, e senti o cheiro que exalava debaixo dos sovacos e pensei que seria melhor ficar calado, não fosse ela aceitar, a pensar que, afinal queria levá-la era para o pinhal, o que ela quereria, e que com as unhas e os dedos tão encardidos que estavam e com o cheiro azedo que exalava, era bem melhor não me meter em grandes cavalgadas e não estragar aquilo que bem podia ser um caso com futuro no futuro, futuro esse que talvez não fosse assim tão distante. Baixei os olhos para o pneu e senti-a, pelo canto dos olhos, seguir em frente para o seu carro, a olhar para trás, para mim, até entrar dentro do seu carro que, um pouco mais tarde, ouvi sair do parque de estacionamento da fábrica.
Merda.
Acabei de mudar o pneu. Limpei as mãos às calças de ganga, que ficaram sujas, mas as mãos também, também continuaram sujas, encardidas, e as unhas pretas, cheias de merda enfiada debaixo da unhas.
Enquanto mudava o pneu era tal a irritação que não pensei mais na Síria. No fim acabei a pensar que é assim que as pessoas passam ao lado destes dramas: têm os seus próprios problemas, mais dramáticos porque são os seus. E a Síria fica lá longe. Onde é que fica a Síria, afinal? Fica lá no sítio onde ainda se consegue destruir o que já está destruído.
Uma merda, é o que é.
Entrei no carro. Liguei a ignição e pensei Vou beber uma cerveja. E arranquei com o carro. Mas à medida que galgava o asfalto, percebia que não estava a ir para a cidade, para uma esplanada, para um bar beber uma cerveja. Estava a ir para casa.
Cheguei a casa. Larguei o carro. Entrei e fui directo para a sala. Acendi um cigarro e comecei a chorar. A chorar convulsivamente. A chorar baba e ranho. A chorar alto. Aos berros. A chorar tanto que às vezes me parava a respiração. E eram tantas as lágrimas que me turvaram a vista que eu já não via o cinzeiro na mesa-de-apoio à minha frente. Mais tarde vim a perceber a quantidade de beatas caídas sobre o tapete da sala. Mais tarde vim a saber a quantidade de buracos que fiz no tapete da sala. Mais tarde vi as asneiras cometidas. Acabei com os cigarros. Mas continuei a chorar.
Ainda estou a chorar. Tenho que deixar de ver estes filmes idiotas. Para a merda de vida devia bastar-me a minha.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/26]