Mas Qual País?

Vinha no carro. A TSF na rádio. Era um Bloco Central especial com os dois Pedros do costume e o super-Paulo da Caixa, que já o fora dos impostos e da saúde. Na conversa fiquei-me por um aforismo de Luís Montenegro repetido por um dos Pedros: O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Pois não. A vida das pessoas não estava melhor. Mas o país estava? Qual país? Este dos dois milhões de pobres? Dos salários mínimos de quinhentos e oitenta euros? Das pensões de sobrevivência que não chegam a duzentos euros? Dos velhos com terrenos sem futuro perdidos num interior que ninguém quer e que tem de os limpar em tempo recorde? Das pessoas expulsas dos centros das cidades pela ganância? Da pequena e grande corrupção? Dos processos que prescrevem ou desaparecem?
Senti-me deprimido.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Cheguei a casa. Acendi um cigarro e sentei-me no sofá, liguei a televisão e recostei-me. Estava cansado.
CMTV.
Manuel Pinho a lidar os deputados. Os Hells Angels. Os hooligans da Juve Leo e o assalto à Academia de Alcochete. A prescrição dos processos sobre as contas dos partidos da democracia. O desaparecimento de uma parte do processo contra Ricardo Salgado.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Levantei-me do sofá. O cigarro esquecido na mão.
Um jovem esfaqueado e morto à entrada de casa. Bruno de Carvalho a queixar-se à polícia por bullying do Sporting e a pedir audiência à Procuradoria-Geral da República. O botox da Ana Malhoa. Escolas com salários em atraso e falta de alimentos nas cantinas. Agentes da GNR castigados por passarem poucas multas. Os Maias. CR7. Jesus. O Benfica. Ufa!
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
O cigarro consumido caiu ao chão.
Fui ao quarto. Agarrei no revólver. Saí à rua.
Estava no lusco-fusco. Fim-de-dia. Muita gente na rua. A passear. A caminho de casa.
Comecei a disparar. Comecei a disparar a torto e a direito. Acertei. Acertei. Errei. Acertei.Errei.Errei.AcerteiAcerteiAcerteiErreiAcertei…
Os corpos iam tombando à minha passagem.
Eu estava a ajudar o país.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Matei os velhos para poupar nas pensões. Matei as crianças para poupar os serviços de urgência das Maternidades. Matei as outras pessoas todas para poupar o Serviço Nacional de Saúde. Matei brancos e pretos e mulatos e alguns chineses, e homens e mulheres, e alguns gays e trans e travestis para não me acusarem de racista ou sexista.
Matei polícias e médicos para poupar o Orçamento de Estado. Matei professores para evitar mais greves.
Ia limpando tudo à minha passagem.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Até que fui barrado.
A minha mãe viu-me a passar e a disparar e, quando passei ao pé dela, e eu não a vi, levantou a bengala e deu-me com ela na cabeça. Com força. Com fúria. Com muitas lágrimas nos olhos. Com muitos gritos de dor.
Eu cai no chão. E disse Obrigado, mãe!
E tudo ficou negro.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/18]

Estou Sozinho no Mundo

Está calor neste início de noite. O Verão teima em não ir embora. O Outono está assim um pouco para o choninhas, sem força para se impor. Mesmo a chuva que se anunciava foi quase uma amostra gratuita em revista de moda, só para não perdermos o norte e sabermos como ela é. Até a temida Ophelia não passou de uma mera miragem anunciada, mas nunca vista.
Fui até à beira-rio. Há algum tempo que não passava por lá. As comportas foram abertas e o rio é agora quase só um fio-de-água que escorre por ali abaixo.
Subi a ponte e deixei-me lá estar a observar um pouco. A luz a cair. Os miúdos que vêm da escola em grupos enormes e muito barulhentos. Tão barulhentos que abafam o barulho do parque de skate, logo ali, ao lado do rio.
Casais de namorados de mãos dadas. Senhoras com carrinhos de bebé. Duas crianças aos chutos numa bola. Alguém que passa de bicicleta e faz slalom para se desviar das crianças, da bola e dos carrinhos de bebé.
Uma rapariga está sentada no muro sobre o rio a comer um gelado. No fim, manda o papel do gelado para o rio. A pouca água leva-o leito fora. E eu, cá de cima da ponte, fico a vê-lo aproximar-se e a desaparecer debaixo de mim.
De repente, sinto um calafrio pela coluna acima. Sinto chegar uma certa angústia. Aparecem algumas lágrimas nos olhos que tento parar a custo. E penso Mas o que é isto? Porque estou assim? E percebo. Tanta gente e ninguém. Em todo este tempo que tenho estado aqui na ponte sobre o rio, tenho visto tanta gente passar e não conheço ninguém. Ainda não abri a boca. Ainda não falei. E penso que estou sozinho no mundo. E tenho medo. E, aqui, nesta altura em que sinto o medo, uma lágrima consegue escapar e cai pela face abaixo. Mas deixo-a ir sossegada.
A luz já caiu.
Pego no telemóvel. Olho para o ecrã. Mas não está lá nada que me interesse. Nenhuma chamada não atendida. Nenhuma mensagem. Também não tenho nenhuma chamada para fazer. Ponho o telemóvel no bolso das calças e saio de cima da ponte. E penso Quando é que virá a merda do Inverno?

[escrito directamente no facebook em 2017/10/26]

Olha, Vai à Merda!

Estou à janela e fumo um cigarro. Vou mandando a cinza lá para fora, pela janela aberta. Reparei que a vizinha de baixo tem roupa pendurada no estendal, mas não me preocupo. E continuo a lançar a cinza do cigarro queimado pela janela fora. Provavelmente vai cair em cima da roupa lavada. Com um pouco de azar, vai fazer um ou outro buraco numa peça de roupa lavada. Mas não quero saber. Não me preocupa.
Mal acabo um cigarro, acendo outro na beata do primeiro.
Estou nervoso. Acho que furioso mesmo. Estou a conter-me. Mas a libertação da tensão está nas cinzas que vou fazendo tombar sobre a roupa estendida da vizinha de baixo.
Lá ao fundo, na rua, vejo passar uma rapariga com um carrinho de dois bebés. E pergunto-me como é possível sobreviver à invasão de dois pequenos ditadores a exigirem, ao mesmo tempo, atenção por fome, cocó, sono, bronquiolites, colo ou rabuje mesmo. E isto constantemente. Saio mais para fora da janela para ver a rapariga a empurrar o duplo carrinho até desaparecer, e reparo que a vizinha de baixo está a retirar a roupa do estendal enquanto vai refilando mais ou menos alto, e eu acho que é para mim. Mas não quero saber.
Quando estou a acender outro cigarro, vejo passar a voar, a um dedo de distância do meu nariz, um pano de cozinha, encharcado, que vai embater num pedaço do vidro da janela fazendo um som obsceno quando embate. E é aí, e só aí, que percebo porque é que estou nervoso e a fumar tantos cigarros. Ela está ali, no meio da cozinha, aos berros para comigo, com os olhos cheios de lágrimas, toda babada do choro, com um ar desesperado e ao mesmo tempo furioso porque não estou a ligar nenhuma ao que me está a dizer.
Foi como que um despertar para um pesadelo.
Acabo de acender o cigarro e passo por ela, ignorando a sua fúria, de que desconheço o motivo, para sair de casa, enquanto lhe digo Vai à merda!, coisa que ela nem ouviu com os berros que disparava na minha direcção e que eu também não conseguia ouvir.
É quando estou já no elevador a descer o prédio que penso que somos todos muito inteligentes e pensantes e adultos e socialmente responsáveis e correctos e, ultimamente, muito politicamente correctos, defendendo os mais fracos e as mulheres e as crianças e os mais pobres e depois, no meio de uma relação, tornamos-nos os animais que afinal nunca deixámos de ser.
Entretanto o elevador começa a apitar por eu ir a fumar. E eu digo-lhe Vai à merda tu também.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/23]