Um Murro nas Trombas

Caminho pela ecopista. Levo máquina fotográfica e tiro algumas fotografias. Não as mostro a ninguém. Nem eu jamais as vou ver. Acumulo cartões de memória cheios de fotografias e filmes que nunca mais vejo depois de os registar. Vão ficar para memória futura da minha vida nesta época. Uma memória a quem interessar.
Vejo ao fundo a vila. À volta há aldeias. Um pouco por todo o lado há casas. Pedreiras a esventrar a montanha. A zona é muito ruidosa. Não há um enquadramento vazio, selvagem, sem rasto de intervenção humana.
Passo por dentro de um túnel. Regresso ao céu aberto numa nesga e retorno a um segundo túnel. Está frio dentro dos túneis. Caem pingos de água do tecto. Um deles acerta-me na cabeça. Sinto-o contornar-me o crânio e escapar-se pescoço abaixo e enfiar-se pela costas. Dá-me um arrepio. Depois desaparece absorvido pela camisola.
Deixo o segundo túnel para trás e páro para fumar um cigarro. O trajecto está vazio de gente. As pessoas devem andar às compras no Centro Comercial. Está um bom dia para andar na rua. Não está frio. Não chove. Está…
Sinto um aperto no coração. Penso se não será do tabaco. Mas percebo logo que não.
Passo o ano a fugir. Passo o ano a pensar numas coisas para não pensar noutras. Esquecendo-as, esqueço-me da tristeza.
Levo com a época em cheio nas trombas. Sem aviso. Num sítio sem história, a fumar um cigarro e a ver como lá ao fundo, e visto aqui de cima, tudo é tão pequeno, as pessoas, a vida, os problemas.
E zás.
Materializa-se dentro do coração. Provoca-me uma lágrima que tento reprimir e ainda digo Que raio! como se não soubesse a que se deve, mas sei.
Eu bem tento não ligar à quadra, às festas, ao apelo constante do amor ao próximo, à família, ao reencontro. E, no entanto, ela chega. Forte. A ausência. A minha e a deles.
Não consigo parar a enxurrada de água que galga dos olhos para fora. Sento-me na cerca de madeira que circunda o caminho e não deixa as pessoas perderem-se ao longo da pista, sento-me com as pernas para fora, sobre o penhasco, lá em baixo a vila, o castelo, que está lá em baixo embora esteja numa colina, sento-me lá, na cerca, a fumar o cigarro e a pensar nas ausências. Digo Merda de Natal! como se o Natal tivesse culpa, alguma culpa dos nossos problemas. Dos meus problemas. Mas sei que não é o Natal que me incomoda. É esta alegria a que sou alérgico. Uma alegria obrigatória como obrigatório é comprar coisas, não importa o quê, coisas, muitas coisas, livros, discos, jogos, roupa, meias e a porra dos Ferrero-Rocher que andam de casa em casa até que finalmente alguém os come, ninguém sabe quem.
Sento-me na cerca de madeira a fumar um cigarro e pergunto-me se ainda se lembram de mim. E não sei a resposta. Ou tenho medo de saber.
Quero que passe rápido o Natal e eu possa voltar ao esquecimento. Prefiro esquecer que sentir a minha ausência na ausência deles.
Apago o cigarro contra a madeira da cerca. Levo a beata apagada na mão. Esqueci-me que tinha a máquina fotográfica nas mãos e bato-a contra a madeira da cerca. Porra! Regresso à minha vida de olhos molhados e o coração desfeito. Ainda o sinto bater, mas bate descompassado. Um coração em segunda-mão, com certeza. Um resto que ninguém quis.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/22]

Voltar a Votar

Por vezes tento recordar como as coisas eram. Mas já se torna cada vez mais difícil. A memória já não é a mesma. E o presente vai matando o passado aos poucos. Nunca houve muita necessidade de o esconder. O passado. Na verdade nunca foi preciso reescrevê-lo. Ele morre de morte natural na memória dos poucos resistentes que ainda não morreram. Tudo se perde. Tudo acaba por se perder. Tudo acaba por se perder se não fizermos nada para manter vivas essas memórias.
Lembro-me da última vez que houve eleições livres. Eleições em que todas as pessoas, homens e mulheres, com mais de dezoito anos, puderam votar. Era Primavera. Uma Primavera especialmente quente. As alterações climáticas estavam a começar a alterar o ritmo dos ciclos climáticos. As estações andavam baralhadas. Estava, portanto, muito calor. As pessoas foram para a praia. Lembro-me porque, em dia de eleições, a abertura dos serviços noticiosos foi com as filas intermináveis de carros para ir para a praia e para vir da praia. Foi um Domingo que entrou por Segunda e Terça-feira dentro. Lembro-me porque tudo isso criou um grande caos. Gente que faltou ao trabalho. Miúdos que faltaram à escola. Até deputados que faltaram à Assembleia. Todos perdidos em filas de trânsito intermináveis. Lembro-me porque essas foram as últimas eleições. As últimas eleições livres. As eleições dos dez por cento. Só dez por cento dos eleitores é que foram votar. Houve mesmo candidatos que não chegaram a ir às urnas. Candidatos que não foram votar. Lembro-me porque foram as eleições ganhas por grupúsculos de bandidos sem ideologia mas com uma fome imensa de poder e capital. Lembro-me porque foi assim que assumiram o poder e nunca mais de lá saíram. Lembro-me porque foi assim que chegámos ao dia de hoje.
Pouca gente se lembra. Mas ainda há quem se lembre.
Quase ninguém quer lembrar. Lembrar é assumir a culpa. O erro. E é difícil dizer que a culpa é nossa. É difícil dizer que a culpa é minha. Minha!
Sim, eu ainda me lembro. E por vezes tenho de contar. Contar a mim. Para me ouvir. Para que não me esqueça. Para que não deixe de saber o caminho que me trouxe aqui onde estou hoje.
Estou à janela. Estou à janela do meu quarto. Agora partilho a casa com mais quatro pessoas. Agora as pessoas vivem em quartos. As casas são divididas em quartos. Uma pessoa, um quarto. Uma família, um quarto. É a divisão equitativa para evitar a miséria dos sem-abrigo. É um estado-protector. É assim que contam a história. Mas eu sei dos condomínios onde vive a elite. Os condomínios. Os parques. Os jardins. Os lagos. Longe das cidades. Longe da miséria das grandes cidades.
Enrolo um cigarro. É difícil arranjar cigarros. Fazem mal à saúde, disseram. Foram proibidos. Mas arranjo barba-de-milho e consigo enrolar uns nas folhas de uma Bíblia que encontrei no mercado. Custou-me dez LP’s de vinil. Voltaram a estar na moda. O povo ouve música em MP3. O som flat, sem perspectiva, sem dimensão, sem ondas dos MP3. A elite redescobriu a qualidade de vinil. Os meus antigos discos têm muito valor. Dez deles valeram-me esta Bíblia que me permite continuar a fumar aqui, assim, à janela, enquanto olho as pessoas que continuam iguais, a correrem para sítios, a irem para trabalhos sem sentido mas ocupacionais. Sem tempo para nada. Sem tempo para olharem umas para as outras. Sem tempo para pensarem no tempo que ficou. Sem tempo para olharem para trás.
Eu não.
Eu gosto de pensar naquilo que perdi. Eu obrigo-me a pensar naquilo que perdi. Porque tenho esperança de um dia conseguir recuperar a vontade de ser mais que um grupo. Porque tenho esperança de um dia ser mais que um número num conjunto de gente igual. Porque tenho a esperança de um dia conseguir voltar a ser um indivíduo. E voltar a votar. Voltar a ter a possibilidade de votar. Voltar a ter o direito e o dever de escrever a minha própria história.
Tenho uns livros do Philip K. Dick. Do Stanislaw Lem. Do Philip Roth. Livros que vou passando a algumas pessoas. A pessoas que ainda não perderam a esperança. A pessoas que ainda questionam. A pessoas que ainda não perderam a capacidade de pensar, mesmo que seja cada vez mais difícil fazê-lo. E quando regressam, esses livros, vêm com algumas memórias. Vêm com algumas ideias. Alguns deles vêm com relatos de vidas escondidas. As boas e as más. É assim que eu sei dos condomínios. E de outras coisas que um dia contarei.
Agora só quero fumar esta cigarro feito com barba-e-milho e uma folha da Bíblia. Agora só quero parar esta lágrima que teima em tombar cada vez que penso nestas coisas em que penso. Agora só quero olhar lá para fora e imaginar que estas pessoas, que vejo ali a passar autómatas, um dia, ainda podem voltar a ser livres. Livres e felizes.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/24]

Não Tenho uma Casa a Lembrar com Nostalgia

Acompanhei-o num regresso ao passado. Já tinham passado tantos anos. Já tinha passado tanta história. Já tinha passado tanta vida. Ele mesmo já era outro, embora nunca tivesse deixado de ser, também, aquele que tinha sido naquela altura. E, no entanto, aquele regresso, quase cinquenta anos depois, àquele lugar, àquele lugar específico, estava tão carregado de emoção que até eu a podia sentir ali, perto mas distante, ao lado dele.
O lugar, bem entendido, já não existia. Já não existia como ele o tinha conhecido. A casa onde viveu aqueles oito intensos meses, já não existia. Agora era um condomínio fechado. Janelas enormes. Linhas direitas. Tudo muito rectangular e sóbrio. Provavelmente abrigava gente com dinheiro. Com muito dinheiro. Também tinha sido assim, naquela altura, pelo menos até eles lá chegarem e tomarem conta do espaço naquele Verão onde tudo parecia possível. Mas as coisas eram diferentes. É sempre tudo muito diferente ao longo da cronologia do tempo. E o passado tem essa capacidade de nos embelezar o que ficou lá para trás, principalmente quando fomos jovens, idealistas e uns idiotas cheios de esperança no futuro.
Ele encostou-se ao muro do outro lado da estrada e ficou ali a olhar para aquele prédio que não lhe dizia nada mas que lhe tinha aberto uma auto-estrada para a época em que lá viveu.
Eu encostei-me ao lado dele. Como ele. E também olhei para o prédio. Achava o prédio bonito. Mas era só. Ao contrário dele eu não tinha empatia com casas.
E fiquei a pensar nisso enquanto olhava para uma das janelas do prédio. Eu não tenho para onde voltar. Não tenho um sítio para onde ir rejuvenescer memórias preciosas de épocas fantásticas. Não tenho uma casa de família. Não tenho uma casa-mundo. Não tenho um espaço de importância. Claro que houve momentos. Momentos bastante importantes na minha vida. Mas foi tudo disperso por casas sem história. Eu nasci numa casa. A minha irmã nasceu noutra. Nenhuma delas existe mais. O meu pai morreu noutra casa. Os meus filhos nasceram noutra. Cada um deles numa casa diferente. Quando casei fui viver para outro sítio. Quando me divorciei, despachei-me para uma kitchenette com um divã. Hoje… Hoje já nem sei bem por onde ando. Vou com o vento.
Apareceu um homem, já de uma certa idade, numa das janelas do prédio. Pôs-se a olhar para nós. Devia estar a pensar Quem serão estes tipos? A olhar aqui para casa?
Virei-me para ele e percebi que não estava ali ao pé de mim. Estava, mas não estava.
Eu gostava de ter uma casa da avó com sótão onde ir vasculhar o passado. Uma arrumação onde encontrar a minha infância. A minha adolescência. A minha formação. Não sei onde param as minhas bicicletas. O skate. Os jogos de tabuleiro. O Monopólio. O Risco. As bolas de futebol. Nem a PlayStation, a primeira que saiu e que tive já em adulto, não sei onde pára. Mas a verdade é que também não penso nisso. É importante? Se calhar não. Ou então estou a fazer mal as contas.
Não tenho um rio. Uma rua. Uma aldeia. Uma cidade.
Tenho um Verão. Ou dois. Uma viagem. Ou duas. Mas as estórias perdem-se nos espaços. Onde aconteceram? Algures por aí. Nem sei.
A cara dele mexeu-se. Vi porquê. Uma lágrima deslizava pela cara. E fez-lhe um risco brilhante naquela cara tão marcada.
Acendi um cigarro.
O homem continuava à janela, protegido pelos seus vidros duplos, ou triplos, a olhar para nós.
E pensei que se um dia quisesse contar histórias da minha vida iria ter muita pouca coisa para contar. Pelo menos coisas emotivas. Daquelas que trazem um nó agarrado ao estômago. Talvez eu seja desligado. Talvez não seja pessoa para me prender a coisas tão insignificantes como casas. Mas isto também não demonstra a minha falta de afectividade? A minha falta de amor?
Ele limpou a face com as costas de uma mão. Virou-se para mim e disse Vamos! E fomos.
O homem já não estava à janela.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/03]

O Bêbado da Aldeia

O tipo estava sentado lá ao fundo, no muro que limita o quintal. Estava sentado no muro a olhar para as mesmas montanhas que eu costumo olhar, mas cá de cima, do alpendre.
Geralmente não consegue chegar tão longe. Geralmente cai de bêbado logo no início da rua. Quando acorda, volta para trás. Mas há dias em que consegue chegar até aqui. Senta-se no muro. Fuma um cigarro. Às vezes adormece, sentado no muro. E não cai. Depois acorda e volta para trás. Volta para casa. Ele mora do outro lado da aldeia. Costuma sair de casa já bêbado e vem por aí fora até parar. Pára onde parar. Dorme um pouco. Volta para trás. Raramente vai além da minha casa. Quase todos os dias isto repete-se.
Eu fui ao frigorífico e apanhei duas Sagres médias.
Desci o quintal.
Percorri o muro, por dentro. Aproximei-me do tipo. Passei as pernas para o outro lado do muro e sentei-me ao pé dele. Abri uma garrafa e dei-lha. Ele agarrou-a. Abri a outra. Batemos as garrafas e demos uma grande gole. O dele foi enorme. Quase que despejou a garrafa de um só trago.
Acendi dois cigarros. Dei-lhe um. Ele agarrou no cigarro e acenou com a cabeça.
Ficámos ali assim, os dois, a beber uma cerveja, a fumar um cigarro e a olhar as montanhas em frente. Lá muito ao fundo. As montanhas estavam brancas lá no cimo. Estavam com neve. É raro nevar. Às vezes acontece. Tem estado frio. Mas hoje o sol rompeu. Estava-se bem ali, debaixo do sol.
Estivemos algum tempo em silêncio. Só a olhar. Até que ele diz Vou contar-te uma história! Eu olhei-o. Mas ele não me olhou. O olhar dele continuava no alto das montanhas em frente. Mas estavam húmidos. Não sabia se ia chorar ou se era da bebedeira.
Há muito tempo que ela me andava a chatear para levarmos a miúda à praia. Estás a ver? A miúda já tinha cinco anos e ainda não tinha visto o mar. Nem a areia. Nunca tinha ido à praia. E morávamos aqui, tão perto da praia. Naquele dia resolvi fazer uma surpresa, sabes? Levantei-me cedo. Tratei dos animais. Apanhei umas hortaliças. E depois disse-lhe para vestir a miúda. Íamos à praia. Ela ficou tão contente, mas tão contente, que se agarrou a mim, cruzou os braços no meu pescoço e beijou-me. Ela beijava tão bem! E lá fomos nós. Íamos os três na motorizada, sabes? Íamos os três na motorizada para a Nazaré quando, ao chegar aos campos, ali naquela recta antes da subida, estás a ver onde é? vem um carro, branco, tão branco que parecia um sonho, vinha para cá, nós íamos para lá e, de repente, saiu um outro carro, vermelho, esse era vermelho, saiu de trás do outro, para o ultrapassar, acho que não me viu, ou quando me viu já era tarde, já estava ao lado do outro carro, acelerou e, quando estava a aproximar-se de mim guinou para a direita, mas ainda não estava distante suficiente do outro carro e ele bateu-lhe, bateu-lhe na traseira e fez o carro derrapar, e o carro derrapou, derrapou para cima de nós, de nós os três que íamos na motorizada, e eu senti o embate, senti quando fomos projectados mas, depois, depois mais nada!, não me recordo de mais nada. Acho que desmaiei.
Ele levou a garrafa de cerveja à boca e acabou com ela. Olhou para o resto do cigarro, que já era quase só filtro, deu mais uma passa e jogou-o fora. O olhar sempre no alto das montanhas. E, depois de um silêncio, concluiu.
Acordei no hospital. Estive lá um mês. E só depois de sair de lá é que soube.
Eu vi uma lágrima a cair-lhe pela face. A boca mexeu-se, mas não disse nada. Levantou-se. Disse Tenho saudades dos beijos dela! e foi embora. Voltou para trás. Regressou a casa.
Eu fiquei ali no muro mais um bocado. A pensar nas vidas que temos. Nas que perdemos. A pensar como tudo é efémero. E cruel. E a pensar onde é que Deus anda nestas alturas.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/05]

A Mulher, parte 02

[continuação de ontem]

Os olhos fechavam-se com o cansaço. A leveza da cabeça apoiada ao acrílico atrás de si relaxavam-na. Via as pessoas a passarem, difusas, à sua frente para entrarem dentro do autocarro. Aliás, dos vários autocarros, que acabaram por ali parar vários ao longo da noite que começara já há algum tempo.
Ela esqueceu-se que estava ali. Sentada num desconfortável banco de alumínio na paragem de autocarro. Estava tão cansada que adormeceu. Esqueceu-se de que tinha um autocarro para apanhar. Esqueceu-se que tinha um filho para tratar. Simplesmente foi vencida pelo cansaço. Adormeceu ali assim, no meio daquele barulho. No meio daquela confusão. Gente. Gente ao telefone. Adolescentes na galhofa. Autocarros. O cheiro do combustível queimado dos autocarros. Os táxis. As buzinas dos táxis. Os carros. As motorizadas. O pára-arranca. O caos.
Mas ela já não estava ali. Estava em casa. Não na casa para onde devia ter ido de autocarro. Não na casa onde o filho a aguardava. A casa de onde veio, há muitos anos, de uma vida sem futuro, para tentar melhor sorte e uma nova vida. E onde é que ficava mesmo, essa nova vida? E em que futuro?
Ela estava na ilha. Dançava uma morna. Debaixo das estrelas. Umas guitarras lentas, dedilhadas. Uma voz rouca, cansada. O desejo. Ah, a porra do desejo. O dançar juntinho. Sentir em si o outro todo, inteiro. Depois a fuga para a praia. O riso. A gargalhada. As brincadeiras. O desejo. Era tão feliz nessa época! Não tinha dinheiro. Nem trabalho. Ajudava em casa. Ajudava a cuidar dos outros irmãos. Era uma irmã-mãe. Mais branca que todos os outros. Aliás, ninguém dizia, ao primeiro olhar, que ela era preta. Era branca. Sem discussões. A única branca naquele conjunto de, quantos? Quantos irmãos? Doze, treze. Talvez catorze. Não sabia quantos é que já tinham morrido. Nem quantos ainda nasceram já depois de ter vindo para cá. Com o seu homem. À procura de uma vida que não tinha lá. Eram outros tempos aqueles. Hoje, se calhar, talvez fosse diferente. Mas teve coragem. Coragem de voltar costas a casa, à família, e vir à aventura para o desconhecido. Começar uma vida do zero. Ainda se lembra. Do zero. Do nada. Do não ter nada e começar a ter alguma coisa.
Ela continuava sentada no banco de alumínio e com a cabeça encostada ao acrílico atrás de si. Estava a dormir profundamente. Ouvia-se na sua respiração. Uma respiração profunda. Descansada. A mulher sentada ao seu lado olhava-a e sorria. Um sorriso sem maldade. Compreendia o cansaço. Ela própria também se sentia assim, muito cansada, às vezes. Havia dias assim.
Já não havia fila para os autocarros. Três, quatro pessoas aguardavam debaixo da plataforma da paragem. Agora já passavam mais espaçados no tempo. Eram menos. A hora de ponta ficara lá para trás. Já era de noite. Noite cerrada. E ela continuava ali a dormir. Como se estivesse em casa.
Mas não estava ali. Nem lá. Estava na ilha. Passeava numa zona de rocha. Rocha vulcânica. Caminhava descalça sobre a lava fria. Depois corria a descer uma ladeira. Vinha a rir, desengonçada, a correr pela ladeira abaixo. Atrás dela um rapaz. Ria com ela. Como ela. Chegaram lá abaixo, ao fundo, ela parou e despiu-se. Ele também. Ficaram nus. Sem vergonhas. Ela mergulhou no mar. Ele também. Ela nadou. Ele foi ter com ela. Abraçou-a. Abraçaram-se. Beijaram-se e deixaram-se envolver pela água do mar.
Ela sorriu. No seu sono, sorriu do seu sonho. Sentia-se feliz. Era feliz. E agora? Agora que até tinha trabalho. Agora que até tinha algum dinheiro, guardado dramaticamente todos os finais de mês a tentar sobreviver sem lhe mexer até receber o novo salário. Agora que até tinha um filho. O seu filho. O filho de uma mãe. Sem pai. Sem marido. Sem homem, que eles não servem para nada. Não. É mentira. Claro que servem. Servem para lhe apagar o fogo que a invade. Aquele fogo insuportável que lhe consome o peito e as entranhas. Não há água, nem cerveja, nem grogue que mate aquele fogo. Aquele fogo só se combate com um homem. Um homem com desejo. E foi assim que nasceu o seu filho. Um filho que era filho dos dois. Que foi filho dos dois até o desejo dele esmorecer. E nascer por outra. Mas ela nunca se importou. Agora a sua vida tinha ganho um sentido. O sentido. Agora tinha um filho para cuidar. Dar vida. Oferecer-lhe as oportunidades que ela não tivera. Mas e ela? Era feliz? Era feliz, agora?
Uma lágrima caiu pela face dela a dormir. Estava tão cansada que não acordou. Passaram todos os autocarros que a podiam levar para casa. Agora já era tarde. Mesmo tarde. E ela continuava a dormir.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2018/10/14]

O Carrossel em Andamento

Vivemos tempos difíceis.
Mais que difíceis, parvos.
Vivemos tempos parvos.
À minha frente, na fila de um hipermercado gigante de subúrbio, uma chinesa queixa-se não sei bem do quê nem de quem, mas que a culpa era dela ser chinesa porque se fosse portuguesa o problema nunca se poria. Seria um caso de racismo se por ventura ela tivesse pronunciado a palavra. A verdade é que a palavra nunca foi dita. Ao contrário do Foda-se! para aqui, e do Foda-se! para ali, dito com todos os preceitos de um falante de mandarim que falava, e percebia, na perfeição, a língua de Camões. Foda-se!
Passado o desabafo e sobrevivendo à Demo-Crácia chinesa que muito tem para ensinar ao mundo, descubro, no telemóvel, através do sempre prestável serviço noticioso do DN, a estória de um homem que se lançou do alto do terceiro andar do Centro Comercial Colombo directamente para o Hades através dos braços doces de Thanatos.
Tudo isto depois de ter passado a noite em branco à espera das resoluções twitais do Presidente Americano sobre mais uma guerra que muito vai encher os cofres de quem os tem já bastante cheios. Guerras e mais guerras mantêm o carrossel em funcionamento. O problema são os químicos. A sério? As armas químicas? Não a morte? As armas? A merda em que este mundo está atolado, não? O problema são mesmo as armas químicas? Como dizia a chinesa no seu perfeito português continental, Foda-se!
Pelos vistos, banqueiros e madeireiros há-os em todo o lado.
E nem vou falar nos suicídios motivados por toda esta mistura azeda de gente com falta de carácter. Irrita-me é que numa grande parte das escolas seja o que se está a ensinar. Por causa dos ratings (adoro estas palavras – gostaria de poder utilizar também por aqui o alavancar que é uma expressão de que gosto muito também).
E no meio disto tudo, desta merda toda, lembro-me do post do Rui Pedro Dâmaso sobre um dos melhores álbuns de sempre dos Sonic Youth e quase que faço as pazes com a vida. Voltei a ouvir o Washing Machine e é mesmo uma álbum do caralho, talvez um dos melhores de uma das minhas bandas preferidas.
Acabei, realmente, por fazer as pazes com a humanidade quando tive a oportunidade e a disponibilidade de ler o enorme texto do Rui Poças sobre as coisas boas da vida que se vão perdendo, que se vão deixando lá para trás e que tantas e tantas saudades nos trazem, como as velhinhas cassetes de plástico (as sonovox eram feitas na Marinha Grande), com mixtapes feitas com muito gosto e com faixas escolhidas a dedo, numa sequência única e pensada sobretudo para a pessoa a quem, por ventura, se destinava.
Muito longe estávamos da competição desenfreada, má-educação e desespero que fundamentam os dias de hoje.
Não estou enterrado no passado, não sou um passadista, sou amante das novas tecnologias, mas continuo a achar que um Homem é um Homem.
E o toque, o colo, o carinho, o amor, uma festa, uma lágrima de gratidão fazem bem mais por este mundo que toda esta economia merdosa baseada na ultrapassagem pela direita aos valores, à paixão e à camaradagem.
Obrigado Rui Pedro Dâmaso e Rui Poças por ainda me fazerem acreditar.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/14]

Talvez um Dia Consiga Mergulhar

Estava indeciso.
Todos os anos é sempre a mesma coisa. Fico indeciso. Depois acabo por tomar sempre a mesma decisão. Mas no início estou sempre indeciso. Não sei se o devo fazer ou não. Mas é real esta minha indecisão. Tenho realmente dúvidas se devo, ou não, fazer o que faço.
Por vezes penso que deveria não o fazer e seguir com a minha vida em frente. E é quando estou mais certo e seguro da minha decisão e da importância de ultrapassar isto que tomo sempre a decisão de voltar a entrar na florista e comprar um ramo de rosas. Rosas para a minha rosa.
E desta vez foi tudo igual ao que costuma ser. À indecisão respondo sempre com a mesma decisão. Comprei as rosas. O mesmo número. A mesma cor. Agarrei nelas, entrei dentro do carro e arranquei para São Pedro de Moel.
Ainda era de dia quando saí da cidade, e ainda era de dia quando cheguei a São Pedro. Mas a luz já estava baixa. Estávamos a entrar no lusco-fusco.
Fui de carro até ao parque à beira do penhasco. E estive um bom bocado lá parado. Dentro do carro. Em silêncio. Com as rosas num molho no banco ao meu lado.
E vi-a. Vi-a a correr, a passar à frente do carro, a acenar para mim para que a seguisse, a sorrir-me, com os cabelos levados pelo vento. E depois desapareceu.
Saí do carro e fui até à beira do penhasco. Estava vento. Um vento frio. Gelado. Estava um Inverno típico de São Pedro de Moel. Vento. Um frio cortante. Um cheiro a maresia. E o barulho das ondas a rebentar nas rochas, lá em baixo, mas que subiam penhasco acima até aos meus ouvidos. Caíam-me em cima algumas gotas de mar. Gotas mais atrevidas que subiam mais que as outras e depois se lançavam em queda sobre mim.
Sentei-me numa rocha e acendi um cigarro. Estive ali muito tempo para acender o cigarro contra todo aquele vento. Mas consegui.
Fumei o cigarro enquanto a luz se ia extinguindo, com o sol já morto e enterrado lá ao fundo, para lá do horizonte. Fumei o cigarro enquanto olhava o mar e sentia a sua força descomunal. Fumei o cigarro e vi-a novamente, agora sentada ali ao meu lado, também ela a fumar um cigarro e a olhar para mim com aqueles olhos tão alegres e brilhantes. Depois viu as rosas e perguntou-me São para mim?, e eu esbocei um pequeno sorriso, e ela agarrou nas rosas, levantou-se da rocha num pulo, deu três passos em frente, a correr, e mergulhou no vazio, levando as rosas com ela.
Eu continuei sentado na rocha a fumar o meu cigarro. Continuei a olhar o mar. A ouvi-lo. A cheirá-lo. Quando acabei de fumar, mandei fora a beata e levantei-me. Cheguei-me à beira do penhasco e olhei lá para baixo. A noite caía, mas ainda consegui ver as rosas a boiar na espuma das ondas rebentadas.
Caiu-me uma lágrima. Só uma lágrima. Cada ano que passava chorava cada vez menos. Para o próximo ano já não chorava. E nos outros, talvez começasse a sorrir. E sorri das minhas parvoíces.
E ainda pensei, Talvez um dia consiga mergulhar e ir ter contigo. Talvez um dia. Mas ainda não é hoje.
Virei costas e entrei no carro.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/14]

Gente em Silêncio

Estava a acabar de comer o caldo verde, que tinha lá a boiar uma rodela de chouriço, com uma fatia de broa, quando me colocaram um copo de plástico com vinho à frente.
Rapei o prato, coloquei a rodela de chouriço em cima da fatia de broa e comi tudo, na companhia do vinho.
Só nessa altura é que reparei em quem estava ao pé de mim, na mesma mesa. Gente como eu. Gente triste e solitária. Gente em silêncio. Gente que não tinha sítio onde viver, que andava por aqui e ali, a tentar não morrer.
Estava frio. Muito frio. Nestes últimos dias tinha estado muito frio e havia pessoas que prescindiam das suas vidas, nestes dias, nestas noites, para nos ajudar um pouco. Não resolvia nada, mas ajudava a continuar a caminhar até onde quer que conseguíssemos ir.
Era vésperas de Carnaval. Havia assim uma certa agitação histérica na cidade. Anunciavam-se festas. Via-se gente mascarada. Grupos de jovens percorriam a cidade em alegres brincadeiras, fazendo barulheira até às tantas da manhã.
Nestes dias é-me mais difícil adormecer com tanta gente nas ruas. Fico mais desassossegado.
Um homem voltou a colocar mais um pouco de vinho no copo e, atrás dele, uma rapariga novinha, muito bonita, ia dando uns sacos de plástico com coisas para comermos mais tarde. Umas bolachas… Maçãs…
Bebi o vinho do copo de uma vez e levantei-me. Preferia sair logo dali antes de me bater a tristeza, antes da nostalgia fazer mossa. Antes que alguém metesse conversa. Antes de ser social e perceber a merda onde estou. Eu sei onde estou. Mas não quero falar nisso. Não quero pensar nisso. Quero passar ébrio por entre estas noites perdidas. Não ver ninguém. Não falar com ninguém. Não criar amizades solidárias. A minha miséria era solitária. Muda. Já nem sei como soa a minha voz. Os obrigados que vou deixando por aí já são quase só grunhidos. Que não soam a mais que isso. Grunhidos.
Saí do armazém. Cá fora estava muito frio. Cheguei a gola do casaco mais para cima e pus-me a andar pela cidade, à espera que ela adormecesse e eu pudesse, enfim, enfiar-me num buraco e descansar um pouco até ser dia outra vez. Estas rotinas ajudam-me a sobreviver. Mas ao mesmo tempo matam-me. Este cansaço prolonga-se no tempo e tudo passa a ser automático. Frio. Sem razão de ser, a não ser… Ser.
E então lembrei-me de, um dia, também estar assim numa festa de Carnaval e estar com um grupo de amigos a dançar na brincadeira e a cantar Lá vai o comboio, lá vai a apitar, e sorri, caiu-me uma lágrima pela cara e ouvi-me cantarolar Lá vai o comboio. E reconheci-me.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/09]

Um Homem Não Chora

Encontrámo-nos num café. Um sítio público para evitar grandes dramas. Somos adultos, mas é com facilidade que regredimos à adolescência. As emoções fazem-nos reagir cegamente. Às vezes mesmo sem ter ainda pensado sobre as coisas.
Estávamos, portanto, num café. Frente a frente. Calados. Eu mexia a minha chávena de café. Ela deixava o seu café esfriar sem lhe tocar. Eu ia mudando o meu olhar dela para o café às voltas dentro da chávena, arrastado para o vortex provocado pela colher às voltas. Ela, muito direita na cadeira, não tirava os olhos de mim. Não sei o que é que ela estava a ver. Mas não devia ser nada de bom. Eu tinha de desviar os olhos dela porque me sentia intimidado. Era um olhar frio. Quase gélido. Preferia o maelstrom na chávena.
Ela lá acabou por se mexer e colocou a mão direita na mesa. Olhei para ela, à espera do significado, porque tudo era estudado, tudo significava alguma coisa, quando não significava várias coisas ao mesmo tempo e eu ficava desesperado por não conseguir lá chegar. Eram demasiadas coisas para descodificar.
Ela colocou a mão direita na mesa. Eu olhei-a. E esperei. E quando ela retirou a mão, devagar, vi as chaves que deixava lá ficar. As chaves de casa. Da minha casa. De nossa casa.
Levei a chávena de café à boca. Achei o café amargo. E frio. Tinha mexido tanto o café que ele tinha acabado por arrefecer. Soube-me mal.
Ela levantou-se e disse A minha irmã há-de lá ir buscar o resto das coisas. Ela combina contigo. Adeus., e eu pensei Há-de lá ir o caralho!, mas não lhe disse. E fiquei calado a olhar para ela enquanto saía do café.
Lá fora vi-a ir ter com um tipo que a abraçou, e esteve ali algum tempo, a abraçá-la, a afagar-lhe o cabelo, a dar-lhe pequenos beijos na cabeça, como se ela estivesse a sofrer, como se ela tivesse descoberto ter sida ou cancro ou esclerose lateral amiotrófica. Seria possível que estivesse a chorar? Raios partam, choram por tudo e por nada, por estarem tristes e alegres, porque sim e porque não.
Afinal, foi ela que se foi embora. Fui eu que fui abandonado. Não me queres vir aqui mimar, a mim? Eu é que preciso do teu carinho, não ela. E acabei por sorrir enquanto pensava naquelas patetices, embora estivesse com vontade de vomitar por a ver nos braços de outro gajo.
Depois puseram-se a atravessar a estrada, mesmo ali onde estavam, longe da passadeira, e vi chegar um autocarro de passageiros que ainda travou – ouvi o barulho dos pneus a chiarem no asfalto -, mas que acabou por levar os dois de arrasto, estrada fora, por vários metros, deixando um rasto de sangue e restos de carne esfacelada para trás.
Levantei-me num ápice, mas para descobrir que ela tinha tirado a cara do peito dele e estavam a beijar-se, ali, mesmo ali frente à vitrina do café, ali onde eu os podia ver.
Olhei para as chaves largadas em cima da mesa e tive um pequeno soluço. Senti cair uma lágrima e irritei-me comigo. E pensei Um homem não chora, foda-se!. Pois, mas há alturas em que somos uns adolescentes de merda.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/15]