Os Passos por Cima de Mim

Há dias em que ouço os passos no apartamento por cima de mim. Há dias em que ouço os gritos na cave por baixo de mim.
Nada disto seria preocupante se vivesse num apartamento na cidade, como já vivi, e onde a convivência com os sons da vida da vizinhança é uma companhia constante. Mas não. Vivo numa casa térrea, sem cave, e com um pequeno sótão que não utilizo e onde nunca entrei.
Há dias em que estou deitado no sofá, a olhar para a televisão num correr de zapping tão rápido que não fixo nenhuma imagem e os sons que me ficam são umas onomatopeias sem sentido, quando sinto, sobre mim, passos a caminhar. Pequenos passos a caminhar. Já pensei se não serão ratos. Mas os gatos aqui da casa já trataram de todos os ratos que por aqui havia. Agora, o que caçam, são os coelhos selvagens que passam aqui pelo quintal ou que eles vão caçar ao terreno lá do outro lado da estrada. Que barulho será esse que passa por cima de mim? De quem serão os passos? E serão passos?
Há dias em que estou na cama, às vezes a dormir, e sou despertado por gritos de pânico que parecem vir de baixo, debaixo de terra, porque não há outro baixo de mim que não seja terra, não há cave, nem nenhum bunker nem túnel. Mas ouço os gritos e sinto como são aflitos e aflitivos.
Acordo e fico ali assim, em silêncio, na cama, a evitar mexer-me para não fazer nenhum barulho, e apuro os ouvidos e fico quieto, atento, à espera de novo grito. Geralmente, o grito não volta. Nem o grito nem nada que se lhe assemelhe. Mas, algumas vezes, sinto os passos que se passeiam por cima de mim como quando estou na sala deitado sobre o sofá, a passarem aqui, sobre mim, sobre mim aqui no quarto, deitado na cama. Ouço-os. Serão as patas de algum rato?
Ou será que há fantasmas aqui em casa?
Eu não sou de ter medo nem tendo a levar a sério estas coisas sobrenaturais de fantasmas e almas do outro mundo mas, nos dias em que ouço estes barulhos, descubro-me mais sensível e fico com algum receio, não de coisas transcendentes, mas de coisas terrenas, como um bandido, um assassino, alguém que vai entrar aqui em minha casa, no meu quarto, na minha cama e me vai espetar a lâmina fria de um punhal vinte vezes, trinta vezes, no peito, por todo o ódio que o punhal terá às pessoas e de quem eu serei fiel depositário.
Outras vezes descubro-me no sonho, no sonho de alguém que não eu, que eu não sonho, e percebo-me a ser perseguido por seres alienígenas que me querem raptar para me levarem para planetas distantes e analisarem-me.
Há ainda umas vezes em que me encontro num sonho em que sonho que estou no sonho de outra pessoa e pergunto-me como raio é que sei isto tudo e não me perco e depois fico com uma grande dor de cabeça, vomito e acabo por acordar em casa, no chão da cozinha, a ouvir o cão da vizinha a ladrar, coisa que faz só quando se lançam foguetes a anunciar as festas das aldeias vizinhas e umas baratas a passearem-se por cima de mim.
Hoje ainda não ouvi passos nem gritos. Mas descobri uma aranha peluda ali na parede em frente a olhar para mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/15]

Estou Cansado

Chego ao cima da montanha. Estou ofegante. Há muito tempo que não fazia uma caminhada destas. Dobro-me e suporto-me com as mãos nos joelhos. Fico de cócoras. Tento recuperar a respiração.
Primeiro descubro o silêncio. Faz-me confusão nos ouvidos esta ausência de barulho. Depois percebo a pieira da minha respiração cansada. Uma respiração forçada. O tempo não foi complacente com a minha bronquite. Os médicos diziam aos meus pais que ela desapareceria com a idade. Não desapareceu. A idade foi passando e a bronquite continua por cá.
Levanto o corpo. Já me sinto melhor. Com a respiração mais normalizada. Viro-me para trás e tento ver a minha casa na lonjura do vale. Mas não consigo. A minha vista está cansada. Tão cansada quanto eu. Tudo o que vejo é uma enorme massa desfocada. Percebo uma estrada. Uma fábrica. Uns postes de alta-tensão. Uns tufos de verde. Imagino o mar lá ao longe. Não mais que isso.
Agora já me chegam sons. Sons distantes. Sons que voam lá de baixo cá para cima. Ouço um cão a ladrar. Ainda tento perceber se é o ladrar do cão lá de casa. Mas não consigo perceber. Ouço uma motorizada. Há sempre uma motorizada a esgalhar o motor até à exaustão e que se propaga através do espaço. Não vejo a motorizada na estrada, mas ouço-a. Começo a pensar que o som é mais importante que a imagem. Que quando ficar cegueta, ainda me restará a capacidade de ouvir. Talvez descubra no sentido para captar o som, uma espécie de radar. Como o que tem o Demolidor.
Acendo um cigarro e fico ali em cima, de pé, a olhar o vale aos meus pés, com a respiração normalizada, a fumar e a pensar no que é que vou fazer. Não me apetece fazer nada. Agora gostava de estar sentado no alpendre a ler o Serotonina do Houellebecq antes que o mundo acabe.
Depois percebo que tenho de fazer o caminho todo de regresso. A pé. E pergunto-me porque é que não pensei nisso antes. Antes de vir. Antes de vir a pé. Não tarda é noite. Ainda vou estar a descer a montanha quando começar a escurecer.
Sento-me numa rocha. Continuo a fumar o cigarro. E penso que tudo se irá resolver. Tudo se resolve. É preciso é não entrar em pânico.
Deito fora o cigarro e acendo outro. Acho que estou nervoso. Penso que devia ter trazido uma garrafa de vinho tinto. Alentejano, de preferência. Mas olho para o interior da mochila e vejo que só tenho uma garrafa de meio-litro de água e que já está quase vazia. Vejo as horas no telemóvel e percebo que está a ficar sem bateria.
Sorrio, sentado na rocha, e digo alto para mim Estou fodido.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/12]

Acordar com o Cão a Ladrar

Acordei com ela a abanar-me. Estava a dormir e fui acordado com os abanões que ela me dava. E dizia Acorda! Acorda! O cão está a ladrar. Anda aí gente.
E eu despertei. Levantei-me rápido da cama e mantive-me assim por momentos, quieto e em silêncio, a tentar filtrar o som da rua de todos os ruídos da casa. Ouvia realmente o cão a ladrar. Aquele ladrar quando quer chamar a atenção para algo que não devia estar onde está.
Tentei apurar melhor a audição. Ouvir para além do ladrar do cão. Ouvi algumas lajes a ceder a peso. Mas podiam ser os gatos. Podia mesmo ser o cão. Talvez algum sardão. Ou um coelho. Nesta altura há muitos coelhos selvagens que passam aqui pelo quintal.
Fiquei mais um pouco à escuta. Depois ouvi o que me pareceu o corpo de uma pessoa a estalar. Como quando nos espreguiçamos e esticamos o corpo e os ossos cedem e estalam e parece que nos estamos a partir. Era o que me parecia.
Levantei-me da cama. Estava nu. Estou sempre nu. Mas, se realmente andava por ali alguém, era melhor não ir nu. Vesti os boxers que estavam caídos na poltrona. Saí do quarto. Fiz o corredor até à cozinha. Fui à despensa e agarrei num cabo de vassoura, sem vassoura, que guardei para um momento como este. Cheguei-me às janelas da cozinha e olhei lá para fora. Não via nada de anormal. Estava escuro. O luar iluminava um pouco. Dava para ver alguma coisa, mas não dava para ver muito. O quintal tinha muitas zonas na penumbra. A penumbra podia esconder muita coisa. Pessoas.
O cão continuava a ladrar. Mas não via o cão. Não via ninguém.
Ela chegou à cozinha. Colocou a mão sobre o meu corpo nu e senti um calafrio. Ela perguntou Então?
E eu olhei para ela. Olhei para ela e percebi que havia qualquer coisa que não estava bem. E disse Espera aí! Eu vivo sozinho.
Despertei. Despertei na cama. Despertei a ouvir o cão a ladrar. Levantei-me e sentei-me. Olhei para o outro lado da cama e estava vazio. Fiquei ali quieto e em silêncio a ouvir o cão a ladrar. A tentar ouvir para além do cão a ladrar. Devia andar por lá gente. Ou algum animal.
Ouvi as lajes a cederem ao peso de alguma coisa. Mas podiam ser os gatos. Ou até mesmo o cão. Se calhar algum sardão. Talvez um coelho selvagem que eles andam agora por aí que nem doidos.
Apurei a audição. Tentei esquecer o ladrar do cão. Pareceu-me ouvir o corpo de uma pessoa a espreguiçar-se.
Levantei-me da cama. Estava nu e descalço. Vesti os boxers. Fiz o corredor às escuras até à cozinha. Fui à despensa buscar o cabo de uma vassoura e cheguei-me a uma das janelas. Olhei lá para fora. Nada. Havia um pouco de luar, não muito forte, mas o suficiente para ver o exterior. Nada. Fui para a outra janela. O mesmo. Havia zonas na penumbra que não conseguia ver. Tentei aguçar o olhar. Mas continuava igual. Não via nada. Nem via o cão que continuava a ladrar. Nem via os gatos. Onde é que andariam os gatos? Fui à última janela. A piscina estava vazia. O pouco luar permitia-me ver a água da piscina a ondular com a pequena aragem que se fazia sentir. Mas não estava ninguém na piscina nem à volta dela.
E então lembrei-me Eu não tenho piscina! Foda-se! Eu não tenho piscina!
Despertei. Despertei na cama. Despertei com o cabrão do cão a ladrar lá fora, no quintal.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/02]

Exame de Geografia

Acho que ainda não era Verão. Era uma Primavera quente, bastante quente. Saí da casa de calções e t-shirt e sapatilhas All Star pretas nos pés. Ia leve mas ia nervoso. Afinal, não era todos os dias que fazia exames. E, naquele dia, tinha o exame de Geografia do nono ano para fazer. Era de manhã, tinha acabado de tomar o pequeno-almoço, umas torradas com manteiga e um copo de leite frio com uma colher de Nesquick. Ou talvez fosse de tarde, e eu tivesse acabado de almoçar rissóis de peixe com arroz de cenoura. Não estou seguro. De certeza é que era dia de exame de Geografia e eu saí de casa de calções, nervoso com o exame mas confiante no estudo feito e preparado para me sair bem.
O exame era no colégio perto de casa. O mesmo colégio onde estudava. Não era bem perto de casa, mas suficientemente próximo para ir a pé. Sozinho e a pé.
À entrada do colégio fui barrado por uma freira que me perguntou ao que ia. Ao exame, irmã. Ao exame de Geografia, respondi. Não assim, disse-me. Não assim, de calções. Isso não é maneira de vires para um exame.
Fiquei parado a olhar para ela. Ela ficou parada à minha frente. A barrar-me a entrada. Senti a cara a ficar vermelha. As mãos a fecharem-se em punhos. A garganta a apertar, a prender-me a respiração. Eu a querer falar, a querer perguntar o que fazer, mas a voz, estrangulada, a não sair. Estava a sentir os olhos a ficarem húmidos. Estava prestes a chorar. Até que a freira me disse Vai num instante a casa, vá! Despacha-te! Vai vestir umas calças.
E eu estive ali uns segundos como minutos-horas parado em frente à freira a processar o que ela tinha acabado de dizer e então percebi e voltei para trás a correr. E foi a correr que fiz o caminho inverso e regressei a casa onde os meus pais já não estavam, tinham ido trabalhar. Procurei a chave de casa debaixo do vaso à entrada e entrei. No quarto, vesti umas calças de ganga e senti o calor daquela Primavera quente, daquela manhã de calor, talvez fosse uma tarde de calor, já não sei.
Despachei-me. Saí de casa. Fechei a porta e deixei a chave debaixo do vaso.
Recomecei a correr de regresso ao colégio e, a meio, não era bem a meio do caminho porque já não me lembro onde era exactamente o meio do caminho mas, ao longo do caminho e da minha correria, cruzei-me com um cão, um cão a ladrar, abrandei o passo de corrida com medo, o cão virou-se para mim a ladrar, eu acabei por parar, com receio do cão, mas o cão não se mexeu, não estava a ladrar para mim, estava a ladrar para alguma coisa à frente dele, no meio do mato daquele terreno baldio, e olhava para mim para me avisar, para me chamar atenção e, depois de passar o medo inicial, avancei, cauteloso, pelo meio do mato, com o cão a aproximar-se de mim, mas não estava a aproximar-se de mim, estava a ir comigo de encontro ao que ele queria que eu visse, e eu vi, um ninho de pássaro com três passarinhos, um deles fora do ninho, tombado no chão, no meio do matagal.
Agarrei no passarinho que tinha caído para fora do ninho e coloquei-o lá dentro. E fiquei ali durante algum tempo a olhar os passarinhos no ninho a chilrear, se calhar com fome, se calhar com saudades da mãe, se calhar com frio, se calhar assustados com a queda que tinham dado e eu ainda olhei em volta, em volta para o céu à procura de uma possível mãe e não encontrei ninguém até que resolvi subir à árvore e colocar o ninho entre duas braças.
Desci e fiquei ali, com o cão, agora calado e de rabo a abanar, a olhar para o ninho. Depois sentei-me no lancil do passeio. O cão sentou-se ao meu lado. Estivemos à espera que regressasse a mãe dos passarinhos.
O cão não tinha trela. Eu ainda não fumava. Não passou mais ninguém por ali e, finalmente, um pássaro apareceu a voar e entrou pela árvore dentro e foi até ao ninho. Os passarinhos num alvoroço devem ter começado a contar a sua desgraça, uma desgraça que só não tinha sido maior porque O cão e o rapaz ajudaram-nos, mãe.
Satisfeito com o desenlace da história, levantei-me do lancil, o cão também se levantou, dei-lhe duas palmadas no lombo, à laia de despedida, coloquei as mão nos bolsos das calças e tomei o caminho de casa…
…quando, de repente, me lembrei que tinha um exame para fazer e tirei as mãos dos bolsos das calças, virei costas, recomecei a correr em direcção ao colégio, corria tanto que batia com os pés no rabo e, quando finalmente cheguei ao portão do colégio, a freira, a mesma freira, não me deixou entrar porque o exame estava a terminar. Eu deixara passar o tempo e o tempo fugiu-me e já não tive tempo para fazer o exame de Geografia.
E nessa manhã, que pode ter sido nessa tarde, ficou decidido que eu teria de repetir o nono ano. Por causa da minha ausência ao exame de Geografia.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/10]

O Som Ensurdecedor Sobre a Minha Cabeça

O som, porra! O som! Parecia que o mundo vinha abaixo, por baixo do som. Um som ensurdecedor. Um som que depois de se ter extinguido, ainda ficou aqui a pairar como vácuo. O silêncio total. Nem uma mosca. Tinha os ouvidos tapados. Entupidos. O som virado do avesso. Depois do barulho caótico, o silêncio sepulcral.
Abri e fechei a boca como se faz nos aviões, quando descolamos com destino a férias de sonho que se tornam pesadelo, por causa da pressão. Abri e fechei a boca. Aos poucos comecei a ouvir os cães. O de cá de casa e os das redondezas. E então, um estalo, como se umas portas se tivessem aberto do trinco e de novo os barulhos normais da casa. O zumbido do frigorífico. A ventoinha refrescante do computador em sobreaquecimento. Os pequenos barulhos normais lá de fora, que se ouvem à distância. Como se a vida retomasse a sua actividade depois de ter parado, por momentos, por breves momentos, enquanto aquele caos sonoro ocupava o espaço e o tempo.
Eu estava na cozinha. Depois do alpendre, a cozinha é o meu sítio preferido da casa. Estava na cozinha, sentado à mesa, na companhia de um copo de vinho e um cigarro, frente ao computador a escrever um pequeno texto para entregar num jornal aqui da região, porque não podia estar no alpendre, estava a chover e era uma chuva tocada a vento, e então fiquei na cozinha, e estava a escrever o texto quando senti chegar o som. Chegou sem aviso. Nem aproximação. O som como que caiu em cima de mim. Se calhar em cima de nós que, depois disto tudo, eu ainda ouvia os cães da aldeia a refilarem, coitados. Um som infernal que ocupava todos os espaços vagos que existiam à minha volta e dentro de mim. Perdi o raciocínio. Desliguei-me. O som ocupou-me.

Voltei após o momento de silêncio.
Pensei no que é que andariam a fazer por aqui, e a estas horas (como se houvessem horas certas para certas coisas), os aviões da Base Aérea de Monte Real?
Levantei-me da mesa. Percebi que ainda tinha o cigarro acesso na mão. Fumei. Levei o copo de vinho à boca e despejei-o de um trago. Abri a porta da rua e saí para o alpendre. Ainda chovia. Uma chuva tocada a vento. Via, ao fundo, as luzes tremeluzentes da aldeia. Já era quase noite. Ao fundo, um buraco negro que imaginei que fossem as montanhas, escuras, na solidão das trevas.
Não conseguia encontrar a Lua no céu pouco estrelado. Viam-se meia dúzia de estrelas, se tanto. O céu estava enublado.
E foi então que vi, no céu, uma luz vermelha a voar em círculos sobre o que seriam as montanhas. Circulou por ali durante algum tempo. Não fazia barulho. Pelo menos eu não ouvia barulho nenhum. Só o ladrar dos cães. E, os gatos, vim a descobri-los todos enrolados à volta dos meus pés, nem percebi de onde é que vieram. Depois a luz vermelha parou no seu circular por uns breves momentos e zarpou para cima, rumo ao espaço.
Os cães pararam de ladrar. Eu deitei fora o resto do cigarro. Entrei em casa e fui tentar acabar o texto para o jornal regional. Mas foi difícil concentrar-me. E tive de ir abrir outra garrafa de vinho tinto.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/14]

Uma Gota de Transpiração

Este tempo bipolar tomou conta da minha vida. Todos os dias espreito pela janela para saber se posso ir mijar nu ou se tenho de vestir qualquer coisa. Entre o calor de Verão e o frio do Inverno têm passado vinte e quatro horas. Começo a pensar que o verdadeiro problema não é o Covid-19 mas estas misturas temporais que nos empurram para a praia e acabamos a fazer ski na neve, duna abaixo em direcção a um mar gelado vindo directamente da escrita de um argumentista de série B.
Ontem estava calor. O céu azul belenenses. Levantei-me nu da cama e foi assim que fui mijar à casa-de-banho depois de ter espreitado pela janela do quarto para a rua.
Enquanto esperava pelo café, fui tomar um banho de mangueira ao quintal. Os gatos fugiram. O cão andou a ladrar à minha volta mas acho que era para a água que saía da mangueira.
Dei duas voltas a correr à volta da casa para secar. A pila dançava para cima e para baixo. Ainda a consigo ver. Não engordei assim tanto. Fiquei com os pés sujos. Voltei a lavar os pés e calcei umas havaianas de imitação velhas que andam sempre perdidas pelo quintal, às vezes os gatos mijam-lhes em cima, às vezes o cão deita-se a roê-las, ficam ao vento e à chuva, mas dão sempre jeito. Como ontem.
Depois de beber o café e de fumar um cigarro no alpendre, a melhor parte da casa, vesti uns calções e uma t-shirt e fui dar uma volta pela aldeia. Estava deserta. Demasiado calor para os velhos andarem na rua. Demasiado cedo para os mais novos saírem da cama. Optaram todos pelo confinamento. Pelo menos ontem. Ontem de manhã. Tudo em casa. Tudo? Tudo não, que uma moça da aldeia, filha dos donos do Minimercado, estava num terreno que têm para os lados do ribeiro a cavar terra para plantar batata-doce. É o tempo dela. Da batata-doce. Estava de camisa aberta, transpirada, a saia rodada presa à cintura cruzada por baixo das pernas tornada calções. Vi a transpiração a escorrer pelo decote aberto no peito. Ela viu-me. Parou de cavar. Aproveitou para descansar daquele calor e apoiou-se no cabo do sacho, a olhar para mim. E depois levantou o braço numa saudação. Eu também a saudei. Levantei o braço e gritei-lhe Bom-dia! que não deve ter ouvido porque me engasguei e a voz saiu fininha. E pensei Se não fosse o distanciamento social…
Hoje já está frio. O céu cinzento, daquele cinzento urbano-depressivo que me fazia as delícias quando tinha dezasseis anos. Mas já não tenho mais dezasseis anos. Chove. Chove uma pequena e irritante chuva tocada a vento. Visto umas calças de fato-de-treino e uma sweat antes de ir mijar. Mijo. Faço café. Fumo um cigarro na cozinha enquanto leio as últimas notícias sobre os milhares de mortos que continuam a acontecer por todo o lado e aos quais já parecemos imunes.
Com o tempo que está e as notícias matinais que leio chega-me a melancolia de Domingo, mesmo que seja ainda só Sábado.
Largo a chávena vazia na mesa da cozinha e volto para o quarto. Volto para a cama. Tapo-me com o edredão e desejo voltar a adormecer e só voltar a acordar quando o tempo regressar em bom. Quando o tempo regressar em formato de Verão, com sol forte e quente e umas nuvens à Simpsons. Desejo adormecer e sonhar com a gota de transpiração a percorrer o peito branco da filha dos donos do Minimercado.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/04]

O Futuro Homem da Casa

Eu tinha dezasseis, dezassete anos. Talvez tivesse menos. Ainda frequentava o liceu. Não me recordo em que ano estava mas, sei que ainda estava no liceu. Estava numa aula. Não sei de quê, mas estava numa aula. Estava lá dentro mas andava lá por fora. O corpo respondia presente à chamada, mas esquecia a lição no momento do sumário. Para onde ia? Não sei. Perdi essas memórias. Desse tempo há coisas que guardei e outras que perdi. É uma época volátil. O tempo consumia-se de maneiras diferentes conforme fosse manhã, tarde ou noite. Conforme estivesse numa sala de aulas ou em casa de uma namorada. Conforme fizesse um teste a uma disciplina ou uma partida de futebol com os amigos da rua. Algumas coisas permaneceram na memória, viraram estórias que contei aos filhos e aos netos. Outras apaguei-as. Apagaram-se. Esqueci.
Naquele dia, tinha eu então dezasseis ou dezassete anos, talvez menos, estava na sala de aula mas não estava atento à matéria que a professora estava a tentar ensinar. Foi quando vi entrar a directora do liceu na sala e, antes que elas as duas olhassem na minha direcção, desci de lá de onde estava e disse para mim próprio Pronto!…
Percebi o que tinha acontecido. Antes de me dizerem o que quer que fosse, eu percebi. Vi os olhares das duas sobre mim. Um olhar piedoso. Mesmo triste. A directora veio na minha direcção, disse-me para arrumar as minhas coisas e segui-la. Eu arrumei as minhas coisas dentro da mochila. Pus a mochila às costas e saí da sala de aula atrás da directora. Senti os olhos de todos os meus colegas nas minhas costas. Senti o olhar piedoso de todos eles. E queria ter-lhes dito Não olhem assim para mim. Cantem. Dancem. Antes que seja tarde para todos nós… Mas não disse nada. Saí da sala. Senti o silêncio da sala nas minhas costas. Senti a porta a bater quando saí. Ouvi o burburinho que se formou depois de ter saído. E segui a directora até ao gabinete dela.
Depois não me recordo nada do que aconteceu nos momentos seguintes. Talvez tenha entrado no gabinete da directora. Talvez ela tenha tido alguma conversa séria comigo. Talvez ela me tenha oferecido um chá de camomila ou metade de um Xanax (talvez não me tenha oferecido a metade de um Xanax, mas gosto de pensar que, eventualmente, tal podia ter sido possível acontecer).
Desperto já a caminho de casa. Saí da sala de aula e estou a caminho de casa. Há uma elipse temporal que é, na verdade, um buraco negro. Não sei o que aconteceu. Mas vou a subir a rua. A pé. A mochila às costas. Os carros a acelerarem na estrada. Uma estrada longa, larga, arejada, boa para carregar o pé no acelerador. Ouço-os a passar ao meu lado, a espremerem o motor. Acho que vou a chorar. Sim. Acho que vou na rua, a subir a rua e vou a chorar. Não sei o que se passou entre ter saído da sala de aula e descobrir-me ali, na rua, mas sei o que é que aconteceu nesse dia. Sei porque é que a directora do liceu me foi chamar à sala de aula. Sei porque é que saí mais cedo do liceu. E porque é que ia a pé para casa. E ia devagar. Portanto, talvez fosse a chorar. Mesmo que não tivesse chorado na altura. Agora, a esta distância, penso que que tal podia ter muito bem acontecido. Eu ia a chorar enquanto subia a rua até casa.
Cheguei a casa. Parei no passeio para cruzar a estrada para o outro lado. Lembro-me de ter parado para deixar passar o autocarro. O autocarro que ia dar a volta ao outro lado da cidade e, num dia normal, seria o autocarro que eu apanharia no regresso da escola para ir a casa almoçar se não tivesse de ir a pé mais cedo como fui.
O autocarro passou e cruzei a estrada. Mas agora que estava a chegar a casa os pés não me queriam obedecer. Parecia que não me queriam levar para casa. Mais, parecia que eu não queria ir para casa. Protelei a passagem. O outro lado tornou-se a outra margem de uma estrada como um rio caudaloso como um mar. Cheguei ao outro lado. Sentei-me no muro da casa vizinha. A casa vizinha era a casa dos meus vizinhos. Não estaria ninguém em casa. Só os cães que andavam lá de um lado para o outro a ladrar a quem passava do outro lado do muro, do lado de onde eu estava. Sentei-me no muro e acendi um cigarro. Já era tempo de parar de esconder que fumava. Um dos cães chegou-se a mim. Esticou-se até ao cimo do muro para que lhe fizesse uma festa. E eu fiz. Sempre gostei de cães. Dos de marca e dos rafeiros. Mesmo com aqueles que teimam em me arreganhar os dentes ao início, tento sempre dar-lhes a volta com algumas meiguices e umas palmadas no lombo.
Olhei para casa. As persianas estavam corridas. As janelas não estavam fechadas, mas as persianas estavam corridas para baixo, talvez a manter a luz baixa em casa.
Acabei o cigarro. Não havia ninguém na rua. Lembro-me porque achei estranho. Embora fosse uma rua residencial, durante o dia havia sempre gente a passar, a ir à padaria, à mercearia, a ir a casa uns-dos-outros, principalmente as mães, as mães que não trabalhavam fora, as mães domésticas que cuidavam dos filhos e da casa. Mas naquele dia, a rua estava deserta. Não havia ninguém nos passeios, nos jardins, nas varandas das casas. Só os carros continuavam a passar pela rua em direcção ao seus destinos.
As persianas da minha casa estavam corridas. Respirei fundo e fui em direcção a casa.
Eu tinha dezasseis, dezassete anos. Talvez tivesse menos. Naquele dia iria crescer. Naquele dia iria tornar-me no homem da casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/07]

Quatro em Cima de uma Sachs

Lembro-me quando chegava o Verão. O tipo lá arranjava um fim-de-semana livre, ou pelo menos o Sábado, e era ele e a mulher, os dois filhos e a tralha toda em cima de uma Sachs K125 a caminho da Praia das Paredes.
Aquilo fazia-me muita impressão. Uma montanha em cima de um triciclo. Primeiro montava ele. Punha a motorizada a trabalhar. Depois montava o filho mais velho, atrás do pai, com um chapéu-de-sol nas mãos. A seguir, a mãe, cheia de sacos, de um lado e do outro. Depois o pai agarrava na mais pequena e sentava-a em cima do depósito de gasolina, à sua frente, presa entre os seus braços.
Se os filhos eram os dois lingrinhas, já os pais, os dois, eram bastante volumosos. Não gordos, gordos. Mas já com alguns quilos a mais. A mãe mais pequena, cada vez mais redonda, o pai a cuidar de uma barriga proeminente regada a cerveja.
Quando a motorizada arrancava lá de casa, a espremer-se toda debaixo daquele peso, os cães das redondezas vinham ladrar às rodas e acompanhavam a motorizada e os seus ocupantes até estes saírem da aldeia. E depois ficavam nos limites da aldeia, junto à placa de cimento com o nome que indicava a quem chegava onde estavam a chegar, a ladrar para o fundo da estrada até deixar de se ouvir o motor arrastado da motorizada.
Gostaria de tê-los visto a subir a estrada antes da recta do pinhal que levava à Praia das Paredes, mas tal nunca aconteceu. Ainda hoje me pergunto como é que a motorizada conseguia subir aquela inclinação com tanta gente lá em cima.
Aqueles dias de Verão eram de enorme festa para os filhos. Nunca iam a lado nenhum e então, naquela altura, iam para a praia. Havia fins-de-semana em que acabavam por ficar por lá, pela praia. Levavam um pano que penduravam à volta do chapéu-de-sol e transformavam-no numa tenda onde se abrigavam durante a noite na praia e, às vezes, o filho mais velho contou-me, tinham de andar a fugir ao mar, que as ondas vinham furiosas, entravam pelo chapéu-de-sol dentro, molhavam tudo e eles tinham de levantar o chapéu-de-sol tornado barraca em peso, e transportá-lo para mais longe, às vezes sonolentos, com a miúda de dedo na boca e a mãe a rezar o terço.
Pelo menos ele tinha sempre história para me contar. Como daquela vez em que o pai ajudou os pescadores a puxarem uma rede e acabaram a noite a assar carapaus numa fogueira, no meio da praia, com um grupo de jovens que apareceram por lá com guitarras e cervejas, comeram dos carapaus assados, cantaram músicas e ainda foram todos ao mar de madrugada tomar banho nus.
Uns anos mais tarde o tipo conseguiu comprar um Mini. E o Mini ainda levava mais gente. Nessa altura iam para a praia com o irmão da mulher e a família dele que também incluía dois miúdos. Iam os dois homens à frente no carro e as duas mulheres atrás. Os dois filhos deles iam atrás, com as mulheres, mais um dos miúdos do irmão. E o outro, o mais novo, ia ao colo do pai, à frente. A tralha ia no tejadilho do Mini, atada com cordas que mais pareciam formar uma teia-de-aranha a qual, às vezes, viam-se gregos para conseguir abrir os nós e tirar as coisas que precisavam e que estavam em caixas de plástico presas no tejadilho.
Nunca foi multado. E nunca teve carta de condução. Nem da motorizada nem do carro.
Quando o tipo morreu, num Inverno chuvoso, foi toda a gente a pé. Toda a gente das pessoas que foram ao funeral, o que não era muita gente, mesmo tendo em conta a pouca quantidade de pessoas que ainda vivia na aldeia. Ele não era uma pessoa muito querida. Eu conhecia-o porque éramos vizinhos. E não tenho nenhuma queixa dele nem da família. Eu e o filho mais velho éramos amigos. Às vezes ainda bebemos um copo juntos. Mas eles eram uma família pobre, era o que eram. Pobres. Não que houvesse gente muito rica na aldeia, mas toda a gente tinha uns terrenos, com umas árvores. Uns pinheiros. Umas laranjeiras. Até umas vinhas. Coisas que davam mais despesa do que lucro, mas eram proprietários. Pequenos proprietários. Eles não. Eles trabalhavam à jorna nos terrenos de todos os outros. Por isso é que ir à praia, que nem era assim tão longe, era dia de festa para os meus vizinhos.
No dia em que o tipo morreu, eu bebi um bagaço com o filho mais velho na taberna da aldeia. Ele não chorou. Eu dei-lhe um abraço.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/01]

Um Passeio pela Vila

Saio de casa com o saco do lixo na mão. O tempo está cinzento. Ameaça chuva, mas não está frio. Estou de t-shirt e um casaco de malha. Desço a alameda. Os gatos ficam a olhar para mim sem se mexerem de onde estão. Saio pelo portão para a rua. Viro à esquerda e caminho os cem metros que me separam do caixote do lixo. Abro a tampa e largo lá o saco lá dentro. O caixote cheira mal. Sacudo as mãos às calças de ganga. Acendo um cigarro. Inspiro fundo e depois deito o fumo todo fora. Olho as montanhas lá ao fundo. Estão sempre lá, as montanhas. São a minha grande referência, mesmo quando não as vejo, encobertas pelo nevoeiro. Parece estar a chover lá ao fundo, sobre as montanhas.
Respiro fundo. Volto para trás. Passo o portão da casa e continuo em frente. Caminho. Sinto-me como o tempo. Cinzento.
Vou pelo passeio. Neste lado da estrada há um passeio feito com lajes hexagonais. Provavelmente de barro. No outro lado da estrada não há passeio. Há uma vala para escoar as águas. Já lá torci um pé. Já lá encontrei um cão morto. E duas cobras. Há muitas cobras por aqui mas, normalmente só aparecem lá mais para o Verão. Agora está muito frio para elas.
Passo pelo quintal de uma casa. Há um cão pequenino, daqueles muito chatos, que começou a ladrar quando me viu e vai aqui ao lado a acompanhar-me, sempre a ladrar, o cabrão. Está uma mulher à janela da casa a estender um edredão. É a dona da casa. Olha-me com desconfiança. Como se não me conhecesse. Já moro aqui há cerca de cinco anos, mas ainda sou um estrangeiro. Não socializo. Não frequento o clube recreativo. É raro ir ao café da vila. Vou, às vezes, ao pequeno mini-mercado que é mais uma mercearia e que costuma ter frescos, muito frescos, aqui da terra. A mulher continua a olhar mim como se não me conhecesse. Deixo o muro da casa. O cão. O ladrar irritante do cão. O olhar frio da mulher.
Acabo o cigarro e mando-o ao chão. Esmago-o com a ponta da sapatilha. Olho para o céu. O cinzento está a ficar ainda mais escuro. As nuvens que estavam sobre a montanha deslocam-se para cá. Continuo em frente. Agora a subir um pouco. Não é grande o declive, mas prende-me a respiração. Forço o passo e fico cansado. Chego ao cimo da rua e páro para recuperar o fôlego. Depois viro à esquerda. Agora não há passeio. Nem de um lado nem de outro. As bermas dos dois lados são baixas. Costuma haver aqui alguns acidentes. Há sempre muitos camiões a passar por aqui. Camiões que vêm buscar produtos aqui às fábricas da zona. Os carros que passam por aqui e se cruzam com um camião, se não têm cuidado, acabam dentro das valetas. Já aí vi alguns. Outros vão ribanceira abaixo. Mas ninguém se incomoda. A Junta de Freguesia nunca arranjou solução. Não quer saber.
À minha frente passa um gato. Um gato todo preto. Gordo. Pára na estrada a olhar para mim. Também se pergunta quem sou eu. Eu ignoro-o. E o gato acaba a seguir o seu caminho e desaparece no outro lado da estrada por entre o mato que começa a invadir a estrada. Há um certo abandalhamento dos terrenos, por aqui. Não sei de quem são estas terras. Não são minhas.
Do nada, aparece um novo passeio, novamente só de um dos lados da estrada. Do outro lado. Cruzo a estrada. O passeio continua a ser de uma espécie de tijolo barroso, mas agora são lajes rectangulares. Aqui na vila não há uma uniformização dos bens públicos. Desde casa até aqui, já contei com quatro candeeiros de rua diferentes. E ainda vou encontrar mais na volta que irei fazer até regressar a casa. E, provavelmente, alguns deles não devem funcionar. Alguns devem ter as lâmpadas fundidas, outros talvez tenham problemas um pouco maiores mas que ninguém quer resolver.
Passa um carro por mim. O primeiro desde que saí de casa. Às vezes parece que vivo numa terra fantasma.
Acendo outro cigarro. Sinto o cheiro da terra molhada lá mais à frente. Vem aí a chuva. Continuo a andar. Passo em frente a uma pequena fábrica caseira. Acho que fazem produtos em vime. Cestas. Cadeiras. Coisas assim. Há uma carrinha de caixa aberta na rampa de acesso à garagem onde funciona a pequena fábrica. Mais à frente, na estrada, está um carro em cima do passeio. Até aqui os carros ocupam os passeios. Numa terra onde não se passa nada, onde há lugar para tudo, há também carros em cima dos passeios.
Olho para trás, não vejo nenhum carro e desço para a estrada. Passo o carro que ocupa o passeio. À frente do carro puxo os limpa-pára-brisas. Deixo-os assim, em pé, como dois cornos de um boi a pastar nos terrenos verdes que vejo na minha caminhada.
Começa a pingar. Não é ainda uma chuva. São alguns pingos a avisar que vem aí chuva. Eu continuo a andar ao meu passo habitual. À minha velocidade. Não tenho pressa. Não tenho medo da chuva. Na verdade quero molhar-me. Quero refrescar a cabeça. Tirar daqui ideias que me estão a incomodar. Que me andam a moer.
Começo a descer para o centro da vila. Passo pela farmácia que é a primeira casa à direita quando se chega por esta estrada. A porta está fechada. Mas a farmácia está sempre aberta. O farmacêutico mora por cima. Se necessário, toca-se à campainha e ele atende. Está sempre por aqui. Acho que nunca foi de férias. Acho que nunca se ausentou um fim-de-semana. Mas é raro estar mesmo na farmácia. Normalmente está em casa. A fazer o quê, não sei. Mas está quase sempre em casa.
A seguir vem o clube recreativo. Há sempre uns velhotes sentados cá fora. Não hoje, que já está a chover. Ainda não é muita mas já é alguma. Nunca entrei lá dentro. Nem durante as festas. As festas aqui da vila dividem-se entre o clube e o adro da igreja, que fica do outro lado, num pequeno quase-largo, virando ali à direita naquela estrada, mas eu não vou agora por lá porque está a chover. E também não vou passar pela Junta de Freguesia que fica naquela outra rua, mas mais lá para trás, ao lado do cabeleireiro. O cabeleireiro é da mulher do presidente da Junta. Se passasse ao pé da Junta ia lá deixar outra reclamação. Ia reclamar a falta de passeios em torno da vila. Na semana passada fui queixar-me da falta de caixotes para a separação do lixo no lado da vila onde moro. Ninguém por aqui me conhece mas, o presidente da Junta já não me suporta.
Aqui é o Lar. É uma casa de velhotes. Mas é raro vê-los. Nunca há ninguém nas janelas. Nunca há ninguém no pátio quando aqui passo. Devem estar todos deitados ou em frente à televisão. É assim, o fim da vida. O cu colado a uma cadeira a ver um programa de variedades com chamadas de valor acrescentado. Ora, foda-se!
Agora já chove bastante. Tenho o cigarro apagado e molhado ao canto da boca. Tinha-me esquecido dele. Não está frio. Mas chegando a casa, vou tomar um banho quente. Quando foi a última vez que tomei um banho? Um banho assim, de chuveiro? Inteiro? Cabelo e tudo? Já nem me lembro. A vidas são diferentes quando os sítios onde estamos também são diferentes.
Os gatos estão todos em cima do muro à minha espera. Têm medo da água da mangueira e dos baldes, mas não têm medo da chuva. Quem é que os percebe? Raio dos gatos.
Sinto o telemóvel no bolso das calças. Tiro-o para fora para ver as horas. E percebo que ninguém me telefonou. Ninguém me mandou uma mensagem. Olho para o gatos. Guardo o telemóvel e entro pelo portão.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/29]

Caído no Chão sem Me Conseguir Mexer

Estou caído no chão da cozinha e ouço os cães a ladrar lá ao fundo.
Não me consigo mexer. Estou caído no chão da cozinha e não me consigo mexer. Vejo o fumo que o cigarro que tinha na mão ainda deita. Vejo-o subir pelo ar e desaparecer. Apetecia-me ter fumado aquele cigarro. Apetecia-me fumar um cigarro.
Não sei o que me aconteceu. Estava a fumar um cigarro aqui, à janela, e, de repente, fiquei paralisado, comecei a transpirar muito, senti muito calor, senti todas as gotas de suor que começaram a descer por mim abaixo, senti as pernas a tremer, a fraquejar, perdi a força nas mãos, deixei de sentir os dedos, o cigarro caiu para o chão e a seguir caí eu. Caí no chão.
Não consigo falar. Nem gritar. Não consigo mexer nada. Não, mentira, consigo mexer os olhos. É a única coisa que consigo mexer. Os olhos. E posso olhar em vários sítios, os sítios onde os olhos podem alcançar dentro das órbitas.
Não perdi os sentidos. Estou consciente. Assustado, mas consciente.
Agora começo a ouvir os carros na rua. É estranho como só ouvia os cães a ladrar e, agora, o barulho dos carros a passar na rua está a fazer-me deixar de ouvir os cães.
Já não vejo o fumo do cigarro a subir para o tecto. Já deve ter-se apagado. E eu não o fumei.
Queria fumar um cigarro.
Queria não estar aqui assim, caído no chão sem me conseguir mexer.
Queria não estar sozinho em casa para ser socorrido.
Queria estar à janela a fumar um cigarro e a olhar para as pessoas que entram e saem da pastelaria da rua.
Queria ir à Lua. Queria ir a Marte. Queria ir à Terra do Fogo.
Queria ter escrito o Space Oddity.
Queria ter escrito A Mancha Humana.
Queria ter pintado o No.301.
Queria ter dançado o Lago dos Cisnes.
Devia sentir as costas frias e húmidas da transpiração e do chão da cozinha. Mas não sinto nada. Continuo sem sentir nada. Continuo sem conseguir mexer-me. Pareço morto. Um morto consciente.
Não virá ninguém cá a casa.
Vão passar as horas.
Se calhar, os dias.
Vou sentir fome. E sede. E uma vontade diabólica de fumar um cigarro.
E eu vou estar aqui assim, caído, paralisado, consciente.
A luz mudou. A luz lá de fora mudou e alterou a luz aqui de dentro. Já é noite.
Agora ouço o som de conversas. As conversas sobrepõem-se ao barulho dos carros. A ruas devem estar cheias de gente a passear. A passear a pé.
As horas estão a passar. Gostava de me passear também pelas ruas da cidade. Gostava de me passear debaixo das luzes de néon da cidade. E fumar um cigarro.
Mas continuo aqui. Não sinto o meu corpo. Não sinto nada. Não… Sinto medo.
O que é que eu posso fazer?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/19]