Tinder

Abri uma conta no Tinder. Motivado pela Mónica, aliás Eliete, moça de vida normal, fui levado a abrir conta no segmento da foda barata. Isto se não se tiver em conta o preço dos motéis. Ao contrário da Mónica, aliás Eliete, eu não frequento a IC19 e muito menos os seus motéis. Mas tenho o Motel Caribe, que fica aqui a caminho a Nazaré, e um quarto custa a partir de 39€ segundo anuncia o cartaz publicitário à saída de Leiria, não especificando se é por hora, partes de hora ou noite inteira com direito, ou não, a pequeno-almoço. Suponho que não haja pequenos-almoços neste motéis. Talvez uma garrafa de espumante da Bairrada ou garrafinhas de Magos como também havia, faz tempo, no Calhegas. E há sempre a hipótese do Ibis que, sendo um pouco mais caro, permite a noite toda garantidamente que já lá fiquei. O pequeno-almoço é à parte.
Tirei umas fotografias em contraluz para não me reconhecerem. Ainda ponderei procurar alguém pelo Facebook, alguém longe daqui e de mim a quem pudesse roubar umas fotografias, fazê-las minhas e deixar as mulheres a suspirarem por um eu escolhido a dedo a pensar nelas. Mas não. Já que ia mentir no nome, e menti, chamei-me um nome que não é o meu, mas escolhi um nome real, plausível, nada de nickname estúpido como os que se encontram na net. Não. Era um nome verdadeiro, só que não era o meu. A silhueta em contraluz nas fotografia, sim, essa era eu. Tirei as fotografias na casa-de-banho, contra a janela da rua. Nem eu percebia que era eu. Tirei umas a mais, de partes do corpo, de partes íntimas do meu corpo, com pouca luz, claro, a precaver o futuro próximo e as demandas das parceiras a quererem saber e ver mais de mim.
E foi então que comecei a pensar se, em vez de mulheres de meia-idade, como eu, fartas do mesmo parceiro, dos filhos, do trabalho e da lida da casa, mulheres à procura de um escape como dantes eram a Crónica Feminina, o Simplesmente Maria, a Burda ou a Casa Cláudia, mulheres que imaginavam um mundo de vivenda rés-do-chão/primeiro andar, labrador preto, um casalinho e a cerca pintada de verde, repintada todos os anos por altura da Primavera para compensar os rigores do Inverno, e que deixaram de imaginar quando descobriram que a realidade nunca é igual ao sonho, e que afinal eram só mulheres a tentar sentirem-se vivas para além das paredes fechadas de um casamento em velocidade-cruzeiro com as suas rotinas chatas de foda ao Sábado de manhã, à pressa, porque é dia de ir ao mercado comprar peixe fresco, lavar o carro à mão para não estragar a pintura e levar uma das crias ao futebol e a outra ao cinema com as amigas e rezar para que quando fosse para ir à discoteca houvesse outros pais com capacidade para estarem acordados às cinco da manhã para as ir buscar e fazer a entrega ao domicílio, e conseguir um orgasmo de vez em quando, mesmo que por procuração, fosse, afinal, um esquema manhoso para apanhar tipos estúpidos como eu que são apanhados em quartos anónimos de hotéis e são deixados desmaiados nos polibãs com um saco de gelo sobre a costura de um rim que se ia vender como ouro na Dark Web.
Foda-se!
Foda-se!
Acabei por desactivar a conta do Tinder. Liguei-me ao PornHub.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/13]

A Minha Vizinha da Rua

Conhecia-a desde miúdo. Éramos vizinhos de rua. Quando comecei a sair de casa sozinho para ir à escola, já ela por lá andava. Era mais velha que eu. Bem mais velha. Cruzava-me muitas vezes com ela na rua. Para cima e para baixo. Quando um ia para cima, o outro ia para baixo. Eu a fazer entregas para o meu pai. A fazer recados à minha mãe. Ela a passear, sapatinho de salto alto, saia travada, uma blusa com os botões estrategicamente abertos à frente a chamar a atenção para os peitos altivos, e uma malinha de mão a dar-a-dar. Eu corria aos apartamentos das velhas a levar as mercearias que o meu pai me mandava entregar. Mas não deixava de olhar para ela. Dava nas vistas. Nas minhas. E eu parava na rua para olhar. Chamava-me a atenção. Mesmo quando não a via. Sabia-a escondida. Escondida em vãos-de-escada, esquinas esconsas e estaleiros a aliviar o nervosismo dos serventes que andavam a prolongar a rua. Todos os meses nasciam casas novas na rua. Todos os meses a rua crescia. Todos os meses vinha mais gente viver para a rua. Todos os meses crescia o meu número de amigos. Todos os meses tínhamos de refazer as equipas para jogar à bola. E via-a sempre. A ela. A ela via-a todos os dias. A andar para cima e para baixo na rua. E quando não a via, sabia onde estava. A ajudar ao crescimento da rua. Todos temos o nosso papel.
Nunca falámos um com o outro. Ela chegou a meter-se comigo quando eu já era mais crescido. Mas foi um fogacho. Fogo-fátuo. Uma espécie de beijo lançado, provocador, à distância. Um olhar convidativo. Uma língua a surgir, malandra, entre os lábios red velvet. Um rodopio ao cruzar-se comigo para me apreciar, para se mostrar. Mas não passou disso. Nunca falámos. Nunca lhe disse Olá! Bom-dia! És bonita! E era. Era bonita. Era bem bonita.
Quando saí da rua deixei de a ver. Mesmo quando regressava, de passagem, a casa dos meus pais, procurava-a com o olhar. Ia até ao fim da rua, que já tinha marcado os seus limites, já não crescia mais do que aquilo, já não havia estaleiros nem serventes, embora continuassem a abundar as esquinas esconsas e os vãos-de-escada de uma arquitectura urbana que não tem em conta a vivência das pessoas que habitam aquelas casas, aqueles bairros, aquelas esquinas, mas não a via.
Ia até ao fundo da rua e voltava. Procurava-a. Não a via. Nunca mais a vi. Cheguei a pensar que tivesse ido embora para outro lado. Para outra cidade. Que tivesse largado aquela vida. Que tivesse arranjado marido e saído dali. Imaginei-a rodeada de filhos, numa vivenda com cerca branca e um labrador. Também cheguei a pensar que tivesse morrido.
Foi assim, grande, a minha surpresa, quando a vi no Correio da Manhã. Era a fotografia de uma mulher muito velha, disforme, com uma cara escavada pela vida. Mas reconheci-a logo. Era ela. A minha vizinha da rua. A notícia falava da sua morte, à paulada, para lhe roubarem uns poucos euros. Era de madrugada e ela andava para cima e para baixo numa outra rua, num bairro não muito longe do nosso, com a malinha a dar-a-dar, até que foi abordada por um miúdo. Um miúdo que a assaltou. Um miúdo que a matou. Um miúdo que está, agora, a ser procurado pela polícia.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/14]

Cães e Gatos e uma Moca de Rio Maior

A gata teve uma ninhada. Quatro crias. Duas amarelo-creme, daquele amarelo-creme dos labradores. Um branco-persa. Um preto-ninja. Três gatos e uma gata. A gata é um dos amarelo-creme labrador. Pelo menos é o que me parece. Posso estar enganado quanto ao sexo. Mas o sexo também já não é o que era. Afinal, podem ser outra coisa qualquer. As cores são aquelas. Mas também podem mudar com a idade. A sujidade. A comida. O tempo. O sangue dos coelhos, ratos e pássaros que irão caçar. O sangue das feridas infligidas pelos cães da vizinhança.
A gata teve a ninhada num caixote de cartão que eu coloquei no telheiro nas traseiras da casa. Enfiei lá dentro uma camisola antiga minha. Uma camisola de algodão, daquelas com capuz, marca de street wear, que eu usava quando ainda achava que era jovem. Desde que eles nasceram que a gata tem estado dentro do caixote com as crias. Sai para ir miar para a porta da cozinha, logo de manhãzinha, para me dizer que tem fome e precisa de leite. Não pára de miar enquanto não lhe fôr dar um pires com leite meio-gordo. Depois regressa ao caixote. As crias atacam-lhe logo as tetas. Esfomeadas. Às vezes até parecem engasgarem-se, tal a sofreguidão.
Embora seja muito protectora das crias, e estar sempre a afugentar os outros gatos, mostra-lhes os dentes, faz Ffffff, e fica com o pêlo eriçado, a mim deixa-me aproximar. Já mexi nas crias para ver o sexo. Ela não me disse nada. Andou só por ali, à minha volta, a roçar-se nas minhas pernas, atenta ao que eu estava a fazer.
Ontem à noite, no entanto, houve um acontecimento que perturbou a gata. E a mim.
O cão conseguiu furar a rede do quintal da frente da casa e entrar para as traseiras. As traseiras onde está o telheiro, o caixote, a gata e as crias.
Eu acordei com o cão a ganir à beira da janela do meu quarto. Fui acordado. Fui acordado com o cão a ganir. Eram quatro da manhã. Parecia mesmo que estava ali, à beira da minha cabeceira. A ladrar-me dentro da cabeça.
Primeiro ainda pensei que andava alguém lá fora a querer assaltar a casa. Levantei-me da cama. Agarrei na moca de Rio Maior que tenho ali ao pé da cama e fui nu para a rua, pronto para o que desse e viesse. Acendi a luz do quintal. Abri a porta. Pus os pés na rua e vi o cão. O cão que não devia estar ali, mas estava. E estava preso. Tinha entalado uma pata entre as lajes que circundam a casa. Um pouco mais à frente estava a gata, corpo encolhido numa curva ascendente, com o pêlo eriçado, a mostrar os dentes ao cão e a fazer Ffffff para o avisar que estava ali para proteger as crias e que ele não se aproximasse e que voltasse para o seu lado da casa. Como se ela, antes das crias, também não andasse sempre a azucrinar a vida ao cão. Mais ao longe, os outros gatos estavam sentados em cima do pequeno muro a assistir a todo este teatro. E depois cheguei eu. Nu. Descalço. De moca de Rio Maior na mão. Com cara de sono. A refilar com todos eles.
Consegui retirar a pata do cão presa nas lajes. Não estava ferida. Mas o cabrão do cão, contente, fartou-se de pular à minha volta e para cima de mim e acabou por me arranhar e sujar todo. Depois olhou para o gato e percebeu que não devia estar ali. Pôs o rabo entre as pernas, deu meia-volta e voltou para a frente da casa. E eu vi por onde é que passou. Pensei que no dia seguinte tinha de arranjar aquela rede. Ainda não arranjei. A gata miou-me, a refilar comigo, como se eu tivesse alguma culpa, e acabou por regressar, mais descansada, para o caixote e para o pé das suas crias. Os outros gatos continuaram em cima do pequeno muro a ver tudo. A olhar para mim, ali, nu, com a pila a abanar e uma moca de Rio Maior na mão. Antes de entrar em casa ainda vi, em cima da relva, um melro morto. Algumas penas a voar. Olhei para os gatos. Eles fingiram que não tinham nada a ver com aquilo. Mas eu não acreditei.
Entrei em casa. Fui tomar um duche. Voltei a deitar-me. Vi passar as cinco. As seis. As sete horas. E eu sem voltar a pregar olho. Cabrão do cão. Cabrões do gatos. Todos os gatos. E o melro, também. Não dormi nada. Depois comecei a rir. A rir que nem um desalmado. E disse alto O melhor é levantar-me! Cabrões!
E fui para a cozinha fazer café fresco. E ainda ia a rir. A pensar na noite anterior. E a rir.

[escrito directamente do facebook em 2019/05/07]

Queria Ter Mais Tempo

Queria ter tempo para recomeçar tudo. Recomeçar de novo. Mas agora a sério. Desta vez, de vez.
Queria ter tempo para voltar a dormir numa cama rija, com um bom colchão que não se desfaça debaixo do meu corpo, que se move cada vez com mais dificuldade, todas as vezes que me viro. Voltar a ter os meus livros, deixados um pouco ao Deus-dará, arrumados em prateleiras, em estantes, com as cotas limpas, ordenadas e viradas para mim e eu poder saber que livros ali tenho, que livros já li, e lembrar-me o que contam só por reler os seus títulos, como fazia quando criança, na minha casa que era a casa dos meus pais, e os livros eram poucos, mas eram lidos e relidos, com a mesma avidez do início, e voltava a vivê-los ao ler-lhes as cotas. Voltar a andar de bicicleta ao longa da Costa Atlântica e deixar-me inebriar com a maresia fresca da madrugada. Voltar às festas de Agosto e bailar aquelas músicas pirosas cujas letras conheço de cor. Voltar a ter a primeira bebedeira. O primeiro beijo. A primeira noite de amor.
Queria ter tempo para experimentar uma vida como a dos outros. Uma casa com cerca de madeira pintada de branco; umas laranjeiras a espalhar o perfume ácido que entra pelas janelas abertas da casa; um baloiço para me embalar; um tanque para mergulhar nos dias quentes de Agosto; um labrador castanho a correr livremente na relva cortada por mim ao Domingo; um gato sonolento deitado no muro do alpendre e a olhar o mundo com desdém; uma família grande, enorme, reunida nas férias grandes, no Natal, na Passagem de Ano, no Carnaval, na Páscoa, no dia dos meus anos, a contar histórias, representar pequenas peças de teatro, a correr pela praia em pleno Outono e mergulhar nas ondas do mar frio antes da chegada das marés vivas.
Queria ter tempo para ter tempo. Queria que fosse tudo outra vez como era, mas agora como devia ter sido. Explicado por quem soubesse como devia ser, se quisesse e não obrigado a ser por ter que ser. Que a vida era assim, mas podia ser diferente, devia ser diferente. Deixar os excessos no começo da idade. Recuperar outro caminho.
Queria ter tempo. Mas não tenho.
Seis meses. Talvez um pouco mais. Talvez um pouco menos. Mas certo como destino.
Queria ter tempo para poder despedir-me de toda a gente que foi gente comigo. Todos os amigos que fui perdendo na voragem dos anos. Todos os amigos que fui perdendo nas razões que já esqueci. Todos os amigos que afastei, que me afastaram. Todos os amigos que deixaram de o ser. Todos os amigos por vir. Todas as amantes que foram trituradas na velocidade dos dias, dos anos. As que deixei de amar. As que deixaram de me amar. As que ainda amo. As que ainda me amam. Todos os filhos que fui semeando. Todas as mortes que me roubaram.
Somos jovens durante toda a vida. Até que um dia acordamos velhos, na antecâmara da partida e sem tempo. Sem tempo para poder cheirar mais uma vez as torradas queimadas esquecidas entre uma conversa, dois beijos, um golo. O cheiro do café acabado de fazer numa manhã de Inverno com a chuva a cair lá fora. O sabor do chá de hibisco em tardes monótonas de Domingo. Talvez com uns scones. Barrados com manteiga e um pouco de geleia.
Seis meses não são nada mas são o que me resta. E o que me resta é um mundo. É este o meu mundo, agora, e vou vivê-lo de punhos cerrados para não ser parado por ninguém que só queira o meu bem.
E no dia, no dia que for o último, só quero que chova e eu possa sentir, uma última vez, o cheiro acre da terra molhada. E levá-la com lembrança de uma vida de onde não posso levar mais nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/28]

Formas de Me Deixar Desconfortável

Vinha da praia.
Vinha cansado, salgado, a pingar e cheio de sede.
Entrei na esplanada. Acendi um cigarro. Pedi um copo de Alvarinho. Bem fresquinho que estava com sede e a morrer de calor.
Ao fundo, na sombra, uma tela projectava um jogo do Campeonato do Mundo de Futebol na Rússia. Já não sei que países se defrontavam. Nem me recordo das cores. Mas o bailado estava bonito. A bola movimentava-se de um lado a outro. Os jogadores corriam, lançavam a bola em profundidade, e acabaram por marcar vários golos. Já não recordo quantos. Mas alguns.
Acabei o copo.
Pedi outro.
Entrou outro eu na esplanada. Alguém que também chegou molhado, cansado e, aparentemente, cheio de sede. Trazia um cão pela trela. Era um misto entre o Labrador e o Terrier. Na verdade nem sei que cão era. Visualmente fazia lembrar-me uma mistura entre os dois.
O tipo pediu um gin daqueles esquisitos cheio de coisas a boiar em copo extra-large.
Sacou de um ventilan do bolso e mandou uma bombada. Depois virou-se para o cão, levantou a ponta da trela, em jeito de ameaça e disse Deita! Deita, já disse! Queres que me chateie?
O cão até estava calmo. Em pé, mas calmo. O dono é que parecia agitado.
Aquilo incomodou-me. Acendi outro cigarro no resto do anterior.
Pensei que os cães já podiam entrar nos sítios públicos, nos cafés, nos restaurantes, nas esplanadas.
E pensei nas pessoas que têm fobia aos cães. Pensei nas pessoas, nas crianças, que têm medo de cães. Nas pessoas que já foram mordidas e que agora fogem aos animais e que acabam por ter de partilhar o mesmo espaço com eles.
Beberiquei um pouco do Alvarinho. Estava bem fresco. Gaita, sabia-me mesmo bem.
Olhei para o tipo e para o cão e percebi que ali, naquele momento, naquela situação, o problema nem era o cão. Era o dono.
O dono do cão estava a deixar-me desconfortável. Era uma personagem nervosa. Irritável.
Levantou a pega da trela e bateu com ela no focinho do cão. Duas vezes. Deita! Deita, já disse! E o cão deitou. Chegou o gin e o tipo bebeu quase metade do copo no primeiro gole.
Eu não conseguia mais estar ali.
A esplanada tinha-me parecido um refúgio. Um espaço para um momento. Uns copos para relaxar numa espécie de oásis. Onde recuperar forças.
Mas já não era. Não aquilo.
Não! Não aquilo!
Acabei o copo. Larguei cinco euros na mesa na esperança que chegasse para pagar os dois copos que bebi. E saí da esplanada.
Precisava de calma na minha vida. Muita calma.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/24]

Choro-lhe a Ausência

Não sei que voltas ele deu que se enrolou na própria trela e acabou por se enforcar.
Já passou uma semana. Já consigo falar disto. Mas custou-me. Custou-me muito ultrapassar a sua ausência e a forma como foi.
Eu sei que ele não estava habituado a estar preso. Mas tive de o fazer. As coisas não podiam continuar daquela maneira. Estava a dar em doido. Já não aguentava o gajo da quinta e as suas queixas.
Prendi-o enquanto colocava uma rede à volta do quintal para ele não ir lá para fora. Mas ele não aguentou. Não aguentou estar preso ou não aguentou a falta de liberdade. Acho que ficou zangado comigo. Eu, que era o seu melhor amigo.
Conhecemo-nos há sete anos.
Ele apareceu por aqui. Devia de andar perdido. Não tinha coleira, mas estava bem tratado. O pêlo lustroso. Forte mas não gordo. Sentimo-nos logo atraídos um pelo outro.
Ele apareceu aí, subiu o pequeno caminho do quintal até ao alpendre e veio ter comigo.
Eu estava lá sentado a beber um copo de vinho e a fumar um cigarro enquanto lia A Bola. Ele subiu até ao alpendre e parou a olhar para mim. Eu olhei para ele. Estudámo-nos. Percebi que ele tinha sede. E fome.
Fui à cozinha buscar uma tigela de água. E trouxe-lhe um tacho com um resto arroz, a única coisa para comer, já feita, que tinha cá em casa. Ele bebeu e comeu. E depois foi deitar-se ao pé de mim. Colocou o focinho em cima do meu pé. E ali ficou. E foi ficando. Nunca apareceu ninguém à procura dele e acabou por ficar por cá.
Ele não era puro. Mas era uma mistura bem interessante. Parecido com um labrador. Era muito meigo e intuitivo. Íamos juntos para todo o lado. Portava-se bem. Era intrépido. Lançava-se alegremente às ondas do mar, mesmo nas marés vivas. Eu assustava-me mais que ele. A única coisa que o irritava eram as namoradas que eu trazia cá para casa. Nunca gostou de nenhuma. Devia achar que eu era dele, que a casa era nossa e tudo o resto eram intrusos. Não sei, mas era o que parecia. Nunca mordeu ninguém. Mas arreganhou os dentes algumas vezes.
Tudo mudou há cerca de 2 meses.
Não sei o que se terá passado. Começou a sair de casa e do quintal de madrugada e, quando voltava, às vezes vinha com sangue na boca.
Um dia descobri que as ovelhas da quinta ali em baixo andavam a ser mortas. Não demorou muito até que o tipo da quinta viesse cá acusá-lo. Prometi que não se repetiria. Não consegui cumprir a promessa.
Há cerca de quinze dias resolvi vedar o quintal para ele não sair daqui e deixar as ovelhas do homem em paz. O homem chegou a vir aqui com uma pressão-de-ar. Tive de o ameaçar com um podão com que estava a cortar uns ramos. Foi aí que resolvi vedar o quintal. Isto era suficientemente grande para ele dar aso às suas necessidades de liberdade.
Prendi-o com uma trela enquanto acabava de concluir a vedação para não ir mais às ovelhas do homem. Mas ele não aguentou estar ali preso. Uma casota e dois metros de autonomia. Não era o suficiente.
Um dia levantei-me e ele estava enrolado na trela.
Não sei o que se terá passado.
Tenho saudades. Era uma companhia. Um amigo.
Choro-lhe a ausência.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/30]