A Minha Vizinha da Rua

Conhecia-a desde miúdo. Éramos vizinhos de rua. Quando comecei a sair de casa sozinho para ir à escola, já ela por lá andava. Era mais velha que eu. Bem mais velha. Cruzava-me muitas vezes com ela na rua. Para cima e para baixo. Quando um ia para cima, o outro ia para baixo. Eu a fazer entregas para o meu pai. A fazer recados à minha mãe. Ela a passear, sapatinho de salto alto, saia travada, uma blusa com os botões estrategicamente abertos à frente a chamar a atenção para os peitos altivos, e uma malinha de mão a dar-a-dar. Eu corria aos apartamentos das velhas a levar as mercearias que o meu pai me mandava entregar. Mas não deixava de olhar para ela. Dava nas vistas. Nas minhas. E eu parava na rua para olhar. Chamava-me a atenção. Mesmo quando não a via. Sabia-a escondida. Escondida em vãos-de-escada, esquinas esconsas e estaleiros a aliviar o nervosismo dos serventes que andavam a prolongar a rua. Todos os meses nasciam casas novas na rua. Todos os meses a rua crescia. Todos os meses vinha mais gente viver para a rua. Todos os meses crescia o meu número de amigos. Todos os meses tínhamos de refazer as equipas para jogar à bola. E via-a sempre. A ela. A ela via-a todos os dias. A andar para cima e para baixo na rua. E quando não a via, sabia onde estava. A ajudar ao crescimento da rua. Todos temos o nosso papel.
Nunca falámos um com o outro. Ela chegou a meter-se comigo quando eu já era mais crescido. Mas foi um fogacho. Fogo-fátuo. Uma espécie de beijo lançado, provocador, à distância. Um olhar convidativo. Uma língua a surgir, malandra, entre os lábios red velvet. Um rodopio ao cruzar-se comigo para me apreciar, para se mostrar. Mas não passou disso. Nunca falámos. Nunca lhe disse Olá! Bom-dia! És bonita! E era. Era bonita. Era bem bonita.
Quando saí da rua deixei de a ver. Mesmo quando regressava, de passagem, a casa dos meus pais, procurava-a com o olhar. Ia até ao fim da rua, que já tinha marcado os seus limites, já não crescia mais do que aquilo, já não havia estaleiros nem serventes, embora continuassem a abundar as esquinas esconsas e os vãos-de-escada de uma arquitectura urbana que não tem em conta a vivência das pessoas que habitam aquelas casas, aqueles bairros, aquelas esquinas, mas não a via.
Ia até ao fundo da rua e voltava. Procurava-a. Não a via. Nunca mais a vi. Cheguei a pensar que tivesse ido embora para outro lado. Para outra cidade. Que tivesse largado aquela vida. Que tivesse arranjado marido e saído dali. Imaginei-a rodeada de filhos, numa vivenda com cerca branca e um labrador. Também cheguei a pensar que tivesse morrido.
Foi assim, grande, a minha surpresa, quando a vi no Correio da Manhã. Era a fotografia de uma mulher muito velha, disforme, com uma cara escavada pela vida. Mas reconheci-a logo. Era ela. A minha vizinha da rua. A notícia falava da sua morte, à paulada, para lhe roubarem uns poucos euros. Era de madrugada e ela andava para cima e para baixo numa outra rua, num bairro não muito longe do nosso, com a malinha a dar-a-dar, até que foi abordada por um miúdo. Um miúdo que a assaltou. Um miúdo que a matou. Um miúdo que está, agora, a ser procurado pela polícia.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/14]

Num Banco de Jardim que Estava numa Praça

Sentei-me no banco de jardim que não estava num jardim, mas numa praça. Numa pequena praça. Numa pequena praça com meia-dúzia de arbustos e algumas flores, mas sem árvores. Uma pequena praça a caminho da entrada do metropolitano. Eu sentei-me ali, naquele banco, no meio da cidade que por ali passava, apressada, a caminho de qualquer coisa, com a mochila ao meu lado.
Sentei-me naquele banco porque dali podia ver as janelas da casa. Da casa dela. Sabia quando estava na cozinha a fazer um chá, a única coisa que se sentia habilitada a fazer – nem a porra de umas torradas! Da última vez teve de chamar o porteiro para lá ir apagar as chamas. Sabia quando estava na sala, pelas luzes que piscavam, as luzes das imagens da televisão onde seguia sempre, atentamente, os programas noticiosos. Sabia quando estava na casa-de-banho porque se acendia a luz da janela mais pequenina, aquela que ficava entre a janela da sala e a do quarto. E sabia quando é que estava no quarto. Porque todas as luzes da casa estavam desligadas. Era hora de dormir.
Sentei-me no banco de jardim por alguns dias. Eu via-a dentro de casa. Olhava para ela a cirandar de um lado para o outro, via-a a olhar cá para fora, para a rua, para aquele banco e, no entanto, sentia que ela não me via. Isso moía-me o coração. Eu estava lá sentado, no banco, no banco de jardim, na pequena praça a caminho da entrada do metropolitano, com a mochila ao meu lado, a olhar para ela e ela não me via. Eu abria a mochila e tirava um livro. E lia. E quando me cansava de ler, tirava um caderno da mochila, uma caneta, e escrevia. E quando chegava a noite, e eu não tinha luz suficiente para ler e para escrever, tirava da mochila o iPod e ouvia música. E sempre com um cigarro a queimar entre os dedos da mão. Parecia que o maço de cigarros não tinha fundo. Havia sempre um cigarro para me acompanhar. E assim passei alguns dias, e algumas noites, naquela pequena praça à entrada do metropolitano, sentado num banco de jardim. Tive sorte. Não choveu. Não fez muito frio. Só tinha de vestir um casaco de lã, velho, que tinha comigo. E a noite passava suave por mim. E eu permanecia sentado no banco de jardim. Fumava um cigarro. Olhava-a. E esperava que ela me olhasse e me visse.
Foi na terceira noite. Na terceira noite que estava sentado no banco de jardim que não estava num jardim, mas sim numa praça. Estava a fumar um cigarro e a perguntar-me Porque raio não tenho fome? Parecia-me estranho estar ali há tantos dias sem comer. Sem ir à casa-de-banho. Nem sequer um xixi nos arbustos à entrada do metropolitano. Quando a vi chegar. Ela chegou num carro que eu não conhecia. Conduzido por alguém que eu também não conhecia. E senti o coração a bater. A bater muito rápido. E vi-a debruçar-se para o lado. Para o lado do tipo que eu não conhecia. E trocarem um beijo. Um beijo que foi mais um toque de lábios, mas um beijo.
Levantei-me do banco de jardim, a tremer, e dirigi-me ao carro que não conhecia. Vi-a dizer qualquer coisa ao homem. Vi o homem dizer-lhe qualquer coisa a ela. Vi-a sorrir. Voltar a emprestar os seus lábios aos lábios do homem. E eu aproximava-me do carro. E ela abriu a porta do carro. E eu cheguei lá. Cheguei ao pé do carro que não conhecia. E ela saiu do carro. E eu estiquei a minha mão para agarrar a mão dela. Mas a mão dela fintou-me e não se deixou agarrar. E ela saiu do carro. Fechou a porta. Eu pus-me à frente dela para lhe bloquear a passagem e senti-a passar por mim. Por dentro de mim. Como se não me visse. Como se eu fosse invisível. Inexistente. Como se eu não estivesse ali.
Fiquei parado. Parado entre ela e o carro que eu não conhecia de lado algum. Fiquei ali a vê-la caminhar até à entrada de casa. Vi-a tocar a campainha. O porteiro a abrir a porta. E ela virar-se. Virar-se para mim. Ela virar-se finalmente para mim, e acenar com a mão, enquanto me mandava um beijo pelo ar. E eu vi o beijo a voar, a voar desde os lábios dela, e dirigirem-se a mim. Eu sorri. Finalmente ela tinha-me visto. E o beijo passou por mim e não parou. Continuou. Continuou a voar até entrar dentro do carro e pousar, suave, doce, sobre os lábios do homem que eu não conhecia. E vi a cara de parvo que o homem fez quando sentiu o beijo dela nos seus lábios. E reconheci aquele sorriso parvo.
Ela entrou em casa. O carro arrancou pela cidade. Eu fui buscar a minha mochila ao banco de jardim que não estava num jardim, mas numa praça. E desci as escadas para o metropolitano.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/26]

O Meu Primeiro Beijo

Eu estava a lançar bolas ao cesto. Estava sem camisola. Transpirado. E lançava uma bola atrás da outra. Não era grande jogador de basquetebol. Errava a maior parte das bolas. Mas gostava de estar ali, no ringue ao ar livre, onde me chegava o cheiro da maresia, misturado aos cheiros dos vários jantares que se confeccionavam ali no parque, a lançar bolas ao cesto, sozinho, sem ter em que pensar, sem ter que conversar, sem ter de enfrentar um olhar.
Ela chegou ao ringue e subiu para o muro que o circundava. E ficou ali a olhar para mim. Errei todas as bolas seguintes.
Fui ao muro, ao pé dela, acender um cigarro. E fiquei lá. Ficámos os dois. Lado a lado. Sem nos falarmos. Depois ela também puxou de um cigarro. Pediu-me lume. Era estrangeira. Acendi o isqueiro. As mãos dela agarraram a minha, para proteger a chama de um vento imaginário, que não existia, mas que podia apagar a chama. E aproximou o cigarro. E enquanto puxou a chama para acender o cigarro, enquanto mandou umas baforadas para manter o cigarro aceso, manteve os olhos nos meus. E eu comecei a tremer. A ficar com a boca seca. A esquecer-me do inglês aprendido nas aulas. E deixei cair o isqueiro.
Ela sorriu.
Ficámos ali os dois. Ela sentada em cima do muro. Eu encostado. Fumámos os cigarros e fomos encetando uma pequena e ingénua conversa. A minha voz teimava em fugir. Quando aparecia era muito pequenina e tímida. Gaguejava. Tropeçava constantemente nas palavras. Utilizava vocábulos errados. Juntava algum francês, parecia-me. E ela sorria. Ela sorria-me muito. E quanto maior a minha parvoíce, maior o seu sorriso.
Depois ela desceu do muro, aproximou-se de mim, lançou fora a beata do cigarro, pôs-se em bicos dos pés, aproximou a sua boca da minha e senti-lhe o odor mágico de pasta dos dentes misturado com tabaco e outra coisa que não identifiquei mas que deu comigo em doido.
Vi-a aproximar-se de mim enquanto todo o espaço de afastava de nós. O ringue estava já no meio do mar e dela já só lhe via a boca, os lábios e a língua. A boca movia-se, mas não ouvi nada. Não sei o que disse e se disse alguma coisa.
E a boca dela colou-se à minha e eu senti-me a dar um pequeno enorme passo no espaço sideral, a voar pelo mar adentro, a dançar uma valsa num palácio em Viena, a rebolar dunas abaixo e acabar a furar uma onda de água tépida no mar. A boca dela estava húmida. E minha estava seca. A língua dela entrou dentro da minha boca e brincou com a minha língua. Trincou-me levemente os lábios. E com a língua sarou-me as mordidelas.
De repente acenderam-se as luzes fortes do ringue. Já era de noite. Afastámos a cara um do outro e olhámo-nos. E sorrimos, tímidos. E eu disse-lhe que tinha de ir tomar um banho.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/13]

Não Me Arranjas Nada para Comer?

Ela acordou serena, com um sorriso nos lábios e a luz do dia a bater-lhe leve nos cabelos espalhados pela almofada. Estendeu a mão para a mesa-de-cabeceira e puxou o telemóvel para si. Viu as horas e o sorriso desapareceu. Levantou-se rapidamente e enfiou-se na casa-de-banho. Um duche rápido, um salto para as roupas enquanto trincava uma maçã, que comeu enquanto preparava a mala para sair, e uma última ida à casa-de-banho para lavar os dentes. Depois olhou-se ao espelho. Puxou a camisa para baixo, para a alisar. Lambeu o dedo com a língua e passou-o pelas sobrancelhas. Gostou-se e sorriu-se. Vestiu o casaco. Estava pronta para sair. E então, tocou a campainha da rua.
Com o casaco vestido e a mala na mão, ela abriu a porta e viu um rapaz parado frente à entrada de casa que lhe perguntou Não me arranjas nada para comer?, e ela, apanhada de surpresa, sabendo que não tinha pão, respondeu sem pensar Queres bifinhos de peru com arroz de passas do jantar de ontem?, e o rapaz, tão ou mais admirado que ela voltou a perguntar, Não tens um pão com manteiga?, e ela, Desculpa, mas não tenho pão. Queres os bifinhos?, e ele aceitou, e ela franqueou a porta da rua e fê-lo entrar em casa. Levou-o para a cozinha, colocou um bocado generoso de arroz com passas e dois bifinhos de peru num prato e levou-o ao micro-ondas. Ele sentou-se à mesa da cozinha. Ela colocou-lhe um copo com coca-cola à frente.
Tocou a campainha do micro-ondas, ela retirou o prato lá de dentro e colocou-o à frente do rapaz que começou logo a comer, sofregamente, mal conseguindo respirar. Não falaram nada um com o outro. Estavam ambos incomodados com o silêncio, mas a vergonha e a timidez impedia-os de falar.
Quando ele acabou de comer, ela estendeu-lhe uma maçã e disse-lhe que tinha de se ir embora que estava muito atrasada. E ele foi embora. Ela ficou, por momentos, parada em frente à porta da rua a olhar, não sabia bem para onde, pois não havia nada para olhar para além da madeira da porta, e acabou por abri-la e sair também.
Esteve o dia todo a trabalhar e, mais tarde, ao final do dia, voltou para casa.
Quando entrou em casa, o marido estava a preparar um risotto de cogumelos. Disse-lhe que estava quase pronto. Ela foi à casa-de-banho, lavou as mãos e a cara e voltou para a cozinha enquanto o marido lhe colocava um copo de vinho branco à frente. Sentou-se e foi servida de risotto. O marido sentou-se à sua frente e começaram a comer devagar, enquanto falavam do dia de um e do outro, até que ela lhe ia contar o estranho acontecimento de manhã e a campainha da rua tocou. E a campainha da rua voltou a tocar.
Olharam-se admirados e pensaram Quem é que será a estas horas?, e ela levantou-se e foi à porta da rua e abriu-a e, do outro lado, um rapaz parado frente à entrada de casa perguntou-lhe, Não me arranjas nada para comer?

[escrito directamente no facebook em 2017/11/05]

Quando Ela Era Feliz

Eu peguei-lhe na mão. E ela deixou a mão na minha. E então, puxei-a para a estrada.
Passámos, na passadeira, para o outro lado. Eu andei rápido, e ela veio aos pulinhos, quase a correr, puxada por mim, mas em segurança, que eu estava a agarrá-la, mesmo que ela estivesse em desequilíbrio em cima de umas sandálias abertas, de meio salto, o que lhe torneava bem as pernas e eu gostava de apreciar, mas às quais não estava habituada, e muito menos em passo de corrida. Mas chegados ao passeio do outro lado, desatou a rir, nervosa, de cara muito vermelha de vergonha por ter corrido e, pior ainda, ter corado por eu ter percebido o nervosismo.
Entrámos pelo pequeno jardim, já com pouca ramagem, e saímos do outro lado, a caminho de casa dela. As nossas mãos transpiravam, mas nenhum de nós a tirava, para não dar a entender que a transpiração poderia ser um incómodo.
Perto de casa parámos numa esplanada, sentámos e pedimos duas imperiais e uns tremoços. O tempo estava bom, sol e calor, e assim aguçávamos o apetite, não que fosse necessário ser aguçado, mas não demonstrávamos o nervosismo nem a excitação em que eu e ela nos encontrávamos, e assim estávamos um pouco mais libertos.
Eu fumei um cigarro. Ela falou-me de umas notícias que tinha lido no jornal. Mas tudo assim muito depressa. As cervejas foram bebidas rapidamente e rápido arrancámos, finalmente, para casa dela.
No elevador trocámos beijos. Ela tocou-me, eu toquei-a e antecipámos o que nos esperava. E quando chegámos a casa, fomos directos ao quarto dela, sem direito a sedução que estávamos mais que seduzidos, e com os preliminares despachados à velocidade da luz que o desejo explodia.
Estávamos nós enrolados nos lençóis, corpos nus a dançarem, um dentro do outro, os lábios a lamber o sabor agri-doce do outro, quando a ouço chorar. E parei, assustado. Agarrei-lhe a cabeça e encostei-a ao meu peito. Sosseguei-a. Afaguei-lhe o cabelo e perguntei Fiz alguma coisa mal?, e ela abanou a cabeça, enquanto fungava. Então? insisti. E ela disse, Estou feliz.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/03]

A Girls Night Out

Ela chegou eufórica a casa.
Era Sexta-feira. E tinha combinado sair com duas amigas. Uma girls night out. Há quanto tempo não saía!
Chegou a casa e gostou do silêncio que encontrou. Despachou os filhos para casa do pai e sentiu-se no paraíso.
Pôs a banheira a encher de água quente e despejou sais de banho. Fez espuma. Muita espuma. E tomou um banho de imersão. Estava tão cansada que adormeceu no banho. Quando acordou, a água já estava fria. Saiu. Enxugou-se. Escolheu umas calças de ganga apertadas com as quais teve de saltar para as conseguir passar pelo rabo. Uma camisa com um decote considerável. E um delicioso perfume floral.
Saiu de casa, apanhou um táxi e foi ter ao restaurante onde combinou com as amigas.
Era um restaurante selecto. Caro. Mas não havia confusão de grupos e adolescentes. Comeram cozinha de fusão. Qualquer coisa de estranho, mas que gostaram. Ou pelo menos pensaram que sim. Beberam vinho branco. Duas garrafas. Atiraram-se sem remorsos aos doces conventuais, cheios de ovos e açúcar. Mas gostaram. E lamberam os lábios para não perderem uma migalha.
Saíram do restaurante e foram até um bar. Beberam um gin da moda, cujo nome desconheciam mas que vinha mais enfeitado que uma árvore de Natal. Reparou nos olhos dos homens sobre ela. E gostou. Mas não queria mais que aquilo. Só queria ser apreciada. Olhada. Vista. Também pelas mulheres, Especialmente pelas mulheres. Mas claro, pelos homens também. Queria sentir-se no olho do furacão. E durante algum tempo sentiu-se. Depois, com o bar a encher, teve de partilhar as atenções com raparigas mais novas. Mais disponíveis. E que lhe roubaram o protagonismo.
Saíram do bar e foram até à discoteca. Fartaram-se de dançar êxitos dos anos ’80. Até parecia que tinha viajado na cápsula do tempo. Beberam cerveja. Foram apalpadas na confusão da pista de dança, mas não ligaram.
A meio da noite ela sentia-se cansada. O corpo já não queria mexer-se. Queria ali, ao pé dela, o seu sofá. Já não conseguia beber mais um gole de cerveja. Já não queria olhar mais para a cara imberbe dos rapazes que a olhavam com curiosidade. Falaram as três e decidiram ir embora. As duas amigas tinham actividades familiares de manhã. Sim, queriam ir embora. Mas tinham gostado muito da noite. Todas as três. E prometeram repetir a dose. Uma noite destas.
Ela chegou de táxi a casa. Sozinha. Foi para a sala e ligou a televisão para ouvir barulho. Despiu-se na sala e largou a roupa por lá. Depois foi às escuras corredor fora até ao quarto. Entrou para dentro da cama, sentou-se à cabeceira, com as pernas encolhidas e o edredão puxado para cima. Nos seus ouvidos uma parede sonora com os baixos a explodir. Os olhos, debaixo das pálpebras fechadas, teimavam em ver.
De repente sentiu uma boa dose de angústia a caminhar pelo peito, e a comprimi-lo. De repente sentiu-se velha. De repente sentiu-se sozinha e velha numa casa enorme. De repente sentiu que a sua vida estava marcada pela ausência. Não sabia bem de quê. De qualquer coisa que a tirasse daquele vazio melancólico e a preenchesse. Ficou com medo. Estava sentada sozinha na cama e ficou cheia de medo da solidão. A sentir-se velha e sozinha. Perdida, talvez.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/27]