Billy, o Botas

Era miúdo e lia muita banda-desenhada. No meio daquelas enormes pilhas de revistas, especialmente a preto e branco, que se amontoavam em prateleiras improvisadas à espera de um conhecimento metodológico que acabaria por vir só com a idade, ao contrário da bronquite que desapareceria com o adiantado da idade, diziam os médicos aos meus pais, e nunca desapareceu, havia umas revistas que eu lia mais que todas as outras, relia até à exaustão, sei que algumas delas se gastaram de tanto serem folheadas e as outras, as que restaram, não sei onde param, talvez nalgum caixote dos inúmeros que vou deixando plantados nas casas por onde vou passando à espera de os recuperar um dia mais tarde, mas sem já fazer grande fé no futuro que é cada vez mais negro que o passado alguma vez foi. Chamava-se Billy, o Botas, era da autoria de Fred Baker (argumento) e John Gillat (desenho), mas foi, depois, desenhado por outros ilustradores.
Billy, o Botas era Billy Dane, um pobre coitado, órfão, que viva com a avó, gente pobre, sem muitos recursos (por vezes, e agora que penso nisso, encontro alguns paralelos com a história do Homem-Aranha, e a vida de Peter Parker com a tia May e as enormes dificuldades económicas que enfrentam no dia-a-dia), para agravar as coisas, era uma nulidade no futebol, desporto que ele gostava acima de tudo. Um dia descobriu umas chuteiras velhas, que tinham pertencido a uma antiga glória do futebol inglês, Chuto Mortal, era assim a alcunha dessa antiga estrela, e ao calçar as chuteiras dessa antiga glória, Billy ganhava a capacidade de ser uma recriação do Chuto Mortal, como se as chuteiras tivessem memória e reproduzissem, nos pés de Billy, as jogadas do Chuto Mortal.
Estávamos nos anos sessenta, eu conheci Billy, o Botas nos anos setenta e, cá como lá, viviam-se tempos difíceis. As estórias eram sobre esses tempos difíceis e, os jogos que Billy jogava, e ganhava, quase sempre sozinho, por obra e graça do par de chuteiras velhas que tinha nos pés, eram um paliativo para a vida miserável que levava. Que levávamos. Todos nós.
Hoje, passados tantos anos, ao lembrar estas estórias com indisfarçada saudade, penso no cinema de Ken Loach que só vim a conhecer alguns, bastantes, anos depois, mas cujo ambiente também estava aqui. O realismo inglês. Problemas sociais. Os bairros sociais. As casas de renda barata. As famílias miseráveis. A pobreza extrema. A fome.
Lembro-me que, na mesma colecção, ou noutras colecções, a memória já não é como era (eram livros editados por Rossado Pinto, que também publicava o Jornal do Cuto, uma espécie de Revista do Tintim para pobrezinhos – o Jornal do Cuto era a preto e branco e tinha menos páginas, era um jornal e não uma revista – embora fosse, mesmo assim, uma revista, não é?), havia outras estórias com o desporto como pano de fundo, como Peter, o Gato, que era um guarda-redes, Kangaroo Kid, Os Pupilos de Carson, Scruffs! e Craig, o Bala de Canhão, que eram, também, todos eles sobre futebol, Kid Gloves, que era um boxeur e o Fishboy que era um nadador, mas todas as estórias tinham um cunho social muito forte, as personagens eram todas marginais, lumpens que através do desporto, conseguiam ascender a uma vida que lhes estaria vedada à partida.
Estas revistas que eu tinha (tenho? ainda terei?) eram a preto e branco e em papel de fraca qualidade. Mais tarde vim a perceber que, algumas destas histórias eram, originalmente, a cores mas que as edições de Rossado Pinto eram a preto e branco para serem mais baratas e mais acessíveis. A miúdos como eu.
Recordei estas estórias e lembrei-me de Billy, o Botas, ao ver os milhões que o futebol movimenta. Hoje. Em plena pandemia. Os milhões que alguns dos miúdos ganham. E o sonho que alguns deles ainda acalentam, alguns deles que não passam da enorme massa anónima que recebe mal, não tem grande futuro, mas que permite que os bons sobressaiam.
Com os algoritmos que tendem a afunilarem-nos o gosto e o novo conhecimento, sinto às vezes falta da descoberta feita nas escaparates montadas por gente que tinha gosto naquilo que vendia. E percebia o que tinha em mãos. Gostava dos produtos que vendiam.
Hoje sinto uma certa tristeza ao passar nos lineares dos hipermercados e ver as pilhas de livros indiferentes que estão por lá largados por alguém que se está nas tintas para todos eles. E quem os leva, na maior parte das vezes, fá-lo por desfastio. Levar um livro como quem leva duzentas e cinquenta gramas de fiambre da pá Nobre, ou cento e cinquenta gramas de queijo flamengo, em barra, que é para tostas, se faz favor!
Os livros, e em especial estas revistas simples e pobrezinhas, não só as de desporto, de onde fui relembrar o Billy, o Botas, mas todas as outras estórias de cowboys e de super-heróis (sim, da Marvel e da DC, também a preto e branco, em edições baratinhas), o Tarzan, o Fantasma e o Mandrake, carregavam em si uma magia que mesmo assim, com todas as suas lantejoulas e purpurinas, a internet não consegue combater. Eu também sou um utilizador das novas tecnologias. Também ando pelas redes sociais. Também me perco pelo Youtube. Mas quando quero mesmo evadir-me, é com um livro nas mãos, tenha só letras ou quadradinhos (era assim que se chamava a banda-desenhada naquele tempo), e sem estar preso à ditadura do algoritmo.
Quem não lê, não sabe o que perde.
E eu tenho saudades do Billy, o Botas. Gostava de um dia poder recuperar esse caixote. Esse, entre outros. Esse e outros. Todos.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/10]

Depois de Daniel Blake

Tínhamos acabado de ver Eu, Daniel Blake de Ken Loach na televisão. Ela estava a chorar baba-e-ranho. Eu estava furioso e com vontade de bater em alguém. Ainda olhei para ela, porque estava ali à mão-de-semear, mas Não! pensei. Ela estava em sofrimento.
Não dissemos nada.
Eu levantei-me e fui até à janela. Acendi um cigarro e olhei lá para fora. Vi o cão a andar de um lado para o outro à luz da Lua. Olhou para mim quando ouviu o som do isqueiro, e viu a luz da chama, mas continuou o seu caminho. Perdi-o de vista.
As pessoas são mesmo o pior da humanidade. As pessoas. O que conseguem fazer umas ás outras. A frieza com que tratam os mais indefesos. À tarde tinha visto um vídeo real de dois seguranças de um supermercado brasileiro a chicotear um miúdo de dezassete anos por ter roubado a merda de um chocolate. A merda de um chocolate! Sentem-se imunes. Os filhos-da-puta da roda dentada sentem-se imunes. São sempre mais papistas que o Papa. Para se sentirem superiores. Para sentirem que têm um grãozinho de poder debaixo do braço. Por vezes penso que as pessoas parecem cães a defender o seu pequeno território, o linear, o gabinete, a mesa de trabalho numa ilha espiado pelos colegas que se controlam uns-aos-outros. Mas depois percebo que não são cães, que os cães até são uns animais de respeito, são mais hienas à espera dos restos que os leões lhes deixam. Vejo que tenho a mão fechada para um murro quando tento tirar o cigarro da boca. Desfaço o punho. Agarro no cigarro com dois dedos, puxo-o e arranco um pedaço de pele dos lábios. Foda-se! digo. Magoei-me!
Ela continuava a chorar.
Gosto das redes mosquiteiras. Não posso pôr a cabeça fora da janela, mas livrei-me de moscas, melgas e mosquitos. Em noites de calor posso ter as janelas abertas para deixar correr o ar.
Ela levantou-se. Saiu da sala. Ouvi-a na casa-de-banho. Saiu, passou pela sala e disse-me Vou-me deitar, e tinha os olhos vermelhos. Há pessoas que são mais sensíveis que outras. Mas há filmes que nos viram do avesso.
A verdade é que há muito da nossa vida naquele filme. Há muita coisa em Eu, Daniel Blake pelo qual eu passei. Pelo qual ela passou. Pelo qual muita gente passou. E o filme não é lamechas. Tão só absurdamente real e triste. Humanamente triste. Triste como nós.
O problemas das redes mosquiteiras nas janelas é que não posso lançar as beatas para a rua. Acabei de fumar o cigarro. Fui à cozinha. Molhei-o na torneira do lava-louça e deitei-o no caixote do lixo.
Pensei na cena do Banco Alimentar. Revi Katie a abrir a lata de feijão e a comer os feijões crus, directamente da lata, à mão, enfiando-os pela boca, esganada. A fome é uma merda! É como um punho fechado que nos entra pelo cu e nos puxa as entranhas até não restar mais de nós que um desejo puro de rasgar algo com os dentes e saciar o estômago. Animalesco.
Acabei por ir atrás dela para a cama. E ali estávamos nós os dois, virados para o tecto, de olhos abertos, quietos e sem conseguirmos dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/03]

Cathy Come Home

Sentei-me na sala, sozinho, com um copo de vinho e um maço de cigarros. Ao fundo uma vela acesa, por causa do cheiro do tabaco. A janela aberta, com pouco barulho vindo da rua.
Sentei-me no sofá disponível para ver Cathy Come Home, colheita de 1966 de Ken Loach. Um filme feito para televisão. Uma obra-prima (sim, já sei o que vão dizer, mas quero que se fodam!). Um filme político. Um filme-denúncia. Um filme-resumo das políticas sociais britânicas dos anos ’60.
E foi uma má escolha.
Não, o filme é excelente. Filme para televisão mas cheio de cinema lá dentro. Cathy Come Home é o realismo inglês. A nova vaga do cinema britânico nascido ainda nos anos ’50. Locais naturais. Assuntos sociais. Revolta. Grandes planos. A sujidade e a tristeza da vida como ela é. Sem filtros ou paninhos quentes.
Mas terminei o filme deprimido. E a achar que entre Cathy Come Home e Eu, Daniel Blake, que se distam 50 anos, tanta coisa mudou na Europa para estarmos quase no mesmo sítio.
Mas tenho de começar pelo fim. O texto, em cartela, depois do desenlace final, sobre a cara de Cathy, em grande plano, a chorar angustiada, adverte:

“Tudo o que se passou neste filme, aconteceu em Inglaterra nos últimos 18 meses.
4.000 crianças foram tiradas aos seus pais, e institucionalizadas, por estes não terem habitação.
A Alemanha Ocidental construiu o dobro das casas que Inglaterra construiu após o fim da guerra.”

Este filme é sobre o falhanço das políticas sociais inglesas. É sobre uma máquina autofágica que existe para se sustentar a si própria. É sobre políticas, leis e ideias, aprovadas em gabinetes assépticos, distantes da realidade, e sem serem bem pensadas.
Lembro o desdém da Economia sobre as Ciências Sociais. E depois penso que foi assim que chegamos aqui. Porque há coisas mais importantes que outras (salvam-se os bancos e matam-se as pessoas).
Somos muito piedosos. E somos muito gananciosos.
E quem não trabalha é calão, não quer trabalhar, é ocioso. Está marginal. E a culpa, e aqui falamos sempre de culpa, porque há sempre culpados, são eles, nós-eles, somos os que sofremos com as directivas dos outros, os que vivem de outra maneira. Protegidos. Poupados à barbárie do dia-a-dia. Poupados ao acordar, de manhã, e não saber como irá ser logo à noite. Se vão ter um tecto para dormir. Eles. E as mulheres. E as crianças. As famílias. Como vai ser amanhã? Logo? Daqui a pouco?
Aqui, tudo começa com Cathy a fugir da sua pequena cidade onde nada se passa para a cidade grande onde brilham as luzes e onde a magia acontece. Há gente, restaurante, bares, cinema, gente, gente diferente e vida. Muita vida.
Cathy conheceu Reg e apaixonaram-se. Reg era motorista numa pequena empresa. Casam. Alugam uma bela casa de classe-média. Mas Reg sofre um acidente. A empresa não tem seguro. E precisa de continuar a funcionar. Reg vai para o hospital e é despedido. Cathy engravida. Ficam sem dinheiro. A partir daqui, e com uma passagem por casa da mãe de Reg (casa social, pequenina, cheia de gente), Cathy e Reg entram numa espiral descendente que parece nunca mais terminar.
Vivem a Lei de Murphy: tudo o que pode correr mal, corre mal.
Começa a queda no poço de onde nunca mais vêm o fundo, já que é sempre a cair. Não conseguem encontrar um quarto para alugar. Entretanto já nasceu o segundo filho. Entram numa lista interminável para umas casas sociais que estão a ser construídas mas, e até lá?
Nasce o terceiro filho. São expulsos de casas vazias que ocupam. Vão para uma rulote, mas até daí são expulsos, porque há interesses, há sempre uns interesses financeiros, imobiliários. O estado tem um programa para ajudar famílias em dificuldades, mas é só para as mulheres e as crianças. Um quarto. Um quarto só. Agora, porque três meses depois, se não arranjarem nada têm de sair do quarto e o que lhes resta é uma cama para mulher e filhos em camaratas onde se aglomeram todas as falhadas que a sociedade produz.
E os homens? Os homens que se lixem. Desenrasquem-se. E assim separam-se famílias. Criam-se problemas. E as crianças são retiradas e metidas em instituições, porque já não há famílias. O Estado rompeu com elas. Destruiu-as.
É, aliás, assim que termina o filme, com Cathy a ser despejada da sua cama e, numa estação (comboio? autocarro?) onde estava a repousar com os dois filhos (o mais velho já estava à guarda da sogra), vem a polícia com os assistentes sociais retirar as crianças e deixá-la sozinha, perdida entre as suas lágrimas e todos os sonhos que tinha e que viu serem-lhes roubados.
O filme acaba. Acabei com a garrafa de vinho e tenho o cinzeiro cheio de beatas.
Estou nervoso.
Sinto que, mesmo assim, a minha vida não é tão má. Que, mesmo assim, enquanto sociedade chegamos mais longe… Mas logo depois questiono-me Chegámos mesmo? Aquilo que vi acontecer ali, nos anos ’60, alguns dos sítios onde Cathy e Reg viveram fizeram-me lembrar as fotografias dos biddonvilles que os portugueses ocuparam na emigração para França. Lixo, ratos, plástico, placas de zinco, sujidade, muita sujidade, doenças. Sim, estamos longe disso, penso. Acho.
E depois penso nas gentes que vi dormir junto aos Centros Comerciais do Martim Moniz, em Lisboa. E das gentes que vi dormir nos vãos de escada de prédios onde a porta da rua está sempre aberta. E nos degraus de algumas montras. Nas pequenas salas de algumas caixas Multibanco. Debaixo das estátuas. A dormir no Metro até serem de lá postas fora.
Tudo isto não há muito tempo.
Chegámos mesmo mais longe? Ou alguns de nós chegaram mais longe? Alguns mesmo, demasiado longe? E os outros? Os que não conseguem acompanhar? Os que não conseguem ser filhos-da-puta? Os que não são gananciosos? Competitivos? Os que não conseguem ser, nem querem ser, iguais aos outros?
Há duas frases no filme que resumem tudo o que éramos, na altura, e somos ainda hoje:

“Vocês não se importam. Só fingem importar-se.”

Tenho a casa às escuras e estou à janela da cozinha a fumar um cigarro enquanto olho as luzes brilhantes da cidade e penso que depois de toda a depressão e mal estar que o filme de Ken Loach me provocou, o que ainda anda cá por dentro a remoer é a capacidade que aquelas duas alminhas do filme, a Cathy e o Reg, que, no meio de toda a merda em que se transformou a sua vida, ainda tinham para se amar.
Foda-se! E isto é tanto.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/03]