O Pão-de-Alho do Lidl Tem de Ser Aquecido no Forno

Estou a olhar para o forno e estou furioso. Estou a olhar para aquele buraco negro debaixo do fogão que não funciona. Gasto dinheiro a adquirir coisas que depois avariam-se e requerem reparações onerosas. Gasto para as ter e para as manter. A vida é uma bola imparável de gastos. Quantos deles desnecessários?
Estou furioso.
Tinha regressado ao Lidl. Há muito que não ia ao Lidl. Não gosto daquela apresentação em caixotes, tudo aparentemente fora de ordem, coisas misturadas, separadas, sem lógica, sem razão, sem nenhum sentido. Os produtos não estão alinhados. Não sei como é que as pessoas se orientam. Eu não consigo. Aquilo mexe-me com os nervos.
Regressei lá numa tentativa de reviver um certo passado. Fui procurar o pão-de-alho congelado que fizeram as minhas noites de aconchego e felicidade quando chegava tarde e esfomeado a casa depois das loucuras dos fins-de-semana. Também ia à procura de vinho tinto chileno a um euro e meio. O pão encontrei. Ainda existia. O vinho não. E o que havia a um euro e meio tinha um ar tão triste e melancólico, enfiado em rótulos multicoloridos e festivos medonhos que acabaram por me empurrar para a cerveja. E foi o que fiz. Uma embalagem de quinze minis Sagres em promoção – há sempre cerveja em promoção. Não percebo porque é que não é logo objectivamente mais barata.
Cheguei a casa. Um jantar simples. Uma ideia simples. Arrefecer as minis no congelador. Aquecer o pão no forno. E degustar o pão-de-alho frente à televisão a ver as últimas notícias sobre as medidas de coação aplicadas ao antigo presidente do Sporting e ao líder da principal claque do clube.
Coloquei cinco minis no congelador e as outras no frigorífico.
Liguei o forno. Mas o forno não ligou. Liguei e desliguei várias vezes. Nada. Insisti. Continuou tudo morto. Experimentei tirar o manípulo. Abri o forno. Liguei a luz do telemóvel e olhei lá para dentro. Não percebo nada daquilo. Não estava a funcionar.
Fiquei furioso.
Estou furioso.
Acabei por aquecer o pão-de-alho no micro-ondas. Abri uma mini. Bebi-a. Bebi uma segunda. Trinquei o pão-de-alho. Era borracha. Plástico. Rijo. Mole, mas rijo. Sem sabor. Falso. Uma espécie de sucedâneo. Aquele pão não foi feito para o micro-ondas. Foi feito para o forno. Mas tenho o forno avariado
Que porra! Estou furioso.
Bebo mais uma mini. E vai ser este o meu jantar. Minis. O pão-de-alho foi para o caixote de lixo. Tenho saudades do vinho tinto chileno a um euro e meio. Também comia um queijinho.
Esqueci as notícias. Estou a olhar para o forno morto.
Foda-se! Que vida triste.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/15]

Mas Qual País?

Vinha no carro. A TSF na rádio. Era um Bloco Central especial com os dois Pedros do costume e o super-Paulo da Caixa, que já o fora dos impostos e da saúde. Na conversa fiquei-me por um aforismo de Luís Montenegro repetido por um dos Pedros: O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Pois não. A vida das pessoas não estava melhor. Mas o país estava? Qual país? Este dos dois milhões de pobres? Dos salários mínimos de quinhentos e oitenta euros? Das pensões de sobrevivência que não chegam a duzentos euros? Dos velhos com terrenos sem futuro perdidos num interior que ninguém quer e que tem de os limpar em tempo recorde? Das pessoas expulsas dos centros das cidades pela ganância? Da pequena e grande corrupção? Dos processos que prescrevem ou desaparecem?
Senti-me deprimido.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Cheguei a casa. Acendi um cigarro e sentei-me no sofá, liguei a televisão e recostei-me. Estava cansado.
CMTV.
Manuel Pinho a lidar os deputados. Os Hells Angels. Os hooligans da Juve Leo e o assalto à Academia de Alcochete. A prescrição dos processos sobre as contas dos partidos da democracia. O desaparecimento de uma parte do processo contra Ricardo Salgado.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Levantei-me do sofá. O cigarro esquecido na mão.
Um jovem esfaqueado e morto à entrada de casa. Bruno de Carvalho a queixar-se à polícia por bullying do Sporting e a pedir audiência à Procuradoria-Geral da República. O botox da Ana Malhoa. Escolas com salários em atraso e falta de alimentos nas cantinas. Agentes da GNR castigados por passarem poucas multas. Os Maias. CR7. Jesus. O Benfica. Ufa!
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
O cigarro consumido caiu ao chão.
Fui ao quarto. Agarrei no revólver. Saí à rua.
Estava no lusco-fusco. Fim-de-dia. Muita gente na rua. A passear. A caminho de casa.
Comecei a disparar. Comecei a disparar a torto e a direito. Acertei. Acertei. Errei. Acertei.Errei.Errei.AcerteiAcerteiAcerteiErreiAcertei…
Os corpos iam tombando à minha passagem.
Eu estava a ajudar o país.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Matei os velhos para poupar nas pensões. Matei as crianças para poupar os serviços de urgência das Maternidades. Matei as outras pessoas todas para poupar o Serviço Nacional de Saúde. Matei brancos e pretos e mulatos e alguns chineses, e homens e mulheres, e alguns gays e trans e travestis para não me acusarem de racista ou sexista.
Matei polícias e médicos para poupar o Orçamento de Estado. Matei professores para evitar mais greves.
Ia limpando tudo à minha passagem.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Até que fui barrado.
A minha mãe viu-me a passar e a disparar e, quando passei ao pé dela, e eu não a vi, levantou a bengala e deu-me com ela na cabeça. Com força. Com fúria. Com muitas lágrimas nos olhos. Com muitos gritos de dor.
Eu cai no chão. E disse Obrigado, mãe!
E tudo ficou negro.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/18]