A Pequena Manifestação dos Miúdos pelo Pouco Futuro que Me Resta

Eu estava à janela quando os vi passar. Vinham em grupo. Um pequeno grupo caótico. Um grupo de muitos pequenos grupos mais pequeninos. Mas vinham todos ao mesmo. Pequenos grupos a formar um pequeno mas maior grupo a apelar ao mesmo. Andavam aí pelos doze, treze, quatorze anos, talvez quinze. Mais raparigas que rapazes. Deve ser aquele amadurecimento precoce, diz-se. Os rapazes levam a meninice mais longe. As raparigas crescem mais cedo. Ainda vão dominar o mundo. Só ainda não o fizeram por pena. Pena de nós. De sermos ultrapassados sem apelo nem agravo. E depois ainda vão ter de nos dar mimo enquanto choramos agarrados à saia da mãe. Elas são mais na escola. Tiram melhores notas. São mais aplicadas. Quer dizer, é o que eu acho numa análise empírica feita aqui assim à minha volta. Não fui à Pordata. Estou à janela a fumar um cigarro enquanto vejo os miúdos a caminho da sua manifestação, não vou agora lá dentro, ao computador, à internet, para conferir algo que acredito ser verdadeiro. Se estivesse a escrever para um jornal lá teria de ir confirmar se a afirmação é verdadeira ou não para não me acusarem de Fake News. Mas isto é a minha cabeça a debitar ideias para mim mesmo. Ninguém está a controlar a minha cabeça, pá. Posso dizer o que quiser. Ca-ra-lho-Fo-da-se! Pronto! Estás a ouvir-me, mãe? Não, claro que não! Por isso posso dizer tudo o que me apetecer. Mas não vou muito mais longe porque o que me apetece dizer é mesmo isto que vejo e confirmo: esta geração, esta geração muito novinha é muito mais aguerrida que as que a precederam. A minha, então?! A minha ajudou a foder o mundo. Eu, se calhar, também, não sei. Mas não sou ninguém. Nunca fui. Não sou líder. Nem chefe. Não sou responsável por nada nem ninguém. Sempre cumpri ordens. Era essa a minha função. Cumpridor de ordens. Talvez também seja culpado pela minha inacção. Talvez. Olha, processem-me! Mas agora, agora gosto de olhar pela janela e ver estes miúdos a agitar as coisas. A exigir. A exigir o que é deles.
Ia mandar a beata pela janela e parei a tempo. Mesmo a tempo com a beata ainda presa entre dois dedos. Desatei a rir. Lembrei-me de uma amiga que se irrita comigo por estar sempre a mandar as beatas pela janela fora, para a rua. Depois, lembrei-me das multas. Agora pagam-se multas por deitar beatas para a rua. Em boa altura parei o que ia fazer.
Fui à cozinha. Apaguei a beata no cinzeiro. Acendi outro cigarro. Gosto de fumar. Faz-te mal, rapaz, ouvia a minha mãe dizer. Não fumes. Mas gosto desta companhia. O cigarro conversa comigo. Dá-me colo. Ajuda-me a criar. A desenrolar raciocínios. E então, na companhia de um copo de vinho tinto, temos uma orgia em casa. Fui ver o que havia no armário. Uma garrafa já encetada de Segredos de São Miguel. Bom, era alentejano. Mau, não seria. E não foi. Pelo menos enquanto resistiu às minhas investidas.
Voltei à janela com o copo de vinho. Acendi outro cigarro. A rua estava calma. A manifestação já tinha passado. Parecia que tinha levado a cidade de arrasto. Não se via ninguém. Parecia Domingo à hora da missa. É assim que imagino a cidade ao Domingo à hora da missa. Nunca confirmo. A essa hora estou deitado, a dormir. A dormir e a sonhar como será a cidade aquela hora, à hora da missa. E era isto que eu via. O vazio. O abandono. O silêncio.
Mas decidi ficar por ali à janela à espera que regressassem de lá para onde tinham ido. Os regressos são, normalmente melhores. As pessoas vêm mais soltas. Mais alegres. Satisfeitas com o que fizeram, especialmente se fizeram algo em que acreditam. E se fizeram bem. E eu acho que fizeram.
Fui buscar o cinzeiro para ao pé de mim.
Ainda aqui estou. Eles ainda não passaram, mas hã-de passar. E eu vou bater-lhes palmas e dizer-lhes que o mundo é deles. Que o agarrem. Mas eles vão achar que estou bêbado. E vão dizer O raio do velho está bêbado. Não! Vou ficar calado mas a gritar por eles cá dentro. Afinal são eles que estão a lutar pelo pouco futuro que ainda me resta.

[escrito directamente do facebook em 2019/09/27]

Sábados Tristes

Acordava ao Sábados sem vontade de sair da cama.
Mas antes de me levantar tinha de ter o sexo semanal com ela. Mesmo que não me apetecesse. Tinha de ser rápido e intenso, como se fosse dentro do carro no antigamente. Antes da criançada se levantar e transformar a casa num inferno
Mas tinha de ir passear o cão. Levar uns sacos de plástico para apanhar os cagalhões que ia deixando pelo caminho e passeá-los pela cidade até encontrar um caixote do lixo.
Mas tinha de preparar o pequeno-almoço para os miúdos enquanto a mãe fazia a sua aula de yoga. E depois tomar o pequeno-almoço com eles, entre os seus gritos histéricos e pedaços de torrada a voarem pela cozinha.
Mas tinha de ir lavar o carro que a família gostava de se passear no Audi limpo como se tivesse acabado de sair do stand, como novo, mesmo que ainda não estivesse pago.
Mas tinha de ir à Praça comprar peixe fresco, porque ao Sábado era dia de almoçar peixe fresco. E devia ter ido mais cedo, eu sei. Àquela hora já ia aos restos, mas não conseguia levantar-me mais cedo. Estava cansado. Não queria levantar-me. Não queria sair da cama.
Mas tinha de ir fazer as brasas. Para grelhar no carvão o peixe fresco comprado tardiamente na Praça. Sardinhas. Carapaus. Peixe-Espada. Robalos. Douradas. Às vezes também grelhava carne. Umas lentriscas. Uma morcela. Mas pouco, porque ela não gostava muito de morcela.
Até um dia.
Um dia arranjei uma pistola através de um antigo colega de tropa. Uma pistola e umas balas.
E foi durante o momento em que estava a assar os pimentos. Eram verdes e vermelhos. Não gosto muito dos amarelos. Embora a cor fique bem na salada. Estava a assar uns pimentos e antes de assar as sardinhas. Peguei na pistola, rápido e, sem pensar, disparei na cabeça. E tudo se fez negro.
Não morri.
A bala entrou e saiu. Provocou umas lesões graves que me afectaram o corpo e a vida. Mas não morri.
Estou na cama. É Sábado e estou na cama. Já não tenho de me levantar. Mas queria. Queria poder levantar-me e fazer coisas que não consigo como passear o cão e comprar o jornal. Talvez assar umas sardinhas.
Estou na cama e tenho o cão deitado sobre os meus pés. Mas não o sinto. Não sinto nada. Nem as papas que ela se esforça por me enfiar na boca à espera que escorram pela goela.
Sei que ela começa a ficar farta de mim. Tenho pena das coisas terem terminado assim. Para ela e para mim.
Hoje é Sábado e estou na cama. Mas queria não estar.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/14]

A Senhora que Vem Cá a Casa Falou-me na Aliança

Há uma senhora que vem cá a casa uma vez por semana. Vem cá ajudar-me a tratar da casa. Não que a casa precise muito de ajuda, que eu trato bem dela. Mas vem fazer coisas que eu às vezes me esqueço fazer ou nem sequer penso na necessidade de ser feito. Limpar os vidro das janelas, por exemplo. Ia lá lembrar-me disso? Mas ela tem razão, os vidros ficam bem melhor quando ela os limpa com Ajax, e depois passa um jornal para ficarem brilhantes e sem dedadas. É ela que traz os jornais. Normalmente, o Correio da Manhã do dia anterior que pede no café da aldeia. Eu às vezes aproveito para passar os olhos pelas catacumbas do país. Também olho para as páginas do Relax. Já tive tentado a ligar a alguns daqueles números, principalmente quando vêm acompanhados de fotografias com medidas generosas. Mas depois penso que tenho de sair de casa e ir não-se-onde, confraternizar e mais-não-sei-o-quê e desisto.
A senhora que vem cá a casa é muito prática nas suas escolhas e diz tudo o que tem para dizer com uma voz um pouco esganiçada. Ela, coitada, não tem culpa de ter a voz tão aguda. Mas às vezes abusa do tom. Gosto muito dela, é muito simpática mas, às vezes, espeta-me navalhas nos ouvidos. Trata-me sempre por doutor embora eu já lhe tenha dito, mais que uma vez, que não sou doutor. Ela responde sempre que todas as pessoas que trabalham em casa, como eu, são doutores. Doutores disto e daquilo, mas doutores. Alguns até são doutores da mula-ruça. Eu calo-me.
Quando decide que tem de lavar os tapetes, põe-se de gatas, a esfregar com uma escova e um balde de água quente e detergente a fazer espuma. Anda a manhã toda com o braço esquerda-direita, cima-baixo, a esfregar a escova nos tapetes. O rabo dela, espetado para o céu, dança de um lado para o outro a acompanhar a força com que o braço expurga o pó entranhado nos tapetes. É por isso que ela tem um braço mais grosso que outro. São os músculos. Os músculos por andar a esfregar a escova nos tapetes. Já fiquei assim, encostado a uma porta, a ver a dança do rabo. Mas nunca lhe disse que, às vezes, a apreciava.
De tempos-a-tempos aparece cá em casa com metades de notícias que não percebeu completamente mas que acha que me poderá interessar a mim, eu que vivo aqui isolado do mundo. Hoje apareceu aqui em casa com uma história que eu ainda não percebi logo bem o que era. Segundo ela, houve uma aliança que invadiu uma sede qualquer para exigir justiça.
?
Ainda lhe perguntei de estava a falar da Arca. Da Arca da Aliança que podia ter visto nalguma repetição dos Salteadores da Arca Perdida, mas ela não sabia o que era os Salteadores da Arca Perdida, nem a Arca da Aliança. Que a outra era só uma aliança, achava, sem Arca.
Perguntei-lhe se tinha algo a ver com a Amazónia, o Brasil, Macron ou a Melania Trump e o primeiro-ministro do Canadá, mas ela disse-me que achava que era em Portugal.
Fiquei curioso.
Liguei a televisão. SICN. RTP3. TVI24. CMTV. Nada. Quer dizer, muita coisa. Não, muita coisa não. Muita repetição da mesma pouca informação sobre os mesmos assuntos dos últimos três dias. Má-educação. Mulheres mais novas que outras. Homens boçais. Algum cinismo. Interesses vários.
E, então, vi, no oráculo, a passar rápido em letras pequeninas Pedro Santana Lopes invade ERC para exigir cobertura noticiosa ao Aliança.
Desatei-me a rir.
Fui acender um cigarro. Abri uma garrafa de Herdade dos Grous 23 Barricas que me tinham oferecido. Servi dois copos. E fui oferecer um à senhora que estava a passar-me as camisas a ferro. E pensei Então é assim que as camisas ficam esticadas, sem vincos e com aquela goma!
Ela disse Eu não devia!, mas aceitou. Eu rezei para as camisas continuassem a vir sem vincos.
Eu fui beber o meu copo para a varanda e fumar o cigarro. E dei comigo a pensar no que é que teria passado pela cabeça do Pedro Santana Lopes. Falta de mimo, de certeza!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/27]

O Silêncio

Reina o silêncio cá dentro de casa.
Páro no corredor. Vou a caminhar, descalço, pelo soalho de madeira e páro. Escuto o silêncio que está em casa. Não ouço nada.
Aos poucos começo a descobrir que este silêncio é mentiroso. Aos poucos começo a descobrir pequenos sons que matam o silêncio.
O primeiro som em que reparo é o da minha respiração. Tento respirar em silêncio, mas não consigo. Tenho uma respiração pesada. Respiro pela boca. Tenho o nariz entupido. Respiro pela boca e a boca fica seca. Ouço a respiração. Não é ofegante. Mas é sonora. E não consigo que não seja.
Depois percebo uma mosca ao fundo na sala. Ou se calhar não. Se calhar é aqui mais perto de mim. Não tenho uma audição tão boa. Não me é possível ouvir uma mosca a voar ao fundo, na sala. Ou é?
Com atenção, ainda percebo um ping-ping de umas gotas que caem no depósito de água da sanita.
Ouço uns estalos nos ossos do meu corpo. Primeiro nos joelhos. Talvez pelo esforço de estar aqui assim, em pé, parado, no meio do corredor. Depois as costas. Faço força para me endireitar e os ossos das costas estalam e parece que o corredor amplia o som dos ossos a estalar como uma caixa de ressonância.
Não ouço mais nada.
Retomo o caminho. Ouço-me a caminhar. Ouço os pés nus a colarem-se e descolarem-se do soalho de madeira. Vou até à sala. E ouço uma folha do jornal a esvoaçar. Mas é impossível. Não há janelas abertas. Não há corrente-de-ar. Não se produz vento. Como é que a folha do jornal esvoaça?
Vou até à janela. Olho lá para fora. Está lá o gato, sentado num muro. O gato olha para mim e abre a boca. E eu ouço o gato miar. Eu ouço o gato miar do outro lado de uma janela com vidros duplos e a uma distância de, talvez, cinco metros.
Uma águia a planar sobre a casa chama-me a atenção. Levanto o olhar. Observo-a. E ouço o som das asas a cortar o ar fffffffffffff. Vejo-a a cair sobre a terra. Desaparece atrás de umas árvores. Logo depois volta a subir. E leva algo nas garras.
E então começo a ouvir uma música como se fosse uma banda sonora. Uma banda sonora do filme da minha vida. E isto soa-me ao que John Barry fez para o Out of Africa.
E eu penso que devo estar a sonhar. Belisco-me. Dói-me. Magoo-me. Dou um berro. Acabo com o silêncio. E não percebo o que se passa comigo.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/20]

O Meu Cão Descobriu o Caminho Até à Cadela do Filho do Vizinho

O cão começou a ladrar.
Baixo o jornal. Aguço os ouvidos. Tento ignorar todos os sons de uma casa cheia de tecnologia e ponho-me à escuta. Não ouço nada. Ou ouço. Mas nada para além do habitual.
Pouso o jornal e levanto-me. Vou à janela. Mas não vejo nada. Não é deste lado. Saio da sala. Vou ao outro lado da casa. Espreito pela janela do quarto. Vejo o cão. Vejo o cão a ladrar para o muro. Abana o rabo. Vejo do outro lado do muro a cadela do filho do vizinho. Também abana a cauda. Sorrio. E penso Essa lambisgóia não é para ti, pá! A cadela do filho do vizinho tem pedigree. É de raça. Bem tratada. Um pelo lustroso. O meu cão é um cão. Anda na rua. Come ração, restos e tudo o que apanha. Toma banho quando chove. Mija em todos os sítios que acha que tem de marcar. Menos cá em casa.
Deixo-o a ladrar. Afinal, percebo-o. Gajas.
Volto ao jornal. Mas não consigo ler. O que raio é que o tipo veio aqui fazer?
E levanto-me. Volto à janela. O cão já não está lá. A cadela também não. E o rapaz?
Dou a volta à casa. Espreito por todas as janelas. Não vejo o filho do vizinho.
Vou até ao alpendre. Levo um cigarro para disfarçar. Acendo-o e saio de casa. Passeio-me pelo alpendre. Espreito para o outro lado. E vejo, finalmente, o filho do vizinho a regar umas alfaces e uns tomates. Não o sabia dedicado à horta!
Não sei o que é que estava à espera. É normal o filho vir a casa do pai quando o pai não está, não é? Manter a casa viva e assim.
Sento-me na minha cadeira no alpendre a fumar o cigarro. Falta-me um copo de vinho, mas não me apetece levantar.
O cão regressa. E traz a namorada. Por onde é que ela entrou? Sacanas dos cães.
Vêm os dois ter comigo. Querem a bênção. Faço-lhes festas. Eles voltam a desaparecer do alpendre. Eu acabo o cigarro. Volto a entrar em casa. Volto à sala. Ao sofá. Ao jornal.
Ao fundo, ouço o filho do vizinho a chamar pela cadela.
Devia lá ir dizer-lhe que anda por aqui a rebolar com o meu rafeiro.
É melhor não. Ainda lhe dá uma apoplexia. É deixar andar. A cadela há-de sair por onde entrou. E tenho de procurar esse buraco. Senão o cão começa a sair por aí à noite. E ainda vai às ovelhas lá de baixo. Há uns tempos apareceu aqui com a perna de uma.
O tipo não se cala.
Não consigo ler o jornal.
Levanto-me. Vou à cozinha. Olho para as garrafas de vinho disponíveis. Nada de extraordinário. É o que há. Abro uma qualquer. Pego nos cigarros e vou para o alpendre.
Acendo o cigarro. Bebo um gole de vinho. Ouço o filho do vizinho a chamar a cadela. Vejo-a com o cão a correr pelo quintal fora. Deixo-os andar. Pelo menos durante mais um bocado.

[escrito directamente no facebook em 2019/04711]

Sopa do Cozido

Estava à janela a olhar lá para baixo para a praceta.
Uns funcionários da Câmara Municipal tinham subido com uma carrinha de caixa aberta, fechada com lona, para o meio calcetado da praceta e estavam a cortar uma árvore relativamente grande.
Um dos funcionários estava com uma serra eléctrica a cortar a árvore pelo tronco. Outro andava com um ancinho a apanhar gravetos caídos por ali. Um terceiro estava a dar indicações ao que estava a cortar, enquanto ia fumando um cigarro. Também fumava um cigarro, mas acabei-os ontem à noite e ainda não fui à rua. Um último homem estava sentado dentro da carrinha a ler o jornal. Sorri ao vê-lo sentado na carrinha com o jornal aberto sobre o volante.
De repente, e sem aviso, chegou um vento muito forte, a rodopiar como um pião, que começou a espalhar os gravetos e lixo por toda a praceta. O vento trouxe chuva que começou a cair rápida e intensamente.
O homem que estava a fumar largou o cigarro correu para a carrinha e sentou-se ao lado do homem que lia o jornal e que levantou a cabeça para ver o temporal que se tinha levantado, mas depressa voltou à leitura.
O homem que estava com o ancinho, atirou-o para a parte de trás da carrinha e foi sentar-se com os outros dois enquanto sacudia a camisola molhada.
O homem com a serra eléctrica estava a tentar retirá-la da árvore mas não estava a conseguir. Os dentes da serra estavam presos à madeira e a chuva e o vento dificultavam a tarefa.
Quando finalmente conseguiu retirar a serra, mandou-a para a traseira da carrinha, um pouco zangado, e entrou, também ele, para dentro da carrinha, encharcado e cheio de frio.
Da janela, eu via a ventania a levantar coisas na praceta. Ramos das árvores, muito lixo, algumas cadeiras da esplanada. Alguns vasos nas varandas das casas tombaram na rua. A chuva, forte, começava a criar grandes poças de água, um pouco por todo o lado.
A minha mãe chegou por trás de mim e perguntou O que é o almoço?, e eu disse-lhe que tinha acabado de tomar o pequeno-almoço e que ainda era cedo. Mas ela continuou ali, atrás de mim, à espera de uma resposta e não de uma constatação.
Lá fora, uma rajada de vento mais forte levantou a lona da carrinha que ficou presa só numa ponta e se pôs a abanar ao sabor da ventania como se fosse uma bandeira, a fazer um barulho que se ouvia por cima do vento e da queda da chuva. E eu disse à minha mãe Hoje há cozido no restaurante ali de baixo. Queres sopa de cozido?, e ela disse Sim.
Lembrei-me que tinha um maço de cigarros sem filtro na gaveta da cozinha que tinha comprado quando estava com pouco dinheiro e que nunca o tinha acabado. Fui lá buscar um cigarro, acendi-o, olhei para a minha mãe e disse-lhe Já lá vou buscar. Agora está a chover muito. E ela disse, Está bem!, e foi sentar-se no sofá a ver o programa da Júlia Pinheiro.
Eu voltei para a janela. Abri um pouco o vidro para o fumo sair, e ainda vi a lona a desprender-se e a voar pela praceta acima, ir de encontro às varandas e a fazer tombar outros vasos e a trazer uma bicicleta, ao mesmo tempo que a árvore que o homem estava a cortar, tombou e caiu em cima de vários carros e partiu o vidro de dois deles e amolgou a chapa de outros tantos.
De onde é que terá vindo a bicicleta?
Mas assim como a tempestade apareceu, desapareceu. Os homens saíram da carrinha e, com ar incrédulo e um pouco desanimado, puseram-se a olhar para os estragos na praceta.
Um dos homens subiu para a traseira da carrinha e pegou num ancinho.
Eu acabei de fumar o cigarro. Olhei em volta com o restinho de cigarro entre os dedos. E mandei-o janela fora. A praceta estava molhada. E tinha de ir buscar a sopa do cozido.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/14]

Um Grito de Dor

Estava na esplanada a ler o jornal. A ler o jornal e a beber um café. Podia também estar a fumar um cigarro, mas não, já não fumo. Mas sinto saudades de agarrar no cigarro fumegante. De ver aquilo a queimar quando os meus pulmões puxavam o fumo. Mas não sinto falta dos dedos amarelos nem dos dentes escuros e muito menos ainda da pieira com que os meus pulmões se expressavam.
Estava a ler o jornal quando vi uma série de pessoas a levantarem-se e correrem para o outro lado da esplanada. Olhei na direcção. Também sou curioso. Mas não vi nada. E voltei à leitura.
As pessoas, contudo, não arredavam pé e, cada vez mais, chegava mais gente. Lá ao fundo, nos limites da esplanada, aglomeravam-se outras pessoas, muitas pessoas, de diferentes idades, vestidas de muitas cores, algumas de fato-de-treino, outras ainda de bicicleta, todas a olharem para o mesmo sítio.
E, então, ouvi. Ouvi barulho. Barulho de confusão. Alguém gritava. Alguém gritava muito alto e sobrepunha-se ao bruá das pessoas atentas da esplanada. Não consegui perceber o que a voz gritava. Mas era um grito lancinante. Um grito de dor.
Levantei-me e aproximei-me da confusão. E de repente vi. Um homem curvado para baixo, com um braço preso na boca de um pitbull estático, que estava preso ao chão, não mexia um músculo e não largava o que tinha na boca.
O homem estava parado frente ao cão a tentar falar com ele. Mas as palavras não eram perceptíveis. Ele balbuciava consoantes. Onomatopeias. E babava-se. Mas o cão continuava ali, fixo, sem mexer um músculo.
Olhei em volta e vi uma quantidade de gente a olhar o espectáculo. Alguns telemóveis em riste registavam o acontecimento. Alguém disse Chamem a polícia. Outro alguém também disse Chamem os bombeiros.
À volta disto tudo, crianças, crianças pequenas. Crianças pequenas a brincar alheadas disto tudo. Crianças pequenas paradas a olhar para o confronto. Crianças pequenas que os pais lá foram resgatar ao momento.
Eu larguei uma moeda em cima da mesa. Deixei lá o jornal e fui-me embora. Tinha o coração acelerado. Estava assustado. Ansioso. Pensava E se o cão larga o braço do homem e investe sobre toda aquela gente curiosa? Sobre todas aquelas crianças inocentes?
Eu fui-me embora mas fui lançando o olhar para trás. O cão continuava a morder o braço do homem. Ele continuava a gritar. As pessoas continuavam a olhar. As crianças continuavam a brincar. E depois ainda pensei Não vi sangue.
A nossa inconsciência manifesta-se assim. Não sei de quem era o cão. Não sei quem era o homem. Mas um estava a guerrear o outro e o resto do mundo olhava hipnotizado, fascinado, mas aliviado, porque não era com eles.
Ao fundo ouvi uma sirene.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/25]