O Homem Insignificante

Se eu fosse escritor e escrevesse um romance, contaria a história de um homem banal. Um homem banal como eu. Um homem cuja ausência de uma história é já de si motivo de ser de uma história.
Seria então a história de um sujeito banal. Na casa dos quarenta, casado, pai de dois filhos, amante, casa nos subúrbios de uma cidade de média dimensão, um cão, um gato, festas sexuais com a vizinhança aos fins-de-semana, sócio do Benfica, votante ora no PS ora no PSD, quando vota, algumas das vezes não vota porque prefere a praia com a mulher ou a amante, um trabalho insignificante mas de onde consegue retirar um salário confortável ou pelo menos o suficiente para ter um carro de cinco portas, de preferência francês mas a ambicionar um alemão, um SUV para a mulher, quinze dias de férias em Julho no Algarve numa casa alugada no interior a ver o mar lá ao fundo e a desejar ir até Varadero, jogging ao fim do dia porque é mais barato que o ginásio e assinante da Netflix que acaba por nunca ver porque nunca tem tempo para nada que não seja o trabalho e a amante, mas os filhos agradecem.
Este homem teria um passado sem história. Aluno mediano, algumas namoradas mas nada muito sério, alguns amigos dos tempos de infância, tão insignificantes quanto ele, frequentara o ensino superior num curso sem grandes saídas profissionais e que o chutou para um trabalho indiferente, nunca foi muito de ler, nem jornais, só A Bola e quase só à Segunda-feira, quando jovem ainda jogara andebol, futebol na rua com os amigos e tardes de King nas férias e aos fins-de-semana na adolescência.
Sem passado e sem presente digno de nota, tudo apontaria para um futuro igualmente anódino.
Mas é aqui, a caminho do futuro, que este homem sem história ganharia uma. Num acaso do destino.
Este homem de repente descobriria que tinha uma voz. Uma voz que seria ouvida. Tudo começaria nuns posts zangados no Facebook. Uns posts a destilar fel que teriam repercussões. Algumas respostas. Aplausos. O homem descobrir-se-ia igual a muitos outros homens iguais a ele. Homens insignificantes. Muitos homens insignificantes, cansados de o serem e de serem tratados como tal. A sua voz começaria a ser reproduzida por todo o lado. Lançar-se-ia o apelo ao homem insignificante. Seria levado em ombros. A revolta da insignificância. E, todos juntos, começariam a berrar alto, cada vez mais alto, a fazerem-se ouvir, a fazerem-se ouvir cada vez mais, e os posts do homem começariam a ganhar contornos teóricos, desejos, ideias, ensaios. De repente seria toda uma teoria política.
O homem deixaria o anonimato. Seria convidado discursar sobre as suas ideias nas suas palavras simples e certeiras. Encontraria eco por todo o lado. Afinal, são muitos os homens insignificantes que se reveriam nele. Seria convidado a ir a eleições defender as suas ideias. E ganharia essas eleições. Todos os homens insignificantes juntos descobririam ser muitos homens. E todos eles juntos chegariam ao poder.
Então, o homem insignificante, sem nenhuma história digna de se contar num romance, chegaria ao poder e iniciaria, assim, aquela que seria a sua história. A história de um romance.
Essa história seria para contar num segundo romance. Isto se eu fosse escritor e escrevesse este primeiro.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/13]

Naquela Altura os Dias Eram Luminosos

Já não quero mais escrever estas coisas que tenho vindo a escrever. Cada dia se torna mais difícil. Já não consigo utilizar canetas nem lápis. Não as consigo agarrar. Tenho dificuldades com as mãos. Arranjei uma máquina de escrever, daquelas antigas, daquelas da minha infância, onde uma letra na ponta de um pequeno ferro era projectada numa folha pelo martelar dos dedos num plástico quadrado com o mesmo símbolo. Já parti um dedo no martelar constante. Parti as unhas dos dedos indicador e do meio de ambas as mãos. Os quadrados de plástico estão com sangue seco. Por vezes já não se vê a letra correspondente. Mas eu sei de cor o sítio de todas as letras e continuo infatigável a escrever o que eu tenho de escrever para que fique registado no papel antes de partir. E esperar que o papel se preserve. Que não arda nem se molhe. Que resista mais que eu.
Os dias estão muito mais curtos. Já são poucas as horas em que há luz do dia. Aproveito essas poucas horas. Preciso deixar escrito que as coisas não foram sempre assim. Que já houve uma época em que o sol brilhava de manhã à noite. Em que havia um tempo em que chovia, outro em que fazia frio e outro ainda em que fazia calor. E passeávamos na praia, à beira-mar e subíamos às montanhas e escorregávamos sobre a neve.
Preciso deixar escrito que já houve uma altura em que as pessoas riam e ouviam-se gargalhadas, e havia mesmo quem achasse que era feliz. Preciso deixar escrito que o mundo não foi sempre assim. Assim como é agora. Cinzento. Triste. Húmido. Um mundo de fim do mundo.
No entanto, começo a estar fatigado. Fatigado do esforço que faço para martelar nas letras e escrever as palavras que, umas a seguir às outras, vão fazer sentido e contar histórias, histórias reais, histórias que eu vivi quando a vida ainda não era assim como é hoje. Mas também estou fatigado de reviver estas memórias e o peso que elas carregam. Farto de perceber que estragámos tudo, estraguei tudo, e agora não há nada que nos valha. Depois de mim, o quê? O que é que irá restar quando as últimas memórias se extinguirem? Quem é que ficará? O que é que ficará por cá? Que forma de vida pode sobreviver a este Inferno na Terra?
Enrolo um bocado de barba-de-milho numa folha que rasguei da Bíblia. Toco-lhe fogo. Deixo o fumo invadir-me os pulmões. Acalma-me. Aquece-me. Ajuda-me a lembrar. Fazia-me jeito um copo de vinho tinto.
Sento-me à frente da máquina onde vou martelar a história. Junto à janela. Preciso do máximo de luz para ver o que faço, o que escrevo. Antes que o dia se vá embora outra vez.
E começo:
Ela tinha nascido há pouco tempo. Ainda era quase uma boneca de trapos a que eu e a mãe tínhamos de prover tudo. E se ela ralhava se não lhe fizéssemos o que queria! Abria a boca e libertava os pulmões. Um barulho ensurdecedor entrava de rompante pelos ouvidos e, ao início, ficávamos sem saber o que fazer. Depois habituámos-nos. Havia choro para tudo. Fome. Fralda molhada. Dor de barriga. Ausência de sono. Necessidade de atenção. Calhandrice. Rabo tremido. Ah, o que ela gostava de estar aos solavancos no colo.
Ainda tinha semanas de vida e começámos a levá-la à piscina. Saíamos de casa ao fim do dia. Ainda era de dia. Naquela altura os dias, os fins de dia, eram luminosos. O sol ainda andava pendurado lá por cima. O céu era azul. Fazia calor. Eu levava-a num carrinho. Passávamos a estrada para o outro lado da rua, entrávamos pelo jardim dentro e percorríamos os caminhos até ao outro lado e, enquanto caminhávamos, ouvíamos os pássaros (sim, naquela altura ainda haviam pássaros, milhões deles), cheirávamos os odores das várias flores que se espalhavam por todo o lado, entre as árvores, à volta do coreto, a sublinhar a esplanada onde algumas pessoas liam livros, jornais, bebiam uma cerveja, fumavam um cigarro, trocavam um beijo, e desviávamos-nos das outras crianças que andavam por ali a brincar aos índios e aos cowboys, aos polícias e aos ladrões, alguns passavam de bicicleta, outros de trotineta, outros ainda de skate mas esses só nas zonas em asfalto que as rodinhas não rolavam na terra batida.
Saíamos do outro lado do jardim e entrávamos no complexo. Íamos directos às piscinas. Entrava nos balneários dos homens com ela. Despia-me, vestia os calções, despia-a a ela, vestia-lhe um fato de banho pequenino, e o colete por cima e entrávamos dentro do pavilhão da piscina aquecida. Ela começava logo aos pulos mal via os tanques cheios de água. Queria ir lá para dentro. Então eu entrava, com ela ao colo, e depois largava-a. E ela punha-se a nadar. Sozinha. E eu sempre ali à volta, atento, a ver se era preciso alguma coisa.
A maior parte das vezes a mãe também ia. Íamos os dois. Esses dias eram mais fáceis. Ora um, ora outro, conseguíamos ter tempo para mergulhar e dar umas braçadas. Fazer umas piscinas. Gastar energia. Alongar o corpo. Nadar de um lado ao outro. Às vezes mais que uma vez. Ainda tinha forças.
Quando cresceu ainda andou na natação. Ainda ganhou umas provas. Levou umas medalhas para casa. Estiveram penduradas no quarto dela. Até acontecer o que aconteceu. E o que aconteceu foi o fim de todas estas memórias.
Não sei durante quanto tempo mais vou conseguir continuar a escrever. Dói-me reviver estas lembranças. Ela foi um dos milhões de crianças que morreram naquelas primeiras horas. Aqueles dias foram muito duros.
Já há muitos meses que não vejo uma criança. E também se torna difícil cruzar-me com outras pessoas. Os tempos estão perigosos. As pessoas afastam-se. Vivem isoladas. Saem somente para procurar alguma coisa para comer, o que se torna cada vez mais difícil de encontrar. Os stocks das lojas e dos supermercados já foram quase todos pilhados há muito. Agora, resta-nos a respiga. A segunda volta aos mesmo sítios para ver se sobrou alguma coisa. Eu já pus umas sementes na banheira. Enchi a banheira de terra e enfiei lá umas sementes que encontrei. Mas ainda não nasceu nada. Não sei se ainda vai a tempo de nascer. Não sei se ainda irei ver alguma coisa a brotar da banheira.
Já não tenho mais luz para continuar. Vou ficar por aqui. Vou embrulhar-me na minha manta e tentar fechar os olhos. Estou cansado. Se amanhã ainda estiver por cá, vou tentar contar outra história. Para verem como éramos antes. Como fomos felizes. E como estragámos tudo.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/22]

Tudo Me É, Cada Vez Mais, Impossível

Aproximo-me de mais um final de ano. Passou mais um ano. Mais um ano de merda que não deixa saudades.
Continuo a fumar um maço de cigarros por dia. Dois maços ao Sábado. Bebo uma garrafa de vinho tinto por dia. Não diminuí a quantidade mas diminuí a qualidade. Agora bebo mais barato. E não bebo antes de almoço. Como cada vez pior. Estou mais gordo. Excesso de pão. Muitos hidratos de carbono. Fritos. Cerveja. Caíram-me mais dois dentes. Andei um mês a Clonix e não resolvi nada. A minha boca é uma mina toda rebentada. Já não sei de que lado posso mastigar melhor e sem provocar dor. Estou a perder muito cabelo. Não o cortei para manter a ilusão de que continuo jovem e cabeludo. Rock’n’roll, motherfucker! Mas as entradas já são demasiado grandes para esconder, por mais que eu tente chegar-lhes cabelo para cima. Por outro lado, tenho cada vez mais pêlos a sair do nariz e das orelhas. A barba cresce de forma desordenada. Tenho algumas peladas. Os músculos dos braços estão caídos por força da gravidade. A barriga tomba por cima do cinto. O meu umbigo parece um buraco negro cada vez mais fundo e a acumular maior quantidade de cotão. A pila está cada vez mais pequena e com maior dificuldade em excitar-se. Já não a vejo cá de cima. O rabo também está com muitos pêlos e eu nem sabia que isso era possível. Tenho cada vez mais dificuldade em cortar as unhas dos pés. Maior dificuldade em me dobrar. Já não sei qual a melhor maneira para conseguir cortar as unhas. Os ataques de bronquite são cada vez mais frequentes e mais violentos. Tenho a sensação que o Ventilan já não faz efeito. Já estou à espera de ver os pulmões saltarem boca fora num ataque de tosse.
O dinheiro escorre-me pelos dedos. E só não escorre mais porque não há mais para escorrer. É só pagar. A água. A luz. O gás. O cabo. O telemóvel. A renda da casa. A prestação do carro. A prestação do computador. A prestação da máquina de lavar roupa. A prestação do frigorífico. E a sensação que quando acabar de pagar qualquer uma destas coisas estarei a precisar de as substituir. O esquentador anda a dar-me sinais. A torradeira já só funciona num dos lados. Os trabalhos que me pedem são cada vez mais espaçados. Ninguém quer pagar por coisas que não consideram. Ninguém lê. Toda a gente escreve. Ninguém quer saber de cinema. Toda a gente faz filmes. Toda a gente tira fotografias. Os grande fotógrafos já não são os que têm um olhar extraordinário, mas os melhores corpos nos sítios mais exóticos para selfies de inveja. Os fotógrafos de sucesso não estão nas revistas ou nos jornais, estão no Instagram e no Facebook.
O Continente continua a vender livros de merda. Algumas livrarias continuam a desconhecer o livro. Há quem trabalhe em livrarias como se trabalhasse num café e não precise de formação nem de conhecimento. Não sabem o que é a Douda Correria nem a Língua Morta. Desconhecem Alberto Pimenta e Vasco Gato (aqui descobrem uma edição da INCM – wow!) Mas ninguém se importa. Ninguém quer saber. A ignorância é o novo orgulho. Eu é que sou parvo. O livro é só mais uma mercadoria. E quem é que ganha?
Estou muito sedentário. Cada vez saio menos de casa. Cada vez mais a janela é o meu contacto mais directo com o mundo imediato da minha vizinhança. Mas desconheço os meus vizinhos e também não os quero conhecer.
Hoje, véspera das vésperas, dei a volta a mim próprio e saí de casa. Estou na Afficion. Estou na única esplanada do Sítio sobre a Nazaré. A melhor vista da zona. A dificuldade que é encontrar lugar numa esplanada que tem doze mesas e a melhor vista sobre a vila e o mar da Nazaré e eu estou aqui sentado. Está sol. Vejo as Berlengas lá ao fundo. Uma neblina paira sobre os Salgados. O mar, lá em baixo, está calmo. Há gente na praia mas não está ninguém a tomar banho. Não vejo o ascensor a funcionar. Já levantaram o estádio do Futebol de Praia que costuma manter-se no areal por meses a fio. Mas está montado um pequeno palco para a festa de final de ano. A Nazaré está tornada uma feira. Uma feira simpática, por enquanto. Quantas pessoas vão morrer no mar, nesta festa de final de ano?
Há muita gente a caminhar ao longo da calçada marginal. Chega-me, ao nariz, o cheiro de sardinhas assadas. Sardinhas assadas nesta altura do ano? Ontem também acordei com um manto de azedas no quintal lá de casa. Por vezes nem parece que estou em Dezembro tal a Primavera que o assaltou. Já nada me surpreende. Os meus amigos defendem Donald Trump, Jair Bolsonaro e André Ventura. Não, já nada me surpreende.
As gaivotas voam aqui à volta. Gralham muito. Não sei se ralham comigo se andam maldispostas com elas próprias. Aparece-me uma imperial aqui à frente. Bebo um gole. Dois. Sabe-se bem. Não gosto de sair de casa mas quando saio gosto de ter saído.
Vejo gente muito estranha à minha volta. Alguns até são portugueses. Ouço-as falar. Depois percebo que o estranho devo ser eu. Sou o único sozinho. O único de t-shirt. O único a fumar. Está toda a gente a comer, a petiscar, a beber vinho. Eu sou o único a beber uma imperial, a única coisa que o meu bolso consegue pagar.
Finalmente vejo os ascensores a funcionar. Vai um a descer e outro a subir. Cruzam-se a meio. Mas há também muita gente a pé. A subir a encosta pelo caminho serpenteante que vem lá de baixo até cá cima. Vejo um grupo de escuteiros a descer a encosta a pé. São um grupo grande. Com a mesma farda. Rapazes e raparigas. Vão contentes, a brincar uns com os outros. Vão a caminho de 2020. Eu também vou. Mas vou sem grande vontade.
Cai o sol. Tomba a noite. O horizonte está vermelho. Parecemos estar em Agosto. Isto anda tudo trocado. Mas que sei eu? Os inteligentes dizem que sempre foi assim e assim há-de continuar a ser. Acho que vejo as luzes de São Martinho do Porto e da Foz do Arelho. Tão longe e tão perto.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/28]

O Silêncio do Amor

Já quase não falamos. Às vezes ouço-me grunhir qualquer concordância. Ela nem isso. Não é que não gostemos de estar um com o outro, que gostamos. Gostamos e muito. Ela foi o meu primeiro amor. Eu também acho que fui o primeiro amor dela. Mas ela nunca me disse e eu também nunca lhe perguntei.
Estamos juntos há tanto tempo que, por vezes, funcionamos como um só. Como se eu começasse a desenvolver uma ideia e ela a acabasse, mas a acabasse da mesma forma que eu acabaria. E vice-versa.
De manhã andamos por casa. Ela arruma coisas. Tem sempre coisas para arrumar, coisas que nunca imaginei desarrumadas, mas que ela vai arrumar. Para as coisas mais pesadas, limpar o pó, aspirar, passar a ferro, vem cá uma miúda a casa. É uma bielorrussa. Inteligente. Com estudos superiores mas, isto, isto de andar a tratar da casa de pessoas, foi o que conseguiu arranjar.
Enquanto ela ciranda pela casa a arrumar coisas, eu arquivo os recortes dos jornais que cortei na véspera. Pequenas histórias. Algumas opiniões. Memórias futuras. Depois vejo que filmes vão passar na televisão para eventualmente vermos, ou eventualmente eu ver e ela deixar-se adormecer logo no genérico inicial. Já era assim quando era nova, com a idade só apurou esta sua capacidade.
De manhã bebemos uma chávena de chá. Camomila. Tília. Ou outras tisanas que por vezes nos oferecem. Eu como um biscoito. Ou um bocado de pão torrado, mas não muito torrado por causa dos dentes. Ela costuma comer uns cereais. Eu nunca consegui gostar de cereais.
Depois ela vai lavar-se. A seguir lavo-me eu. Ela, entretanto, prepara o almoço. É a nossa refeição principal. Às vezes aproveitamos restos dos dias anteriores. Comemos pouco. Há sempre sobras. Comemos muito frango. Frango assado. Frango guisado. Frango cozido. Canja de galinha feita com frango. O frango é o mais barato. E gostamos de frango. Gostamos os dois de frango. Às vezes também comemos cavala. Também é barato. Eu não gosto muito mas ela tem o cuidado de fazer a cavala de mil-e-uma maneira de forma a que me seja mais agradável.
Chega o almoço. Almoçamos. Almoçamos em silêncio na cozinha. Por vezes olhamos para a rua através da janela. Por vezes ligamos uma velha televisão a preto e branco que temos na cozinha para ouvir as notícias. Mas já não temos grande interesse nas notícias. Depois levantamos os dois a mesa. Ela passa a louça por água e eu ponho-a na máquina. Fico com dores nas costas. Tenho de me esticar. Em seguida vamos à rua.
Até sairmos de casa ainda não falámos uma palavra. Passámos a manhã em silêncio. Sem música. A ouvir os passos lentos de um e outro a cirandar pela casa.
Na rua caminhamos devagar. Tentamos não cair. Uma queda, nesta idade, pode ser fatal. Caminhamos devagar. Vamos ao café. Eu bebo um descafeinado. Ela bebe um carioca de café. Estamos por ali um pouco. Às vezes chegam alguns conhecidos. Alguns amigos do passado, velhos como nós. Às vezes chegam os filhos desses amigos. Às vezes os netos. Um cumprimento breve. Um sorriso. Passa rápido. E voltamos ao nosso rame-rame. Às vezes os velhos ficam por ali também um bocado. Nessa altura alguém fala. Alguém fala um pouco. Não muito. Mas já é uma conversa. Às vezes pedaços de conversa. Conversas iniciadas no dia anterior, na semana passada, há muitos anos a caminho de uma discoteca, de um festival de Verão, de um jogo de futebol. Sim, também já tivemos uma vida como a de toda a gente. Também fomos a sítios. Também vimos coisas. Também lutámos por melhores condições. Também fizemos sexo. Fizemos. Agora sorrio à ideia de sexo.
Folheio os jornais do dia. Às vezes peço para rasgar uma folha quando a notícia me interessa e levo a folha para arquivar no dia seguinte. Olhamos as pessoas que passam. Os miúdos cheios de vida. As miúdas muito bonitas. Todos com muito cabelo revolto.
O tempo começa a arrefecer. Compramos pão e voltamos para casa. Ela deita-se um pouco sobre a cama. Eu coloco-lhe uma mantinha por cima. Às vezes adormece. Eu sento-me no sofá da sala. Ligo a televisão e, normalmente, deixo-me adormecer.
Depois jantamos qualquer coisa leve. Uma sopa. Uma torrada. Uma peça de fruta. Depois vemos um filme. Ela adormece no genérico inicial. Por vezes lá consegue ver um filme do início ao fim. Se for um filme com acção. Ou uma história de amor.
No fim do filme vamos para a cama. Vestimos os pijamas. Passamos pela casa-de-banho. Lavamos os dentes. Ela penteia-se. Eu não tenho nada para pentear. Tomamos os comprimidos que temos para tomar. Ela deita-se. Eu dou uma volta pela casa. Para ver se está tudo desligado, fechado, trancado, e quando regresso ao quarto, para me deitar ao lado dela, já ela está a dormir. Mas mal me sente deitar ao lado dela, vira-se e abraça-me. O abraço não vai durar muito tempo porque depois terá de se virar para o outro lado, e dormimos de costas um para outro porque é a melhor maneira de conseguirmos dormir. Mas aquele primeiro momento, já adormecida, em que me abraça, já vem desde o início dos tempos. E nunca não aconteceu. E eu gosto. Gosto que ela me abrace por aqueles dois ou três minutos antes de ser virar para o outro lado.
Chegámos ao fim do dia. De mais um dia. Poucas palavras trocámos um com o outro, mas não foi preciso. Já falámos sobre tudo o que tínhamos para falar. Já discutimos tudo o que tínhamos para discutir. Já sabemos o que o outro pensa. Mas só estamos bem assim. Um com outro. Um a caminhar ao lado do outro. Um a almoçar ao lado do outro. Um deitado ao lado do outro, mesmo que de costas voltadas.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/14]

Tentar Focar, Tentar Não Perder Atenção

Tento focar. Tento não perder atenção. Tento não me dispersar por interesses vários só para não fazer o que tenho de fazer.
Começa tudo mal.
Levanto-me e faço a cama. É mau prenúncio. Normalmente levanto-me e deixo a cama aberta, com o edredão puxado para trás. Digo que é para a cama arejar. Na verdade é por não ter paciência para fazer logo a cama.
Hoje levantei-me e fiz a cama. Puxei o lençol e o edredão para cima. Estiquei o edredão. Não deixei um único vinco. Alisei as almofadas. Parecia uma cama de hotel num quarto de hotel.
Depois lavei toda a louça suja acumulada na cozinha. E só depois de ter a louça lavada, à mão, é que fiz café e duas torradas. E lavei a louça utilizada logo de seguida.
Fiz uma máquina de roupa. Não tinha roupa suficiente para fazer uma máquina e fui buscar roupa que não tenho usado. Para lhe dar uma limpeza. Matar o pó. E os ácaros.
Olhei à volta. Vi o trabalho a espreitar para mim de cima da secretária. Já vou!, respondi.
Fui organizar a dúzia de livros que estavam fora das prateleiras.
Sentei-me frente ao computador. Espreitei os jornais online.
Abri um dos livros que precisava para o meu trabalho. Folheei-o. Fiz o mesmo a outro. Folheei-o. Deixei-os de lado. Não estava com grande vontade.
Peguei no telemóvel. Marquei um número. Ninguém.
Lembrei-me que tinha contas para pagar.
Fui ao móvel da entrada. Luz e água. Duas contas.
Desci à rua. Fui à caixa do multibanco. Paguei a conta da luz. Não consegui pagar a conta da água. Tinha de ir ao SMAS.
Arranquei rua fora. Fui ao SMAS. Enquanto caminhava pela cidade solarenga pensei que devia estar a fazer o trabalho. Pensei que estava a ficar sem tempo. Mas parecia-me ser isso que queria. Ficar sem tempo. Ou pelo menos, ficar sem muito tempo para não poder fugir mais ou evitar o trabalho e ser, finalmente, obrigado a fazê-lo.
Cheguei ao SMAS. Tirei um número. Dez pessoas à minha frente. Esperei. Olhei em volta. Vi o número de caixas a funcionar. Não disse nada. Nem pensei nada. Não queria chatear-me. Estive tranquilo.
Finalmente a minha vez. Paguei. Demorei dois minutos. Dois minutos para os quais tive de esperar meia-hora.
Regressei a casa.
Sentei-me de novo frente ao computador. Abri uns livros. Procurei os assuntos que me interessam. Comecei finalmente a mergulhar no trabalho.
Tocou o telemóvel. Era a minha mãe. Perguntou se podia ir ao supermercado por ela. É claro que sim, mãe! respondi. Não podia responder de outro modo.
Voltei a sair de casa. Fui a casa da minha mãe. Deu-me uma lista de compras para fazer no supermercado. Descobri que tinha, também, uma conta de água por pagar. Já fora de prazo. Estava esquecida. A minha mãe não é de deixar passar prazos. Esqueceu-se. Peguei na conta da água e na lista de supermercado e saí de casa dela. Voltei ao SMAS. Sete pessoas à frente. Mais ou menos meia-hora de novo em espera. Joguei Snake no telemóvel enquanto esperei. O meu telemóvel é antigo.
Paguei. Fui ao supermercado. Passei em casa da minha mãe. Voltei para minha casa. Mas antes passei no café. Bebi uma bica. Comi um pastel de feijão miniatura. Descobri que é só invólucro. Não tinha recheio. Regressei a casa desconsolado.
Sentei-me, outra vez, frente ao computador. Lá fora o dia estava a ir embora. Aproximava-se a noite. Já estava atrasado. Já não sabia se tinha tempo para fazer o trabalho.
Tento focar. Tento não perder atenção.
Pergunto-me Onde raio gastei o meu tempo?, e fico ali, frente ao computador, a pensar no meu dia e no tempo que gastei sem fazer nada de jeito a arrastar-me para evitar começar a fazer uma coisa que tenho absolutamente de fazer mas que não consigo começar. E tudo começou quando resolvi fazer a cama.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/18]

Regresso a Cacilhas

Tempo de regressos. Refaço os passos do passado. Volto no tempo e faço-o presente. Mas já não é a mesma coisa. Já não são as mesmas coisas.
Algumas pessoas já morreram. Sei-o agora. Acompanhei através das redes sociais. Através dos jornais. Uns de doença. Outros… Outros encontraram-se com a inevitabilidade.
Passo a pé pelos sítios que eram os do costume e já não são mais. Sou estrangeiro. Sinto-me estrangeiro. O tempo rasgou-me daqui. As casas estão diferentes. Umas degradadas. Outras transformadas. As árvores desapareceram. As pessoas também. Não reconheço ninguém. Parece tudo novo. Castradoramente novo. Novo e limpo. O ar do tempo é outro. Quero acender um cigarro e sinto-me intimidado. Esta cidade está esterilizada.
Há mais carros. Mais motorizadas. Mais bicicletas. Até trotinetas largadas um pouco por todo o lado. Esta cidade parece a cidade das trotinetas. Mas quero uma rede wi-if de jeito e não encontro. Que cidade é esta? Que futuro mentiroso é este? Afinal, onde está a tecnologia? O futuro é brilhante mas assustadoramente asséptico. Quero fumar um cigarro e sinto que não o posso fazer.
Apanho o ferry. Vou até ao outro lado. À outra margem. Houve um tempo em que havia um tempo da outra margem. Na música. Nos jornais. Na história que fez andar este país. Mas o outro lado está parecido com o lado de cá. As cidades são outras. À primeira vista parecem melhor. Mais limpas. Mais seguras. Mas também mais iguais. O que distingue uma da outra? O que nos dão de diferente para além dos horizontes?
Fui à Lisnave. Passeei-me ao longo do gradeamento dos estaleiros que já não existem. Aguardam algum empreendimento de luxo. Uma varanda junto às nuvens a olhar a cidade branca.
Já nada resta lá dentro. Está tudo vazio. Rapado. Limpo. Há docas e tanques com água. Mas não há barcos. Nem operários. A revolução morreu. A revolução não chegou a nascer. Morreu estrangulada à nascença. Resta o vazio.
Vejo a enorme placa, em metal, imponente: Lisnave, no fim da Cova da Piedade. Gosto destes nomes. Cova da Piedade. Amora. Corroios. Fogueteiro. Baixa da Banheira. Apreendi-os com o futebol. E com a música. Acompanhava o meu pai a ver os jogos da União de Leiria por estes subúrbios industriais fora. Laranjeiro. CUF. Quimigal. Barreirense. E os festivais de música moderna. O que começou naquela pequena sala na Rua da Beneficência e se espalhou por salas de todo o país. Muitas nesta Margem Sul. Em Corroios.
Mas a Lisnave? Aquele espaço, aquela história, aquilo corta a respiração. Marca a época. A outra época. Que já não volta como eu não posso afinal voltar.
A verdade é que nunca fui um filho da Margem Sul. Nem da Lisnave. Apanhava ao cacilheiro para ir jantar ao Cais do Ginjal. Atira-te ao Rio. Ponto Final. Um burguês fruto de uma classe que se queria média. E agora? Agora sou o quê? Ainda vim cá ver um ou outro teatro mais Underground. Hoje é tão mainstream como a Cidade Branca. E já não há lugar para mim. Só cá cabem os iguais. Dar ao povo o que o povo conhece. Não é assim?
Não sou da Margem Sul mas tenho em mim as memórias dos outros. Amigos meus. Amores meus. Companheiros meus. Gente que fez uma terra. Que criou um mito. Moldou um mundo. E que se evaporou. E já nada resta que mereça ser alguma coisa. Mas fica tudo aqui. Aqui dentro. Aqui dentro de mim. Porque a história não morre. Mesmo que a luta estivesse perdida. Como a Lisnave. Onde estão os orgulhosos estivadores da Lisnave? Onde param os homens que um dia sonharam mudar esta terra?
Sento-me no Cais do Ginjal. Os pés baloiçam sobre a água suja do Tejo. Imagino a Maria Cabral, de sardas, a cruzar o rio num cacilheiro. E acendo um cigarro. Ainda se pode fumar em Cacilhas.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/08]

A Ansiedade Ataca-me Quando Tenho de Sair de Casa

Fico ansioso cada vez que tenho de alterar as minhas rotinas. Preciso de equilíbrio. Preciso do equilíbrio de uma vida previsível para poder estar bem.
Levanto-me sempre à mesma hora. Às vezes tenho de antecipar. Raramente fico na cama para além do que é normal. Mesmo em dias de noites mal dormidas. Levanto-me. Faço café. Torradas. Sento-me na mesa da cozinha e como. E bebo. Às vezes vou beber o café para a janela e olhar a rua. As pessoas na rua. O tempo que está. A chuva. O sol. Os vizinhos no prédio em frente. A rapariga em camisa de dormir. A senhora que todos os dias estende roupa no estendal. A senhora que todos os dias põe o edredão a arejar. O rapaz que todos os dias vai fumar um cigarro à varanda. É nesta altura que me lembro que também fumo. E que gosto de fumar. Pego num cigarro e vou para a varanda. Quando está de chuva ou muito frio, abro a janela da cozinha e fumo ali mesmo. Já aconteceu ir nu para a varanda. Esqueço-me que é assim que durmo. Levantar e vir para a cozinha fazer café é automático. Esqueço-me de vestir uns boxers. Não tenho cá ninguém em casa para olhar para as minhas vergonhas. Esqueço-me da rua. E vou nu para a varanda. Muitas vezes.
O dia decorre sem sobressaltos. Faço o que tenho de fazer. Vou onde tenho de ir. Escrevo. Leio. Como e bebo. Vejo as notícias na televisão. Leio os jornais online. Às vezes compro um jornal ou outro em papel. Gosto de sujar os dedos com tinta da impressão. Gosto do cheiro. Do cheiro da tinta e do papel. Normalmente compro A Bola. Às vezes o Público. O Expresso já só muito raramente. As revistas nacionais não me chamam a atenção. As estrangeiras de que gosto, tenho de mandar vir. É difícil de encontrar por cá. Já os livros, não me queixo. Há de tudo. É uma questão de procurar e não me deixar vencer pelos lineares dos hipermercados.
Esteja onde estiver, quando tenho de sair de casa, sei que mais hora menos hora regresso. Aos meus cheiros. Ao meu canto. À minha paz, por vezes até, bastante barulhenta.
Hoje vou ter de sair de casa. Da cidade. Uma viagem. Tenho de ir uns dias para outro lado. Outra cidade. Outra casa. Outra cama. Outros cheiros. Conhecer pessoas que não conheço. Ter de falar com elas. Ver-lhes os dentes sujos. A caspa sobre os ombros. O cheiro a transpiração. Os lábios rugosos pintados com bâton, as senhoras. Os pêlos da barba mal cortada, os homens.
Levantei-me mal disposto. Passei uma hora na casa-de-banho. Acordei com o estômago às voltas. São os nervos. A ansiedade desta quebra de rotina. Já vomitei. Não consegui comer nada. Não bebi café para não agravar a tempestade que sinto nas entranhas. Transpirei muito. Fui à rua comprar desodorizante que já não tinha. Tive de ir a três farmácias. Não gosto de desodorizantes de álcool. Nem de spray. Nem com cheiro. Tive de ir a três farmácias. Só encontrei o que queria na última. Isto fez-me atrasar um pouco. Tive de correr para apanhar o expresso para o qual já tinha comprado o bilhete com antecedência.
Já estou dentro do expresso.
Vou aqui encafuado num espaço para anões. Não posso estender as pernas porque levo companhia na cadeira do lado. Já tentei ligar o iPad mas o wireless é intermitente. Vai e vem. E quando vem aguenta pouco. Tentei ler mas comecei a ficar enjoado. Parei antes de ter de vomitar novamente. Fumava um cigarro mas não se pode fumar nos autocarros. Tenho o estômago às voltas mas acho que o autocarro não tem casa-de-banho. E mesmo se tivesse. Não sei se conseguia lá ir. Aqui, à frente de toda a gente. E se fosse pedir ao motorista para parar numa Estação de Serviço? Toda a gente ia perceber que tinha sido eu a pedir. Não quero isso. Não quero que ninguém saiba. Não quero que ninguém olhe para mim. Tenho de aguentar.
Tenho de aguentar estes dias longe da minha casa. Do meu sofá. Da minha cama. Da varanda da minha cozinha onde gosto de fumar os meus cigarros a olhar as rotinas dos meus vizinhos do prédio em frente.
Estou nervoso. Trinco as peles nos cantos dos dedos. Não gosto de expressos. Não gosto de conhecer pessoas que não conheça. Não gosto de sair de casa. Não gosto de sair da minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/01]

Um Tango Mortal no La Poesia, em Buenos Aires

Buenos Aires.
Estava no café La Poesia, no Barrio de San Telmo. Tinha Todos os Fogos, o Fogo nas mãos. Na mesa, um copo de vinho tinto. Tinha pensado em beber uma Quilmes, mas as madeiras que me rodeavam pediam vinho. E vinho foi. Alma Negra. Uma empanada de carne. Ainda restava lá na mesa um bocado de queijo. E pão. Que ia depenicando entre as páginas de Julio Cortázar.
A madeira das mesas, das cadeiras, dos armários, do balcão, tudo aquilo me fazia sentir aconchegado. Rodeado de garrafas de vinho. Dezenas de garrafas de vinho. Queijos. Muito queijos. Azeitonas. De todo o género e feitio. E inúmeros cartazes publicitários antigos que me faziam crer estar numa máquina do tempo.
Tinha ido a Buenos Aires dar um seminário no Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales. Aproveitei para pôr em dia o meu conhecimento de cinema argentino. E encher a barriga de misérias. Já tinha decidido jantar um suculento bife de chorizo cheio de chimichurri. Mas ainda era cedo. Depois das aulas regressei ao La Poesia para descansar e retemperar forças. Já lá tinha estado de manhã a tomar o pequeno-almoço. Café e medialunas com dulche de leche. De comer e chorar por mais. E eu nem gosto de doces.
Despachado das aulas, lá estava de novo no La Poesia.
Estava então com o Cortázar nas mãos quando entra um homem, jovem, elegante, de fato de bom corte e sapatos de lustro puxado, cabelo com brilhantina penteado para trás com um risco bem marcado de lado, barba feita e um pequeno bigode, fininho, sobre o lábio superior. Circulou rápido entre as mesas, parou no meio do café, olhou em volta, virou-se para o empregado dentro do balcão e estalou os dedos no ar. O empregado parou a música ambiente que estava a tocar, em que eu nem tinha reparado, e colocou um tango. Toda a gente no café parou o que estava a fazer e fixou os olhos na personagem. Silenciaram-se as conversas. Pararam as leituras de livros e jornais. O jovem, esquivando-se ao toque nos estreitos caminhos entre as mesas, foi até um casal de meia idade que lia o jornal e bebia vinho a copo. Estendeu a mão à senhora que sorriu, envergonhada, olhou para o homem ao seu lado, que fez má cara, e deu a sua mão ao jovem, que a segurou, enquanto ela se levantava.
O jovem levou a senhora para o centro do café. O apertado centro do café. Eu larguei o Julio Cortázar na mesa. Agarrei no copo de vinho. Trinquei um bocado de queijo e apreciei. O jovem agarrou na senhora e começou a dançar. A dançar o tango mantendo-a colada a ele. A dançar de uma forma muito sensual. Sexual. Erótica. Os olhos que se comiam. As ancas que se tocavam. Os movimentos que pareciam lançar os peitos da senhora para fora da camisa. O nariz dele que contornava o pescoço dela. Que a cheirava.
O homem, sentado à mesa, de jornal aberto à sua frente, olhava com desagrado a dança.
A música termina. O jovem aperta a senhora e beija-a na boca. Um beijo intenso. O homem levanta-se da mesa, larga o jornal no chão e corre para o centro do café. Puxa a mulher violentamente para trás. Ela cai sobre uma cadeira e resvala para o chão. O homem agarra o braço do jovem. Este leva a mão ao bolso das calças. Traz uma navalha-borboleta na mão. Abre-a. Espeta-a na barriga do homem. Este pára. Larga o braço do jovem. Leva a mão à barriga. Olha-se. Vê sangue a sair por entre os dedos das mãos. O jovem endireita-se. Enfia a navalha-borboleta no bolso traseiro das calças. Estica o casaco. Faz uma vénia à senhora que continua caída no chão. Levanta a mão num adeus arrogante para todo o café e vai-se embora.
O homem cai de joelhos sobre si próprio, com sangue a sair-lhe da barriga e a tombar sobre o chão.
O empregado de balcão faz uma chamada no telemóvel.
Os clientes que estavam no café começam a sair.
Eu meto o queijo na boca. Bebo o resto do vinho. Agarro no Cortázar e também saio do café.
Ainda vi a senhora a arrastar-se de joelhos para o homem que jazia deitado no chão. Ainda vi o empregado a olhar para mim enquanto me ia embora sem pagar. Ainda vi o sangue no chão. Ainda ouvi a sirene da polícia.
Acelerei o passo.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/20]

Roommates

Todos os dias de manhã a história repete-se. O tipo enfia-se na casa-de-banho e desfia um concerto de sons guturais. Aquilo é assustador. Primeiro começa pela garganta. Acho que tenta expelir algum pêlo que lhe tenha entrado durante a noite pela boca e se tenha alojado na faringe, na laringe ou na traqueia. É um alto, enorme e prolongado arranhado gggrrrrrrrrrr que parece trazer a casa abaixo. E repete-o várias vezes. Depois passa ao nariz. Não se assoa com um lenço. Não! Aperta uma narina para expelir pela outra não sei que detritos que os canais nasais possam ter adquirido durante o sono. Mas a barulheira que lhe sai pelo nariz, nossa senhora! E repete. E volta ao início. Estou à espera do dia em que os pulmões sejam expelidos pelas fossas nasais.
Depois toma banho. Seca o cabelo. Aquece uma caneca de leite no micro-ondas. Vai embora.
Regressa o sossego.
Este é um dos dramas de partilhar casa. Os sons. Os barulhos. Às vezes dou comigo a tentar adivinhar o que estará a fazer através dos barulhos que produz.
Roommates. Soa melhor em inglês. É mais chique. E é a solução quando não há dinheiro suficiente para cobrir a renda da casa sozinho.
É então que saio do quarto. Passo na casa-de-banho para uma mija rápida. Lavo as mãos. Passo a cara por água. E faço café.
Enquanto espero pelo café, leio as gordas dos jornais no iPad. Sento-me na mesa da cozinha. O cheiro do café começa a invadir o espaço. Ouço gritar, num fundo escondido da minha cabeça, Uma torrada! Uma torrada!, mas não, não há torradas. Estou um bocado gordo. Cortar no pão.
Sento-me. Ligo o iPad. Abro uma página de noticias e leio Milagre! Deputado português com dom da ubiquidade. Queria saber mais sobre tão estranho fenómeno. Mas achei que não era suficiente para o clickbait.
Fui a outra página. A manchete era o poeta Alegre indignado. Achei que já não era notícia. O homem é uma indignação permanente. Depois, em diagonal, li touradas. E percebi tudo. O poeta Alegre era mais um desses fanáticos anti-touradas que grassam pelas cidades cosmopolitas. Nem fui ler a notícia. Já me chega de fanatismos.
O café estava feito. Enchi uma caneca. Um bocado de açúcar. Mexi. Olhei lá para fora, para a rua. A vizinha da frente andava pela casa, de camisa de noite, a apanhar os brinquedos dos miúdos. Baixava-se. Baixava-se outra vez. Tornava-se a baixar.
Voltei às notícias. Alguém português andava a responder em alemão a perguntas feitas em português por jornalistas portugueses sobre assuntos de Portugal. Que raio! Só fake news!
Acabei o café. Fui tomar banho. E só pensava na vizinha de frente a apanhar os brinquedos dos miúdos.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/08]

Qual o Preço da Vida?

…e depois, cada vez mais me convenço da nossa pequenez, mesmo quando explodimos de grandiosidade e damos passos enormes, maiores que nós, e o futuro nos parece risonho e o Homem se põe em bico-dos-pés para tentar ser Deus, dar a volta ao cosmos e ultrapassar a morte, descobrimos que somos o nosso próprio horror, quando nos tornamos carrascos de nós próprios e injuriamos e batemos e matamos quem temos ao nosso lado, porque queremos ser donos do que não nos pertence, e olho para os jornais e vejo as notícias sobre os 1% que comanda, efectivamente, este mundo, e percebo que todos nós queríamos ser, em alguma parte do tempo e do espaço, esse 1%, achando que podíamos ser donos e senhores da vida e morte de outrem, mas as manchetes do jornais enchem-se de indignação, nós enchemos-nos de indignação, as caixas de comentários dos jornais online enchem-se de indignação e as redes sociais indignam-se por inteiro, em coro, tudo muito alinhadinho, sem vozes discordantes nem dissonantes, e vimos todos condenar do alto de todas as nossas certezas e convicções, o criminoso quando, a bem da verdade, fomos nós os criminosos, nós os que deixámos acontecer, nós os mansos, nós os que estamos parados à beira da estrada a ver passar o cortejo dos horrores, a ver passar Auschwitz e o Trabalho que Liberta, Sarajevo, o Ruanda, o Médio-Oriente, e que só nos preocupamos com a nossa vidinha, vemos passar o cortejo dos horrores mas não nos metemos que não nos diz respeito e depois vamo-nos indignar em conjunto, porque em grupo é tudo mais bonito e simples, e não é preciso pensar, alguém o há-de fazer por nós e só temos de seguir a maré, não levantar ondas para que a indignação não se abata sobre nós, e por isso até sabe bem quando Elon Musk sugere que tudo isto é uma simulação, a nossa vida e a indignação e o futebol e o assédio e a violência doméstica e a morte são apenas o resultado de um qualquer programa computacional à escala cósmica e nós não somos mais que 0s e 1s que alguém programou para ser assim, agir assim e terminar assim, mas quando vejo o filme O Quadrado do sueco Ruben Östlund, candidato ao Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, em 2018, em representação da Suécia, filme onde se reflecte sobre o vazio e a virulência das sociedades actuais, sobre as constantes mudanças de códigos sociais e culturais e qual o preço que tem a vida de qualquer um de nós e qual o nosso papel nesta exposição absurda, onde todos temos os mesmo direitos e deveres, só que não, a realidade abate-se cruel sobre a teoria que…

[escrito para o Jornal de Leiria em 2018/02/01]