Estou à Espera

Estou à espera.
Estou de cigarro na mão à espera.
Estou sentado no sofá. Ouve-se o som fanhoso vindo do rádio FM que está na cozinha. É o rádio do pequeno-almoço. O rádio que utilizo quando estou a tomar o pequeno-almoço, de manhãzinha, para ir sabendo das notícias do dia.
Chego-me à frente e deposito a cinza no cinzeiro.
Ela está ao meu lado, no sofá. Está de telemóvel na mão. Provavelmente a navegar no Facebook.
Estamos calados. Não estamos chateados. Estamos só calados. Estamos bem os dois, em silêncio. Não temos de estar sempre a conversar. Conversamos quando temos o que dizer.
Estamos os dois em silêncio. Eu, estou à espera de cigarro na mão. Ela espera comigo, enquanto navega pelas redes sociais. Pelo menos é o que me parece. Não vou espreitar. Eu não tenho necessidade de ir espreitar. E ela não tem necessidade de me mostrar. Temos confiança um no outro. Aliás, mais que confiança. Nem sequer equacionamos isso.
Ouço, por cima do som fanhoso que sai do rádio FM, o som de um carro que se aproxima da casa. Tomo atenção. Procuro perceber se vem para cá. Mas não. Segue em frente. Desaparece. Fica só o som solitário do rádio FM.
Acabo o cigarro. Chego-me outra vez à frente e apago-o no cinzeiro.
Acendo outro.
Ela olha para mim. Coloca a mão na minha perna. Percebe que estou um pouco impaciente e tenta acalmar-me. Eu olho para ela. Ela sorri-me.
Recosto-me no sofá. Olho para a televisão desligada. Olho para o crucifixo com um Jesus loiro, com uma coroa de espinhos, que está pendurado na parede por cima da televisão. Eram restos da vida da minha mãe. Restos que deixei que entrassem pela minha vida dentro. Não me incomodam. Ou incomodava-me mais alterar estes restos da sua passagem.
Olho lá mais em cima, para o tecto, para as sancas. Olho para a esquina do tecto. E vejo uma aranha. Uma aranha que está a construir uma teia. Aquela aranha está por ali há já bastante tempo. Nunca a tirei de lá. Ela também não. E vai continuar por lá.
Vejo o jarro em cima da mesa. Tem o resto de umas flores. Não sei que flores são. Nunca soube o nome das flores. Só das Rosas. E estas não são Rosas. Mas devem estar a morrer. Há pétalas caídas à volta do jarro. As flores já não têm quase pétalas. Já não têm folhas. Mas o jarro ainda tem água. Acho que morreram, as flores.
Há um livro caído na mesa. Ao lado do jarro. Tento ver que livro é aquele. Não é meu. Não sou eu que o ando a ler. Deve ser dela. Que livro é? Tento focar as letras da lombada, mas tudo o que vejo é um borrão. Ainda me viro para ela para lhe perguntar o que é que anda a ler. Mas já não vou a tempo.
A campainha da porta toca.
Nem me apercebi que vinha lá alguém. Nem me apercebi da chegada de algum carro. Mas há alguém à porta. Alguém que toca a campainha. Eu não me mexo. Ela olha para mim. Sabe que sou eu que tenho de ir à porta. Sabe que é a mim que procuram. Sabe que é a mim que vêm buscar.
Eu olho para ela. Há uma despedida neste olhar. Sei que ela o vê.
Apago o cigarro no cinzeiro. Levanto-me. Caminho para a porta. Ouço-a levantar-se atrás de mim. Ouço-a caminhar atrás de mim. Abro a porta. Estão dois polícias à entrada de casa. Viro-me para ela. Ela abraça-me. Dá-me um beijo. Eu não consigo evitar um soluço.
Um dos polícias tem umas algemas nas mãos. Eu largo-a e estendo as mãos ao polícia. E deixo-me ser conduzido por eles.
E enquanto vamos pelo caminho até ao carro da polícia, ouço a porta de casa a fechar-se nas minhas costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/04]

Natal em Julho

Muito da minha vida ao longo dos anos tem sido feito à espera dos elevadores ou dentro deles.
Hoje voltou a ser assim. A minha vida numa roda-viva, para cima e para baixo à velocidade de Schindler, os que existem no prédio onde vivo.
Hoje estava no meu andar à espera do elevador. Estava a demorar. Mas lá acabou por chegar. Abriram-se as portas. Entrei.
Já lá estava um casal. Ela estava grávida. Gravidíssima. Com uma barriga enorme.
Disse Boa-tarde!. Responderam-me Hello!, os dois, mas não se sobrepuseram. Primeiro um, depois o outro. Hello!
Íamos a descer os andares. Cada um na sua vida. Eles os dois em conjunto. E depois, um esticão. O elevador parou. Entre dois andares.
Manteve-se a luz no interior do elevador.
Tocámos à campainha.
Insistimos.
Nada. Nada de nada.
Expliquei-lhes, em inglês, que não era normal. Era normal um dos elevadores estar avariado, mas não era normal avariar assim, a meio de uma descida, a meio do trabalho, com gente lá dentro. Os elevadores ali avariavam mas com razoabilidade.
Eles disseram, na verdade ele disse, que estavam habituados. Eram palestinianos. Na cidade onde viviam era normal não haver elevadores. Quando havia não funcionavam. Mas o normal era não haver. E quando funcionavam, a maior parte das pessoas preferia ir a pé.
Emigrantes? Não, não eram emigrantes. Ele era marceneiro. Fazia móveis de madeira. Com as mãos, dizia ele orgulhoso, enquanto me mostrava os calos. Estavam ali porque a mulher era engenheira Biotecnológica e estava ali em Leiria para assistir a um simpósio internacional no IPL
Só consegui emitir um Ah! de admiração e sem saber que mais dizer, quando a mulher começou a falar muito rápido, assustada e com as mãos agarradas à barriga. Tinha água a escorrer-lhe pelas pernas abaixo. Uma poça de água aos pés.
Contracções.
Ficámos todos nervosos. Eu fiquei muito nervoso.
A campainha tocava mas ninguém aparecia.
O meu telemóvel sem bateria. Os deles sem rede.
Ela deitou-se.
Ia dar à luz ali. Naquele elevador sem graça nenhuma. Avariado. Com uma luz fraquinha e a tremeluzir. À minha frente.
Entrou em trabalho de parto quase de imediato.
O marido tomou a situação nas mãos. Literalmente. Pediu a minha ajuda.
Amedrontado, ofereci-me.
Não me recordo de muito.
Lembro-me de gritos. De palavrões em inglês e outras coisas que não identifiquei. De sangue. Do homem retirar a camisa. De pedir a minha t-shirt. De um bebé a sair de dentro da mãe. De choro. De muito choro. E riso. Uma confusão de berros de choro e gargalhadas de alegria.
O homem virou-se para mim, ainda com a criança nas mãos e disse-me Jesus!, e depois colocou a criança sobre o corpo da mãe e tapou-a com a minha t-shirt. A mãe abraçou-a, cansada mas alegre e muito feliz.
O elevador deu um estalo e recomeçou a funcionar. A andar para baixo. Para o rés-do-chão.
Chegamos lá abaixo e eu fui a correr à rua, para pedir ajuda à cervejaria frente ao prédio. Chamei a ambulância que chegou em menos que nada.
Eles foram-se embora na ambulância. Agradeceram-me. Despediram-se de mim e repetiram os dois Jesus!, de sorriso rasgado.
Ao fundo, na rua, vi passar um cigano com um burro pela mão.
Nem sei o que pensar.
Eu acabei por ficar aqui na cervejaria. Estou ao balcão. Já bebi sete imperiais e continuo com sede. Preciso de um cigarro mas não consigo sair do balcão. E não sei o que pensar.
Não sei mesmo o que pensar.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/28]