Naquela Altura os Dias Eram Luminosos

Já não quero mais escrever estas coisas que tenho vindo a escrever. Cada dia se torna mais difícil. Já não consigo utilizar canetas nem lápis. Não as consigo agarrar. Tenho dificuldades com as mãos. Arranjei uma máquina de escrever, daquelas antigas, daquelas da minha infância, onde uma letra na ponta de um pequeno ferro era projectada numa folha pelo martelar dos dedos num plástico quadrado com o mesmo símbolo. Já parti um dedo no martelar constante. Parti as unhas dos dedos indicador e do meio de ambas as mãos. Os quadrados de plástico estão com sangue seco. Por vezes já não se vê a letra correspondente. Mas eu sei de cor o sítio de todas as letras e continuo infatigável a escrever o que eu tenho de escrever para que fique registado no papel antes de partir. E esperar que o papel se preserve. Que não arda nem se molhe. Que resista mais que eu.
Os dias estão muito mais curtos. Já são poucas as horas em que há luz do dia. Aproveito essas poucas horas. Preciso deixar escrito que as coisas não foram sempre assim. Que já houve uma época em que o sol brilhava de manhã à noite. Em que havia um tempo em que chovia, outro em que fazia frio e outro ainda em que fazia calor. E passeávamos na praia, à beira-mar e subíamos às montanhas e escorregávamos sobre a neve.
Preciso deixar escrito que já houve uma altura em que as pessoas riam e ouviam-se gargalhadas, e havia mesmo quem achasse que era feliz. Preciso deixar escrito que o mundo não foi sempre assim. Assim como é agora. Cinzento. Triste. Húmido. Um mundo de fim do mundo.
No entanto, começo a estar fatigado. Fatigado do esforço que faço para martelar nas letras e escrever as palavras que, umas a seguir às outras, vão fazer sentido e contar histórias, histórias reais, histórias que eu vivi quando a vida ainda não era assim como é hoje. Mas também estou fatigado de reviver estas memórias e o peso que elas carregam. Farto de perceber que estragámos tudo, estraguei tudo, e agora não há nada que nos valha. Depois de mim, o quê? O que é que irá restar quando as últimas memórias se extinguirem? Quem é que ficará? O que é que ficará por cá? Que forma de vida pode sobreviver a este Inferno na Terra?
Enrolo um bocado de barba-de-milho numa folha que rasguei da Bíblia. Toco-lhe fogo. Deixo o fumo invadir-me os pulmões. Acalma-me. Aquece-me. Ajuda-me a lembrar. Fazia-me jeito um copo de vinho tinto.
Sento-me à frente da máquina onde vou martelar a história. Junto à janela. Preciso do máximo de luz para ver o que faço, o que escrevo. Antes que o dia se vá embora outra vez.
E começo:
Ela tinha nascido há pouco tempo. Ainda era quase uma boneca de trapos a que eu e a mãe tínhamos de prover tudo. E se ela ralhava se não lhe fizéssemos o que queria! Abria a boca e libertava os pulmões. Um barulho ensurdecedor entrava de rompante pelos ouvidos e, ao início, ficávamos sem saber o que fazer. Depois habituámos-nos. Havia choro para tudo. Fome. Fralda molhada. Dor de barriga. Ausência de sono. Necessidade de atenção. Calhandrice. Rabo tremido. Ah, o que ela gostava de estar aos solavancos no colo.
Ainda tinha semanas de vida e começámos a levá-la à piscina. Saíamos de casa ao fim do dia. Ainda era de dia. Naquela altura os dias, os fins de dia, eram luminosos. O sol ainda andava pendurado lá por cima. O céu era azul. Fazia calor. Eu levava-a num carrinho. Passávamos a estrada para o outro lado da rua, entrávamos pelo jardim dentro e percorríamos os caminhos até ao outro lado e, enquanto caminhávamos, ouvíamos os pássaros (sim, naquela altura ainda haviam pássaros, milhões deles), cheirávamos os odores das várias flores que se espalhavam por todo o lado, entre as árvores, à volta do coreto, a sublinhar a esplanada onde algumas pessoas liam livros, jornais, bebiam uma cerveja, fumavam um cigarro, trocavam um beijo, e desviávamos-nos das outras crianças que andavam por ali a brincar aos índios e aos cowboys, aos polícias e aos ladrões, alguns passavam de bicicleta, outros de trotineta, outros ainda de skate mas esses só nas zonas em asfalto que as rodinhas não rolavam na terra batida.
Saíamos do outro lado do jardim e entrávamos no complexo. Íamos directos às piscinas. Entrava nos balneários dos homens com ela. Despia-me, vestia os calções, despia-a a ela, vestia-lhe um fato de banho pequenino, e o colete por cima e entrávamos dentro do pavilhão da piscina aquecida. Ela começava logo aos pulos mal via os tanques cheios de água. Queria ir lá para dentro. Então eu entrava, com ela ao colo, e depois largava-a. E ela punha-se a nadar. Sozinha. E eu sempre ali à volta, atento, a ver se era preciso alguma coisa.
A maior parte das vezes a mãe também ia. Íamos os dois. Esses dias eram mais fáceis. Ora um, ora outro, conseguíamos ter tempo para mergulhar e dar umas braçadas. Fazer umas piscinas. Gastar energia. Alongar o corpo. Nadar de um lado ao outro. Às vezes mais que uma vez. Ainda tinha forças.
Quando cresceu ainda andou na natação. Ainda ganhou umas provas. Levou umas medalhas para casa. Estiveram penduradas no quarto dela. Até acontecer o que aconteceu. E o que aconteceu foi o fim de todas estas memórias.
Não sei durante quanto tempo mais vou conseguir continuar a escrever. Dói-me reviver estas lembranças. Ela foi um dos milhões de crianças que morreram naquelas primeiras horas. Aqueles dias foram muito duros.
Já há muitos meses que não vejo uma criança. E também se torna difícil cruzar-me com outras pessoas. Os tempos estão perigosos. As pessoas afastam-se. Vivem isoladas. Saem somente para procurar alguma coisa para comer, o que se torna cada vez mais difícil de encontrar. Os stocks das lojas e dos supermercados já foram quase todos pilhados há muito. Agora, resta-nos a respiga. A segunda volta aos mesmo sítios para ver se sobrou alguma coisa. Eu já pus umas sementes na banheira. Enchi a banheira de terra e enfiei lá umas sementes que encontrei. Mas ainda não nasceu nada. Não sei se ainda vai a tempo de nascer. Não sei se ainda irei ver alguma coisa a brotar da banheira.
Já não tenho mais luz para continuar. Vou ficar por aqui. Vou embrulhar-me na minha manta e tentar fechar os olhos. Estou cansado. Se amanhã ainda estiver por cá, vou tentar contar outra história. Para verem como éramos antes. Como fomos felizes. E como estragámos tudo.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/22]

Seis Dias

Não demorei muito a perder todas as esperanças depositadas na novidade. Seis dias, foi quando durou o Ano novo, vida Nova! o Agora é que é! Este é o meu ano! Desta vez vou cumprir todas as minhas resoluções! Sinto que este ano é que é o meu ano! Sou outro, o mesmo mas em novo!
Seis dias.
Entrou o Dia de Reis e foi tudo por água abaixo.
Estava com bastante esperança. Estava confiante. Até parecia maior, de corpo erguido, peito feito para enfrentar o futuro. Sentia-me bem, muito bem, grande, enorme. Era o sol, o calor, o mar, estes dias brilhantes de Primavera em pleno Inverno que me colocaram no caminho da boa disposição e de conquista do mundo. Os trevos no jardim lá em baixo. As azedas à borda da estrada. O chilrear dos pássaros logo pela madrugada.
Seis dias.
Hoje de manhã já me fora difícil levantar da cama. Sentia frio e qualquer coisa esquisita cá dentro, uma certa angústia de que não sei a origem. E alguma vez se sabe? Sim, às vezes sei a origem das minhas angústias, o final do mês, a falta de dinheiro, a chegada de contas para pagar, uma ida não programada ao dentista, a falta de trabalho. As ausências. As fugas ou a impossibilidade de as executar.
Levantei-me já com alguma dificuldade. Mandei o edredão para os pés da cama mas tive de me levantar logo de seguida que não aguentava o frio. Fui fazer café, mas tive de tomar banho enquanto esperava pela primeira chávena do dia para aquecer o corpo. Tinha as mãos e os pés gelados. E foi enquanto espalhava o champô pelo cabelo, e olhava para a rua através da janela aberta de par-em-par, e via aquele sol amarelado de gema de ovo de aviário que percebi que o dia, que até tinha nascido soleiro, estava sem brilho. Um dia de sol, mas baço. E perguntei-me Que raio estou a fazer aqui? E não queria estar ali. Ali no banho. Não me apetecia ter levantado da cama. Estava frio. O dia estava com sol que não aquecia nem me trazia boa disposição. Queria perceber porquê mas não entendia nada. Um aperto no peito. Uma vontade de chorar. Sem razão. Quer dizer, sem razão aparente, que razões tenho eu muitas, diariamente, mas já me habituei a viver com essas razões. Não havia nada de novo que me fizesse sentir assim, ausente, perdido, destroçado, um desgraçado de merda, que era como me estava a sentir enquanto enxaguava o cabelo.
Seis dias.
Saí do banho. Vesti uma roupa qualquer. Tirei à sorte do roupeiro uma camisola. Vesti as mesmas calças da véspera. Umas sapatilhas. As que estavam ali caídas na marquise, fora da caixa. Tirei uma caneca de café. Um cubo de açúcar. Não, dois. Acendi um cigarro. Olhei para a rua. Senti-me pequeno. Senti-me decrescer. Minguar. Senti falta do meu pai. Da minha mãe. Senti falta de poder dizer Não me sinto bem. E ter-lhes a atenção. E o meu pai dizer Vamos ao médico. E a minha mãe dizer Vou fazer-te uma tisana. E ter colo.
Deixei cair o resto do cigarro na caneca de café e larguei-a ali, no beiral da janela.
Dei duas voltas lentas à cozinha. O que é que vou fazer? O que é que tenho para fazer? O que é que me apetece fazer?
Saí da cozinha. Fui até à sala. Olhei para a televisão desligada. Sentei-me no sofá. Enterrei o cu no fundo do sofá. Acendi um cigarro. Olhei para a gaveta de cima do móvel. Tinha lá uma Glock. Uma sobrevivente do assalto a Tancos.
Já passaram umas horas. Já passou o dia. Já se foi a manhã e a tarde. Já cai a noite. Acendo um cigarro. Ainda estou sentado no sofá. A televisão continua desligada. Tenho uma Glock na gaveta de cima do móvel. São seis de Janeiro e o ano já me parece velho. Velho e cansado. Deixo cair um borrão incandescente do cigarro no chão da sala. Não consigo tirar os olhos da gaveta. Da gaveta de cima do móvel.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/06]

O Primeiro Natal

Era o primeiro Natal depois da morte do meu pai. E toda a gente estava empenhada em ajudar a minha mãe a ultrapassar essa ausência da melhor maneira possível.
Família que eu nunca vira. Alguns amigos, não assim tão chegados. Vizinhos solitários. Toda esta gente resolveu passar a noite da consoada lá em casa.
E eu percebi que iria cair tudo em cima de mim. Previ a catarse geral. O choro compulsivo. O rasgar das vestes (havia algumas tias mais dadas a excentricidades). O tecer de elogios de quem nunca tinha privado com ele. A amizade de quem nunca o ajudou quando ele mais precisou. Enfim. Não são assim as pessoas? Distantes na miséria mas simpáticas e condoídas depois das desgraças fúnebres? Depois de morrer, toda a gente era a melhor gente do mundo.
Eu estava empenhado em que nada daquilo se passasse. Queria a minha mãe distante de tudo. Queria que a ausência não fosse mais que uma ausência.
Não me meti na organização da festa de Natal e deixei que as pessoas fizessem como bem entendessem. Deixei tudo nas mãos experientes das damas da família com muitos natais nas mãos. Escolheram a ementa. Fizeram divisão de tarefas. Arranjaram mealheiro colectivo e não me pediram dinheiro.
O meu único contributo para a noite da consoada foi pôr a mesa de Natal, sem lugar para o meu pai, assim decidi, para não aumentar o tamanho da ausência. Assumi a cabeceira. A minha mãe ao meu lado. O resto, distribuído por afinidades ou falta delas para não criar ansiedades nem desgostos. Há sempre quem aproveite o Natal para criar expectativas. Pelo menos nos meus natais tem sido assim.
E, depois, uma pequena surpresa. A confecção de uns pequenos e saborosos bolos. Uns pequenos e saborosos bolos de haxixe. E fiz umas miniaturas para as crianças, sem haxixe.
No início da noite andei a oferecer bolinhos a toda a gente. Ninguém se negou comê-los. E eu insistia em ficar por lá até os ver comer tudo, até à última migalha. E foi o que aconteceu. Não sobrou uma migalha. Até a minha mãe comeu. Fui elogiado. Eu e os bolinhos.
O jantar foi devorado.
Ninguém foi à Missa do Galo.
A noite foi passada a discutir a hipótese, plausível, de Jesus Cristo ser um extra-terrestre de Alfa-Centauro. Ainda se referiu a Atlântida e a Ilha de Mü. As estátuas gigantes da Ilha da Páscoa e os astronautas nas Linhas de Nazca.
Acabou toda a gente a dormir lá por casa. Qualquer canto era uma boa cama. Andei a distribuir cobertores e almofadas. Descalcei quase toda a gente. Havia quem tivesse as meias rotas. E logo os tios mais ricos. São sempre os mais miseráveis.
Na manhã seguinte saí cedo com a criançada toda até ao parque infantil no jardim da cidade. E deixei a casa, em silêncio, a curtir a ressaca do Natal.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/23]

À Boleia

Sentei-me ao balcão e comecei a beber. É o que se faz quando se chega ali ao balcão. Sento-me num banco alto, que roda, coloco os cotovelos no balcão, a informar que cheguei para estar, e o tipo que está lá do lado de dentro do balcão, coloca-me um cálice à frente, olha para a minha cara e percebe o que é que estou a precisar de beber. É mágico, este barman. Há dias em que ele percebe que preciso de um copo de vinho. Ou de uma cerveja. Hoje percebeu que eu precisava de um bagaço. E assim foi.
Eu estava todo molhado. Sentei-me ao balcão encharcado e com frio. O bagaço aqueceu-me. O primeiro. O segundo. Foi ao terceiro que comecei a descontrair e a pensar como as coisas são estúpidas.
Precisei de vir à cidade. Não morava muito longe. Mas também não era perto. Na verdade, não vivia na cidade. Vivia nos arredores da cidade. Para além da periferia. Eu já não tinha carro. E não havia autocarros que ligassem o sítio onde vivo à cidade. Podia chamar um Táxi, mas não tinha dinheiro para a distância. Pus-me à boleia. Pus-me à boleia de manhã, num dia cinzento e chuvoso, tão cinzento e chuvoso que a bem da verdade nem parecia ser manhã mas um final de dia.
Estiquei o polegar. Aos carros e aos camiões. Especialmente aos camiões que são tantos os que passam por aqui. Mas os camiões passavam tão depressa que nem me viam. Ou fingiam que não me viam. Ninguém me via. E fui andando. Fui andando. De braço esticado. Polegar levantado. A chuva que não parava. E nunca parou. E eu ali, à borda da estrada, a caminho da cidade, e vim andando, vim andando, estrada fora, polegar levantado, a caminho da cidade. De braço esticado. De polegar levantado. Os carros e os camiões a passar. Sem parar. Mesmo as motos. Não lhes pedia boleia. O braço estava esticado porque veio sempre esticado. Mas também nunca pararam. Ninguém parou por mim. E eu vim andando, vim andando, até que acabei por chegar à cidade. Encharcado. Cansado. Irritado. Cheguei onde tinha de ir e já não consegui ir porque já era tarde e já tinha encerrado. O tempo passou e não dei pela passagem. Vim andando e o tempo foi indo. Quando cheguei era tarde demais. Fiquei parado em frente à porta fechada, debaixo da chuva, com frio, mas já não estava irritado. Já não sei o que estava. Talvez frustrado. Ou talvez nada. Talvez eu não estivesse de forma nenhuma.
E foi então que resolvi vir ao balcão.
Sentei-me ao balcão e comecei a beber. É o que se faz quando se chega aqui assim ao balcão.
Estava molhado. Cansado. Com frio. O bagaço aqueceu-me. O primeiro reanimou-me. O segundo manteve-me estável. O terceiro pôs-me a cabeça a funcionar. E percebi como as coisas são estúpidas. Tanta tecnologia, tanto wi-fi, tanta internet, e um tipo ainda tem de estar presencial em certos sítios só para que lhes olhem para a fronha. E hoje já ninguém dá boleia a ninguém. Já ninguém anda à boleia. Toda a gente tem carro. Quem não tem, anda de transportes públicos. Onde não há transportes públicos, as pessoas vivem isoladas ou então, têm de se pôr a caminho. Como eu. A pé. Mas é chato ser Inverno. É chato ter de vir a pé à cidade num dia cinzento e de chuva.
Decidi que vou ter de ficar na cidade para amanhã. Não vale a pena regressar. E tenho de regressar a pé. Não irei conseguir boleia. Já ninguém dá boleia. As pessoas não gostam umas das outras. As pessoas odeiam-se. As pessoas querem-se à distância das redes sociais. Amam-se todas e amam-se muito. Mas à distância e por escrito. Já ninguém soletra A-mo-te. Já não há ouvidos para esses sussurros. Agora só há olhos para palavras no Messenger. Já ninguém faz nada por ninguém. Só condolências sofridas. Somos bons nisso. Nas condolências sofridas. Ninguém dá boleia. Ninguém se toca. As pessoas ignoram-se. E depois choram-se as perdas.
Somos uma sociedade hipócrita. Não deixamos os terminais morrerem em paz, acenamos-lhes com os cuidados paliativos, mas não lhes damos o dinheiro para esses mesmos cuidados.
O barman enche-me o quarto copo de bagaço. Já me sinto mais quente. Tenho de me manter quente que vou ter de dormir por aí, no vão de algumas escadas, na entrada de algum prédio, para fugir à chuva, ao frio e ao vento. Se não fosse isso dormia num banco de jardim. Não vale a pena regressar a casa. Regresso amanhã. Tomo um banho quente. Lavo os dentes. E enfio-me na cama. Debaixo de todos os cobertores que lá tiver em casa. Os cobertores que a minha mãe me deixou como herança. A minha única herança da minha mãe. São quentes, os cobertores.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/12]

A Casa do Lado

A casa do lado está sempre fechada. Parece uma casa vazia. Mas não é.
Por várias vezes, em noites de insónia, saio de casa de madrugada, naquele momento em que a claridade começa a despertar, para fumar um cigarro e caminhar um pouco ao longo da rua e desentorpecer as pernas, e já vi um carro a sair de lá. Parece-me ser uma mulher, ao volante. Mas está sempre em silhueta. Acho que se esconde de propósito.
Estou na rua, o cigarro na boca, ou nos dedos, o fumo a subir aos céus, e ouço o mecanismo da porta da garagem a abrir. Fico ali parado, ao lado da casa, a ver. O carro só sai da garagem depois da porta chegar mesmo ao cimo e parar. Então o carro sai. E pára logo lá em frente e aguarda até a porta da garagem se fechar por completo. E então vai-se embora. Tento sempre espreitar para dentro do carro. Mas não consigo ver com clareza. Parece ser uma mulher. Talvez com o cabelo apanhado. Ou curto. A silhueta é magra. É tudo o que consigo perceber.
Já aqui vivo há cerca de seis anos. A casa já estava assim. Sempre com as janelas fechadas. As portas fechadas. Nunca vi roupa estendida a secar ao sol. Nem tapetes a arejar em janelas abertas. Nunca vi ninguém a ir despejar lixo. Nunca vi ninguém a cuidar do pequeno jardim que existe à frente da casa e, no entanto, o jardim tem um ar cuidado. Nunca vi fumo a sair da chaminé. Ninguém deve cozinhar naquela casa. Ninguém deve acender a lareira, mesmo nos dias gelados de Janeiro.
Aquela casa, aqui ao lado, é um mistério. Mesmo depois de ter ido lá espreitar, uma noite destas.
A casa parece abandonada. Parece não albergar lá vida. Mas já vi sair de lá alguém que me parece uma mulher. E há, por vezes, nem sempre, mas por vezes, uma divisão com luz numa espécie de meio-andar da casa. Uma divisão com uma janela não muito alta, mas larga, como um rasgo no alto da parede da casa, por cima da garagem, o que me faz pensar numa espécie de mezzanine.
Uma noite destas, tinha ido à rua levar o lixo, já era tarde, tarde da noite, tinha largado o saco no caixote, estava a acender um cigarro quando reparei que a luz estava de novo acesa. Na tal janela rasgada quase ao longo da casa mas mais acima na parede exterior, por cima da garagem. A janela tinha cortinas japonesas puxadas para baixo. Não se via nenhuma sombra.
Fumei o cigarro na rua, ao lado do caixote do lixo, enquanto tomava a decisão.
E decidi.
Lancei o resto do cigarro fora. Subi a rua. Galguei o muro da casa vizinha. Não havia cães nem gatos. Passei o jardim que continuava bem tratado. Aproximei-me da casa. Andei à volta dela à procura de um caminho para subir à janela rasgada. Subi a uma janela e puxei-me ao primeiro telhado, o mais baixo. Depois fui andando devagar, com cuidado, até me aproximar do segundo telhado, por cima da garagem. Fui a caminhar por um friso que ficava abaixo da janela, ou por cima da garagem, agarrado ao beiral do segundo telhado, até chegar à janela rasgada com luz no interior. Tentei espreitar, mas não conseguia ver nada. As cortinas japonesas vedavam-me o acesso. Tentei encontrar sombras, mas não dava para perceber nada.
Fui andando ao longo do friso à procura de uma nesga. Devagar, para não cair. A queda também não seria muito grave. E então, aproximei-me da junção de duas cortinas. Uma pequena nesga entre uma cortina e outra. Tentei espreitar. Cheguei-me ao vidro. Andei com um olho para cima e para baixo, De um lado para o outro. E então, finalmente, vi. Vi um corpo de mulher, vestido com um fato de licra cor-de-rosa, e collants de um branco que me parecia creme, a roçar-se numa bola gigante de borracha, uma daquelas bolas de pilatos. O corpo subia e descia sobre a bola. Rolava. Esticava-se. Virava-se. Via os pés esticados, as pontas dos dedos dos pés a tocarem, muito levemente, no chão de madeira, enquanto o corpo se esticava ao longo da curvatura da bola. Não conseguia ver a cara. Tentei várias vezes. Andei com os olhos ao longo da nesga de espaço entre uma cortina e outra, mas nada. Não conseguia ver a cara. Fiquei por ali algum tempo. O corpo mexia-se, mas a cara continuava fora de visão. Era uma mulher. Isso de certeza. Era o corpo de uma mulher. Uma mulher jovem.
Depois o corpo ergueu-se. Largou a bola que vi ficar sozinha. A luz apagou-se. Não ouvi nenhum barulho. Esperei um bocado. Nada.
Desci do friso sobre a garagem. Percorri o jardim. Saltei o muro e voltei à rua. Acendi um cigarro. Virei-me para a casa e estava na escuridão. Parecia uma casa deserta. Uma casa vazia. Mas eu sabia que vivia lá alguém. Havia alguém naquela casa.
Talvez houvesse lá um portal, pensei.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/11]

Sim, Mãe

Faltam quatro dias. Faltam quatro dias para o dia Um de Novembro. O Dia das Bruxas, do Bolinho e de Todos os Santos. Especialmente o Dia de Todos os Santos. O dia em que se veneram os mortos. Os mortos queridos ao lado dos Santos. Não que os mortos sejam Santos. Ou tivessem sido. Que porra de conversa, a minha.
Acordo ainda de noite. É quase de manhã mas ainda é de noite. Acordei antes da hora. Ando agitado. Aproxima-se o dia. E eu fico assim. Nervoso.
Já consigo distinguir algumas formas no quarto com a pouca luz que entra pelas janelas abertas.
Estou deitado na cama. O edredão tapa-me. Deixa-me a cabeça de fora. Os olhos circulam pelo quarto a tentar visualizá-lo através da pouca luz. Vejo uma massa escura sobre a cadeira ao fundo do quarto. Sei que são as calças que lá larguei mas, visto daqui, assim, com esta luz, parece uma massa disforme, talvez uma forma de vida alienígena. Um pouco de sugestão e parece-me que se mexe. Parece deslizar pelas costas da cadeira. Mas nunca chega ao chão.
A minha mãe vai telefonar-me hoje. Daqui a pouco. Quando estiver a sair do duche. Encharcado. Com frio. E o telemóvel a tocar. E eu vou atender e ela vai perguntar-me se eu vou ao cemitério. Se eu vou ao cemitério no dia Um de Novembro. E eu vou dizer que sim, que Vou sim, mãe. E ela vai perguntar se quero que vá comigo. E eu vou dizer que não. Que prefiro ir sozinho. Prefiro ir sozinho, mãe. E ela vai fingir que acredita. E eu vou fingir que ela não sabe que vou ficar na cama. Que vou ficar o dia e a noite, inteiros, na cama, a imaginar que ela não morreu, que está aqui, aqui ao pé de mim, a rir-se comigo de tudo isto. E vai telefonar amanhã com a mesma conversa. E todos os dias até ao dia Um para ver se consegue que eu saia de casa e vá ao cemitério levar-lhe umas flores e dizer-lhe adeus. A minha mãe acha que eu devo dizer-lhe adeus. Mas eu não consigo. Não consigo dizer-lhe adeus. Porque ela está aqui, aqui ao meu lado, na cama, quentinha, quentinha como ela estava sempre debaixo do edredão, e eu tinha de me chegar a ela para me aquecer, que tenho sempre os pés frios e ela gritava comigo quando eu lhe tocava com os pés frios, mas ficavam logo quentes mal lhe tocavam porque ela estava sempre quente, a ferver, e fervia-me a mim ao mínimo contacto com o seu corpo branco, limpo, cheiroso e quente. Um cheiro a conforto. Um cheiro de colo. E ainda baloiço no seu colo. No seu colo quente e acolhedor. Um colo-casa. Uma casa que não quero perder.
Não posso dizer adeus. Não quero dizer adeus.
E a minha mãe vai telefonar-me para saber e eu vou dizer-lhe que sim. E ambos sabemos que estarei a mentir mas que não posso fazer de outra maneira.
Apetece-me um cigarro.
Ponho a mão fora do edredão. Agarro num cigarro. Agarro no isqueiro. Acendo o cigarro. Sinto o fumo a encher-me os pulmões. Sinto a cabeça a andar à roda. Fico um pouco mal disposto. Olho o fumo a sair da minha boca, olho o fumo a sair do cigarro incandescente, e subir até ao tecto do quarto e depois espalhar-se em mil e um pedaços de fios e desaparecer da minha vista. Fica lá o cheiro. O cheiro enjoativo do tabaco fumado de manhã, antes de comer, antes de beber café, antes ainda de tomar banho e penso que ando parvo. Ando a fazer parvoíces. Nunca tinha fumado na cama. Não gosto de fumar na cama. E no entanto… Penso que esta solidão a que me forcei nestes últimos anos me está a deixar parvo.
E é então que sinto o cheiro das torradas e do café acabado de fazer, que se sobrepõem ao cheiro acre do tabaco, e vejo-a entrar radiante, um sol de Inverno que entra pelo quarto dentro, deposita uma pequena bandeja como o café, umas torradas já barradas com manteiga e um solitário com uma rosa escura roubada já hoje de manhã no jardim da vizinha. Depois dá-me um beijo na face e volta a desaparecer de novo. Levando o brilhante sol de Inverno com ela. E regressa o cheiro do tabaco.
Cai um pouco de tabaco incandescente na cama e fura o edredão. Eu olho para o buraco. Não tenho reacção. Podia dizer Foda-se! podia dizer Que merda! mas não digo nada. Limito-me a olhar para o edredão queimado e ver o buraco a alastrar. Até parar. Estou indiferente.
Acabo de fumar o cigarro. Apago-o. Levanto-me da cama. Abro a janela. Está frio na rua. E deixo o frio entrar no quarto. E vou para a casa-de-banho tomar o duche e preparar-me para o telefonema da minha mãe. E exercito a voz. Sim, mãe. Estou acordado, sim. Sim, vou ao cemitério. Não, mãe. Prefiro ir sozinho. Sim, mãe.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/28]

O Miúdo a Tocar Guitarra Eléctrica na Varanda do Prédio em Frente

As pessoas gostam disto. Das borlas. Da gratuitidade cultural. A arte tem de ser grátis que o tipo que a faz fá-lo por gosto e quem corre por gosto não cansa. E se for a pagar, ninguém vai.
Estou à janela a fumar um cigarro. E vejo, lá mais à frente, naquela casa antiga, mais pequena, rés-do-chão e primeiro andar, e um pequeno quintal à frente com o projecto de jardim mas onde existe, efectivamente, uns verdes e não são couves portuguesas, na varanda, um miúdo com a guitarra eléctrica. Começa a tocar uns acordes sónicos, distorção, coloca uma voz por cima mas não é uma letra, são uns sons vocais que acompanham a sonoridade ácida da guitarra. Estranho. Estranho, mas interessante. E bonito. Em frente, no passeio, a olhar para o miúdo, outros miúdos e miúdas como ele. Não muitos. O sítio é um bocado escondido. O miúdo não tem nome. A sua música não é para todos. E foi empurrado para ali. Para o sítio escondido onde só ocorrem os amigos. As massas ficam-se pelo centro. Onde tocam os nomes com nome. Os que contam. Mas eu agradeço ter o miúdo ali em frente. A tocar um som que me agrada. Aos amigos dele e a mim.
A cidade está em polvorosa. A música, a dança, a performance, a ginástica saíram das paredes das salas de ensaio, das salas de espectáculo e vieram para a rua. Para as ruas. Para o público. À borla para um público que não gosta de pagar para ver arte. Mas o resto paga-se. Os PAs. As cervejas. O comércio que vive ali à volta e não vai ter mãos a medir a servir cervejas, torradas, hambúrgueres, tostas mistas, cafés, águas em garrafas de plástico, Coca-Colas, Pastéis de Natas, Brisas do Liz, oh, as famigeradas Brisas do Liz. Tudo se paga. Tudo, menos a arte. O artista é um sujeito que vive do ar e das palmas do público. Não precisa de dinheiro. Nem para a droga. Um músico tem sempre droga e ela cai-lhe do céu ou é patrocínio do dealer.
Entro em casa e apago o cigarro.
Estou indeciso entre ir à rua e ficar em casa. Ainda agarro no casaco, que os fins-de-dia já tendem a ficar frescos. Mas acabo por decidir que fico em casa. Não quero ir meter-me na confusão.
Arranjo um copo de vinho. Acendo outro cigarro. Volto para a janela. O miúdo continua lá a tocar. Gosto do que faz. Talvez um dia regresse à cidade e dessa vez lhe paguem. Depois ainda podem dizer que foram eles os primeiros que lhes deram a oportunidade. E o prestígio de tocar neste evento à borla, para gáudio de burgueses forretas que deixam sempre a carteira em casa e só têm cartões de plástico.
A noite aproxima-se. O miúdo continua lá a tocar. Se calhar não há mais ninguém para tocar no mesmo sítio. Se calhar esqueceram-se do miúdo. Olha, pá! Continua a tocar que estou a gostar de te ouvir.
O que é que eu vou jantar, hoje? Não me está a apetecer cozinhar. Acho que vou fazer umas torradas. Umas torradas com manteiga.
E depois vou reflectir. Amanhã é dia de eleições. E vota-se de graça, também. Pelo menos, até ver.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/05]