O Cheiro do Papo-Seco Fresco

Naqueles tempos eu acordava cedo. Bastante cedo. Muito mais cedo do que alguma vez viria a acordar mais tarde, mesmo quando o trabalho assim o exigia. Acordava cedo para aproveitar o dia. E, naquele mês de praia, para aproveitar a baixa-mar e andar a brincar na água até ter os dedos das mãos todos engelhados, saltava da cama aos primeiros raios de sol que entravam pela janela aberta para que o dia me acordasse com ele.
Levantava-me da cama. Lavava a cara. Vestia uns calções e uma camisola, enfiava os pés nos chinelos de borracha, pegava na saca do pão, uma saca de pano com uns desenhos bordados pela minha avó e que, segundo constava, era enxoval da minha mãe, agarrava as moedas que estavam ao pé da saca e saía de casa em silêncio para ir à abertura da padaria. Ainda hoje me lembro daquele cheiro a pão que nunca mais vim a reconhecer em lado nenhum. Ainda cruzava eu a praça deserta, às vezes com gente ainda dos restos das noites que me estavam proibidas, gente que dormia caída à entrada das portas, com poças de vomitado ao lado e restos de garrafas de cerveja tombada pela calçada portuguesa, e já sentia no ar aquele cheiro ao pão acabado de fazer. Às vezes ainda tinha de aguardar alguns minutos pela abertura da porta e, quando abria, era eu o primeiro cliente, levava pão fresco, papo-secos ainda quentes e às vezes uma arrufada que não chegava inteira a entrar em casa. Depois, sentado sozinho na mesa da cozinha, a ler um livro qualquer de quadradinhos, o Major Alvega, a Revista do Tintim ou o Jornal do Cuto, bebia um copo e leite frio e comia um papo-seco com manteiga, rasgado aos pedaços, que enfiava na boca sem tirar os olhos das páginas cheias de desenhos fantásticos e estórias do arco-da-velha.
Depois ia para o sofá da sala esperar que o resto da casa se levantasse. O resto da casa era a minha mãe e a minha irmã. Às vezes o meu pai. Mas o meu pai nunca ia para a praia connosco. Dava-se mal com o calor. Ficava com o corpo cheio de borbulhinhas que lhe davam muita comichão. Eu herdei essa alergia ao calor, mas acabei a contornar esse problema com o Zyrtec.
A minha mãe levantava-se. Acordava o resto da família. Arranjava as coisas. Comia. Dava de comer. E depois íamos.
Eu levava a minha toalha sobre o pescoço e uma sacola com dois ou três livros de quadradinhos para ler nessa manhã na praia.
Quando lá chegávamos eu ia logo ao mar molhar os pés e ver como é que seria o resto do dia. Depois voltava para a barraca, estendia a toalha, fazia um montinho para a cabeça, agarrava num dos livros de quadradinhos e evadia-me.
Regressava quando a minha irmã me chamava para ir com ela ao banho. E então íamos ao banho e ficávamos por lá até a minha mãe nos chamar, depois de estar a chamar-nos durante algum, bastante, tempo. E de nós fingirmos que não a ouvíamos.
Voltávamos para a barraca. Eu estendia-me ao sol. A minha mãe dava-me um pão com manteiga que eu devorava em três dentadas e ficava ali um bocado, de barriga para baixo, as costas para o sol, a imaginar-me nas aventuras com o agente Ene 3, o Buffalo Bill ou o Tarzan, o rei da selva.
Mais tarde haveria de voltar a casa para almoçar, que a minha mãe fazia sempre almoço para nós e para o meu pai, quando o meu pai estava. Iria dormir a sesta. Lancharia. E ainda iria para a praia lá mais para o fim da tarde. Nessa altura dava um passeio até às rochas e depois voltava a ir para o mar, nadar, mergulhar, brincar. Voltaria à toalha. Estender-me-ia ao sol. A minha mãe dar-me-ia um pequeno Tupperware com pedaços de fruta que eu devoraria e, quando o sol começasse a desaparecer no horizonte, voltaríamos para casa onde a minha mãe iria preparar o jantar enquanto eu e a minha irmã tomávamos um banho de chuveiro, rápido. Iria queixar-me das queimaduras nos ombros. A minha mãe iria dizer Eu bem te avisei, enquanto me iria passar um creme hidratante, provavelmente Nivea, nos ombros e, depois de jantar, iríamos dar um passeio pela marginal, regressaríamos a casa e, antes de dormir, eu iria ler mais um livros de quadradinhos.
No dia seguinte tudo se repetiria. Da mesma maneira. Exactamente da mesma maneira. Pelo menos é assim que o recordo. E aquele cheiro ao pão fresco, acabado de cozer. Que vontade tenho agora de voltar no tempo por um daqueles papo-secos acabados de sair do forno.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/14]

Até um Dia

É a treze de Maio. É sempre a treze de Maio que deixo a minha clausura caseira e rumo até ao Pedrogão. Mas não chego a entrar no Pedrogão, de onde tenho, aliás, tantas e tão boas memórias. Não. Fico lá por trás, a meio daquela recta enorme da estrada do Atlântico que liga a praia da Vieira ao Pedrogão.
A meio dessa recta está um tronco de árvore morto, um tronco de uma árvore que foi partida, decepada, e que eu espetei fundo no chão de areia na berma da estrada para lembrar. Para lembrar aquele treze de Maio. Com uma navalha entalhei, no tronco, Até um Dia, e agora, todos os treze de Maio lá estou de regresso aquele pedaço de caminho, entre a praia da Vieira e a praia do Pedrogão, estrada que fiz vezes sem conta, e à qual agora só regresso neste dia para prestar homenagem e perguntar quando é que será a minha vez e cumprir a minha promessa de Até um Dia.
Naquele dia, naquele treze de Maio, há muitos anos, vinha eu do Pedrogão para Leiria, e antes ainda do corte à esquerda que me leva directamente à Vieira de Leiria e me evita a passagem pela praia, o que nos dias de Verão dá muito jeito para fugir às camionetas de turistas que vêm molhar os pés à foz do Liz, ali mesmo à entrada, ou saída, da praia da Vieira, o rio que vem das Fontes, acima das Cortes, e corta a cidade de Leiria e deixa o Bairro dos Anjos e os Marrazes do lado errado, o rio que obriga a passar a ponte que esteve interdita durante alguns anos, por risco de derrocada, nem sei como está agora, porque não tenho ido pela praia da Vieira, naquele dia treze de Maio, estava a contar, ainda não tinha chegado ao corte à esquerda para virar para a Vieira de Leiria, ela pediu para parar o carro. Eu encostei à berma, não muito porque as bermas são baixas e cheias de areia, na prática acabei por parar o carro na minha faixa de rodagem, com os quatro piscas ligados, e ela saiu do carro e correu para as dunas para apanhar camarinhas. Sim, não é normal haver camarinhas nesta altura do ano, ainda é muito cedo, mas às vezes acontece. Está calor mais cedo e as camarinhas rebentam por todo o lado.
Vi-a tirar o casaquinho de malha para fazer de saco e enchê-lo de camarinhas. Eu, dentro do carro, rádio ligado a ouvir o Once in a Lifetime dos Talking Heads, a olhar para ela, de vestido leve e sapatilhas All Star verde-tropa, e os braços magrinhos, despidos, a estenderem as mãos para as camarinhas e a encherem o saco-casaco enquanto ia enfiando algumas na boca e eu só pensava que as camarinhas não estavam lavadas e algum gajo podia ter mijado para cima delas mas não lhe disse nada, continuei a olhá-la, de sorriso na cara, enquanto ela apanhava a sobremesa do jantar daquele dia, até que a vejo a descer a duna a correr, a correr e a gargalhar, contente, feliz, ela era uma miúda muito feliz, que contrabalançava a minha má-disposição quase-permanente, que ela não permitia que eu andasse sempre maldisposto como ando agora, desce a duna a correr, a rir, satisfeita com a vida, vá lá, com o dia, como o dia estava a correr, e passa por mim, passa à frente do carro a correr para atravessar a estrada para o outro lado, cheio de camarinhas, como eu pude comprovar depois, mais tarde, quando fui apanhar o tronco da árvore deitada abaixo e que fui enterrar na areia com um Até um Dia que entalhei com a navalha, quando sinto o sopro de um carro a passar ao meu lado, um carro que chegou do nada, ninguém o viu, eu não o vi, ela não o viu, e que passa assim, como um fantasma ao meu lado, e eu vejo-a a passar à minha frente, a correr, a correr e a rir, com o saco-casaco nas mãos cheio de camarinhas e vejo-a dar mais um passo, um passo fatal, um passo e depois…
Sinto o bater antes ainda de o ver. Sinto o bater seco do carro eléctrico, o carro fantasma que ninguém viu chegar, no corpo frágil dela, e então vejo esse corpo a ser lançado no ar, como se fosse um boneco de trapos, com os membros pendões que a gravidade trata de puxar para baixo. Vejo o carro assustar-se com o embate e virar à esquerda, galgar a berma e bater numa árvore, um pinheiro, que deitou a baixo, não arrancou a raiz, mas cortou o tronco a meio, como mais tarde eu pude confirmar.
Fiquei parado durante algum tempo dentro do carro. Os Talking Heads continuavam a tocar na rádio. Eu estava com as duas mãos no volante. O corpo dela, que tinha visto ser projectado para a frente, como um boneco de trapos, estava caído no chão como um balão sem ar.
Então um grito. Um grito lancinante. Alguém saiu do outro carro que estava virado ao contrário, ainda vi as rodas a girar, a girar e saiu de lá alguém aos gritos. E foi então que despertei, saí do carro, gritei, berrei, corri para ela, agarrei aquele pedaço de corpo desfeito ao colo e chorei, chorei até chegar o carro dos bombeiros não sei quanto tempo depois, e tiveram de me arrancar dela que não queria que a levassem embora…
É treze de Maio. Todos os treze de Maio venho aqui. Aqui a este sítio onde está fixado na areia o tronco com o entalhe Até um Dia, ouço o Once in a Lifetime dos Talkings Heads e vejo-a passear-se lá em cima, nas dunas, a apanhar camarinhas, e a sorrir para mim. Era uma miúda feliz.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/13]

Sopa de Agrião para o Jantar

A noite passada houve uns carros parados lá à frente, na estrada. Com o confinamento os carros tinham desaparecido daqui, e as pessoas também. Esta rua esteve deserta. Agora parece que está tudo, ou quase tudo, a recomeçar a voltar aos velhos hábitos. Parece que afinal o vírus não infectou ninguém por aqui e as pessoas começaram a fazer o que faziam antes. Já saem de casa. Já andam em grupo. Os miúdos já brincam na rua. Já há namorados de mãos dadas no jardim da aldeia. O café voltou a encher. Confirmei ontem quando lá fui beber um bagaço. Disse-me o dono que servia-me o bagaço mas que tinha de ir bebê-lo para a rua. E assim fiz. Eu e todos os outros. Tudo à entrada do café a beber e a fumar. Tudo na risota. Ninguém conhece ninguém que tivesse morrido com o Covid-19. Ninguém conhece ninguém que tivesse sido infectado com o Covid-19. Ninguém conhece ninguém. Eu também não. Se calhar é mentira.
Será que é tudo mentira?
Depois à noite, estava eu aqui no alpendre a fumar um cigarro e a tentar ver as montanhas lá ao fundo, a noite estava limpa, havia luar e conseguia ver as montanhas e estava a pensar como tinha saudades de ir até lá quando apareceu por aí o primeiro carro. A passar devagar. Eu estava cá em cima, no alpendre, às escuras. Só a incandescência dos cigarros. E tomei atenção ao carro. Passou devagar. Muito devagar. Depois parou lá mais em cima. Primeiro pensei É passe. Depois pensei É sexo. Entre uma coisa e outra, não sabia qual a que calhava pior nestes tempos e ali, à beira de casa. Cabrões!
A meio da noite, já me tinha deitado, já tinha dormido mesmo durante algumas horas, fui acordado por uma música vinda da rua. Música que deveria estar em altos berros para entrar pelos meus vidros duplos e vinda de lá de baixo, do fundo da estrada. Levantei-me sonolento e fui à janela da cozinha. Cocei-me à janela. Conseguia ver, ao fundo da estrada, as luzes vermelhas de presença de um carro, ouvia a música que saía de uma alta-fidelidade (não reconheci a música mas era um pop-rock manhoso) e parecia-me gente a girar à volta do carro. Não percebi se era gente a chegar e a partir, se era gente a dançar. Também podia ser só gente a foder encostada ao carro. Mas não percebia muito bem.
Ainda peguei no telemóvel para ligar à guarda, mas desisti. Não sou bufo.
Voltei para a cama. Tomei um Zolpidem e só acordei hoje, já era meio-dia.
Voltei a ir à aldeia. Andava toda a gente na rua. Parecia dia de festa. A peixeira da Nazaré apareceu por aí a vender peixe fresco. Comprei um Robalo para amanhã. Já tenho almoço para o primeiro de Maio.
Hoje à noite vou estar atento aos carros que passarem.
Já arranjei dois paralelos do passeio que encontrei soltos no meu caminho até à aldeia.
Agora vou beber uma cerveja e comer umas pevides que comprei a uma senhora que as estava a vender em frente à igreja. Não há missa mas há pevides.
Ainda não sei o que vou jantar. Alguma coisa se há-de arranjar. Ainda tenho um resto de sopa de agrião. É isso. Uma sopinha.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/30]

Uma Disputa de Território

Naquela altura devia eu andar pelos meus treze, quatorze anos. Vivíamos numa antiga casa de caseiro de uma quinta feita em retalhos, lá para os lados da Boa Vista, para os antigos donos pagarem as dívidas acumuladas ao longo dos anos enquanto aguardavam a herança familiar. Herança recebida, herança desfeita. Foi tudo para os credores. Os meus pais acabaram por arrendar a antiga casa do caseiro ao homem que a comprou. A casa era grande. Rés-do-chão e primeiro andar. Os quartos em cima e o resto em baixo. Só havia casa-de-banho no rés-do-chão e, durante a noite, usava um penico para fazer xixi que enfiava debaixo da cama. No dia seguinte a minha mãe usava o meu xixi, que misturava com água, para regar as plantas e as hortaliças que se entretinha a plantar e a semear num pequeno terreno, anexo à casa, e que nós utilizávamos em proveito próprio. A minha mãe é que cuidava daquela pequena horta. O meu pai só a regava à noite e aos fins-de-semana durante o Verão. Mas era a minha mãe que fazia quase tudo e tratava de levar à mesa tudo o que retirava de lá.
No tempo em que vivemos naquela casa fora da cidade, tivemos sempre um cão. Na verdade vários cães. Sempre que um morria, vinha outro. Cães rafeiros. Cães que nos davam. Cães que apareciam por lá. Os cães estavam sempre presos à casota por uma corrente. Naquele tempo era assim. Os cães estavam presos. Os cães eram os alarmes das casas isoladas. Sempre que os cães ladravam, já sabíamos que alguma coisa se passava. Os cães chamavam-se todos Bobby.
Um dia também apareceu por lá um gato. E ficou. A minha mãe alimentou-o e o gato acabou por ficar. O gato chamava-se Tareco e tinha mais liberdade que o Bobby. Às vezes até entrava em casa mas a minha mãe não gostava e enxotava-o para a rua.
Aconteceu que em determinada altura, apareceu por lá um gatarrão, gordo, enorme, arraçado de persa, que começou a chatear o Tareco. Não sei se era uma disputa de território mas, a primeira vez que fomos alertados para a guerra despoletada entre eles os dois foi com a chinfrineira que fizeram, engalfinhados um no outro, chinfrineira de tal ordem que o meu pai saiu de casa com a vassoura nas mãos para as eventualidades. E descobrimos os gatos enrolados um no outros e uma nuvem de pêlos a voar. O Tareco ficou com mazelas. Várias peladas no corpo. Algum sangue. E isto começou a acontecer com alguma regularidade. Não sabíamos de onde vinha o gato. Não conhecíamos ninguém com gatos ali perto. E sempre que nos aproximávamos, o gatão fugia. Não sabíamos como enxotar o raio do gatão. O Tareco estava cada vez mais desanimado, com menos pêlo e começou a emagrecer a olhos vistos.
Um dia percebi que o gatão costumava vir das traseiras e contornava a casa antes de atacar o Tareco.
Levei um toro de madeira para lenha que o meu pai ainda não tinha cortado, para o meu quarto. E pus-me a fazer uma espera ao gatão.
Depois de jantar fui para o meu quarto, fiquei à janela e aguardei. Sempre a olhar para o fundo da casa. Mas adormeci. Não sei quanto tempo fiquei ali de guarda à espera do gatão, mas adormeci antes dele chegar. Nem sei se chegou. Mas não ouvi nenhum barulho nessa noite. De manhã desci para tomar o pequeno-almoço e regressei ao quarto. Estava de férias da escola. As férias grandes. Passava as tardes a tomar banho de mangueira em frente à cozinha. Mas naquele dia, naquele dia voltei para o quarto e fui colocar-me à janela. À espera.
Ainda não era meio-dia. Já me chegava lá acima o cheiro do refogado que a minha mãe estava a fazer. Vi o gatão a vir sorrateiro dos fundos da casa. Passar rente à parede. Parar. Olhar em volta. Voltar a andar mais um pouco. Eu peguei no toro de madeira. O gato parou debaixo da minha janela. A olhar à volta. À procura do Tareco. E eu deixei cair o toro de madeira, pela minha janela, que acertou em cheio no gato. Acho que lhe acertou na cabeça. Ouvi um baque seco. O gato ficou lá caído. Eu fiquei debruçado sobre a janela a olhar o gato que não se mexia. O toro de madeira rolou um pouco depois de cair sobre o gato e parou um pouco mais à frente. O gato continuou quieto. Deitado no chão encostado à parece de casa. Devia estar morto. Nunca tinha visto nada morto. E depois, comecei a chorar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/22]

Para um Diário da Quarentena (Nono Andamento)

Estou quase a fazer um mês de confinamento em casa. Mais dois dias e faço um mês. Um mês fechado aqui em casa. Sozinho.
A ideia de um diário deste confinamento ficou-se pelas promessas. A inércia tomou conta de mim. Os dias repetem-se. Uns a seguir aos outros. Sempre iguais. As noites como os dias. Já os confundo. Durmo quando calha. Como quando tenho fome. Tenho sempre fome. Engordei. Engordei bastante. Não sei quanto que tenho medo da balança. Fujo-lhe.
Perdi as rotinas antigas e ganhei outras. Nem sei se são rotinas. São uma ausência de actividade. Perdi a vontade. Perdi a vontade de tudo. Não quero ler mais nenhum livro. Não quero ver mais nenhum filme. Não quero acompanhar mais nenhuma série. Estou farto da música. Ainda me lembro das festas unipessoais que fiz na sala, ao início. Eu a dançar feito louco ao som dos Chemical Brothers até cair, derreado, no fundo do sofá. Agora não me apetece dançar nem ouvir música.
A televisão está sempre ligada, dia e noite, para me fazer companhia e me manter na ilusão de que não estou só.
Mas almoço sozinho. Janto sozinho. Durmo sozinho. Bebo café de manhã sozinho e, o primeiro cigarro do dia, é fumado sozinho. Dantes ainda fumava o cigarro à janela. A olhar a rua. A olhar a vida que ainda existia na rua. Agora fumo na cama. E já não é o primeiro cigarro do dia porque já não tenho dia. Os dias e as noites são já só a mesma coisa, sempre a mesma coisa, nunca acabam nem nunca começam. Só continuam, imparáveis.
Deixei de acompanhar as conferências da DGS. Agora só ouço o número de mortos. Depois, desligo. As vozes continuam a debitar números, informação, mas eu já não ouço. Tenho os ouvido e o cérebro programados para o dia em que alguém disser Terminou.
Mas ainda ninguém disse.
O número de mortos continua a somar.
Eu ainda estou vivo.
Pergunto-me para o que é que me estou a preservar. Ainda haverá mundo depois do Covid-19?
A cama tem sido o meu útero. Deito-me e tapo-me com o edredão. Tapo a cabeça. Respiro debaixo de edredão. Acabo por adormecer. Já não como há… Há quanto tempo? Não tenho fome. Não tenho vontade de comer. Bebo água. E bebo água porque às vezes fico com a boca seca e pastosa. Já nem vinho bebo. Acabou-se o vinho. Ainda tenho alguns cigarros. Vou fumando na cama. Tenho o cinzeiro cheio. Esqueço-me de o despejar quando me levanto. E só me lembro quando já estou de regresso à cama. Não volto a levantar-me. E volto a esquecer-me. A minha memória já não é a mesma. Acho que tudo isto me está a afectar. Não estou com o Covid-19, pelo menos acho que não estou contaminado, mas estou a sofrer de problemas colaterais.
Estar em casa está a matar-me. Eu gosto de estar em casa mas por opção. Obrigado, começo a odiar. Odiar tudo. E no cimo de tudo, odiar a vida. Odiar a vida e tudo o que fizemos dela.
Estou na cama. Vou continuar na cama. Espreito por cima do edredão e vejo, através da janela, um céu esbranquiçado. Anémico. Um dia morto.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/11]

Para um Diário da Quarentena (Oitavo Andamento)

Desde que começou esta crise com o coronavírus e eu me remeti a uma reclusão voluntária, que não difere em muito da minha vida habitual pré-covid-19, que decidi começar uma espécie de diário dos meus dias de clausura.
Ao fim de duas semanas, e precisei de tanto tempo para entender, percebi que os meus dias são sempre iguais, banais, de um minimalismo tão grande que parecem algumas das obras do Philip Glass, e concluí que afinal não tenho grandes coisas para contar a quem quer que seja.
Resta-lhes ficar como memórias destes dias. É claro que vou continuar a escrever sobre estes dias de confinamento. O que é que iria fazer se não estivesse aqui a escrever o que estou a escrever?
Os dias repetem-se. Ora faz sol, ora está a chover. Uns dias faz calor, outros faz frio. Por vezes levanto-me de manhã, faço café e vou bebê-lo para o alpendre enquanto olho as montanhas lá ao fundo (quando não estão cobertas pelo nevoeiro), outras vezes deixo-me ficar enfiado debaixo do edredão a cozer a depressão. Umas vezes sento-me à mesa da cozinha, frente ao computador, a trabalhar, outras vezes passeio-me pelo quintal sem conseguir fazer o que tenho de fazer. Às vezes almoço, às vezes não. Tem dias em que me sento no alpendre a ler as notícias nos jornais online, e tem dias em que me encosto à ombreira da porta e vejo a luz descer até ser noite. Às vezes apanho uma maçã da macieira, limpo-a às calças e como-a ali mesmo, outras vezes vou fumar um cigarro para a estrada na esperança vã de ver passar um carro, uma motorizada. Há dias em que dou uma volta pela aldeia e não me cruzo com ninguém, nem mesmo com o padre, e há dias em que me sento no sofá, ligo a televisão e fico a ver a CMTV até começar a enervar-me. nessa altura dou um murro na parede, faço sangue nas nozes dos dedos e tenho de tomar um Brufen para acalmar as dores. A CMTV puxa-me pela violência e por vezes, só às vezes, vejo-a para destilar um pouco da fúria que me acossa. Às vezes dá resultado. Mas só às vezes, não sempre.
Quando tenho paciência, por vezes faço um bom jantar, experimento receitas, invento misturas, quando não tenho paciência como um pão com manteiga, às vezes um pão de véspera, duro, mas só o torro quando consigo ir ao fundo de mim buscar um pouco de vontade, o que não acontece sempre e, na maior parte das vezes, acabo por comer o pão com manteiga assim, duro e seco, e fico embuchado.
Tem noites que me sento no sofá a fazer zapping até adormecer com o comando na mão, cair para o lado e acordar com um fio de baba a escorrer-me pelo canto da boca, mas tem noites em que me sento no alpendre, a ouvir os barulhos da bicharada nocturna e a fumar uma ganza. Às vezes vejo um filme, uma série. Às vezes leio um livro. Mas a cabeça foge-me e na maior parte das vezes o livro fica a meio, adormeço a meio do filme e não vejo o resto dos episódios da série.
Há dias em que o relato do número de mortos e de casos detectados me deixa triste e antecipo o apocalipse num futuro bem próximo. Outros dias o relato desses números deixa-me indiferente e então temo que me esteja a tornar num tipo insensível.
Às vezes não vejo as mensagens que recebo e não atendo as chamadas que me fazem. Deixo tocar o telemóvel até se calar e, depois, desligo-o. Outras vezes leio as mensagens e respondo-lhes, atendo o telefone e até gosto de falar com quem acabo por falar. Mas essas vezes são muito raras. Acontecem muito pouco e sem avisar.
Uma constante que acompanha todos os meus dias, os dias assim-assim e os dias assado é o copo de vinho. Ah, e também o cigarro. São duas as constantes que servem para todas as estações em todos os dias do ano. Esteja eu como estiver, ter um copo de vinho tinto numa mão e um cigarro aceso na outra faz parte de mim, tanto como respirar. E não sou esquisito, posso passar da Barca Velha à Adega Cooperativa da Batalha. Embora a minha carteira esteja bem mais para beber Adega Cooperativa da Batalha que outra coisa.
Os dias repetem-se. Iguais. Monótonos. Continuo sem álcool, sem máscaras e sem sabão azul e branco. Bebo vinho e fumo cigarros, às vezes ganzas. Se não mato o bicho de uma maneira, tento de outra. Não creio muito nas minhas hipóteses de me livrar dele com vinho tinto e cigarros mas, pelo menos, contento o espírito e dou-me alento à alma. Posso morrer mas vou satisfeito. Pelo menos um poucochinho satisfeito.

A Vida Cá por Casa

Eu já não era o único a arrastar-me cá por casa. Agora era ela, também. Depois de nos levantarmos de manhã, depois de bebermos uma caneca de café de saco, eu, em fato-de-treino, sentava-me numa poltrona e ela, de roupão por cima da camisa de dormir, sentava-se na outra. Ligávamos a televisão e ouvíamos as notícias na CMTV. Estávamos em guerra. Estávamos em guerra contra um vírus e estávamos a perder essa guerra. Entrámos em angústia. A morte rondava-nos. Perto da hora do almoço eu carreguei no botão do comando e passamos para a SICN e sossegamos um pouco. A situação era má, mas não era desesperada como parecia.
Ao almoço aquecemos um resto de feijoada que ela tinha trazido de casa da mãe há umas semanas e tinha guardado no congelador. Havia um resto de arroz de cenoura da véspera e aquecemos tudo no micro-ondas. Acompanhámos com um copo de vinho de uma garrafa sem rótulo que ela também tinha trazido de casa da mãe. Era vinho do produtor. Uma zurrapa. Era boa para matar o bicho.
Eu já estava habituado àquela vida de andar por casa, a arrastar os chinelos do quarto para a sala, da sala para a casa-de-banho, da casa-de-banho para a cozinha, caneca de café na mão, um cigarro e um biscoito, uma vida de desempregado de longa-duração, já entrado numa idade em que se está morto para o mercado de trabalho que os mercados financeiros gostam é de gente novinha a quem possam chupar toda a energia. Eram as minhas manhãs. Umas a seguir à outras. Em repetição. Depois de aquecer algum resto perdido pelo frigorífico para almoçar, a tarde não fugia aos mesmos passos. Vestia umas calças e uma camisola. Ia até à rua. Bebia café. Às vezes um copo de vinho. Fumava uns cigarros. Arrancava uma maçã da árvore, limpava-a às calças e comia-a por ali mesmo, pelo quintal. Depois regressava à sala. Regressava à companhia da televisão. Via um ou outro programa da tarde, programas para donas-de-casa, mulheres da limpeza ou para velhos sedentários, e esperava que ela regressasse. E ela acabava sempre por regressar. Os meus dias eram assim e eu já estava habituado a eles.
Ela não. Ela não estava habituada a estar por casa. No início tentou copiar-me os ritmos, mas não tinha estofo para aquilo. O estar ali quieta, afundada no sofá a fumar cigarros, não era para ela. Esperava não ficar muito tempo por casa. Esperava que passasse a crise do Covid-19 e a vida retomasse o seu ritmo normal. Fosse lá o que o normal fosse. Bom, para ela, era sair de casa de manhã para ir trabalhar e só regressar ao final do dia. Olá amor, Olá, um beijo, um cigarro em conjunto e o jantar para os dois antes de ver um filme requentado no canal Hollywood.
Depois de uma manhã a arrastar-se pela sala, cozinha e casa-de-banho, depois de uma dieta de cafés e cigarros e o vinho ao almoço a acompanhar aquele resto de feijoada que tinha trazido de casa da mãe, ela precisava de agitação. Foi vestir o fato-de-treino colorido, resto dos anos noventa, e foi lavar o carro. Passou-lhe cera. Aspirou-o por dentro. Verificou o óleo. Pôs-lhe água no depósito do pára-brisas. E eu à janela, a fumar um cigarro e a pensar Era eu que devia estar a fazer aquilo, não era?, mas ela gostava. Ela gostava de fazer aquelas coisas. De estar ocupada. De não ter motivos para pegar num livro. Eu gostava de ter motivos para pegar num livro, mas a televisão punha-se sempre entre mim e o livro. E deixava-me ficar por lá, frente à televisão, a enfardar entretenimento em forma de conhecimento popular.
Depois de deixar o carro num brinco, ela entrou em casa e disse Vou dar uma volta. Vou caminhar. Queres vir?
Não me apetecia nada ir. Não percebia aquela loucura por caminhar em direcção a lado nenhum, sem outro objectivo que não o caminhar, mas sabia que, ao fazer-me a pergunta, já esperava que eu dissesse que sim, e era melhor dizer sim e evitar problemas.
E disse, Sim, vou contigo.
Ela ainda vestiu um colete amarelo-fluorescente por cima do fato-de-treino colorido. Era para se ver bem na estrada. Eu fui com o fato de treino azul escuro que já tinha vestido. Ela ia suficientemente colorida por nós os dois. Fui só calçar umas sapatilhas e partimos.
Ela caminhava depressa. Aquilo não era um passeio. Era uma prova de marcha. Em ritmo acelerado. Não sei se fazia bem a caminhada. Parece que tem de haver sempre uma planta dos pés no chão. Não sei muito bem como é que isso se processa, mas fui andando atrás dela. E ela levou-me por caminhos de terra batida que eu nem conhecia. Consegui que ela parasse um pouco ao pé do ribeiro. Ainda bebi um pouco de água. Ela avisou que a montante, havia uma cerâmica Há uma cerâmica lá mais em cima. Se calhar não é boa ideia beberes do rio. Mas já era tarde. Era melhor preparar-me para um desarranjo intestinal. E lá continuámos.
Acabámos por fazer uma volta enorme e voltar pelo outro lado da casa. Doíam-me as pernas. Eu vinha cansado. À chegada a casa, vi um dos gatos morto no meio da estrada. Atropelado. O gato tinha rebentado. Havia tripas espalhadas pelo asfalto. Encostei-me a uma árvore na berma da estrada e comecei a vomitar. Ela agarrou numa espécie de cajado e puxou os resto do gato para a berma.
Agarrou em mim e ajudou-me a ir para casa. Deixou-me na casa-de-banho e foi encher um balde para enxaguar a estrada. Tirou umas sapatilhas minhas de uma caixa e levou a caixa para colocar o resto do gato.
Quando regressou já eu tinha tomado banho e estava de fato-de-treino lavado a fumar um cigarro no alpendre à espera dela. Ela pegou-me no cigarro e deu duas passas. E disse Vou tomar um duche. Depois vou fazer uma salada para o jantar. E eu respondi Está bem.
Ela foi tomar banho e eu regressei à sala. Sentei-me no sofá e liguei a televisão. Estava a responsável da Direcção Geral de Saúde e a Ministra da Saúde a falar em directo. A fazer um ponto da situação da expansão do vírus. Comecei por ouvir. Acabei por adormecer.
Acordei quando ela me chamou e disse Anda! Anda, vá! Vamos comer uma salada.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/10]

Para uma Biografia, que Pode ou Não Ser Auto (capítulo um)

Já tinha acabado o recreio dos anos oitenta e os noventa já davam os primeiros passos. Foi nessa altura que me casei. Que me casei pela primeira vez. Foi um casamento em que tentei prolongar a festa que tinham sido os anos oitenta. E durante algum tempo, foi o que aconteceu.
Alugámos umas águas-furtadas num bairro típico da capital. Era um inferno de Verão. Um gelo de Inverno. Mas era uma boa casa, acolhedora, de desenho bizarro, cheio de corredores e tectos baixos e janelas levantadas sobre o telhado, e divisões amplas. Dissemos que era uma casa fantástica para convidar pessoas e fazermos festas. O facto é que nunca tivemos ninguém lá em casa. Houve festas sim, mas só nós é que éramos os convidados. Só nós os dois. Nós os dois sozinhos até às duas últimas semanas em que lá vivemos, quando nasceu o nosso filho. Duas semanas depois de ter nascido mudámos para uma casa normal, num prédio normal, para tentar ter uma vida normal. Quarto andar com elevador num prédio de oito andares. Um prédio onde não chegámos sequer a conhecer os vizinhos de andar. Nem mesmo os que tinham a porta ao lado da nossa. Um prédio de onde saímos quando nos divorciámos algum tempo depois. Não chegámos a lá estar um ano. Foi nesse prédio que percebemos, mais ela que eu, que os anos oitenta tinham realmente acabado e era preciso crescer. E ela achava que eu não crescia.
A verdade é que na nossa primeira casa, nas águas-furtadas de um prédio de um bairro típico da capital, também não chegámos a conhecer ninguém do prédio, prédio pequeno, de escadas em madeira e íngremes, que em determinadas noites subíamos de gatas, a rir, perdidos de bêbados, onde vomitámos algumas vezes e de onde caímos outras e onde eu fiz esta cicatriz que tenho na testa. Ainda se vê bem a cicatriz quando tenho o cabelo curto, que é quase sempre, agora.
Estes anos nas águas-furtadas foram anos muito intensos. Duraram pouco mas, o que duraram, duraram quase por uma vida.
Nos meses de Verão andávamos sempre nus lá por casa. Eu e ela. As janelas abertas à espera de um pouco de corrente-de-ar que nunca vinha. Janelas abertas numa casa sem cortinas. Janelas abertas à discrição da vizinhança. Às vezes ficávamos horas a fumar cigarros e a ver a ponte sobre o Tejo lá ao fundo, ancas encostadas uma à outra. Às vezes fazíamos amor ali mesmo. À janela. Ela contra a balaustrada. Víamos as luzes dos carros a passar na ponte, as luzes vermelhas dos que iam, as luzes amarelas dos que vinham. Ao lado o Cristo-Rei, acho que envolvido numa luz azul. Por vezes também apanhávamos por ali o pôr-do-sol. O Tejo em tons prata. Os telhados que se estendiam como tapetes multicor. Tanta ganza fumada naquela janela. Algumas pastilhas. Muita loucura.
Vivíamos uma vida simples. Simples, mas intensa.
Em casa tínhamos um colchão no chão, onde dormíamos, e uma mesa com quatro cadeiras onde comíamos e trabalhávamos. Nos primeiros tempos nem prateleiras para os livros que se empilhavam no chão. Depois, alguns meses depois, comprámos umas prateleiras no Continente que montei sozinho, eu e uma chave-de-fendas, e por causa da qual fiquei com um calo na mão direita durante meses. Foi também nessa altura que comprámos uma televisão, pequena, a cores.
Tínhamos uns vasos à janela onde cultivávamos algumas especiarias que utilizávamos nas nossas festas gastronómicas. Nestes anos engordei bastante. Uma dieta à base de experiências gastronómicas exóticas, muito vinho e cocktails e charros que nos obrigavam a terminar as noites em volta de torradas banhadas em manteiga e pacotes de bolachas tartelletes de morango que devorávamos umas a seguir às outras, de boca cheia e onde enfiávamos sempre mais outra bolacha e quando falávamos cuspíamos migalhas sobre o outro e ríamos muito, ríamos que nem parvos.
Tínhamos fogão, frigorífico e esquentador que tinham vindo com a casa. Foi muito útil no início da nossa vida. Nos primeiros tempos nem sentimos a falta da televisão.
No Inverno deitávamos-nos com as galinhas da província. Eu agarrava-me a ela. Ela deixava-se agarrar por mim e dormíamos assim, agarrados e quentes, aquecidos um no outro, sem televisão, a ouvir o barulho da rua que nos embalava, com excepção dos eléctricos que, em dias de chuva, eram um inferno de barulho.
E durante uns tempos, durante alguns anos, o tempo que durou a nossa vida naquela casa de águas-furtadas, parecia que a nossa vida era um compêndio de felicidade. Como se os anos oitenta não tivessem nunca acabado e durassem para sempre. No tijolo que tinha ido connosco no primeiro dia, não parava de tocar uma cassete com os Echo and The Bunnymen e os Chameleons. Tínhamos trabalho, os dois. Um trabalho bem pago. Vivíamos em festa constante. Mas uma festa caseira. Muito sexo. Só os dois. Sem necessidade de mais gente. De outra gente. Às vezes íamos ver um filme ou outro ao cinema. Às vezes saíamos a meio do filme para irmos para casa foder. Às vezes íamos a um concerto ou outro. Mas perdíamos os concertos em enormes filas para conseguir beber cerveja. Às vezes íamos jantar fora. Mas preferíamos os balcões das churrasqueiras que, na década seguinte, entrariam em desuso, ultrapassadas pelos restaurantes-lounge de decoração minimal e preços astronómicos.
Este estado de festa durou até ela engravidar.
Depois ela mudou.
Depois ela quis que eu mudasse.
Depois mudámos de casa.
E acabámos por mudar de vida. E mudámos cada um para seu lado.
Acabou-se a festa e o casamento.
Às vezes penso que os anos oitenta foi uma década com muitos mais anos que os dez que a classifica.
Às vezes acho que regresso lá, mas descubro uma década fechada e vazia e onde já não consigo estar sozinho.
Quando finalmente descobri os anos noventa, já estávamos com medo do milénio.
Mas isso é outra estória.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/09]

Recomeçar

Ela já tinha mandado o pano de cozinha molhado para o chão. Na verdade atirou-mo a mim, mas eu desviei-me e ele caiu no chão. Salpicou pingos de água em toda a volta. Agora ela tinha um prato de sopa na mão. Não sabia se o ia mandar ou não. Ela já não estava a falar. Nem me apercebi que entretanto deixara de falar. Tinha-me perdido nos meus pensamentos sobre esta repetição quase diária. Já nem estranhava. Ela olhava para mim. Só olhava para mim. Os olhos raiados de sangue. Como se estivesse possuída por alguma entidade maléfica. O prato de sopa na mão.
Que merda é que eu fiz agora? perguntava-me em silêncio. Era um pergunta retórica, claro. Não estava à espera de resposta. Alguma coisa eu devia ter feito. Ou não ter feito. Mas não me lembrava de nada que pudesse ter despoletado aquela reacção tão irritada dela. Outra vez. Nos últimos tempos, isto repetia-se e eu não conseguia descobrir a razão. Mais tarde haveria de querer fazer as pazes comigo. Pedia desculpa e acabávamos a foder no chão da sala. Mas eu estava a ficar farto. Estava saturado destas discussões que, para mim, não tinham sentido. Virei-lhe costas. Sim, não é o mais agradável de se fazer. Imagino a cara dela quando de repente vê que eu lhe viro as costas, afasto-me dela e deixo-a sozinha. Sozinha com o seu mau feitio. Abri a porta da rua e saí. Olhei o pequeno quintal. Um dos gatos estava lá sentado e ficou a olhar para mim. Lá mais à frente, o terreno de cultivo. O pai dela. Andava a cultivar alguma coisa. Talvez milho. Talvez milho para as galinhas. Ele tem galinhas. Galinhas poedeiras. É por isso que comemos tantos ovos. Acendi um cigarro. Percebi nessa altura que estava nervoso. As explosões dela, já habituais, ainda me deixavam nervoso. Puxei duas valentes passas e tentei acalmar. O pai dela viu-me à porta de casa. Levantou a mão numa saudação. Respondi com a minha mão levantada. Dali a pouco já toda a gente na aldeia saberia que eu e ela andávamos de candeia às avessas. Este é um grande problema das aldeias. Destes meios pequenos. Toda a gente sabe de toda a gente. Eu sei as histórias deles, como é que eles não hão-de saber as minhas? Ao fundo ouvi uns foguetes. Havia festa numa terriola perto. Dantes ia com ela aos bailaricos. Dançávamos muito. Bebíamos copos de tinto carrascão. Comíamos filhoses e bolo da festa. Ficávamos cheios de azia mas éramos felizes. Agora já não. Agora já não dançamos. Agora discutimos. Gritamos um com o outro. E acabamos a foder violentamente no chão da sala. Entre as centopeias e os lacraus que entram por baixo da porta e pelas janelas abertas.
Não gosto do campo. Não sou do tipo campestre. Esta não é uma estória bucólica.
Recomeço.
Ela já me tinha mandado com o copo de vinho para cima. O vinho primeiro e o copo depois. O vinho espalhou-se pelo chão e não me acertou que eu desviei-me a tempo. O copo estilhaçou-se na parede atrás de mim. Ela tem má pontaria. Depois colocou a mão na garrafa de vinho, ainda meio cheia. Não a levantou para me mandar com ela. Mas ficou com a mão a agarrar a garrafa, a ameaçar-me. Ouvi as pancadas vindas do apartamento de cima. Ultimamente, os vizinhos de cima batem com o cabo da vassoura no chão deles, o nosso tecto, para avisar que estão fartos dos nossos berros, das nossas discussões e do choro dela. E foi nessa altura que percebi que estávamos em silêncio. Ela estava em silêncio. Já não estava gritar comigo. Estava só a olhar para mim. A mão no gargalo da garrafa, a garrafa em cima da mesa e o olhar parado e frio sobre mim. Ela parecia possuída. E, de repente, parou. Mas aquele olhar. Aquele olhar fixo em mim. Aquele olhar assustava-me. Ultimamente estes ataques dela aconteciam com alguma frequência. Depois passavam. Ela ia para o quarto. Deitava-se sobre a cama. Descansava um pouco. Depois, mais tarde, vinha ter comigo. Pedia-me desculpa. Tocava-me. Beijava-me. E acabávamos a foder na bancada da cozinha. Era a única coisa boa destes ataques. Já não tínhamos o mesmo desejo um pelo outro de antes mas, nestas alturas, depois destes ataques sem sentido dela, terminávamos a foder como dantes, cheios de fúria e vontade. Mas que acabava também por terminar rápido. Eu depois ia para a varanda fumar um cigarro. Ela ia tomar um banho. E acabávamos a noite na sala, cada um na sua poltrona, a fazer zapping por todos os canais do cabo e sem ficar em nenhum. Quer dizer, eu, que tinha o comando na mão, ia fazendo zapping e ela ia não vendo os canais em fast forward comigo. Era um programa como outro qualquer.
Desta vez não. Desta vez virei-lhe as costas e saí de casa. Virei-lhe as costas e percorri o corredor todo até à porta da rua a sentir os olhos dela nas minhas costas. Olhos como punhais. Saí para a rua. Acendi um cigarro. Olhei em volta. Ninguém conhecido. Mandei um berro. Fo-da-se! Uma velha olhou para mim mas continuou em frente. Na cidade ninguém quer saber de ninguém. Ninguém conhece ninguém. Ninguém sabe quem eu sou. Deambulo pelas ruas, de olhos molhados, e ninguém quer saber o que é que se passa comigo. Vem um cão no sentido contrário mas foge de mim. Muda de passeio. Acho que deve ter sido mal tratado. Coitado. Não fujas, pá! que não te faço mal.
Passo à porta do museu. Houve uma altura em que íamos lá todas as semanas. Repetíamos as mesmas exposições vezes sem conta. De cada vez que lá íamos descobríamos coisas novas. E ficávamos contentes pela descoberta. Pela descoberta em conjunto. Pela partilha da descoberta.
Há muito tempo que já não vamos ao museu. Já não me lembro da última vez que vimos uma exposição. Há quanto tempo não vamos ao cinema? E ao teatro? Há quanto tempo não temos um jantar tranquilo, a dois, sem o telemóvel, o mail para responder, o feed de notícias para alimentar, a fotografia que precisa do like. Acho que já não usufruímos da cidade. Estamos em fim de ciclo. E a cidade não nos ajuda em nada. Estamos isolados. Não temos amigos. Estamos sozinhos no meio da confusão. Só nos temos um ao outro. É por isso que insistimos em nós. Nesta relação já desgastada. Mas qual é a alternativa?
Não gosto da cidade. Não gosto do egoísmo da cidade. Preciso de gente com quem falar. Preciso de ir ao café e encontrar as mesmas pessoas e sentir-me em casa.
Recomeço.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/06]

Naquele Tempo Não Havia…

Andava à procura da razão e abri a Crítica de Kant. Há quanto tempo não pegava naquele pequeno volume? Caiu uma fotografia. Caiu ao chão. Vi-a à distância do meu mais que um metro e oitenta. Reconheci-a. A fotografia. Já tinha uns anos. Uns valentes anos. Era uma fotografia a preto e branco.
Naquele tempo não havia fotografias a cores.
Baixei-me e apanhei a fotografia. Sim, reconhecia-a. Reconhecia-me. Eu e ela. Eu e ela numa mesa de restaurante. Eu tinha a carta na mão e lia a ementa. Ela olhava para o fotógrafo. Eu ainda tinha cabelo. Bastante cabelo. Ela ainda tinha vida e sorria.
Naquele tempo havia fotógrafos nos restaurantes.
Ela olhava para a câmara do fotógrafo quando o fotógrafo disparou. Depois o fotógrafo disse No fim do jantar a fotografia estará revelada. E estava. E trouxemo-la connosco, para casa.
Não me lembro como é que foi parar dentro da Crítica da Razão Pura.
Lembro-me que depois do fotógrafo tirar a fotografia ela virou-se para mim e perguntou-me És feliz? E eu ouvi a pergunta e senti a pergunta entrar por mim dentro a semear questões e procurar respostas.
Se eu era feliz?
O que era a felicidade? Se fosse acertar no Euromilhões em dia de acumulado gordo, não, provavelmente não era uma pessoa feliz.
Se fosse poder fazer o que gostava de fazer, talvez fosse mais-ou-menos feliz. Se fosse levar uma vida sem preocupações financeiras e ter uma saúde de ferro e um emprego compensador financeira e filosoficamente falando, não, se calhar não era uma pessoa feliz. Se me sentia amado e amante, se gostava de mim e do que era, mesmo que às vezes não fosse grande merda, talvez fosse um bocadinho feliz. Sim, talvez fosse um bocadinho feliz.
Naquele tempo não havia ninguém que fosse muito feliz.
Onde estava a comparação? Se eu era feliz comparado com quê? Com quem? Se me comparasse com o meu vizinho do lado, vítima de doença ruim que o consumiu durante anos antes que, finalmente, pudesse morrer, sim, sentia-me uma pessoa quase feliz. Se me comparasse com a vizinha de baixo que tinha acabado de ter gémeos e recuperou logo a boa forma física de um corpo que era extremamente desejável, não, se calhar, e olhando para a barriga que já tombava sobre a cintura das calças e obrigava os botões da camisa a ficarem em tensão, se calhar não, não era feliz.
Naquele tempo, se não se pensasse muito, talvez se fosse um bocadinho feliz.
Na verdade lembro-me de não saber exactamente que resposta dar.
O fotógrafo já nos tinha deixado para podermos usufruir, descansados, de um jantar a dois.
Naquele tempo não se jantava muitas vezes fora.
Não havia muitas oportunidades para se jantar fora. Era caro jantar fora de casa. Não só nós os dois. Quase toda a gente. Quase toda a gente almoçava e jantava em casa. Era muito mais barato. Às vezes levava-se o almoço para o trabalho numa marmita. Os jantares fora de casa eram só em dias de festa. Uma comemoração. Um aniversário. Uma promessa.
Naquele tempo não havia Dia dos Namorados.
Também não haviam assim tantos restaurantes como há agora que parece que nascem debaixo das pedras da calçada e há restaurantes para tudo, temáticos, típicos de países, tipos de comida, de comer em pé ou sentado, em cadeiras ou no chão, lights, gourmet, paleo, sem glúten, só peixe, só carne maturada, eu sei lá. Hoje há restaurantes que não acabam mais e para todo o tipo de carteira.
Naquele tempo não havia muita coisa.
As pessoas iam de vez em quando ao cinema. De vez em quando ao teatro. De vez em quando ao futebol. De vez em quando ao baile. De vez em quando a uma boîte. Passeava-se pelos jardins da cidade de mãos-dadas. Nas margens do rio. Comíamos pevides ao longo do rio, em passeio.
Naquele tempo não havia muitas distracções.
Ao olhar agora para a fotografia lembro-me de estar a ler a carta, ter esbarrado no Magret de Pato, ter olhado para ela e ter dito Sim, sou feliz, e de ela ter sorrido, um sorriso sincero e franco, um sorriso que vi esboçar muitas vezes enquanto viveu ao meu lado. Lembro-me do último sorriso que me ofereceu, momentos antes de parar de respirar pela última vez.
Sim, era feliz.
Como é que esta fotografia veio parar dentro da Crítica da Razão Pura? E porque raio andava eu à procura de razão?