Acordar com o Cão a Ladrar

Acordei com ela a abanar-me. Estava a dormir e fui acordado com os abanões que ela me dava. E dizia Acorda! Acorda! O cão está a ladrar. Anda aí gente.
E eu despertei. Levantei-me rápido da cama e mantive-me assim por momentos, quieto e em silêncio, a tentar filtrar o som da rua de todos os ruídos da casa. Ouvia realmente o cão a ladrar. Aquele ladrar quando quer chamar a atenção para algo que não devia estar onde está.
Tentei apurar melhor a audição. Ouvir para além do ladrar do cão. Ouvi algumas lajes a ceder a peso. Mas podiam ser os gatos. Podia mesmo ser o cão. Talvez algum sardão. Ou um coelho. Nesta altura há muitos coelhos selvagens que passam aqui pelo quintal.
Fiquei mais um pouco à escuta. Depois ouvi o que me pareceu o corpo de uma pessoa a estalar. Como quando nos espreguiçamos e esticamos o corpo e os ossos cedem e estalam e parece que nos estamos a partir. Era o que me parecia.
Levantei-me da cama. Estava nu. Estou sempre nu. Mas, se realmente andava por ali alguém, era melhor não ir nu. Vesti os boxers que estavam caídos na poltrona. Saí do quarto. Fiz o corredor até à cozinha. Fui à despensa e agarrei num cabo de vassoura, sem vassoura, que guardei para um momento como este. Cheguei-me às janelas da cozinha e olhei lá para fora. Não via nada de anormal. Estava escuro. O luar iluminava um pouco. Dava para ver alguma coisa, mas não dava para ver muito. O quintal tinha muitas zonas na penumbra. A penumbra podia esconder muita coisa. Pessoas.
O cão continuava a ladrar. Mas não via o cão. Não via ninguém.
Ela chegou à cozinha. Colocou a mão sobre o meu corpo nu e senti um calafrio. Ela perguntou Então?
E eu olhei para ela. Olhei para ela e percebi que havia qualquer coisa que não estava bem. E disse Espera aí! Eu vivo sozinho.
Despertei. Despertei na cama. Despertei a ouvir o cão a ladrar. Levantei-me e sentei-me. Olhei para o outro lado da cama e estava vazio. Fiquei ali quieto e em silêncio a ouvir o cão a ladrar. A tentar ouvir para além do cão a ladrar. Devia andar por lá gente. Ou algum animal.
Ouvi as lajes a cederem ao peso de alguma coisa. Mas podiam ser os gatos. Ou até mesmo o cão. Se calhar algum sardão. Talvez um coelho selvagem que eles andam agora por aí que nem doidos.
Apurei a audição. Tentei esquecer o ladrar do cão. Pareceu-me ouvir o corpo de uma pessoa a espreguiçar-se.
Levantei-me da cama. Estava nu e descalço. Vesti os boxers. Fiz o corredor às escuras até à cozinha. Fui à despensa buscar o cabo de uma vassoura e cheguei-me a uma das janelas. Olhei lá para fora. Nada. Havia um pouco de luar, não muito forte, mas o suficiente para ver o exterior. Nada. Fui para a outra janela. O mesmo. Havia zonas na penumbra que não conseguia ver. Tentei aguçar o olhar. Mas continuava igual. Não via nada. Nem via o cão que continuava a ladrar. Nem via os gatos. Onde é que andariam os gatos? Fui à última janela. A piscina estava vazia. O pouco luar permitia-me ver a água da piscina a ondular com a pequena aragem que se fazia sentir. Mas não estava ninguém na piscina nem à volta dela.
E então lembrei-me Eu não tenho piscina! Foda-se! Eu não tenho piscina!
Despertei. Despertei na cama. Despertei com o cabrão do cão a ladrar lá fora, no quintal.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/02]

Faz Agora Cem Anos, a Pandemia

Primeiro colocaram-nos em casa e trancaram as portas. Depois fecharam o país. Nada entrava e nada saía.
Era preciso estancar a disseminação do vírus. Isolar toda a gente. Impedir a propagação trazida de fora. Em casa, sem contactos físicos uns com os outros, não éramos veículos transmissores.
Só estavam a funcionar os grandes centros de distribuição alimentar. Toda a alimentação era acumulada nesses centros, criavam-se cabazes alimentares para uma, duas, três e quatro pessoas e os militares estavam encarregados de fazer a distribuição por todo o país. De porta em porta. Em todas as portas de todas as casas do país inteiro.
As únicas pessoas com autorização para saírem eram as pessoas envolvidas neste processo de distribuição, os técnicos das empresas de energia, das empresas de água e os médicos e enfermeiros que continuavam a trabalhar nos hospitais, muitos deles improvisados em tendas de campanha, pavilhões gimnodesportivos e escolas C+S, que tentavam minorar os danos da pandemia.
No início ainda haviam aulas não-presenciais dadas através da internet. Ainda havia quem fizesse tele-trabalho. Mas as redes de distribuição de internet começaram a colapsar. Demasiada gente ao mesmo tempo durante demasiado tempo a circular informação online. Os alunos começaram a desistir das aulas recebidas através dos ecrãs dos telemóveis, muitos deles com o vidro quebrado, coisa de miúdos. Os pais que estavam em tele-trabalho depressa se fatigaram de trabalharem em pijama, sem horário, a terem de proverem aos filhos e às mulheres. E o trabalho, na verdade, deixou de existir. O que havia para fazer para um mundo que estava a ficar parado?
Ao fim de algum tempo, o ócio transformou as semanas de filmes e séries em discussões violentas. Começaram a voar livros pelas janelas. Os jogos de tabuleiro eram lançados às peças para durar mais. O ódio começou a destilar. E apareceram as primeiras mortes fora do quadro directo do vírus.
Foi logo ao fim do primeiro mês de distribuição alimentar que os cabazes começaram a deixar de vir com a mesma regularidade. Foi logo ao fim do primeiro mês que os cabazes de distribuição alimentar começaram a chegar com menos quantidade e menos qualidade de alimentos. As pessoas começaram a manifestar-se nas janelas. As cidades passaram a serem coros de revolta. Um bairro inteiro a gritar palavras de ordem. A bater em tachos e panelas. Contra. Contra. Contra. Já nem se sabia bem do quê, em concreto. Contra o estado geral das coisas. O cansaço do confinamento. A fadiga da companhia. A falta da solidão. A ausência de rotinas que se foram perdendo. Já ninguém tomava banho. Ninguém lavava o cabelo. Os homens não faziam a barba. As mulheres já não pintavam as unhas, os lábios as raízes negras dos cabelos loiros. Era preciso gritar. Era preciso explodir.
Os trabalhadores do centro de alimentação e os produtores de frescos, frutas, lacticínios, carne e peixe andavam exaustos. Demasiado trabalho para tão pouca gente com a responsabilidade de milhões.
E, depois, depois a comida começou a escassear. As fronteiras fechadas. A insuficiência. E quanto mais escasseava mais escasseava ainda mais porque havia quem, na cadeia, começasse a desviar para proveito próprio.
Foi ao final do segundo mês que as coisas aconteceram.
A fome começava a instalar-se. Havia algumas pessoas mais afoitas que faziam saídas à rua, à noite, às escondidas, e negociavam no mercado negro que tinha começado a funcionar. Mas o grosso, o grosso das pessoas começava a enfrentar uma enorme fome. Muita gente já só tinha a água que continuava a correr nas canalizações. Começaram a aparecer cadáveres na rua, atirados pelas janelas e varandas dos enormes prédios das cidades-dormitório.
Quando o governo se preparava para declarar vencida a pandemia, os sobreviventes saíram para a rua e revoltaram-se contras as autoridades que encontravam pela frente. Houve muitas mortes. Mortes de parte a parte. Embora o exército estivesse armado e mais bem preparado, as pessoas traziam a fúria dos desesperados que, enclausurados durante quase três meses, e o primeiro mês foi quase um exercício de estilo pós-moderno na forma de uma quarentena auto-infligida, como umas férias forçadas para ler os livros comprados e nunca lidos à espera do dia certo, e fora esse o dia certo, cansados do ócio e do confinamento com gente com quem nunca tinham estado mais do que algumas horas por dia e a maior parte delas a dormir, partiram furiosos para cima do único inimigo que conheciam e sobre o qual queriam despejar todas as frustrações.
Muita gente morreu naquele período. E não foi só cá, neste país. Foi igual em todo o lado. Em todos os países. Em todos os continentes. A globalização normalizou-nos. E reagimos todos da mesma maneira.
No final, restaram uma minoria. Uma minoria por país. A economia estava de rastos. Era necessário recomeçar tudo. Recomeçar tudo de novo. Do zero. Só que desta vez as coisas foram diferentes. Desta vez as coisas não foram deixadas ao acaso.
Desta vez havia um único governo mundial. Um governo composto por um grupo de sábios. As pessoas tinham as suas vidas programadas desde a infância. Ninguém podia fazer menos, ninguém podia fazer mais. Ninguém passava fome, ninguém era obeso. Mas haviam contra-medidas para esta segurança da vida das pessoas. Ninguém podia ser o que quisesse. Fazer o que quisesse. Quando quisesse. Se quisesse. Toda a gente tinha de contrair matrimónio aos dezoito anos. Todos os casais deveriam ter três filhos. A manipulação genética garantia as necessidades de género. E os casais tinham de ser, obrigatoriamente, compostos por um homem e uma mulher.
Todas as pessoas tinham a sua vida programada. Desde o nascimento à morte. Cada pessoa era destinada a determinado objectivo consoante as necessidades do mundo e essas necessidades eram decididas e controladas pelo conselho de sábios.
Mas algumas pessoas não estavam de acordo.
A pandemia do Covid-19 aconteceu faz agora cem anos. Setenta por cento da população mundial pereceu nesses terríveis meses de contágio e, mais ainda, durante as revoluções pós-confinamento.
O meus bisavós foram dos poucos sobreviventes. Os meus avós aguentaram os primeiros anos de regime mundial. Depois cometeram suicídio-social. Desapareceram do mapa e criaram a primeira rede clandestina global. Os meus pais já nasceram na clandestinidade. Os dois.
E a história que vos contei hoje foi a história que me foi contada a mim, durante as longas e escuras noites que tivemos de passar escondidos, a lutar pela liberdade de todos nós, mesmo daqueles que nem sabem o que é a liberdade. A liberdade de poder escolher o seu destino ou de poder fumar um cigarro, beber um copo de vinho tinto e mandar alguém para o caralho.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/20]

Um Fantasma Caminha pela Cidade em Tempos de Emergência

Caminho pelo passeio irregular de calçada portuguesa. Quando era criança caminhava só pelas pedras azuis, fazia as curvas com ângulos de noventa graus e às vezes, a minha mãe tinha de esperar por mim ao fundo da rua que as pedras azuis afastavam-me dela, do trajecto dela, e depois era o cargo dos trabalhos para regressar ao regaço familiar sem pisar nas pedras brancas. Agora ignoro as linhas, os desenhos, as cores das pedras. Agora caminho a direito ao longo do passeio indiferente aos desenhos marcados na calçada.
Caminho numa cidade quase-fantasma. Não há mais ninguém a caminhar na rua. Algumas lojas estão fechadas. Outras estão abertas. Mas estão vazias. Não há clientes. Vejo, através das montras, um solitário atrás do balcão à espera do improvável cliente para um qualquer produto não-essencial. Caminho sozinho pelo passeio, mas há mais carros na estrada, parece-me. Sinto o cheiro do combustível queimado. Não é normal sentir este cheiro. Talvez eu esteja demasiado sensível. Talvez o cheiro esteja mais forte. Talvez haja mais carros na cidade. Talvez se queime mais combustível. Talvez seja as profundezas da cidade em ebulição.
Passo ao lado da garagem dos autocarros. A enorme porta de ferro pintada de azul celeste está corrida. Não há autocarros a partir dali. Talvez passem pela cidade a caminho de outros destinos mais distantes e mais importantes. Talvez passem pela cidade e larguem algum passageiro. Talvez levem outro. Mas daqui não sai nenhum autocarro. A cidade é pequena. Não tem importância política e muito menos económica. Ninguém vem para esta cidade. Só eu.
O tempo está cinzento. Não está frio, também não está calor, mas está desagradável. Sinto um desconforto desde que cheguei à cidade. Como se alguma coisa se abatesse sobre mim. Mas eu tive sorte. A mim vieram trazer-me. Eu estava fora e trouxeram-me. Livraram-me de uma viagem de autocarro, provavelmente cheio, cheio de gente que não saberia de onde vinha, com quem teriam estado e se transportariam algum inferno dentro deles.
Páro um pouco na rua e olho os prédios em frente, do outro lado da estrada. Há gente nas casas. Mas não há gente nas varandas. Como se estivessem escondidos. Com medo. Acendo um cigarro. Retomo o caminho. Penso no Harrison Ford de cigarro ao canto da boca (se calhar não havia cigarro) e gabardina de três quartos, gola levantada a proteger o pescoço da chuva miudinha que teima em cair, a caminhar ao longo de uma rua de neons e fumo que sai de vários sítios e ampliam aquela imagem de herói-anti-herói rebelde do Blade Runner, que por vezes se mistura com as sombras que o devoram, e sinto-me como ele, de casaco curto e de corte mais clássico, cigarro nos dedos da mão a caminhar ao longo de uma rua deserta à luz de um dia cinzento. Não, eu nunca poderia ser um Rick Deckard. Não sei caminhar daquela forma como se dominasse o mundo e o fosse devorar. Eu encolho-me a um simples aviso de alerta. Eu evito entrar em autocarros que possam vir cheios e contaminados. Eu sou um medricas que só não é cobarde porque nem tem coragem para o ser.
Ouço um som melodioso. Um som de piano que vem lá da frente. Aproximo-me e o som aproxima-se de mim. É uma melodia bastante agradável. Suave. Parece pegar em mim e levantar-me no ar e, por momentos, pareço flutuar. Aproximo-me do largo do Teatro e vejo um homem sentado a um piano de cauda a tocar. Não há ninguém ao pé dele. Está sozinho. Ele e o seu piano. E as notas que produzem em conjunto. Sinto-me como uma personagem de uma leve comédia-romântica. Agora vejo algumas caras coladas aos vidros das janelas das casas a olhar para o homem. Não sei porque é que ele está ali. Não sei porque é que ele está ali a tocar piano, mas sinto-me agradado com o encontro, com aquela surpresa, e páro por momentos ao pé dele a vê-lo e ouvi-lo enquanto acabo de fumar o cigarro. Belisco-me para perceber se estou acordado e magoo-me. Não importa. Penso como às vezes a vida pode ser tão bonita. Sempre gostei do som de piano. Gostava de ter aprendido música. Gostava de saber tocar guitarra. Gostava de saber tocar piano. Gostava de saber tocar com as baquetas numa bateria e produzir um som agradável, ritmado. Mas sou uma nulidade sem par. Não tenho jeito para a música. Não sei cantar. Tenho uma voz de merda e nem no coro da igreja me quiseram. Aguentaram-me dois dias. Ao fim do segundo dia disseram-me para não voltar no dia seguinte. Foi aí que decidi jogar andebol. Também não fui grande coisa, mas fui um pouco melhor.
Gosto muito de ouvir o som de um piano. E a cidade ganha outra dimensão. Ganhou pulsão nas suas artérias, mesmo que vazias de almas. Até parece que as nuvens se abriram aos raios de sol, mas é mentira. O cinzento do céu mantém-se. Eu é que, por momentos, fiquei um pouco mais feliz. Por momentos esqueci os tempos difíceis que vivemos e senti um fogo no peito, um fogo que me aqueceu e me deu alento.
O alento comigo é sempre sol de pouca duração.
Largo a beata no chão, aos meus pés. Deixo o pianista inundar as ruas da cidade com as suas notas melodiosas e entro no Pingo Doce lá mesmo ao lado. E fico parado à entrada. Eu só ia comprar umas carcaças e um pacote de manteiga e há toda uma multidão de gente no que parece um happening com vários carrinhos-de-supermercado cheios até cima, a abarrotar com o que me parecem ser pacotes de papel-higiénico, garrafões de água, latas de conserva e frescos. Parece que se anunciou o fim-do-mundo e há que fazer uma festa. Que é o que está a acontecer ali, nas filas para as caixas do supermercado. As pessoas conversam. Riem. Mantém uma certa distância entre elas, mas comunicam e, em certa medida, divertem-se. Talvez tentem iludir-se. Ou sou eu que estou iludido.
Saio por onde entrei. Não tenho paciência para esperar sobreviver aquele mar de gente e confusão. Eu não me sinto alegre como eles, mesmo que o piano no largo do Teatro me tenha deixado bem disposto.
Saio para a rua. Acendo novo cigarro. Penso que as ruas da cidade estão desertas porque está toda a gente nos supermercados a comprar tudo o que podem para se fecharem em casa e esperar pela salvação.
Há um café mais à frente. Vou até lá. Espreito pela montra. Também tem muita gente, mas menos que o supermercado. Fico à entrada a acabar o cigarro. Depois entro. Vou ao balcão. Descubro que têm pão. Compro três carcaças. Compro mais três rissóis de camarão. Peço um café mas depressa descubro que vem queimado e fico logo com azia. Penso que tenho Kompensan em casa. Ao mesmo tempo descubro um pastel-de-nata queimado a sorrir para mim. E digo-me que dias-não-são-dias. A rapariga que está ao balcão percebe-me e sorri. Coloca-me o pastel-de-nata à frente. E um frasquinho de canela. Agradeço com um Obrigado! que é mais gesticulado pelos lábios que audível. Ouço uma senhora ao meu lado perguntar se o café vai fechar e o dono dizer que não. Que tem de trabalhar. Que não sabe nada de política. Que a política dele é o trabalho. Que tem a família para sustentar. Que tem doze pessoas a dependerem do trabalho dele. Que não tem medo do medo. E eu como o pastel-de-nata, acabo de beber o café queimado, pego no saco de papel com as carcaças e os rissóis, pago tudo e saio do café.
Na rua olho para o caminho que vou ter de percorrer até casa e vejo-o deserto. Não entendo por onde é que caminham todas estas pessoas que estão ali no café e as que  estavam no supermercado. Não caminham pelas ruas, isso é uma certeza. Pelas ruas caminho eu. Sozinho. E pergunto-me se não serei eu um fantasma.
Se não for para casa quem dará pela minha falta?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/13]

Para uma Biografia, que Pode ou Não Ser Auto (capítulo um)

Já tinha acabado o recreio dos anos oitenta e os noventa já davam os primeiros passos. Foi nessa altura que me casei. Que me casei pela primeira vez. Foi um casamento em que tentei prolongar a festa que tinham sido os anos oitenta. E durante algum tempo, foi o que aconteceu.
Alugámos umas águas-furtadas num bairro típico da capital. Era um inferno de Verão. Um gelo de Inverno. Mas era uma boa casa, acolhedora, de desenho bizarro, cheio de corredores e tectos baixos e janelas levantadas sobre o telhado, e divisões amplas. Dissemos que era uma casa fantástica para convidar pessoas e fazermos festas. O facto é que nunca tivemos ninguém lá em casa. Houve festas sim, mas só nós é que éramos os convidados. Só nós os dois. Nós os dois sozinhos até às duas últimas semanas em que lá vivemos, quando nasceu o nosso filho. Duas semanas depois de ter nascido mudámos para uma casa normal, num prédio normal, para tentar ter uma vida normal. Quarto andar com elevador num prédio de oito andares. Um prédio onde não chegámos sequer a conhecer os vizinhos de andar. Nem mesmo os que tinham a porta ao lado da nossa. Um prédio de onde saímos quando nos divorciámos algum tempo depois. Não chegámos a lá estar um ano. Foi nesse prédio que percebemos, mais ela que eu, que os anos oitenta tinham realmente acabado e era preciso crescer. E ela achava que eu não crescia.
A verdade é que na nossa primeira casa, nas águas-furtadas de um prédio de um bairro típico da capital, também não chegámos a conhecer ninguém do prédio, prédio pequeno, de escadas em madeira e íngremes, que em determinadas noites subíamos de gatas, a rir, perdidos de bêbados, onde vomitámos algumas vezes e de onde caímos outras e onde eu fiz esta cicatriz que tenho na testa. Ainda se vê bem a cicatriz quando tenho o cabelo curto, que é quase sempre, agora.
Estes anos nas águas-furtadas foram anos muito intensos. Duraram pouco mas, o que duraram, duraram quase por uma vida.
Nos meses de Verão andávamos sempre nus lá por casa. Eu e ela. As janelas abertas à espera de um pouco de corrente-de-ar que nunca vinha. Janelas abertas numa casa sem cortinas. Janelas abertas à discrição da vizinhança. Às vezes ficávamos horas a fumar cigarros e a ver a ponte sobre o Tejo lá ao fundo, ancas encostadas uma à outra. Às vezes fazíamos amor ali mesmo. À janela. Ela contra a balaustrada. Víamos as luzes dos carros a passar na ponte, as luzes vermelhas dos que iam, as luzes amarelas dos que vinham. Ao lado o Cristo-Rei, acho que envolvido numa luz azul. Por vezes também apanhávamos por ali o pôr-do-sol. O Tejo em tons prata. Os telhados que se estendiam como tapetes multicor. Tanta ganza fumada naquela janela. Algumas pastilhas. Muita loucura.
Vivíamos uma vida simples. Simples, mas intensa.
Em casa tínhamos um colchão no chão, onde dormíamos, e uma mesa com quatro cadeiras onde comíamos e trabalhávamos. Nos primeiros tempos nem prateleiras para os livros que se empilhavam no chão. Depois, alguns meses depois, comprámos umas prateleiras no Continente que montei sozinho, eu e uma chave-de-fendas, e por causa da qual fiquei com um calo na mão direita durante meses. Foi também nessa altura que comprámos uma televisão, pequena, a cores.
Tínhamos uns vasos à janela onde cultivávamos algumas especiarias que utilizávamos nas nossas festas gastronómicas. Nestes anos engordei bastante. Uma dieta à base de experiências gastronómicas exóticas, muito vinho e cocktails e charros que nos obrigavam a terminar as noites em volta de torradas banhadas em manteiga e pacotes de bolachas tartelletes de morango que devorávamos umas a seguir às outras, de boca cheia e onde enfiávamos sempre mais outra bolacha e quando falávamos cuspíamos migalhas sobre o outro e ríamos muito, ríamos que nem parvos.
Tínhamos fogão, frigorífico e esquentador que tinham vindo com a casa. Foi muito útil no início da nossa vida. Nos primeiros tempos nem sentimos a falta da televisão.
No Inverno deitávamos-nos com as galinhas da província. Eu agarrava-me a ela. Ela deixava-se agarrar por mim e dormíamos assim, agarrados e quentes, aquecidos um no outro, sem televisão, a ouvir o barulho da rua que nos embalava, com excepção dos eléctricos que, em dias de chuva, eram um inferno de barulho.
E durante uns tempos, durante alguns anos, o tempo que durou a nossa vida naquela casa de águas-furtadas, parecia que a nossa vida era um compêndio de felicidade. Como se os anos oitenta não tivessem nunca acabado e durassem para sempre. No tijolo que tinha ido connosco no primeiro dia, não parava de tocar uma cassete com os Echo and The Bunnymen e os Chameleons. Tínhamos trabalho, os dois. Um trabalho bem pago. Vivíamos em festa constante. Mas uma festa caseira. Muito sexo. Só os dois. Sem necessidade de mais gente. De outra gente. Às vezes íamos ver um filme ou outro ao cinema. Às vezes saíamos a meio do filme para irmos para casa foder. Às vezes íamos a um concerto ou outro. Mas perdíamos os concertos em enormes filas para conseguir beber cerveja. Às vezes íamos jantar fora. Mas preferíamos os balcões das churrasqueiras que, na década seguinte, entrariam em desuso, ultrapassadas pelos restaurantes-lounge de decoração minimal e preços astronómicos.
Este estado de festa durou até ela engravidar.
Depois ela mudou.
Depois ela quis que eu mudasse.
Depois mudámos de casa.
E acabámos por mudar de vida. E mudámos cada um para seu lado.
Acabou-se a festa e o casamento.
Às vezes penso que os anos oitenta foi uma década com muitos mais anos que os dez que a classifica.
Às vezes acho que regresso lá, mas descubro uma década fechada e vazia e onde já não consigo estar sozinho.
Quando finalmente descobri os anos noventa, já estávamos com medo do milénio.
Mas isso é outra estória.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/09]

Um Espirro num Autocarro Expresso Cheio de Gente

Em plena e dramática expansão do Covid-19, tomo, como é normal em mim, mais uma decisão repentina e absurda e apanho o autocarro expresso, mas que pára duas vezes em pouco mais de cem quilómetros, para a cidade grande em horário nobre, o que quer dizer que vai cheio e cheio de estudantes e de sacos de estudantes com roupa lavada e passada a ferro pela mamã e tupperwares com comida congelada que a mãe foi guardando ao longa da semana para o petiz não morrer de fome lá longe e parar de deixar as calças escorregarem pelo rabo abaixo e mostrar os boxers Intimissimi de tanta magreza, de hormonas aos saltos e à galhofa nos bancos traseiros, onde eu costumo esconder-me das multidões, lá está, e a contar anedotas de cariz sexual-badalhoco a que todos eles respondem com sonoras gargalhadas, algumas temperadas com expectoração solta na garganta e fungadelas profundas e profundamente sonoras e penso que estas camionetas já não abrem os vidros das janelas e os miúdos não costumam usar lenços de papel como não usam guarda-chuvas nem desodorizante e enterro-me na minha cadeira, que é sempre pequena, sempre muito mais pequena que eu, e por isso o enterrar é metafórico, e rezo para que a viagem se faça como no tempo d’A Gente do Amanhã, que colocavam as mãos na fivela do cinto (que era um tele-transportador) e desmaterializavam-se num lado para se materializarem noutro, quase instantaneamente, como num piscar de olhos, e é por isso que não fico preocupado quando ouço as preocupações dos jornalistas da ciência com os Exo-Planetas que ficam sempre longe, para cima de 100 anos-luz de distância, os mais próximos, e eu sei que a grande revolução da humanidade vai ser a viagem à velocidade da luz primeiro, depois a utilização de portais e, finalmente, e por último, o transporte-instantâneo.
De repente, um espirro.
Foda-se!
A odisseia começou antes. Podia ter comprado o bilhete por uma aplicação digital. Não comprei. Mas não comprometi nada. Ou quase. Não havia fila para a aquisição de bilhete, o que acabou por ser rápido e ainda pude escolher o lugar, que mais tarde percebi ter sido escolha errada, devia ter deixado funcionar a aleatoriedade. Com isto fui mais cedo. Mais cedo para a garagem central das camionetas. Meia-hora em pé à espera por um autocarro que atrasou mais de dez minutos, esperei de pé que os bancos de madeira estão enfiados numas reentrâncias na parede e é, de todo, e por isso, impossível algum ser-humano sentar-se e encostar as costas ao espaldar dos bancos. Uma vez tentei e ia partindo a nuca. Acho que as dores-de-cabeça que tenho hoje em dia começaram aí. Aguentei estoico o frio da corrente-de-ar que se passeia pela garagem velha, suja e decadente, onde um homem fustiga, desde madrugada, os ouvidos do povo com os berros para um microfone que explode nas colunas roufenhas que informam os cidadãos das camionetas em jogo, em que pista estão, para que destino irão partir e a que horas. Aguento estoico encostado ao pilar de mosaicos a que falta já mais de metade deles e os que restam estão pintados como se de uma mera parede de estuque se tratasse e noto que as camadas de tinta são já tantas que não há pintura que lhe restitua a dignidade. Ufa!
Entretanto assisto ao êxodo da juventude dos subúrbios e das aldeias dos arredores. Descem de camionetas que parecem gastar mais óleo que gasóleo. É uma fumarada dentro da garagem que me entoxica mais que o Português Suave sem Filtro que fumava nos meus anos da Faculdade de Letras. Os miúdos partem em magotes para as escolas. Para as várias escolas da cidade. Vêm de manga curta e de fato-de-treino. Sinto um arrepio nas costas. Não é assim que nos constipamos?
Finalmente o meu autocarro. Tem o símbolo do wi-fi na porta. Mas, lá dentro, é mentira. Ainda pergunto ao motorista Não há wi-fi? Ao que ele responde Está ligado!, e ficamos assim. Regresso ao meu lugar e tento enterrar-me no meu lugar (é agora o momento metafórico em que me enterro num banco que é pequeno demais para mim e para qualquer um dos miúdos que vai ali à minha volta). As únicas pessoas que cabem naqueles bancos e naqueles espaços são as velhotas que vão, invariavelmente, nos bancos da frente, a olharem muito compenetradas, o caminho por onde o condutor as leva.
Lá fora o tempo está cinzento. Chove um pouco. Não muito. Nem dá para dizer que choveu. Na verdade é só mais um preciosismo meu para que a viagem não termine já.
E então lembro-me: um espirro!
Foda-se!

[escrito directamente no facebook em 2020/03/04]

O Tempo Estranho e os Meus Dias

Tempo estranho este que domina os meus dias.
Ontem estive aqui na Nazaré. Estive aqui à frente, na praia. Descalcei-me. Despi-me. Fui em cuecas mergulhar no mar. Sem toalha, deixei-me secar debaixo do sol. Estava quase seco quando decidi ir de novo ao mar. E fui. Mergulhei na água fria mas agradável. Deu para dar umas braçadas. Voltei a sair. Caminhei um pouco junto à beira-mar em cuecas a deixar-me secar pelo sol de fim-de-dia e pelo frágil vento que se levantou. Estava agradável. Tenho memórias de Verões da minha infância de dias fechado em casa por culpa do frio, da chuva e das marés-vivas que traziam o mar até à marginal.
Em fim-de-dia, vestido de novo, sem cuecas, que estavam molhadas, vi o céu púrpura que antecipava a noite. Sentei-me numa esplanada a beber um imperial e a ver o sol desaparecer, a luz do dia dar lugar à noite e os faróis dos carros em procissão constante iluminar a estrada à beira dos meus pés.
Agora estou aqui, quase no mesmo sítio.
Estou sentado num dos bancos da marginal, na mesma linha onde ontem mergulhei no mar. Está a chover. Está frio. O mar está picado. As ondas rebentam com força e espalham espuma branca pelo areal.
Hoje estou molhado pela chuva. Ontem estava molhado pela água do mar.
Estou debaixo da chuva e não consigo ir embora. Tenho o capuz do casaco sobre a cabeça. Olho o mar lá ao fundo e penso que não tardará a chegar cá acima. Já há comerciantes a fecharem as lojas. A colocarem barreiras de protecção nas janelas, nas montras, nas portas.
Nos hotéis aqui atrás de mim há gente nas varandas à espera de ver a subida do mar. É uma excitação. Ouço os gritinhos da impaciência.
Já não há quase ninguém na rua. Há pouco passou por aqui um carro da polícia. Esteve parado atrás de mim, senti-o, mas ninguém me disse nada. Não me virei. Ignorei o carro. Mesmo quando ouvi a sirene tocar. Fiz-me surdo. O carro da polícia acabou por partir. Nada garante que o mar suba realmente aqui acima. Mas é muito provável.
Ainda não é de noite mas já está muito escuro O céu está cinzento. Ontem estava azul e o horizonte púrpura. Hoje não há horizonte. Acima da linha de rebentação das ondas há um desfoque que não permite linha nem horizonte. Há uma mistura entre o céu e a Terra que não consigo perceber onde se dá. E tudo em cinzento. Cinzento escuro, molhado e maldisposto.
Já mal se consegue ver o Forte e a rocha que o defende. Mas ainda se consegue perceber a explosão das ondas que ao bater na rocha, se espalham em toda a volta e para cima.
Será que ainda há gente no Forte?
Será que ainda há gente na Praia do Norte?
E as marquises da praça? Como é que vão ser protegidas? Ou serão já elas uma primeira linha de defesa dos restaurantes, marisqueiras e cafés que existem por trás das paredes de acrílico?
Até a Batel acabou por fechar mais cedo. Há andaimes no prédio da Batel. Será que vão aguentar-se se o mar chegar cá acima?
E eu? Devia ir embora. E vou? Eu queria ir. Mas não consigo levantar-me. Não consigo mexer-me. Sinto-me preso. Não consigo deixar de olhar o mar. Estou à espera dele. Acho que estou à espera dele. Acho que ele vem à minha procura. Vem buscar-me.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/01]

E Ela Disse…

E ela disse Fica à vontade, e eu vi, pela primeira vez, que lhe faltava um dente à frente, mesmo à entrada da boca, e que se via cada vez que ela falava, porque ela esboçava um pequeno sorriso cada vez que falava, abria a boca, rasgava o sorriso como se fosse uma pessoa sempre feliz, mas eu ainda não tinha reparado na falta do dente até àquele momento, ela abria a boca e notava-se a ausência do dente, e só o percebi naquele momento e também percebi que ela não devia ser assim sempre tão feliz, talvez fosse mais um esgar da boca, talvez um erro na matriz, talvez fosse ela a tentar fugir à tristeza.
E ela disse, enquanto se despia, enquanto tirava a camisola pela cabeça e começava a desapertar o soutien Tens ali um bidé e podes lavar-te, e eu olhei para o canto do quarto onde estava plantado um pequeno bidé, em cima de umas pequenas lajes cinzentas numa espécie de ilha com as paredes forradas de oleado com desenho de azulejos brancos, como se fosse uma casa-de-banho, uma verdadeira casa-de-banho, e estava tão encardido como estariam os verdadeiros azulejos se estivessem realmente ali, no canto daquele quarto, a serem utilizados a cada duas horas, ou uma hora ou, porque não, a cada meia-hora, o tempo que cada homem se demorava por lá. Também vi um toalha colorida em cima do bidé e pensei se a cor não seria para esconder as misérias.
E ela disse Não tenhas vergonha, mas não era vergonha o que eu tinha, era mais arrependimento, arrependimento por estar ali, por estar ali com ela, naquele quarto de odores pesados de after shave misturados com água de colónia barata e suores entranhados nos lençóis e cobertores e paredes. Ela, pressentindo o cheiro que me estava a enjoar, abriu as janelas de par-em-par e eu pude ver a cidade, o resto da cidade, lá em baixo, ao fundo, para além da janela daquele quarto onde eu já tinha decidido que não queria estar, quando senti as mãos dela pousarem nos meus ombros e o bafo que a boca projectava ao aproximar-se do meu pescoço como se me fosse beijar mas sem o fazer porque, naquele negócio, não se transacionam beijos.
E ele disse Vem! e começou a desapertar-me o cinto das calças e eu afastei-me dela, afastei-me até à janela e olhei para a cidade, para a cidade banhada pelos raios de sol das três da tarde e senti um frio desgraçado, um arrepio ao longo das costas e depois virei-me para ela e abanei a cabeça enquanto apertava o cinto que ela tinha começado a desapertar.
E ela disse Tens de pagar na mesma, não é? e eu procurei nos bolsos das calças, enfiei as mãos pelos bolsos das calças e encontrei duas notas de vinte e deixei-as na mesa-de-cabeceira manchada dos copos e uma pequena estátua da Nossa Senhora de Fátima em baquelite luminosa, cheia de pó, e quando olhei para ela outra vez, pensei que estava a rir-se e depois lembrei-me que, se calhar era um esgar da boca, talvez um esgar para esconder, afinal, toda a tristeza da vida que levava naquele quarto de odores fortes.
E eu disse Desculpa!, enquanto abria a porta do quarto e saía e a deixava sozinha, quase-nua, de cuecas, num quarto onde não queria estar, e saí pelo corredor e passei por inúmeras portas fechadas e perguntei-me que vidas se contavam atrás delas e saí da pensão e cheguei à rua e pus-me a respirar com força para deitar fora o ar viciado que trazia comigo e, então, comecei a descer a ladeira que levava ao centro da cidade e que eu tinha vista lá de cima, do quarto dela.
E ainda pensei como não tinha visto logo a falta do dente?

[escrito directamente no facebook em 2020/02/22]

A Queda, parte 03 e final

Acabou-se-me o cigarro. Morreu entre os meus dedos. A incandescência queimou-me as peles soltas nos cantos, junto às unhas, onde a pele está amarelada, um amarelo-hepatite que é, afinal, dos cigarros.
Estou sentado no chão da varanda, encostado à parede. Preso na minha incapacidade de reacção.
Reajo. Tento reagir. Mas não me mexo. Sinto um fio de baba a cair-me do canto da boca e levanto, a custo, a manga da camisola. E limpo-me.
Cruzo as pernas nelas próprias. Endireito as costas. Ergo os braços como numa prece. Junto polegar e dedo do meio. Fecho os olhos. Expiro todo o ar que tenho nos pulmões. Esvazio-me.
Sinto-me desacelerar. Sinto as batidas do coração espaçarem-se. Espaçarem-se cada vez mais. Cada vez um bater mais distante. Cada vez um bater mais silencioso. Até deixar de bater. Até deixar de o ouvir bater. Até parar.
Tudo pára.
Rebobino o filme.
Faço a estória regressar atrás. Não ao início, ao princípio de tudo onde tudo era o verbo e o início do livro. Mas ao início do último capítulo. Este capítulo onde ainda estou. Regresso.
Refaço.
Recomeço.
Chego ao Vale Furado, paro o carro na arriba e deixo-me ficar sentado no interior. Bebo uns goles de vodka. Fumo um cigarro. Sinto o calor do sol passar através das janelas abertas do carro e a sonolência a tomar conta de mim. O barulho da rádio embala-me. Penso no trabalho que acabara de mandar à merda, como já tinha mandado a minha mulher, os meus filhos, o meu pai, a minha mãe, a maior parte dos meus amigos… Suspiro. Sinto-me adormecer a pensar que o dia de amanhã nunca será a véspera de hoje.
E então, vejo-a. Desperto.
Os raios de sol brilhantes a baterem-lhe no cabelo. O fumo que se desprende do cigarro que, imagino, está a fumar, corre em espiral para o céu e desfaz-se antes de lá chegar. Ela está sentada na cerca que protege as pessoas da queda abrupta sobre o mar. As pessoas chegam-se ali, encostam-se à cerca de madeira e olham as ondas a baterem nas rochas. Olham o mar a forçar a entrada pela areia acima. Um pouco mais longe é possível ver a Praia do Norte. Em dias claros conseguem-se ver as Berlengas, os Farilhões e as Desertas.
Ela está sentada na cerca, virada para o mar. Coisa mais natural. Fuma um cigarro. Adivinho-lhe o cigarro entre os dedos da mão que leva à boca. O fumo dissipa-se logo acima do cabelo dela brilhante pelo sol. E penso A miúda é gira. E é. É bem gira. E ainda penso O que faz uma miúda gira como ela sozinha aqui, num sítio como este? Depois sorrio e penso O mesmo que eu. E dou uma gargalhada. Uma gargalhada tonta.
E, de repente, sinto uma vontade louca de sair do carro, dirigir-me a ela e convidá-la para beber uma cerveja na esplanada do Mad. E é o que faço. Saio do carro. E nesse mesmo momento, ela levanta-se da cerca. Eu chamo-a. Ela vira-se para mim. Eu aproximo-me. Encosto-me à cerca. Peço-lhe lume. Ela diz que tenho o cigarro acesso. E tenho. Tenho o cigarro a fumegar entre os dedos da mão. Sinto-me corar de vergonha. Ela sorri. Eu também. Encho o peito de ar. A alma de coragem. Convido-a para beber uma cerveja na esplanada do Mad. Ela pára de sorrir. Hesita. Olha para o penhasco. Olha para o mar ao fundo do penhasco. Olha para longe, para longe no mar, talvez para as Berlengas. Olha de novo para mim. Volta a sorrir. Aceita.
Eu estendo-lhe a mão para a ajudar a passar a cerca para o lado da cá onde eu estou. Ela agarra-me na mão. Sinto-lhe a palma da mão transpirada. Sinto-a nervosa. Ajudo-a a passar a cerca. Quando passa próximo de mim vejo umas gotas de suor a escorrerem pelas frontes. Cheiro-a. Cheiro-lhe o medo. Não de mim. Mas medo. Sinto-a com medo. Aperto-lhe a mão com segurança. Ela quase tomba ao passar uma das pernas por cima da cerca mas eu agarro-a. Estou aqui, afirmo sem falar.
Caminhamos em silêncio até à esplanada do Mad. Bebemos umas cervejas. Depois, e com ajuda do álcool, começamos a falar. A conversar. Na verdade ela fala. Eu ouço. E que prazer é ouvi-la. As conversas dela são música. E o tempo passa. E chega a noite. A esplanada fecha. Passamos para o interior. E o interior fecha. E saímos para a rua. O céu está estrelado. Não está frio. Apetece-me ir ao banho. Apetece-me ir nu a um banho nocturno no Vale Furado. Mas não digo nada. Não lhe revelo as minhas vontades. Ofereço-lhe boleia para Leiria. E ela aceita.
E depois… E depois é uma outra estória que não cabe aqui.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/06]

Íamos os Três de Carro

Íamos os três de carro. Eu ia a conduzir. Ela ia ao meu lado. Ele estava atrás dela. Eu via-o pelo espelho retrovisor. Levava os auscultadores nos ouvidos. Os olhos fechados. Não sei o que ia a ouvir. Talvez música. Mas não havia rádio nem internet. Estava tudo offline. Se calhar levava os auscultadores nos ouvidos para se desligar de nós, para se afastar. Estava a dizer que estava ali mas não estava.
Íamos os três de carro e íamos em silêncio. Eu ia com atenção à estrada. Chovia muito. Não via quase nada. Por vezes, quando a chuva tornava a viagem mesmo impossível, parava debaixo dos viadutos que cruzavam a A1. Depois, quando abrandava, ou pelo menos, quando não era tão agressiva, voltava à viagem. Sempre com muita atenção. Sempre em silêncio.
Íamos os três de carro e eu levava um cigarro apagado na boca. Apetecia-me fumar, mas era impossível abrir as janelas com a chuva que caía lá fora. Não podia acender o cigarro. Quer dizer, poder, podia, mas não devia. Não é que não me apetecesse. Pelo menos para chatear o tipo, fazê-lo falar, sei lá Podes apagar essa merda, se fazes favor? ou qualquer coisa do género. Mas achei melhor estar quieto. A viagem já era complicada. Não precisava de a complicar mais.
Íamos os três de carro e, por vezes, pensávamos que éramos os últimos sobreviventes na Terra. Até ao momento ainda não tínhamos encontrado nenhum outro carro na auto-estrada. Nem na nossa direcção nem na direcção contrária. Ninguém é doido o suficiente para vir para a rua nestas condições. Só mesmo nós. Nem os carros da Brigada de Trânsito se viam. E ainda havia Brigada de Trânsito? Não sabia. Ninguém sabia. Há quanto tempo não tínhamos acesso a informação?
Íamos os três de carro pela auto-estrada A1. Íamos para Coimbra. Até ao momento ainda não tínhamos precisado de sair da auto-estrada. Não havia lençóis-de-água. Não tínhamos encontrado zonas alagadas. A estrada estava transitável. Estava quase a referir um milagre. Mas eu não acredito em milagres. Não depois de tudo o que tem acontecido.
Íamos os três de carro pela A1 até ao Hospital dos Covões, em Coimbra. Pelo menos esperávamos que o combustível que levávamos num jerricã fosse suficiente para lá chegar e que o hospital estivesse a funcionar e que a consulta que ele tinha marcada desde há um ano ainda se mantivesse. Muitos ses mas, mesmo assim, achámos que era melhor arriscar.
E assim fizemos.
Foi quando começámos a fazer a última subida antes da descida para a saída de Coimbra que nos deparámos com os primeiros sinais de vida desde que saíramos de casa. Estávamos já em cima deles quando a forte chuva que caía nos permitiu ver um camião TIR, a tentar ultrapassar outro camião TIR. Depois de uma viagem sem ver vivalma, apanhei com dois camiões a bloquearem-me a estrada numa subida. Fui atrás do camião da esquerda, o que ia a ultrapassar, mas mantive-me à distância para não ser entalado.
Quando chegámos ao cimo da subida e começámos a descer, o camião da esquerda, que ia a ultrapassar, começou a ganhar velocidade e, finalmente, parecia que ia conseguir ultrapassar o camião da direita e libertar a passagem para que pudéssemos seguir viagem.
Mas não foi o que aconteceu.
O camião da esquerda vez um movimento brusco para a direita, começou a deslizar pela água que escorria descida abaixo e foi contra o outro camião. Eu só tive tempo de tirar o pé do acelerador, baixar a alavanca de velocidades e travar o carro. Senti-o a deslizar pela descida, com os camiões à nossa frente, todos a deslizar, até que começaram a rebolar e foram assim durante vários metros e eu, entretanto, consegui, finalmente, parar o carro no meio da estrada.
Estávamos os três dentro do carro assustados e em silêncio a olhar para o que tinha acontecido. Eu sentia o coração a querer saltar para fora do peito. Ela vomitou para cima do tablier. Ele, vi pelo espelho retrovisor interior, tirou os auscultadores dos ouvidos como para ver melhor. Mas a imagem era muito deficiente. Tínhamos uma queda de água entre nós e os camiões engalfinhados um no outro.
Eu saí do carro para poder ver. Chovia que Deus-a-dava. Avancei uns metros. A auto-estrada estava bloqueada. Não conseguiríamos passar. Também não via sinal dos motoristas dos camiões. E a chuva não parava. Voltei para o carro.
Acendi um cigarro. Finalmente, alguém falou. Foi ela. E perguntou E agora? Eu olhei para ela, abanei a cabeça e disse Não sei!

[escrito directamente no facebook em 2020/01/23]

Tenho uma Pistola

Tenho uma pistola.
A minha pistola era a pistola do meu pai. Foi a minha herança, esta pistola. Estava dentro do pequeno cofre que o meu pai me deixou. Dentro do cofre estavam umas acções da Torralta, que já não devem valer nada, aliás, acho que já nem há Torralta. Algum dinheiro. Euros e dólares. Não muito. Alguma poupança que deve ter feito. Talvez algum negócio mais esconso. O meu pai também não era um grande simpatizante dos bancos. Evitava-os o mais que podia. Dizia que eram uns tipos que enriqueciam com o dinheiro dos outros sem terem criado coisa alguma. Também lá estava um fio em prata com uma cruz, coisa estranha, que o meu pai não era religioso, e a ser católico era como quase todos nós, eu também, católicos por defeito, não praticantes e, no fundo, a pensar bem na coisa, ateu, mas permissivo com a religião. O seu passaporte. A licença de porte de arma. O cartão de sócio do Benfica, com data dos anos 50. Duas alianças. Dois conjuntos de botões de punho. Um alfinete de gravata. E a pistola. A pistola e umas balas.
A pistola não é grande. É pouco maior que a palma da minha mão. Mas é pesada. Não é um peso que não se suporte. Não. É um peso que nos faz pensar que temos uma pistola na mão. O cabo da pistola é de madrepérola. Não sei qual o calibre. Não percebo nada de pistolas nem de balas. Não fui à tropa. A pistola não está carregada, acho, porque já tentei disparar e não disparou. Na verdade nunca vi o carregador da pistola. Mas já a segurei. Já a apontei a mim próprio, ao espelho, e o braço não fraquejou. E a mão manteve-se segura. Fiz pam com a voz e não me assustei.
Há quem tenha pistolas de colecção. Outros de protecção. Para disparar. Tenho amigos que têm espingardas de caça. Um deles, de caça grossa. Nunca fui à caça. Mas eles vão. E já comi animais que eles caçaram. Sou cúmplice, sim. Mas não sei disparar nada. Não, sei disparar a funda. E ainda tenho uma que fiz em miúdo. Às vezes ainda vou para a varanda de casa mandar umas fundadas com pequenos seixos de rio. Já parti algumas janelas. O pára-brisas de um carro. Vários vasos que fiz tombar na rua. Sempre que alguma destas cosias acontece, fico assustado. Penso que a polícia virá cá a casa. Escondo a funda. Vou para a varanda fumar um cigarro e tentar perceber se acontece alguma coisa. Depois o tempo passa, eu esqueço que fiz asneira e a vida retoma o seu ciclo normal.
De tempos a tempos lembro-me que tenho uma pistola. Uma pistola pequena, pouco maior que a palma da minha mão. Uma pistola com o cabo em madrepérola. Uma pistola que era do meu pai.
O meu pai tinha licença de porte de arma. Eu não. Não quero andar com nenhuma pistola nas mãos. A polícia nem sabe que tenho esta pistola. A pistola que está no pequeno cofre é uma lembrança. Há quem tenha outro tipo de lembranças. A minha é esta pistola. Mas não sei disparar. Nunca disparei.
Tenho pensado em fazer um workshop. Um workshop de tiro. Aprender a disparar. Aprender a disparar uma pistola. Primeiro, aprender a carregar a arma. A destravar a segurança. A disparar um tiro. Disparar uma bala. Não é que eu queira andar para aí aos tiros. Mas já que tenho uma pistola, pelo menos tenho de saber o que fazer com ela. Quanto mais não seja, para não o fazer.
Mas tenho uma pistola. Era a pistola do meu pai. Agora é minha.

[escrito directamente do facebook em 2020/01/18]