A Velha Morta Dentro da Cama

Abri a porta com um cartão de crédito. Forcei a porta, enfiei o cartão pela nesga da porta forçada até chegar ao trinco da fechadura. Depois foi só tentativa e erro até conseguir abrir a porta e empurrá-la para trás.
O trinco cedeu mas tive de empurrar a porta com força. Algo estava a travá-la. Mal forcei a porta um pouco para dentro, senti logo o cheiro. Um cheiro a podre. Um cheiro pestilento que me fez recuar para trás, para as escadas do prédio, e me provocou vómitos. A vizinha que estava comigo no patamar das escadas, e que eu quase atropelei no recuo, percebeu o cheiro. Levou a mão ao nariz. Tirou a écharpe que tinha ao pescoço e deu-ma para as mãos. Eu levei a écharpe ao nariz e voltei a empurrar a porta para dentro. Tive de forçar. Fazer força. A casa estava às escuras. Estiquei o braço para a parede. Encontrei o interruptor da luz. Cliquei para cima. Cliquei para baixo. Não havia luz. Não havia luz em casa. Fui às escuras até à parede do fundo, até à janela, com cuidado para não bater com as pernas nem com a cabeça em lado nenhum. Encontrei a janela, apalpei à volta e puxei as estores. Abri a janela de par-em-par. Pus a cabeça de fora e respirei o ar da rua. Virei-me para dentro, para a sala. Olhei para o fundo, para a porta de entrada e vi um monte de pêlo no chão junto à porta. Parecia um casaco de peles tombado. Depois percebi que era o cão. O cão morto atrás da porta da rua.
Voltei a colocar a écharpe no nariz e avancei dentro da sala. Estava tudo em ordem. Tudo em ordem mas cheio de pó. Como se a casa tivesse sido abandonada. A televisão de cinescópio com um naperon por cima. Uma mesa ao lado com inúmeras fotografias emolduradas. A mesa de apoio, em frente ao sofá, com o comando da televisão e do cabo, lado-a-lado. Um pequeno vaso com uma planta morta. Uma mantinha dobrada sobre o sofá. Vários quadros clássicos, de representação da vida de antigamente, pendurados pelas paredes. Circulei com cuidado. Saí da sala, entrei num corredor. Ao fundo percebi a cozinha. Havia alguma luz da rua a iluminar ao fundo do corredor, a cozinha. No corredor, uma porta à direita. Outra à esquerda. Fechadas. Abri uma. Abri a outra. O cheiro era ainda mais insuportável. Um cheiro a qualquer coisa podre. Mais forte. Mais azedo. As duas portas davam para a escuridão. Fui à cozinha. Louça no escorredor no lava-loiça. Um chaleira sobre o fogão. Uma fruteira com algumas peças de fruta já podres. Algumas desfeitas e alguns tufos de bolor. No chão, debaixo da janela aberta e sem estores, duas tigelas vazias. Deviam ser do cão. Mas não havia nem comida nem água. Encontrei fósforos e regressei ao corredor, às portas abertas para buracos negros. Prendi a écharpe no bolso das calças e acendi um fósforo. Entrei pela porta à direita. Uma casa-de-banho. Lavatório. Bidé. Retrete. Polibã. Um pequeno banco. Uma toalha para as mãos ao pé do lavatório. Uma toalha de banho junto do polibã. Uma prateleira com alguns frascos. Tudo organizado. Tudo cheio de pó.
Voltei ao corredor e entrei na porta da esquerda. O cheiro era demasiado forte. Prendi a respiração. Senti os pulmões a quererem saltar. Acendi novo fósforo. Uma cama. Algo na cama. Uma janela na parede. Fui abrir a janela. Puxei os estores. Abri os vidros. Enfiei a cabeça na rua. Respirei profundamente. Várias vezes. Virei-me ao contrário. Os olhos a habituarem-se ao escuro do quarto. A cama. Um corpo dentro da cama. Debaixo dos cobertores. Um corpo que era cadáver. Se calhar o cadáver da velha da casa. Não reconhecia a cara. A cara também já não era bem uma cara. Saí do quarto, refiz o corredor até à sala e saí pela porta da rua. A vizinha aguardava no patamar das escadas por mim. Entreguei-lhe a écharpe. Ela olhava ansiosa para mim, como se perguntasse Então? Então? Agarrou na écharpe e amarrotou-a entre as mãos. Estava nervosa. E eu disse-lhe Está na cama. Está morta. E a senhora soltou um grito, levou as mãos à boca e libertou o choro. Agarrou-se a mim a soluçar. Eu abracei-a com um braço e com a outra mão agarrei no telemóvel. Era preciso avisar o INEM. Ou a Polícia? Ia ligar para o cento e doze.
Enquanto o telemóvel chamava, e a senhora soluçava o choro no meu peito, pensei na morte solitária da velha. Há quanto tempo ninguém a via na rua? no prédio? à janela? Mesmo o cão, que era mandado sozinho à rua fazer as suas necessidades, há quanto tempo ninguém o via? A velha abria a porta de casa ao fim da tarde, o cão saía e esperava que alguém chegasse do trabalho para lhe abrir a porta da rua e ir fazer as suas necessidades lá fora. Depois regressava da mesma maneira. Ficava à espera que alguém chegasse ou saísse. Eu às vezes ficava à espera que ele desse a sua volta para o deixar entrar no prédio. Há quanto tempo não via o cão? nem pensava nele? Senti-lhe a falta?
Vivemos de costas voltadas uns para os outros e acabamos todos a morrer sozinhos. Quer dizer, uns mais que outros. O que é que me esperava? a mim? Uma morta solitária, também?
Do outro lado do telemóvel alguém atendeu e eu disse Sim?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/17]

Para um Diário da Quarentena (Décimo Andamento)

Hoje acordei cedo. Eram oito da manhã quando me levantei. Na rua, nem chuva nem sol. Um dia assim-assim. Olhei-me ao espelho. Cabelo muito grande. Olheiras. Cara macilenta. Barba mal aparada. Vesti um fato-de-treino, calcei as sapatilhas e saí de casa. Fui dar uma corrida ali à volta. De início, e por falta de hábito, respirei pela boca. Dez minutos depois estava cheio de azia. Fechei a boca e comecei a respirar pelo nariz. Um quarto de hora mais tarde parei para dar uma bombada de Ventilan e fui a passo no quarto de hora seguinte. Recomecei a correr no regresso a casa. Transpirei. Cansei-me.
Na casa-de-banho peguei numa tesoura e, olhando-me ao espelho, dei uns cortes no cabelo. Não importava ficar bem cortado. Tinha de desbastar. E foi o que fiz. Desbastei. Não ficou assim muito mal. Acho que fiquei mais novo. Também aparei a barba
Tomei banho.
Vesti-me.
Bebi café. Não comi nada.
Eram dez da manhã. Peguei no carro e fui ao supermercado. Uma luva numa mão. um pequeno frasco com álcool. Levei saco de casa. Peixe. Pedi para amanhar e cortar em pedaços pequenos. Algum frango. Umas iscas de vaca. Algumas conservas. Vinho. Sumos. Legumes. Fruta. Duas broas. Pão. Paguei com multibanco. Marquei as teclas com a borracha de um lápis.
No carro separei as compras por dois sacos. Tirei a luva e coloquei-a no lixo. Passei álcool nas mãos, no cartão multibanco e na borracha do lápis. Passei em casa da minha mãe. Um dos sacos era para ela. Não almoças?, perguntou-me. Pode ser, disse. Comemos uma sopa de feijão que ela tinha feito. Depois partilhámos um resto de massada de peixe da véspera. Eu não gosto de massada de peixe, mas comi e não disse nada. Já não se lembra que nunca gostei de massada de peixe. Acompanhámos com um copo de vinho tinto. Eu descasquei uma maçã e foi metade para cada um. Polvilhei com um pouco de canela e ela gostou. No fim de almoço ela tomou os comprimidos e eu lavei a louça. Reabasteci-lhe a caixinha dos comprimidos. Disse-lhe que o Xanax estava esgotado. Ela disse que ainda tinha uma caixa. Menos mal. Ela foi até à sala ver as notícias. Eu aspirei-lhe a casa num instante. Depois perguntei-lhe se queria ir dar uma volta à rua. Ela começou a rir e disse Está a chover! Pois está! pensei eu. Não tinha reparado. Fica para a próxima! disse-me com um sorriso. Ela foi deitar-se um pouco. Eu vi-me embora.
Eram duas da tarde. Regressei a casa. Despi a roupa e pu-la a lavar. Tomei banho. Voltei a vestir um fato-de-treino.
Fiz um chá verde. Sentei-me à mesa da cozinha a fumar um cigarro, a beber o chá e a ler as notícias online. No Facebook descobri mais gente que me dá nervos. Havia uma petição contra a Organização Mundial de Saúde por erros grosseiros e defesa da China. E perguntei-me o que é que aquela gente sabia? E se aquela seria a melhor altura para fazer o que se propunham fazer?
Quatro da tarde. Abri uma página do Word. Escrevo. Escrevo durante muito tempo. Escrevo tanto que esqueci as horas e a passagem do tempo.
Quando dou por mim, são oito da noite. Já é quase noite lá fora. Páro de escrever. Abro uma garrafa de vinho. Olho para o fogão mas não me apetece cozinhar. Rasgo um pedaço de pão para ensopar o vinho. Vou até à janela. Acendo um cigarro. Não há ninguém na rua.
Logo mais à noite irei ver um filme. Não sei ainda o que é que me apetece ver. Há-de ser qualquer coisa. Qualquer coisa há-de servir. Qualquer coisa de ficção há-de ser melhor que esta realidade. Depois do filme irei para a cama. Irei ler um livro como leio todas as noite. Talvez uma novela gráfica. Reler uma das novelas gráficas. Tenho poucos livros aqui comigo, mas não consigo dormir sem ler. Releio.
Quando estiver para me deitar hei-de lembrar-me do dente que se quebrou ontem e do qual estive esquecido durante todo o dia. Na altura de apagar a luz e deitar a cabeça na almofada, a língua há-de passar pelo dente quebrado e eu hei-de lembrar-me que está quebrado, embora não me doa, e que nos próximos tempos não vou poder ir ao dentista e então irei pensar se os meus outros dentes irão resistir a estes dias ou quebrar-se como este se quebrou e irei deprimir um bocado até adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/16]

Um Dia como os Dias São

Acordei com a chuva. Virei-me para o outro lado. Adormeci.
Acordei com fome. Ainda chovia. Estava frio. Gosto de andar nu por casa. Mas tive de vestir um fato-de-treino e calçar umas meias. Passei na casa-de-banho. Fui à cozinha. Abri uma lata de atum. Desfiz o atum numa taça. Piquei um pouco de cebola. Acrescentei um pouco de salsa. Uma colher de sopa de maionese. Misturei. Cortei uma rodela de tomate. Abri um pão duro. Torrei-o um pouco. Coloquei o atum com maionese numa das metades do pão. Uma fatia de queijo Limiano. A rodela de tomate por cima. Coloquei a outra metade do pão. Levei-o à tostadeira. Prensei-o. Abri o frigorífico. Uma garrafa de vinho branco. Enchi um copo. Tirei a tosta de atum da tostadeira e coloquei-a num prato. Sentei-me à mesa da cozinha a comer a tosta de atum e a beber o vinho branco.
Lá fora continuava a chover. Senti um arrepio de frio pelas costas.
A maionese escorria-me pelos dedos e eu lambia-os. Acabei o copo de vinho antes da tosta e voltei a enchê-lo. A garrafa ficou vazia. Coloquei-a ao pé do lixo, dos vários sacos de lixo fechados com um nó à espera de irem para o rsu ao fundo da rua. Pensei que teria de sair. Teria de ir à rua brevemente. Mas não me apetecia.
Acabei de comer a tosta. Lambi os dedos. Despejei o segundo copo de vinho branco. Olhei as horas. Duas da tarde. Olhei a rua. Céu cinzento. Chuva. Frio. Voltei para a cama. Despi-me e enfiei-me debaixo do edredão.
Acordei com vontade de ir à casa-de-banho. Estava sol. Fiquei por momentos a tentar processar as informações. Ainda era o mesmo dia. O dia que amanheceu chuvoso, continuou chuvoso ao longo da manhã e início de tarde e agora estava sol. Levantei-me e fui à casa-de-banho. Passei pela janela do quarto e espreitei lá para fora. A estrada estava molhada. Os poucos carros estacionados na rua estavam molhados. Fui à casa-de-banho.
Regressei ao quarto. Voltei a deitar-me.
Acordei com o barulho da buzina de um automóvel. Era de noite. A buzina não parava. Virei-me para o outro lado. A buzina continuava a tocar. Levantei-me. Espreitei à janela. Um carro bloqueava outro. Com tantos lugares vagos aqui na rua, um carro parou a bloquear outro que queria sair e não podia. Vi um sujeito a correr vindo da farmácia. Levantou o braço a pedir desculpa. Um homem saiu do carro a discutir. O sujeito entrou dentro do carro. O homem aproximou-se a gesticular com os braços. O sujeito arrancou com o carro. O homem fechou o carro e acabou por ir embora a pé. Não entendo as pessoas.
Voltei para a cama. Virei-me para o outro lado. Os olhos abertos. As sombras nas paredes. Virei-me de novo de lado. Os néons da farmácia a piscar nos vidros da janela. Estava desperto e já não conseguia dormir. Já não tinha frio. Não tinha sono. Não tinha fome. Não queria mais estar na cama.
Levantei-me. Fui nu até à cozinha. Abri uma Terra d’Alter tinto. Servi um copo. Sentei-me à mesa da cozinha. Abri a tampa do portátil. Acendi um cigarro. Estalei os dedos. Bebi um gole de vinho.
E comecei os lamentos.
Acordei com a chuva. Virei-me para o outro lado, escrevi.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/15]

E Vou para Onde?

Eu estava sentado na cama, as costas apoiadas na parede de cabeceira, com um livro de fotografias de Wolfgang Tillmans em cima das pernas (naquela época andava muito interessado nas composições do Tillmans, especialmente na criação de texturas e nas naturezas mortas) e ela estava sentada ao fundo da cama de costas para mim.
Tinha pousado o livro nas pernas quando ela entrou no quarto e se sentou de costas para mim ao fundo da cama. Sentou-se muito direita. O cabelo escorria liso sobre as costas. Nada nela se movia. Sentou-se ao fundo da cama, as mãos pousadas sobre as pernas e o olhar provavelmente fixado no exterior que se via para além da janela que ficava à frente dela. E de mim.
Olhei lá para fora seguindo o que imaginei que fosse o olhar dela. Estava a chover. Estava sempre a chover naqueles dias. Dias cinzentos e frios. Dias chuvosos. Dias tristes. De onde estava não conseguia ver a rua, afinal, aquilo era um terceiro andar, não era muito alto, mas o suficiente para me manter acima do limite da rua. Imaginava a rua vazia. Vazia de pessoas e de carros. Estava tudo em casa. Como eu. Como nós. Já lá iam, quanto? três meses, mais ou menos, de confinamento. Como é que as pessoas se estavam a aguentar? Se fosse como nós, eu e ela, mal, muito mal. Quase já não nos falávamos. Dormíamos na mesma cama mas de costas voltadas um para o outro. Ela ganhara o hábito de se despir e vestir na casa-de-banho para não o fazer à minha frente. Passámos a comer quando tínhamos fome, mas sozinhos. Tínhamos sempre fome em alturas diferentes. Se calhar era propositado. Se calhar a culpa era minha. Talvez fosse dela. Ou da situação. Nunca tínhamos estado tanto tempo sozinhos. Ao fim de quinze dias já não tínhamos nada para contar um ao outro. No final do primeiro mês, já não nos tocávamos. Quinze dias mais tarde já mal nos ouvíamos falar. Grunhidos era o que saía das nossas bocas. Ela continuava nas suas leituras. Aqueles poetas checos e polacos que ela desencantava não sei onde. Eu fazia pesquisa para os meus projectos. Projectos que talvez viesse a realizar um dia mais tarde, quando a vida pudesse retomar uma espécie de normalidade e pudéssemos sair à rua e estarmos uns com os outros.
Lá fora, na rua, continuava a chover.
Foi nessa altura que percebi que ela estava a chorar.
E então disse Quero que te vás embora!, assim, sem se virar para mim. Se calhar não queria que a visse chorar. Se calhar precisava de não olhar para mim para ter forças de me pedir o que estava a pedir.
Eu perguntei Agora?
A pergunta ficou um pouco no ar, a ecoar. Pareceu-me sentir uma fungadela. E depois respondeu Sim, o mais rápido possível.
Fiquei ali a olhar para a nuca dela que continuava de costas para mim, provavelmente a olhar a chuva que caía lá fora. Eu ainda tinha o livro do Tillmans aberto sobre as pernas. Via uma fotografia muito bonita com o que podia ter sido o meu pequeno-almoço, umas laranjas num pequeno prato, um filtro de café sobre uma caneca e uma embalagem que talvez fosse de manteiga, ou de queijo-creme, uma garrafa de vidro de leite vazia e uma colher caída junto a uma janela com um relvado verde e o tronco de uma árvore. Era uma fotografia muito bonita mas muito triste também.
Perguntei E vou para onde?
Vi-lhe o braço a subir e a levar a mão até à cara enquanto rebentava num choro sonoro. Levantou-se e saiu do quarto a correr.
Eu fechei o livro do Wolfgang Tillmans e larguei-o na mesa-de-cabeceira. Lá fora na rua continuava a chover. Pensei que mesmo que houvesse alguém na rua a furar o confinamento, agora estaria mesmo vazia. As pessoas não gostam de andar à chuva.
E voltei a perguntar E vou para onde?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/14]

Para um Diário da Quarentena (Nono Andamento)

Estou quase a fazer um mês de confinamento em casa. Mais dois dias e faço um mês. Um mês fechado aqui em casa. Sozinho.
A ideia de um diário deste confinamento ficou-se pelas promessas. A inércia tomou conta de mim. Os dias repetem-se. Uns a seguir aos outros. Sempre iguais. As noites como os dias. Já os confundo. Durmo quando calha. Como quando tenho fome. Tenho sempre fome. Engordei. Engordei bastante. Não sei quanto que tenho medo da balança. Fujo-lhe.
Perdi as rotinas antigas e ganhei outras. Nem sei se são rotinas. São uma ausência de actividade. Perdi a vontade. Perdi a vontade de tudo. Não quero ler mais nenhum livro. Não quero ver mais nenhum filme. Não quero acompanhar mais nenhuma série. Estou farto da música. Ainda me lembro das festas unipessoais que fiz na sala, ao início. Eu a dançar feito louco ao som dos Chemical Brothers até cair, derreado, no fundo do sofá. Agora não me apetece dançar nem ouvir música.
A televisão está sempre ligada, dia e noite, para me fazer companhia e me manter na ilusão de que não estou só.
Mas almoço sozinho. Janto sozinho. Durmo sozinho. Bebo café de manhã sozinho e, o primeiro cigarro do dia, é fumado sozinho. Dantes ainda fumava o cigarro à janela. A olhar a rua. A olhar a vida que ainda existia na rua. Agora fumo na cama. E já não é o primeiro cigarro do dia porque já não tenho dia. Os dias e as noites são já só a mesma coisa, sempre a mesma coisa, nunca acabam nem nunca começam. Só continuam, imparáveis.
Deixei de acompanhar as conferências da DGS. Agora só ouço o número de mortos. Depois, desligo. As vozes continuam a debitar números, informação, mas eu já não ouço. Tenho os ouvido e o cérebro programados para o dia em que alguém disser Terminou.
Mas ainda ninguém disse.
O número de mortos continua a somar.
Eu ainda estou vivo.
Pergunto-me para o que é que me estou a preservar. Ainda haverá mundo depois do Covid-19?
A cama tem sido o meu útero. Deito-me e tapo-me com o edredão. Tapo a cabeça. Respiro debaixo de edredão. Acabo por adormecer. Já não como há… Há quanto tempo? Não tenho fome. Não tenho vontade de comer. Bebo água. E bebo água porque às vezes fico com a boca seca e pastosa. Já nem vinho bebo. Acabou-se o vinho. Ainda tenho alguns cigarros. Vou fumando na cama. Tenho o cinzeiro cheio. Esqueço-me de o despejar quando me levanto. E só me lembro quando já estou de regresso à cama. Não volto a levantar-me. E volto a esquecer-me. A minha memória já não é a mesma. Acho que tudo isto me está a afectar. Não estou com o Covid-19, pelo menos acho que não estou contaminado, mas estou a sofrer de problemas colaterais.
Estar em casa está a matar-me. Eu gosto de estar em casa mas por opção. Obrigado, começo a odiar. Odiar tudo. E no cimo de tudo, odiar a vida. Odiar a vida e tudo o que fizemos dela.
Estou na cama. Vou continuar na cama. Espreito por cima do edredão e vejo, através da janela, um céu esbranquiçado. Anémico. Um dia morto.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/11]

Boca Doce

Aproximava-se o aniversário da minha filha e eu tinha de fazer alguma coisa. Alguma coisa que compensasse estes dias de chumbo que temos vivido. Procurava uma pequena alegria. Procurava colocar-lhe um pequeno sorriso nos lábios e que esse sorriso a fizesse esquecer estes últimos meses.
Levantei-me de manhã cedo. Não a acordei. Deixei-a dormir. Não havia tele-escola e podia dormir um pouco mais. Lavei as mãos. Lavei a cara. Lavei os dentes. Os boxers estavam já demasiado rotos. Nem dava mais para remendar. Tomei nota mental para tentar arranjar mais um ou dois boxers. Vesti umas calças. Calcei as botas com biqueira de aço. Uma camisola. Uma casaco com bolsos. Uma mochila às costas. O cartão multibanco, um lápis com borracha na ponta, algumas moedas e umas notas. Depois calcei umas luvas. Coloquei uma máscara cirúrgica na cara, sobre a boca e o nariz. Apertei a mola sobre a cana do nariz. Agarrei no revólver e coloquei-o preso no cós das calças, nas minhas costas, e uma faca de mato, afiada, dentro das botas. Antes de sair de casa pus os óculos escuros. Não me benzi porque não sou religioso mas, no momento mesmo antes de sair de casa virei-me para trás e olhei para a casa silenciosa e quase na penumbra, os estores estavam corridos até baixo, deixando somente os buracos abertos para passar alguma luz mas não deixar entrar mais nada, para deixar a casa em segurança, e esse momento foi como se me tivesse benzido e rezado uma Avé Maria e um Padre Nosso. Depois saí e fechei a porta à chave nas minhas costas.
Nunca gostei de usar as máscaras. Dificultam-me a respiração, fazem-me comichão e muito calor. Mas sei que tenho de as usar. Se quero sair à rua, tenho de ir protegido. Protegido de todas as formas.
Tinha o carro na garagem. O carro atestado. Mas achei melhor ir a pé. Nem sequer levar bicicleta. Provavelmente teria de ir a vários sítios. O melhor era não estar preocupado que me roubassem o carro, a gasolina, a bicicleta. Ir a pé era a melhor escolha. Mesmo que uma escolha perigosa. E assim fiz.
Cheguei à rua e olhei para um lado e para outro. A rua estava vazia. Aquele era um bairro essencialmente residencial. Era muito raro encontrar alguém na rua. Mesmo nos quintais, quem os tinha, já era difícil encontrar alguém. As pessoas barricavam-se em casa. As que podiam trabalhar em casa trabalhavam. As outras tentavam sobreviver. Ficavam fechadas em casa o dia inteiro. A noite inteira. A semana quase toda. Mas às vezes, às vezes faziam pequenas saídas para procurar alimentos e remédios. Vasculhar os caixotes do lixo. Tentar algum assalto e evitar ser assaltado.
Ainda havia algum comércio durante o dia. A maior parte das lojas já só funcionava no mercado-negro. Eram protegidas por milícias. E continuavam a ser os sítios onde ainda se podia encontrar algumas coisas. Ainda se aceitava cartões multibanco e MBWay. Já ninguém aceitava cartões de crédito. O dinheiro em género era a forma mais imediata de se fazer compras mas, a troca de uns produtos por outros, estava a ganhar o seu espaço. Principalmente porque a maior parte das pessoas já não trabalhava e já não tinha dinheiro.
Eu ainda era um dos poucos sortudos com algum trabalho e algum dinheiro. Mas até para pessoas como eu as coisas estavam a ficar complicadas porque os próprios governos estavam a desintegrar-se. A perder as ruas. O Estado ainda tinha os militares e alguma polícia. Mas as milícias, os grupos armados, os grupos de piratas começavam a estender as suas malhas por todo o lado. Os Mercados já não existiam. Pelo menos, não como eram entendidos antes de tudo isto começar. Agora tudo se comprava e vendia directamente. Troca por troca. Mão havia mercados futuros. Fundos de investimento. Compra e venda de acções. Nada dessas coisas. Agora o que tinha valor era o real. Uma alface. Uma vaca. Um par de sapatilhas Adidas. Uma Glock.
Havia ainda produção no campo. E gente a garantir essa produção. A maior parte eram já protegidos por estes mesmos grupos de piratas. Quem tinha as armas é que mandava. Quem tinha as armas e os homens e a coragem. Os outros todos, obedeciam.
Eu ainda trabalhava para o Estado. Todos os meses ainda recebia o meu dinheiro através do banco. Os bancos ainda funcionavam. Afinal, era lá que os grupos de piratas guardavam o dinheiro. Na verdade, os piratas já tomavam conta dos bancos. Mas eles ainda funcionavam. Funcionavam era já de uma maneira diferente. Com outros objectivos. Agora eram essencialmente cofres-fortes. Guardavam ouro e outros metais preciosos. Pagavam-se entre eles para trocas entre clientes. Era assim que se fazia chegar um carregamento de uvas da Beira-Alta até Lisboa, por exemplo.
Mas enfim, saí de casa, cheguei à rua e virei à esquerda e fiz a rua toda até ao fim, até ao fim do bairro e depois continuei por ali fora, quase uma hora a caminhar pela estrada até chegar ao baldio, um antigo e enorme parque de estacionamento do estádio de futebol abandonado, terreno perigoso quando é noite, mas que se faz relativamente bem durante o dia. Depois faria mais cinco ou seis quilómetros em frente e estaria na periferia da cidade mas numa zona comercial onde, eventualmente, poderia encontrar alguma coisa do que procurava.
Fazer a rua do bairro foi muito penoso. A rua estava deserta. Alguns carros parados nas bermas junto aos passeios, mas já só umas carcaças metálicas. Esqueletos de antigos carros, despojados dos seus acessórios, desmontados e vendidos individualmente para renderem mais no mercado negro.
Havia gente dentro das casas. Via algumas caras à janela. Um homem saiu e disse Vais à cidade? Espera por mim que vou contigo! e voltou a entrar dentro de casa. Eu não esperei. Prefiro ir sozinho. Não levantar ondas. Passar despercebido. Manter-me invisível como sempre tinha sido toda a minha vida. Alguns quintais estavam abandonados. As casas ainda tinham gente mas as pessoas já não vinham à rua. Por medo do vírus. Por medo dos grupos armados. Por medo dos piratas. Por medo de tudo. Até da própria sombra. A vida, por estes dias, não vale um chavo.
Cheguei ao fim do bairro e fiz a estrada. Cerca de dez quilómetros até ao baldio do parque de estacionamento. Estrada deserta. Não passou um carro. Uma antiga estação de serviço abandonada e destruída. Cheguei ao antigo parque de estacionamento. Ao longe já se avistavam outras pessoas como eu, a ir para a cidade, a vir da cidade, atentos. Olhávamos uns para os outros a tentar perceber se éramos um perigo ou não. Agora ninguém sabe com quem se cruza. Há histórias de gente morta por amigos por causa de uma lamela de paracetamol. A vida tinha desvalorizado bastante na bolsa de valores. E a amizade mais ainda. Já não havia amigos. Era difícil encontrar gente em quem confiar. É por isso que precisava de encontrar qualquer coisa de especial. Para um dia especial de uma miúda especial.
Passei ao lado do antigo Estádio. Conta-se que lá dentro é o quartel-general de um dos grupos de piratas mais terríveis da zona. Mas pode ser só um mito urbano. As portas estão fechadas. Não se vê ninguém a entrar nem a sair do Estádio. Mas também se fala que existem túneis secretos. Na verdade não sabemos muito bem o que pensar de tudo isto.
Ao passar ao pé de uma das portas, levei a mão ao bolso onde tinha o revólver. Agarrei-o. Agarrei-o para o sentir. Vi qualquer coisa caída no chão por entre as ervas que cresciam no meio do asfalto rachado do antigo parque de estacionamento. Continuei a andar mas foquei melhor o olhar. Era um corpo. Um corpo de homem. Um cadáver ainda recente, provavelmente. Cuspi para o chão. Continuei em frente. Cruzei a estrada que vinha do norte e continuei até ao limite da cidade. Um quilómetro mais à frente começavam as primeiras lojas. Uns antigos supermercados adaptados aos novos tempos. Agora vendia-se de tudo, de tudo o que houvesse.
Lembro-me há muitos anos, em Luanda, ter ido ao Roque Santeiro, o maior mercado a céu aberto de África. Lá encontrava-se de tudo. Desde uma agulha para coser os meus boxers, quando eles ainda tinham salvação, até um míssil para disparar sobre a cidade vizinha. Agora, por aqui, era mais ou menos assim. Mas havia especializações nas lojas.
Cheguei ao primeiro supermercado logo à entrada da cidade. Era um antigo Minipreço. Mostrei o cartão multibanco ao segurança armado à entrada e entrei dentro do Minipreço. Dei uma volta pelo interior mas não havia nada que me interessasse. O antigo Minipreço era pequeno e não tinha muita variedade de coisas. Era essencialmente um entreposto de lacticínios e enchidos, tudo vindo directamente do produtor, algumas embalagens antigas, já tudo fora de prazo, mas muita coisa a granel. Só se leva o que se pode pagar. E não se pode levar tudo que as coisas são geridas de maneira a haver sempre quase tudo quase sempre.
Saí e entrei num antigo Pingo Doce. Fiz o mesmo ritual. Mostrei o cartão multibanco ao segurança e entrei. O Pingo Doce tinha muitas conservas. Era, essencialmente, um entreposto de latas de comida e bebida. Dei uma volta. Era bom se encontrasse uns pacotes de gelatina. Ela gostava de gelatina quando era miúda. Há quantos anos não comia gelatina? Mas não conseguia dar com nenhuma embalagem de gelatina. Até que, de repente, vejo-a a olhar para mim. Perdida numa prateleira. Fora de sítio, provavelmente, porque não havia ali mais nada daquilo. Uma embalagem de Boca Doce. Boca Doce! Uma embalagem de Boca Doce de Morango. O Boca Doce era uma espécie de pudim gelatinoso instantâneo. Agarrei logo na embalagem. Não precisava de procurar mais. Tinha encontrado o que procurava.
Paguei. Era caro. Paguei com o multibanco. Marquei o código com a parte de borracha do lápis. Depois desinfectei-a com um pouco de álcool e guardei o lápis no bolso do casaco. Pus a embalagem de Boca Doce na mochila. Podia voltar para casa. Não precisava de mais nada.
Saí.
Não tinha andado quinhentos metros, ainda estava dentro dos limites da cidade, quando fui abordado por um homem. Sem máscara. Afasta-te!, pedi. O tipo continuou a avançar para mim, mostrou-me uma faca na mão, uma faca grande, e disse O cartão! e tentou agarrar-me o braço. Eu levei a mão ao bolso do casaco e agarrei no revólver. Disse ao tipo Afasta-te, se fazes favor! Ele voltou a tentar agarrar-me. Deitou-me a mão ao braço e agarrou-me o braço e puxou-me para ele. Eu dei-lhe um pontapé com a biqueira de aço numa canela que o fez tropeçar. Enquanto ele se baixava cambaleante, eu tirei a mão do bolso com o revólver e disparei à queima-roupa. Disparei sobre o tipo. O tiro acertou-lhe em cheio na cara. Senti alguns salpicos a caírem sobre mim. Foda-se! disse. A mão do tipo largou-me o braço e ele caiu no chão. Dei-lhe um pontapé na mão e vi-a voar e cair quieta ao lado do corpo. Eu pequei no frasquinho de álcool e aspergi um pouco sobre mim.
Fui-me embora e deixei o corpo lá caído.
Enquanto passava ao lado do Estádio, enquanto caminhava pelo antigo parque de estacionamento, pensava que tinha de tomar um banho quando chegasse a casa e tinha de pôr a roupa para lavar e tudo isso antes da miúda acordar. E mais ainda pensava que à noite iria fazer o pudim-gelatinoso de Morango para o aniversário dela no dia seguinte. Achava que ela iria gostar de um Boca Doce. E sorri. Depois ainda pensei Não procurei os boxers para mim. E não pensei mais no tipo a quem tinha acabado de matar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/06]

A Árvore em Chamas

O cão devia estar na casota. Eu não o via, mas ele devia lá estar. Metido para o fundo. Com o que estava a chover, os salpicos que batiam na laje frente à entrada da casota disparavam para todos os lados. O cão devia estar dentro da casota bem metido lá para o fundo para fugir à chuva.
Eu via a casota da janela do quarto. Tinha ido fechar a janela porque a água da chuva estava a entrar dentro do quarto. Tive de andar com uma esfregona a limpar o chão. O soalho é flutuante. Esperava que a madeira não enfolasse com a água da chuva.
Foi quando andava a limpar a água da chuva do chão do quarto que vi a casota e pensei no cão. Ainda não lhe tinha dado comida nenhuma. Mas também não ia sair com aquele tempo.
Os gatos nem os via. Mas esses, às vezes, andam por aí a passear debaixo de chuva. Às vezes vão brincar com o gato da vizinha. Mas mal ouvem a porta da cozinha a abrir, há sempre um, pelo menos, a vir a correr para o alpendre e roçar-se nas minhas pernas.
O cão não o via mas devia estar lá dentro, bem fundo na casota. Se continuasse a chover não ia comer. Ele não ia sair lá de dentro e eu não ia colocar comida que ia ficar toda molhada. Não, ele não ia comer.
Depois de ter arrumado a esfregona, olhei em volta, em volta de mim, em volta de mim dentro de casa a pensar que raio iria fazer sem me apetecer fazer nada com o tempo chuvoso que estava; pensei em acender a lareira mas não estava frio nem eu tinha lenha para queimar; pensei comer um bolo daqueles estúpidos de pão-de-ló e iogurte que a minha mãe costumava fazer e lhe chamava o Bolo das Cerimónias mas a minha mãe já não estava ali para fazer o bolo e eu não sabia fazer bolos, na verdade nem gostava de bolos, estranhamente estava a apetecer-me uma fatia, e quem dizia uma fatia podia dizer duas ou três fatias de bolo e ficar ali em pé, no meio da cozinha a olhar para a chuva a cair lá fora na rua, dali não via a casota do cão, e pensava se este meu desejo por qualquer coisa doce não denotava alguma carência, nomeadamente afectiva já que me encontrava recluso em casa ia já para uma série de semanas, semanas essas sem contactos com quase ninguém e fisicamente com ninguém mesmo até que resolvi ir até à casa do vizinho pedir uma garrafa de vinho, ou talvez duas ou três.
O vizinho era na verdade uma vizinha, uma vizinha com quem já tinha tido um pequeno caso amoroso, bom, na verdade mais sexual que amoroso, que terminara mal e por isso já não nos falávamos. Mas precisava de um doce e, à falta de melhor, olhar para a cara da minha vizinha, mesmo que a dois ou três metros de distância, e quem diz cara diz o resto do corpo, era bastante tentador.
Peguei no chapéu de chuva e saí de casa. Ainda não tinha descido as escadas do alpendre quando apareceu um dos gatos a miar e a circular entre as minhas pernas. Já venho, pá! disse-lhe e o gato até pareceu ter entendido e sentou-se no chão do alpendre a ver-me descer as escadas.
Foi nessa altura que começou a chover mais ainda, uma chuva violenta, torrencial. Começou a trovejar. Vi uns relâmpagos a riscarem o céu para os lados das montanhas.
E, depois, ainda não tinha chegado ao portão de saída quando um raio caiu sobre uma das laranjeiras do quintal que, como uma acendalha, desatou em fogo imediato.
Fiquei parado a olhar a árvore a arder. Precisei de alguns segundos para perceber o que tinha acontecido. Estava fascinado. Nunca tinha visto nada assim. Voltei para trás. Voltei para o alpendre. Larguei o chapéu. Os gatos apareceram todos de todo o lado e ficaram a olhar para a árvore a arder. O cão não apareceu. Acendi um cigarro. Encostei-me à ombreira da porta da cozinha a olhar, com um certo prazer, para a laranjeira a arder. E pensei para comigo É melhor não ir a casa dela. É melhor ficar por aqui. E enquanto via o incêndio, perguntava-me se ainda me restava um bocadinho de gin. Ou de vodka.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/05]

Uma Gota de Transpiração

Este tempo bipolar tomou conta da minha vida. Todos os dias espreito pela janela para saber se posso ir mijar nu ou se tenho de vestir qualquer coisa. Entre o calor de Verão e o frio do Inverno têm passado vinte e quatro horas. Começo a pensar que o verdadeiro problema não é o Covid-19 mas estas misturas temporais que nos empurram para a praia e acabamos a fazer ski na neve, duna abaixo em direcção a um mar gelado vindo directamente da escrita de um argumentista de série B.
Ontem estava calor. O céu azul belenenses. Levantei-me nu da cama e foi assim que fui mijar à casa-de-banho depois de ter espreitado pela janela do quarto para a rua.
Enquanto esperava pelo café, fui tomar um banho de mangueira ao quintal. Os gatos fugiram. O cão andou a ladrar à minha volta mas acho que era para a água que saía da mangueira.
Dei duas voltas a correr à volta da casa para secar. A pila dançava para cima e para baixo. Ainda a consigo ver. Não engordei assim tanto. Fiquei com os pés sujos. Voltei a lavar os pés e calcei umas havaianas de imitação velhas que andam sempre perdidas pelo quintal, às vezes os gatos mijam-lhes em cima, às vezes o cão deita-se a roê-las, ficam ao vento e à chuva, mas dão sempre jeito. Como ontem.
Depois de beber o café e de fumar um cigarro no alpendre, a melhor parte da casa, vesti uns calções e uma t-shirt e fui dar uma volta pela aldeia. Estava deserta. Demasiado calor para os velhos andarem na rua. Demasiado cedo para os mais novos saírem da cama. Optaram todos pelo confinamento. Pelo menos ontem. Ontem de manhã. Tudo em casa. Tudo? Tudo não, que uma moça da aldeia, filha dos donos do Minimercado, estava num terreno que têm para os lados do ribeiro a cavar terra para plantar batata-doce. É o tempo dela. Da batata-doce. Estava de camisa aberta, transpirada, a saia rodada presa à cintura cruzada por baixo das pernas tornada calções. Vi a transpiração a escorrer pelo decote aberto no peito. Ela viu-me. Parou de cavar. Aproveitou para descansar daquele calor e apoiou-se no cabo do sacho, a olhar para mim. E depois levantou o braço numa saudação. Eu também a saudei. Levantei o braço e gritei-lhe Bom-dia! que não deve ter ouvido porque me engasguei e a voz saiu fininha. E pensei Se não fosse o distanciamento social…
Hoje já está frio. O céu cinzento, daquele cinzento urbano-depressivo que me fazia as delícias quando tinha dezasseis anos. Mas já não tenho mais dezasseis anos. Chove. Chove uma pequena e irritante chuva tocada a vento. Visto umas calças de fato-de-treino e uma sweat antes de ir mijar. Mijo. Faço café. Fumo um cigarro na cozinha enquanto leio as últimas notícias sobre os milhares de mortos que continuam a acontecer por todo o lado e aos quais já parecemos imunes.
Com o tempo que está e as notícias matinais que leio chega-me a melancolia de Domingo, mesmo que seja ainda só Sábado.
Largo a chávena vazia na mesa da cozinha e volto para o quarto. Volto para a cama. Tapo-me com o edredão e desejo voltar a adormecer e só voltar a acordar quando o tempo regressar em bom. Quando o tempo regressar em formato de Verão, com sol forte e quente e umas nuvens à Simpsons. Desejo adormecer e sonhar com a gota de transpiração a percorrer o peito branco da filha dos donos do Minimercado.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/04]

O Homem Invisível

Estou há três semanas sem trabalho.
Estou há três semanas sem receber salário.
Não tenho um emprego certo. Horário normal. Salário ao final do mês.
Vivo de expedientes. Vivia.
Agora estou em casa há três semanas sem ganhar dinheiro e a gastar o pouco que tenho. Que tinha. O pouco que tinha e já não tenho.
Não há apoios para gente como eu.
Somos invisíveis.
Fazemos o que mais ninguém faz. O que mais ninguém quer fazer. Agora já não fazemos.
Estou em casa há três semanas. Saí três vezes para comprar algumas coisas para comer. Agora já não tenho mais nada para comer. Agora já não tenho dinheiro para comprar mais nada.
A última vez que comi, foi um resto de pão duro a rapar o óleo de uma lata de sardinhas. Tenho bebido água. Água não me falta. Pelo menos até me cortarem a água. Ouvi dizer que a água não iria ser cortada por falta de pagamento nos próximos três meses.
Estou há três semanas confinado a este T0 com kitchenette. Uma janela para a rua onde agora não passa ninguém. Olho pela janela e só há o vazio da rua. No prédio em frente, prédio de T0s e T1s como o meu, há muita gente igual a mim. Gente que vive de expedientes. Que faz biscates. Gente que ninguém vê. Só o trabalho que aparece feito. As pessoas só vêm o trabalho feito e nem se perguntam quem o fez.
Estou há três semanas fechado em casa. Fui três vezes à rua. Passo os dias e as noites a olhar para estas quatro paredes. Paredes branco-sujo. Tenho um poster da Playboy numa das paredes. Já estou farto de o olhar. Já conheço cada curva da miúda. Ia à janela fumar um cigarro e olhar para caras iguais à minha que iam à janela delas fumar um cigarro como eu, olhar a minha cara e pensar como a minha cara é tão parecida com a deles. Caras de gente sem futuro. Já não tenho cigarros. Já não quero ver mais as caras iguais à minha. Já não aguento olhar para o poster da coelhinha. Não tenho televisão. Não tenho computador. Tenho telemóvel. Há uma semana que estou sem internet no telemóvel.
Estou há três semanas aqui por casa e, nos últimos dias tenho passado o tempo a jogar uma espécie de Tetris que não é bem Tetris, é um puzzle para encaixar peças parecidas com as do Tetris. Já achatei os polegares de tanto carregar no ecrã. Já me zanguei com o jogo. Já mandei com o telemóvel contra a parede. Não partiu.
Estou sentado em cima da cama. Há três semanas que saio da cama para ir até à janela e regresso. Já não sei mais o que fazer. Estou aqui fechado há três semanas. Sem trabalho. Sem dinheiro. Agora sem comer. Quanto tempo posso aguentar sem comer? Estou cansado de estar em casa. De não ver ninguém. De não ouvir ninguém. Precisava de um cigarro. De um pão com manteiga. De um copo de vinho. De um toque de uma mão que não a minha.
Tenho de sair. Tenho de ir à rua. O vírus de se foda. Tenho de trabalhar. Trabalhar numa coisa qualquer. Preciso de um salário. Preciso de dinheiro. Preciso de matar esta fome que começa a minar-me para continuar esta minha vida miserável. Uma vida invisível. Ninguém me vê. Mas estou aqui. Sou invisível mas estou aqui, porra!

[escrito directamente no facebook em 2020/04/03]

Faz Frio e Eu Quero Ficar na Cama

Está frio.
Não saio da cama. A meio da noite fui buscar o anorak e estendi-o por cima do edredão. Não me lembro de este ano estar tanto frio como hoje.
Está tanto frio.
Estou dentro da cama. Debaixo do edredão e do anorak com um pouquinho da cara de fora. O nariz para respirar. Os olhos para ver que, lá fora, na rua, chove que Deus-a-dá. Vejo pela janela aberta do quarto. A chuva a bater violenta nos vidros. Mais devagar era um embalo, assim mexe-me um pouco com os nervos.
Está mesmo frio.
Tenho de pôr a mão debaixo do edredão e agarrá-lo por dentro que os dedos estão a ficar gelados. Sopro-lhes ar quente de dentro de mim. Aquecem um pouco.
Queria ir mijar mas não consigo. A meio da noite, quando fui buscar o anorak, vesti as calças de fato-de-treino e uma sweat. Mas ainda sinto frio dentro da cama. Imagino lá fora. Não consigo ir mijar. Tenho de aguentar.
Está um frio!…
Se estivesse em casa dos meus pais, estaria a ajudar a podar as oliveiras. Eu a conduzir o tractor e o meu pai a dizer onde é que deveria ir e como fazer. Se estivesse em casa dos meus pais, na aldeia deles, talvez estivesse a plantar batatas. É época da batata, não é? Estaria a plantar batatas. Não havia frio na aldeia. Em casa. Frio suficiente para nos impedir de fazer o que temos de fazer. A minha mãe estaria a dar de comer às galinhas, aos coelhos. Estaria a abrir a cancela às cabras para irem pastar no terreno lá ao lado que elas não têm medo da chuva nem do frio e o que querem é um pasto verde para estarem sempre a comer, a comer, a comer.
Está muito frio.
Não me vou levantar. Nem para mijar, nem para comer. Não tenho nada para comer. Nem pão duro. Deixei-me tomar pela inércia e pelo desleixe nestes últimos dias. Hoje devia de ir ao supermercado, ao talho, à padaria. Mas está muito frio. Está a chover muito. Não consigo ver para além do vidro da janela.
Olha, olha. O telemóvel a tocar. Quem será?… A minha mãe!…
Atendo. Olá, mãe!… e ela fala. Lá do outro lado, distante, na sua aldeia onde o frio é maior que aqui mas as pessoas são mais fortes e estão mais habituadas, não há frio que as prenda a casa, à cama. O que é que fazes, mãe?… e o que é que ela haveria de fazer? Dar de comer às galinhas que ainda tem e que às vezes me manda em tupperwares cheios para semanas inteiras. É o que lhe resta. O que ainda consegue ir tratando. Já não há coelhos nem cabras. Ainda resistem as galinhas, e os ovos das galinhas, os ovos que me manda assim, em pequenas caixas de meia-dúzia ou em forma de bolo de iogurte, ou bolo encharcado de ananás. Agora quando é preciso matar uma galinha vai lá uma vizinha matar por ela. Ainda aproveita o sangue e ainda faz uma cabidela que guarda para mim. Já tenho é saudades da chanfana. Mas já não há chanfana. Já nem deve saber fazer. E eu ouça-a a falar lá do outro lado do telefone e só penso em comida. Devia dizer-lhe que já não tenho nenhum tupperware. Que já não me resta nenhuma caixinha com os seus cozinhados. Que hoje vou jejuar. Que tenho fome mas o frio é mais forte e pode mais que eu e não vou sair da cama. E depois ela diz que o vizinho comprou um gerador e hoje foram lá entregar-lho numa camioneta muito grande. E continuou a dizer que o vizinho lhe disse que as coisas estavam perigosas e que poderia faltar electricidade e que ela também deveria comprar um gerador, Nunca se sabe, as coisas estão perigosas. E então? Pergunto-lhe eu e ela diz que tenho de tratar disso. Como o homem da família tenho de tratar de comprar um gerador e mandar entregar lá em casa o mais depressa possível. Porque as coisas estão perigosas, diz. E eu digo Está bem, mãe! e o que é que eu poderia dizer?
E ela desliga o telemóvel e eu penso que, afinal, tenho de me levantar.
Está frio. Muito frio. Um frio do caralho. Mas vou levantar-me para ir mijar, ir comprar alguma coisa para comer e tratar de comprar um gerador para a minha mãe e mandá-lo levar lá a casa. E onde é que vou comprar um gerador?
Vou levantar-me. Vou contar até três e levanto-me: um, dois, três…
Não. Vou esperar cinco minutos contados no telemóvel a começar… Agora!
Só mais dois minutos…

[escrito directamente no facebook em 2020/04/01]