Seis Dias

Não demorei muito a perder todas as esperanças depositadas na novidade. Seis dias, foi quando durou o Ano novo, vida Nova! o Agora é que é! Este é o meu ano! Desta vez vou cumprir todas as minhas resoluções! Sinto que este ano é que é o meu ano! Sou outro, o mesmo mas em novo!
Seis dias.
Entrou o Dia de Reis e foi tudo por água abaixo.
Estava com bastante esperança. Estava confiante. Até parecia maior, de corpo erguido, peito feito para enfrentar o futuro. Sentia-me bem, muito bem, grande, enorme. Era o sol, o calor, o mar, estes dias brilhantes de Primavera em pleno Inverno que me colocaram no caminho da boa disposição e de conquista do mundo. Os trevos no jardim lá em baixo. As azedas à borda da estrada. O chilrear dos pássaros logo pela madrugada.
Seis dias.
Hoje de manhã já me fora difícil levantar da cama. Sentia frio e qualquer coisa esquisita cá dentro, uma certa angústia de que não sei a origem. E alguma vez se sabe? Sim, às vezes sei a origem das minhas angústias, o final do mês, a falta de dinheiro, a chegada de contas para pagar, uma ida não programada ao dentista, a falta de trabalho. As ausências. As fugas ou a impossibilidade de as executar.
Levantei-me já com alguma dificuldade. Mandei o edredão para os pés da cama mas tive de me levantar logo de seguida que não aguentava o frio. Fui fazer café, mas tive de tomar banho enquanto esperava pela primeira chávena do dia para aquecer o corpo. Tinha as mãos e os pés gelados. E foi enquanto espalhava o champô pelo cabelo, e olhava para a rua através da janela aberta de par-em-par, e via aquele sol amarelado de gema de ovo de aviário que percebi que o dia, que até tinha nascido soleiro, estava sem brilho. Um dia de sol, mas baço. E perguntei-me Que raio estou a fazer aqui? E não queria estar ali. Ali no banho. Não me apetecia ter levantado da cama. Estava frio. O dia estava com sol que não aquecia nem me trazia boa disposição. Queria perceber porquê mas não entendia nada. Um aperto no peito. Uma vontade de chorar. Sem razão. Quer dizer, sem razão aparente, que razões tenho eu muitas, diariamente, mas já me habituei a viver com essas razões. Não havia nada de novo que me fizesse sentir assim, ausente, perdido, destroçado, um desgraçado de merda, que era como me estava a sentir enquanto enxaguava o cabelo.
Seis dias.
Saí do banho. Vesti uma roupa qualquer. Tirei à sorte do roupeiro uma camisola. Vesti as mesmas calças da véspera. Umas sapatilhas. As que estavam ali caídas na marquise, fora da caixa. Tirei uma caneca de café. Um cubo de açúcar. Não, dois. Acendi um cigarro. Olhei para a rua. Senti-me pequeno. Senti-me decrescer. Minguar. Senti falta do meu pai. Da minha mãe. Senti falta de poder dizer Não me sinto bem. E ter-lhes a atenção. E o meu pai dizer Vamos ao médico. E a minha mãe dizer Vou fazer-te uma tisana. E ter colo.
Deixei cair o resto do cigarro na caneca de café e larguei-a ali, no beiral da janela.
Dei duas voltas lentas à cozinha. O que é que vou fazer? O que é que tenho para fazer? O que é que me apetece fazer?
Saí da cozinha. Fui até à sala. Olhei para a televisão desligada. Sentei-me no sofá. Enterrei o cu no fundo do sofá. Acendi um cigarro. Olhei para a gaveta de cima do móvel. Tinha lá uma Glock. Uma sobrevivente do assalto a Tancos.
Já passaram umas horas. Já passou o dia. Já se foi a manhã e a tarde. Já cai a noite. Acendo um cigarro. Ainda estou sentado no sofá. A televisão continua desligada. Tenho uma Glock na gaveta de cima do móvel. São seis de Janeiro e o ano já me parece velho. Velho e cansado. Deixo cair um borrão incandescente do cigarro no chão da sala. Não consigo tirar os olhos da gaveta. Da gaveta de cima do móvel.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/06]

A Passagem de Ano Já Chegou?

À minha volta é a azáfama. Ultimam-se os preparativos para a Passagem de Ano. Sou um privilegiado. Eu sei.
Estou na cozinha, encostado à janela aberta, a fumar um cigarro, e já sinto o frio que não esteve durante a tarde mas que começa agora a chegar.
Vejo, em cima da mesa, uns frascos individuais com Panna Cotta. Alguém pôs o bacalhau a cozer em leite. Alguém está a fazer molho béchamel (Isso de comprar em pacotes já feito, no supermercado, é para meninas, ouço dizer). Dizem-me que é para o Bacalhau com Natas que vamos comer amanhã ao jantar. Eu ainda adianto que Bacalhau com Natas não é comida de Passagem de Ano, mas logo alguém me responde que a cozinha está à disposição se eu quiser cozinhar algo digno da Passagem de Ano. Eu faço um sorriso amarelo e declino o convite.
Alguém passa por mim e deposita-me um copo de gin nas mãos. Não é um copo grande, em balão, para gins modernos. Não. É um copo alto, clássico, a lembrar as noites a perder madrugadas nos idos de ’80. É Bombay, dizem-me. Aceno um agradecimento.
No fogão fritam-se batatas. Voltam a dizer-me que é para o Bacalhau com Natas. Eu aceno, entendido, a cabeça. Mas fazer Bacalhau com Natas desta forma artesanal dá muito trabalho. Eu costumo comprar bacalhau já desfiado, batata palha e béchamel em pacotes. Mas antecipo um pitéu à maneira. Que venha o Bacalhau com Natas.
Na mesa vão crescendo pequenas taças com patés vários que alguém está a fazer. Azeitonas com alho e azeite. Jaquinzinhos da Horta. Toda a gente faz coisas. Eu fumo um cigarro e observo. Alguém tem de dar conta do que se faz e contar para memória futura.
No ano de 2019, nos fundilhos da calças já gastas do final do ano, houve alguém que se deu ao trabalho de cozinhar coisas boas para eu comer.
Lanço fora a beata do cigarro já consumido e vou pôr música. Alguém tem de cuidar do que é realmente importante. Ponho o No Home Record da Kim Gordon, aquele que foi, para mim, o álbum do ano. Aumento os decibéis a rebentar as colunas e os tímpanos. Há gente a abanar a cabeça enquanto trabalha em prol dos outros.
É para amanhã? Não, também é para hoje. Também comemos hoje, não? Ou ninguém tem fome?
Descubro pudins, bolos, um Tiramisú, um Strawberry Cheese Cake, na mesa da cozinha que vejo cada vez maior e mais cheia. Só doces. Onde estão os salgados, pá? Adivinhando as minhas preces, alguém leva-me um rissol de camarão à boca. É bom, a porra do rissol. Mas desfez-se num instante. Assim como o meu gin.
Agora vou eu fazer um. Pergunto quem quer. Copos altos, elegantes. Copos do tempo. Despejo gelo. Espremo limão. 1/3 do copo de Bombay. 2/3 de água tónica. Faço a distribuição. Esta gaita é boa.
Acendo novo cigarro.
Alguém chega com camarão. Passa-o por água. Coloca numa caixa de plástico e deposita-o no frigorífico. E eu pergunto-me porquê? Por mim morria já agora aqui. Mas sigo as ordens dos outros. Às vezes esqueço-me como é viver em comunidade. Como é viver com os outros. Então tenho de fazer um esforço para não ser parvo. E fico quieto. À espera que alguém decida. Tome a razão. Agrupe as vontades. O camarão é para amanhã. Assim seja.
Outro alguém passa por mim e larga-me uma pedra nas mãos e diz Faz aí uma, se queres ver. E eu tenho um momento de pausa. O que faço ao cigarro que tenho na mão?
Mando o cigarro pela janela. Faço o charro. Acendo-o. Dou-lhe mais duas passas e passo-o ao outro. No caso, à outra. Uma das que está a trabalhar aqui na cozinha.
Depois está toda a gente a rir. Depois está toda a gente a comer. Depois alguém diz, Deixem alguma coisa para amanhã. Depois alguém estende a mão e diz-me Faz outra! e larga-me outra pedra na mão. E eu faço outra. E fumo-a. E passo-a ao lado. E já toda a gente se ri. Eu também me rio. Nem me reconheço. Depois toda a gente come. Depois alguém diz Caga na Passagem de Ano.
E ouve-se uma gargalhada geral amplificada pelos sentidos de percepção aguçados e muito sensíveis que eu tenho.
Eu sou muito sensível, ouço-me dizer. E toda a gente me ouve dizer. E toda a gente se ri. E eu também me rio de mim.
Alguém abre uma garrafa de espumante. A rolha salta e ninguém vê para onde foi. O espumante espalha-se pelo chão da cozinha. Alguém diz Que se foda a Passagem de Ano. E depois toda a gente bebe pelo gargalo. E alguém diz Tu não que tens herpes. Tenho herpes é o caralho, responde outra voz.
A garrafa circula. Alguém agarra numa esfregona e tenta limpar o chão da cozinha.
Alguém agarra-se a mim e beija-me. Sinto uns lábios a roçarem-se nos meus. Sinto uma língua a entrar dentro da minha boca. Sinto uma mão à procura do meu sexo. Ouço uma voz sussurrada dizer-me ao ouvido Feliz Ano Novo. E eu penso Mas ainda não é hoje, ou é?

[escrito directamente no facebook em 2019/12/30]

Tudo Me É, Cada Vez Mais, Impossível

Aproximo-me de mais um final de ano. Passou mais um ano. Mais um ano de merda que não deixa saudades.
Continuo a fumar um maço de cigarros por dia. Dois maços ao Sábado. Bebo uma garrafa de vinho tinto por dia. Não diminuí a quantidade mas diminuí a qualidade. Agora bebo mais barato. E não bebo antes de almoço. Como cada vez pior. Estou mais gordo. Excesso de pão. Muitos hidratos de carbono. Fritos. Cerveja. Caíram-me mais dois dentes. Andei um mês a Clonix e não resolvi nada. A minha boca é uma mina toda rebentada. Já não sei de que lado posso mastigar melhor e sem provocar dor. Estou a perder muito cabelo. Não o cortei para manter a ilusão de que continuo jovem e cabeludo. Rock’n’roll, motherfucker! Mas as entradas já são demasiado grandes para esconder, por mais que eu tente chegar-lhes cabelo para cima. Por outro lado, tenho cada vez mais pêlos a sair do nariz e das orelhas. A barba cresce de forma desordenada. Tenho algumas peladas. Os músculos dos braços estão caídos por força da gravidade. A barriga tomba por cima do cinto. O meu umbigo parece um buraco negro cada vez mais fundo e a acumular maior quantidade de cotão. A pila está cada vez mais pequena e com maior dificuldade em excitar-se. Já não a vejo cá de cima. O rabo também está com muitos pêlos e eu nem sabia que isso era possível. Tenho cada vez mais dificuldade em cortar as unhas dos pés. Maior dificuldade em me dobrar. Já não sei qual a melhor maneira para conseguir cortar as unhas. Os ataques de bronquite são cada vez mais frequentes e mais violentos. Tenho a sensação que o Ventilan já não faz efeito. Já estou à espera de ver os pulmões saltarem boca fora num ataque de tosse.
O dinheiro escorre-me pelos dedos. E só não escorre mais porque não há mais para escorrer. É só pagar. A água. A luz. O gás. O cabo. O telemóvel. A renda da casa. A prestação do carro. A prestação do computador. A prestação da máquina de lavar roupa. A prestação do frigorífico. E a sensação que quando acabar de pagar qualquer uma destas coisas estarei a precisar de as substituir. O esquentador anda a dar-me sinais. A torradeira já só funciona num dos lados. Os trabalhos que me pedem são cada vez mais espaçados. Ninguém quer pagar por coisas que não consideram. Ninguém lê. Toda a gente escreve. Ninguém quer saber de cinema. Toda a gente faz filmes. Toda a gente tira fotografias. Os grande fotógrafos já não são os que têm um olhar extraordinário, mas os melhores corpos nos sítios mais exóticos para selfies de inveja. Os fotógrafos de sucesso não estão nas revistas ou nos jornais, estão no Instagram e no Facebook.
O Continente continua a vender livros de merda. Algumas livrarias continuam a desconhecer o livro. Há quem trabalhe em livrarias como se trabalhasse num café e não precise de formação nem de conhecimento. Não sabem o que é a Douda Correria nem a Língua Morta. Desconhecem Alberto Pimenta e Vasco Gato (aqui descobrem uma edição da INCM – wow!) Mas ninguém se importa. Ninguém quer saber. A ignorância é o novo orgulho. Eu é que sou parvo. O livro é só mais uma mercadoria. E quem é que ganha?
Estou muito sedentário. Cada vez saio menos de casa. Cada vez mais a janela é o meu contacto mais directo com o mundo imediato da minha vizinhança. Mas desconheço os meus vizinhos e também não os quero conhecer.
Hoje, véspera das vésperas, dei a volta a mim próprio e saí de casa. Estou na Afficion. Estou na única esplanada do Sítio sobre a Nazaré. A melhor vista da zona. A dificuldade que é encontrar lugar numa esplanada que tem doze mesas e a melhor vista sobre a vila e o mar da Nazaré e eu estou aqui sentado. Está sol. Vejo as Berlengas lá ao fundo. Uma neblina paira sobre os Salgados. O mar, lá em baixo, está calmo. Há gente na praia mas não está ninguém a tomar banho. Não vejo o ascensor a funcionar. Já levantaram o estádio do Futebol de Praia que costuma manter-se no areal por meses a fio. Mas está montado um pequeno palco para a festa de final de ano. A Nazaré está tornada uma feira. Uma feira simpática, por enquanto. Quantas pessoas vão morrer no mar, nesta festa de final de ano?
Há muita gente a caminhar ao longo da calçada marginal. Chega-me, ao nariz, o cheiro de sardinhas assadas. Sardinhas assadas nesta altura do ano? Ontem também acordei com um manto de azedas no quintal lá de casa. Por vezes nem parece que estou em Dezembro tal a Primavera que o assaltou. Já nada me surpreende. Os meus amigos defendem Donald Trump, Jair Bolsonaro e André Ventura. Não, já nada me surpreende.
As gaivotas voam aqui à volta. Gralham muito. Não sei se ralham comigo se andam maldispostas com elas próprias. Aparece-me uma imperial aqui à frente. Bebo um gole. Dois. Sabe-se bem. Não gosto de sair de casa mas quando saio gosto de ter saído.
Vejo gente muito estranha à minha volta. Alguns até são portugueses. Ouço-as falar. Depois percebo que o estranho devo ser eu. Sou o único sozinho. O único de t-shirt. O único a fumar. Está toda a gente a comer, a petiscar, a beber vinho. Eu sou o único a beber uma imperial, a única coisa que o meu bolso consegue pagar.
Finalmente vejo os ascensores a funcionar. Vai um a descer e outro a subir. Cruzam-se a meio. Mas há também muita gente a pé. A subir a encosta pelo caminho serpenteante que vem lá de baixo até cá cima. Vejo um grupo de escuteiros a descer a encosta a pé. São um grupo grande. Com a mesma farda. Rapazes e raparigas. Vão contentes, a brincar uns com os outros. Vão a caminho de 2020. Eu também vou. Mas vou sem grande vontade.
Cai o sol. Tomba a noite. O horizonte está vermelho. Parecemos estar em Agosto. Isto anda tudo trocado. Mas que sei eu? Os inteligentes dizem que sempre foi assim e assim há-de continuar a ser. Acho que vejo as luzes de São Martinho do Porto e da Foz do Arelho. Tão longe e tão perto.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/28]

Uma Vez à Varanda da Sede da União Desportiva de Leiria

Era miúdo. Andava a brincar nas salas escuras e cheias de tralha, a subir e a descer as escadas de madeira entre os diferentes andares daquele antigo palacete que servia de Sede à União Desportiva de Leiria. Andava a brincar com outros miúdos, pequenos como eu. Os meus pais estavam na Sede. Numa daquelas inúmeras salas. Jogavam Bingo. Ou cartas. Bebiam café no bar. Uma cerveja. Liam as páginas enormes do jornal A Bola, que naquela altura saía três vezes por semana. Ou discutiam a semana desportiva da equipa de Leiria que militava na Segunda Divisão, anos antes de sonharem em subir à Primeira e poderem jogar contra o Benfica e o Sporting.
Era miúdo e andava a cirandar por entre as salas escuras, fechadas, que nós abríamos, e revirávamos tudo, fascinados com as tralhas que se acumulavam naqueles cantos, como um enorme sótão em casa dos avós que não tínhamos. Nem eu nem os outros. Naquela altura os velhos morriam antes de serem velhos e só raramente se conheciam os avós. Eu só conheci uma avó e ela morava em nossa casa e não tinha sótão para me deixar perder.
Mas ali estava eu. Perdido numa sala na semi-obscuridade, uma luz suave passava entre as portadas de madeira mal fechadas. Estava sozinho. Os outros andavam por lá, noutras salas. Ali havia vários caixotes abertos. Bandeiras. Várias bolas de cautchú muito velhas, já sem cor e vazias. Taças. Todo o tipo de taças. Copos de vidro. Pequenos. Grandes. Um vaso com flores de plástico. Pilhas de jornais A Bola velhos, com as páginas amareladas. Muito pó em todo o lado. Muito pó a voar nos raios de sol que entravam pela janela. Circulava por entre os caixotes cheios de pó. Punha um dedo e fazia um risco. Espirrei. Ouvi vozes. Parei e pus-me à escuta. Alguém falava muito alto. Mais que uma voz. Vinha da rua. Vozes zangadas.
Abri a porta da varanda. Saí. Senti o calor da rua a bater-me na cara quando o sol me atingiu em cheio. A claridade obrigou-me a fechar os olhos. Fui abrindo-os aos poucos. Devagarinho. As vozes mantinham-se lá. Eram vozes alteradas. Vozes de gente alterada. Vozes muito irritadas. Abri os olhos. Cheguei-me às grades da varanda. Agarrei-me às grades e olhei lá para baixo. Olhei para a rua.
Um homem, velho, com uma bengala na mão, ameaçava um outro homem, mais novo, brandindo a bengala no ar enquanto o outro gritava que o ia matar. A ele e à cadela da filha dele. Dou cabo de ti, cadela. De ti e desse velho. Eu mato-te, velho. E uma mulher, nova como o outro homem, tentava agarrar o velho. Impedi-lo de bater com a bengala no outro homem. Acho que a mulher estava a chorar. O homem novo tinha a camisa rasgada. A mulher estava com o cabelo desgrenhado e as meias de vidro rasgadas. O velho continuava de braço em riste a agitar a bengala. Eu agarrei-me com mais força às grades da varanda. E continuei a olhar. O homem mais novo abriu a camisa de rompante. Atirou com os botões fora. Esticou o peito para a frente. Começou a bater no peito enquanto crescia para o velho. Parecia o Tarzan. O cabelo comprido a cair-lhe pescoço atrás, até aos ombros. A mulher chegou-se à frente, colocou-se entre os dois e o homem novo bateu-lhe. Bateu-lhe com força. Deu-lhe um estalo com tanta força que a mulher cambaleou e caiu no chão. O velho carregou com a bengala sobre o homem novo que tropeçou e caiu. O velho, então, bateu com a bengala no homem novo caído até partir a bengala.
Eu estava assustado. Via-se algum sangue no chão da rua. Na estrada. Não passava nenhum carro. O velho, com um bocado da bengala na mão, baixou-se perto da mulher e gritou Filha! Filha! O homem novo conseguiu rastejar dali para fora, até ao passeio, e levantou-se. Olhou para o velho. Olhou para a mulher. Olhou em volta. Olhou em volta até o olhar parar em algo que lhe chamou a atenção. Era uma panela de escape de automóvel que estava abandonada junto ao muro que fazia o passeio até ao cruzamento lá mais à frente. Estava ali caída. O homem agarrou na panela, aproximou-se do velho, levantou a panela de escape acima da cabeça como se procurasse uma força divina e descarregou-a sobre a cabeça do velho debruçado sobre a mulher.
Ouvi um barulho seco. Pof. Acho que vi sangue a ser projectado em frente. O velho caiu sobre a mulher. Ouvi os gritos da mulher. Os gritos assustados da mulher. Vi o homem novo parado sobre o velho, com a panela de escape nas mãos sem saber o que fazer. Olhou de novo em volta. O olhar dele cruzou-se com o meu. Não sei se ele me viu, mas os nossos olhares cruzaram-se. O homem novo largou a panela de escape no chão, ao lado do velho caído sobre a mulher que não parava de gritar, histérica, passou a mão pelos cabelos, limpou as mãos com sangue ao que restava da camisa e foi-se embora. Foi-se embora a correr. Desapareceu.
Quando as primeiras pessoas apareceram na rua, o homem novo já não estava lá. O velho estava tombado sobre a rapariga que continuava a gritar. Vi os meus pais lá em baixo na rua. A minha mãe levou a mão à cara e vi-a vomitar. O meu pai amparou-a e voltaram a entrar na Sede da União Desportiva de Leiria.
Eu resolvi também entrar dentro da casa. E foi então que vi que tinha os dedos das mãos a fazer tanta força nas grades da varanda que tinha feito sangue nos dedos. Não me doía. Mas foi difícil abrir os dedos fechados sobre as grades. Quando finalmente consegui, entrei na sala, fechei a janela e desci as escadas à procura dos meus pais.
Uns anos mais tarde a União de Leiria subia, finalmente, à Primeira Divisão e eu pude ver os jogos com o Benfica e o Sporting ao vivo. A Sede do clube mudou para outro lado e eu, e os outros miúdos, deixámos de ter salas para andar a brincar.
Não sei o que aconteceu ao homem novo e à mulher. O velho, acho que morreu. Pelo menos foi o que percebi numa conversa que ouvi entre os meus pais. Depois, muitos anos ainda mais tarde, a União de Leiria também quase que desapareceu. Como o homem novo que agora já deve ser bem velho. Mais velho que o outro, quando ele o matou.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/18]

A Estrela Pop

O tipo estava na televisão. Sorridente. Uma chuva de flashes abatia-se sobre ele. Uma verdadeira estrela pop. Não sei se canta. Se alguma vez cantou. Ou se sabe de música. Talvez tenha pertencido à tuna académica nos anos do Técnico. Desculpem, do ISEG. É que é diferente. Bem diferente.
Ele estava sorridente, mas não era o sorriso idiota de quem está deslumbrado pelo reconhecimento popular. Não. Era o sorriso de quem já sabia que era a estrela. A estrela da companhia.
Eu estava ali de pé, em frente à televisão, na sala, de passagem depois de ter ido buscar um disco externo, quando fui sugado por aquela imagem. Parei. Fiquei parado a olhar para a televisão. O tipo no meio de um pequeno grupo, a sorrir, debaixo do flashes que não paravam de o iluminar, ele que colocava na sombra os outros que o acompanhavam naquele pequeno grupo, e que o ladeavam, e quase que se podia adivinhar que era um grupo pop. Uma espécie de boys & girl band.
Sentei-me no sofá. Larguei o disco externo em cima da mesa de apoio e recostei-me no sofá a apreciar.
Ainda me lembrava da primeira vez que tinha apresentado um Orçamento de Estado. Também estava a sorrir. Mas naquela altura era o sorriso idiota de quem nunca tinha imaginado chegar às luzes da ribalta, pelo menos daquela maneira, e de repente, Voilá!, aqui estou eu, brilhante! Não sei o que fazer. Não sei o que dizer. Sorrio. Não sei se o tipo tinha o sonho de ser uma estrela, mas ali estava ele. E assumia esse estrelato. E mostrava-nos que estava a brilhar. O sorriso. Aquele sorriso parvo de quem nunca se tinha imaginado ali. Aquele era o novo ministro das finanças português que, no início, se deslumbrava com a solicitação, as luzes e o reconhecimento.
Agora já não era assim. Agora já não era um ingénuo deslumbrado. Agora já era um político de nome próprio. Aquele sorriso que eu via agora, já não era o sorriso parvo do idiota, mas o sorriso convencido de quem sabe que sabe e que decide e manda. Influente. Mais que influente, decisor. Afinal, aquele era o tipo que tinha a faca e o queijo na mão. Era quem mandava. Era, realmente, quem mandava. O homem das cativações.
E ele começou a falar. Estava a apresentar o Orçamento de Estado para 2020. Foi aí que desliguei. Sofro de iliteracia económica e financeira. Para mim, o dinheiro serve para ser gasto e gasto com proveito. Tudo o resto era água do mar a escapar-se-me por entre os dedos da mão fechada. Não conseguia perceber o que era dito. Mais que isso. Não conseguia concentrar-me em nada do que ele dizia. Nunca conseguia concentrar-me em nada relativamente a contas, finanças e economia. Principalmente quando as equações tendiam a deixar de fora uma das parcelas mais importantes: o Homem. O valor do Homem. O valor da força de trabalho do Homem. O valor do homem não é displicente. Mas ninguém o chegava à equação. Então fechava-me. Desconcentrava-me. E, na maior parte das vezes, começava a pensar noutras coisas.
E foi o que aconteceu.
Logo mais à tarde o Flamengo, de Jorge Jesus, que tem um adjunto chamado João de Deus, irá jogar com o Al-Hilal, do qual o mesmo Jorge Jesus foi treinador ainda este mesmo ano. E o Flamengo irá ganhar o jogo por três a um, depois de ter estado a perder por um a zero. E depois irá defrontar o Liverpool na final. Provavelmente.
Lembrei-me do tipo que estava na televisão a falar. Já não sorria. Já estava sozinho num palanque. Havia qualquer coisa de arrogante na forma como falava de coisas que eu não entendia. Acendi um cigarro. Deixei o disco externo em cima da mesa de apoio, deixei a televisão ligada com a estrela pop a falar para o boneco e fui até à janela fumar o cigarro. E pensei Eu devia ter sido uma estrela pop. Estiquei o corpo para ficar grande. Grande e elegante. Estrelado. Mas não aguentei a postura por muito tempo. Não. Não tinha estofo para estrela pop. Não tinha o estofo de Mário Centeno.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/17]

O Silêncio do Amor

Já quase não falamos. Às vezes ouço-me grunhir qualquer concordância. Ela nem isso. Não é que não gostemos de estar um com o outro, que gostamos. Gostamos e muito. Ela foi o meu primeiro amor. Eu também acho que fui o primeiro amor dela. Mas ela nunca me disse e eu também nunca lhe perguntei.
Estamos juntos há tanto tempo que, por vezes, funcionamos como um só. Como se eu começasse a desenvolver uma ideia e ela a acabasse, mas a acabasse da mesma forma que eu acabaria. E vice-versa.
De manhã andamos por casa. Ela arruma coisas. Tem sempre coisas para arrumar, coisas que nunca imaginei desarrumadas, mas que ela vai arrumar. Para as coisas mais pesadas, limpar o pó, aspirar, passar a ferro, vem cá uma miúda a casa. É uma bielorrussa. Inteligente. Com estudos superiores mas, isto, isto de andar a tratar da casa de pessoas, foi o que conseguiu arranjar.
Enquanto ela ciranda pela casa a arrumar coisas, eu arquivo os recortes dos jornais que cortei na véspera. Pequenas histórias. Algumas opiniões. Memórias futuras. Depois vejo que filmes vão passar na televisão para eventualmente vermos, ou eventualmente eu ver e ela deixar-se adormecer logo no genérico inicial. Já era assim quando era nova, com a idade só apurou esta sua capacidade.
De manhã bebemos uma chávena de chá. Camomila. Tília. Ou outras tisanas que por vezes nos oferecem. Eu como um biscoito. Ou um bocado de pão torrado, mas não muito torrado por causa dos dentes. Ela costuma comer uns cereais. Eu nunca consegui gostar de cereais.
Depois ela vai lavar-se. A seguir lavo-me eu. Ela, entretanto, prepara o almoço. É a nossa refeição principal. Às vezes aproveitamos restos dos dias anteriores. Comemos pouco. Há sempre sobras. Comemos muito frango. Frango assado. Frango guisado. Frango cozido. Canja de galinha feita com frango. O frango é o mais barato. E gostamos de frango. Gostamos os dois de frango. Às vezes também comemos cavala. Também é barato. Eu não gosto muito mas ela tem o cuidado de fazer a cavala de mil-e-uma maneira de forma a que me seja mais agradável.
Chega o almoço. Almoçamos. Almoçamos em silêncio na cozinha. Por vezes olhamos para a rua através da janela. Por vezes ligamos uma velha televisão a preto e branco que temos na cozinha para ouvir as notícias. Mas já não temos grande interesse nas notícias. Depois levantamos os dois a mesa. Ela passa a louça por água e eu ponho-a na máquina. Fico com dores nas costas. Tenho de me esticar. Em seguida vamos à rua.
Até sairmos de casa ainda não falámos uma palavra. Passámos a manhã em silêncio. Sem música. A ouvir os passos lentos de um e outro a cirandar pela casa.
Na rua caminhamos devagar. Tentamos não cair. Uma queda, nesta idade, pode ser fatal. Caminhamos devagar. Vamos ao café. Eu bebo um descafeinado. Ela bebe um carioca de café. Estamos por ali um pouco. Às vezes chegam alguns conhecidos. Alguns amigos do passado, velhos como nós. Às vezes chegam os filhos desses amigos. Às vezes os netos. Um cumprimento breve. Um sorriso. Passa rápido. E voltamos ao nosso rame-rame. Às vezes os velhos ficam por ali também um bocado. Nessa altura alguém fala. Alguém fala um pouco. Não muito. Mas já é uma conversa. Às vezes pedaços de conversa. Conversas iniciadas no dia anterior, na semana passada, há muitos anos a caminho de uma discoteca, de um festival de Verão, de um jogo de futebol. Sim, também já tivemos uma vida como a de toda a gente. Também fomos a sítios. Também vimos coisas. Também lutámos por melhores condições. Também fizemos sexo. Fizemos. Agora sorrio à ideia de sexo.
Folheio os jornais do dia. Às vezes peço para rasgar uma folha quando a notícia me interessa e levo a folha para arquivar no dia seguinte. Olhamos as pessoas que passam. Os miúdos cheios de vida. As miúdas muito bonitas. Todos com muito cabelo revolto.
O tempo começa a arrefecer. Compramos pão e voltamos para casa. Ela deita-se um pouco sobre a cama. Eu coloco-lhe uma mantinha por cima. Às vezes adormece. Eu sento-me no sofá da sala. Ligo a televisão e, normalmente, deixo-me adormecer.
Depois jantamos qualquer coisa leve. Uma sopa. Uma torrada. Uma peça de fruta. Depois vemos um filme. Ela adormece no genérico inicial. Por vezes lá consegue ver um filme do início ao fim. Se for um filme com acção. Ou uma história de amor.
No fim do filme vamos para a cama. Vestimos os pijamas. Passamos pela casa-de-banho. Lavamos os dentes. Ela penteia-se. Eu não tenho nada para pentear. Tomamos os comprimidos que temos para tomar. Ela deita-se. Eu dou uma volta pela casa. Para ver se está tudo desligado, fechado, trancado, e quando regresso ao quarto, para me deitar ao lado dela, já ela está a dormir. Mas mal me sente deitar ao lado dela, vira-se e abraça-me. O abraço não vai durar muito tempo porque depois terá de se virar para o outro lado, e dormimos de costas um para outro porque é a melhor maneira de conseguirmos dormir. Mas aquele primeiro momento, já adormecida, em que me abraça, já vem desde o início dos tempos. E nunca não aconteceu. E eu gosto. Gosto que ela me abrace por aqueles dois ou três minutos antes de ser virar para o outro lado.
Chegámos ao fim do dia. De mais um dia. Poucas palavras trocámos um com o outro, mas não foi preciso. Já falámos sobre tudo o que tínhamos para falar. Já discutimos tudo o que tínhamos para discutir. Já sabemos o que o outro pensa. Mas só estamos bem assim. Um com outro. Um a caminhar ao lado do outro. Um a almoçar ao lado do outro. Um deitado ao lado do outro, mesmo que de costas voltadas.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/14]