A Felicidade, Nem que Seja à Bruta

Logo que me foi possível corri para casa. Fechei a porta da rua à chave e corri o ferrolho. Fechei todas as persianas e janelas da casa com excepção da janela da cozinha, a minha libertação para o fumo do tabaco – não gosto do cheiro frio das beatas de cigarro acumuladas no cinzeiro nem do que resta de fumo impregnado nos móveis, nos cortinados, na roupa.
Desliguei as luzes e fui até à varanda espreitar lá para baixo. E esperei. Durante algum tempo. E reinava o silêncio num deserto. Até que…
Até que as hordas vindas da periferia da cidade começaram a invadir as ruas, as estradas, entrando pelas portas dos poucos restaurantes e cafés e bares abertos para os receber e dar-lhes aquilo que vinham à procura, alimentação, álcool, música e muita alegria e felicidade. Tudo em doses industriais e brutalizadas. Em excesso. Até ao vómito, símbolo de que se chegou a algum lado.
Gente que não se falava, amigos desavindos, amantes atraiçoados e traiçoeiros, famílias de relações cortadas encontraram-se e percorreram juntos a cidade à procura da felicidade. Onde estás?
Não, em minha casa não. Aqui, a pouca felicidade que havia era minha e só minha. E não a partilharia com ninguém. As pessoas em grupo assustam-me. Não as quero aqui e por isso lhes fechei a porta.
Deixo-as procurar a felicidade onde quiserem, mas longe. Nas casas dos amigos, dos familiares, nas discotecas, em barracas improvisadas, debaixo de uma torneira de cerveja… Deixo-os exercer os seus rituais, mas à distância.
Daqui, daqui da minha varanda via-os passar em direcção ao vórtice da felicidade temporal: agora, neste momento, neste preciso momento, haveriam de ser felizes, mesmo que à bruta. Ou vai ou racha. Amanhã logo se veria. Amanhã logo lidariam com as frustrações, as ressacas, os arrependimentos, as tristezas misturadas ao sabor amargo que lhes empestaria a boca, os dentes, as línguas que guerrearam umas com as outras em batalhas inglórias e inúteis, em desejos frustrados, em ilusões que morreriam logo à nascença, em sexo forçado e provocado.
Não foi à chegada que eu quis sobreviver a esta invasão. Foi à partida. Quando a festa terminou e tombou como uma chuvada monumental, fria e agreste, a frustração de uma noite perdida. E agora? O que resta? O que fica? Para onde vou? Que braços me recebem? Que braços me acodem?
E quando os via partir, cabisbaixos, ressacados, cansados, tristes e invadidos de frustração, sentei-me na varanda e fumei o meu cigarro descansado, pensando que a seguir me ia deitar e sonhar que finalmente teria sobrevivido a mais uma passagem de ano sem ter cortado as veias de arrependimento e loucura.
E nem reparei no fogo de artifício. Nem nas mensagens caídas no telemóvel. Nem nas chamadas não atendidas. Nem que havia gente na minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/31]

Um Bombay Tónico com Limão Espremido

Abri as cortinas e deparei-me com o sol lá pendurado em cima. Era suposto chover. As pessoas queriam chuva. As colheitas e as barragens precisavam de chuva. A meteorologia prometia chuva. Afinal, veio sol.
Boa! Precisava de estender roupa. Não tenho máquina de secar e o estendal é curto. E para não ter de passar a roupa a ferro, tenho de a estender direita e esticada no estendal. É uma ciência.
Quando fui abrir a porta da máquina de lavar saiu lá de dentro um cheiro insuportável a bafio e humidade. A roupa estava lá há quatro dias, à espera que parasse de chover. Parou hoje. E tenho de lavar a roupa outra vez.
Voltei a colocar lá dentro outra bola de detergente e programei a lavagem para sessenta minutos, imaginando ser suficiente para tirar aquele cheiro insuportável.
Enquanto esperava pela lavagem, lavei e descasquei uma manga e comi-a. Depois tomei um duche. Vesti-me e tomei um Voltaren para as dores com que ando na perna.
A máquina ainda estava no programa.
Fiz a cama. Limpei a cozinha. Sentei-me na mesa da cozinha e esperei. Acendi um cigarro e fui acompanhando, mentalmente, o som da máquina de lavar na sua programação. A parte da centrifugação é fascinante. Estou sempre à espera que a máquina levante voo. A fumar o cigarro acabo por inalar sempre muito mais fumo. É uma resposta ao stress que me provoca.
Também olhei para a garrafa de Bombay que estava na bancada em frente, mas achei que ainda era cedo. Tinha acabado de tomar o pequeno-almoço: uma manga.
O programa acabou. Dirigi-me à máquina, abri a porta e reparei numa massa viscosa tombada na borracha da porta. Peguei-lhe, ou melhor, tentei pegar-lhe e escorreu-me pelos dedos abaixo. Era a bola de detergente que, como a máquina estava cheia de roupa e molhada, não consegui enfiá-la lá no meio, e ela acabou por cair para a porta e não lavou a roupa. O cheiro bafiento continuava lá. Que porra.
Tirei um monte de roupa para o chão, enfiei outra bola de detergente lá dentro, e voltei a enfiar a roupa que tinha retirado. E programei de novo para sessenta minutos. E ela começou naquela música que, agora, já me dava nervos. E resolvi sair de casa. Precisava de sair de casa.
Fui até ao café. Pedi uma bica mas não havia que a luz tinha faltado. Fumei um cigarro e fui dar uma volta pelo bairro.
Voltei para casa perto da hora do almoço. Pronto para pendurar a roupa.
Quando olhei para a máquina reparei que tinha umas luzes a piscar. Claro! Tinha faltado a luz e o programa abortou.
Comecei e rir que nem um tonto. Vieram-me as lágrimas aos olhos de tanto rir. Lá me acalmei e programei, de novo, a máquina, e liguei-a.
Sentei-me à mesa a pensar o que fazer para o almoço. À minha frente, na bancada, a garrafa de Bombay. E fui fazer um gin tónico com limão espremido.
A máquina de lavar fazia um barulho enervante e fui até à sala. Sentei-me no sofá. Bebi um grande golo de gin. E adormeci.
Quando acordei não ouvi o barulho da máquina de lavar. Levantei-me. Dirigi-me à cozinha e abri a porta da máquina de lavar e fui atingido por um cheiro agradável, fresco e limpo. E comecei a retirar a roupa que fui pendurando nas costas de uma cadeira. Quando olhei lá para fora, para a rua, através da janela da cozinha, vi que estava a chover. A chover!
Voltei a meter a roupa dentro da máquina. Fechei a porta e fui preparar outro gin.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/27]

Era Véspera de Natal

Era 23 de Dezembro.
Era véspera da véspera de Natal.
Ela tinha tirado o dia para tratar dos preparativos do jantar de Natal, mas levantou-se à mesma hora de sempre. Eram sete da manhã. Reinava o silêncio em casa. Os miúdos estavam de férias e era normal dormirem até ao meio-dia. Ou até alguém os acordar.
Ela fez café e bebeu-o à janela da cozinha olhando o nascer do dia. Não chovia. Parecia não estar muito frio. E parecia que o céu prometia umas abertas e, provavelmente, um sol amarelo.
Deixou a chávena do café no lava-louça e foi até à casa-de-banho. Pôs a água quente a correr. Despiu-se em frente ao espelho. Mirou-se. E sorriu. Mesmo perto dos cinquenta e ainda mantinha uma bela figura. Esbelta. Magra. Com músculos. Não muitos, mas os suficientes para evitar as peles tombadas. Ainda tinha curvas. Depois colocou a mão numa mama e apalpou-se até ao sovaco. Depois apalpou a outra mama com a outra mão e, a meio, parou num determinado ponto. Voltou à mama anterior. Repetiu o processo. Depois regressou à segunda mama. E voltou a parar ali, naquele mesmo sítio. A sua cara transfigurou-se. Pareceu envelhecer dez anos. A respiração aumentou. Sentiu faltar-lhe as forças nas pernas. Agarrou-se com força à pedra do lavatório da casa-de-banho. Respirou fundo. E entrou dentro do duche.
Nesse dia demorou-se mais que o normal no banho. Ficou muito tempo lá parada, debaixo da água quente.
Quando saiu, demorou muito tempo a limpar-se. Voltou a apalpar-se no mesmo sítio. E a angústia tomou conta da sua cara.
Foi para o quarto e vestiu-se.
Na cozinha, e antes de sair, escreveu uma nota para os filhos a avisá-los de que havia comida no frigorífico que era só aquecer e que ela deveria voltar ao final da tarde e que estaria disponível no telemóvel, e colocou a nota presa com um íman, na porta do frigorífico.
Já no carro, e no pára-arranca da cidade sempre em ebulição, telefonou ao médico, seu amigo. Ela ficou de lá passar no consultório depois de almoço, que ele arranjaria maneira de a ver.
Entretanto ela foi a uma mercearia da baixa buscar um pedaço de bacalhau que ainda teria de pôr de molho esta noite. Depois passou numa cervejaria e foi buscar uns camarões e uma sapateira que tinha encomendado. Ainda antes de almoço foi a outra mercearia, de frescos, comprar couve portuguesa e acabou a almoçar no Corte Inglés, ao balcão das tapas, acompanhando com duas imperiais, mas com vontade de enfiar a boca debaixo da torneira. Estranhamente, sentia-se com apetite. Sentia-se angustiada, mas com fome. E sede. Muita sede.
Depois do almoço passou pelo consultório do médico. Quinze minutos depois de ter chegado, o médico atendeu-a. Fez-lhe alguns exames de rotina e apalpou-a. No sítio que a tinha incomodado ele também notou alguma coisa. Mas tentou desvalorizar. No entanto, disse-lhe que ia marcar um biopsia para o dia seguinte. Na véspera de Natal?, perguntou-lhe ela. Sim!, disse-lhe ele. Para resolver as coisas o quanto antes, continuou. E pela primeira vez desde que sentiu o caroço debaixo da mama, ela deixou cair uma lágrima.
Quando voltou para casa, os filhos estavam na sala. O miúdo jogava consola com os auscultadores na cabeça. A filha lia um livro. Ela disse à filha que não se sentia bem, que encomendassem uma pizza e que tirassem dinheiro da carteira dela que ela ia para a cama. Precisava de descansar. Preciso de descansar, disse.
Mais tarde, durante a noite, ela levantou-se, abriu o frigorífico e acabou com o resto da pizza que os filhos tinham deixado. E bebeu duas cervejas.
De manhã levantou-se como habitualmente. Bebeu café à janela. Tomou banho. E deixou uma nota aos filhos presa na porta do frigorífico: Já venho.
Não foi de carro. Chamou um táxi, e foi assim que foi até ao hospital. O táxi deixou-a à entrada. Ela saiu e ficou ali parada, por momentos, a olhar para a entrada do hospital. Depois respirou fundo três vezes, e entrou.
Era 24 de Dezembro. Véspera de Natal.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/15]

Olha, Vai à Merda!

Estou à janela e fumo um cigarro. Vou mandando a cinza lá para fora, pela janela aberta. Reparei que a vizinha de baixo tem roupa pendurada no estendal, mas não me preocupo. E continuo a lançar a cinza do cigarro queimado pela janela fora. Provavelmente vai cair em cima da roupa lavada. Com um pouco de azar, vai fazer um ou outro buraco numa peça de roupa lavada. Mas não quero saber. Não me preocupa.
Mal acabo um cigarro, acendo outro na beata do primeiro.
Estou nervoso. Acho que furioso mesmo. Estou a conter-me. Mas a libertação da tensão está nas cinzas que vou fazendo tombar sobre a roupa estendida da vizinha de baixo.
Lá ao fundo, na rua, vejo passar uma rapariga com um carrinho de dois bebés. E pergunto-me como é possível sobreviver à invasão de dois pequenos ditadores a exigirem, ao mesmo tempo, atenção por fome, cocó, sono, bronquiolites, colo ou rabuje mesmo. E isto constantemente. Saio mais para fora da janela para ver a rapariga a empurrar o duplo carrinho até desaparecer, e reparo que a vizinha de baixo está a retirar a roupa do estendal enquanto vai refilando mais ou menos alto, e eu acho que é para mim. Mas não quero saber.
Quando estou a acender outro cigarro, vejo passar a voar, a um dedo de distância do meu nariz, um pano de cozinha, encharcado, que vai embater num pedaço do vidro da janela fazendo um som obsceno quando embate. E é aí, e só aí, que percebo porque é que estou nervoso e a fumar tantos cigarros. Ela está ali, no meio da cozinha, aos berros para comigo, com os olhos cheios de lágrimas, toda babada do choro, com um ar desesperado e ao mesmo tempo furioso porque não estou a ligar nenhuma ao que me está a dizer.
Foi como que um despertar para um pesadelo.
Acabo de acender o cigarro e passo por ela, ignorando a sua fúria, de que desconheço o motivo, para sair de casa, enquanto lhe digo Vai à merda!, coisa que ela nem ouviu com os berros que disparava na minha direcção e que eu também não conseguia ouvir.
É quando estou já no elevador a descer o prédio que penso que somos todos muito inteligentes e pensantes e adultos e socialmente responsáveis e correctos e, ultimamente, muito politicamente correctos, defendendo os mais fracos e as mulheres e as crianças e os mais pobres e depois, no meio de uma relação, tornamos-nos os animais que afinal nunca deixámos de ser.
Entretanto o elevador começa a apitar por eu ir a fumar. E eu digo-lhe Vai à merda tu também.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/23]

Cansado

Cheguei a casa cansado e deixei-me cair sobre o sofá. Adormeci.
Acordei algumas horas mais tarde com o som da televisão do vizinho de cima. Som de novela. Grande gritaria. Tiros. Algumas frases que já esqueci mas que me fizeram pensar que o nível dos argumentistas de televisão estava a descer muito.
Fui até à cozinha. Peguei numa faca de serrilha e cortei uma carcaça. Abri o frigorífico e retirei o pacote de manteiga. Barrei a parte de baixo do pão aberto ao meio. Comecei a comer. Fui até à janela da cozinha e pus-me a olhar para fora.
A gritaria lá em cima continuava. Malditas novelas. Maldita surdez.
Da janela da cozinha vi chegar um carro da polícia. Depois outro. Os agentes saíram rápidos dos carros e desataram a correr. Ouvi outro tiro da novela. E depois o silêncio. Os agentes passaram a correr à beira da minha porta.
Ouvi bater na porta do vizinho de cima. Depois o estrondo de uma porta a abrir-se à força.
Deixei-me cair de novo no sofá, Estava cansado. Queria que o sono me levasse para outra novela.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/22]