Na Twilight Zone

Estava em choque. Acho que estava em choque. Ou então ainda eram resquícios dos cogumelos que comi no Freedom há mais de dez anos. A alternativa era eu ser um episódio perdido da Twilight Zone e isso não me parecia muito verosímil. Por mais que a minha vida seja estranha. Por mais que eu seja um sujeito bizarro. Até porque acho que, mesmo assim, ainda sou uma pessoa e não um episódio de um programa de televisão. Se bem que, o facto de ter dito acho não me deixa muito descansado.
A verdade é que estava mesmo em choque.
A televisão não dava nada, como é costume. Uns ecos perdidos no meio da cacofonia, mas uns ecos requentados, já velhos e ultrapassados pelos desenvolvimentos mais recentes. Desenvolvimentos constantes e nada compatíveis com um serviço noticioso à hora certa. Estava tudo a acontecer em directo nas redes sociais. A revolução não será televisionada, como já tinha profetizado Gil Scott-Heron, mas será transmitida ao vivo através do Facebook e do Instagram.
Várias cidades americanas estavam a ferro-e-fogo. Manifestações de rua, algumas bem violentas, desde há uma semana, desde a morte de George Floyd. A América, Terra dos Bravos e dos Homens Livres, a tal Terra do Sonho, estava a viver um pesadelo que nos habituámos a ver noutras latitudes. O presidente americano chegou a ser escoltado pelos serviços secretos para um bunker debaixo da Casa Branca. Mais tarde, e depois de balas de borracha e gás lacrimogéneo, o presidente americano foi correr até uma igreja que fora vandalizada para, de bíblia na mão, incendiar ainda mais os ânimos das pessoas revoltadas. O bispo Michael Curry veio protestar contra essa imagem de Donald Trump de bíblia na mão. A mayor de Chicago chegou a mandar Trump foder-se.
Wow.
No Brasil as coisas não estavam melhor. A trupe de Bolsonaro começou por aplaudir uma investigação a um ex-companheiro de luta do presidente brasileiro, entretanto caído em desgraça, para logo depois ficarem furiosos, e muito irritados, ao ponto de ameaçarem, junto com a sua família, o ministro do STF responsável pelas investigações ao grupo de ódio ligado à cúpula bolsonarista, ao jeito dos gangsters como James Cagney. Ao mesmo tempo, os Anonymous, um grupo de hackers, que depois vieram dizer que afinal não eram eles, garantiam estar em posse de documentos comprometedores para Jair Bolsonaro e os filhos 01, 02 e 03, Inflávio, Carluxo e Bananinha. Numa bravata que metia Terra Plana, Marielle, pé de goiaba, copos de leite e Deus em cima de todos eles.
Ufa.
Entretanto, em Portugal, o aprendiz dos outros dois garantia que quando chegasse ao poder, ofender polícias, magistrados e guardas prisionais (estranhamente não disse nada sobre guardas alfandegários, nem dos serviços de estrangeiros e fronteiras) irá dar prisão e que, a rede social Twitter, irá deixar de ser uma bandalheira.
Fiquei parvo. Em choque. A droga anda marada.
Peguei num copo de vinho. Acendi um charro. Sentei-me no alpendre a olhar as montanhas lá ao fundo e comecei Om!… Om!…

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

[escrito directamente no facebook em 2020/06/02]

Para um Diário da Quarentena (Sexto Andamento)

Estou a contabilizar treze dias de reclusão. Na verdade estou aqui em casa como tenho estado ao longo dos últimos anos, saio para me abastecer, cuidar da minha mãe e pouco mais. A diferença é que se ia pouco a sítios de convívio, agora deixei mesmo de ir.
Não estou em quarentena, mas estou em reclusão. Uma falsa reclusão já que tenho saído de casa. Todos os dias desço a pequena alameda e vou até à estrada. Mas até os carros deixaram de passar aqui em frente. Sinto-me só, principalmente porque a minha vizinhança sonora agora é o silêncio. O silêncio e os grilos que me prometem um Verão quente, um Verão, por ventura, também recluso em casa.
Ainda se ouvem, ao longo do dia, os sinos da igreja. Talvez sejam as horas. Não sei se será mais alguma coisa. Talvez para avisar os fiéis que a missa da hora está a passar em directo na internet? Ou que está gravada para poder ser degustada como os fiéis preferirem às horas que preferirem?
Agora que me dizem para estar por casa tenho mais dificuldade em estar por cá. Quer dizer, estar, estou, mas apetecia-me não estar. É o meu desejo de ser do contra. A porra de um feitio que me leva ao não por defeito. Não vou. Não quero. Não sei. Não gosto. Foda-se!
Estou há treze dia em casa, com todas estas minhas saídas por necessidade lá pelo meio, mas ao final do dia de hoje, e depois de ter ficado toda a manhã na cama a prometer levantar-me Daqui a cinco minutos! até terem passado quatro horas e depois de ter andado toda a tarde a engonhar entre a sala e a cozinha, a ida ao alpendre para fumar um cigarro, o regresso ao quarto para arrumar alguma coisa que tenha ficado por arrumar que ando a fazer isto às mijinhas, talvez para não me cansar, talvez para ter uma desculpa para lá voltar, talvez mesmo só para me obrigar a fazer coisas ao longo do dia e não ficar com aquela sensação com que fico, afinal de contas passou-se um dia novo e inteirinho e eu acabei por não fazer a ponta de um corno.
São tempos excepcionais!, digo-me como desculpa para não ter feito o que devia ter feito, que estou em casa mas tenho coisas para fazer, coisas tão importantes como lavar as mãos e os dentes e acabo sempre por esquecer, não querer fazer, estar-me a marimbar para estes rituais que deveriam ajudar-me a manter um certo equilíbrio emocional mas acho que já estou todo quebrado e não há volta a dar.
Estou há treze dias por aqui, mas com a sensação de fim dos tempos e ao final do dia, de um dia geralmente de merda, como o dia de hoje, sento-me no sofá com um copo de vinho tinto, e descobri hoje num jornal online que os espanhóis apresentaram um estudo que revelava que tão importante como lavar as mãos e usar álcool-gel e a distância social é o copo de vinho, ligo a televisão e ponho-me a par das últimas notícias e, normalmente, acabo por ficar maldisposto.
Estou, portanto, há treze dias assim, mais ou menos por casa, mais preocupado que normalmente e sento-me no sofá com um copo de vinho numa mão, acendo um cigarro e ligo a televisão.
Hora das notícias.
Há coisas que já sei. Sei de véspera e que fui ouvindo ao longo do dia.
Sei que o presidente brasileiro é um merdas evangélico que acha esta crise que pode dizimar milhões nas favelas das principais cidades não será mais que uma gripezinha para um atleta como ele. E fui ver ao Youtube como ele é atleta. Ri-me cheio de vontade. Com esperança que o vírus acertasse no caminho.
Também sei que o presidente americano, religioso-fanático como é está preocupado com a Páscoa e o facto das pessoas não irem à missa e, acima de tudo, não gastarem dinheiro. Da família de presidentes e primeiros-ministros imbecis, o presidente norte-americano acha que a América é forte o suficiente para dar cabo do vírus chinês em duas semanas. Foi o que ele disse.
Ouvi também que o governador do Texas garante que os velhos texanos não se importarão de dar a vida pela economia do país. Nada como o templo capitalista para se apelar à fé no santo Dólar.
Sobre Itália e Espanha, já perdi a noção dos números. Estão sempre a serem actualizados e já estão para lá da minha compreensão. Isto numa altura em que a Organização Mundial de Saúde avisa que o epicentro da crise pode mudar para os EUA num prazo de duas semanas. E ainda continuo a ouvir gente afirmar que a gripe normal mata mais, muito mais. Cansado de pessoas sem formação lançarem-se à sabedoria adquirida na universidade da vida.
Por cá vamos bem lançados para entrar nos números da Europa. Ao menos que sejamos Europa nisto, já que não somos em quase nada ou, pronto está bem, não quero ser muito mau nem mal-agradecido, em pouca coisa, então que sejamos Europa nisto, mesmo que as verbas da Europa não cheguem cá como chegaram as dos anos oitenta que enriqueceu muita gente mas acabou por não afinar o país nem os seus empresários.
Vim aqui para registar o meus diários dos dias difíceis e acabei a falar do que me tem atormentado durante estes dias. Ainda por cima não é por mim que me atormento, mas pelas pessoas de quem gosto e que gostaria de não ver nestas situações de perigo.
A UEFA adiou o Europeu de Futebol. O COI adiou os Jogos Olímpicos. O Festival da Eurovisão foi cancelado. O Festival de Cannes foi adiado. Os festivais de Verão não sei o que vai ser deles. As pessoas, principalmente as mais velhas, vão continuar a morrer. Outras vão continuar a sair em grupo porque são imunes. Há muita gente que vai ser despedida. Muitas empresas, especialmente PME, que irão à falência. As pessoas podem ficar sem dinheiro para as despesas correntes. Renda da casa. Luz. Água. Gás. A fome vai chegar. As outras doenças estão a perder prioridade e podem levar outras pessoas também à morte por outros caminhos. O Estado avança com linhas de crédito através dos bancos, os únicos que não dão nada a ninguém e acabam por ganhar com a crise. As concessionárias das auto-estradas podem vir a ser indemnizadas por falta de utentes e a Padaria Portuguesa pede ajuda ao Estado para pagar mal e porcamente aos seus empregados. Acho que estou a assistir em directo ao fim do neo-liberalismo.
Estou aqui sentado há um tempo no sofá com o copo de vinho ainda intacto na mão e o cigarro inteiro transformado em cinza pronto a tombar sobre o tapete. Na televisão passam anúncios publicitários e nem percebo a quê e pergunto-me quem será o público-alvo. Estou um pouco perdido nos meus dias. Preciso de me colocar em ordem.
Amanhã vai ser um dia mais organizado.
Amanhã vai ser um dia melhor.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/25]

Não Gosto

não gosto de dias frios em que não possa caminhar junto ao mar, nem de silêncios forçados e choros de tristeza, não gosto de flores mortas nem de plástico, de árvores arrancadas pelas autarquias e florestas ardidas, não gosto de ver crianças despidas, rotas e com fome, nem crianças a trabalhar quando deviam estar a brincar, não gosto da traição, da mentira e da ganância como também não gosto de quem não gosta de nada, não gosto de massada de peixe, de açorda com alho, ensopado de borrego, tofu e seitan, mas como, que remédio tenho se não comer, e também não gosto de cerveja morta nem de garrafas de vinho vazias, de água morna e café frio e muito menos queimado nem de pastéis de nata muito doces, não gosto da minha neura nem do meu tédio mas não lhes consigo fugir, especialmente ao domingo, um dia de que não gosto, dia de ir à missa, a que já não vou, mas ia em novo para estar com as miúdas giras da minha rua, e também não gosto da segunda-feira nem da terça, nem de nenhum dos outros dias da semana quando tenho de fazer tudo aquilo que não quero nem me apetece nem gosto, e também não gosto nada de fascistas nem de comunistas, não gosto de quem quer mandar em mim como se recebesse um contrato divino, e não gosto do liberalismo económico nem do desespero a que vota a maior parte dos homens, mulheres e crianças que não são empreendedores, porque nem todos podemos ser empreendedores e para uns serem outros não podem ser, e sim, também não gosto de ter de ser empreendedor, e não sou, também não gosto de ler livros com folhas dobradas, riscadas ou rasgadas, nem com areia da praia na cota, e é por isso que não levo livros para a praia, também não gosto de ouvir música em streaming, nem de ver filmes no computador, e não gosto que queiram que seja igual a toda a gente que se parece, nem gosto de ter respeitinho por quem não o merece, nem de maços de cigarro vazios e muito menos da carteira vazia, leve e vazia, não gosto de pão do pingo doce no dia seguinte nem da banana muito pisada, não gosto das manchas de bolor nos meus casacos nem nos tectos da casa-de-banho, não gosto que façam mal aos animais e muito menos às pessoas, em especial às mais frágeis, não gosto mesmo nada de déspotas nem de idiotas e por isso não gosto do trump nem do bolsonaro do maduro do putin ou do boris johnson, não gosto das chamadas insistentes das operadores de telecomunicação para me vender mais um pacote muito em conta quando se aproxima a data do fim da fidelidade, e também não gosto do bife muito bem passado, nem da pasta empapada, não gosto de ir às finanças, à segurança social ou ao banco, nem a lado nenhum cheio de burocratas acéfalos que não ouvem um pedido de ajuda, e não gosto de ter frio na cama e de dormir sozinho nessas noites, também não gosto quando ejaculo precocemente, quando vomito, embebedo e fico maldisposto, não gosto de calçar sapatos nem botas, nem de usar fato e gravata, também não gosto de um dia vir a ser careca, mas antes sê-lo, e sê-lo bem rapadinho, que atravessar a cabeça, de um lado ao outro, com meia dúzia de cabelos, não gosto de cortar as unhas nem as das mãos nem as dos pés, nem de fazer a barba nem de me pentear, não gosto dos ataques de bronquite nem os de asma, não gosto de me constipar nem de espirrar para cima das outras pessoas, muito menos gosto que me falte o colo da minha mãe quando estou doente, e não gosto que não compreendam que quando estou doente estou quase a morrer mesmo que não seja verdade, e já não gosto de acampar mas já gostei quando era mais novo e menos burguês, também não gosto de tunas académicas nem do quim barreiros, de música pimba em geral e dos modern talking em particular mesmo que sejam alemães e até se expressem muito bem em inglês, e também não gosto de ver novelas brasileiras, mas já gostei, nem das portugueses, mas já vi, nem gosto do prós e contras nem de nenhum dos programas de futebol em que só se fala e grita e injuria e afinal ninguém joga, também não gosto quando dizem mal do cinema português que até é muito bom e o que falta é criação de públicos e pessoas informadas e cultas para depois não votarem em políticos boçais e burros, não gosto que haja dinheiro para bancos e não para a cultura, não gosto no que as cidades se estão a tornar nem da visão mercantilista de quem as governa, não gosto da lama que me prende o passo nem da laje que me faz escorregar, não gosto da ignorância e não me importo que não gostem de mim

[escrito directamente no facebook em 2020/01/08]

Tudo Me É, Cada Vez Mais, Impossível

Aproximo-me de mais um final de ano. Passou mais um ano. Mais um ano de merda que não deixa saudades.
Continuo a fumar um maço de cigarros por dia. Dois maços ao Sábado. Bebo uma garrafa de vinho tinto por dia. Não diminuí a quantidade mas diminuí a qualidade. Agora bebo mais barato. E não bebo antes de almoço. Como cada vez pior. Estou mais gordo. Excesso de pão. Muitos hidratos de carbono. Fritos. Cerveja. Caíram-me mais dois dentes. Andei um mês a Clonix e não resolvi nada. A minha boca é uma mina toda rebentada. Já não sei de que lado posso mastigar melhor e sem provocar dor. Estou a perder muito cabelo. Não o cortei para manter a ilusão de que continuo jovem e cabeludo. Rock’n’roll, motherfucker! Mas as entradas já são demasiado grandes para esconder, por mais que eu tente chegar-lhes cabelo para cima. Por outro lado, tenho cada vez mais pêlos a sair do nariz e das orelhas. A barba cresce de forma desordenada. Tenho algumas peladas. Os músculos dos braços estão caídos por força da gravidade. A barriga tomba por cima do cinto. O meu umbigo parece um buraco negro cada vez mais fundo e a acumular maior quantidade de cotão. A pila está cada vez mais pequena e com maior dificuldade em excitar-se. Já não a vejo cá de cima. O rabo também está com muitos pêlos e eu nem sabia que isso era possível. Tenho cada vez mais dificuldade em cortar as unhas dos pés. Maior dificuldade em me dobrar. Já não sei qual a melhor maneira para conseguir cortar as unhas. Os ataques de bronquite são cada vez mais frequentes e mais violentos. Tenho a sensação que o Ventilan já não faz efeito. Já estou à espera de ver os pulmões saltarem boca fora num ataque de tosse.
O dinheiro escorre-me pelos dedos. E só não escorre mais porque não há mais para escorrer. É só pagar. A água. A luz. O gás. O cabo. O telemóvel. A renda da casa. A prestação do carro. A prestação do computador. A prestação da máquina de lavar roupa. A prestação do frigorífico. E a sensação que quando acabar de pagar qualquer uma destas coisas estarei a precisar de as substituir. O esquentador anda a dar-me sinais. A torradeira já só funciona num dos lados. Os trabalhos que me pedem são cada vez mais espaçados. Ninguém quer pagar por coisas que não consideram. Ninguém lê. Toda a gente escreve. Ninguém quer saber de cinema. Toda a gente faz filmes. Toda a gente tira fotografias. Os grande fotógrafos já não são os que têm um olhar extraordinário, mas os melhores corpos nos sítios mais exóticos para selfies de inveja. Os fotógrafos de sucesso não estão nas revistas ou nos jornais, estão no Instagram e no Facebook.
O Continente continua a vender livros de merda. Algumas livrarias continuam a desconhecer o livro. Há quem trabalhe em livrarias como se trabalhasse num café e não precise de formação nem de conhecimento. Não sabem o que é a Douda Correria nem a Língua Morta. Desconhecem Alberto Pimenta e Vasco Gato (aqui descobrem uma edição da INCM – wow!) Mas ninguém se importa. Ninguém quer saber. A ignorância é o novo orgulho. Eu é que sou parvo. O livro é só mais uma mercadoria. E quem é que ganha?
Estou muito sedentário. Cada vez saio menos de casa. Cada vez mais a janela é o meu contacto mais directo com o mundo imediato da minha vizinhança. Mas desconheço os meus vizinhos e também não os quero conhecer.
Hoje, véspera das vésperas, dei a volta a mim próprio e saí de casa. Estou na Afficion. Estou na única esplanada do Sítio sobre a Nazaré. A melhor vista da zona. A dificuldade que é encontrar lugar numa esplanada que tem doze mesas e a melhor vista sobre a vila e o mar da Nazaré e eu estou aqui sentado. Está sol. Vejo as Berlengas lá ao fundo. Uma neblina paira sobre os Salgados. O mar, lá em baixo, está calmo. Há gente na praia mas não está ninguém a tomar banho. Não vejo o ascensor a funcionar. Já levantaram o estádio do Futebol de Praia que costuma manter-se no areal por meses a fio. Mas está montado um pequeno palco para a festa de final de ano. A Nazaré está tornada uma feira. Uma feira simpática, por enquanto. Quantas pessoas vão morrer no mar, nesta festa de final de ano?
Há muita gente a caminhar ao longo da calçada marginal. Chega-me, ao nariz, o cheiro de sardinhas assadas. Sardinhas assadas nesta altura do ano? Ontem também acordei com um manto de azedas no quintal lá de casa. Por vezes nem parece que estou em Dezembro tal a Primavera que o assaltou. Já nada me surpreende. Os meus amigos defendem Donald Trump, Jair Bolsonaro e André Ventura. Não, já nada me surpreende.
As gaivotas voam aqui à volta. Gralham muito. Não sei se ralham comigo se andam maldispostas com elas próprias. Aparece-me uma imperial aqui à frente. Bebo um gole. Dois. Sabe-se bem. Não gosto de sair de casa mas quando saio gosto de ter saído.
Vejo gente muito estranha à minha volta. Alguns até são portugueses. Ouço-as falar. Depois percebo que o estranho devo ser eu. Sou o único sozinho. O único de t-shirt. O único a fumar. Está toda a gente a comer, a petiscar, a beber vinho. Eu sou o único a beber uma imperial, a única coisa que o meu bolso consegue pagar.
Finalmente vejo os ascensores a funcionar. Vai um a descer e outro a subir. Cruzam-se a meio. Mas há também muita gente a pé. A subir a encosta pelo caminho serpenteante que vem lá de baixo até cá cima. Vejo um grupo de escuteiros a descer a encosta a pé. São um grupo grande. Com a mesma farda. Rapazes e raparigas. Vão contentes, a brincar uns com os outros. Vão a caminho de 2020. Eu também vou. Mas vou sem grande vontade.
Cai o sol. Tomba a noite. O horizonte está vermelho. Parecemos estar em Agosto. Isto anda tudo trocado. Mas que sei eu? Os inteligentes dizem que sempre foi assim e assim há-de continuar a ser. Acho que vejo as luzes de São Martinho do Porto e da Foz do Arelho. Tão longe e tão perto.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/28]

Que…

Estou à espera. Estou sempre à espera. Não sei bem de quê. De qualquer coisa. Acho que espero qualquer coisa que aconteça. Que chegue. Que se faça anunciar. Mas não acontece nada. Não se passa nada. Não chega nada. Nada de nada.
E eu continuo. Continuo à espera.
Não sei…
Que a minha mulher deixe de ter dores de cabeça.
Que a minha filha me telefone.
Que o meu filho não me ignore.
Que a minha mãe não morra.
Que o meu pai ressuscite.
Que eu tenha trabalho, dinheiro e saúde.
Que me saia o Euromilhões.
Que consiga escapar à Sida, à Hepatite e ao Cancro.
Que esta ferida no lábio não seja Herpes.
Que o Linic funcione e deu deixe de ter caspa.
Que o vinho nunca se me acabe.
Que a bronquite não me impeça de continuar a fumar.
Que eu não perca a capacidade de dançar.
Que eu não deixe nunca de gostar de música. Fazer filmes. Escrever estórias.
Que não perca nunca a capacidade de me surpreender e de me apaixonar.
Que o Benfica ganhe a Liga dos Campeões.
Que alguém, que não eu, chegue a Marte, não sem antes deixar a Terra em condições de funcionamento para os vindouros.
Que parem de usar combustíveis fósseis.
Que utilizem o calor do sol e a força das ondas.
Que a banana da Madeira continue saborosa.
Que nunca se acabe a Tosta de Galinha da Geliz.
Que Bolsonaro tenha chatos e Trump piolhos.
Que desapareçam as caixas de comentários.
Que tenham urticária todos aqueles que vão destilar ódio para as redes sociais.
Que ninguém gaste um tostão na Black Friday. Nem dê prendas no Natal.
Que toda a gente queira um abraço e toda a gente o consiga dar.
Que Amo-te signifique alguma coisa.
Que humanidade também.
Que os cães e os gatos sejam felizes uns com os outros.
Que acabem as mortes no Mediterrâneo. Que acabem os combates parvos e idiotas que só servem a gente mesquinha e gananciosa.
Que o Corto Maltese continue a ter grandes aventuras. E o Tintim também.
Que eu volte a ter paciência para ler Os Cinco e Os Sete.
Que haja sempre alternativa.
Que eu deixe de estar à espera do que nunca vai chegar, do que nunca vai acontecer.
Que eu seja tudo, a Noite e o Dia a Pergunta e a Resposta o Alfa e o Ómega a Vida e a Morte.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/02]

O Conformista

Levanto-me tarde. Levanto-me tarde porque não tenho porque me levantar cedo. E levanto-me tarde porque já não conseguia mais estar na cama. Se não, continuava em directa até amanhã de manhã, hora de me levantar, aí sim, para cumprir prazos, obrigações e promessas. Hoje não. Hoje levanto-me porque estou farto de estar deitado.
Visto qualquer coisa que está ali à mão. Ali, caído sobre a pequena poltrona que tenho no quarto e onde nunca me sentei. Umas calças de fato-de-treino, umas meias, um t-shirt. Vou até à cozinha. Fico ali em pé, no meio da cozinha, a tentar perceber o que é que fui ali fazer. Sinto-me um pouco perdido no dia e na casa. Parte de mim continuou na cama. Não sei que dia é. Coço a cabeça. Penso que tenho de voltar a comprar champô para a caspa. Talvez Linic. Como o Ronaldo. O CR7. Coço o rabo e percebo que estou sem cuecas.
Chego-me à janela. A luz está baixa. Mas não deve ser muito tarde. Ligo a televisão da cozinha. Jorge Jesus e a equipa do Flamengo está em todo o lado. Em todos os canais. Até parece que é o Benfica. Que me importa a mim o Flamengo? O Jorge Jesus, fico contente por ele. Acho que ele nunca ficou contente por mim. Eu também nunca fiz nada merecedor de tal honraria. A minha vida é miserável. Não tenho história. Onde está a minha Taça dos Libertadores?
Faço café. Vejo que passa um pouco das duas da tarde. Costumo ver o Leste Oeste, com o Nuno Rogeiro, a esta hora na SIC Notícias. Já percebi que não vou ver. O futebol é poderoso. Come tudo o resto. Já vi o Pedro Santana Lopes a abandonar um estúdio de televisão, por ter uma entrevista interrompida, por causa da chegada de José Mourinho ao aeroporto. Na altura achei que o Santana Lopes tinha razão. Continuo a achar. O futebol mexe com muito dinheiro e é importante. Sim, é certo. Mas é só futebol. É só a porra do futebol. Nada mais que isso. Um jogo. E quanto mais penso nisso mais entendo que a televisão, os programas de televisão, as ideias transmitidas pela televisão, os programas que os programadores decidem que é o que o povo quer ver na televisão, é a grande responsável pelo nivelamento, por baixo, da exigência social e política do país. Dos países.
Enquanto espero pelo café olho para a rua. A luz baixa e cinzenta deprime-me. Vejo a cidade deprimida. A cidade está vazia. Não há ninguém na rua. As pessoas devem estar por casa. Solitárias nas suas casas. Cada um agarrado ao seu computador, ao seu tablet, ao seu smartphone. Filhos e pais de costas voltadas. Amantes desencontrados. Gente sozinha, mesmo que na companhia de corpos presentes, mas tão distantes quanto o alcance da rede.
Acendo um cigarro. Eu preciso sempre de um cigarro. Algumas amigas chateiam-me com o facto de fumar. Que me faz mal. Que é um erro social. Que é um compromisso que não devia ter. Não lhes ligo. Estou em casa. Estou sozinho em casa. Não incomodo ninguém. É estranho que sejam só raparigas a chatearem-me por causa do tabaco. Talvez porque gostem mais de mim. Talvez porque sejam mais controladoras.
Encho uma caneca com café. Sento-me na mesa da cozinha. Vou olhando para a loucura instalada no Rio de Janeiro enquanto se aguarda a volta de honra dos vencedores pela cidade. Tanta gente nas ruas. Tanta gente a aplaudir. Tanta gente a partilhar a glória da vitória. E pergunto-me onde estava esta gente quando Jair Bolsonaro ganhou as eleições deste país-continente? Um presidente que glorifica a ditadura e a tortura da ditadura.
Desligo a televisão. Acabo de beber o café. Vou à sala procurar um livro para ler. Apetece-me ler. Cai-me nas mãos O Conformista do Alberto Moravia. Nem de propósito. É o que somos. O que queremos ser. E por momentos penso que, afinal, Alberto Moravia escrevia sobre o futuro e não sobre o presente. Andamos ainda, e sempre, a aprender.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/24]

O que o Gato Pensa de Mim

Hoje já acendi a lareira. Está frio. Já sinto frio.
Estou à janela de casaco de malha vestido. Fumo um cigarro e olho lá para fora. Vejo as chaminés da fábrica lá ao fundo. As chaminés deitam um fumo branco. Não sei o que é que aquela fábrica produz. Já lá passei tantas vezes e nunca lá vi muito movimento. Mas a fábrica está quase sempre a laborar. Deve ser automatizada. Não sei o que produz.
Está a chover, lá fora.
Há alguma neblina. Não consigo ver os cumes das montanhas lá à frente, depois da fábrica.
Um dos gatos vem para junto de mim. Roça-se nas pernas num movimento infinito a fazer oitos entre uma perna e outra. Depois dá um pulo e vem para o parapeito da janela. Fica ali a olhar para mim. Como se estivesse à espera que eu lhe dissesse alguma coisa. O que é que queres, gato? Mas o gato não quer nada. Vira-se para a rua e fica ali, como eu, a olhar a chuva a cair e à procura das montanhas escondidas entre a neblina que se instalou lá ao fundo.
Ouço o barulho da lenha a crepitar na lareira. Viro-me para trás. Gosto de ver as chamas a queimar.
Penso na semana que passou. O mundo todo condensado em meia-dúzia de linhas. Trump a caminho da destituição. A criança encontrada no caixote do lixo. A casa oferecida ao sem-tecto que encontrou a criança. A condenação generalizada da jovem mãe que deixou a criança no caixote do lixo. A derrota, mais uma, do Benfica na Liga dos Campeões. A libertação de Lula no Brasil. O silêncio ensurdecedor de Bolsonaro. A troca de palavras azedas entre Joacine e Daniel Oliveira. O Sérgio Conceição que se está a cagar. Assim, com estas letras todas Estou-me a cagar! Diz ele em directo e em conferência de imprensa. O mundo está doente. Eu também estou a cagar para muitas destas coisas. Mas eu estou aqui em casa e ninguém me paga para fazer outras coisas que não seja dizer que se está a cagar.
Viro-me de novo para a rua. O gato continua sentado no mesmo sítio a olhar a chuva lá fora. Agora chove mais. E com mais força. Agora não vejo as chaminés da fábrica. A chuva é muita. Mas vejo uma luz vermelha a piscar. A avisar que existe altura. Que as chaminés estão lá. Mesmo que eu não as veja.
Penso que vivemos tempos muito peculiares. Mas penso logo de seguida que sempre foi assim. Os tempos são sempre muito peculiares. Difíceis. Complicados. Mas é sempre assim. Todo o tempo. Nós é que tendemos a achar que é no agora que as coisas se complicam. Às vezes é.
O cão está lá fora à chuva a olhar para mim. Para mim e para o gato. Deve querer entrar. Mas agora está molhado. Chamei-o antes da chuva começar a cair. Para vir para dentro de casa. Os gatos vieram. Ele preferiu andar a laurear-a-pevide. Se calhar com alguma cadela da vizinhança distante. É um cabrão, este cão. Agora não te abro a porta, digo-lhe através do vidro duplo da janela. Ele não ouve o que digo. Mas percebe. Ele percebe que está molhado e não o vou deixar entrar. Não tarda vai deitar-se no chão, à chuva, a rebolar, de olhos tristes, para me fazer condoer. Mas eu não vou cair nessas brincadeiras emotivas, estás a ouvir, cão?
Viro-lhe as costas. Volto a olhar a lareira. Lanço para lá o resto do cigarro. E digo para mim, Vou abrir-lhe a porta. Ele vai querer vir deitar-se junto à lareira. E olho de relance o gato e percebo que me está a chamar Conas! Sim, eu sei o que é que o gato pensa de mim. Aquele gato em especial.
Continua a chover.
E já faz frio.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/09]