A Mãe, às Voltas, no Recinto em Fátima

Eu conheci-a há uns anos, em Fátima. Eu estava lá a tirar umas fotografias. Ela andava lá de joelhos. Era uma daquelas mulheres a pagar promessas. Qualquer coisa que tivesse pedido a Deus. Qualquer coisa que tivesse recebido. E agora o pagamento. De joelhos à volta do recinto. Pedi-lhe autorização para a fotografar. Ela anuiu. Prometi-lhe um café. E assim foi.
No fim das suas voltas. No fim das minhas fotografias. Um café. E conversa.
Fiquei a saber o que a levara ali. Não era nenhuma promessa. Não estava a pagar nada. Não tinha pedido nada. Estava a crucificar-se. Culpada, cumpria a sua penitência.
E depois, contou-me sua história. Talvez para ilustrar a fotografia que tirei. Talvez para se justificar. Talvez para exorcizar a sua vida.
Era uma mão solteira. Vivia com o filho de 13 anos. Vivia para o filho de 13 anos.
Todos os dias, antes do filho se levantar, aquecia uma caneca de leite com chocolate, e ia levá-la à cama dele. Ele era assim acordado para o dia. Quando chegava à cozinha já lá estava a mochila da escola preparada. Uma malga com cereais. Um saco de plástico com duas sanduíches para o resto do dia. Uma de fiambre de peru. Outra de queijo flamengo. Ambas com manteiga.
Ao fim-do-dia, quando ele regressava a casa, a mãe tinha sempre um bolo caseiro, de pão-de-ló, à espera dele. Quando não era um bolo, era uma salada de frutas, mas cortada momentos antes e sem adicção de sumo nem de açúcar.
Mais tarde estaria feito o jantar. Invariavelmente carne, que o filho não gostava de peixe. Um mimo para sobremesa. Depois, à noite, enquanto o filho via um bocado de televisão ou ia dormir, a mãe passava a roupa dele a ferro. Cerzia umas meias. Dobrava as cuecas.
Antes de se ir deitar ainda ia levar uma caneca de leite quente ao filho que não adormecia sem o estômago quentinho e saciado.
Aos fins-de-semana ia com o filho ao cinema. Às vezes ao circo. Lanchavam fora. Às vezes a mãe aproveitava para ir com ele às compras. Umas calças. Uma camisola. Umas sapatilhas. Um jogo para a consola.
Chegavam a casa, o filho ia experimentar o jogo novo. A mãe ia pôr uma máquina a lavar roupa. Depois preparava o jantar.
Quando era bife de vaca, ou uma bifana de porco, a mãe cortava-lhe a carne aos bocadinhos. Tirava-lhe a gordura. Tirava-lhe o nervo. O frango assado só tinha pernas e asas. Que ele gostava de comer à mão. O resto do frango, o peito, a mãe utilizava para fazer outras coisas que ele acabava por comer. Umas quiches. Umas tostas. Uma pasta no forno com molho bechamel. No arroz de ervilhas tirava as ervilhas. No arroz de cenoura tirava todos os pedaços de cenoura. Na canja não podia lá deixar as moelas, o fígado ou o coração.
Aos Domingos, a mãe incentivava-o a sair. A ir brincar para a rua. A ir ter com os amigos do bairro. Mas o filho ficava o dia todo em pijama no sofá a jogar na consola. E ela acabava por gostar da companhia. Aproveitava e limpava a casa. O quarto do filho. Apanhava a roupa que ele deixava caída pelo chão. As latas de Coca-Cola acumuladas na secretária. Os pacotes vazios de Filipinos. As migalhas dos Oreos. As várias sapatilhas espalhadas.
Um dia a mãe conheceu alguém.
Um dia a mãe conheceu melhor alguém lá do trabalho. Era ainda uma mulher nova e bonita. Ainda era bonita a mulher que estava à minha frente, no café. Uma mulher bonita mas triste. Mas muito bonita. De olhos brilhantes.
Bom, a mãe conheceu alguém e foi passar um fim-de-semana fora.
A mãe deixou todas as refeições preparadas. Todas as refeições em embalagens individuais no frigorífico. Era só aquecer cada uma delas no micro-ondas. A roupa para cada um dos dias do fim-de-semana empilhada na cadeira do quarto do filho. Caso ele quisesse ir ter com o vizinho do andar de cima. Eram amigos. Andavam na mesma turma na escola. A mãe avisou a vizinha. Que ia sair. Que o filho ficava sozinho. Que fosse lá ver dele. Que lhe desse uma ajuda se fosse necessário.
A mãe passou o fim-de-semana isolada. Foi para uma cabana nas montanhas. Houve um temporal. As comunicações foram cortadas. As estradas também. O fim-de-semana transformou-se numa semana.
A vizinha de cima foi para o hospital com o filho, atropelado à porta de casa por um condutor bêbado. Nunca mais se lembrou do filho da vizinha.
O filho passou o fim-de-semana deitado na cama. E a semana. E foi assim que a mãe o foi encontrar quando regressou na outra Segunda-feira de manhã, quando finalmente abriram as estradas e deixaram de estar presos na montanha.
Tentou telefonar mas ninguém atendeu. Nem o filho. Nem a vizinha. Mal chegou a casa correu para o quarto dele. Ele estava deitado na cama. Rodeado de merda. Inanimado. Morto.
A mãe entrou no quarto e foi abrir a janela. O quarto exalava um cheiro que não se podia. Um cheiro a merda. Um cheiro a podre. Um cheiro a morte.
O filho estava morto. Ela gritou. O amigo com quem tinha estado isolada na montanha abraçou-a. Ela afastou-o. Deitou-se sobre o filho. Sobre o corpo do filho. Sobre o corpo cheio de merda do filho. O amigo telefonou para as emergências. Para a polícia. Para o trabalho de ambos. Para a escola do rapaz. Depois foi-se embora. A mãe estava abraçada ao filho. Nem os para-médicos, nem os bombeiros, nem a polícia conseguiram afastar a mãe do corpo frio do filho.
Mais tarde, e depois da autópsia e de todas as perícias, ela soube o que, provavelmente, acontecera.
O filho estava sozinho em casa. Ninguém lhe levara o leite à cama. E ele não podia sair de casa sem beber o leite com chocolate na cama, sinal que podia levantar-se e sair de casa. A comida no frigorífico não apareceu quente na mesa. Esteve uma semana inteira sem comer e sem beber. Não saiu de casa para ir à escola nem para ir ao vizinho de cima. O vizinho de cima estava no hospital e a mãe dele nunca mais se lembrou do miúdo. Da escola telefonaram à mãe mas o telefone estava sem rede. Na verdade, o miúdo enfiou-se na cama e acabou por nunca mais sair de lá. Mesmo para fazer as necessidades. Ele ficou na cama à espera da mãe. Mas a mãe nunca mais chegou. Ou chegou, mas chegou tarde.
A mãe sentiu-se culpada. A mãe sentiu que foi tudo por ter querido um fim-de-semana de luxúria quando devia ter ficado a tomar conta do filho.
Isto é o que ela pensava.
As autoridades não pensavam o mesmo. Tudo tinha sido fruto das circunstâncias.
A mãe entrou em depressão. Foi internada. Acompanhamento psiquiátrico.
Há um mês que estava de regresso à vida. Virou-se para a religião. Não para a Igreja. Para a religião, mesmo. Sem intermediários. E estava a tentar sobreviver. Ultrapassar a culpa.
Era a primeira vez que falava sobre o assunto.
Eu não soube o que dizer.
Queria sair dali, mas não sabia como. Tive de esperar que fosse ela a ir embora. E assim foi.
Hoje, ao abrir o jornal da cidade, descobri que tinha morrido. Foi encontrada morta num banco de jardim nas margens do rio. Estava já morta há algum tempo quando foi encontrada. Parece que se sentou no banco à espera da morte.
Foi a fotografia dela, de joelhos no recito em Fátima, que me deu o meu primeiro prémio de fotografia.
Chorei quando vi a notícia da sua morte. Chorei mais ainda quando lembrei a sua história.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/09]

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Na Linha do Oeste

Apanhei o comboio nas Caldas da Rainha. Queria fazer a Linha do Oeste. Uma desgraça de Linha. Poucos comboios. Poucos horários. Uma Linha abandonada. Gente abandonada. Uma terra abandonada. É o abandono do interior Litoral. Mas só pelo comboio. É uma terra cheia. Farta. Toda a gente tem carro. Aceleram pelas auto-estradas que as servem. A1. A8. E os outros?
Apanhei o comboio nas Caldas da Rainha. Queria ir para norte. Para onde me levasse. Não tinha destino. Queria ir. Só.
Apanhei o comboio nas Caldas da Rainha. De phones nos ouvidos. Uma mixtape em formato digital. AAC. Sentei-me. O comboio arrancou. Tive de trocar de banco. Estava sentado ao contrário. Comecei a ver o mundo a fugir de mim, quando o que eu queria era abraçá-lo. Às vezes dá-me para isto. Para a lamechice.
Sentei-me de frente, portanto. Abri os braços e deixei vir a mim o mundo. O mundo que me vinha era ali as bordas da zona saloia. Já quase não era. Estava no Oeste. Acho que na Beira Litoral que, afinal, parece que já não existe. Gosto de ver estas paisagens. São paisagens sujas. Cheias de ruído imagético. Nunca se está verdadeiramente isolado. O campo tem sempre gente. Há sempre uma casa. Um terreno lavrado. Um pinhal. Uma pequena floresta. E casas. Sempre casas. Vizinhança à distância. Mas vizinhança. Não se está só. Não se está sozinho. Só o comboio é uma miragem. E eu numa. Numa miragem. Eu sou uma miragem. Não existo. Imagino-me.
Levantei-me do banco. Abri a janela. Uma das liberdades do isolamento da Linha do Oeste. As janelas ainda abrem. Fui fustigado pelo vento. Soube-me bem. Ar frio. Era final de dia e eu ali, na zona do Valado, via o sol colocar-se atrás das árvores e acompanhar-me, num enorme travelling, durante alguns minutos, a descobrir-se e esconder-se, como se brincasse comigo às escondidas.
Nos phones percebi a chegada de Benjamin Clementine. E lembrei-me como o descobri, por acaso, quando estava a roubar umas músicas através de um blog na net. Era uma aposta do blog. Uma sugestão. E que sugestão! Um tipo com corte de cabelo esquisito e um som de piano de morrer. Roubei-o. Roubei-o logo. Mostrei-o. Falei dele. Ninguém conhecia. Ninguém tinha ouvido falar. Ninguém com muita paciência para as minhas descobertas. Ninguém com muita paciência para as minhas apostas. Um ano ou dois, depois, concertos esgotados. Toda a gente a fazer fila para o ver ao vivo. A grande descoberta da indústria. Muitos deles já o esqueceram. Eu ainda funciono com listas. Repito-as. E não esqueço o que gosto. Estou sempre em reciclagem. De vez em quando regresso. Não deixo morrer a memória. Mesmo a recente. Então, foi esta.
E que bem que encaixava ali. O piano de Clementine e o sol a piscar por trás das árvores do Oeste. Um clip de vídeo em directo e em tempo real.
O sol acabou por cair rapidamente. A luz foi-se. A noite chegou. Mas ainda era cedo. Uma luz nocturna em horário de diurno. A porra do Inverno rouba-nos a luz. Lá fora, nos campos do Oeste, pequenos pontos de luz não deixavam implantar a escuridão. Nunca há completa escuridão. Nunca há deserto. Nunca há solidão. Há sempre vida no Oeste.
Até onde iria o comboio? Já não sabia onde estava. Tinha parado várias vezes, em estações e apeadeiros. Tinha perdido a noção do espaço, perdido no tempo a partir do momento em que a noite caiu. O exterior é sempre o mesmo, mesmo na lonjura do espaço. Mas sabia que teria de passar por Leiria. Sabia que tinha de chegar à Figueira da Foz.
E foi então que entrámos numa estação. Eu estiquei-me pela janela para ver o nome. Para ler onde estava. E vi. Mas não consegui ler. Estava em cirílico. Acho. Achei, na altura. Achei que era cirílico. Onde raio é que afinal estava? Não era na Linha do Oeste, com certeza.
Que merda!

[escrito directamente no facebook em 2018/12/28]

Os Cães Pressentem Sempre

Encostei-me ao beiral da janela a fumar um cigarro e a ver a chuva a cair.
Estava a chover tanto que já não via as montanhas. Mesmo as oliveiras do terreno em frente eram uns fantasmas a surgir por trás da forte queda de água.
Era Domingo e não sabia o que fazer.
Não havia internet. Sempre que chovia um bocadinho, a rede tremia. Com uma chuvada forte, desaparecia. Ficava isolado. Isolado não que o telemóvel tinha rede. Mas não me apetecia falar com ninguém. Portanto, acho que ficava isolado, sim.
Na televisão teimavam as canções pimba em programas populares feitos num país profundo que descubro feio através da televisão. Mas não é, que eu conheço-o. O país não é feio. A televisão é que tende a desfigurar tudo. É uma coleccionadora de erros, enganos e logros. O playback na aparelhagem, os bailarinos de pasodoble travestidos em techno-regional e umas apresentadoras perdidas na multidão a querer saber as impressões do povo.
No canal ao lado passavam filmes de família, dizia o locutor, que já não é da continuidade, mas que informa, para quem não sabe, as maravilhas que o esperam se continuar sentado por ali, num Domingo de chuva que convida ao sofá. Filmes requentados já vistos mil-e-uma vez.
Eu fui para a janela fumar um cigarro e olhar para a rua. Procurava alguma coisa com que entreter o olhar. Não havia luz suficiente para ler um livro. E era ainda cedo para acender as luzes. A conta ao final do mês não o permite.
Recebi uma mensagem no telemóvel. O antigo presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, tinha sido detido. Não sei porque me mandaram a mensagem. Nem sou do Sporting.
Apetecia-me umas filhoses. Uns coscorões. Umas fatias douradas. Uns sonhos. Porra! Não conseguia pensar em mais nada que em comida?
Não tinha almoçado. Nem tinha lanchado. Tinha comido uma torrada de manhãzinha. Ia comer outra mais logo, à noite. Tinha de aguentar.
Lá fora continuava a chover. Mas conseguia ouvir o latir dos cães da vizinhança por cima do barulho da chuva. Pressentiam qualquer coisa. Talvez um tremor-de-terra. Talvez trovoada. Uma enchente. Há um ribeiro aqui perto.
Lá em baixo na estrada nem um carro. Nem uma motorizada. Ninguém.
Mandei o cigarro para a rua. Vi a água violenta a desfazê-lo.
Pensei no sardão. Há muito tempo que não o via. Onde andaria? Estaria ainda vivo? Voltaria cá?
E então, os cães calaram-se. Por trás da chuva, o silêncio. O céu escureceu ainda mais. Não havia nuvens. Era tudo uma massa cinzenta escura a mandar chuva cá para baixo. E vi um risco de luz muito brilhante a cruzar o céu até à Terra. O silêncio mantinha-se. Eu não via as montanhas que deviam estar lá à frente. Já nem via as oliveiras fantasma. Só uma névoa de chuva. E, depois, o estrondoso trovão gutural, e prolongado, saído das entranhas de Thor. Assustou-me, aquela porra. E o estar sozinho, ampliou aquele susto.
Fui acender outro cigarro para acalmar. Voltei para a janela para continuar a ver a chuva a cair. Copiosamente.
E então tremi. Tremi como gelatina. Os meus pés abanaram. Senti a casa a mexer-se. Os pratos a caírem. Os copos a caírem. O barulho de coisas a cair e a partirem-se. A casa abanava. E começou também ela a partir-se. A desfazer-se. A deixar cair pedaços enquanto eu parecia ver tudo desfocado.
Larguei o cigarro e corri para o vão da porta da rua. E a casa veio abaixo. Veio abaixo sobre mim. Mas eu resisti. Resisti debaixo do vão da porta da rua enquanto a casa tombava, como um baralho de cartas, sobre mim.
Continua a chover. Eu ainda estou debaixo do vão da porta da rua. Estou preso. Não consigo sair daqui. E não vejo nada. É de noite. Não há luzes. Está tudo escuro. Não ouço barulhos a não ser o som da chuva que ainda não parou. Sinto os pés molhados. As pernas húmidas. Não sei o que me vai acontecer. Mas estou com medo. Estou com medo e com fome. Só comi uma torrada de manhãzinha.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/11]

Tenho o Corpo a Apodrecer

Ela adorava plantar-se nas minhas costas à procura de pontos negros. Eu quase não tinha, mas isso não lhe diminuía o desejo de os procurar. Deitava-se sobre mim, andava com as mãos sobre as costas, os dedos paravam, aguçava o olhar e começava a espremer.
Às vezes eu dizia Ai! E ela retorquia Fica quieto! Está quase a sair!
Às vezes não era nenhum ponto negro. Era um sinal. Uma borbulha. Uma sarda.
Às vezes espremia a pele só para satisfazer o seu desejo.
Às vezes… Às vezes nada e ficava chateada como se o facto de eu não ter pontos negros nas costas fosse um problema e culpa minha.
Outras vezes ficava só a passar a mão suavemente pelas minhas costas, e eu gostava, mas sabia que ela estava era a mirar o quisto sebáceo de dimensões gigantescas que estava nas minhas costas e que parecia um mamilo.
Ela sabia, no entanto, que não podia mexer naquele quisto, a aguardar oportunidade para ir à faca, um dia destes. Mas gostava de lhe tocar, de senti-lo abanar como se fosse gelatina. E tanto o namorou, tanto insistiu, tanto puxou as peles em volta que, um dia, abriu um buraco e começou a sair sebo lá de dentro.
Ficou radiante. Disse O melhor é espremer tudo e depois desinfectar! E eu, que remédio, lá deixei que assim fosse. Debruçou-se sobre mim, sobre as minhas costas, e foi enchendo pedaços de gaze com o sebo que ia saindo em golfadas lá de dentro. Bastava calcar o dedo à volta da zona para sair uma pasta nojenta, de cheiro nauseabundo, que parecia brotar de um buraco sem fim.
Esteve naquilo uma meia-hora. Colocava o dedo e punha a gaze a amparar o sebo.
No final começou a sair um líquido que, aos poucos começou a ser vermelho e percebeu, finalmente, que já tinha tirado tudo. E disse Vou só espremer uma última vez para limpar tudo mesmo e depois desinfectamos. Eu continuei calado com o entendimento que o meu voto não contava para nada ali, naquela questão.
E então, ela espremeu uma última vez, e espremeu, e a pele rasgou, e rasgou carne, e fez um golpe que me cruzou as costas de cima a baixo e começou a sair sangue que vinha do buraco onde tinha estado o sebo, um buraco grande, grande e fundo, e era por lá que o sangue saía e se espalhava pelas minhas costas abaixo.
Ela assustou-se.
Eu, como não conseguia ver muito bem, não me assustei muito.
Disse-lhe Coloca um penso e vamos ao hospital. E ela assim fez. Mas nunca mais sorriu de prazer como até ali. Agora estava com ar preocupado. Agora estava com medo. Agora estava arrependida de ter insistido. Agora sentia-se responsável pelo meu estado.
Fomos ao hospital. Entrámos nas urgências. Deram-me a pulseira vermelha. Fui logo atendido. Fui visto. Fui analisado. Mandaram-me fazer uma série de testes e exames. E disseram-me Vai cá ficar internado.
Ela começou a chorar. E foi para casa buscar coisas que eu precisava.
E eu fui internado.
Estou há cinco dias no hospital. Estou isolado. Sozinho num quarto. Não deixam ninguém ver-me. Os médicos e as enfermeiras vêm sempre protegidos. Não sabem o que tenho.
O buraco continua a produzir sebo. Quando tiram o sebo começa a sair sangue que não conseguem fazer parar. Só pára quando começa a produzir mais sebo. O rasgão nas costas está a alastrar. De lá de dentro vem um cheiro fétido. Um cheiro a morte. Penso que tenho o corpo a apodrecer. Mas os médicos não me dizem nada.
Eles não sabem.
Os médicos não sabem o que tenho.
Os enfermeiros começaram a recusar fazer-me curativos. Têm muita dificuldade em olhar para a chaga em que se tornou as minhas costas.
A ela, nunca mais a vi.
Não sei o que vai ser de mim.
Escrevi estas linhas para que saibam o que se passou.
Ela não teve culpa nenhuma.
O sebo era meu. O quisto estava nas minhas costas.
Estranhamente, nada disto me dói.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/27]

Espero Sobreviver

Estou deitado sobre os lençóis da cama. Os lençóis estão molhados. Eu estou transpirado. Estou a desfazer-me. Sou líquido e escorro por mim abaixo.
Não me consigo mexer.
Tenho sono. Não dormi nada esta noite por causa do calor. As janelas todas abertas mas não chegava nenhuma aragem que me refrescasse.
Levantei-me às sete da manhã para beber água fresca, urinar e regressei à cama.
São duas da tarde e ainda aqui estou. Nem consegui levantar-me para ir comer. Não consigo comer. Não consigo fumar. Só tenho sede, mas não consigo levantar-me para ir beber água.
Espero sobreviver.
Lá de fora o silêncio possível do calor. A cantoria das cigarras. Uma ou outra motorizada. Um ou outro carro. E é tudo. Por vezes parece que ouço o sino da igreja, mas acho que nessa altura estou a dormir acordado. Não há nenhuma igreja nas redondezas.
Estar assim deitado sobre a cama a estas horas, com esta luz que entra pelo resto das persianas que deixo abertas para não me sentir tão isolado, sinto-me transportado para as minhas férias de infância na Nazaré.
Os meus pais alugavam uma casa no meio da vila durante o mês de Agosto. O calor era assim como este. Ou parecido. Íamos de manhã para a praia, regressávamos para almoçar, a minha mãe fazia o almoço, dormíamos a sesta e voltávamos à praia ao fim da tarde. Normalmente ficávamos na praia até o sol tombar atrás do horizonte.
Era precisamente as sestas, deitado sobre os lençóis da cama, com a luz do início da tarde a passar entre as frinchas das persianas, sem camisola, de calções, a transpirar, a absorver o silêncio que a Nazaré era na altura, entrecortado pelo barulho isolado de uma ou outra motorizada, ou das poucas pessoas que se atreviam a sair à rua àquelas horas e passavam a conversar ali, debaixo da minha janela, e eu ouvia-as lá muito ao fundo, no fundo do meu sono leve e retemperador, que lembro agora com alguma nostalgia.
Naquela altura sabia que depois da sesta, levantava-me e voltava para a praia, brincar na areia, mergulhar no mar, conhecer miúdos novos e diferentes.
Agora não sei o que me espera se sobreviver a este calor. Já não tenho onde regressar. Não quero conhecer gente. Só espero viver um dia depois do outro.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/04]

A Elipse de Richard Serra

Estou ali parado a olhar para o cão de Jeff Koons. Um enorme West Highland Terrier, florido e cheio de cor.
Devia estar com medo, mas não estou.
Acho que não me vai morder. Tem um ar doce. Doce, cheiroso e brincalhão. Puppy!, digo, alto. Puppy!, chamo-o. Puppy! Mas o Puppy não me liga nenhuma. Continua lá no seu poiso, a olhar Bilbao como se fosse o seu quintal, sem me passar cartão.
Ignora-me.
Ignoro-o.
Desço as escadas e entro dentro da casota de Puppy.
Ainda me viro para trás. Ninguém me segue. Estou incógnito. Isolado. Só.
Encontro a Elipse e sou sugado para o seu maelstrom. Desato a correr. Corro, corro, corro ao longo das suas curvas elípticas. Corro à procura do seu deus. Richard Serra é a santíssima trindade da Elipse. É o pai, o filho e o espírito santo da sua criação.
E continuo a correr. E não páro. Não tenho fim. Não há fim. Não consigo chegar ao seu fim. As curvas sucedem-se umas às outras num eterno devir.
Olho para a parede que me serve de baliza, que me marca o caminho, que me afunila a a existência e vejo uma linha, uma linha que é uma escrita, uma frase, uma texto, uma ideia, uma ordem. É uma bíblia. São aforismos de Yoko Ono, mas não os consigo ler. Estou em movimento perpétuo, não trago os óculos comigo e já não consigo fazer parar as letras que disparam perante a minha vã tentativa de as bloquear. Fogem perante mim como piolhos.
Continuo ali preso, na Elipse de Richard Serra, a correr, a correr e não consigo parar.
Para onde vou?
Bilbao? Adopta-me!

[escrito directamente no facebook em 2018/07/11]

Preciso de Comer Alguma Coisa

Estou há duas semanas em casa. Na cama. Estou com uma enorme gripe. Desconfio que seja daquela estirpe asiática. Mas não me apetece ir ao médico confirmar. Só sei que tenho tido dificuldade em abrir os olhos e tenho o nariz em carne viva. E tenho passado fome. E vivido na imundice.
Nestas duas semanas em que tenho estado isolado em casa, nenhuma vez tocou o telemóvel. Ninguém sentiu a minha falta. Ninguém deu pela minha ausência.
Provavelmente, nem no trabalho dariam pela minha ausência se eu não tivesse telefonado a avisar que estava de cama. Ainda tenho de arranjar um atestado. Não sei como é que vou fazer. Estou mesmo doente. Mas não fui ao médico. Nem vou. Já sei o que tenho.
Nestas duas semanas ainda não tive coragem de pôr a roupa a lavar. Estou há duas semanas a viver enrolado nuns lençóis para onde já transpirei duas vezes por dia nos últimos quinze dias. Até a mim já me começa a incomodar o cheiro e a textura. Talvez hoje arranje coragem.
Decidi que hoje ia sair da cama. De casa. E que ia comer. Preciso de comer alguma coisa. Uma canja de galinha, por exemplo. Onde raio é que vou arranjar uma canja de galinha nesta cidade?
Vou tomar banho. Vou arranjar coragem e vou tomar banho. Vou puxar os lençóis da cama. Vou abrir as janelas do quarto e deixar entrar o ar fresco e retemperador. Vou vestir uma roupa lavada e fixe e vou comer uma canja de galinha e beber uma Coca-Cola geladinha. E depois vou arranjar uma miúda. Preciso de uma miúda. Preciso de uma miúda que fale comigo. Que me ouça. A quem me possa queixar. Que me dê algum carinho e me levante a moral.
Hoje não tomei nenhum anti-gripe. Para não transpirar. Para poder ir à rua. Só tomei uma Cecrisina para me dar força e alento.
E só preciso de um pouco de força. De coragem.
Vou contar até três e vou levantar-me e tomar um duche. Um… Dois… Três…

Mas tenho de contar três vezes até três para funcionar…

Tenho de sair daqui. Este cheiro está insuportável. Já não o suporto. Tenho de sair. Tenho de me levantar, porra…

Tenho de comer qualquer coisa. Preciso de sentir o frio da rua, o cheiro da rua, a vida na rua…

Também posso pegar numa manta e ir até à sala. Abro a janela do quarto, fecho a porta e vou para a sala com uma mantinha e aguardo que me chegue a vontade de sair. Ou que arranje coragem. E força.
E posso mandar vir uma pizza. Com alcaparras, anchovas e alcachofra. E uma Coca-Cola. E que se lixem as miúdas. E as outras pessoas.
Sim, é isso que eu preciso. De uma pizza.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/23]