Quase Parece Feriado, mas Não É

Vejo-os a correr. Esbarram uns nos outros e gritam um Desculpe!… enquanto se afastam, atrasados, sempre atrasados para onde quer que vão cheios de pressa.
Quando aqui cheguei, a cidade parecia dormir. Não é feriado mas parece. É véspera de feriado com tolerância de ponto para funcionários públicos que resulta numa cidade fantasma, pelo menos até os primeiros atrasados caírem da cama e perceberem que têm poucas horas para comprar o amor do próximo.
Sentei-me neste banco de jardim, aqui no Rossio da cidade, frente ao antigo Banco de Portugal que já não comporta notas nem ouro (e não sei se alguma vez comportou ouro) e agora expõe as obras de arte dos artistas de que faz gala e não havia ninguém na cidade. Nem a velha varredoura das ruas, uma loira, com quem me cruzo todos os dias, passou aqui em frente. Está tudo a em estágio para a barrigada natalícia.
As horas passam. Vão passando. Conto-as pelas beatas dos cigarros fumados. Devia comer qualquer coisa. Beber um vinho. Mas estou a antibióticos, não devo beber. Fumo. Fico por aqui e vejo passar os apressado, os atrasados, os últimos a aperceber-se de que falta qualquer coisa para atingirem a suprema felicidade.
A cidade foi-se compondo. Por volta das duas da tarde já quase parecia um dia normal. Muita gente nas ruas.
O dia ajudou a que as pessoas saíssem de casa. Está sol. Não está frio. As pessoas não precisam de ir para o Centro Comercial. Mas vão. Muito gostam as pessoas de se enclausurarem entre paredes de néon. E ainda me olham de esguelha porque estou a fazer publicidade negativa. Mas logo largam um esgar porque aceitam a publicidade, e negativa ou não, publicidade é publicidade. Não importa que falem mal, o importante é falarem. As velhas máximas do capitalismo. Ironias. Como aquele que diz que temos de comprar menos coisas mas abre bem as portas da loja para despachar toda a mercadoria e ter um Natal Feliz.
O dia começa a morrer. O sol desapareceu atrás da colina do castelo e, daqui até ser noite é um abrir e fechar de olhos. A cidade volta a parecer fantasma. Agora ainda mais. Há luzes. Muitas luzes numa cidade que volta a estar quase deserta. Passam alguns carros. Poucos. Novamente os atrasados. Já não há pessoas a caminhar nas ruas. Está frio. Agora está frio.
Sinto um cheiro a perfumes no ar. São as pessoas a ultimar-se para as festas, para os reencontros, para dar amor, um amor bem-cheiroso.
Levanto-me a custo do banco de jardim. Faço força na bengala para dar impulso. Vou também para casa. Tenho lá um bocado de arroz de pato que comprei no Rei dos Frangos. Pena que não posso beber vinho. O antibiótico… Os dentes… A merda da velhice, é o que é!
Quando é que vai dar o Sozinho em Casa?

p.s.: por vezes gostava de ser um soldado de regresso a casa para ter um abraço quente a acolher-me… talvez um beijo… talvez um bem-vindo a casa…

[escrito directamente no facebook em 2019/12/24]

O Banco de Jardim

A primeira vez que tivemos relações sexuais foi num banco de jardim, junto ao rio, no Marachão, depois de uma festa dos anos ’80 a que acabámos por não ir.
Foi a única vez que fizemos sexo, um com o outro, na rua. Foi também a melhor e mais intensa noite de sexo que alguma vez tivemos juntos. A partir daí, e enquanto durou a relação, foi sempre a descer. Mais para cumprir calendário que por desejo.
Não sei se ela se equivocou comigo ou se aquela noite foi só o resultado de uma bebedeira. A verdade é que estávamos os dois ardentes e cheios de vontade um do outro. A verdade é que, naquele frio, junto ao rio, ardemos.
Tínhamos estado num bar. Foi aí que metemos conversa um com o outro. Amigos comuns. Uma gargalhada. Uma resposta mais irónica. Um sorriso nos lábios. Um pouco de arrogância. Algumas opiniões avulsas sobre a vida e a morte, e o desejo acabou por fazer o resto. Perdemos os amigos comuns que se evaporaram na noite. Ficámos a beber. Eu e ela. Primeiro andámos pela cerveja, mas depressa migrámos para o gin. Acho que queríamos acelerar a noite. Eu pelo menos sim, queria acelerar a noite e ir longe com ela.
Hora de fechar. Fomos postos na rua. Havia uma festa dos anos ’80 na cidade. Lancei a ideia. Foi aceite. Cruzámos a cidade na conversa. Eu a fumar. Cigarro atrás de cigarro. Eram os nervos. Ela não fumava. Nem falava. Eu falava. Eu falava e fumava. Ela ouvia. Ouvia-me.
Chegámos aos anos ’80. Eu estava um bocado maldisposto. Tinha perdido a conta aos gins. Ela disse para darmos uma volta. Para eu arejar. Acabámos por não entrar pelos anos ’80. Ela nem era assim tão fã de festas, muito menos dos anos ’80, disse. Assim Não faço grande questão em entrar. Nem gostei muito dos anos ’80. Vamos dar uma volta. E fomos. Fomos passear junto ao rio. Pelo circuito da Polis. Seriam, o quê?, três, quatro da manhã. Já me tinha passado a má disposição. Acendi um cigarro. Ela sentou-se num banco de jardim. Sentei-me lá ao lado dela. Depois, mão-na-mão. Boca-na-boca. Mão numa mama. A língua solta. Esperar a reacção. Quando dei por mim já estava com as calças ao fundo das pernas. Ela também. Foi tudo assim muito rápido, muito intenso, muito desejo.
Ficámos lá sentados por muito tempo, no depois, sentados no banco de jardim. Em silêncio. De mãos dadas. A sentir a água a correr no rio que não víamos porque estava escuro. Eu fumei outro cigarro. E depois ela disse Está frio. E estava. Estava frio. Dei-lhe o meu casaco. Fiquei de t-shirt a berrar frio. Senti um arrepio. E ela disse É melhor ir para casa. E eu acompanhei-a.
À porta de casa disse que era melhor eu não subir. Era tarde. E era cedo.
Foi a primeira e a única vez que não subi. Na semana seguinte estava a viver com ela.
Eu continuei a beber. Passei da cerveja e do gin para o vinho tinto. Ela passou para o chá. Desencontrei-me dela. Ela perdeu-me. Depois já éramos só a lembrança de uma noite.
Um dia ela disse Já não vale a pena. É melhor ires embora. E eu fui.
Nunca mais a vi.
Sempre que passo no Marachão, junto ao banco de jardim onde estive com ela, lembro-me dela. E do que aconteceu.
Hoje passei ao pé do banco. Estava vazio. O rio cheirava mal. Estava sujo. E corria uma aragem desagradável.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/18]

Quem É que Está Aí?

Sinto a porta da rua a abrir. Deve ser ela, penso. Está de regresso, finalmente. Já era tempo, não?
Aproveitei a vergonha do sol para arrumar a lenha que me vieram trazer a casa. Não estava muito calor. Chuviscou um pouco. Peguei no carrinho-de-mão e andei, para cima e para baixo, a acartar a lenha para debaixo do telheiro. Amealhar para o Inverno. Enquanto ainda nos deixam queimar madeira para nos aquecermos.
Ia no segundo carrinho quando o sol despertou e veio na companhia do calor. Custou-me carregar o resto da lenha. Não sei quantas viagens fiz com o carrinho-de-mão. Mas ganhei umas bolhas nas mãos. Despertei a minha alergia ao calor e tive de tomar um Zyrtec. Demorou a fazer efeito.
Enquanto acartava a lenha para o telheiro pensei na conversa que tinha tido com ela no dia anterior. A conversa que azedou e acabou por me deixar sozinho em casa.
Eu só tinha dito que a culpa era dela. Não dela, dela, especificamente. Mas de todas as elas e eles e nós. Eu! Eu também me incluía na culpa mas, na conversa, tinha-me saído um dela por força das circunstâncias. Estávamos a discutir e era eu contra ela. E ela levou com a culpa. Mas a culpa não era só dela. Mas também. Eu só disse A culpa é tua. E ela, admirada, quase escandalizada, perguntou Minha? Minha como? e eu respondi-lhe Porque votaste neles. E ela ficou ali assim, admirada, de boca aberta, a olhar para mim.
O sol já tinha despertado. Abrira as portas ao calor. A transpiração corria-me corpo abaixo. E eu pensava no que ela me tinha dito.
Mas eu sou só um voto e votei para protestar. Não significa mais que isso. Um protesto que não tem poder nenhum. Um voto. O que é que isto significa? Nada! Não significa nada! Mas significava. Tanto significava que eles tinham chegado ao poder. Todos os votos unitários contados um-a-um conseguiu elegê-los. Com maioria absoluta. E estavam a transformar tudo. A vida como nós tínhamos aprendido a viver. Tudo transformado em nome da eficiência. Em nome do futuro. Mas qual futuro? Era tudo muito obscuro e bizarro. Porque nem sequer é para todos. Quem pode pagar pode comprar a bula. Porque há bulas. Há sempre bulas. Há bulas para quem pode pagar. E foi isso que lhe quis explicar. Que pessoas como nós, estão sempre fodidas. Utilizam-nos e depois descartam-nos. Os outros, os que podem, os que mandam, esses podem sempre pagar para ser como eles querem. E, ironia do destino, somos sempre nós que elegemos esta gente. Era isso que eu lhe estava a explicar. E ela só me perguntou E eu sou a culpada pela merda de vida que agora temos? E eu nem precisei de lhe responder. Olhei para ela. Um olhar parvo e cínico, admito. Só olhei para ela. E ela viu a resposta no meu olhar.
Já estava cansado quando fiz a última viagem até ao telheiro com o resto da lenha. E parecia que tudo aquilo era só para me chatear. Na minha última viagem o sol despediu-se. O céu cobriu-se de negro, trouxe de volta um pouco de frio e um bocadinho de chuva. Pensei Ao menos a lenha não fica molhada.
Parei debaixo do telheiro a olhar para a pilha de lenha. Arrumei o carrinho-de-mão. Observei a chuva e voltei a pensar na conversa que tinha tido com ela.
Mas já não houve conversa. Ela ficou zangada comigo. Levantou-se do sofá e saiu de casa. Ouvi o carro a descer a alameda e a sair o portão. Onde andaria?, pensei.
Afinal está aqui, de regresso a casa. Afinal a conversa era estúpida. Não era caso para tanto. Claro que ela era culpada. Ela como eu. Mas não precisava de ficar zangada comigo e sair porta fora. E pergunto alto És tu?, mas ninguém me responde. Nem ouço barulho. Não me chega o cheiro dela. Não lhe ouço a respiração. Nem lhe sinto os passos. Quem será? Quem é que está aí?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/18]

Nas Migalhas do Cheque da Segurança Social

A ironia das ironias é que estamos em véspera de Dia do Trabalhador e tanto eu como ela estamos os dois sem trabalho. Ela porque está desempregada. Eu porque estou sem trabalho. A diferença é que ela recebe o cheque da Segurança Social. Eu não.
Vivemos os dois do cheque dela. Que está a chegar ao fim. Há muito que já só estamos nas migalhas do cheque, mas tem de durar até vir o próximo porque, como as coisas se apresentam, não parece vir aí trabalho.
Estamos sentados na mesa da cozinha. Mais enterrados nas cadeiras que sentados. Eu, então, estou sentado com o cóccix. Estamos a acabar com o pacote de Capataz tinto. À nossa frente uma lata de tabaco de enrolar. Umas mortalhas. Filtros. E ponho-me a pensar que nunca teria imaginado resumir a minha vida àquela mesa, naquela cozinha, a beber aquele vinho e a fumar tabaco de enrolar.
Estamos os dois em silêncio. Não que não tenhamos nada para dizer, que temos. Somos ambos pessoas inteligentes, cultas e acompanhamos os noticiários do país e do mundo. Temos opinião. E gostamos de nos ouvir, um ao outro. Mas estamos ambos cansados de nos queixarmos. Porque todas as conversas que temos tido ultimamente terminam assim, na queixa. Na dor da queixa.
Não nos queixamos de ninguém, nem de nada em concreto. Só das nossas vidas merdosas e da incapacidade que demonstramos em dar-lhes a volta. Não somos pessoas espertas. Não temos aquele espírito do comerciante, do vendedor, do agente de seguros. Não! Até somos bastante tímidos, os dois.
Admiramo-nos, sim, é com a capacidade que ainda temos de nos conseguirmos amar naquele contexto.
Acho que o silêncio ajuda. É um silêncio cúmplice. E concordante.
Temos partilhado tudo. As dores e as poucas alegrias. E o cheque dela.
Continuamos a fazer sexo regularmente. Tomamos banho. Vestimo-nos. Saímos à rua. Passeamos pela cidade. Olhamos as montras.
Há dias em que até bebemos um café com algum amigo daqueles que ainda ficaram.
Sim, porque esta vida não é para qualquer um. É preciso saber resistir. Olhar o abismo e não saltar. Tivemos sorte, um com o outro.
Ficámos outra vez sem internet, diz ela lá do seu lado da mesa. E eu sei que tenho de ir roubar outra, algures.
Mandamos os dois o fumo para o mesmo sítio e forma-se, debaixo do candeeiro da cozinha, uma nuvem escura, daquelas que prometem muita chuva. E desatamos os dois a rir, feitos estúpidos.
E depois digo-lhe Já vou arranjar net para nós.
Acabo o copo de vinho tinto. Apago a beata no cinzeiro e levanto-me. E digo-lhe Não quero que te falte nada.
Passo por ela, baixo-me um pouco e beijo-a, levemente, nos lábios.
Ah, e amanhã é Dia do Trabalhador, digo-lhe baixinho, ao ouvido. Ela sorri, abana a cabeça e diz Faz impressão, isso.
E eu vou à procura de internet à vizinhança.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/30]

Uma Distância Zangada

Começou a chover. A chover bastante. Chuva que Deus-a-dá, como dizia a minha mãe. É estranho que, agora que ela é cada vez menos ela, lembro-me melhor do que dizia quando ela era ela.
Fugi para debaixo de um toldo à espera que a chuva passasse. Acendi um cigarro. E fiquei a olhar o coração da cidade a pulsar. Ironia das ironias, a chuva só veio incendiar mais a cidade, que se enfurecia, aumentava os decibéis e a água da chuva ampliava as luzes e as cores que se multiplicavam infinitas vezes perante o meu olhar.
À minha frente, e numa passada calma mas decidida, de pés enfiados numas botas de borracha, passou uma velhota de guarda-chuva aberto numa mão e um saco de plástico de supermercado na outra. É maravilhoso como andam sempre prevenidas para qualquer eventualidade.
Sabia-me bem estar ali a fumar. Parado. Sem preocupações nem obrigatoriedades. Ninguém estava à minha espera. E eu podia ficar ali, a vida inteira, a olhar para nada, sem ninguém sentir a minha falta.
Lembrei-me quando, numa tarde de Verão, fugi brevemente de casa. Lembrei-me quando os meus pais me foram encontrar na brincadeira, no pinhal, com os meus amigos de infância, a viver os nossos Rochedos do Demónio. Lembro-me quando a minha mãe me agarrou e não mais me largou. Lembro-me dos seus olhos molhados. E da distância zangada do meu pai. E lembro-me dele dizer baixinho, mais para ele que para mim, à distância a que caminhávamos, Nunca mais faças isto.
Acabei o cigarro. Há sempre uma altura em que o cigarro chega ao fim e isso é uma frustração. Gosto muito de fumar. O fumo entra-me nos pulmões e desperta-me a memória. O cigarro pendurado nos dedos, acalma-me e faz-me companhia.
Parou de chover.
E no momento em que ia sair debaixo do toldo, vi-a passar. Não era ninguém. Era só mais uma memória. Uma memória dos vinte anos. Quando os cabelos ainda não são brancos. Quando a barba ainda é rala. Quando as rugas são ainda as poucas das expressões e dos sorrisos. Quando o cigarro é ainda uma afirmação social e não uma companhia. Quando temos todo o tempo para viver e queremos viver tudo num momento.
E da mesma forma que a vi, deixei de a ver. As memórias às vezes são assim. Despertam-nos os sentidos apenas para nos manter vivos.
Saí debaixo do toldo e, de repente, por breves segundos, não sabia para onde ia. Para onde devia ir. Olhei à volta, à procura da memória.
Voltei para trás, de novo para debaixo do toldo, e acendi novo cigarro. Já não chovia, mas era como se chovesse. Não queria sair dali. Não queria ir para a minha casa, fria e deserta. Queria a companhia das minhas memórias. E deixei-me ficar ali a fumar, e a olhar para sítio nenhum, a ver se a via.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/15]