O Cheiro do Papo-Seco Fresco

Naqueles tempos eu acordava cedo. Bastante cedo. Muito mais cedo do que alguma vez viria a acordar mais tarde, mesmo quando o trabalho assim o exigia. Acordava cedo para aproveitar o dia. E, naquele mês de praia, para aproveitar a baixa-mar e andar a brincar na água até ter os dedos das mãos todos engelhados, saltava da cama aos primeiros raios de sol que entravam pela janela aberta para que o dia me acordasse com ele.
Levantava-me da cama. Lavava a cara. Vestia uns calções e uma camisola, enfiava os pés nos chinelos de borracha, pegava na saca do pão, uma saca de pano com uns desenhos bordados pela minha avó e que, segundo constava, era enxoval da minha mãe, agarrava as moedas que estavam ao pé da saca e saía de casa em silêncio para ir à abertura da padaria. Ainda hoje me lembro daquele cheiro a pão que nunca mais vim a reconhecer em lado nenhum. Ainda cruzava eu a praça deserta, às vezes com gente ainda dos restos das noites que me estavam proibidas, gente que dormia caída à entrada das portas, com poças de vomitado ao lado e restos de garrafas de cerveja tombada pela calçada portuguesa, e já sentia no ar aquele cheiro ao pão acabado de fazer. Às vezes ainda tinha de aguardar alguns minutos pela abertura da porta e, quando abria, era eu o primeiro cliente, levava pão fresco, papo-secos ainda quentes e às vezes uma arrufada que não chegava inteira a entrar em casa. Depois, sentado sozinho na mesa da cozinha, a ler um livro qualquer de quadradinhos, o Major Alvega, a Revista do Tintim ou o Jornal do Cuto, bebia um copo e leite frio e comia um papo-seco com manteiga, rasgado aos pedaços, que enfiava na boca sem tirar os olhos das páginas cheias de desenhos fantásticos e estórias do arco-da-velha.
Depois ia para o sofá da sala esperar que o resto da casa se levantasse. O resto da casa era a minha mãe e a minha irmã. Às vezes o meu pai. Mas o meu pai nunca ia para a praia connosco. Dava-se mal com o calor. Ficava com o corpo cheio de borbulhinhas que lhe davam muita comichão. Eu herdei essa alergia ao calor, mas acabei a contornar esse problema com o Zyrtec.
A minha mãe levantava-se. Acordava o resto da família. Arranjava as coisas. Comia. Dava de comer. E depois íamos.
Eu levava a minha toalha sobre o pescoço e uma sacola com dois ou três livros de quadradinhos para ler nessa manhã na praia.
Quando lá chegávamos eu ia logo ao mar molhar os pés e ver como é que seria o resto do dia. Depois voltava para a barraca, estendia a toalha, fazia um montinho para a cabeça, agarrava num dos livros de quadradinhos e evadia-me.
Regressava quando a minha irmã me chamava para ir com ela ao banho. E então íamos ao banho e ficávamos por lá até a minha mãe nos chamar, depois de estar a chamar-nos durante algum, bastante, tempo. E de nós fingirmos que não a ouvíamos.
Voltávamos para a barraca. Eu estendia-me ao sol. A minha mãe dava-me um pão com manteiga que eu devorava em três dentadas e ficava ali um bocado, de barriga para baixo, as costas para o sol, a imaginar-me nas aventuras com o agente Ene 3, o Buffalo Bill ou o Tarzan, o rei da selva.
Mais tarde haveria de voltar a casa para almoçar, que a minha mãe fazia sempre almoço para nós e para o meu pai, quando o meu pai estava. Iria dormir a sesta. Lancharia. E ainda iria para a praia lá mais para o fim da tarde. Nessa altura dava um passeio até às rochas e depois voltava a ir para o mar, nadar, mergulhar, brincar. Voltaria à toalha. Estender-me-ia ao sol. A minha mãe dar-me-ia um pequeno Tupperware com pedaços de fruta que eu devoraria e, quando o sol começasse a desaparecer no horizonte, voltaríamos para casa onde a minha mãe iria preparar o jantar enquanto eu e a minha irmã tomávamos um banho de chuveiro, rápido. Iria queixar-me das queimaduras nos ombros. A minha mãe iria dizer Eu bem te avisei, enquanto me iria passar um creme hidratante, provavelmente Nivea, nos ombros e, depois de jantar, iríamos dar um passeio pela marginal, regressaríamos a casa e, antes de dormir, eu iria ler mais um livros de quadradinhos.
No dia seguinte tudo se repetiria. Da mesma maneira. Exactamente da mesma maneira. Pelo menos é assim que o recordo. E aquele cheiro ao pão fresco, acabado de cozer. Que vontade tenho agora de voltar no tempo por um daqueles papo-secos acabados de sair do forno.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/14]

Juá

No meu tempo de miúdo havia um detergente para lavar a roupa, lavar a roupa à mão naqueles tanques que não eram de guerra mas de cimento, que quase só as mulheres utilizavam, e que já eram um upgrade dos lavadouros públicos onde as mulheres se juntavam para distribuir notícias enquanto lavavam as roupas da família e das famílias de bem da cidade (como muito bem descrevia Chianca de Garcia na sua popular Aldeia da Roupa Branca), chamado Juá, que era, também, um verdadeiro Bazar das Novidades, e que me perdoe o verdadeiro Bazar das Novidades que, na rua D. Dinis, em Leiria, alimentava os meus sonhos de criança, mas este bazar que era o Juá fez-me brincar de mil-e-uma maneira e hoje ainda me serve como impropério para gritar à cara das pessoas que fazem asneiras grosseiras, com irem a conduzir um carro a vinte quilómetros por hora em plena auto-estrada A1, ou simplesmente porque me chateiam Ouve lá! Tiraste a carta no Juá, foi?
O Juá oferecia vários brindes, quase todos eles destinados às crianças, aos filhos das mulheres que, afinal, iriam utilizar o detergente na lavagem da roupa da casa, talvez, quem sabe, para entreter a criançada enquanto as mães trabalhavam à volta do tanque, a esfregar, esfregar, esfregar, e depois pendurar ao sol para secar, mas não durante muito tempo directamente ao sol para não queimar a roupa e o branco não ficar amarelo e o preto não ficar castanho, enquanto os pais, coitados, ganhavam a vida lá fora, longe desta azáfama.
Os brindes do Juá eram feitos numa fábrica em Leiria (está bem, era no Juncal, mas é a mesma coisa, não é?), da mesma forma que as famosas e resistentes cassetes Sonovox, com que fazíamos as mixtapes apaixonadas, também eram feitas em Leiria (era na Marinha Grande, que é também a mesma coisa, não é?).
O Juá ofereceu jogos do Galo, bonecos militares, cowboys e índios, que davam para fazer exércitos e conquistar o mundo ou, pelo menos, o quarto à irmã (às vezes a cama, que um quarto dava para dois filhos, às vezes mais), pequenas molduras para fotografias rasgadas da Crónica Feminina, copos de plástico coloridos, bolas, bonecos para as pontas dos lápis e lapiseiras, canecas para o leite com Ovomaltine matinal e uma colecção de sinais de trânsito para estarmos familiarizados com as regras quando chegasse a nossa vez de tirar a carta, mas que então também servia para brincarmos às cidades com os carrinhos da Matchbox em estradas desenhadas no chão de terra batida atrás das garagens, terrenos públicos ou privados que todos usufruíamos nas brincadeiras.
Às vezes também vinham brindes para as mães. Para as mães porque os pais não queriam saber disso para nada, mas as mães queriam porque compravam o detergente e usavam os brindes para poupar nas despesas da casa: copos de vidro que iam à mesa do jantar, colheres de esparguete que a minha mãe nunca utilizou porque teimava sempre em partir o esparguete antes de o cozer, para caber no tacho e as famosas molas de roupa, em plástico, coloridas, que vinham destronar as eternas molas de madeira que as equipas de cinema nunca deixaram morrer porque dá sempre jeito à secção de iluminação.
Também havia fervedores de leite (dantes o leite não era pasteurizado e tinha de ser fervido, não era?) e conjuntos de chá.
Também houve uma época em que o Juá oferecia carros e motos por sorteio, mas nunca saiu cá em casa nem em casa de nenhum dos meus amigos de infância cujas mães também usavam Juá para esfregar a roupa nos tanques de cimento enquanto os filhos se entretinham com os brindes grátis que as embalagens traziam.
Aqui tenho de fazer um pequeno aparte para referir o meu brinde preferido da Juá, que era uma régua com dois buracos de tamanho diferente e ranhuras onde iam encaixar várias rodas de vários tamanhos que giravam nesses buracos, arrastados por lápis ou canetas, e faziam lindos desenhos artísticos e muito gráficos.
E só me lembrei do Juá porque quando estava a ultrapassar o carro que seguia à minha frente todo chegado à esquerda até eu ter de apitar várias vezes a pedir passagem, me virei para ele, para o condutor do outro carro, e gritei do sítio onde estava Saiu-te a carta no Juá, foi, meu cabrão?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/25]

Estou Nu e Ela Desata a Rir

O sol tirou-me de casa. Peguei numa manta e fui até à espécie de relva que tenho à volta das laranjeiras, à frente de casa. Estendi a manta. Deitei-me. Fechei os olhos e deixei-me levar por Morfeu. O cabrão não me quis. Mantive-me de olhos fechados mas não conseguia abstrair-me de todo aquele barulho campestre. Pássaros, grilos, cigarras. Até a Zundapp do filho do dono da Estação de Serviço, que fica já depois da saída da aldeia, se ouve aqui, a espremer-se toda a caminho da serra.
Os gatos vieram fazer-me companhia. Deitaram-se encostados a mim. Suspirei. O silêncio e a solidão são uma impossibilidade na minha vida. Irra! gritei alto.
Levantei-me e fui ao interior de casa buscar o maço de cigarros e um isqueiro. Passei ao lado da mangueira. Puxei-a e pendurei-a num ramo de uma laranjeira virada para o céu. Despi-me. Liguei a água e deixei a água fria tombar sobre o meu corpo quente. Arrepiei-me. Ri-me. Ri-me sozinho como só os loucos fazem. Os gatos olhavam para mim como se eu fosse parvo. Se calhar sou. Desliguei a mangueira e fui deitar-me de costas na manta a olhar para o céu azul carregado de nuvens brancas com formas variadas a requerer histórias.
Ali vai um hipopótamo. Sabem que o hipopótamo é o grande responsável pelo maior número de mortes no mundo atribuído a ataques de animais? Este foi o momento National Geographic e o programa segue dentro de segundos.
Saboreei o momento pastoral que me cercava. Parecia Agosto. A Zundapp calara-se. Os barulhos da bicheza actuavam como baladas e, de cigarro na mão, senti a moleza tomar conta de mim. Ainda tive tempo para ver o fumo do cigarro subir e misturar-se às nuvens. Senti o cheiro das sardinhadas que os meus pais faziam ao fim-de-semana, o meu pai a atiçar as brasas e a colocar a grelha com as sardinhas e dois carapaus para a minha irmã, que não gostava de sardinhas, sobre o lume e a minha mãe a fazer a salada de pimentos que me faria arrotar durante toda a tarde. Depois percebi que me estava a ir. Senti a pálpebras pesadas a fecharem-me os olhos. Perdi os meus pais e as sardinhas. Os sons afastaram-se para longe e era lá ao longe que os ouvia. Senti o cigarro escorregar-me dos dedos e cair e ainda pensei que devia ter cuidado para não provocar nenhum incêndio, mas nada fiz para o evitar. A minha mãe toma conta de tudo isso. O meu pai arranja qualquer coisa. E devo ter mesmo adormecido porque tudo se esvaneceu e o mundo entrou no vácuo. Entrou? Afinal não dei por nada de nada. Estava a dormir e, a dormir, não percebo nada. O tempo passa, passa todo, e só regressa quando acordamos. Nunca sabemos em que momento da vida é que retomamos a vida. É ali, é sempre ali, naquele momento, mas que momento é esse na linha do tempo? Foda-se! os tormentos que me assaltam quando desperto.
E então, ouço Ó vizinho! E ergo-me sonolento na manta. Pisco os olhos a tentar adaptar-me à luminosidade. E volto a ouvir Ó vizinho! e percebo que está alguém ao portão a chamar-me e levanto-me e vou descalço, cruzo o quintal, os gatos à minha volta, começo a descer a alameda até ao portão e vejo a minha vizinha com algo nas mãos. Talvez um bolo, ela costuma oferecer-me uns bolos caseiros. E depois leva a mão à cara e desata a rir. A rir como uma desalmada. E eu então percebo que estou nu. Estou a descer a alameda nu. Mas já é tarde. Estou junto ao portão e abro-o para ela entrar.
E ela entra.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/05]

O Último Almoço de Páscoa em Casa dos Meus Pais

Foi num Domingo como o de hoje. Um Domingo de Páscoa.
A minha mãe tinha passado o Sábado a tratar do cabrito. A temperá-lo. A assá-lo. A limpar a loiça das cerimónias, a louça que só via a luz do dia duas vezes por ano, no Natal e na Páscoa. O meu pai tratava de escolher o vinho ideal para o almoço de Domingo. Entre todas as garrafas sem rótulo que tinha guardadas na garagem onde faziam companhia ao carro que tratava como se fosse um dos filhos, ele sabia de que produtor era cada uma delas e qual a mais indicada para a ocasião.
Nesse Domingo, ainda de manhã, já quase hora de almoço, cheguei a casa dos meus pais. A minha mãe ainda estava a cozer uns grelos. O meu pai estava a preparar um Martini branco com um pouco de gin para mim. Ele gostava de preparar umas bebidas mas, raramente bebia. Um copo de tinto em algumas refeições mais especiais. Era provável que bebesse um copo de vinho tinto naquele Domingo de Páscoa. Já a minha mãe, acompanhava-me quase sempre. Só não me acompanhava na quantidade. Ela sabia quando parar. Eu ainda não sei.
Naquele dia agarrei o Martini que o meu pai me estendeu e fui até à cozinha dar um beijo à minha mãe. Fizemos um brinde. Ela estava a beber um vinho branco. Eu comi umas azeitonas. Um pedaço de broa. Provei uma das batatinhas assadas, e a minha mãe acabou por me pôr fora da cozinha porque a estava a estorvar no meu deambular de um lado para o outro a depenicar coisas apetecíveis.
Voltei para a sala onde estava o meu pai. Ele estava a pôr um disco de vinil da Amália a tocar na aparelhagem. Lamentámos a ausência de jogos de futebol no Domingo de Páscoa. Lamentámos não podermos ver um jogo do Benfica. Ele perguntou-me como é que eu ia. Eu menti, como mentia sempre. Ele percebia que eu mentia, mas não dizia nada. Depois fui à rua fumar um cigarro.
Passeei-me pelo quintal da casa dos meus pais, uma casa que também tinha sido a minha, e fui até à figueira que ainda existia. A figueira que eu subia até ao coruto. Olhava para ela, olhava lá para cima, e perguntava-me como é que eu subia aquilo? Como é que eu subia aquilo e nunca tinha caído, nem partido a cabeça ou um braço? Ainda estava lá pendurado o baloiço que o meu pai tinha posto para mim e para a minha irmã. Sentei-me e baloicei-me um pouco, mas sem tirar os pés do chão. Um suave ondular com o rabo enquanto fumava o cigarro. Já não havia cão. Dantes, na minha infância e depois adolescência, havia sempre um cão naquele quintal. A maior parte das vezes, cães rafeiros que davam aos meus pais. Cães que a minha mãe encontrava perdidos na rua, especialmente no Verão. Chegou a haver lá três cães de uma vez. Agora já não havia nenhum cão. Acabei por descobrir um gato deitado em cima do muro a olhar para mim. Não o conhecia. Nem sei se era ali de casa ou da vizinhança. Chamei-o, mas o gato ficou onde estava.
Acabei o cigarro e voltei para dentro de casa. O meu pai estava a levar umas travessas para a sala, para a mesa na sala. Eu voltei à cozinha. A minha mãe perguntou-me A tua irmã? e eu não sabia. Nunca sabia. E disse-lhe Deve estar a chegar. E foi nesse momento que o meu telemóvel tocou.
Atendi.
Era o namorado da minha irmã.
Eu fiquei calado a ouvir o que ele dizia. O que ele tentava dizer.
A minha mãe parou o que estava a fazer e ficou a olhar para mim. Para a minha cara. E acho que percebeu primeiro que eu o que tinha acontecido.
O meu pai voltou a entrar na cozinha e perguntou Quem é? e a minha mãe pousou a mão no braço dele para que ficasse quieto. Quieto e atento. Para o acalmar. Para lhe dizer que ela estava ali. Mas o meu pai era pior que eu. Não tinha grande intuição. E quando desliguei o telemóvel e senti os olhos a ficarem molhados, e vi a minha mãe levar a mão à boca para impedir um grito de sair, o meu pai voltou a perguntar Quem era?
Naquele Domingo já não almoçámos. A minha mãe foi despejar o tabuleiro com o cabrito na tigela de comida do cão da vizinha que lhe perguntou o que se passava e a quem ela não respondeu. Nunca mais a minha mãe voltou a cozinhar cabrito. Nunca mais houve almoço de Páscoa em casa dos meus pais. Naquele dia o meu pai deixou de falar e assim continuou até morrer. A última vez que ouvi a voz do meu pai foi quando ele me perguntou Quem era? Naquele dia a tristeza entrou naquela casa e nunca mais se foi embora. Eu continuei a mentir aos meus pais porque não queria que eles também se preocupassem comigo.
Hoje, Domingo de Páscoa, continuo a mentir, agora a mim, para me enganar e fazer-me crer que a vida é bela e que depois da tempestade vem sempre a bonança. Mas não é verdade. Quando a tempestade assenta arraiais, nunca mais se vai embora.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/12]

Na Cama Até ao Meio-Dia

Estamos os dois na cama. Na preguiça. É Domingo. Manhãzinha. Quer dizer, ainda não era meio-dia, hora a partir da qual já não é de bom tom estar na cama. Um homem fez-se para trabalhar, dizem. Não para estar na cama até ao meio-dia, continuam a dizer. Enfim, gente chata que não sabe apreciar as coisas boas da vida.
Há lá melhor que estar no quente da cama, num Domingo de manhã, a ouvir a chuva a cair lá fora, na rua, e sentir uns dedos suaves de uma mão quente, que não é nossa, a percorrer o nosso corpo nu que começa a ficar arrepiado?
Mas já divago.
Na verdade não há nada dessas coisas quase-sexuais a acontecer. As mãos dela estão cruzadas em cima do peito, como as minhas, aliás, enquanto olha para o tecto, como eu, a pensar no que fazer para o almoço se conseguir levantar-se. Eu sei isso porque ela perguntou-me O que é que queres almoçar? e eu respondi-lhe Não sei! O que tu quiseres! que tem sempre o condão de irritar o outro, o que faz a pergunta.
Ela não se irritou. Porque não se irrita com as minhas merdas. Ainda estamos na magia da segunda semana. Ainda não damos puns à frente um do outro. Ainda acreditamos em unicórnios e a vida em conjunto é bela e cheia de lantejoulas e purpurinas. As coisas talvez mudem um pouco passado mais um mês. Comigo costuma ser por volta de um / dois meses. Esse é o tempo suficiente para começarem a querer que eu lave os dentes antes de nos beijarmos e começarem a irritarem-se com os Hum!… que eu dou como resposta que, de início, é algo que as faz rir, sou um tipo com muita piada, um puto, dizem, que depois se transforma em criancinha mal-educada com quem não se consegue ter uma conversa.
Não, ainda não tínhamos chegado a essa altura. E por isso ela estava a pensar no que fazer para o almoço.
Ainda estamos no domínio do sonho, da vida é bela, da paixão. Do que fazer para agradar ao outro e o estômago é sempre um bom caminho.
Gosto tanto de ti. Eu também. Vamos para debaixo do edredão? Vamos, vamos! Que se foda o almoço!
Mas não vamos. O telemóvel dela toca. Alguém que não sabe que é Domingo e ainda de madrugada. Alguém que, obviamente, não está apaixonado nem sabe que há gente no mundo que está.
Quem será? pergunta ela antes de agarrar o telemóvel.
Quem será? penso eu.
Ela atende. Responde com monossílabos. Vejo a cara a ficar séria. Talvez um pouco branca para quem, como ela, não há muito tempo, estava rosadinha.
Vou já para aí! ouço-a dizer. Desliga o telemóvel. Afasta o edredão para o fundo da cama e salta para fora.
Percebo que se acabou o irmos para debaixo do edredão. Ela começa a vestir-se. Nem toma banho. Diz-me A minha mãe foi internada na UCI. Egoísta, sai-me assim, rápido, sem ter tempo de pensar E a tua irmã? E eu já sabia que a irmã não estava cá. Não estava na cidade. Se calhar nem estava no país. E mesmo que estivesse! penso.
Ela olha-me de lado, como quem diz Então?! É a minha mãe, pá! e acaba de vestir-se enquanto o Diabo esfrega um olho. Dá-me um beijo rápido e diz Depois digo alguma coisa.
Vejo-a sair do quarto. Ouço-lhe os passos rápidos a percorrerem a casa. A porta da rua a abrir e a fechar. E o silêncio.
Puxo o edredão para cima. Viro-me para o outro lado. Ouço a chuva a cair lá fora. Sinto-me bem no quentinho da cama, mesmo que sozinho. E sinto o sono a chegar. Não o contesto. Deixo-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/10]

A Cadeira Miniatura da Minha Avó

No alpendre aqui de casa há uma cadeira pequenina, de madeira, comprada numa feira de artesanato, que lembra as clássicas cadeiras grandes de madeira, mas em miniatura, que era mais decorativa que outra coisa mas que o gato adoptou e para onde costuma ir dormir, principalmente se eu estou sentado lá fora, a fumar um cigarro, a beber um copo de vinho e a ler um livro ou, simplesmente, a olhar as montanhas em frente, carecas, secas e verde-musgo no Verão, cheias de neve branca no Inverno.
Às vezes, quando vejo o gato a dormir nessa cadeira em miniatura, lembro-me da minha avó materna que, lá em casa, em casa dos meus pais, tinha uma cadeira assim, parecida com esta, um pouco mais resistente e cómoda, onde a minha avó se sentava. Era a cadeira dela. Sentava-se naquela cadeira estivesse na cozinha a descascar batatas, na sala a ver as suas novelas, na varanda a respirar ar fresco ou no quintal a ver-me, a mim e à minha irmã, a brincar feitos cabritos, aos pinotes por todo o lado e a subir a nespereira que lá estava, para tomar conta de nós e ver se ninguém caía e partia a cabeça.
A minha avó só não se sentava naquela cadeira às refeições porque senão não chegava à mesa.
Sempre me interroguei o porquê de ela sentar-se sempre naquela cadeira.
Talvez porque tenha sido o meu avô a fazê-la com as suas mãos, de propósito para o corpo da minha avó. Talvez porque como ela era pequena, sentada naquela cadeira em miniatura conseguia ficar com as pernas num ângulo de noventa graus e não quase de pé como eu a via quando ela se sentava à mesa para almoçar ou jantar e só se encostava com o rabo à cadeira, até que um dia a cadeira escorregou e ela caiu. Não partiu a bacia, mas andou uns dias dorida. Depois, a partir desse dia, passou a sentar-se com o rabo na cadeira e os pé passaram a ficar pendurados como ficavam os meus quando eu era pequenino e queria ser grande. Ou talvez porque na sala ela enterrava-se no sofá e não conseguia sair sem ajuda e tinha a sensação que se ia afundar no fofo do sofá e ser engolida pelo monstro do conforto e nunca mais nos veria, a mim e à minha irmã, os seus diamantes, a quem permitia todas as brincadeiras por mais estúpidas que fossem.
Mas não sei. Nunca lhe perguntei. Nem nunca perguntei à minha mãe.
Lembro-me disso agora, quando vejo o gato deitado naquela cadeira miniatura que está no alpendre aqui de casa e que comprei numa feira de artesanato nem sei bem porquê.
Nos dias frios e de cacimbo, o gato dorme lá em cima, todo enrolado nele próprio, como uma bola de pêlo. Nos dias de calor deita-se esticado, por vezes com a cabeça tombada para o chão.
Quando o cão passa por lá, dá uma lambidela no pêlo do gato. A maior parte das vezes o gato ignora. Outras vezes levanta a cabeça, olha para o cão e volta a dormir. A vida é muito complicada para os gatos.
Acho que até a minha avó, velhinha, já com muitas dificuldades de locomoção, era muito mais interactiva que o gato.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/04]

No Aniversário da Minha Mãe

Volto a entrar em casa dela. Um ano depois. Faz um ano que aqui estive. Regresso hoje. Um ano mais tarde.
É o aniversário dela. É a única altura em que a vejo. Em que lhe dou um beijo. Em que falo com ela. Falo!… Digo-lhe Olá!… Parabéns!… Ela oferece-me uma fatia de bolo. Um copo de Vinho do Porto. Diz Já começa a fazer frio, não é? e depois começam a chegar outras pessoas, os amigos, as amigas, o resto da família, e eu vou-me embora. Não gosto de me envolver.
Normalmente levo-lhe um perfume. Um perfume qualquer. Uma embalagem bonita. Ela colecciona frascos de perfume cheios. Usa o mesmo há mais de cinquenta anos. Foi o meu pai que lho ofereceu. E nunca mais mudou de perfume. Às vezes cruzo-me com esse cheiro na cidade e olho à procura dela. Não a vejo, é claro. Não é ela que anda por ali. É só o seu perfume. E não é muito frequente sentir aquele perfume. Já é um perfume antigo e, no meio de tantas e novas fragrâncias, é uma grande pontaria cruzar-me com o perfume que a minha mãe usa já mesmo antes de eu nascer e ser filho dela. Mas colecciona frascos de perfume. Tem um móvel de vidro cheio de perfumes que nunca irá abrir. Gosta de olhar para os frascos. Todas as semanas retira-os, limpa-lhes o pó e dá-lhes novas ordens para que possa olhar para formas e cores diferentes. Quando era mais nova, tinha mais paciência e a mão mais firme, ainda desenhava os frascos de que gostava mais. Às vezes pintava-os. Aguarelas. Ainda tenho algumas aguarelas dela. E algum carvão. Desenhos e pinturas que pedi para trazer quando saí lá de casa. Para me lembrar dela. Para me recordar como tinha sido a minha vida naquela casa.
Eu chego cedo. Antes de toda a gente. A minha mãe enceta o bolo de aniversário para me fazer comer uma fatia. Bebe, ela própria, um copo de Vinho do Porto comigo, dizemos duas ou três coisas, coisas que se repetem de ano para ano, e despeço-me dela antes que comecem a chegar os convidados. Em especial a minha irmã.
Depois dou uma volta a pé pela cidade. De ano para ano torna-se, cada vez mais, estranha para mim. Já não reconheço nada. Nem ninguém. As lojas fecham e abrem outras. Outra gente torna-se senhora da cidade. Esta já não é a minha. Sinto-me desconfortável enquanto caminho ao longo da avenida principal. Não a reconheço e, ao mesmo tempo, parece-me igual a todas as outras que tenho caminhado ao longo dos anos por outros sítios que, agora, me parecem todos iguais. Está uma avenida incaracterística. Numa cidade incaracterística. Cheia de gente incaracterística.
Volto cá por causa da minha mãe. É a minha única âncora a esta cidade. Quando morrer, cortam-se todas as amarras que ainda existem. E se por um lado não quero que a minha mãe morra, antes vá eu que ela que é muito mais precisa às pessoas a quem faz bem que a inação em que me tornei, por outro tenho vontade de nunca mais cá voltar. Faz-me mal cá voltar. Regresso sempre cheio de angústia e tristeza. Penso sempre em tudo o que se perdeu aqui, na minha não-relação com esta cidade. O que eu perdi. O que a cidade perdeu. O que as pessoas da cidade e eu deixámos de ter. Por isso não volto cá mais vezes. Venho no aniversário da minha mãe. A única razão para cá por os pés. Depois…
Páro num café que já foi o meu café. Não reconheço ninguém no lado de dentro do balcão. Não reconheço ninguém na sala nem na esplanada. Bebo uma bica queimada. Como um pastel de nata demasiado doce. Talvez seja má vontade de minha parte. Talvez seja eu que já não tenho maneira de bem-receber as coisas que a cidade tem para mim.
Pago o café e o pastel de nata ao balcão. Depois pago o parque de estacionamento. E saio com o carro. Espero não ter de cá voltar se não daqui a um ano. Saio do parque de estacionamento subterrâneo e descubro que está a chover. Vejo as pessoas a correr para se abrigarem. O céu está cinzento. A cidade também. Continua sem árvores. Vá lá, há coisas que continuam iguais. E, de repente, já não há ninguém na rua.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/29]

Uma Cama de Corpo-e-Meio

Todas as Quartas-feiras eu ia ter a casa dela. Ia logo de manhã, depois dos pais terem saído para o trabalho e a irmã ter ido para a escola. Em dias de chuva ou de sol, lá estava eu a tocar à campainha na forma de um código de toques, para ela saber que era eu e, se os pais e a irmã já tivessem saído de casa, ela dizia Sobe, babe! pelo intercomunicador e só depois abria a porta da rua. Nunca foi diferente. Os pais, ou a irmã, nunca, por uma vez que fosse, estiveram em casa numa Quarta-feira durante aquele ano.
Eu subia o elevador numa excitação tal que, nas primeiras Quartas-feiras, só com a expectativa do que se adivinhava, vinha-me antes de lá chegar. Era com enorme vergonha que a via a olhar para a mancha nas calças com que eu entrava em casa dela. Mas o desejo era maior que a vergonha.
Ela estava quase sempre de pijama. Às vezes de camisa de dormir. Mas normalmente era de pijama, naqueles pijamas de turco, amarelo, com um desenho infantil qualquer à frente, mas que já não recordo.
Pegava em mim, pela minha mão, e levava-me para o quarto que era dela. Dela e da irmã. E ficávamos lá os dois sozinhos, toda a manhã, até quase à hora do almoço, altura em que saíamos de casa dela e íamos até ao liceu almoçar e às aulas da tarde.
Às Quartas-feiras não tínhamos aulas de manhã. Era a única altura em que não tínhamos aulas, numa semana bastante preenchida de manhã até ao final da tarde. E tudo começou com um trabalho de grupo. Uma trabalho de grupo que acabou por ser a dois. Em casa dela. No quarto dela. Com ela. E tudo aconteceu. De uma forma natural. Tão natural como estas coisas podem acontecer. Uma anedota ou outra. Um sorriso. Depois um riso. Uma conversa sobre gostos, paixões, desejos. Encontros nos livros mas, principalmente, nas bandas de música. A vontade de tocar. De beijar. E, depois, depois passou a acontecer todas as Quartas-feiras.
Eu saía de casa para as aulas, só que não tinha aulas. Fazia o caminho a pé, a gerir as expectativas. Pensava naquelas três horas em que ia estar junto dela, em casa. Sozinhos. Nus. Na cama pequena dela. Na cama pequena em que tínhamos de estar muito juntos, agarrados, para nenhum de nós cair. Ou ela em cima de mim. Para cabermos os dois. E como ela gostava de estar em cima de mim! E eu gostava que ela estivesse em cima de mim. Gostava de a ver cá de baixo. O corpo dela a crescer sobre mim. Os olhos semi-cerrados. A cabeça a bailar. Os braços esticados ao céu. Às vezes, as gotas de transpiração que eu via na sua trajectória pelo corpo dela, até caírem sobre mim, sobre o meu corpo, a minha cara, a minha boca, e eu saborear todo aquele sal que o corpo dela exalava.
Isto começou a meio do primeiro período e durou até ao final do ano. Acabou quando as aulas acabaram. Cada um foi para as suas férias e, no ano seguinte, fomos parar a turmas diferentes e nunca mais tivemos uma Quarta-feira. Sim, porque a nossa relação resumia-se às Quartas-feiras. Em casa dela. No quarto dela. Na cama dela. Fora dali tínhamos uma relação quase inexistente. Não éramos namorados. Nem sequer amigos próximos. A nossa proximidade estava toda ali, naquele quarto, às Quartas-feiras.
Houve um dia em que as coisas tiveram uma narrativa diferente. Naquele dia ela levou-me para a cama dos pais. A cama estava por fazer. Era ela que a deveria fazer. Mas antes de puxar os lençóis e os cobertores, deitou-se lá em cima e puxou-me para cima dela. E invadimos a cama dos pais, ela e eu, e desfizemos ainda mais a cama. No fim fomos para a varanda fumar um cigarro, sentados no chão da varanda, a olhar para o céu azul carregado de nuvens brancas como algodão doce. Deixámos a porta da varanda aberta para arejar a cama. Depois eu ajudei-a a fazê-la. E fomos para o liceu.
Nesse dia, ao final-do-dia, quando cheguei a casa, soube que o meu pai tinha morrido num acidente automóvel. O resto do ano foi muito doloroso. As notas acabaram por se ressentir. Consegui passar de ano à tangente. Mas nunca falhei uma Quarta-feira. Não, as Quartas-feiras eram sagradas. Ainda hoje não consigo dormir em camas-de-casal. Ainda hoje durmo sozinho, numa cama de corpo-e-meio.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/31]

Não Tenho uma Casa a Lembrar com Nostalgia

Acompanhei-o num regresso ao passado. Já tinham passado tantos anos. Já tinha passado tanta história. Já tinha passado tanta vida. Ele mesmo já era outro, embora nunca tivesse deixado de ser, também, aquele que tinha sido naquela altura. E, no entanto, aquele regresso, quase cinquenta anos depois, àquele lugar, àquele lugar específico, estava tão carregado de emoção que até eu a podia sentir ali, perto mas distante, ao lado dele.
O lugar, bem entendido, já não existia. Já não existia como ele o tinha conhecido. A casa onde viveu aqueles oito intensos meses, já não existia. Agora era um condomínio fechado. Janelas enormes. Linhas direitas. Tudo muito rectangular e sóbrio. Provavelmente abrigava gente com dinheiro. Com muito dinheiro. Também tinha sido assim, naquela altura, pelo menos até eles lá chegarem e tomarem conta do espaço naquele Verão onde tudo parecia possível. Mas as coisas eram diferentes. É sempre tudo muito diferente ao longo da cronologia do tempo. E o passado tem essa capacidade de nos embelezar o que ficou lá para trás, principalmente quando fomos jovens, idealistas e uns idiotas cheios de esperança no futuro.
Ele encostou-se ao muro do outro lado da estrada e ficou ali a olhar para aquele prédio que não lhe dizia nada mas que lhe tinha aberto uma auto-estrada para a época em que lá viveu.
Eu encostei-me ao lado dele. Como ele. E também olhei para o prédio. Achava o prédio bonito. Mas era só. Ao contrário dele eu não tinha empatia com casas.
E fiquei a pensar nisso enquanto olhava para uma das janelas do prédio. Eu não tenho para onde voltar. Não tenho um sítio para onde ir rejuvenescer memórias preciosas de épocas fantásticas. Não tenho uma casa de família. Não tenho uma casa-mundo. Não tenho um espaço de importância. Claro que houve momentos. Momentos bastante importantes na minha vida. Mas foi tudo disperso por casas sem história. Eu nasci numa casa. A minha irmã nasceu noutra. Nenhuma delas existe mais. O meu pai morreu noutra casa. Os meus filhos nasceram noutra. Cada um deles numa casa diferente. Quando casei fui viver para outro sítio. Quando me divorciei, despachei-me para uma kitchenette com um divã. Hoje… Hoje já nem sei bem por onde ando. Vou com o vento.
Apareceu um homem, já de uma certa idade, numa das janelas do prédio. Pôs-se a olhar para nós. Devia estar a pensar Quem serão estes tipos? A olhar aqui para casa?
Virei-me para ele e percebi que não estava ali ao pé de mim. Estava, mas não estava.
Eu gostava de ter uma casa da avó com sótão onde ir vasculhar o passado. Uma arrumação onde encontrar a minha infância. A minha adolescência. A minha formação. Não sei onde param as minhas bicicletas. O skate. Os jogos de tabuleiro. O Monopólio. O Risco. As bolas de futebol. Nem a PlayStation, a primeira que saiu e que tive já em adulto, não sei onde pára. Mas a verdade é que também não penso nisso. É importante? Se calhar não. Ou então estou a fazer mal as contas.
Não tenho um rio. Uma rua. Uma aldeia. Uma cidade.
Tenho um Verão. Ou dois. Uma viagem. Ou duas. Mas as estórias perdem-se nos espaços. Onde aconteceram? Algures por aí. Nem sei.
A cara dele mexeu-se. Vi porquê. Uma lágrima deslizava pela cara. E fez-lhe um risco brilhante naquela cara tão marcada.
Acendi um cigarro.
O homem continuava à janela, protegido pelos seus vidros duplos, ou triplos, a olhar para nós.
E pensei que se um dia quisesse contar histórias da minha vida iria ter muita pouca coisa para contar. Pelo menos coisas emotivas. Daquelas que trazem um nó agarrado ao estômago. Talvez eu seja desligado. Talvez não seja pessoa para me prender a coisas tão insignificantes como casas. Mas isto também não demonstra a minha falta de afectividade? A minha falta de amor?
Ele limpou a face com as costas de uma mão. Virou-se para mim e disse Vamos! E fomos.
O homem já não estava à janela.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/03]

Os Filmes Pornográficos do Meu Pai

Eu tinha onze anos quando descobri os filmes do meu pai. Os filmes super-8. Estavam numa caixa de latão. Uma caixa de latão igual às que a minha mãe usava como caixas de costura. Iguais às que a minha avó usava para colocar os biscoitos.
Andava a remexer nas coisas dos meus pais. Eles não estavam em casa. Estava só com a minha avó. Com a minha avó e a minha irmã mais nova, que era tão nova que não conta para aqui. Andava numa caça ao tesouro. Naquela altura não havia Youtube Kids, Cartoon Network ou Canal Panda. Não havia consolas de jogos. O primeiro que entrou lá em casa foi o TV Brinca e era uma espécie de jogo de matraquilhos onde só havia dois traços a defender uma baliza de um rectângulo que andava de um lado para o outro. Mas isso foi mais tarde. Já não recordo bem quando. Mais tarde. Mas foi antes do Spectrum. O Spectrum fazia muito barulho a arrancar. Era uma espécie de ritual para entrar num mundo mágico. Era como as provas de aptidão para entrar no grupo dos Pequenos Vagabundos.
Para me entreter, e como só havia televisão à hora do almoço e à noite, aventurava-me nos fundos dos armários do corredor e do quarto dos meus pais. À procura de tesouros. Foi assim que descobri que já tinha sido louro. Quando era bebé. A minha mãe tinha guardado um envelope com dois anéis de cabelo, loirinhos, e o meu nome em diminutivo, escrito à mão, no envelope.
Naquele dia descobri, nos confins do armário, debaixo de outras caixas que estavam debaixo de cobertores debaixo de vária toalhas, aquela caixa. Era de um latão dourado. E chamou-me logo a atenção. Abri-a com cuidado. Algum nervosismo.
Havia uma série de rolinhos de plástico. Com fitas. Fitas que se desenrolavam. Puxei algumas. Tinham imagens. Pareciam fotografias. Mas eu não conseguia perceber o que era. Eram muitas. Algumas dentro de caixinhas de cartão. Outras soltas.
Mais tarde falei desta minha descoberta lá na escola. Havia quem soubesse o que era. Filmes. O meu pai também tem filmes desses lá em casa, disse-me. Que filmes?, perguntei. De miúdas nuas, respondeu.
Miúdas nuas?, pensei.
Podemos vê-los lá em casa. Na máquina de projecção do meu pai, sugeriu. E eu disse Está bem! E ele ainda disse Traz amanhã. Vamos para minha casa. E eu voltei a dizer Está bem.
Foi um problema para ir buscar a caixa de latão dourada ao fundo do armário do quarto dos meus pais. Tive de esperar pela hora de me ir deitar. Não adormecer. Esperar que eles fossem para a sala. Ver televisão. Talvez A Visita da Cornélia. Talvez algum filme. Porta encostada. O som relativamente baixo. Uma pequena luz indirecta. Num candeeiro ao fundo da sala. Eu não adormeci. E em silêncio fui ao quarto deles. Às escuras. Só na companhia da luz da lua que entrava pela janela do quarto e me assustava um bocadinho. Tirei as toalhas. Os cobertores. As outras caixas. A caixa. A caixa de latão dourada. Voltei a meter tudo de novo no fundo do armário. As caixas. Os cobertores. As toalhas. O monte mais pequeno. Rezei para que a minha mãe não notasse que o monte estava um pouco mais pequeno.
Acordei cedo. Com vontade de ir para a escola. Ia fazer os trabalhos de casa com os amigos. Tudo ali na rua. Tudo vizinhança. A escola. Os colegas. Os amigos. As casas de uns e outros. E não havia medo da rua, naqueles tempos.
E no fim das aulas lá fomos. Em romaria para casa de um deles. De um de nós. A caixa. Os rolos de plástico. Que eram filmes. A máquina de projecção. A janela quase fechada para tirar luz à sala. E começou.
Éramos para aí uns cinco ou seis. Espalhados pela sala. Nos sofás. No chão. E começou o barulho da máquina. Rrrrrrrrr. E umas imagens. A cor. Umas senhoras. Talvez meninas. Num piquenique. Num parque. A comer. A beber. Depois tiraram as roupas. Começaram a brincar entre elas. Chegaram uns homens. Talvez rapazes. As raparigas foram ter com eles. Despiram-nos.
Na sala reinava o silêncio. Não se ouvia, sequer, o respirar de cinco ou seis adolescentes a verem o seu primeiro filme pornográfico. Bom, não ele. O miúdo da máquina de projecção. Esse já tinha visto os filmes do pai dele. Até sabia mexer na máquina. Mas também não respirava.
Ficámos em silêncio a ver o resto do filme daquele pequeno rolo. Um tempo curto, mas que pareceu longo. E havia muitos mais rolos para ver. Mas não vimos.
Quando aquele rolo chegou ao fim, a máquina continuou no seu barulho imparável Rrrrrrrrr. Ninguém se mexeu. Ninguém disse nada. Continuámos em silêncio, sentados exactamente como estávamos. Como estivemos sempre, a ver o filme. Como se ainda estivéssemos a ver o filme. Durante algum tempo. Até que alguém disse Vamos jogar à bola? E lá fomos.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/26]