As Pessoas São Estúpidas

As pessoas são estúpidas.
Não uma pessoa em particular. As pessoas em geral. São estúpidas. E quanto maior o grupo, maior a tendência para aguçar essa estupidez. A estupidez é algo que vai bem em grupo. Um estúpido sente-se bem rodeado de outros estúpidos. Imagina que, assim, faz parte do grupo dos espertos. Mas os espertos são também, muitas vezes, estúpidos.
As pessoas elegem gente como Donald Trump e Jair Bolsonaro para lhes indicar o caminho. As pessoas aclamam gente como Hitler, Mussolini e Salazar, mesmo que depois venham a dizer que não. Quem tem cu, tem medo. Passou-se o mesmo com a França colaboracionista. Trabalharam para os alemães. Depois eram todos resistentes e foram, provavelmente, os mais aguerridos a cortar o cabelos às mulheres que se deitaram com o invasor, coitadas, elas que se limitaram a sobreviver.
As pessoas são estúpidas e têm dificuldade em perdoar. Ou algumas pessoas têm dificuldade em perdoar. Se calhar são as mesmas que colaboram. Não tenho certeza. Mas é o que parece. Às vezes há quem perdoe. Pode ser difícil, mas por vezes é o melhor que se pode fazer. Foi assim em Espanha. Foi assim na Argentina e no Uruguai. Mas em Espanha parece que esqueceram de tudo. Principalmente do que perdoaram, mas que não era para esquecer. Em Espanha parece que se esqueceram dos tempos do Caudilho. As pessoas tendem a esquecer. Tendem a não ter memória. Repito: As pessoas são estúpidas.
Dois anos depois da tragédia de Pedrogão Grande e da destruição do Pinhal do Rei, tudo está na mesma. E quando está na mesma está pior. Porque não se aprendeu nada. As pessoas são mesmo estúpidas. Aumenta a área de eucalipto porque quem tem terrenos precisa de os fazer render. E nada rende mais que o eucalipto. Percebe-se. Devia haver políticas de apoio a uma floresta diversificada. Mas não há. É cada um por si. E o Estado impõe regras que ele próprio não cumpre. Há que limpar os terrenos, mesmo que sejam no interior do país, naquele país onde não há gente, e a que há é velha, como é que vão limpar os terrenos? Com que gente? Com que dinheiro? E os terrenos do Estado, esses continuam como estavam, ao abandono.
As pessoas são estúpidas.
Um homem ameaça a mulher com uma moto-serra. Dorme na cama com a mulher e a moto-serra. Quase que sinto o cheiro a gasóleo. Quase que sinto o barulho da moto-serra ávida de cortar carne. O juiz manda o homem para casa com pena suspensa por quatro anos e meio. O que hei-de dizer?
Estou furioso.
As pessoas são estúpidas e não querem aprender.
Há uma cultura do ódio. Todos queremos alguém para odiar. Seja pelo futebol. Pela política. Por motivos passionais. Porque sim.
As redes sociais são um caminho minado de ódio. Sinto-o destilar em gente sentada no seu sofá, enquanto trinca uma fatia de pizza e bebe uma cerveja.
Há gente com vontade de iniciar uma guerra. Alguns por causa de negócios – desde miúdo que ouço dizer que a guerra é boa para a economia. Outros porque são fanfarrões. Falam alto e querem ser chefes. Outros ainda porque não sabem fazer outras coisas. Brinquem com as pilinhas, porra!
Sentado no seu gabinete de crise, Donald Trump mandou atacar o Irão. Até lhe imagino a salivar de tesão ao ver, à distância de meio-mundo, um drone atacar, matar gente e destruir uma qualquer peça de civilização do outro lado do mundo.
As pessoas são estúpidas.
Ontem vi uma fotografia do presidente brasileiro com uma T-shirt que dizia Marcha para Jesus, e a fazer aquele sinal idiota de pistola com os dedos, a metralhar alguém ou alguma coisa. As pessoas são estúpidas e correm atrás de estúpidos para não se sentirem sozinhas. Querem ser dirigidos por estúpidos para sentirem que têm razão. Razão em odiar os outros. Razão em odiar os diferentes. Razão em odiar quem pensa de maneira diferente.
Como é que os evangélicos podem pregar a palavra de Deus e, ao mesmo tempo, disparar tanto ódio?
Como é que as pessoas não vêm as incongruências?
Enfio o cano do revólver na boca. Estou a transpirar. Tremo. Estou com medo.
Eu também sou estúpido. Podia tentar fazer algo para combater o estado das coisas, mas quero é saltar fora, a meio do caminho.
Deixei-me contaminar.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/21]

As Notícias do Dia Incomodam-me

Vim para o alpendre. Parou de chover. Descobriu o sol. O tempo está quente. Peguei na Catedral de Raymond Carver, que ando a reler, e sentei-me aqui fora. No alpendre.
Ao fundo as montanhas limitam-me o horizonte. Por cima, no céu azul, umas nuvens brancas como algodão doce.
Acendi um cigarro. Estou a fumar. Ainda não abri o livro. Ainda não recomecei a ler. Estou a pensar nas notícias que me acordaram hoje de manhã e que têm andado por aqui a calcar a cabeça. Não sei bem o que é que tudo isto quer dizer, mas não é nada bom, tenho a certeza.
Aquela história no Brasil assusta. A obscuridade. Os estudantes têm de limitar a sua rebeldia. Os estudantes, numa idade de revolta, de busca por identidade, de procura do conhecimento, de experiências e experimentação, têm de se comportar com juizinho. As raparigas e os rapazes não podem usar piercings e, os rapazes, nem brinco, que isso é coisa de maricas e maricas não, senhor! As calças não podem andar arregaçadas. Nenhum deles pode usar boné, boina, chapéu. Agora há militares armados nas instalações escolares a garantir a execução das novas normas de conduta. A filosofia vai desaparecer. A sociologia também. Todas as ciências sociais vão deixar de existir no currículo académico. Todas as disciplinas que possam ajudar a desenvolver a capacidade de raciocínio e ajudar a pensar, vão deixar de ser leccionadas. O Brasil quer ser um enorme curso técnico-profissional. Os alunos vão aprender ofícios que possam ajudar a erguer o novo país alicerçado no Boi, na Igreja Evangélica, na pistola na ponta da mão e na destruição da Amazónia. Amén.
Estou com azia.
Acabo o cigarro. Olho para a capa da Catedral que ainda não abri e pouso o livro na mesa de apoio. Olho para as montanhas lá em frente.
O Presidente americano, que se gaba de ser um excelentíssimo negociador e um notável homem de negócios, acabou por não conseguir levar a bom termo nenhuma das negociações a que se propôs, nomeadamente com a Coreia do Norte de Kim Jong-un. O Irão é o que se sabe. Israel, ainda está para se ver. O New York Times descobriu, por sua vez, que durante anos, Donald Trump não pagou impostos por ter perdido, em poucos anos, mais de mil milhões de euros. Um homem ancorado em mentiras sobre mentiras. Um arrogante construtor de mentiras que lhe abriram o caminho à presidência, a criar um novo género da fazer política. O que nos faz pensar na educação que (não) se dá ao povo. Um certo tipo de povo. Arredado do conhecimento. Da cultura do pensamento. Do raciocínio. Um voto na mão a eleger quem desdenha desse mesmo voto.
Sinto a garganta seca. Um nó no estômago. Uma certa angústia. As notícias deixam-me deprimido. É para isto que aqui chegámos?
Acendo outro cigarro.
Penso nos banqueiros. Penso nos banqueiros que não acham justo que não se paguem os movimentos no Multibanco. Penso nas caixas Multibanco que andam a ser substituídas por caixas ATM. Estas a pagar. E penso que não é justo que o dinheiro que não é deles tenha de lhe passar pelas mãos. Não é justo que os meus poucos euros dêem várias vezes a volta ao mundo a multiplicar os lucros dos banqueiros e eu não veja sequer a cor dele. Não há retorno. Nunca há retorno. Penso que não é justo os banqueiros utilizarem o meu dinheiro e não me pagarem nada por ele e obrigarem-me a pagar por toda e qualquer acção que eu faça com o meu dinheiro. Penso como não é mesmo nada justo que os seus lucros sejam distribuídos pelos accionistas e os seus deficits sejam cobrados aos contribuintes que não têm nada a ver com aquilo. Não, não é mesmo nada justo. Quero deixar de utilizar os bancos. Ou seja…
Ou seja, não! Odeio esta expressão. Repetir as mesmas coisas por outras palavras. Admitir que não me exprimi bem da primeira vez. Não! Que porra!
Sinto-me enterrar na cadeira. Fumo o cigarro. Sinto-me pequeno. Cada vez mais pequeno e enterrado na cadeira. As montanhas continuam lá à frente. Verdes. Um verde-azeitona. O céu azul. Umas nuvens largadas um pouco à sorte sobre o céu, como açúcar largado por cima de uma arrufada.
Os gatos e o cão pressentem a minha tristeza. O caminho aberto à depressão. Os gatos roçam-se nas minhas pernas. Miam. Não sei o que é que querem. Talvez darem-me mimo. O cão lambe-me a mão. Passa a língua pelo cigarro. Queima a língua. Gane. Deita-me o cigarro ao chão. O cigarro apaga-se inundado de saliva. Eu digo, baixinho, És mesmo bruto, pá!
Ela aparece com dois copos de vinho tinto. Dá-me um.
Ficamos ali os dois, mais os gatos e o cão, a olhar as montanhas lá à frente e a pensar no tempo que nos resta. E que tipo de tempo é que nos resta.
Acendo outro cigarro. E penso há quanto tempo é que não vejo o Óscar. O sardão cá de casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/08]

Uma Casa Cheia de Buracos

Devia ter ido para a rua.
Devia ter ido atrás dos outros todos para a rua, gritar, gritar a plenos pulmões o meu amor pelo país que acabara de passar à fase seguinte do campeonato do mundo de futebol.
Não consegui.
O meu amor pelo futebol não é assim tão grande.
O meu amor por este país também não me motiva a tanto.
Fiquei em casa agarrado a um copo de vinho tinto que já nem sei o que era. Uma garrafa seguiu-se à outra enquanto enfardava um bocado de broa a acompanhar umas sardinhas em lata enquanto via o jogo.
Depois fiquei mal-disposto.
Nem cheguei a ver a grande penalidade iraniana. Nem o quase-golo que lhes daria a vitória. Nem o desespero de Carlos Queiroz.
Passei a segunda metade da segunda parte a vomitar na casa-de-banho.
Quando voltei à sala, de estômago vazio, já o jogo tinha terminado, o pais estava apurado e a população manifestava-se ruidosamente debaixo da minha janela.
Sentei-me no sofá e enchi a pança com o resto da garrafa.
Acendi um cigarro.
Adormeci com o cigarro na mão.
Um borrão de cinza tombou no sofá e fez um buraco.
A minha casa está a ficar toda assim. Cheia de buracos de cigarros. Cheia de baratas que entram pelos buracos do lava-louça. Cheia de mosquitos que aproveitam as frinchas das janelas quando preciso de um pouco de ar fresco.
No outro dia cruzei-me cá em casa com um rato. Um rato gordinho. Não consegui apanhá-lo. Ainda anda por aí, que eu ouço-o a andar de um lado para o outro. E ontem encontrei cocó de rato no canto atrás do guarda-fatos.
Preciso de o encontrar. E quando o encontrar faço um guisado. E depois convido a minha vizinha do lado para cá vir jantar.
Preciso de conversar.
Preciso de falar e de ouvir outras vozes.
Estou farto de me ouvir a mim.
A minha vizinha parece-me uma boa ideia.
Tenho de encontrar o rato.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/26]

O Dia em que Cristiano Ronaldo Falhou uma Grande Penalidade

Era dia de jogo.
Portugal defrontava o Irão e ambas as equipas a querer seguir para os oitavos-de-final. Nos bancos, dois treinadores portugueses: Fernando Santos no banco português; Carlos Queirós no banco iraniano.
Fui para casa mais cedo.
Agarrei numa cerveja, fria, e num maço de cigarros. Fui à varanda e vi a cidade a ficar vazia. Fumei um cigarro. Despejei a garrafa. Voltei para dentro.
Agarrei noutra garrafa e fui para a sala.
Sentei-me no sofá e liguei a televisão.
Os hinos. Um. O outro.
Começou o jogo.
E perdi-me.
Agarrei no iPad e fui à procura de notícias.
Deparei com a novela Bruno de Carvalho. O homem apaixonado que se desapaixona. O tipo que sai e fica. O gajo que desiste e que volta. A personagem que vai e vem. Leio sobre o homem dos tremoços, sobre os arrogantes, os sportingados, os viscondes e os do croquete.
O Irão está a complicar a vida aos portugueses. O Rui Patrício acabou de levar com um pontapé na cabeça.
Passo à frente. Reencontro Donald Trump. O homem nunca deixa de ser notícia. Ainda as crianças. As crianças separadas dos pais. História de migrantes. As crianças são levadas não sei para onde e perde-se o rasto a uma série delas. Parece que a culpa é dos democratas. E de não o deixarem construir o muro. A culpa é do muro. O país de imigrantes é contra a imigração.
E de repente, o bruá na televisão. Portugal marca golo. Quaresma marca golo. Parece que estamos a ganhar.
Quaresma é um emigrante na Turquia. Um emigrante de luxo. Mas um emigrante. Um emigrante no país de Erdogan que ganhou as eleições ontem. Erdogan é a Turquia. Mas não é a Turquia.
É grande penalidade a favor de Portugal e Cristiano Ronaldo falha.
Foda-se!
Continuo pelas notícias. Itália. Não quero saber da Itália. Esta Itália voltou ao fascismo. Penso na falta de memória. Na ausência da história. Da supremacia da economia e finanças. Porra, Itália, também tu? Recordo as pedras em que tropecei quando a visitei e penso A Itália está cheia de história. Afinal…
E o Cristiano Ronaldo falhou uma grande penalidade.
Passo pela Hungria e já só dá para rir. A Europa fascista. A Europa dos muros. A Europa que deitou abaixo o muro de Berlim e que acaba a construir muros a torto e a direito e em todo o lado. É Trump na Europa.
Já me esquecia de Israel. Não está nas notícias. Não está nas notícias agora, porque já não é notícia, é sempre mais do mesmo, mas enquanto a bola vai-e-vem, lembro-me de Netanyahu. Do fascismo sionista.
E o Cristiano Ronaldo falhou uma grande penalidade.
Olho para o papel que tenho ali, em cima da mesa da sala. E acabo a cerveja. Levanto-me e vou ao frigorífico buscar outra. Olho para o papel que um amigo me enviou com notícias sobre o norte de Moçambique. Notícias que não vêm nas notícias. Grupos islâmicos andam a atacar aldeias no norte de Moçambique. Na província de Cabo Delgado. Que merda!
E o Cristiano Ronaldo vê cartão amarelo. Falhou uma grande penalidade. Os iranianos estão furiosos. No outro jogo do grupo a Espanha está a perder com Marrocos. O mundo está louco.
Uma boa notícia vinda de Inglaterra. No meio de tantos fascismos que se manifestam na Europa, alguns ingleses, alguns, muitos, ingleses, manifestam-se a exigir outro referendo porque estão contra o Brexit. Estão arrependidos. Querem a Europa. Querem voltar à Europa. A Europa que está a virar ao fascismo. Como o mundo. O grande mundo.
E há uma grande penalidade contra Portugal. E o puto da Matoeira não agarra a bola.
E o Irão empata o jogo.
E a Espanha empata o jogo.
E agora olho para a televisão e vejo a tremedeira habitual.
Não é normal o Cristiano Ronaldo falhar grandes penalidades. Mas falhou. E agora a equipa portuguesa treme por todos os lados.
O jogo lá acabou por terminar. Com empate. O Cristiano Ronaldo falhou uma grande penalidade.
O que é que o Bruno terá a dizer sobre isto?
E quantos imigrantes estarão a morrer no Mediterrâneo?
E aqui? À minha volta?
Quantos estão a morrer?
Quem está a morrer?
Porque é que não faço nada?
Estarei eu, também, morto?

[escrito directamente no facebook em 2018/06/25]