Boca Doce

Aproximava-se o aniversário da minha filha e eu tinha de fazer alguma coisa. Alguma coisa que compensasse estes dias de chumbo que temos vivido. Procurava uma pequena alegria. Procurava colocar-lhe um pequeno sorriso nos lábios e que esse sorriso a fizesse esquecer estes últimos meses.
Levantei-me de manhã cedo. Não a acordei. Deixei-a dormir. Não havia tele-escola e podia dormir um pouco mais. Lavei as mãos. Lavei a cara. Lavei os dentes. Os boxers estavam já demasiado rotos. Nem dava mais para remendar. Tomei nota mental para tentar arranjar mais um ou dois boxers. Vesti umas calças. Calcei as botas com biqueira de aço. Uma camisola. Uma casaco com bolsos. Uma mochila às costas. O cartão multibanco, um lápis com borracha na ponta, algumas moedas e umas notas. Depois calcei umas luvas. Coloquei uma máscara cirúrgica na cara, sobre a boca e o nariz. Apertei a mola sobre a cana do nariz. Agarrei no revólver e coloquei-o preso no cós das calças, nas minhas costas, e uma faca de mato, afiada, dentro das botas. Antes de sair de casa pus os óculos escuros. Não me benzi porque não sou religioso mas, no momento mesmo antes de sair de casa virei-me para trás e olhei para a casa silenciosa e quase na penumbra, os estores estavam corridos até baixo, deixando somente os buracos abertos para passar alguma luz mas não deixar entrar mais nada, para deixar a casa em segurança, e esse momento foi como se me tivesse benzido e rezado uma Avé Maria e um Padre Nosso. Depois saí e fechei a porta à chave nas minhas costas.
Nunca gostei de usar as máscaras. Dificultam-me a respiração, fazem-me comichão e muito calor. Mas sei que tenho de as usar. Se quero sair à rua, tenho de ir protegido. Protegido de todas as formas.
Tinha o carro na garagem. O carro atestado. Mas achei melhor ir a pé. Nem sequer levar bicicleta. Provavelmente teria de ir a vários sítios. O melhor era não estar preocupado que me roubassem o carro, a gasolina, a bicicleta. Ir a pé era a melhor escolha. Mesmo que uma escolha perigosa. E assim fiz.
Cheguei à rua e olhei para um lado e para outro. A rua estava vazia. Aquele era um bairro essencialmente residencial. Era muito raro encontrar alguém na rua. Mesmo nos quintais, quem os tinha, já era difícil encontrar alguém. As pessoas barricavam-se em casa. As que podiam trabalhar em casa trabalhavam. As outras tentavam sobreviver. Ficavam fechadas em casa o dia inteiro. A noite inteira. A semana quase toda. Mas às vezes, às vezes faziam pequenas saídas para procurar alimentos e remédios. Vasculhar os caixotes do lixo. Tentar algum assalto e evitar ser assaltado.
Ainda havia algum comércio durante o dia. A maior parte das lojas já só funcionava no mercado-negro. Eram protegidas por milícias. E continuavam a ser os sítios onde ainda se podia encontrar algumas coisas. Ainda se aceitava cartões multibanco e MBWay. Já ninguém aceitava cartões de crédito. O dinheiro em género era a forma mais imediata de se fazer compras mas, a troca de uns produtos por outros, estava a ganhar o seu espaço. Principalmente porque a maior parte das pessoas já não trabalhava e já não tinha dinheiro.
Eu ainda era um dos poucos sortudos com algum trabalho e algum dinheiro. Mas até para pessoas como eu as coisas estavam a ficar complicadas porque os próprios governos estavam a desintegrar-se. A perder as ruas. O Estado ainda tinha os militares e alguma polícia. Mas as milícias, os grupos armados, os grupos de piratas começavam a estender as suas malhas por todo o lado. Os Mercados já não existiam. Pelo menos, não como eram entendidos antes de tudo isto começar. Agora tudo se comprava e vendia directamente. Troca por troca. Mão havia mercados futuros. Fundos de investimento. Compra e venda de acções. Nada dessas coisas. Agora o que tinha valor era o real. Uma alface. Uma vaca. Um par de sapatilhas Adidas. Uma Glock.
Havia ainda produção no campo. E gente a garantir essa produção. A maior parte eram já protegidos por estes mesmos grupos de piratas. Quem tinha as armas é que mandava. Quem tinha as armas e os homens e a coragem. Os outros todos, obedeciam.
Eu ainda trabalhava para o Estado. Todos os meses ainda recebia o meu dinheiro através do banco. Os bancos ainda funcionavam. Afinal, era lá que os grupos de piratas guardavam o dinheiro. Na verdade, os piratas já tomavam conta dos bancos. Mas eles ainda funcionavam. Funcionavam era já de uma maneira diferente. Com outros objectivos. Agora eram essencialmente cofres-fortes. Guardavam ouro e outros metais preciosos. Pagavam-se entre eles para trocas entre clientes. Era assim que se fazia chegar um carregamento de uvas da Beira-Alta até Lisboa, por exemplo.
Mas enfim, saí de casa, cheguei à rua e virei à esquerda e fiz a rua toda até ao fim, até ao fim do bairro e depois continuei por ali fora, quase uma hora a caminhar pela estrada até chegar ao baldio, um antigo e enorme parque de estacionamento do estádio de futebol abandonado, terreno perigoso quando é noite, mas que se faz relativamente bem durante o dia. Depois faria mais cinco ou seis quilómetros em frente e estaria na periferia da cidade mas numa zona comercial onde, eventualmente, poderia encontrar alguma coisa do que procurava.
Fazer a rua do bairro foi muito penoso. A rua estava deserta. Alguns carros parados nas bermas junto aos passeios, mas já só umas carcaças metálicas. Esqueletos de antigos carros, despojados dos seus acessórios, desmontados e vendidos individualmente para renderem mais no mercado negro.
Havia gente dentro das casas. Via algumas caras à janela. Um homem saiu e disse Vais à cidade? Espera por mim que vou contigo! e voltou a entrar dentro de casa. Eu não esperei. Prefiro ir sozinho. Não levantar ondas. Passar despercebido. Manter-me invisível como sempre tinha sido toda a minha vida. Alguns quintais estavam abandonados. As casas ainda tinham gente mas as pessoas já não vinham à rua. Por medo do vírus. Por medo dos grupos armados. Por medo dos piratas. Por medo de tudo. Até da própria sombra. A vida, por estes dias, não vale um chavo.
Cheguei ao fim do bairro e fiz a estrada. Cerca de dez quilómetros até ao baldio do parque de estacionamento. Estrada deserta. Não passou um carro. Uma antiga estação de serviço abandonada e destruída. Cheguei ao antigo parque de estacionamento. Ao longe já se avistavam outras pessoas como eu, a ir para a cidade, a vir da cidade, atentos. Olhávamos uns para os outros a tentar perceber se éramos um perigo ou não. Agora ninguém sabe com quem se cruza. Há histórias de gente morta por amigos por causa de uma lamela de paracetamol. A vida tinha desvalorizado bastante na bolsa de valores. E a amizade mais ainda. Já não havia amigos. Era difícil encontrar gente em quem confiar. É por isso que precisava de encontrar qualquer coisa de especial. Para um dia especial de uma miúda especial.
Passei ao lado do antigo Estádio. Conta-se que lá dentro é o quartel-general de um dos grupos de piratas mais terríveis da zona. Mas pode ser só um mito urbano. As portas estão fechadas. Não se vê ninguém a entrar nem a sair do Estádio. Mas também se fala que existem túneis secretos. Na verdade não sabemos muito bem o que pensar de tudo isto.
Ao passar ao pé de uma das portas, levei a mão ao bolso onde tinha o revólver. Agarrei-o. Agarrei-o para o sentir. Vi qualquer coisa caída no chão por entre as ervas que cresciam no meio do asfalto rachado do antigo parque de estacionamento. Continuei a andar mas foquei melhor o olhar. Era um corpo. Um corpo de homem. Um cadáver ainda recente, provavelmente. Cuspi para o chão. Continuei em frente. Cruzei a estrada que vinha do norte e continuei até ao limite da cidade. Um quilómetro mais à frente começavam as primeiras lojas. Uns antigos supermercados adaptados aos novos tempos. Agora vendia-se de tudo, de tudo o que houvesse.
Lembro-me há muitos anos, em Luanda, ter ido ao Roque Santeiro, o maior mercado a céu aberto de África. Lá encontrava-se de tudo. Desde uma agulha para coser os meus boxers, quando eles ainda tinham salvação, até um míssil para disparar sobre a cidade vizinha. Agora, por aqui, era mais ou menos assim. Mas havia especializações nas lojas.
Cheguei ao primeiro supermercado logo à entrada da cidade. Era um antigo Minipreço. Mostrei o cartão multibanco ao segurança armado à entrada e entrei dentro do Minipreço. Dei uma volta pelo interior mas não havia nada que me interessasse. O antigo Minipreço era pequeno e não tinha muita variedade de coisas. Era essencialmente um entreposto de lacticínios e enchidos, tudo vindo directamente do produtor, algumas embalagens antigas, já tudo fora de prazo, mas muita coisa a granel. Só se leva o que se pode pagar. E não se pode levar tudo que as coisas são geridas de maneira a haver sempre quase tudo quase sempre.
Saí e entrei num antigo Pingo Doce. Fiz o mesmo ritual. Mostrei o cartão multibanco ao segurança e entrei. O Pingo Doce tinha muitas conservas. Era, essencialmente, um entreposto de latas de comida e bebida. Dei uma volta. Era bom se encontrasse uns pacotes de gelatina. Ela gostava de gelatina quando era miúda. Há quantos anos não comia gelatina? Mas não conseguia dar com nenhuma embalagem de gelatina. Até que, de repente, vejo-a a olhar para mim. Perdida numa prateleira. Fora de sítio, provavelmente, porque não havia ali mais nada daquilo. Uma embalagem de Boca Doce. Boca Doce! Uma embalagem de Boca Doce de Morango. O Boca Doce era uma espécie de pudim gelatinoso instantâneo. Agarrei logo na embalagem. Não precisava de procurar mais. Tinha encontrado o que procurava.
Paguei. Era caro. Paguei com o multibanco. Marquei o código com a parte de borracha do lápis. Depois desinfectei-a com um pouco de álcool e guardei o lápis no bolso do casaco. Pus a embalagem de Boca Doce na mochila. Podia voltar para casa. Não precisava de mais nada.
Saí.
Não tinha andado quinhentos metros, ainda estava dentro dos limites da cidade, quando fui abordado por um homem. Sem máscara. Afasta-te!, pedi. O tipo continuou a avançar para mim, mostrou-me uma faca na mão, uma faca grande, e disse O cartão! e tentou agarrar-me o braço. Eu levei a mão ao bolso do casaco e agarrei no revólver. Disse ao tipo Afasta-te, se fazes favor! Ele voltou a tentar agarrar-me. Deitou-me a mão ao braço e agarrou-me o braço e puxou-me para ele. Eu dei-lhe um pontapé com a biqueira de aço numa canela que o fez tropeçar. Enquanto ele se baixava cambaleante, eu tirei a mão do bolso com o revólver e disparei à queima-roupa. Disparei sobre o tipo. O tiro acertou-lhe em cheio na cara. Senti alguns salpicos a caírem sobre mim. Foda-se! disse. A mão do tipo largou-me o braço e ele caiu no chão. Dei-lhe um pontapé na mão e vi-a voar e cair quieta ao lado do corpo. Eu pequei no frasquinho de álcool e aspergi um pouco sobre mim.
Fui-me embora e deixei o corpo lá caído.
Enquanto passava ao lado do Estádio, enquanto caminhava pelo antigo parque de estacionamento, pensava que tinha de tomar um banho quando chegasse a casa e tinha de pôr a roupa para lavar e tudo isso antes da miúda acordar. E mais ainda pensava que à noite iria fazer o pudim-gelatinoso de Morango para o aniversário dela no dia seguinte. Achava que ela iria gostar de um Boca Doce. E sorri. Depois ainda pensei Não procurei os boxers para mim. E não pensei mais no tipo a quem tinha acabado de matar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/06]

O Primeiro Mar do Ano

Há uns anos, quando era miúdo, quando ainda estudava e vivia em casa dos meus pais, quando os meus amigos eram os meus vizinhos, quando passava a vida a jogar à bola nos quintais traseiros das casas da rua, quando as festas, todas as festas, eram sempre com os mesmos convidados que eram sempre os mesmos amigos de sempre que eram os mesmos vizinhos de sempre, tive o desejo de conhecer gente diferente.
E conheci.
Havia, na época, um programa de troca de correspondência com estudantes de todo o mundo, e eu era estudante e correspondi-me durante alguns anos com miúdas da minha idade de países tão exóticos como Trinidad e Tobago ou tão banais como Itália. Comunicávamos em inglês e sempre achei que o inglês delas era muito bom, muito melhor que o meu, e que elas deviam ser umas miúdas excepcionais para conseguirem perceber o meu inglês escrito, e na época não havia Google Translate nem podia pedir ajuda e revisão de texto às miúdas mais inteligentes da turma porque não queria que soubessem o que é que eu tanto conversava com estas outras miúdas que nem conhecia mas para quem eu abria o coração e o meu mundo. Agora que penso nisto acho que foi uma espécie de Facebook antes da era da internet.
Para essa correspondência tinha arranjado um papel de carta com fotografias coloridas de pôres-de-sol e parezinhos de namorados em silhueta, abraçados, de mãos-dadas e, às vezes, a trocar um beijo. É claro que comecei a escrever nestes papéis, porque também comecei a receber correspondência escrita em folhas similares, com paisagens bonitas, praias, campo, muito pôr-do-sol e sempre, sempre, um casal a aproveitar, junto, as belezas do mundo.
Lembrei-me disso agora por estar a ver um casalinho abraçado e a trocar beijos encostado ao varandim sobre a falésia do Vale Furado.
Vim ver o mar. O primeiro mar do ano. Vim ao Vale Furado. Parei cá em cima, no pequeno parque em frente ao Mad. Antes de sair do carro vi um casal em contraluz encostado ao varandim em madeira, abraçado e aos beijos, e fui projectado para as minhas memórias de adolescente.
Era um jovem adolescente ainda sem namorada quando comecei a trocar correspondência com estas miúdas de todo o mundo. Escrevi a muitas embaixadas a pedir informação sobre os respectivos países, mapas, fotografias, revistas e recebi muito material que me ajudou a perceber melhor países dos quais nem sabia a existência. As miúdas ajudaram-me a conhecer os países e os países abriram-me as portas para a conversa com as miúdas.
Algures no caminho perdi essa capacidade de conversar. Seja com miúdas ou com miúdos. Perdi a capacidade de comunicar. As pessoas assustam-me e eu fujo delas. Não delas propriamente, mas do contacto com elas.
Saí do carro. Fui até ao varandim sobre a arriba e olhei todo o esplendor da costa marítima que vai dali do Vale Furado até à Praia do Norte e continua por ali fora, Salgados, São Martinho do Porto, Foz do Arelho, às vezes até se vê as Berlengas e os Farelhões, o que não é o caso. Cá de cima o mar não parecia bravo, mas estava. Percebia-se pela quantidade de ondas em cadeia e a espuma que largavam quando chegavam a terra. Vi lá em baixo duas raparigas a tirarem fotografias. Ao mar e a elas. Faziam pose. Riam uma da outra, riam uma com a outra. Estavam felizes, parecia-me. Fumei um cigarro enquanto ia olhando um horizonte inexistente, o céu e o mar confundiam-se lá ao fundo, no que devia ser a linha do horizonte. Estava um pouco de vento e de frio. Não muito. Só o suficiente para perceber que, ao contrário do que parecia, e do sol e de todas as azedas que tinha encontrado pelo caminho até cá, não estávamos afinal na Primavera, mas ainda no pico do Inverno, embora o próprio tempo estivesse baralhado e não percebesse bem como é que devia reagir.
Depois deixei cair o resto do cigarro pela falésia abaixo e fui ao Mad beber um café. A esplanada estava cheia. Um homem agarrava uma mulher, forte, pelas costas e tentava fazer a manobra de Heimlich. Estava eu a entrar na esplanada quando a mulher projectou algo pela boca que passou à minha frente e, quase que me acertava. Ninguém me ligou nada. Ninguém me pediu desculpa. Ninguém me viu. Estava toda agente preocupada com a mulher. Eu era invisível. Arranjei uma pequena mesa ao sol. Era a única pessoa sozinha naquela esplanada. Mas estava bem. Sentia-me bem. Gostava de estar ali assim, a levar com aquele sol de Inverno em cima.
O que seria feito das miúdas com quem troquei correspondência na adolescência?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/04]

A Minha História com F.

Foi a minha primeira paixão. Mas não foi a minha primeira namorada. Nem sei se ela alguma vez soube que eu gostava dela. Nem sei mesmo se ela sabia que éramos da mesma turma. Um ano fomos vizinhos de mesa, mas não sei se ela sabia que eu estava ali, a olhar para ela sempre que podia.
Tudo começou na primeira classe. Era assim a nomenclatura. Primeira classe. E foi na primeira classe que a vi pela primeira vez. Fui atingido pela seta de Cupido. Vi-a e apaixonei-me. Desde esse primeiro momento sempre tive dificuldade em lhe dirigir a palavra. E quando ela, por um qualquer acaso do destino, metia conversa comigo, o gaguejar era a minha única resposta. Ficava vermelho, sentia a cara a ruborescer, e isso ainda ampliava a minha timidez transformada num gaguejar estúpido de onde só saíam grunhidos. Ela acabava por se ir embora, provavelmente a achar que eu era parvo. E era.
Chamava-se F., e é a única coisa que direi dela que não quero que, ao fim de tantos anos, alguém, finalmente, descubra o que eu nunca desvendei. Nem a ela.
Por uma única vez nos cruzámos numa festa. Uma festa de aniversário, claro, que, naquelas idades, não temos autorização para outras festas. E foi nessa festa que ganhei coragem para a convidar a dançar um slow. Mas ninguém dançava naquelas festas. Éramos novos demais. Os meninos andavam em grupo a fazer asneiras, as meninas andavam também em grupo mas aos risinhos. Nunca percebi o que significavam aqueles risinhos.
A certa altura, na única festa em que me cruzei com F., alguém pôs música a tocar. Uma dessas músicas era um slow, um tipo de música que veio a estar na moda na minha adolescência e que os rapazes e as raparigas aproveitavam para mostrar uns aos outros que gostavam de quem gostavam. Ainda me lembro da primeira vez que senti os dedos de uma rapariga a mexer-me nos cabelos, suavemente, como quem não quer nada, e a respiração húmida a tombar sobre o pescoço que começava a ficar rígido, fixo, para não alterar em nada o estado das coisas. E não, não foi, obviamente F. que me mexeu com os dedos no cabelo durante um slow. Até porque nem cheguei a dançar com ela. Mas também não digo quem foi porque toda a gente a conhece e eu não quero causar constrangimentos às raparigas que passaram pela minha vida.
Fui convidar F. para dançar o slow. Eu nunca tinha dançado. Não sabia dançar. Mas arranjei coragem no fundo mais profundo de mim e pensei Seja o que Deus quiser! (na altura andava num colégio de freiras). Para meu terror, ela disse que sim. Ela aceitou o meu convite. Estendeu-me a mão que eu agarrei cheio de vergonha. Lembro-me que, de repente, ficou muito calor. Senti a cara a ficar vermelha. Os meus músculos retesaram-se. Agarrei-lhe na mão e conduzi-a para o meio da sala onde ninguém mais estava a dançar. Vi toda a gente a olhar para mim. Os rapazes a rirem que nem uns perdidos. As raparigas a suspirarem e ansiosamente à espera de também elas serem convidadas. Os meus pés pesavam. As minhas pernas tinham dificuldade em mexerem-se. Sentia o corpo desconjuntado. A transpiração a acumular-se nos sovacos. Então parei. Ela em frente de mim. Estiquei os braços. Ela encaixou em mim. E ao meu primeiro passo pisei-a. Eu estava de sapatos de sola. Ela de sandálias. Magoei-a, claro. Ela deu um berro. Eu assustei-me e larguei-a. Ela saiu dali e foi procurar consolo junto das amigas. Eu fui a chacota dos rapazes.
Durante os quatro anos que durou a primária fui um apaixonado escondido. Nunca olhei para outra rapariga que não a F. e sabia que podia olhar para ela à vontade que o meu olhar nunca se cruzaria com o dela. Eu era invisível. Não existente.
Foi só quando chegámos ao quinto ano, no início do que é hoje o segundo ciclo, é que nos separámos. Fomos para turmas diferentes. Eu ainda a via nos intervalos. Ela continuava a não me ver. A não saber da minha existência. Mas foi só nessa altura que me livrei dessa paixão assolapada que não me permitia olhar para outras raparigas.
E foi então que conheci M. M. era uma colega de turma do quinto ano. M. meteu conversa comigo e, num intervalo, convidou-me para partilhar uma Bola de Berlim com ela. Mas essa é outra história. Essa é a história de M. Esta, de hoje, é a história de F. E a história de F. acaba aqui, no final da primária. Mesmo que, a tempos, me lembre dela. Como hoje. Gostava de me lembrar de um beijo trocado com ela. Mas isso nunca aconteceu.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/15]

Dos Fracos Não Reza a História

A história é contada pelos vencedores. Pelos fortes. Dos fracos não reza a história. Os fracos não têm história. Os fracos não existem. Só existem os vencedores. Os fortes.
Eu sou um fraco. Quebrado. Destruído. Mas eu conto a minha história. Vou contando a minha história. Vou contado a história de um falhado, perdido na voragem gananciosa da cidade, mas que está aqui, vergado, mas está aqui, a dizer que está aqui. Porque, afinal, os vencedores precisam dos vencidos para existirem. E eu estou aqui. Só existem por mim. Porque eu vos garanto existência pela minha derrota.
Acendo um cigarro. Puxo o fumo para os pulmões. Travo o fumo. Mas não aguento muito tempo. Tempo nenhum. Também os meus pulmões estão falhos. Tudo em mim falha. Mas sigo em frente. Continuo a fumar. Indiferente aos gritos da minha fraca respiração. Não importa que eles parem. Não tenho porque continuar a respirar. Eles vão funcionando até deixarem de funcionar. Não é assim com tudo?
Arrasto-me pela rua escura. Os prédios altos não deixam cá chegar a luz do dia. Não deixam cá chegar o calor do sol. Cheira a mofo. A humidade. Cheira a mijo. Vejo passar uns ratos junto à parede. Uma velha mija num canto, abaixada, coberta pelo pano largo da saia rodada. Não a olho e ela agradece. Conhecemos os códigos.
Vejo um puto a cheirar cola. Apetecia-me gritar com ele. Arrancar-lhe o saco de plástico das mãos. Dar-lhe um par de estalos e depois levá-lo a comer um Happy Meal. Mas sigo em frente. Não faço nada do que devia fazer. Baixo a cabeça. Uns rapazes novos, ainda com esperança na vida, descarregam um camião nas traseiras do Centro Comercial. Mais tarde irão lá gastar o dinheiro que ganharam a descarregar o que lá irão consumir. Que mundo de merda.
Olho mais à frente. O tipo está cá fora a fumar um cigarro. Eu deito fora o meu. Aproximo-me dele. Silencioso. O silêncio dos que não existem. O silêncio de quem não tem história. Na mão uma navalha. Levanto a mão. Levanto a navalha. Faço-a deslizar ao longo do pescoço. Abro-lhe um rasgão. Apanhado de surpresa leva a mão ao pescoço mas não lhe serve de nada. Já é tarde. Tarde para tudo. O cigarro cai-lhe da mão. O sangue jorra às golfadas e ele também deixa de existir enquanto desliza para o chão. Eu tiro-lhe o telemóvel do bolso das calças. Coloco-lhe o dedo, que limpo às suas calças, no telemóvel e ligo-o. Aproximo o telemóvel da fechadura electrónica e entro no Banco pelas traseiras. Faço a visita completa a todos os gabinetes do Banco. Sou invisível. Ninguém me vê. Não existo. Vou apanhando todas as poucas notas que vou encontrando. Nas gavetas. Nas carteiras dos funcionários. Nas caixas. Mesmo debaixo do nariz de toda esta gente que não me vê. E saio. Saio com os bolsos forrados com algumas notas que não são muito, mas irão dar para alguma coisa. Para ir vivendo no meu canto.
A história é contada pelos vencedores. Pelos fortes. Dos fracos não reza a história. Os fracos não têm história. Os fracos não existem. Só existem os vencedores. Os fortes.
Eu sou fraco. Mas vou contando a minha história para que a história dos vencedores não seja a única história a ser aprendida. Porque os fracos também têm história. Uma história que quer ser escutada.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/29]

Num Banco de Jardim que Estava numa Praça

Sentei-me no banco de jardim que não estava num jardim, mas numa praça. Numa pequena praça. Numa pequena praça com meia-dúzia de arbustos e algumas flores, mas sem árvores. Uma pequena praça a caminho da entrada do metropolitano. Eu sentei-me ali, naquele banco, no meio da cidade que por ali passava, apressada, a caminho de qualquer coisa, com a mochila ao meu lado.
Sentei-me naquele banco porque dali podia ver as janelas da casa. Da casa dela. Sabia quando estava na cozinha a fazer um chá, a única coisa que se sentia habilitada a fazer – nem a porra de umas torradas! Da última vez teve de chamar o porteiro para lá ir apagar as chamas. Sabia quando estava na sala, pelas luzes que piscavam, as luzes das imagens da televisão onde seguia sempre, atentamente, os programas noticiosos. Sabia quando estava na casa-de-banho porque se acendia a luz da janela mais pequenina, aquela que ficava entre a janela da sala e a do quarto. E sabia quando é que estava no quarto. Porque todas as luzes da casa estavam desligadas. Era hora de dormir.
Sentei-me no banco de jardim por alguns dias. Eu via-a dentro de casa. Olhava para ela a cirandar de um lado para o outro, via-a a olhar cá para fora, para a rua, para aquele banco e, no entanto, sentia que ela não me via. Isso moía-me o coração. Eu estava lá sentado, no banco, no banco de jardim, na pequena praça a caminho da entrada do metropolitano, com a mochila ao meu lado, a olhar para ela e ela não me via. Eu abria a mochila e tirava um livro. E lia. E quando me cansava de ler, tirava um caderno da mochila, uma caneta, e escrevia. E quando chegava a noite, e eu não tinha luz suficiente para ler e para escrever, tirava da mochila o iPod e ouvia música. E sempre com um cigarro a queimar entre os dedos da mão. Parecia que o maço de cigarros não tinha fundo. Havia sempre um cigarro para me acompanhar. E assim passei alguns dias, e algumas noites, naquela pequena praça à entrada do metropolitano, sentado num banco de jardim. Tive sorte. Não choveu. Não fez muito frio. Só tinha de vestir um casaco de lã, velho, que tinha comigo. E a noite passava suave por mim. E eu permanecia sentado no banco de jardim. Fumava um cigarro. Olhava-a. E esperava que ela me olhasse e me visse.
Foi na terceira noite. Na terceira noite que estava sentado no banco de jardim que não estava num jardim, mas sim numa praça. Estava a fumar um cigarro e a perguntar-me Porque raio não tenho fome? Parecia-me estranho estar ali há tantos dias sem comer. Sem ir à casa-de-banho. Nem sequer um xixi nos arbustos à entrada do metropolitano. Quando a vi chegar. Ela chegou num carro que eu não conhecia. Conduzido por alguém que eu também não conhecia. E senti o coração a bater. A bater muito rápido. E vi-a debruçar-se para o lado. Para o lado do tipo que eu não conhecia. E trocarem um beijo. Um beijo que foi mais um toque de lábios, mas um beijo.
Levantei-me do banco de jardim, a tremer, e dirigi-me ao carro que não conhecia. Vi-a dizer qualquer coisa ao homem. Vi o homem dizer-lhe qualquer coisa a ela. Vi-a sorrir. Voltar a emprestar os seus lábios aos lábios do homem. E eu aproximava-me do carro. E ela abriu a porta do carro. E eu cheguei lá. Cheguei ao pé do carro que não conhecia. E ela saiu do carro. E eu estiquei a minha mão para agarrar a mão dela. Mas a mão dela fintou-me e não se deixou agarrar. E ela saiu do carro. Fechou a porta. Eu pus-me à frente dela para lhe bloquear a passagem e senti-a passar por mim. Por dentro de mim. Como se não me visse. Como se eu fosse invisível. Inexistente. Como se eu não estivesse ali.
Fiquei parado. Parado entre ela e o carro que eu não conhecia de lado algum. Fiquei ali a vê-la caminhar até à entrada de casa. Vi-a tocar a campainha. O porteiro a abrir a porta. E ela virar-se. Virar-se para mim. Ela virar-se finalmente para mim, e acenar com a mão, enquanto me mandava um beijo pelo ar. E eu vi o beijo a voar, a voar desde os lábios dela, e dirigirem-se a mim. Eu sorri. Finalmente ela tinha-me visto. E o beijo passou por mim e não parou. Continuou. Continuou a voar até entrar dentro do carro e pousar, suave, doce, sobre os lábios do homem que eu não conhecia. E vi a cara de parvo que o homem fez quando sentiu o beijo dela nos seus lábios. E reconheci aquele sorriso parvo.
Ela entrou em casa. O carro arrancou pela cidade. Eu fui buscar a minha mochila ao banco de jardim que não estava num jardim, mas numa praça. E desci as escadas para o metropolitano.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/26]

Pizza

Ia jantar com a minha mãe. A casa dela. Apareci lá com uma Pizza média, de risco ao meio. Numa metade Cogumelos, Bacon e Alcaparras. Na outra metade Cogumelos, Pimentos e Alcachofra. Entrei em casa dela e, ainda não tendo fechado a porta nas minhas costas, ouvi És tu? Cheira-me a Pizza. Trazes Pizza? Não me apetece nada Pizza.
Fiquei parado à entrada de casa. A porta por fechar. E disse, mentalmente, Foda-se!
Fechei a porta nas minhas costas. Entrei em casa. Fui até à sala. Não estava ninguém. Fui até à cozinha. A minha mãe estava sentada à mesa. A mesa posta para duas pessoas. Pratos. Talheres. Guardanapos. Copos. O dela com vinho tinto.
Coloquei a caixa com a Pizza na mesa da cozinha. Perguntei Mas não queres Pizza? Já não comes há tanto tempo! E ela abanou a cabeça e disse Não gosto de Pizza, sabes bem! Sabes que não gosto de Pizza! Só como por tua causa!
Não me apetecia discutir. Olhei o relógio. Vi as horas. Virei-me para ela e perguntei O que é que te apetece comer? Ainda posso ir ao Rei dos Frangos! E ela respondeu Ah, não sei. Qualquer coisa. Sabes que sou boa boca. Como o que for.
Eu acenei a cabeça. Soube que tinha perdido a batalha. Não adiantava contestar. Para quê? Peguei na garrafa de vinho. Enchi o copo. Bebi-o de um trago. A minha mãe exclamou Então?!, e eu fiz Ah!, satisfeito. Sorri-lhe e saí porta fora.
Fui ao Rei dos Frangos ver o que havia. Era bom haver Arroz de Pato que ela gosta, pensei.
Mas não havia Arroz de Pato.
Acabei por trazer uma tira de Entrecosto e Arroz de Feijão.
Voltei a entrar em casa. Fui directo à cozinha. A minha mãe estava a acabar a terceira fatia de Pizza. Da minha metade.
E disse Mãe? Não querias Pizza!, não querias Pizza!, e comeste a minha metade? E ela disse Olha, começou a cheirar-me tão bem! Abriu-me o apetite e não consegui resistir. E achei piada a estas bolinhas pretas, provei e olha!, adorei! Um bocado salgadas, é verdade, por isso já bebi mais dois copitos, o que vale é que a cama é já ali, mas adorei!
Sentei-me em frente dela. Tirei as embalagens do saco de plástico e disse-lhe Bom, já ficas com almoço. Arroz de Feijão e Entrecosto. E ela disse-me, muito admirada Entrecosto? Como é que queres que roa o Entrecosto com estes dentes?
Fiquei a olhar para ela a pensar que tinha razão.
Enchi o copo. Bebi-o de um trago. Enchi-o outra vez. A minha mãe disse Não gosto que bebas muito vinho. E eu respondi-lhe E tu podes falar muito!, enquanto agarrava uma fatia da metade vegetariana da Pizza, a metade dela, e comecei a comer.
No fim lavei a louça. Arrumei o resto da Pizza numas caixas de plástico e pu-las no frigorífico juntamente com as caixinhas com o Arroz de Feijão e o Entrecosto.
Fechei a garrafa de vinho. Olhei-a. Era só um restinho. Dei cabo dele. Garrafa para o lixo.
A minha mãe estava no sofá a ver a televisão. Dei-lhe um beijo. Disse-lhe Até amanhã e ela respondeu Tem cuidado! Bebeste vinho! Sim, mãe.
Saí de casa com os sacos do lixo.
Na rua dirigi-me aos caixotes. Estava um carro lá parado. Mesmo em frente aos caixotes do lixo. Dois rapazes. Duas raparigas. Elas fumavam. Os quatro conversavam. Eu cheguei. Parei. Esperei. E tive de dizer Com licença. A rapariga chegou-se para o lado enquanto virava a cara para mim. Sorriu-me. Eu abri o caixote e mandei os sacos do lixo lá para dentro. Depois enfiei a garrafa de vinho no vidrão.
Os quatro continuaram na conversa ali ao pé dos caixotes de lixo. Não cheirava muito mal, mas eram os caixotes do lixo. Com tanto sítio, tiveram de escolher os caixotes do lixo.
Aproximei-me do carro. Abri a porta. Ia a entrar e bati com a cabeça no carro enquanto puxava ao mesmo tempo a porta que me bateu com força no outro lado da cabeça e prensou-a. Disse Porra! Eu estou maior ou mais gordo!
E nessa altura senti-me desmaiar…
Acordo. Olho em volta. Estou caído no chão. Ao lado do carro. Entre a porta aberta e o banco. O cu no chão. As pernas no interior do carro. Tenho sangue na camisola. Dói-me a cabeça. Levo a mão à cara. Tenho sangue. Tenho sangue na cara. Escorregou da cabeça. Olho o relógio. São duas da manhã. Estou aqui há quatro horas. Ninguém me ajudou. Ninguém me roubou. Ninguém me viu. Sou invisível. Ninguém me vê.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/09]

A Vila Deserta e Eu

Entro no café da vila. Está quase deserto. Há um homem pequenino encostado ao balcão. Usa umas bermudas de ganga e uns chinelos enfiados no dedo. Tem uma camisola de alças, daquelas do basquetebol, do Porto, grande, enorme. Fica-lhe abaixo do rabo. Riscas azuis.
O homem pequenino fala uma algaraviada qualquer onde mistura francês, português e outras coisas que não entendo. Fala para o homem do café mas este parece não ouvir nada.
Encosto-me ao balcão e peço uma imperial e tremoços. Não há, diz. Não há nada, percebo eu. Não há imperial que os barris vão todos para a praia. Não há tremoços à borla mas há amendoins em lata num aparelho que funciona a moedas de um euro. Está bem, uma mini, peço.
O homem pequenino bate com a mão no balcão de inox e vai-se embora. O homem do café liga o moinho do café que começa a fazer um barulho ensurdecedor. Olho para a televisão e vejo tudo a arder. Não ouço o que dizem por causa do moinho do café.
Bebo a mini de um gole, deixo uma moeda no balcão e vou-me embora.
Está calor na rua. Calor e abafado. Meto por uma rua que faz sombra e vou andando sem destino.
Volto a cruzar-me com o homem pequenino. Está no meio da rua a olhar para uma casa de azulejo. Tem ar de renovada. Casa antiga renovada. Ele olha para mim, orgulhoso e diz Ma maison. Eu aceno com a cabeça e digo É uma boa casa, sim senhor! Parabéns.
Passo pelo homem e continuo rua fora. Está calor. Não se vê ninguém na vila. Não há barulhos. Parece uma terra morta. Irreal.
A rua chega ao fim e desemboca numa praça. Está montado um palco de madeira. Uma teia com luzes coloridas desligadas. Um PA levantado nos lados do palco. Ao lado um cartaz. Zé Café & Guida.
Tenho de cá vir ver, penso. O Zé tem bigode grande. A Guida é gira. Na rua está calor. Estou com sede.
Sento-me nos degraus da igreja, à sombra, e acendo um cigarro.
Uma miúda, não mais de doze, treze anos, aparece vinda não-sei-de-onde e estende-me uma caixa de madeira. É para a festa, diz. Eu olho para ela. Puxo uma baforada de fumo e meto a mão ao bolso dos calções. Tiro uma moeda de euro e coloco-a na caixa. Obrigada!, diz enquanto se afasta a correr e desaparece numa esquina.
Acabo o cigarro. Não volta a aparecer vivalma.
Tenho de vir ver o Zé Café & Guida, digo para mim próprio. Levanto-me e meto-me noutra rua da vila. Embrenhar-me até me perder e desaparecer. Tornar-me invisível. Uma pedra da calçada. Um Dente-de-Leão. Um nada. Perdido no vento.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/11]