Burocracia

Saio de casa ainda não são nove horas da manhã. Não tomei banho que estava frio e fiquei sem gás na botija. Em casa, o gás ainda está na botija e sou eu que a tenho de ir buscar ao posto e carregá-la às costas. No Inverno é um bocado chato.
Saio de casa ainda não são nove horas da manhã. Saio de carro.
Auto-estrada. Auto-estrada vazia. Os camiões que fazem esta zona andam pela nacional. É por isso que vou pela auto-estrada. Os camiões voam pela nacional como se voassem na auto-estrada. A auto-estrada é mais segura e mais rápida para mim.
Balcão da EDP. Espero. Jogo um Bubbles no telemóvel. O meu número. Quero electricidade. E gás. Uma coisa de cada vez. Instalação? Uma coisa de cada vez. Não dá para fazer tudo no mesmo dia? Não. Espero. Resolvido. Hei-de ser contactado. Quando? Não se sabe.
Vou a pé. Mas penso melhor. É do outro lado da cidade. Vou de carro.
Pára-arranca.
Pára-arranca.
SMAS. Muita gente à espera. Tiro senha. Espero. Jogo Bubbles no telemóvel. Vou à rua fumar um cigarro. Jogo Tetris. Ainda tenho Tetris no telemóvel? Vou ao café ao lado e bebo uma bica. Olho o Goucha na televisão em altos-berros. Fumo mais um cigarro. Volto a entrar no SMAS. Espero.
Finalmente o meu número. Peço uma instalação. Já foi desligada? O contador está lá? Não sei. Tenho de saber.
Saio do SMAS. Vou a pé à Junta de Freguesia. Espero. Há internet. Navego enquanto espero. Sou atendido. Bem atendido. Bem tratado. Ajudam-me. Explicam-me coisas. São simpáticas as senhoras.
Vou buscar o carro. Subo à Segurança Social. Tiro uma senha. Vejo o número onde vai. Tenho um ataque de riso que se transforma em ataque de tosse. Não consigo fazer as contas. São muitos números. Vou fumar um cigarro.
Penso melhor e dou um pulo às Finanças. É mesmo ali ao lado. Tiro número. Espero. Mas não espero muito. Sou atendido. Sou despachado. Pago e vou-me embora.
Regresso à Segurança Social.
Olho para o écran. Andou dois números. Dois números. Fui às Finanças e despachei-me nas Finanças e regresso aqui e passaram dois números. Sento-me. Espero. Não há internet. Jogo Bubbles. Tetris. Solitaire. Repasso na cabeça a equipa do Benfica. Repasso na cabeça a Selecção Nacional. Vou à rua fumar um cigarro. Olho as raparigas que passam a caminho do Tribunal. São advogadas. Estagiárias, com certeza. São giras.
Regresso à sala. O número ainda é o mesmo. Olho o relógio. Vejo as horas.
Desisto.
Penso que é Sexta-feira. Penso que Segunda-feira ainda é dia.
Vou-me embora. Fumo um cigarro antes de entrar no carro.
E pergunto-me São Pedro de Moel ou Nazaré?

[escrito directamente no facebook em 2019/10/11]

Anúncios

A Cadeira Miniatura da Minha Avó

No alpendre aqui de casa há uma cadeira pequenina, de madeira, comprada numa feira de artesanato, que lembra as clássicas cadeiras grandes de madeira, mas em miniatura, que era mais decorativa que outra coisa mas que o gato adoptou e para onde costuma ir dormir, principalmente se eu estou sentado lá fora, a fumar um cigarro, a beber um copo de vinho e a ler um livro ou, simplesmente, a olhar as montanhas em frente, carecas, secas e verde-musgo no Verão, cheias de neve branca no Inverno.
Às vezes, quando vejo o gato a dormir nessa cadeira em miniatura, lembro-me da minha avó materna que, lá em casa, em casa dos meus pais, tinha uma cadeira assim, parecida com esta, um pouco mais resistente e cómoda, onde a minha avó se sentava. Era a cadeira dela. Sentava-se naquela cadeira estivesse na cozinha a descascar batatas, na sala a ver as suas novelas, na varanda a respirar ar fresco ou no quintal a ver-me, a mim e à minha irmã, a brincar feitos cabritos, aos pinotes por todo o lado e a subir a nespereira que lá estava, para tomar conta de nós e ver se ninguém caía e partia a cabeça.
A minha avó só não se sentava naquela cadeira às refeições porque senão não chegava à mesa.
Sempre me interroguei o porquê de ela sentar-se sempre naquela cadeira.
Talvez porque tenha sido o meu avô a fazê-la com as suas mãos, de propósito para o corpo da minha avó. Talvez porque como ela era pequena, sentada naquela cadeira em miniatura conseguia ficar com as pernas num ângulo de noventa graus e não quase de pé como eu a via quando ela se sentava à mesa para almoçar ou jantar e só se encostava com o rabo à cadeira, até que um dia a cadeira escorregou e ela caiu. Não partiu a bacia, mas andou uns dias dorida. Depois, a partir desse dia, passou a sentar-se com o rabo na cadeira e os pé passaram a ficar pendurados como ficavam os meus quando eu era pequenino e queria ser grande. Ou talvez porque na sala ela enterrava-se no sofá e não conseguia sair sem ajuda e tinha a sensação que se ia afundar no fofo do sofá e ser engolida pelo monstro do conforto e nunca mais nos veria, a mim e à minha irmã, os seus diamantes, a quem permitia todas as brincadeiras por mais estúpidas que fossem.
Mas não sei. Nunca lhe perguntei. Nem nunca perguntei à minha mãe.
Lembro-me disso agora, quando vejo o gato deitado naquela cadeira miniatura que está no alpendre aqui de casa e que comprei numa feira de artesanato nem sei bem porquê.
Nos dias frios e de cacimbo, o gato dorme lá em cima, todo enrolado nele próprio, como uma bola de pêlo. Nos dias de calor deita-se esticado, por vezes com a cabeça tombada para o chão.
Quando o cão passa por lá, dá uma lambidela no pêlo do gato. A maior parte das vezes o gato ignora. Outras vezes levanta a cabeça, olha para o cão e volta a dormir. A vida é muito complicada para os gatos.
Acho que até a minha avó, velhinha, já com muitas dificuldades de locomoção, era muito mais interactiva que o gato.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/04]

Quem É que Está Aí?

Sinto a porta da rua a abrir. Deve ser ela, penso. Está de regresso, finalmente. Já era tempo, não?
Aproveitei a vergonha do sol para arrumar a lenha que me vieram trazer a casa. Não estava muito calor. Chuviscou um pouco. Peguei no carrinho-de-mão e andei, para cima e para baixo, a acartar a lenha para debaixo do telheiro. Amealhar para o Inverno. Enquanto ainda nos deixam queimar madeira para nos aquecermos.
Ia no segundo carrinho quando o sol despertou e veio na companhia do calor. Custou-me carregar o resto da lenha. Não sei quantas viagens fiz com o carrinho-de-mão. Mas ganhei umas bolhas nas mãos. Despertei a minha alergia ao calor e tive de tomar um Zyrtec. Demorou a fazer efeito.
Enquanto acartava a lenha para o telheiro pensei na conversa que tinha tido com ela no dia anterior. A conversa que azedou e acabou por me deixar sozinho em casa.
Eu só tinha dito que a culpa era dela. Não dela, dela, especificamente. Mas de todas as elas e eles e nós. Eu! Eu também me incluía na culpa mas, na conversa, tinha-me saído um dela por força das circunstâncias. Estávamos a discutir e era eu contra ela. E ela levou com a culpa. Mas a culpa não era só dela. Mas também. Eu só disse A culpa é tua. E ela, admirada, quase escandalizada, perguntou Minha? Minha como? e eu respondi-lhe Porque votaste neles. E ela ficou ali assim, admirada, de boca aberta, a olhar para mim.
O sol já tinha despertado. Abrira as portas ao calor. A transpiração corria-me corpo abaixo. E eu pensava no que ela me tinha dito.
Mas eu sou só um voto e votei para protestar. Não significa mais que isso. Um protesto que não tem poder nenhum. Um voto. O que é que isto significa? Nada! Não significa nada! Mas significava. Tanto significava que eles tinham chegado ao poder. Todos os votos unitários contados um-a-um conseguiu elegê-los. Com maioria absoluta. E estavam a transformar tudo. A vida como nós tínhamos aprendido a viver. Tudo transformado em nome da eficiência. Em nome do futuro. Mas qual futuro? Era tudo muito obscuro e bizarro. Porque nem sequer é para todos. Quem pode pagar pode comprar a bula. Porque há bulas. Há sempre bulas. Há bulas para quem pode pagar. E foi isso que lhe quis explicar. Que pessoas como nós, estão sempre fodidas. Utilizam-nos e depois descartam-nos. Os outros, os que podem, os que mandam, esses podem sempre pagar para ser como eles querem. E, ironia do destino, somos sempre nós que elegemos esta gente. Era isso que eu lhe estava a explicar. E ela só me perguntou E eu sou a culpada pela merda de vida que agora temos? E eu nem precisei de lhe responder. Olhei para ela. Um olhar parvo e cínico, admito. Só olhei para ela. E ela viu a resposta no meu olhar.
Já estava cansado quando fiz a última viagem até ao telheiro com o resto da lenha. E parecia que tudo aquilo era só para me chatear. Na minha última viagem o sol despediu-se. O céu cobriu-se de negro, trouxe de volta um pouco de frio e um bocadinho de chuva. Pensei Ao menos a lenha não fica molhada.
Parei debaixo do telheiro a olhar para a pilha de lenha. Arrumei o carrinho-de-mão. Observei a chuva e voltei a pensar na conversa que tinha tido com ela.
Mas já não houve conversa. Ela ficou zangada comigo. Levantou-se do sofá e saiu de casa. Ouvi o carro a descer a alameda e a sair o portão. Onde andaria?, pensei.
Afinal está aqui, de regresso a casa. Afinal a conversa era estúpida. Não era caso para tanto. Claro que ela era culpada. Ela como eu. Mas não precisava de ficar zangada comigo e sair porta fora. E pergunto alto És tu?, mas ninguém me responde. Nem ouço barulho. Não me chega o cheiro dela. Não lhe ouço a respiração. Nem lhe sinto os passos. Quem será? Quem é que está aí?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/18]

O Acampamento

Os primeiros apareceram por aí está agora a fazer um ano. Vieram para o terreno aqui em frente. Um terreno abandonado. Acho que tem dono, mas nunca o vi por aqui. Cresce o mato. No Verão é um ninho de cobras. No Inverno impera a lama. De vez em quando vinha aqui um tractor cortar o mato. Mas ultimamente não tem vindo.
Os primeiros a chegarem foram as caravanas. Ao início pensava que eram caravanas a caminho das praias. Da Nazaré. Da Vieira. De Paredes de Vitória. Mas o tempo foi passando e elas não arredavam roda. Cada dia iam chegando mais. Depois começaram a aparecer as tendas. Primeiro as grandes, familiares. Mas depois também canadianas.
O baldio aqui em frente parecia ter-se transformado num parque de campismo selvagem. A GNR ainda aqui veio algumas vezes. Chegaram até a conseguir pôr toda a gente fora. No dia seguinte estava cá tudo outra vez. Isto aconteceu umas duas ou três vezes. Depois a guarda deixou de os incomodar. Passam por aí, entram lá dentro, dão uma olhada, e vão embora. Às vezes param o jipe. Saem. Dão uma volta a pé. Mão na coronha da arma. Ou no cassetete. Falam com um ou outro. E vão embora.
Foi quando começaram a chegar os que não tinham nada que percebemos o que é que estava a acontecer.
Começaram a surgir umas casas em cartão. Casas feitas com caixas de cartão, das grandes. Depois apareceram placas de esferovite. De contraplacado. Umas placas de zinco. Fizeram um poço. Colocaram uma torneira.
Nasceu um bairro. Nasceu um bairro aqui mesmo em frente. Um bairro espontâneo. Um bairro de deserdados. Gente escorraçada. Gente sem casa. Sem trabalho. Gente sem eira nem beira. Gente que não tinha mais para onde ir. Foram-se encostando uns aos outros, por aí.
No início tentaram saltar o muro aqui de casa para virem às maçãs e às laranjas. Mas o cão assustou-os. Deixaram de saltar o muro. Até porque há algumas árvores espalhadas por aí, pelos terrenos. Há muita árvore de fruta por aí. Fruta que se perdia pelo chão. Apodrecia. Agora não. Agora eles não lhes dão tempo para apodrecer. Eu quando tenho fruta penduro uns sacos no muro para eles levarem. E eles levam.
Alguns deles trabalham nas fábricas aqui à volta. Trabalham ao dia. À jorna, não é? Mas a maior parte passa os dias por aí, às voltas. Não há muito trabalho. Vão à taberna. Bebem um bagaço. Um café. Já houve alguma tensão. Umas conversas mais azedas. Mas nunca houve desacatos.
Às vezes vejo aí chegar uns carros. Estão lá parados, motor a trabalhar, e depois arrancam. Também já vi algumas pessoas da aldeia a ir dentro do acampamento. Não é muito difícil adivinhar o que é que lá vão fazer. Mas esta gente tem de viver de alguma coisa, não é?
A Junta de Freguesia já colocou lá umas casas-de-banho portáteis. É preciso é que lhes faça a manutenção.
Mas o terreno começa a rebentar pelas costuras. Cada vez chega mais gente. E a gente que chega está em piores condições que os que já lá estão. Há demasiada gente a viver mal num terreno cada vez mais pequeno. Um dia destes vão haver problemas. Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
Há dois meses comprei uma caçadeira.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/11]

Esgotado em Menos de Uma Hora

Estava há uma semana no Rio. Uma semana para cima e para baixo. A subir e a descer os morros. A percorrer a Avenida Atlântica a bater os chinelos nos pés. Ia à praia. Mergulhava. Deixava-me tostar um pouco naquele sol de Inverno. Sobrevivia aos camelôs da praia que me queriam vender de tudo. Regressava a casa para almoço. Antes de subir no elevador, tinha de limpar todos os grãos de areia presos no corpo, nas pernas, nos pés. Dormia a sesta. Depois voltava a sair. Percorria a Zona Sul toda a pé e debitava, de cor, entre dentes, a Puta de Rogério Skylab

Você vai ao samba.
Uma cabrocha: só no sapatinho.
Gostosa!
No final das contas vocês vão pro motel.
Transam a noite inteirinha.
Trinta dias depois ela volta. Grávida.
E quer ter o filho.
Conclusão: você vai pagar pensão pro resto da sua vida.
Ela te ama? Não!
O que é que ela é então?
Puta! É puta!
Mas você insiste.
Não entrega os pontos.
Vai ao shopping.
Quer comprar uma calça Lee.
Uma vendedora vem ao seu encontro.
E te trata pelo nome, como se fossem íntimos.
Gostosa!
E sensual! Provocante!…
Você não enxerga mais nada.
Compra calça, cueca, meia, sapato.
Conclusão: ela é uma vendedora? Não!
O que é que ela é então?
Puta! É puta!
Cidade do Rio de Janeiro.
Zona Sul.
Garota de Ipanema.
Gostosa!
Você quer morar lá.
Tem money? Não!
Então, não pode não.
Conclusão: essa cidade te ama? Não!
O que é que ela é então?
Puta! É puta!
Calma! Que é isso?
Você tá tão revoltado!, disse a psicanalista diante do meu delírio.
É que todas as coisas que eu via – criança, fábrica, escola… –, todas elas pareciam putas.
Trinta minutos depois, eu paguei a consulta.
E voltei sozinho pra casa.
Com aquela sensação:
Puta! É puta!

Parava nos botecos e bebia um chope. Comia um pastel. Frito. Enorme. Sentia o estômago crescer. Inchar. Uma gravidez psicológica. Então caminhava mais e mais. Caminhava até ao fundo da Zona Sul. Eu e Rogério Skylab. Até Ipanema. Até ao Leblon. Regressava. Um cigarro na mão. O olhar ao longo daquela enorme praia invernal, como se fosse um Verão na costa atlântica portuguesa.
Na Sexta-feira passei na Bienal do Livro. Comprei alguns. Romances. Ensaios. Poesia. Banda-desenhada.
E então, vi-os chegar. Uma trupe entroncada. Armada. As botas cardadas a pisar as havaianas. Os corpos musculados a fazer tremer os corpos lingrinhas e frágeis. A brigada dos bons costumes a passar sermão à multidão de costumes liberais. A Bíblia numa mão. O cassetete na outra. A vistoria aos sacos de plástico. Não pelo plástico. Pelos livros. Pela subversão. Pelo descaramento. O olhar fulminante. O olhar que mata. A mão nervosa a apertar o cassetete. A vontade. A vontade. A vontade de bater pau no miserável impróprio.
Eu não abri a boca. Agarrei os meus livros contra o peito. São meus. Circulei à volta das bancas. E vi. Vi gente a comprar livros. Livros impróprios. Um olho no burro e outro no cigano. Também quero! E é o quê? Um beijo! Um rapaz que beija outro. Um desenho de um rapaz a beijar outro rapaz. As editoras a vender. A despachar livros atrás de livros. Os bons, os maus e os impróprios. Venderam-se milhões de livros. Tudo servia para mostrar a falta de medo perante um poder que se sente estremecer nos seus alicerces.
Em casa vi o material impróprio. Um beijo. Dois rapazes, super-heróis da Marvel, trocam um beijo. Um simples beijo. E não são ungidos em nome de Satã. São só dois rapazes apaixonados que trocam um beijo. Uma boca de encontro à outra. Dois lábios que se tocam. Duas línguas que talvez se toquem. Um desejo que talvez desperte. Esgotou em menos de uma hora.
Puta! É puta!

[escrito directamente no facebook em 2019/09/09]

Com um Curso de Sociologia

Quase todos os meus colegas de Sociologia estão desempregados. Os que não estão sem trabalho estão em call centers. Há dois deles a dar aulas de Filosofia. Um está a dar Comunicação Social. Todos no secundário. E ainda há um outro que é Bibliotecário, mas tirou um curso de especialização quando percebeu que com a Sociologia não ia a lado nenhum.
Eu sempre fui um ingénuo.
Porque é que há cursos de Sociologia? Porque raio fui eu para Sociologia?
Lembrei-me disto enquanto confirmava que o Verão foi violado pelo Inverno, na sua própria casa, e não há autoridade que lhe meta a mão e organize o que está desorganizado.
Estas alterações têm implicações em mim. No meu funcionamento. No funcionamento do meu corpo.
Estou com tanta bronquite que voltei ao Ventilan. O Xoterna não é suficiente. Mas estou com dores nos pulmões. Parece que estão a arder. Mas não é a arder de acidez, como às vezes acontece na garganta e tenho de chupar um Kompensan. Não. É como se os pulmões encolhessem e não houvesse espaço suficiente para albergar todo o ar que necessito em cada movimento respiratório. Depois sinto umas picadelas, insisto e parece que começam a arder.
Estou à janela, curvado sobre mim, com os polegares nas presilhas das calças para aguentar o meu corpo curvado, a olhar para a rua e a ver as nuvens escuras que passam sobre a casa, sobre as montanhas lá ao fundo, e trazem a promessa de chuva forte e furiosa.
Estou em Agosto e estou cheio de bronquite à espera que chova.
E foi assim que regressei à Sociologia. Porque a culpa é da Sociologia. Se estivesse a trabalhar, provavelmente não estava agora em casa à espera da chuva porque não iria tirar férias em Agosto, porque não gosto de férias em Agosto, ia estar a trabalhar, não pensava nestas alterações tão visíveis à minha frente, nem tenderia a ficar com bronquite porque o trabalho não me deixaria pensar nisso (e uma grande percentagem da minha bronquite é psicológica que se torna física porque não consigo desviar a cabeça daí), não pensaria que estas alterações de clima interferem na minha respiração, não teria dificuldade em respirar, não precisava de Ventilan e os pulmões não me iriam doer por excesso de cortisona.
Ah, porra! A culpa é da Sociologia e do desemprego para onde me despejou.
Tenho tentado concorrer aos hipermercados aqui da zona. Sou eliminado por excesso de formação. Na verdade acho que têm medo que leve a revolução aos lineares.
Faço uns biscates. Corto alguma lenha. Mas já tenho as costas muito velhas para conseguir forçar o machado nos veios do pinho. Ajudo os vizinhos na apanha da fruta. Faço de copy para as pequenas lojas das redondezas a tentar sobreviver aos hipermercados. Este ano também ajudei a limpar o mato. Mas se houver um incêndio, vai haver um incêndio. O que se limpou faz a mata ficar mais bonita, afasta o início de incêndios por incúria, mas se vier um fogo por aí a baixo, passa por cima de tudo isto na mesma.
Na verdade, a única coisa boa, nisto tudo, é o Inverno ter ocupado o lugar do Verão. É mais fácil evitar incêndios com dias de chuva do que com a mata limpa em dias com quarenta graus.
Andou um tipo a estudar Sociologia para isto.
E agora nem um cigarro consigo fumar. Raios me partam!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/05]

Flávio com F de Folha

Três dias a tomar Nimed não me arrasaram o fígado, mas trouxeram-me de volta a bronquite. O Xoterna já não me defende. O Ventilan já quase não funciona como s.o.s.. Mando várias bombadas na tentativa de abrir os pulmões. Mas parece que estão cada vez mais fechados. Levo cada vez mais, menos ar aos pulmões que parece que estão cheios de outra coisa que não ar. Faço uma grande barulheira a respirar. Parece que tenho um saco de gatos no peito. O coração bate rápido e parece querer saltar para fora. Talvez saia pela boca junto com um vómito. Estou cansado. Parece que acabei de correr a maratona. Tenho de me agarrar à parede enquanto caminho para o carro. Tenho de sair de casa.
Sento-me no carro. Sento-me com cuidado. Devagar. Doem-me as costas. O Nimed não resolveu o assunto. E tive de parar por causa da bronquite. Hoje tomei um Voltaren. Encosto-me direito no banco. Descanso. Estico as costas. Recupero o ritmo da respiração. Mas continua muito acelerada. Tento não virar nem dobrar as costas. Ligo o rádio.
Na rádio informam que há um grande incêndio activo em São Bartolomeu de Messines. Cada vez que ouço falar em São Bartolomeu de Messines lembro-me dos Flávio com F de Folha (mais tarde Supernova) o melhor nome de banda que alguma vez existiu.
Ali para os lados das serras d’Aire e dos Candeeiros também se vêem umas colunas de fumo. Há fogo, provavelmente. O país é para queimar. Burn bitch, burn!
Tenho de ir a casa da minha mãe. Prometi aspirar-lhe a casa. Provavelmente não devia lá ir. Não devia mexer com pó. Não devia agarrar no aspirador. Não devia baixar-me. Mas prometi.
Agarro o volante e espero. Espero estar em condições para arrancar com o carro. Olho para o braço. Está cheio de borbulhas. Parecem bolhas de água, mas não são. Isto é alergia ao calor. Tenho de tomar um Zyrtec. Quando voltar. Tenho os comprimidos em casa. Ainda posso voltar atrás. Vou voltar atrás. Preciso só de descansar um pouco.
Na rádio ouço alguém dizer que o Kit de Incêndio distribuído às populações das Aldeias Seguras é afinal um brinquedo para ajudar na prevenção. Acho que anda alguém a brincar com isto tudo.
Acabo por sair do carro. Regresso a casa. Tomo um Zyrtec. Abro o frigorífico e empurro o comprimido com água directamente de uma garrafa. Gosto de água fria. Gelada. Mesmo de Inverno. Sinto o corpo estranho. Doem-me os olhos. Acho que me dói tudo. Ultimamente dói-me tudo. Devo estar a chocar alguma. Agarro na caixa de Antigrippine e tomo dois comprimidos. Bebo mais um gole de água. Vou a sair de casa. Abro a porta da rua mas volto a fechá-la. Tenho de me prevenir. Agarro num copo. Verto água fria lá para dentro e mando-lhe com uma Cecrisina. Olho enquanto se desfaz. Vejo as borbulhinhas a explodir para fora do copo. Molha-me a cara com gotas minúsculas. Quando está toda diluída e a água cor-de-laranja, bebo tudo de um gole. Gosto do sabor da Cecrisina.
Agora sim, saio de casa. Vou amparado à parede até ao carro. Sento-me com cuidado. Devagar. Agarro no volante e espero que a respiração acalme. Descanso. Penso que não devia ir a casa da minha mãe. Penso que devia ir para a cama. Enfiar-me debaixo do edredão de Verão e esperar até estar outra vez bem. Sim, porque tudo acaba sempre por passar. Mas não posso. Não posso não ir a casa da minha mãe depois de lhe ter dito que ia lá. Tenho de ir aspirar a casa dela.
Estou cansado. O país está a arder. Os ministros respondem mal às pessoas. Já não sei que comprimidos tomei. Já não sei que mais comprimidos podia tomar para ficar melhor. Se calhar devia fumar um charro. Talvez me acalmasse. E então, volto a pensar de novo nos Flávio com F de Folha e penso Porque raio é que as coisas boas acabam tão depressa? Agarro o volante e espero acalmar. Se melhorar, hoje vou ver um concerto do Zé Café & Guida. Tenho de viver o meu Verão. Enquanto estou vivo.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/26]