As Tardes Frias de Inverno

Então era assim que eu passava as tardes frias de Inverno até à noite, tarde da noite, altura em que, já bêbado de sono, me arrastava para a cama, num quarto frio, e me enfiava debaixo do edredão com uma botija de água quente da loja dos chineses a aquecer os lençóis e, talvez os pés.
Acordava todos os dias tarde para estar o máximo de tempo possível no quente da cama. Depois ia para a cozinha, comia uma papa Nestum com Mel, quando havia, ou aquelas papas de aveia, que os supermercados têm na zona dos integrais ou da vida saudável, por causa dos dentes, não podia mastigar comida sólida e as papas escorregavam pela garganta abaixo até ao estômago sem grandes trabalheiras. Mas não gostava de papas. Nunca tinha gostado. Era um martírio comê-las. Mas, ao almoço, era com elas que convivia.
Ia para a cozinha, acendia a salamandra e ficava por lá sentado à mesa a escrever no computador, a tarde e a noite, no quentinho, ainda calçava umas luvas sem dedos para poder trabalhar e, às vezes, em dias de maior frio, um barrete de lã que enfiava pela cabeça abaixo. Duas ou três vezes por semana saía de casa e ia procurar lenha perdida no mato perto de casa. Uns gravetos. Pinhocas. Ripas de pequenas construções abandonadas. Restos de madeira, qualquer tipo de madeira, às vezes até antigos móveis abandonados que partia em pedaços pequenos e levava para casa para alimentar a salamandra. Ainda encontrei duas cadeiras, tipo poltrona, de madeira, que estavam em condições, talvez um pouco velhas, essas não as parti em pedaços mais pequenos, lixei-as, dei-lhes tratamento, arranjei umas almofadas e ainda hoje tenho essas cadeiras.
Ao meu lado uma chávena de chá que estava sempre cheia. Então gostava muito de chá. Bebia bastante. Tinha, em cima do balcão da cozinha, uma chaleira onde estava sempre a aquecer água. Tinha sempre uma caneca fumegante ao lado. Às vezes acompanhava com um cigarro. Mas tinha de controlar os gastos com o tabaco. Não podia fumar mais de meio-maço por dia. Com o chá estava à vontade. Reciclava-o. Um pacote de chá dava para várias canecas, até perder o sabor.
Escrevia até cansar-me. Depois levantava-me, ia até à janela e olhava para fora, para a rua. Olhava as janelas da vizinhança. As pessoas que passavam lá em baixo, na rua. Enfiadas nos seus grossos casacos. Não conhecia ninguém. Às vezes estes olhares tornavam-se histórias e serviam-me de inspiração, outras vezes era só mesmo para desentorpecer as pernas e descansar do ecrã branco e das letras que se posicionavam como pulgas atrás umas das outras.
Ao início da noite olhava para o fogão e via lá a panela de sopa. Geralmente tinha sempre sopa que fazia numa panela grande e que durava alguns dias. Ia ao supermercado da rua, comprava batatas, às vezes chuchu, cenouras, nabos, alho francês. Triturava tudo. Deixava um ou outro pedaço maior para poder saborear. Depois mandava tudo para dentro da panela. Às vezes juntava alguns feijões de lata, já previamente cozidos, ou umas massas, tipo cotovelo, ou macarrão. Uma couve lombarda. Enfim, os legumes que conseguisse comprar. Ia tudo para dentro da panela. As minhas sopas eram sempre iguais e, ao mesmo tempo, sempre diferentes. Dependia do que arranjava. E conseguia comer aquilo, mesmo sem mastigar.
Em certos dias, dias com mais fome e saturado daquelas papas e da sopa, apetecia-me comprar carne moída para fazer um chili com carne. Sonhava com esse dia. O dia em que os dentes já não me doessem e eu conseguisse mastigar. Estava então sentado na mesa da cozinha a trabalhar, depois de ter comido o Nestum com Mel, quando olhava para o fogão e via a frigideira com o chili e sentia uma fome danada. Um desejo de fome. Mas não estava lá chili nenhum. Era só a minha vontade. Há muito tempo que não comia chili com carne nem outras comidas sólidas. Não gostava das papas, mas gostava bastante de sopa. E não me queixava.
Então, era raro o telefone tocar. A campainha da casa, nem sequer me lembro de a ouvir. Todos os trabalhos que queriam de mim, todos os trabalhos que me encomendavam, era pedidos por e-mail. Não tinham que me encarar. Nem de ouvir a minha voz. Não havia contacto.
Naquela altura passei bastante tempo em silêncio. Em casa e em silêncio. Às vezes nem reconhecia a minha voz.
Então, no calor da salamandra, desejava que chegasse o Verão.
Porque tudo passa. Ou não?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/13]

Gosto

gosto da primavera, de namorar raparigas jovens e menos jovens, já vividas e cheias de estórias para me contarem e gosto do cheiro das flores campestres, de mergulhar no rio, no açude, no lago, nu, e de me deitar sobre as margaridas e deixar-me aquecer pelo sol do meio-dia, e de ler livros deitado na relva, no sofá, sobre a cama, gosto de ler philip roth e mário de sá-carneiro, cormac mccarthy e baudelaire, rimbaud e cocteau e não esquecer camus, borges e cortázar, gosto de sumo de laranja fresco, peixe assado nas brasas, frango de churrasco, e pão acabado de fazer em panificadoras, gosto de rosas e malmequeres, de fumar cigarros e um charro de vez em quando, gosto de ir à escola agora que já não vou, gosto de desenhar mesmo não sabendo, e de matemática, literatura e poesia, gosto da poesia do al berto, da szymborska e do joan margarit, gosto de chupar as azedas que encontro à beira da estrada, de festas de aniversário em garagens onde eu sou o dj, gosto de beber cerveja, loira, stout ou blanche, gosto de tremoços e pevides, castanhas de caju e amendoim torrado, gosto de passear de mão-na-mão, de mãos transpiradas de desejo e de antecipação, gosto de cortar o cabelo muito curto para refrescar a cabeça, usar desodorizante, calçar sapatilhas e vestir t-shirts, gosto de passear pelo país, conhecer as praças das cidades, vilas e aldeias, e gosto do verão, do calor do sol a queimar-me o corpo e a dificultar-me a respiração, gosto de vestir calções e calçar chinelos, gosto da praia e de mergulhar nas ondas do mar, de beber um gin numa esplanada à sombra de uma árvore, de um vodka antes de jantar, de uma pizza em forno a lenha, de uma salada de rúcula e tomate cherry, queijo feta e iogurtes naturais com granola caseira, gosto de ver os jogos olímpicos e o mundial de futebol, que também pode ser o europeu, gosto de banda-desenhada, do hergé e do hugo pratt, do comés e do frank miller, do lostal e do bilal, gosto de água das pedras e coca-cola e não, não pode ser pepsi, mas pode ser zero, sem cafeína ou light e com uma rodela de limão, gosto de amêijoas, berbigão, mexilhão e conquilhas, navalheiras, camarão de moçambique e da figueira da foz, gosto muito de limonadas sem açúcar, do bafo quente do interior alentejano, da costa vicentina e do sotavento algarvio, gosto das festas das aldeias perdidas no interior e das grutas de alvados, gosto das serras d’aire e dos candeeiros e de caminhar por elas, gosto das imperiais no lebrinha, de ver os girassóis a girar, de melancia, melão e meloa, de beber um tinto esporão, um verde alvarinho, gosto de adormecer na praia, ver as suecas em topless, jantar na rua, na varanda ou no quintal, olhar as estrelas, e sonhar ser o starman, também gosto do outono, do casaquinho de algodão, dos óculos escuros que uso o ano inteiro, de música, muita música, dos beatles e dos stones, dos velvet underground e do nick cave, dos joy division, dos jesus and mary chain e dos chameleons, mas também gosto do nick drake, do leonard cohen e do david bowie, dos mão morta, dos pop dell’arte e dos gnr com vítor rua e alexandre soares, de bolas de berlim com creme, da chuva que molha tolos e do cheiro da terra molhada, gosto do fim das férias, do início das aulas, dos cadernos novos, de livros novos, do regresso à vida de todos os dias, do benfica e da união de leiria, gosto de viajar para longe e saber que regresso, gosto de conhecer o que não conheço, de visitar o rainha sofia sempre que possível, de arroz de cabidela, de raparigas despenteadas pelo vento, de lábios carnudos pintados de red velvet, de peitos pequenos médios e grandes, de pernas em meias de vidro pretas, de música ao vivo em salas escuras e sombrias e em jardins luminosos, gosto de ler jornais em papel, sujar os dedos com tinta, desligar a televisão, jogar ao monopólio e ao risco, gosto dos dias a encurtar e as noites a crescer, gosto de dormir acompanhado, de fazer sexo, mas gosto mesmo é de foder, de gritar alto na rua às duas da manhã, de ouvir as persianas a serem levantadas e gente a ralhar comigo, gosto de passear à chuva à beira do rio, e também gosto muito do inverno, da lareira acesa e a lenha a crepitar, de uma morcela de arroz e um chouriço assado, de uma bifana grelhada nas rulotes ao pé do mercado da cidade, gosto de arroz doce e rabanadas, filhoses e sonhos, gosto do frio que me recorda a vida, gosto de filmes e de teatro, do wenders e do godard, da anna karina e da monica vitti, gosto de estar sentado numa sala e ver os actores ao pé de mim, gosto de tempestades, de relâmpagos e do som cavo de um trovão, gosto de tocar campainhas e de sobreviver ao natal e à passagem de ano, gosto de sentir que o mundo está a acabar para me agarrar com unhas e dentes ao tempo que me resta, gosto do meu pai e da minha mãe, dos meus filhos, mesmo os que não sei que tenho e os que não são meus, gosto de todas as mulheres que foram mulheres da minha vida, e gosto muito das saudades que tudo isto me dá, gosto de escrever, ler e aprender, gosto de cozinhar e de comer, gosto de dançar, pular e rir, gosto de estar com pessoas e brincar com os amigos, mesmo que não sejam muitos, gosto das minhas memórias, mesmo as falsas, gosto muito de viver mas, não tenho medo de morrer

[escrito directamente no facebook em 2020/01/07]

Seis Dias

Não demorei muito a perder todas as esperanças depositadas na novidade. Seis dias, foi quando durou o Ano novo, vida Nova! o Agora é que é! Este é o meu ano! Desta vez vou cumprir todas as minhas resoluções! Sinto que este ano é que é o meu ano! Sou outro, o mesmo mas em novo!
Seis dias.
Entrou o Dia de Reis e foi tudo por água abaixo.
Estava com bastante esperança. Estava confiante. Até parecia maior, de corpo erguido, peito feito para enfrentar o futuro. Sentia-me bem, muito bem, grande, enorme. Era o sol, o calor, o mar, estes dias brilhantes de Primavera em pleno Inverno que me colocaram no caminho da boa disposição e de conquista do mundo. Os trevos no jardim lá em baixo. As azedas à borda da estrada. O chilrear dos pássaros logo pela madrugada.
Seis dias.
Hoje de manhã já me fora difícil levantar da cama. Sentia frio e qualquer coisa esquisita cá dentro, uma certa angústia de que não sei a origem. E alguma vez se sabe? Sim, às vezes sei a origem das minhas angústias, o final do mês, a falta de dinheiro, a chegada de contas para pagar, uma ida não programada ao dentista, a falta de trabalho. As ausências. As fugas ou a impossibilidade de as executar.
Levantei-me já com alguma dificuldade. Mandei o edredão para os pés da cama mas tive de me levantar logo de seguida que não aguentava o frio. Fui fazer café, mas tive de tomar banho enquanto esperava pela primeira chávena do dia para aquecer o corpo. Tinha as mãos e os pés gelados. E foi enquanto espalhava o champô pelo cabelo, e olhava para a rua através da janela aberta de par-em-par, e via aquele sol amarelado de gema de ovo de aviário que percebi que o dia, que até tinha nascido soleiro, estava sem brilho. Um dia de sol, mas baço. E perguntei-me Que raio estou a fazer aqui? E não queria estar ali. Ali no banho. Não me apetecia ter levantado da cama. Estava frio. O dia estava com sol que não aquecia nem me trazia boa disposição. Queria perceber porquê mas não entendia nada. Um aperto no peito. Uma vontade de chorar. Sem razão. Quer dizer, sem razão aparente, que razões tenho eu muitas, diariamente, mas já me habituei a viver com essas razões. Não havia nada de novo que me fizesse sentir assim, ausente, perdido, destroçado, um desgraçado de merda, que era como me estava a sentir enquanto enxaguava o cabelo.
Seis dias.
Saí do banho. Vesti uma roupa qualquer. Tirei à sorte do roupeiro uma camisola. Vesti as mesmas calças da véspera. Umas sapatilhas. As que estavam ali caídas na marquise, fora da caixa. Tirei uma caneca de café. Um cubo de açúcar. Não, dois. Acendi um cigarro. Olhei para a rua. Senti-me pequeno. Senti-me decrescer. Minguar. Senti falta do meu pai. Da minha mãe. Senti falta de poder dizer Não me sinto bem. E ter-lhes a atenção. E o meu pai dizer Vamos ao médico. E a minha mãe dizer Vou fazer-te uma tisana. E ter colo.
Deixei cair o resto do cigarro na caneca de café e larguei-a ali, no beiral da janela.
Dei duas voltas lentas à cozinha. O que é que vou fazer? O que é que tenho para fazer? O que é que me apetece fazer?
Saí da cozinha. Fui até à sala. Olhei para a televisão desligada. Sentei-me no sofá. Enterrei o cu no fundo do sofá. Acendi um cigarro. Olhei para a gaveta de cima do móvel. Tinha lá uma Glock. Uma sobrevivente do assalto a Tancos.
Já passaram umas horas. Já passou o dia. Já se foi a manhã e a tarde. Já cai a noite. Acendo um cigarro. Ainda estou sentado no sofá. A televisão continua desligada. Tenho uma Glock na gaveta de cima do móvel. São seis de Janeiro e o ano já me parece velho. Velho e cansado. Deixo cair um borrão incandescente do cigarro no chão da sala. Não consigo tirar os olhos da gaveta. Da gaveta de cima do móvel.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/06]

O Primeiro Mar do Ano

Há uns anos, quando era miúdo, quando ainda estudava e vivia em casa dos meus pais, quando os meus amigos eram os meus vizinhos, quando passava a vida a jogar à bola nos quintais traseiros das casas da rua, quando as festas, todas as festas, eram sempre com os mesmos convidados que eram sempre os mesmos amigos de sempre que eram os mesmos vizinhos de sempre, tive o desejo de conhecer gente diferente.
E conheci.
Havia, na época, um programa de troca de correspondência com estudantes de todo o mundo, e eu era estudante e correspondi-me durante alguns anos com miúdas da minha idade de países tão exóticos como Trinidad e Tobago ou tão banais como Itália. Comunicávamos em inglês e sempre achei que o inglês delas era muito bom, muito melhor que o meu, e que elas deviam ser umas miúdas excepcionais para conseguirem perceber o meu inglês escrito, e na época não havia Google Translate nem podia pedir ajuda e revisão de texto às miúdas mais inteligentes da turma porque não queria que soubessem o que é que eu tanto conversava com estas outras miúdas que nem conhecia mas para quem eu abria o coração e o meu mundo. Agora que penso nisto acho que foi uma espécie de Facebook antes da era da internet.
Para essa correspondência tinha arranjado um papel de carta com fotografias coloridas de pôres-de-sol e parezinhos de namorados em silhueta, abraçados, de mãos-dadas e, às vezes, a trocar um beijo. É claro que comecei a escrever nestes papéis, porque também comecei a receber correspondência escrita em folhas similares, com paisagens bonitas, praias, campo, muito pôr-do-sol e sempre, sempre, um casal a aproveitar, junto, as belezas do mundo.
Lembrei-me disso agora por estar a ver um casalinho abraçado e a trocar beijos encostado ao varandim sobre a falésia do Vale Furado.
Vim ver o mar. O primeiro mar do ano. Vim ao Vale Furado. Parei cá em cima, no pequeno parque em frente ao Mad. Antes de sair do carro vi um casal em contraluz encostado ao varandim em madeira, abraçado e aos beijos, e fui projectado para as minhas memórias de adolescente.
Era um jovem adolescente ainda sem namorada quando comecei a trocar correspondência com estas miúdas de todo o mundo. Escrevi a muitas embaixadas a pedir informação sobre os respectivos países, mapas, fotografias, revistas e recebi muito material que me ajudou a perceber melhor países dos quais nem sabia a existência. As miúdas ajudaram-me a conhecer os países e os países abriram-me as portas para a conversa com as miúdas.
Algures no caminho perdi essa capacidade de conversar. Seja com miúdas ou com miúdos. Perdi a capacidade de comunicar. As pessoas assustam-me e eu fujo delas. Não delas propriamente, mas do contacto com elas.
Saí do carro. Fui até ao varandim sobre a arriba e olhei todo o esplendor da costa marítima que vai dali do Vale Furado até à Praia do Norte e continua por ali fora, Salgados, São Martinho do Porto, Foz do Arelho, às vezes até se vê as Berlengas e os Farelhões, o que não é o caso. Cá de cima o mar não parecia bravo, mas estava. Percebia-se pela quantidade de ondas em cadeia e a espuma que largavam quando chegavam a terra. Vi lá em baixo duas raparigas a tirarem fotografias. Ao mar e a elas. Faziam pose. Riam uma da outra, riam uma com a outra. Estavam felizes, parecia-me. Fumei um cigarro enquanto ia olhando um horizonte inexistente, o céu e o mar confundiam-se lá ao fundo, no que devia ser a linha do horizonte. Estava um pouco de vento e de frio. Não muito. Só o suficiente para perceber que, ao contrário do que parecia, e do sol e de todas as azedas que tinha encontrado pelo caminho até cá, não estávamos afinal na Primavera, mas ainda no pico do Inverno, embora o próprio tempo estivesse baralhado e não percebesse bem como é que devia reagir.
Depois deixei cair o resto do cigarro pela falésia abaixo e fui ao Mad beber um café. A esplanada estava cheia. Um homem agarrava uma mulher, forte, pelas costas e tentava fazer a manobra de Heimlich. Estava eu a entrar na esplanada quando a mulher projectou algo pela boca que passou à minha frente e, quase que me acertava. Ninguém me ligou nada. Ninguém me pediu desculpa. Ninguém me viu. Estava toda agente preocupada com a mulher. Eu era invisível. Arranjei uma pequena mesa ao sol. Era a única pessoa sozinha naquela esplanada. Mas estava bem. Sentia-me bem. Gostava de estar ali assim, a levar com aquele sol de Inverno em cima.
O que seria feito das miúdas com quem troquei correspondência na adolescência?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/04]

As Brancas Montanhas da Morte

Está mau tempo.
Chove muito, uma chuva tocada a vento. Entra por todo o lado onde exista uma nesga aberta. Fumo em casa com as janelas fechadas. Acendi uma vela por causa do cheiro, mas só tinha uma vela de baunilha que alguém me tinha oferecido e agora estou enjoado.
O vento é muito forte. Ouço-o através das janelas de vidros duplos. As portas e as janelas abanam. Ouço também a chuva a bater contra as persianas. É um barulho violento e um pouco assustador.
O céu está cinzento, o dia escuro e ainda são duas da tarde. Não se vêm nuvens. É uma massa uniforme.
Da janela da cozinha olho para as montanhas mas não as vejo. Talvez estejam tapadas pelo nevoeiro.
Onde é que estão as montanhas?
As notícias dão conta já de dois mortos e vários desaparecidos.
Há cidades inteiras inundadas. Cidades erguidas em leito de cheia. Cidades com os canais pluviais entupidos e esgotos cheios. Cidades de cimento sem escoamento para as águas da chuva.
As barragens abriram as comportas. Há notícias de cidades quase submersas no norte do país. Só morreram duas pessoas até agora. Nenhuma delas nestas cidades quase submersas. Mas há pessoas desaparecidas.
Olho a chuva a tombar sobre as casas batida pelo vento e a ausência das montanhas.
Onde raio é que se meteram as montanhas?
Não está frio. É inverno, está temporal mas não está frio. Estou de t-shirt e descalço na cozinha. Olho para o tempo cinzento e penso que não está frio nenhum.
Apago o cigarro num cinzeiro da Cinzano. Tenho uma grande colecção de cinzeiros em porcelana que eram dos meus pais. Eles não fumavam. Eu fumo.
Outras notícias falam dos meios de transporte públicos que estão parados em todo o lado sem se saber quando poderão retomar a actividade normal. Os aviões não levantam voo. Os comboios dormem na estação. Os barcos baloiçam no cais. Os autocarros não saíram dos terminais. Há inundações um pouco por todo o lado. Há árvores caídas. Abriram-se buracos no asfalto de algumas cidades. Em Lisboa, uma carrinha escolar enfiou-se num buraco na estrada e caiu sobre os carros de um parque de estacionamento subterrâneo. Ninguém morreu. Ninguém ficou ferido. Já há quem fale em milagre. O milagre de Natal. Mas há quem se queixe das avultadas perdas financeiras. As seguradores já vieram explicar que estão a analisar todas as queixas mas esclarecem que a maior parte das pessoas não têm seguro contra intempéries.
Será que as montanhas desapareceram? E tinham seguro?
Uma notícia de última hora diz que a pala do MAAT voou para o Tejo e o museu vai ficar fechado até meados do próximo ano. Já há turistas a desmarcar férias. Há agentes turísticos a quererem indemnizações mas não sabem bem a quem fazer o pedido.
Calço as botas. Visto uma camisola e o casaco e saio de casa.
À saída de casa percebo que a chuva continua a sua queda imparável, tocada a vento. Puxo o capuz do casaco sobre a cabeça, as mãos nos bolsos do casaco, saio para a rua e vou em frente. Vou à procura das montanhas.
As montanhas têm de estar lá.
É difícil cruzar a cidade. Muito trânsito. Muitos carros. Alguns parados em enormes poças de água. Lá mais à frente percebo que o rio galgou as margens e a ponte está submersa. Tenho de seguir pela direita e tentar passar mais à frente.
Há guindastes caídos um pouco por todo o lado. Andaimes tombados. Varandas quebradas. Muitos vasos que fugiram das varandas ventosas.
Há muito barulho na cidade. A chuva o vento os carros as buzinas as motorizadas as pessoas os gritos das pessoas ouve-se música vinda não sei de onde…
Vem-me à memória Jeremiah Johnson, As Brancas Montanhas da Morte de Sydney Pollack. Uma espécie de western que é mais uma lição de vida sobre o confronto do homem com a natureza e a sua luta pela sobrevivência.
Já cruzei a ponte mas nem me apercebi.
Estou distraído. Desconcentrado. Divago. Divago muito.
Vejo postes de alta-tensão vergados ao peso da tempestade. É incrível como estes postes de alta-tensão passam tão perto das cidades, passam por cima de vilas e aldeias.
A estrada começa a subir. Aproximo-me das montanhas. Não vejo nada. Está tudo cinzento. Há um blur cinzento à minha volta. Acho que já não chove. Mas não tenho a certeza. Não vejo nada. Não vejo nada de nada. Não vejo a ponta do meu nariz.
Não ouço nenhum barulho.
Onde estão as montanhas?

[escrito directamente no facebook em 2019/12/20]

Por Onde Anda a Minha Vida?

São nove da manhã. Já passa das nove da manhã. Passeio-me pela marginal. Passam umas carrinhas de mercadorias. Vêm abastecer as lojas dos retalhistas. Mas são o único sinal de vida que se vê. Os cafés da marginal estão já a funcionar, vê-se as luzes acesas no interior, mas as esplanadas estão fechadas. Não há ninguém a entrar nem a sair. Do interior não se percebe nenhum movimento, nenhuma forma de vida. Está frio e ameaça chover. Não vai haver clientela para as esplanadas.
Páro na calçada e olho para o mar. Está bravo. Ouço, ao longe, o terrível barulho que as ondas fazem ao bater na areia. Suspiro. Chego o casaco mais ao pescoço. Avanço pelo areal. A praia está deserta de gente. Há algumas gaivotas. Passo ao lado delas mas ignoram-me. Estão encolhidas. As cabeças enfiadas dentro do corpo. Deve ser do vento. Do frio. Talvez do temporal que se antecipa no mar. Chego-me mais à frente. Mas não muito. O vento traz até mim pingos das ondas. Pingos salgados das ondas estilhaçadas em milhares de pequenas gotículas. Sinto-as nos lábios. A língua vai lá automaticamente. Sento-me na areia. Sento-me numa espécie de pequena duna sobre o mar. Vejo, e ouço, o concerto das ondas a baterem na praia. É um barulho ensurdecedor. O mar pode ser violento. Mete respeito. Gosto muito do mar. De lhe mergulhar. De alongar braçadas e nadar acima-abaixo nas suas ondas de carrossel. Mas tenho-lhe respeito. Por vezes pode ser muito assustador. Já alguma vez estiveram à beira-mar, na costa atlântica, durante uma noite de Inverno, em plena tempestade? É lindo , lindo de se ver, mas ao mesmo tempo, terrível. É um sinónimo do medo. Um belo-horrível.
Lá mais ao fundo vejo as rochas a serem fustigadas pelas ondas gigantes. Imagino que, do outro lado do cabo, já devam andar alguns surfistas à cata das boas ondas.
Sinto uns pingos a tombarem-me em cima. Não é a maresia nem as gotas das ondas do mar. Olho para o céu cinzento e percebo que está a começar a chover. Há uma gota que me cai em cheio num olho. Praguejo. Coloco o carapuço do casaco sobre a cabeça. Levanto-me da areia. Deixo o mar nas minhas costas e regresso à calçada da marginal. Passo aos lado das gaivotas que continuam como estavam, mas agora parecem bonecos de decoração. Estão muito quietas com a chuva a cair-lhes em cima e o olhar fixado no mar. Mais uma vez sinto-me ignorado e percebo que é uma constante na minha vida. Eu sou um tipo ignorado. O tipo que passa ao lado de tudo e de todos como se não existisse. Penso muitas vezes que, se morresse, morria sozinho e ficava lá, onde quer que ficasse, até ser descoberto por um acaso, por alguém que passasse por lá. Imagino o meu funeral, feito numa carrinha a alta velocidade pela cidade, sem cortejo, sem companhia. Imagino o meu caixão a ser enterrado numa cova rasa sem nenhuma palavra de conforto à minha alma, sem nenhuma palavra de agradecimento às sementes que fui lançando à Terra na minha passagem por aqui. Imagino uma cena triste e muito pobre. Uma cena muito solitária. Uma cena muito filme neo-realista italiano. E um velho, magro e cansado, de respiração ofegante, a mandar-me terra para cima do caixão para impedir que eu retorne a uma vida que nunca me quis. Estes dias cinzentos e chuvosos de Inverno têm tendência a deprimir-me.
Chego à calçada da marginal já a chuva vem com toda a força. Sinto o jipe da capitania a passar atrás de mim. Levam as luzes ligadas a girar no tejadilho do carro. Onde irá? Olho para trás e vejo as gaivotas ainda paradas, imóveis, debaixo deste enorme chuveiro. Não percebo porque é que não fogem da chuva e do jipe e não se vão abrigar. Onde irá o jipe?
Olho para o outro lado da estrada e vejo a luz interior da Batel. Cruzo a estrada em passo de corrida, não para fugir aos carros, que não passam, mas para escapar à chuva que cai abundantemente.
Entro na pastelaria e sopro duas ou três vezes com força para me livrar do cansaço da pequena corrida. Sacudo o casaco. Molho o chão à minha volta. Vou ao balcão e peço Um café e uma sardinha, se faz favor. Mas não me corte a sardinha. Gosto dela inteira. E depois sento-me junto ao vidro da grande montra e fico a olhar lá para fora. E vejo a chuva, as gaivotas, as ondas furiosas do mar. O jipe da capitania desapareceu. E pergunto-me onda anda a minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/16]

À Boleia

Sentei-me ao balcão e comecei a beber. É o que se faz quando se chega ali ao balcão. Sento-me num banco alto, que roda, coloco os cotovelos no balcão, a informar que cheguei para estar, e o tipo que está lá do lado de dentro do balcão, coloca-me um cálice à frente, olha para a minha cara e percebe o que é que estou a precisar de beber. É mágico, este barman. Há dias em que ele percebe que preciso de um copo de vinho. Ou de uma cerveja. Hoje percebeu que eu precisava de um bagaço. E assim foi.
Eu estava todo molhado. Sentei-me ao balcão encharcado e com frio. O bagaço aqueceu-me. O primeiro. O segundo. Foi ao terceiro que comecei a descontrair e a pensar como as coisas são estúpidas.
Precisei de vir à cidade. Não morava muito longe. Mas também não era perto. Na verdade, não vivia na cidade. Vivia nos arredores da cidade. Para além da periferia. Eu já não tinha carro. E não havia autocarros que ligassem o sítio onde vivo à cidade. Podia chamar um Táxi, mas não tinha dinheiro para a distância. Pus-me à boleia. Pus-me à boleia de manhã, num dia cinzento e chuvoso, tão cinzento e chuvoso que a bem da verdade nem parecia ser manhã mas um final de dia.
Estiquei o polegar. Aos carros e aos camiões. Especialmente aos camiões que são tantos os que passam por aqui. Mas os camiões passavam tão depressa que nem me viam. Ou fingiam que não me viam. Ninguém me via. E fui andando. Fui andando. De braço esticado. Polegar levantado. A chuva que não parava. E nunca parou. E eu ali, à borda da estrada, a caminho da cidade, e vim andando, vim andando, estrada fora, polegar levantado, a caminho da cidade. De braço esticado. De polegar levantado. Os carros e os camiões a passar. Sem parar. Mesmo as motos. Não lhes pedia boleia. O braço estava esticado porque veio sempre esticado. Mas também nunca pararam. Ninguém parou por mim. E eu vim andando, vim andando, até que acabei por chegar à cidade. Encharcado. Cansado. Irritado. Cheguei onde tinha de ir e já não consegui ir porque já era tarde e já tinha encerrado. O tempo passou e não dei pela passagem. Vim andando e o tempo foi indo. Quando cheguei era tarde demais. Fiquei parado em frente à porta fechada, debaixo da chuva, com frio, mas já não estava irritado. Já não sei o que estava. Talvez frustrado. Ou talvez nada. Talvez eu não estivesse de forma nenhuma.
E foi então que resolvi vir ao balcão.
Sentei-me ao balcão e comecei a beber. É o que se faz quando se chega aqui assim ao balcão.
Estava molhado. Cansado. Com frio. O bagaço aqueceu-me. O primeiro reanimou-me. O segundo manteve-me estável. O terceiro pôs-me a cabeça a funcionar. E percebi como as coisas são estúpidas. Tanta tecnologia, tanto wi-fi, tanta internet, e um tipo ainda tem de estar presencial em certos sítios só para que lhes olhem para a fronha. E hoje já ninguém dá boleia a ninguém. Já ninguém anda à boleia. Toda a gente tem carro. Quem não tem, anda de transportes públicos. Onde não há transportes públicos, as pessoas vivem isoladas ou então, têm de se pôr a caminho. Como eu. A pé. Mas é chato ser Inverno. É chato ter de vir a pé à cidade num dia cinzento e de chuva.
Decidi que vou ter de ficar na cidade para amanhã. Não vale a pena regressar. E tenho de regressar a pé. Não irei conseguir boleia. Já ninguém dá boleia. As pessoas não gostam umas das outras. As pessoas odeiam-se. As pessoas querem-se à distância das redes sociais. Amam-se todas e amam-se muito. Mas à distância e por escrito. Já ninguém soletra A-mo-te. Já não há ouvidos para esses sussurros. Agora só há olhos para palavras no Messenger. Já ninguém faz nada por ninguém. Só condolências sofridas. Somos bons nisso. Nas condolências sofridas. Ninguém dá boleia. Ninguém se toca. As pessoas ignoram-se. E depois choram-se as perdas.
Somos uma sociedade hipócrita. Não deixamos os terminais morrerem em paz, acenamos-lhes com os cuidados paliativos, mas não lhes damos o dinheiro para esses mesmos cuidados.
O barman enche-me o quarto copo de bagaço. Já me sinto mais quente. Tenho de me manter quente que vou ter de dormir por aí, no vão de algumas escadas, na entrada de algum prédio, para fugir à chuva, ao frio e ao vento. Se não fosse isso dormia num banco de jardim. Não vale a pena regressar a casa. Regresso amanhã. Tomo um banho quente. Lavo os dentes. E enfio-me na cama. Debaixo de todos os cobertores que lá tiver em casa. Os cobertores que a minha mãe me deixou como herança. A minha única herança da minha mãe. São quentes, os cobertores.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/12]