Burocracia

Saio de casa ainda não são nove horas da manhã. Não tomei banho que estava frio e fiquei sem gás na botija. Em casa, o gás ainda está na botija e sou eu que a tenho de ir buscar ao posto e carregá-la às costas. No Inverno é um bocado chato.
Saio de casa ainda não são nove horas da manhã. Saio de carro.
Auto-estrada. Auto-estrada vazia. Os camiões que fazem esta zona andam pela nacional. É por isso que vou pela auto-estrada. Os camiões voam pela nacional como se voassem na auto-estrada. A auto-estrada é mais segura e mais rápida para mim.
Balcão da EDP. Espero. Jogo um Bubbles no telemóvel. O meu número. Quero electricidade. E gás. Uma coisa de cada vez. Instalação? Uma coisa de cada vez. Não dá para fazer tudo no mesmo dia? Não. Espero. Resolvido. Hei-de ser contactado. Quando? Não se sabe.
Vou a pé. Mas penso melhor. É do outro lado da cidade. Vou de carro.
Pára-arranca.
Pára-arranca.
SMAS. Muita gente à espera. Tiro senha. Espero. Jogo Bubbles no telemóvel. Vou à rua fumar um cigarro. Jogo Tetris. Ainda tenho Tetris no telemóvel? Vou ao café ao lado e bebo uma bica. Olho o Goucha na televisão em altos-berros. Fumo mais um cigarro. Volto a entrar no SMAS. Espero.
Finalmente o meu número. Peço uma instalação. Já foi desligada? O contador está lá? Não sei. Tenho de saber.
Saio do SMAS. Vou a pé à Junta de Freguesia. Espero. Há internet. Navego enquanto espero. Sou atendido. Bem atendido. Bem tratado. Ajudam-me. Explicam-me coisas. São simpáticas as senhoras.
Vou buscar o carro. Subo à Segurança Social. Tiro uma senha. Vejo o número onde vai. Tenho um ataque de riso que se transforma em ataque de tosse. Não consigo fazer as contas. São muitos números. Vou fumar um cigarro.
Penso melhor e dou um pulo às Finanças. É mesmo ali ao lado. Tiro número. Espero. Mas não espero muito. Sou atendido. Sou despachado. Pago e vou-me embora.
Regresso à Segurança Social.
Olho para o écran. Andou dois números. Dois números. Fui às Finanças e despachei-me nas Finanças e regresso aqui e passaram dois números. Sento-me. Espero. Não há internet. Jogo Bubbles. Tetris. Solitaire. Repasso na cabeça a equipa do Benfica. Repasso na cabeça a Selecção Nacional. Vou à rua fumar um cigarro. Olho as raparigas que passam a caminho do Tribunal. São advogadas. Estagiárias, com certeza. São giras.
Regresso à sala. O número ainda é o mesmo. Olho o relógio. Vejo as horas.
Desisto.
Penso que é Sexta-feira. Penso que Segunda-feira ainda é dia.
Vou-me embora. Fumo um cigarro antes de entrar no carro.
E pergunto-me São Pedro de Moel ou Nazaré?

[escrito directamente no facebook em 2019/10/11]

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A Pequena Manifestação dos Miúdos pelo Pouco Futuro que Me Resta

Eu estava à janela quando os vi passar. Vinham em grupo. Um pequeno grupo caótico. Um grupo de muitos pequenos grupos mais pequeninos. Mas vinham todos ao mesmo. Pequenos grupos a formar um pequeno mas maior grupo a apelar ao mesmo. Andavam aí pelos doze, treze, quatorze anos, talvez quinze. Mais raparigas que rapazes. Deve ser aquele amadurecimento precoce, diz-se. Os rapazes levam a meninice mais longe. As raparigas crescem mais cedo. Ainda vão dominar o mundo. Só ainda não o fizeram por pena. Pena de nós. De sermos ultrapassados sem apelo nem agravo. E depois ainda vão ter de nos dar mimo enquanto choramos agarrados à saia da mãe. Elas são mais na escola. Tiram melhores notas. São mais aplicadas. Quer dizer, é o que eu acho numa análise empírica feita aqui assim à minha volta. Não fui à Pordata. Estou à janela a fumar um cigarro enquanto vejo os miúdos a caminho da sua manifestação, não vou agora lá dentro, ao computador, à internet, para conferir algo que acredito ser verdadeiro. Se estivesse a escrever para um jornal lá teria de ir confirmar se a afirmação é verdadeira ou não para não me acusarem de Fake News. Mas isto é a minha cabeça a debitar ideias para mim mesmo. Ninguém está a controlar a minha cabeça, pá. Posso dizer o que quiser. Ca-ra-lho-Fo-da-se! Pronto! Estás a ouvir-me, mãe? Não, claro que não! Por isso posso dizer tudo o que me apetecer. Mas não vou muito mais longe porque o que me apetece dizer é mesmo isto que vejo e confirmo: esta geração, esta geração muito novinha é muito mais aguerrida que as que a precederam. A minha, então?! A minha ajudou a foder o mundo. Eu, se calhar, também, não sei. Mas não sou ninguém. Nunca fui. Não sou líder. Nem chefe. Não sou responsável por nada nem ninguém. Sempre cumpri ordens. Era essa a minha função. Cumpridor de ordens. Talvez também seja culpado pela minha inacção. Talvez. Olha, processem-me! Mas agora, agora gosto de olhar pela janela e ver estes miúdos a agitar as coisas. A exigir. A exigir o que é deles.
Ia mandar a beata pela janela e parei a tempo. Mesmo a tempo com a beata ainda presa entre dois dedos. Desatei a rir. Lembrei-me de uma amiga que se irrita comigo por estar sempre a mandar as beatas pela janela fora, para a rua. Depois, lembrei-me das multas. Agora pagam-se multas por deitar beatas para a rua. Em boa altura parei o que ia fazer.
Fui à cozinha. Apaguei a beata no cinzeiro. Acendi outro cigarro. Gosto de fumar. Faz-te mal, rapaz, ouvia a minha mãe dizer. Não fumes. Mas gosto desta companhia. O cigarro conversa comigo. Dá-me colo. Ajuda-me a criar. A desenrolar raciocínios. E então, na companhia de um copo de vinho tinto, temos uma orgia em casa. Fui ver o que havia no armário. Uma garrafa já encetada de Segredos de São Miguel. Bom, era alentejano. Mau, não seria. E não foi. Pelo menos enquanto resistiu às minhas investidas.
Voltei à janela com o copo de vinho. Acendi outro cigarro. A rua estava calma. A manifestação já tinha passado. Parecia que tinha levado a cidade de arrasto. Não se via ninguém. Parecia Domingo à hora da missa. É assim que imagino a cidade ao Domingo à hora da missa. Nunca confirmo. A essa hora estou deitado, a dormir. A dormir e a sonhar como será a cidade aquela hora, à hora da missa. E era isto que eu via. O vazio. O abandono. O silêncio.
Mas decidi ficar por ali à janela à espera que regressassem de lá para onde tinham ido. Os regressos são, normalmente melhores. As pessoas vêm mais soltas. Mais alegres. Satisfeitas com o que fizeram, especialmente se fizeram algo em que acreditam. E se fizeram bem. E eu acho que fizeram.
Fui buscar o cinzeiro para ao pé de mim.
Ainda aqui estou. Eles ainda não passaram, mas hã-de passar. E eu vou bater-lhes palmas e dizer-lhes que o mundo é deles. Que o agarrem. Mas eles vão achar que estou bêbado. E vão dizer O raio do velho está bêbado. Não! Vou ficar calado mas a gritar por eles cá dentro. Afinal são eles que estão a lutar pelo pouco futuro que ainda me resta.

[escrito directamente do facebook em 2019/09/27]

Mundo Binário

Tudo começou quando o mundo ficou de risco ao meio. De um lado ficaram uns. Do outro ficaram os outros. O mundo tornou-se uma espécie de claques de futebol. Um Benfica x Porto. Ou um Real Madrid x Barcelona. Ou os Manchesters. O United de um lado. O City do outro. Ou uns EUA x URSS dos bons e seguros velhos tempos da guerra fria. Velhos x Novos. Homens x Mulheres. Brancos x Pretos. Heterossexuais x Homossexuais. Analógicos x Digitais. Enfim, tudo começou quando o mundo se tornou binário. Os contra e os a favor.
As pessoas barricaram-se. As cidades dividiam-se em duas. Normalmente separadas por rios. O campo voltou ao arame-farpado. A polícia vivia acantonada nas cidades e só saía dos seu quartéis em situações muito particulares. Os militares patrulhavam o campo, mas agiam como milícias. As pessoas do campo passaram a andar armadas para se defenderem uns dos outros e dos militares. Era normal haver picos de mortes violentas aos fins-de-semana e, em especial, nos finais de mês quando era dia de receber e metade do mundo embebedava-se. E acabava ao tiro. A outra metade ficava escondida em casa. Com medo.
Metade do mundo seguia a teoria da evolução. A outra metade era criacionista.
Metade do mundo estudava as profecias de Nostradamus. A outra metade estudava a Bíblia.
Havia ainda outra metade que estudava os livros do Divino Marquês, mas não havia muitas certezas sobre isso porque metades só há duas e esta vinha desestabilizar tudo e, sobre o que cada um faz na sua cama, em privado, não há garantias, se bem que alguns governos tentassem regular a actividade sexual por causa do rendimento produtivo e a poupança de energia. Mas nunca foram bem sucedidos nas suas tentativas. As pessoas, quando querem, são esguias e escapam. Mas só quando querem muito. Quando fazem por isso. Havia ainda quem não quisesse saber de nada e andasse por aí, um dia após o outro, sem se chatear muito.
Metade do mundo só comia carne de vaca e ficou obesa. A outra metade só comia vegetais e andava anémica. Metade do mundo fumava haxixe. A outra metade chutava cavalo. Havia ainda quem lambesse ácidos, mas havia quem dissesse que era só um mito. Um mito urbano.
Há poucos anos, quando se percebeu, finalmente, que o mundo estava nas últimas e já não havia nada a fazer para o salvar, já há muito que não voavam aviões, nem circulavam carros, carrinhas, camiões e motocicletas, e o homem movia-se de bicicleta, de skate e trotineta e só voavam alguns, poucos, aviões e só circulavam alguns, poucos, carros quando alguns dos dirigentes precisavam de se encontrar pessoalmente com outros e os telefones e a internet estava em baixo, coisa que acontecia com muita frequência porque a manutenção era muito difícil de executar num mundo sem mobilidade, onde o turista se extinguiu e só aparecia um ou outro viajante de vez em quando, de bicicleta, ou a pé, mas eram ignorados e já me perdi no raciocínio.
Ora, volto atrás e recomeço.
Há poucos anos, quando se percebeu, finalmente, que o mundo estava nas últimas e já não havia nada a fazer para o salvar, decidiu-se que tinha de se deixar a Terra e partir. Ora, com o tempo restante, tinha, toda a gente, de trabalhar em benefício geral para que se pudessem fabricar naves suficientes para levar toda a gente daqui para fora ou, pelo menos, a maior parte das pessoas, pois haveria de haver gente que iria querer ficar na Terra, onde tinha nascido queria morrer, e ficar na Terra não iria significar logo a morte, pelo menos era o que se dizia. Mas nunca se chegou a um acordo. Propôs-se Marte como destino. Mas houve logo quem se opusesse e lançasse a Lua como a única possibilidade real. O mundo voltou a dividir-se de novo, num outro risco ao meio.
E estávamos assim, sem saber o que fazer. Como fazer. Para onde ir. Depois de cinco eleições mundiais as coisas mantinham-se na mesma. Não haviam acordos nem consensos quando, de repente, há seis meses, se descobriu um asteróide, com dois quilómetros de diâmetro, que vinha em trajectória de choque com a Terra.
Pânico!
Durante algum tempo ainda se pensou na hipótese de construir uns mísseis espaciais capazes de interceptar o asteróide mas, nunca se chegou a acordo sobre que tipo de misseis fabricar. Ou eram russos. Ou chineses. Ou americanos. Ou indianos. Mas os países nunca conseguiram entrar em conversas uns com os outros porque não queriam mostrar planos classificados uns aos outros. Tudo era segredo de Estado. E tudo se complicou quando se perguntou quem ia pagar a factura. Ninguém queria pagar.
Estamos, agora, a dois dias do impacto. Não se construiu nenhum míssil. Nem naves espaciais para levar as pessoas para outro lado. É verdade que saíram algumas naves privadas com meia dúzia dos mais ricos dos ricos mas, para onde é que vão? Em que condições?
Metade do mundo acredita que vamos morrer. Outra metade acredita que não. Muitos ainda dizem que Deus nos vai acudir. Outros dizem que Deus está farto de nos aturar.
Eu não sei em que acreditar. Escrevi estas palavras na esperança que me sobrevivam, se acaso eu morrer, e possam contar ao futuro este nosso passado.
Foi um prazer andar por aqui.
Talvez nos encontremos mais tarde se, por acaso, houver, afinal, renascimento como nos prometia a religião católica.
Adeus.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/26]

Uma Vida Arrumada em Caixotes

Tenho a vida toda arrumada em caixotes. Em caixotes grandes e em caixotes pequenos. Cada memória tem o seu caixote. Tenho os caixotes numerados. Identificados. E depois arrumo-os todos na despensa, no roupeiro do corredor, por cima do guarda-fatos do quarto. Quando tenho necessidades, vou à procura dos caixotes. Há sempre um caixote para mim. Para aquele momento. Para aquele momento específico. Normalmente esta necessidade acontece-me quando estou bêbado, deprimido ou demasiado só. Mas às vezes é só mesmo saudades do passado.
Hoje abri um caixote. Um caixote à sorte. Um caixote que não me lembrava que tinha. E quando o abri, libertei uma série de fantasmas que contribuíram para ter chegado aqui, coxo, onde cheguei. Mas o mais importante foi mesmo a memória desses fantasmas. Não sabia que eles existiam. Que ainda os tinha. Descobri um caixote com bilhetes dos concertos da minha juventude. Bilhetes de uma época em que a bilhética era também uma forma de arte. Os bilhetes eram personalizados. Remetiam para épocas e para as tournées que as bandas estavam a produzir ou para os álbuns que andavam a promover. Descobri, com alguma surpresa, como a parte de trás dos bilhetes era um mundo cheio de informação numa altura em que ainda não havia Google, a internet ainda era um bicho de sete cabeças e eram ainda poucas as pessoas que tinham computador e sabiam o que era o Windows.
Coloquei o primeiro disco das 69 Love Songs dos Magnetic Fields, em época de vinte anos de aniversário, na alta-fidelidade. Abri a janela. Sentei-me no chão da sala. O caixote aberto. Acendi um cigarro. Meti a mão. E trouxe um monte de bilhetes.
Os meus olhos brilharam. Vários bilhetes dos Mão Morta. Naked City. Miles Davis. Vários do Nick Cave. Pogues. Lords of the New Church. R.E.M. Sundays. Durutti Column. Varios dos Metallica. Até Manowar e outras coisas assim, mais bizarras.
À medida que ia passando os bilhetes, ia-me lembrando de pequenas histórias que os acompanhavam. Coisas que me aconteceram. Pequenas estórias que vivi. Desatinos com amigos. Nascimento de amizades. Morte de outras. E o sexo! A quantidade de sexo que os concertos traziam. O que é feito desta minha vida?
Lanço a beata para a rua através da janela aberta.
Fecho os olhos.
Volto atrás no tempo. Regresso aos meus vinte anos. Que se foda o futuro. Este futuro. O meu futuro. Quem quer saber deste futuro de merda com um passado tão cheio? Volto à escola. Não, não à escola. À universidade. Ao Bairro Alto dos anos ‘80. Ao Cais do Sodré das putas e dos marinheiros. A uma Lisboa que me fascinava. Uma Lisboa provinciana, feia, malcheirosa, de prédios abandonados e a cair, mas cheia de vida e de gente com vida. Uma Lisboa de padarias abertas às cinco da manhã. Uma Lisboa de arrufadas e sardinhas assadas. De gente que falava alto e mijava nos cantos da cidade. Dos charros fumados às escondidas e dos selos passados de língua em língua. De namorados a correr de mãos dadas pelas ruas esconsas e de asfalto esburacado.
Volto atrás no tempo e não quero regressar mais. Fecho-me no caixote com os meus bilhetes e as minhas estórias. Que se foda o futuro que não é meu. Que se foda esta Lisboa impessoal, fria e gananciosa. Eu quero o meu mundo de paixões.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/10]

Os Cinco

Peguei no Lovely de Frank Ronan. Andava com vontade de o reler. Gostava muito do Frank Ronan. Li os livros todos. E, de repente, desapareceu. Já andei à procura dele pela internet, mas parece que não existe. Evaporou-se. Deve ter cometido suicídio literário. Tenho pena. Gostava dele. Gostava muito, mesmo. Desde Evelyn Cotton. Até à imitação de Marc Bolan.
Peguei no Lovely de Frank Ronan. Sentei-me no sofá. Mas não cheguei a ler a primeira linha. Do interior do livro caiu uma fotografia. E o meu olhar caiu com a fotografia. O que é que aquela fotografia estava a fazer dentro do Lovely? A quem é que eu emprestei o livro? Eu que nem gosto de emprestar livros? Quem é que o leu? Quem é que pegou nele à minha revelia?
Peguei no Lovely de Frank Ronan mas larguei-o logo em cima do sofá, ali ao meu lado. Baixei-me e peguei na fotografia. Lembrava-me daquela fotografia. Lembrava-me de quando a tirámos. A fotografia da nossa última viagem. Quando ainda andávamos juntos. Quando ainda éramos amigos. Companheiros. Ou se calhar já não. Provavelmente já nos estávamos a afastar. A sermos corroídos por dentro. Por dentro da amizade. Sim, porque éramos amigos.
Peguei na fotografia e vi. Cinco personagens abraçadas. Quatro rapazes e uma rapariga. Eu, mais três rapazes e a rapariga. Estávamos em Santiago de Compostela. Atrás de nós, na fotografia, a Catedral. Tínhamos acabado de fazer a Via Láctea, que me tinha fascinado depois de ver o filme de Luis Buñuel. Mas não fomos lá em peregrinação. Foi a nossa rota de fuga. E funcionou. Deu resultado. Mas tudo terminou aqui. Em Santiago. E tudo por causa dela. Como é que a fotografia veio parar aqui?
Peguei na fotografia e vi o grupo. Três deles já não andavam por cá. Três deles já tinham morrido. Morrido em condições no mínimo estranhas. Estranhas para mim. A polícia não achou nada de estranho. As autópsias também não revelaram nada de estranho. Mas havia algo de estranho. Logo para começar a coincidência das mortes. A semelhança dos acidentes.
Ela sobreviveu. Ela e eu. Mas ela desapareceu logo. Sei que andou uns anos pela América Latina. Mas nunca mais tivemos contacto. Nem apareceu nos funerais dos outros três. Eu… Eu mantive-me por aqui. Decidido a portar-me bem. A andar na linha.
Peguei na fotografia e olhei para ela. E ela tinha sido a nossa sorte. E tinha sido o nosso azar. Foi ela que nos juntou, mas também foi ela que nos separou.
Peguei na fotografia e lembrei-me do tempo em éramos só dois. Só nós dois. Sem os outros três. Antes do outros três. Antes de cada um dos outros três depois de mim. Ela jogava bem connosco.
Peguei na fotografia e pensei no resto do dinheiro que nunca tinha aparecido. O dinheiro correspondente aos outros três. Nunca saiu nada na comunicação social. Ou a polícia ficou com o dinheiro, ou ele nunca apareceu. Alguém pode ter ficado com ele. Sempre pensei nessa possibilidade. Talvez ela. Mas nunca quis verdadeiramente acreditar que tivesse sido ela. Ou já sabia?
E então, um sinal sonoro de chegada de mensagem no telemóvel.
Pousei a fotografia em cima do livro. Peguei no telemóvel que estava na mesa de apoio, à minha frente, e li Olá. De regresso. Quero ver-te. Na esplanada do argentino. Ao lusco-fusco ☺ Assim. Com a merda de um emoji a sorrir.
Deixei o livro e a fotografia no sofá e fui ao quarto. Ao roupeiro. Ao fundo do roupeiro. Agarrei na caixa. Levei-a para a sala. Sentei-me na mesa de jantar. Abri a caixa. Tirei o revólver e limpei-o.
Já estou aqui sentado, na esplanada do argentino, à mais de meia-hora. Vim antes de tempo. Ainda falta algum tempo para o lusco-fusco. Mas eu gosto de chegar antes da hora. Gosto de observar tudo. Ver tudo. Gosto de me sentir preparado. Mesmo que seja para a morte.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/04]

Gente Doida

Já estava há duas semanas a viver naquela casa perto da aldeia, a casa que um amigo me emprestou por uns tempos, tempos indefinidos, para eu escrever, esquecer mágoas e poupar o pouco dinheiro que me restava, quando eles bateram as palmas no portão ao fundo do quintal. A casa não tinha campainha. E eu não estava à espera de visitas então, não estava muito preocupado com a falta de sinalização para alguém que chegasse se pudesse fazer anunciar pois, com certeza, não seria para me visitar. Afinal, o casal bateu palmas, eram muito expeditos e sim, vinham visitar-me. Mais concretamente, vinham convidar-me para ir jantar a casa deles. Eu e a minha senhora Há uma senhora, não há?, perguntou ela sorridente. E eu disse que não. Era só eu. E era o suficiente para me chatear. Eles fizeram um sorriso amarelo. E ela continuou Os miúdos foram para um Festival de Verão, temos dois filhos, não é? um casalinho, nem sabemos já qual foi o Festival, há tantos, não é?, enquanto punha a mão sobre o meu braço, o marido a olhar, nós os três à entrada, no portão, que não os mandei subir até ao alpendre, e depois continuou E como somos vizinhos resolvemos vir dar-lhe as boas-vindas e convidá-lo para jantar. Amanhã. Não precisa de levar nada. Nem sobremesa. Nem o vinho. Basta aparecer.
Eu não estava com muita vontade de relacionamentos com a vizinhança. Também foi por isso que fui para ali, para aquele Ku de Judas, longe de tudo e de todos. Apetecia-me declinar o convite. Dizer não. Mas o olhar da mulher não mo deixou dizer. E acabei por murmurar Sim… assim, em suspenso, como se ao aceitar daquela forma tão sumida não me estivesse a comprometer. Mas estava. E sabia que estava.
E no dia seguinte, lá acabarei por descer o quintal até ao portão, fiz a estrada até casa deles, mais ou menos dois quilómetros, nos quais acabei por fumar quatro cigarros, numa média de um cigarro por cada quinhentos metros, e toquei à campainha. A casa deles tinha campainha. Apareceu um cão a ladrar ao ouvir a campainha. Não reconhecia a raça do cão. Mas não era daqueles muito amigáveis. O dono acabou por descer até à porta para agarrar na trela do cão e me fazer entrar.
Entrei.
Acabei por levar um saco de plástico com fisális que apanhei lá no quintal e que nascem assim, de natureza espontânea, aos molhos, mais do que lhes consigo dar andamento. Ela agradeceu. Disse que os ia juntar à salada. Colocou-me um copo de vinho branco nas mãos, deixou-me com o marido e voltou para dentro de casa.
Eu acabei por ficar no jardim com o marido. A beber um copo de vinho branco. Ele também. Também tinha um copo de vinho branco nas mãos. E conversámos. Ele conversou. Empregado bancário. Tinha ido para a delegação da aldeia nos anos noventa. Acabaram por comprar aquela casa ali. Tiveram os filhos. Dois. Um casalinho. Estavam num Festival de Verão qualquer. Ela dava aulas ao secundário. Geografia. Deixou de dar e dedicou-se ao fabrico de compotas que vendia na aldeia e pela internet. Gostavam da calma da aldeia. Às vezes sentiam falta de gente com quem conversar. Gente da mesma idade. Com os mesmo gostos. Entretanto o Banco resolveu encerrar a delegação da aldeia. Ele tinha de voltar para a cidade. Ao fim de vinte anos tinha de regressar à cidade. Ou pedia a reforma. Não sabia o que fazer. A mulher também não estava a ser de muita ajuda. Aliás as coisas entre eles já não eram as mesmas. Ele sentia-se cansado dela. Imaginava que ela também estivesse saturada dele. Foi por isso que me foram convidar para jantar. Para mudar rotinas. Fazer algo de diferente.
E eu senti-me estranho. Um estranho no meio de estranhos já com informação que não queria ter. Não queria saber nada daquilo. Não queria aquela intimidade. Não queria ser puxado para dentro de uma vida que não era a minha.
Mas já era tarde. Já estava ali. De copo na mão. De ouvidos abertos à lamúria alheia.
Bebemos aqueles copos. Bebemos mais dois. Ela juntou-se a nós. E depois fomos até ao alpendre onde estava a mesa de jantar.
Comemos um lombo assado no forno com alecrim. Um puré de maçã. Uma salada com rúcula, tomate, requeijão esfarelado e os fisális. E esvaziámos várias garrafas. Agora de vinho tinto.
Já tínhamos jantado. Estávamos os três um pouco alterados com o vinho. Lembro-me de me descobrir a falar muito depressa e muito alto. Não costumo ser assim. Tentei acalmar-me. E foi quando percebi que não era eu que estava alterado. Era ele. E ela. Quando percebi, estavam a discutir um com o outro. Não sei em que altura é que a conversa descambou para aquilo. Acho que se esqueceram de mim. Soltaram os seus problemas. Eu não conseguia seguir a conversa. Só o barulho que faziam. Acendi um cigarro. Voltei a encher o meu copo com o resto de uma garrafa que deixei cair ao chão, e não se partiu, e recostei-me na cadeira a olhar para eles e a pensar se não seria a altura de me ir embora, quando ele pegou no garfo, levantou a mão acima da cabeça e espetou-o com força na mão dela que estava pousada na mesa mesa.
Ela gritou. Eu dei um pulo na cadeira. Ele assustou-se com o próprio gesto. Largou o garfo espetado na mão dela. Começou a chorar. Levantou-se a chorar como um bebé. Ela só dizia asneiras. Maldizia a vida e a ele. Eu deixei cair o cigarro da boca para o chão. E ela disse Vai buscar a chave do carro, caralho! e ele foi. E ela levantou a mão com o garfo espetado e disse Foda-se! Eu reparei que o garfo não tinha espetado na mesa. Já não era mau. Podia ter sido pior. Podia ter preso a mão à mesa.
Ele chegou com a chave do carro. Ela virou-se para mim e disse Desculpa, mas temos de ir ao hospital. E saíram a correr do alpendre para o carro. Ele gritou Quando saíres fecha o portão para o cão não sair. Amanhã telefonamos. E vi o carro arrancar.
Eu acendi outro cigarro. Acabei o copo de vinho. Virei todas as outras garrafas e descobri que estavam todas vazias. Apanhei os fisális que ainda estavam na tigela da salada e comi-os. Voltei a acender outro cigarro e saí de casa deles. Fiz o caminho de regresso a casa devagar. A acender uns cigarros nos outros. A pensar. A pensar nem sei bem em quê. Com músicas dos anos oitenta a tocar na cabeça. Porquê? Porquê músicas dos anos oitenta?
Quando cheguei a casa, arranquei o cabo do telefone fixo da parede. Desliguei o meu telemóvel. Fui à cozinha buscar uma garrafa de vinho e sentei-me no alpendre a fumar outro cigarro. Estava a fumar muito. E de repente percebi o que estava na minha cabeça a fermentar a algum tempo. Era uma frase, uma ideia Esta gente é doida! E lembrei-me porque é que tinha largado a cidade e toda aquela gente que conhecia.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/01]

Quando a Internet Falhou

Só percebi o que estava a acontecer quando fiquei sem internet. No início nem percebi muito bem porque era normal falhar a internet. Só não podia era faltar o pagamento dessa internet que estava sempre a falhar. Mas a internet, essa estava sempre com falhas. Naquele dia a falha começou a durar demasiado. Liguei para o Apoio ao Cliente mas dava sinal de ocupado. Dava sempre sinal de ocupado. De todas as vezes que liguei, até ter linha telefónica, o serviço de Apoio ao Cliente esteve sempre ocupado. Depois, até a linha telefónica ficou muda. Só percebi que estava realmente a passar-se alguma coisa quando faltou a luz. E o gás. Logo depois faltou a água.
Saí de casa. Vim até à rua. Ainda havia luz do dia. Não havia sol. Não tinha havido sol durante o dia. E se bem me lembrava, há uma semana que não se via o sol. Estava assim um ambiente cinzento e triste. E foi isso que vi, naquele resto de dia, no alpendre de casa, quando saí depois de perceber que alguma coisa se passava, que estava um ambiente cinzento e triste.
Acendi um cigarro. Olhei em frente. A estrada em frente. Os campos. As montanhas lá ao fundo. Olhei com atenção para ver se via alguma coisa. Alguém. Mas nada se mexia. Não via vivalma. Nem um cão. Onde raio é que estava o cão? E os gatos? Onde andariam os gatos?
Não via ninguém a quem pedir informações. Podia ir até à cidade. Mas não queria deixar a casa vazia. Alguma coisa se estava a passar e não queria deixar a casa sozinha.
Não havia electricidade. Não havia televisão. Tinha um rádio a pilhas. Era isso. O rádio a pilhas. Acabei de fumar o cigarro. Deitei a beata fora. Entrei em casa. Procurei o rádio a pilhas na confusão da dispensa. Encontrei. Tinha pilhas. Procurei uma estação. Só estática.
Levei o rádio para a sala e sentei-me.
Fiquei à espera do que estava para acontecer. Do que ia acontecer.
Mantive o rádio perto. De vez em quando fazia uma varredura por todas as ondas. Silêncio.
Anoiteceu.
Estava a amanhecer quando ouvi uns camiões. Levantei-me do sofá. Fui à janela e vi passar, na estrada lá em baixo, vários camiões. Por cima dos camiões voavam uns drones. Um deles saiu do comboio e voou até à minha casa. Eu larguei as cortinas e afastei-me um bocado para o interior de casa. Mantive-me em silêncio a espreitar para além das cortinas. Engoli em seco. Não me mexi. Percebia o drone a sobrevoar a casa. A espreitar a toda à volta. Ainda bem que o cão e os gatos tinham desaparecido. Não havia cá em casa movimento nem ruídos. Mas havia assinatura térmica. A minha assinatura térmica. Rezei para que o drone não conseguisse ter leitura térmica. E a verdade é que ao fim de algum tempo, e algumas voltas, o drone afastou-se e voltou ao comboio.
Eu estava a transpirar.
Precisava de sair dali. Quem quer que fosse, iria voltar.
Peguei numa mochila. Enfiei lá dentro o rádio. Uma caneta. Um bloco de papel. Um rolo de papel higiénico. Uma máquina fotográfica pequena. Um chouriço e um queijo, embrulhados em prata. Umas maçãs. Um canivete-suíço. Os óculos de sol e os de ver. Coloquei o relógio de corda no pulso. Agarrei na caçadeira do meu pai. Umas caixas com cartuchos que pus na mochila. E saí de casa. Devagar. Em silêncio. Calmo. Mas atento. E fui até às montanhas em frente.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/13]