O Sítio Esteve Sempre Lá no Alto

Gosto de ir à praia no Inverno. Em dias de chuva. Em dias de sol.
Gosto de ir à praia no Inverno, em dias frios, mas com sol, fechar os olhos e deixar-me aquecer.
Gosto de ir à praia no Inverno e estar ali sozinho, com a praia só para mim. Com o mar só para mim. Com o som das ondas a baterem nas rochas, a baterem na areia, só para mim.
Gosto de ir à Nazaré no Inverno, em dias de sol.
Sento-me na marginal a olhar o mar lá ao fundo a pensar que já esteve aqui tão perto.
Sento-me na marginal e sinto o cheiro da maresia.
Sento-me na marginal e ouço passar, atrás de mim, os poucos carros que circulam por lá. Ouço a voz grossa das varinas que já não andam de cesto à cabeça a apregoar sardinha e carapau, mas casas, quartos, zimmers, rooms, chambres, habitaciones. Todo o santo ano.
Os sons embalam-me. O calor do sol conforta-me. O cheiro do mar recorda-me.
Abro os olhos e a imagem está sobre-exposta. Tudo branco. Tudo luz. O vazio. Mas um vazio calmo. Tranquilo.
Depois vai ganhando umas linhas. Vai ganhando dimensão. Cor. E vejo. Vejo muita gente. Muita gente em fato de banho. Gente que joga à bola. Raquetas. Gente estendida ao sol. Uma mulher apregoa Bolas de Berlim com creme. Bandos de miúdos correm atrás uns dos outros. Um rapaz lança um papagaio. Umas miúdas jogam ao elástico. Umas mulheres estão a fazer renda enquanto conversam. Um bebé dorme e transpira dentro de uma barraca de pano às riscas e tecto levantado em bico como uma seta em direcção ao céu. Junto ao mar, um pai constrói um castelo na areia com o filho, esforço inglório, sempre destruído pela fúria das ondas. Mas recomeçam.
Eu vejo-me na praia. No mar. Ao colo do meu pai. A tremer de medo. A ver as ondas correrem para mim. Eu. A ser largado nelas pelo meu pai. Nada! Nada! E eu nado. Eu aprendo a nadar assim. À força. Eu aprendo a nadar. Na água fria. Nas ondas furiosas. Naquele mar que aprendi a amar.
Levanto-me. Percorro a marginal. Estou quase só. Ignoro as gentes com que me cruzo. Decido ir à Batel comer uma sardinha cheia de creme e açúcar. Entro na Praça e reconheço os sítios. Os sítios que já lá não estão. Afasto aquelas marquises que galgam o passeio do olhar. Afasto aquelas marquises que protegem o turista das intempéries da Nazaré. E a Praça ganha dimensão. Respira. E eu vejo-me. Vejo-me com a minha mãe no quiosque a meio da Praça. Escolho umas revistas aos quadradinhos. Mais tarde já lhes chamo banda-desenhada. Alguns ainda os tenho. Kit Carson. Buffalo Bill. Mandrake. Fantasma. As minhas aventuras nocturnas. Tapado pelos cobertores, e de lanterna acesa, a mergulhar na madrugada sem os meus pais saberem que ia nas aventuras dos meus heróis.
Esta Praça já é outra Praça. Lá atrás, atrás daquelas casas, havia uma outra casa que os meus pais alugavam pelo mês de Agosto. Mas não vou lá. Tenho medo de lá ir. Do que já não vou encontrar.
Entro na Batel. Peço uma sardinha e venho a comê-la para a rua. Volto à marginal. Olho para o Sítio. Olha para o Sítio lá no alto. Quando era miúdo ouvia dizer que alguém se mandara de lá. Alguém que estava cansado. Mas não vi acontecer. Nunca vi ninguém a voar assim, desde lá de cima. E agora que penso nisso, ainda bem.
Gosto da sardinha. Lambo o açúcar dos dedos. E penso Foi ontem. Foi ontem que tudo isto aconteceu.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/06]

As Varandas Vazias

Onde estão as pessoas?
Venho à varanda. Fumo um cigarro. Olho em frente. Olho os outros prédios. As outras varandas. Vazias. Uma flor. Outra flor. Murcha. Marquises. Muitas marquises. Marquises a fechar varandas vazias tornadas, quê? Quartos. Escritórios. Salas de arrumo. Mas vazias. Sempre vazias. Vazias de gente. Um T1 tornado T2. Uma varanda tornada assoalhada. Mas vazia. Sempre vazia.
O que é feito delas? Das pessoas?
Escondem-se. Escondem-se umas das outras. Fecham-se em casa. Têm medo das intempéries. Têm medo de respirar ar puro. O ar fresco do Inverno. O ar quente do Verão. O ar com diesel. O ar com cheiro a lareira. A lenha verde queimada. Enfiam-se dentro das camas, tapam-se com os cobertores e cheiram-se. Um cheiro deles só para eles. São egoístas, as pessoas. Fecham as cortinas. As persianas. As portas. As varandas. As janelas. Fecham-se. Trancam-se. Emudecem.
Porque nunca estão ali?
Por medo, talvez. Por medo de serem vistas. Por medo de ver. Por medo da vida, pois. Por medo que alguém saiba de sua vida. Que alguém veja as famílias discutir. O amor morrer. A morte chegar. Por medo de ver que as vidas dos outros são mais luminosas. Mais belas. Mais coloridas. Mais. Sempre mais. O engano. É isso que as pessoas gostam. É isso que procuram. O engano. O engano nos outros.
Fogem uns dos outros. Fechados nas suas casas de varandas vazias. Varandas inabitadas. Varandas de marquises. Um Cacém enorme espalhado ao longo de todo o país. Um país negativo. Sem outros. Só com cada um de nós. Isolados.
Escondem-se. Fogem. Viram-se costas. Dão-se costas. A única coisas que as pessoas dão. Às outras. As costas. O desprezo. A infinitude do desprezo.
Acabo o cigarro. Sinto o desprezo dos outros nas suas ausências. Estou à varanda. Estou sozinho. Sozinho na varanda. As outras estão desertas. Cheias de desprezo.
Largo a beata na rua. Entro em casa. Torno-me uma delas. Fecho a porta da varanda. As persianas. As cortinas. Acendo a lareira. Meto-me debaixo dos cobertores. Cheiro o meu cheiro. Viro as costas ao mundo. Quero que as pessoas se fodam. Quero que o mundo rebente.
E não quero nada.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/28]