A Camisa Castanha

Bastou uma vez. Bastou vê-la uma única vez para perceber.
Estava sentado no muro da rua. Estava a fumar um cigarro, mas com o cigarro escondido dentro da mão para ninguém ver. Para os meus pais não saberem. Claro que, à minha volta, percebia-se o fumo do cigarro a subir em espiral. Mas o cigarro, ninguém via. Estava dentro da mão. E eu levava a mão à boca e fumava. Às vezes a incandescência do cigarro queimava-me a mão, mas eu tinha de aguentar.
Estava sentado no muro da rua a fumar um cigarro quando a vi passar. Era a miúda nova. Fiquei preso na teia que emanava. Prendi-lhe o olhar e não a larguei. Quando passou por mim percebeu o olhar e sorriu. Um sorriso para dentro, mas que eu percebi. Acho que foi feito para eu perceber.
Não falámos. Não falámos durante quase duas semanas. Eu era tímido. Ainda sou. Mas todos os dias eu estava lá. No muro. A fumar um cigarro escondido. E todos os dias eu a olhava. Cada dia mais ostensivo. E ela já não só sorria como respondia, insolente, com um olhar igual ao meu. Quando passava por mim, mesmo próximo de mim, quase-quase a tocar-me que lhe percebia o cheiro adocicado da água de colónia frutada que usava ou a transpiração em dias de ginástica, oh como gostava de a olhar em fato-de-treino, o corpo solto, liberto, o cabelo um pouco molhado tombado sobre os olhos, os olhos que não tirava de mim e que me diziam Então, pá! é hoje que me dizes Olá?
Demorou. Demorou a dizer olá.
Quando lhe disse Olá! pela primeira vez, ela parou ao pé de mim. Olhou-me descarada de cima abaixo. Parou o olhar na minha mão dobrada e fumegante e perguntou Estás a fumar? Eu acenei a cabeça. Ela pediu Dás-me um? E eu, trapalhão, tirei o maço do bolso das calças e deixei-o cair no chão, os cigarros espalharam-se e tive de andar de cu para o ar a apanhá-los. Depois estendi-lhe um. Ela agarrou-me na mão com o cigarro escondido e puxou-a para si. Os olhos em mim. Pôs o cigarro na boca e acendeu o cigarro dela no meu. Encostou-se ao muro onde eu estava e ficou ali ao meu lado a fumar. Ela agarrava o cigarro entre dois dedos da mão direita. Sem medos. E levava a mão com elegância à boca e puxava uma passa. Eu continuava a esconder o meu cigarro. Depois esticou-se para mim, deu-me um beijo na cara e disse-me o nome.
Eu corei.
Disse o meu nome sem olhar para ela.
A partir desse dia passamos a estar juntos todos os dias. Mas não foi tudo nem fácil nem rápido. Passaram dois dias até que conseguisse agarrar-lhe a mão pela primeira vez e passear, com ela, de mãos-dadas, pela rua.
Depois passaram mais dias, semanas, e o nosso à-vontade cresceu. Éramos namorados. Já nos beijávamos. Já nos tocávamos. Estávamos muito próximos de termos a nossa primeira relação sexual.
Quando tudo se precipitou.
Um dia, já andávamos há cerca de um mês, ela chegou de camisa castanha vestida. Bastou uma vez. Bastou vê-la uma vez de camisa castanha.
Tudo morreu ali, naquela camisa castanha. Nunca mais a quis ver.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/29]

Obrigado, 25 de Abril!

Avisaram-me.
Cabeça baixa. Olhos nos pés. Aproveita e vê se os sapatos estão bem engraxados. Ninguém gosta de gente desmazelada.
Não levantes a voz. Agradece. Diz Sim, senhor! Obrigado, senhor! Pois não, senhor! Tem razão, senhor!
Junta as mãos. Uma na outra. Não as deixes abandonadas. Vagabundas. Especialmente, não as deixes nos bolsos. Ninguém gosta de gente demasiado descontraída. E vê se não agarras nada que não seja teu.
Não olhes nos olhos. Ninguém gosta de gente insolente.
Não refiles. Não refutes. Não contradigas.
Quando fores ao Banco, quando fores à Caixa, quando fores à Câmara, quando fores ao Centro de Saúde, mesmo quando fores ao Hospital ou à Cadeia, leva a melhor roupa. Apresenta-te bem. Cose as meias. Cose as cuecas. Cose os fundilhos. Lava os sovacos. Lava as orelhas. Os olhos. Os dentes. Põe brilhantina no cabelo. Apresenta-te bem. Essas instituições representam o país. O teu país. Respeita-as.
Quando passares por uma imagem do chefe, curva-te. Em respeito. Quando passares por uma imagem de Deus, curva-te e benze-te. Em respeito. Quando te cruzares com alguém mais importante que tu, e há dez milhões de gente mais importante que tu neste país, dá passagem.
Quando vires a bandeira, glorifica-a. Quando ouvires o hino, emociona-te.
Sê humilde. Generoso. Poupado.
Não faças o que não deves. Não ambiciones o que não podes. Não desejes o impossível.
Não discutas.
Não peças.
Aceita.
Quarenta e cinco anos depois ainda caminho curvado sobre os meus pés enfiados numas sapatilhas rotas que arrastam o meu corpo inchado e flácido.
Quarenta e cinco anos depois recebo um salário de 600 euros. E não é o que levo para casa.
Quarenta e cinco anos depois não tenho dinheiro para pagar a prestação da casa. Do carro. Do telemóvel.
Quarenta e cinco anos depois não tenho dinheiro para pagar a conta da luz. Da água. Da televisão. Do cabo. Da Internet.
Quarenta e cinco anos depois não morro de fome porque me ajudam. Quarenta e cinco anos depois tenho o que vestir porque há lojas chinesas.
Mas quarenta e cinco anos depois trago debaixo do braço um livro, vários livros, muitos livros. E ninguém diz que não os posso ler. Ninguém me proíbe de os ler.
Quarenta e cinco anos depois posso olhar-te nos olhos e mandar-te para o caralho!
Obrigado, 25 de Abril.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/23]