As Dores de Nick Cave

Tenho de ter no meu horizonte um jogo do Benfica. Ou o lançamento de um livro de um autor de cabeceira. Ou o novo disco de uma banda do coração. Ou a estreia de um filme que penso poder ser extraordinário.
Tenho de ter um horizonte que me garanta motivo de vida. Vontade de galgar os dias que se seguem, secos. Um motivo para me fazer saltar da cama, largar o conforto do edredão, o cheiro a mim nos lençóis e sair para o frio da casa gelada, solitária e triste.
Há dias em que me agarro ao edredão e o puxo para cima da cabeça. Mergulho, inerte, naquela escura solidão. Não ouço o barulho da rua. Não vejo a luz do dia. Não saio da cama. Nem para comer. Nem para mijar.
Sinto-me afundar no conforto do colchão. Deixo todos os problemas lá fora. Sinto-me seguro. Livre. Quero deixar-me ir. Mas depois penso Quando é que o Benfica joga? E contra quem? Acho que quero ver! Quero ver o Benfica!
E então mando o edredão para trás, decidido. Aguento o frio da casa. Levanto-me. Vou mijar. Beber café. Comer uma torrada. Olhar pela janela para a rua, em dia de sol ou de chuva, suspirar e pensar que vou tomar um banho quente, vestir-me e sair de casa.
Coço o rabo com a mão por dentro do pijama. Ainda não estou convencido, embora já tenha decidido. Massajo os testículos. Cheiro os dedos. Tenho de tomar um banho.
Vou sair. Vou à rua. Mas vou escolher caminhar por ruas esconsas e escuras onde ninguém me veja e onde eu não conheça ninguém.
Não quero ter de vomitar sobre os sapatos de ninguém que pare para me dizer Olá, pá! Quero só dar uma volta pela cidade. Respirar o dióxido de carbono dos carros em fila na avenida de um só sentido. Escarrar para o chão as minhas tripas. E aguentar os dias que se sucedem uns-aos-outros até ao próximo jogo do Benfica e esperar que nenhum fim-de-mês se interponha entre mim e o meu futuro breve.
Desvio o olhar da janela. Acendo um cigarro. Sento-me na mesa da cozinha. Trinco a torrada seca. Bebo um gole do café frio. Sinto um novelo dentro de mim. Não descubro a ponta do novelo. Fumo o cigarro. Fumo-o à pressa enquanto acabo com a torrada seca que enfio toda na boca. Engulo o café frio que amolece a torrada seca. Acabo o cigarro. E corro até à cama. Passo pela aparelhagem. Carrego no Play. E deixo, em Repeat, o Ghosteen do Nick Cave & The Bad Seeds. Uma depressão só se combate com outra, penso. Enfio-me de novo debaixo do edredão. E digo, para me acalmar É só por um bocadinho. Só por mais um bocadinho. E penso Devia ter lavado os dentes. Mas acabo por não fazer nada do que devia. E ouço, lá ao fundo, na sala, as dores do Nick Cave.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/07]

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Sexta-Feira, 13

Sexta-feira, 13. Hoje é Sexta-feira, 13. Não acredito em maldições e azares. Como não acredito em Bruxas. Mas que as há, há.
Foi numa Sexta-feira, 13. Um dia como hoje. Há muitos anos. Tantos anos que já não sei quantos.
Estava no açude que havia ali em baixo, ao pé de São Romão. Ali a caminho das Cortes. Estava com uma miúda. Uma miúda de quem gostava muito. Era uma miúda da minha idade. Da minha turma. Éramos amigos já antes de sermos namorados. Foi a minha última namorada. Este dia, naquele dia, foi o último dia de namoro. Nunca mais namorei. Nunca mais quis nenhum relacionamento. Não queria ter um relacionamento coxo. Que me iria fazer lembrar, a todo o momento, que já não era homem. Já não era gente. Só um corpo atrofiado.
Estávamos no açude. Eu e ela. Era o fim das aulas e nós tínhamos faltado. Estávamos com o sangue quente e cheios de desejo. Fomos até ao açude. Eu era bom nadador. Elegante a mergulhar. E fazia gala disso. E então, mergulhei para ela. Para ela ver. Saltei do braço grosso da árvore para o meio do açude. Mas algo correu mal quando mergulhei. Fui mais fundo que o habitual. Tinha entrado muito a pique. E quando dei por mim, já tudo tinha acontecido e eu já estava no hospital. A minha vida ficou naquele mergulho. E eu nunca mais regressei ao contacto com os vivos. Não, não morri. Mas foi como se tivesse morrido.
Mergulhei mais a pique que o habitual e bati com a cabeça numa rocha no fundo do açude. Desmaiei. O meu corpo, inerte, subiu. Ela viu-me e puxou-me para fora. Parece que teve de me fazer respiração boca-a-boca e carregar forte nos pulmões. Parece que acordei e cuspi água. Depois foi à procura de ajuda. Eu não me lembro nada. Não me lembro de ter acordado. Nem de ter estado à espera de ajuda. Nem da ambulância. Lembro-me de ter acordado no hospital. Lembro-me de não me conseguir mexer. Lembro-me de a ver chorar. E lembro-me de uma conversa que a médica teve comigo. A primeira conversa. A dor da primeira conversa. O desespero. E a vontade de ter morrido. A vontade de ter ficado lá no açude.
E foi assim que me senti. Como se tivesse morrido. Tudo aconteceu numa Sexta-feira, 13. Não acredito em maldições. Nem em azares do destino. Mas a minha vida foi abalroada pelo destino numa Sexta-feira, 13.
Mandei-a embora. Mandei toda a gente embora da minha vida. Saí da cidade. Fui viver para o campo. Os meus pais foram comigo. Eu isolei-me. E continuo isolado, hoje.
Às vezes tenho de descer à cidade. E custa-me. Custa-me ter de vir para o meio das pessoas. Algumas pessoas que eram do meu passado. Fingimos que não nos reconhecemos. Mas também me custa não reconhecer a cidade que era minha. Custa-me não andar por aqui a sorver esta cidade com tudo o que ela tem, tinha, para me dar. Mas eu não tenho forma de sorver nada disto. Continuo a existir, mas já não vivo. Sou um tipo zangado. Eu, na verdade, fiquei no açude.
Em dias como o de hoje, ainda mais zangado fico. Tive de vir à cidade. Tive de chamar o táxi para me trazer à cidade e fazer, por mim, umas coisas que precisava que fossem feitas. Mas o taxista é simpático. Já la vão uns anos que me ajuda.
Mas hoje!? Hoje o diabo saiu à rua para me azucrinar e fazer lembrar que as Sextas-feiras, 13 não gostam de mim.
Vou no carro com o taxista. Vou sentado quieto, sem me mexer. Nada em mim mexe. Sei que já há um procedimento, através de um implante no cérebro, que me poderá fazer recuperar as mãos e os braços. Mas ainda sou um tronco estático. Só a cabeça mexe. Mas sinto tudo o que anda, ou não, à minha volta.
Estou parado numa estrada na cidade. Há uma fila que não anda. Uma das principais saídas da cidade está fechada por causa de um evento automóvel. Uma espécie de exposição de carros antigos. Passeiam-se pela cidade. Fazem provas de perícia. Gastam combustível fóssil, queimam borracha e sentem as suas pilas enormes, do tamanho dos seu carros e dos seus motores.
Eu também gostava de sentir a minha pila. E conduzir um carro. Mas não posso. Não consigo. Estou aqui na cidade, enfiado numa fila de trânsito que não se mexe. Pareço eu. A cidade sou eu. Os motores a trabalhar. O cheiro insuportável. Estou preso. Preso em mim e na cidade.
Às vezes penso na minha namorada. E como a minha vida podia ter sido se não tivesse faltado as aulas. Mas também penso que aquele mergulho, com ela a ver o meu corpo a furar o espelho de água do açude, valeu por uma vida.
Só é pena ter de vir a esta cidade nestes dias. São dias que acordam a minha tristeza.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/13]

Como Vim Parar Aqui

Estou no passeio. Na borda do passeio. Tenho o pé já um pouco fora do lancil. Quase a tombar sobre a estrada. Sobre a passadeira. Espero o semáforo verde para colocar o pé em baixo. Na passadeira que me vai levar ao outro lado. E quando passa a verde, quando o semáforo passa a verde e me liberta, o meu pé não se mexe. Já não sei se quero ir para o outro lado. Já não sei se quero ficar aqui. Já não sei nada e isso dá-me uma grande dor de cabeça.
Estou indeciso.
E digo indeciso para não ter que dizer que estou inerte. Não quero voltar a pensar em mim assim, dessa maneira.
Não estou inerte.
Levantei-me da cama, hoje de manhã. Tomei banho. Calcei os chinelos para tomar banho numa casa-de-banho pública. E isso foi uma grande decisão. Tomei banho. Vesti-me. Saí de casa. Cruzei-me com pessoas. Ouvi os carros a correr no asfalto. Ouvi as buzinas dos impacientes. Cheirei os vapores dos combustíveis. Senti o embate de um possível acidente.
E aqui estou eu.
Na rua. Com o pé suspenso e sem conseguir pensar o que é que quero fazer.
Apetece-me dizer que não me apetece nada a não ser ir a correr para casa, fechar a porta à chave, sentar-me no sofá munido de um volume de cigarros, um pacote de cinco litros de vinho tinto e uma vontade enorme de não fazer nada.
Mas não posso dizer. Na verdade não posso dizer porque, realmente, não sei o que quero fazer.
O pé está suspenso no vácuo entre as pedras do passeio e o asfalto da estrada. E não tomo a decisão final. O pé não cai. E eu nem sei se quero que o pé caia.
Lá está. Não sei o que quero fazer, o que deva fazer, o que pretendem que eu faça.
Todos estes anos que levo por aqui só para terminar assim, de pé no ar sem saber o que fazer?
O que me trouxe para aqui?
Estou sentado numa mesa do McDonald’s. Como um McRoyal Cheese e sinto o corpo a aumentar a cada dentada. Sinto o peso do hambúrguer a cair no estômago. O hambúrguer é pesado. Empurro batatas fritas pela boca aberta. Bebo uma cerveja de lata morna, vertida para um copo de plástico onde, em letras garrafais, diz que é Reciclável. Trinco o hambúrguer enquanto olho. Um grupo de jovens atletas. Rapazes. São uns dez ou quinze. Adolescentes. Cada um leva quatro hambúrgueres, batatas fritas e uma bebida grande que não descortino o que é. Devoram tudo num instante. Eu ainda estou de volta do meu e já eles terminaram. Deixam os tabuleiros nas mesas. Há uns homens mais velhos, de fato-de-treino, que não lhes ensinam a levarem os tabuleiros para os carros-depósito e libertarem as mesas para os outros. Duas raparigas partilham uma salada. Há um rapaz que devora um Sunday, enquanto uma rapariga o olha a comer. Um miúdo brinca com um boneco-brinde. Depois larga-o. Agarra num tablet. Tem um pequeno pacote de Nuggets, batatas fritas e um sumo de laranja e ainda não tocou em nada. Os pais, suponho que sejam os pais, comem cada um o seu hambúrguer em silêncio. Toda a gente come em silêncio. Não se partilham palavras. Mas alguém conversa. Não sei onde, mas alguém conversa. Não há picos de som. Há um bruá constante. Como um ruído. Que me embala. Acabo de comer o hambúrguer. E as batatas fritas. A cerveja despejo-a de uma só vez. No fim arroto. Sinto o estômago pesado. E penso Porque raio vim comer aqui? E penso que é porque estou sozinho. Sozinho no meio de gente sozinha. Famílias sozinhas. Namorados sozinhos. Há pouca comunicação. Cada um está fechado no seu mundo. Estou sozinho mas acompanhado. Uma triste alegria que vamos cimentando nos dias que correm. É o progresso!, dizem-me.
E saio do restaurante. Caminho pela cidade. Sem saber para onde vou. Para onde quero ir. Estou sem destino. Sem vontade. Sinto-me personagem de um filme de Antonioni, mas sem a Monica Viti. Estou sem rumo. Morto-vivo. Caminho. Calcorreio ruas, estradas. Passo de um passeio a outro. Subo ladeiras. Volto a descê-las. Vou ver uma montra mas perco o interesse. Entro numa pastelaria e percebo que acabei de comer um hambúrguer. Volto a sair. O que é que vim aqui fazer? Rodo sobre mim. Onde estou?
Estou na borda do passeio. Tenho o pé já um pouco fora do lancil. Quase a tombar sobre a estrada. Sobre a passadeira. Mal coloco o pé na passadeira. Passa um carro. Passa um carro a grande velocidade e bate-me na perna. Com força. Com tanta força que me leva o pé e me deixa a dançar entre o passeio e a passadeira e, enquanto caio, vejo o meu pé voar por cima das pessoas que olham assustadas para mim e para o meu pé voador.
Caio. Vejo, à frente, as luzes vermelhas de travão de um carro. Um carro parado. E vejo o carro a arrancar. Ouço ainda os pneus a chiarem no asfalto. As luzes vermelhas desaparecem. Sinto alguém aproximar-se de mim. Ouço alguém dizer Não lhe toquem! Mas não sei de quem falam. Sinto-me cansado. Acho que estou todo fodido mas não tenho a certeza. Não sei nada. Mas não estou inerte.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/01]

A Angústia da Novidade

Sempre que inicio um novo trabalho, sobrevém uma enorme angústia. É-me difícil o começo. O recomeço. O partir de novo para…
Não sei se é a mesma angústia do guarda-redes no momento do penalty de que falava Peter Handke. Mas a novidade tende a socar-me o estômago. E sofro. As dores são horríveis. Começo por ficar com a garganta seca. A cabeça fica pesada. Mas vazia. É uma sensação estranha. A barriga começa às voltas como se fosse uma máquina de lavar roupa. E fico extremamente triste. E inerte. Por vezes choro. E então quero desistir. Quero sempre desistir.
Hoje tinha uma reunião.
Hoje tinha de sair de casa para ir a uma reunião.
Acordei dois minutos antes do despertador. Acordo sempre. Acho que fico ansioso. Abri os olhos. Completamente desperto. Liguei o rádio na mesa-de-cabeceira. Levantei-me ao som do noticiário. Não liguei às notícias. Era só um ruído de companhia. Abri as cortinas. Entrou alguma luz no quarto. Não muita que ainda é Inverno e o tempo está de chuva. Entrou alguma luz cinzenta e fraquinha no quarto o que me deixou melancólico, mas permitiu-me encontrar os boxers e uma t-shirt para ir à cozinha. Percorri o corredor descalço. Fiz café. Enfiei-me debaixo do duche e fiquei ali. Sem me mexer. A absorver o conforto da água quente a cair-me em cima. Por momentos esqueci-me. Esqueci-me de mim. Esqueci-me onde estava. Esqueci-me da reunião. Esqueci-me que estava no duche. Depois tomei consciência. O tempo tinha passado. Percebi o nervoso a instalar-se. Já não havia tempo para o champô. Não havia tempo para o sabonete. Não havia tempo para tomar banho. Contentei-me com o corpo enxaguado de água quente. Saí. Sequei-me. Fui ao quarto e vesti-me. Não me apetecia sair de casa. Porque raio tinha de ir lá onde tinha de ir para fazer um trabalho que iria fazer em casa? Sentei-me na cama a calçar as sapatilhas. Imaginei-me cair para trás e deixar-me adormecer de novo e não ter reunião nem trabalho nem obrigação nem nada.
Voltei à cozinha. Comecei a beber uma caneca de café. Olhei para o pão. Não me apetecia. Olhei para a fruta. Também não. E enquanto olhava à volta da cozinha, enquanto procurava algo para pôr o estômago a trabalhar, percebi que ele já já andava por ali às voltas. Merda.
Fiquei mal-disposto.
Fico sempre mal-disposto quando inicio um trabalho. Fico sempre mal-disposto quando tenho que encontrar alguém que não conheço. Não gosto de pessoas que não conheço. Não gosto de conhecer pessoas. É por isso que não faço novos amigos. Nem consigo manter os velhos. É tudo muito cansativo. E tudo isto me deixa angustiado.
Pousei a caneca com o resto do café na bancada ao lado do lava-louça. Pousei mal a caneca. E a caneca caiu. Caiu no chão. Partiu-se. Partiu-se com estardalhaço. Espalhou o resto de café pelo chão da cozinha. Pelas minhas sapatilhas. Pelas minhas calças. Ficaram salpicadas, as calças. Eu estava mal-disposto. Muito mal-disposto. E ainda fiquei pior.
Fui à casa-de-banho.
Não valeu de nada. Molhei a cara. Olhei-me no espelho. E disse-me Tem calma, pá! Mas não conseguia.
Agarrei no telemóvel. Na mochila. Nos óculos. Nas chaves de casa. Abri a porta para sair e senti que estava a transpirar. Sentia uma gota a escorrer pelas têmporas. A descer pelas costas abaixo. Tinha as mãos húmidas. Imaginei-me a cumprimentar umas mãos macias e sedosas com as mãos assim, neste estado. O estômago revolveu-se. Contorci-me. Contorci-me de dores. Não tive tempo de regressar à casa-de-banho. Abri muito a boca. Num esgar. Vomitei ali. Na entrada de casa. Pela parede. Pelo chão.
Voltei a entrar em casa. Sentei-me no sofá. A olhar para a parede em frente. A parede em frente por cima da televisão. Estava lá uma racha que passava por trás da televisão.
Peguei no telemóvel. Marquei o número. Tremi. Senti-me enterrar no sofá. Doía-me o estômago. A boca cheirava a vomitado. O mundo estava a morrer. Do outro lado atenderam. E eu disse Bom-dia!
E expliquei. Desculpei-me. Desliguei.
No momento em que percebi que podia fazer ali o trabalho, ali em casa, sem ter de passar por uma reunião com quem não conheço, as dores de barriga desapareceram. Miraculosamente. Passou a má-disposição. Já não transpirava. Tinha as mãos secas. A cabeça lúcida. E uma vontade incrível de comer uma torrada banhada de manteiga Milhafre.
Levantei-me. Fui apanhar os cacos da caneca. Pus uma torrada a fazer. Peguei numa esfregona e limpei o chão da cozinha. Fui à casa-de-banho e lavei os dentes. Lavei a cara. Fui ao quarto e desliguei o rádio. Puxei o edredão para trás. Para arejar a cama. E anotei mentalmente para fazer a cama antes de almoço. Voltei à cozinha e comi a torrada com manteiga. Depois fui para a sala. Sentei-me à mesa, frente ao computador.
Abri o computador. Olhei para ele. Senti-me nervoso. Outra vez. Pensei Como é que vou começar esta merda?
Acendi um cigarro. Olhei para as horas. Tinha muito tempo. Bastante, mesmo. Levantei-me. Fui até à rua fumar o resto do cigarro. O gato veio a correr roçar-se nas minhas pernas.

O tempo passou. O tempo passou e eu não dei por ele.
Estou a dez minutos do tempo-limite para entregar o trabalho.
Estou sentado em frente ao computador. Sinto uma angústia enorme. Tenho um peso sobre as costas. A barriga anda às voltas. As mãos estão húmidas. Tremo. Mas o corpo não mexe. É cá por dentro. Uma tremedeira interior.
Mexo os dedos. Coloco os dedos sobre o teclado e começo a escrever.
Alguma coisa há-de acontecer.
E amanhã é outro dia.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/08]

Zangado

 

Estive ausente uma semana, duas semanas, sem escrever um conto no Facebook.
Estava zangado, zangado com tudo. Especialmente comigo. Estava zangando com quem estava zangado comigo. Estava zangado com quem me zurzia aos ouvidos. Estava zangado com quem tem certezas e razões e sabe tudo. Estava zangando com quem me obriga a fazer o que não quero fazer.
Passei noites sentado à secretária com um envelope aberto com 40 valium 10 e 9 valium 5. A olhar para eles. E dizia Não, não é para mim, eu gosto de viver, eu gosto de ir o cinema, ao teatro, ao futebol, de namorar, de passear no Marachão, fazer piqueniques na Ervedeira. Eu gosto de comprar pevides em São Pedro de Moel. De olhar do alto a falésia do Vale Furado. De beber café no Mad. De fazer amor na rua e sentir o frio a bater-me na costas. Gosto de ver os bunker horríveis da Praia da Vieira. Gosto de ver as construções feias da praia do Pedrogão e das suas festas de sardinha, e das suas festas Tecno à beira-mar (ainda existem?), dos chocos fritos de Setúbal, da melhor imperial do mundo no Lebrinha, em Serpa, da sopa de Cação no Lado de Lá que não sei se anda existe. Gosto dos filhos, das mulheres, ex-mulheres, amantes, namoradas, amigos, que ainda os há e tudo e tudo e tudo e acima de tudo, das memórias que, mesmo no mais horrível, sabem bem.
Volto vezes sem conta a sentar-me à secretaria com o envelope aberto. A olhar os valium. Mas as memórias não deixam fazer asneira. Já é tarde. É sempre tarde. Mas desisto.
Até um dia.

Chove lá fora. Estou sozinho. É de noite. Sei que tenho quem goste de mim. Mas não chega. A liberdade não existe sem dinheiro. Dinheiro para pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás, o telefone, para poder comer um pão com manteiga, sustentar os filhos… Porra!, viver.
Peguei numa mão cheia de valiuns e meti-os na boca. Empurrei-os com água. Tenho pena de não ter vodka. Aceleraria o processo. Repeti o gesto três vezes até acabar com os valiuns.
Não senti nada, Não senti nada de diferente.
Levantei-me e imediatamente caí inerte no chão. Senti bater com o nariz nalgum sitio anguloso. Senti parti-lo.
E, então, apaguei.

[2018/04/02]